quarta-feira, 31 de março de 2021

KÄPPEE (2000)

 


Foi um dia hiperprodutivo, não fiz a ponta de um corno. É a melhor forma de trabalhar. A cabeça põe-se a pensar levando o corpo à exaustão, obrigando-o a libertar-se posteriormente com jogging, ginásio, murros, pontapés. No meu caso, uns copinhos de tinto antes de levar o cão a passear. Lembrei-me das Värtinä por causa de uma banda que vi partilhada no Facebook, uns franceses que andam na moda e fazem lembrar coisas como os coros femininos da Bulgária, o folclore finlandês, congéneres. Sou de entusiasmos comedidos. Parecendo-me aquilo estimulante, cheira-me a onda motivada pelo sucesso da banda sonora do Retrato da Rapariga em Chamas. Questões que não interessam nem ao menino Jesus. O que realmente importa é que conheci finalmente o vizinho eremita. Vive numa barraca no meio de umas árvores velhas e altas, num terreno aqui ao lado onde a populaça costuma passear os cães. Terreno bonito, temo pelo dia em que pretendam deitar as árvores abaixo para construir mais mamarrachos. O eremita engraçou com a cadela, sentiu-lhe os medos, e meteu conversa. Fiquei a saber da sua decisão de fugir da civilização, isolar-se, viver no meio da floresta, essas coisas. Escutei-o atentamente, ao mesmo tempo que ouvia as vozes das crianças na escola 100 metros a oeste, os carros na avenida 100 metros a este, com vista para o McDonald’s a sudeste, os pesados a caminho da auto-estrada 100 metros a sul, os putos a brincar no bairro 100 metros a norte. As árvores são altas, é um facto, mas a civilização está a 100 metros por todos os lados e passam por ali pessoas diariamente a passear os cães. Ou queria dar-me a banhada, tomando-me por parvo, o que é um facto, não se enganou, ou está a viver um equívoco. Que o viva sem se desequivocar é o que espero, as pessoas são mais felizes quando vivem imersas nos seus próprios equívocos. Saúdo-o.

A BAPTIST BEAT (1960)

 


Livro novo. Recebi alguns exemplares. Fiz as dedicatórias. Fui aos correios enviá-los. Abri uma garrafa de vinho e passei o dia a brincar com a Nala. Já sobe ao sótão sem ajuda. E desce. Qualquer dia aprende a voar. Adora afocinhar a terra, esgaravatar os vasos na varanda, talvez em busca de um coelho que julgará escondido na cartola dum vaso. Contei-lhe que uma vez sonhei que as pessoas eram semeadas e brotavam da terra, tinham raízes que as prendiam aos lugares onde despontavam para a vida. Não tinham pés, de resto eram iguais ao que são: patéticas, snobes, sonhadoras, cretinas, ambiciosas, deprimidas, escrupulosas, pulhas, canalhas, meigas, cínicas, irónicas, escamadas, peludas, cobardes, intriguistas, amigáveis, frágeis, débeis, corajosas, palermas, burgessas, inteligentes. Não tanto quanto os cães, claro. O sonho terminava com um fio de água a correr para dentro da boca de uma dessas pessoas de cabeça para o ar e boca aberta e a água a escorrer de um céu estranhamente claro, límpido, azul, vertida pelos olhos de uma libélula tristonha que batia furiosamente as asas sem sair do mesmo lugar. A pessoa enchia, inchava e quando estava prestes a rebentar eu acordei. Depois escrevi um livro sobre o assunto, recebi alguns exemplares, fiz as dedicatórias, enviei-os por correio. Ao cuidado de Hank Mobley, ao cuidado de Freddie Hubbard, para Wynton Kelly, para Paul Chambers, com sincera admiração, para Art Blakey. A cadela gostou da história, até uivou, levantou as patas dianteiras, agitou furiosamente o rabo e levantou voo. Fui dar com ela à janela, a observar melancolicamente o estertor de um passarinho no beiral depois de ter partido uma asa ao atingir a vidraça.

terça-feira, 30 de março de 2021

LAB'BEL - 10 ANS (2010-2020)

 



A página (https://www.lab-bel.com/en/) informa que Lab’Bel é um laboratório artístico do Grupo Bel. O décimo aniversário foi comemorado com a publicação de um catálogo onde encontramos inventariadas as variadíssimas exposições e diversos eventos levados a cabo, pela Europa fora, mas com sede em França, no contexto da actividade do laboratório. Um dos projectos tem o nome de “Metaphoria” e esteve por cá quando Guimarães foi capital europeia da cultura. As palavras de dois amigos poetas, o Rui Costa e a Joana Serrado, eram parte integrante desse projecto, que entretanto também esteve em Atenas e Paris. Eu estive em Guimarães, e quis o acaso que me encontrasse por lá com o pai do Rui (António Costa, o bom). No regresso, escrevi umas coisas sobre o que vi. A Sílvia Guerra, Directora Artística do Lab’Bel desde 2010, pediu-me entretanto que voltasse ao tema. O resultado integra o dito catálogo. A versão rosa é em inglês, a amarela em francês. Chegou-me ontem, finalmente, com a permissão de uma pandemia que tudo atrasa. Deixo aqui o texto original, para o caso de terem interesse:

 

APARAS DE UMA VISITA A METAPHORIA

Guimarães, 22 de Outubro de 2012

 

 

1. Numa das entradas dos seus diários, Cesare Pavese escreve que A poesia começa quando um idiota diz, a respeito do mar: «Parece azeite.» Eis uma possível noção de poema, senão de toda a criação artística, enquanto discurso que se distancia do território da descrição para se arriscar no campo minado das semelhanças, das explosões de nexos, da teia de elos entre real e irreal. O poeta não estará tão interessado em comunicar como parece estar em desconstruir e subverter o processo comunicacional, fazendo incluir entre emissor e receptor um terceiro elemento, imaterial, invisível, mas sólido, ameaçador, dilacerante. A este terceiro elemento damos o nome de metáfora.

 

2. As metáforas têm vida própria. Os homens são meros veículos para a coisificação das metáforas. A relação que estabelecemos com a metáfora é inalienável da tentação para a submeter às leis do mundo, essa é a nossa fraqueza. Sempre que alguém diz “parece azeite” nós tentamos encontrar correspondência entre dois sujeitos no enunciado (um explícito, outro implícito), sendo difícil de aceitar a inexistência de uma correlação entre ambos. São estas as regras do jogo, como se o que parece não pudesse ser apenas e tão-somente uma aparência, uma sombra.

 

3. Além de poeta, Rui Costa foi romancista. No romance “A Resistência dos Materiais” (2008) ele subverteu a alegoria idealista de Platão para nos propor um universo onde entre verdade e sombras deixava de haver qualquer clivagem. “Nós é que somos a sombra do que as nossas sombras são”, diz. A esta subversão do sentido corresponde tanto uma desconfiança dos mecanismos racionais que levam à verdade como a necessidade de uma linguagem libertadora. O leitor de poesia sabe que a beleza, a força, a vivacidade das metáforas residem, precisamente, na capacidade que têm de oferecer uma outra dimensão, deslocando-nos de um campo semântico paradigmático, onde o leitor de poesia não faz questão de estar, para um campo semântico metafórico. Daí que as metáforas sejam libertadoras, desviam-nos da rota asfixiante do real, ampliam as coordenadas da lógica, libertando-nos das amarras do normal, levando-nos a saltar o muro que separa a ordem do caos.

 

4. O caos é ao mesmo tempo sedutor e ameaçador. Estamos sempre a tentar pôr ordem no caos. O mundo à nossa volta é caótico, o universo surge-nos caótico, o desconhecido é caótico, pelo que a grande tarefa humana tem sido descobrir leis que façam acreditar haver organização no caos. Esta dinâmica que leva do caos à ordem, até que a ordem se revele insuficiente para a explicação do caos, é um movimento incessante que só pela metáfora pode ser dito. Metáfora é movimento, é trânsito, é deslocação.

 

5. Desloquei-me a Guimarães, em Outubro de 2012, para ver a exposição com curadoria de Sílvia Guerra. Entreguei-me ao regaço de “Metaphoria” e deixei-me embalar pelos diferentes trabalhos onde pude reencontrar-me, também, com as metáforas de dois amigos poetas: o Rui Costa e a Joana Serrado. Partilho agora convosco o que então escrevi numa página dos meus diários (inéditos):

 

Hoje pinto largos contornos nas coisas que vejo, desenho-os como quem sente preguiça na elaboração de um pensamento delineado, de fronteiras quase invisíveis ou, pelo menos, indistintas. Rouault aflora ao pensamento, vá-se lá saber porquê, nos braços dos homens que trabalham nas obras, nas roupas tingidas de tinta e cimento, nas mulheres carregadas com sacos de plástico, nos rostos carregados das viúvas e nas crianças que transformam lixo em brinquedos, nos veículos freneticamente estacionados e nas lajes inscritas ao balcão dos cafés. Sempre que a temperatura muda, dá-me para isto. Regresso depois de mergulhar a cabeça num barril de metáforas. Debaixo de água ouviam-se vozes, música, poemas, viagem subaquática com pés na terra. Deve haver algo orgânico na linguagem das metáforas, nas sombras, deve haver algo de sublime neste corpo sem órgãos do pensamento. Invejo, por vezes, a subtileza dos acólitos da palavra para poder dizer, sem contornos nas palavras, o que penso e quanto vejo. Não sendo possível, limito-me a agarrar no que vejo com as mãos desajeitadas do discurso poético. Ainda bem que há pessoas de contornos finos, quase invisíveis, ainda bem que existem com mãos limpas e firmes, unhas exemplarmente arranjadas, dedos esguios, ainda bem que há pessoas sem calos nas mãos. Eu conspurco tudo aquilo em que toco. Se soubesse passar com as limas nas unhas dos dedos que vêem, se soubesse afastar o texto do pretexto e ficar a sós com os pés na terra, a cabeça debaixo de água a ouvir sombras, por certo não quedaria estático nesta incerteza. Vale a pena trazer à liça as palavras de Youcenar: “Nenhuma vista que não se apodera de todo o espírito é visão; nenhum pensamento, por válido que seja, é outra coisa que um fruto ou um subproduto passageiro, desprovido do sentido de eternidade no instante, de extensão ao interior de um ponto nem sequer fixo, que a intervalos muito longos a visão do espírito por vezes confere e se torna em alguns casos possível ressuscitar pela recordação.” Com que visão terão sido pintadas as coisas que vejo no regresso a casa? Com a visão do espírito, a visão dos olhos ou a visão total? Fixo a vista nas coisas para nelas encontrar o quê?

 

6. Passados estes anos, folheio o catálogo do que me foi dado ver reencontrando-me com o que então não vi. Se o mar parece azeite, talvez a lua possa ser uma lâmpada. Acesa na noite, a lâmpada-lua de Katie Paterson remete-me, na problematização que encena da luz, para a Visio intelectuallis referida por Yourcenar. Já não são apenas os olhos a participar da visão, a qual se nos apresenta tão limitada sempre que confrontamos o mesmo objecto a olho nu e a olho revestido por um qualquer instrumento que permita ver para lá do visível. Este instrumento não tem de ser físico, técnico. A metáfora é um instrumento que permite ver onde a vista não alcança, daí o arrebatamento que provoca. Podíamos citar o êxtase dos místicos e o delírio dos loucos, Margarida Maria Alacoque e Antonin Artaud.

 

7. Num belíssimo ensaio dedicado à poesia de Paul Celan, George Steiner refere a dificuldade sentida por mentes treinadas para a visão empírica quando colocadas perante a força de um discurso simbólico e metafórico. Não estranhamos tais dificuldades, ainda que julguemos estar a elas associado tanto de medo quanto de preguiça. Medo do desconhecido e preguiça para ir mais além. A metáfora desloca-nos, coloca-nos em trânsito, é, tal como os veículos pesados oportunamente fotografados por François Prodromidès, um meio de transporte entre dois pontos, sendo que apenas o ponto de partida surge óbvio e determinado. Desconhecemos o ponto de chegada.

 

8. Pascal Quignard dizia dos fragmentos que eram rasgões, interrupções na continuidade de um discurso, aparas, farrapos, um cancro que corrompe a unidade de um corpo, desagregando-o, exercendo sobre esse corpo uma violência que o transforma em “100 biliões de sóis”. Olhamos a noite estrelada e vemos em cada estrela um fragmento do mundo, contemplamos o deserto e aceitamos cada grão de areia como um fragmento do mundo. Partir, romper, despedaçar, deixar em pedaços, em pó, em migalhas, reduzir a nada, eis o significado etimológico de fragmen, fragmentum. “Em grego o fragmento é klasma, o apoklasma, o apospasma, o pedaço separado por fractura, o extracto, alguma coisa arrancada, violentamente puxada.” A metáfora tem esta função de fragmentar, interrompe o sentido, instaura a descontinuidade, para ampliar a linguagem estilhaçando-a. Num certo sentido, podemos dizer que toda a metáfora é fragmento.

 

9. Estas aparas sobre uma visita a Guimarães são metáforas de um pensamento em trânsito. A Terra move-se em torno de um sol que há-de um dia explodir, não tanto para morrer, como para interromper as fases da lua. O universo é uma imensa metáfora. Com o passar dos anos, uma mesma imagem inspira-nos sensações, reflexões, emoções diversos. Hoje em dia, os contentores e as nuvens de Prodromidès adquiririam uma simbólica porventura mais trágica e obscura do que a que tinham em 2012. Há toda uma metáfora da clandestinidade que está por fazer, para a qual contribuem com a própria vida refugiados e imigrantes deslocando-se sobre a terra como na metáfora se desloca o pensamento.

 

10. A História ainda não terminou.

 

Henrique Manuel Bento Fialho

29/05/2020

segunda-feira, 29 de março de 2021

POPPIN’ (1957)

 


A minha médica de família é uma simpatia. Telefonou-me a dar conta da recepção dos exames, uma catrefa de papelada que me propus realizar para descanso das almas. Deu-me os parabéns. Senti-me como o bom aluno cumpridor, premiado em quadro de honra por conservar pulmões respeitáveis, garganta desimpedida, fusos horários regularizados em matéria de batimentos cardíacos e veias expurgadas de gorduras excessivas. Emagreci qualquer coisa nos últimos tempos, reduzi substancialmente no pão e no café e no álcool e no tabaco (mudei de marca) e nos doces, passando a dar mais relevância ao chá e às alfaces. Foi uma promessa e é para cumprir, serei mais cuidadoso com a minha saúde. Devia estar, portanto, orgulhoso pelo comportamento adoptado no primeiro trimestre deste malfadado ano, mas a verdade é que não me agrada a hipótese de vir a morrer saudável. Queria partir deste mundo com corpo e cabeça o mais desfeitos possível, antes de tudo terminar transformado em pó e cinzas. Hank Mobley soprava o tenor com elegância, era menos hostil do que o Coltrane que substituiu junto de Miles Davis nos idos de 1960. Depois morreu com pneumonia. Topam a ironia da coisa? Um tipo mete-se com cuidados, vem um raio e atinge-nos desprevenidamente no meio da rua. Vamos desta para melhor todos porreiros e cheios de energia, fritados por uma descarga eléctrica arrotada pelos céus quando menos esperávamos.  Vou mas é beber um brandy e fumar um Romeo y Julieta, até porque a minha irmã faz anos e estamos impedidos de nos abraçar pelo dever de infelicidade temporária.

UM POEMA DE ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL

 


ROCK & ROLL

Ao Ginsberg, talvez

Vi dor de minha carne
   que se soltava nas ruas em manifestações de poesia com
      uma vontade enorme de mudança
   que batia nos andaimes da crueldade e sorrindo
      continuava a bater até sangrar
   que lia Sade e Lautréamont e só depois calmamente
      enrolava um charro
   que conhecia a violência do Estado e dos cidadãos
      exemplares por a ter já sentido de forma monstruosa
      como vingança de ser jovem e ser bela
   que tripava com prazer indescritível cabelos ondulando
      nas estrelas e pegadas na areia
   que escalava o Gerês procurando o estado de Graça
      encontrando apenas a solidão absoluta
   que enlouquecia em espasmos repentinos e incontroláveis
      à uma da tarde para às sete os escrever à beira rio
   que chutava ópio nos prédios em construção utilizando
      água da chuva sem se importar com nada
   que deambulava em bando pela cidade carregada de
      drunfos tentando comunicar o desespero sem o
      conseguir
   que viajava em velhos Ford à boleia para fugir da angústia
      e ia parar a festivais de jazz
   que se embebedava por garrafas poeirentas e após
      imprecações grunhidas com raiva acabava a noite a
      vomitar nas retretes
   que chorava indefesa no regaço do amor e recebia em
      troca festinhas de consolação

Vi pedaços de mim estilhaçados pueris
   que se suicidavam na docilidade quando queriam era viver
   que se guerreavam entre si em batalhas incompreensíveis
      para não agredirem o mundo
   que sofriam em silêncio sem uma ponta de revolta sequer
      porque queriam terminar com o sofrimento
   que já fartos se encheram de rock & roll e cuspiram
      niilismo
   que impossibilitados da aventura e da vida decidiram a
      vingança como última esperança de gozo

Vi-me por fim mergulhado nesta indiferença cultivando o
      isolamento num saciar de prazeres há muito esquecidos 


Adolfo Luxúria Canibal, in No rasto dos duendes eléctricos (Poesia 1978-2018), Porto Editora, Setembro de 2019, pp. 57-58.

domingo, 28 de março de 2021

PALESTEENA (1920)

 


Calhou que tivessem sido os primeiros a gravar um disco de jazz, em 1917. O mítico Buddy Bolden recusou, temendo que os brancos lhe ficassem com as canções. Nick LaRocca, que era branco, aproveitou a situação, autoproclamando-se inventor do jazz após a gravação de Livery Stable Blues com a Original Dixieland ‘Jass’ Band. Tinham a sua piada. Escutados à distância de 1 século e picos — como o tempo passa! — mantêm a jovialidade e seriam ainda hoje capazes de alegrar umas noites de Santo António. Palesteena foi gravada em 1920 e é das coisas ao mesmo tempo mais deliciosas e inesperadas que registaram, com forte influência da música tradicional judaica. Talvez o tenham feito para entusiasmo das comunidades estabelecidas nos EUA, havia que agradar ao público de uma forma geral e a quem tinha poder em particular. Não creio que hoje seja diferente. As relações entre artistas, elites e público são complexas, um pouco como as que vemos ocorrer num desses festivais patrocinados de norte a sul pelas autarquias. Os artistas vão ganhar o seu, o público diverte-se e o poder subsidia, na perspectiva de cair nas boas graças do público distraindo-o e dos artistas pagando-lhes. Não é fácil resistir à tentação de participar numa arena viciosa destas, qualquer que seja o papel que se representa. Haverá sempre um preço a pagar. Não é um poema. Uma curiosidade: Henry Ragas, o pianista da banda, morreu da chamada gripe espanhola em 1918. Foi substituído por J. Russel Robinson.

OS CONTOS ESQUIVOS

 

Portugal é uma nação grandiosa, em tempo, espaço e, especialmente, nas suas elites intelectuais. Temos o dobro ou mais da população da Irlanda, mas menos três prémios Nobel da Literatura. Assim como assim o Nobel não interessa para nada, excepto quando nos sai na rifa. O que valem William Butler Yeats, George Bernard Shaw, Samuel Beckett e Seamus Heaney todos juntos diante do nosso José Saramago? Em cagança e guerras parvas ninguém nos bate. Talvez por essa razão dêmos tão pouca relevância ao conto, apreciamos discursos fartos, tensão dialéctica e a densidade do pensamento. Em filosofia somos exímios a discutir as ideias dos outros, alemães, franceses, ingleses, italianos, norte-americanos. Temos especialistas dos melhores que se encontram pelo mundo, embora o mundo não tenha dado por eles. Normatividade fonomorfossintáctica, semiótica, semântica e retórica é connosco, mormente quando num mesmo verso conseguimos descobrir numa só entidade dotes alígeros em voo acríbico entre epícrise e estese. 
   Nem tudo é genial, evitemos hipérboles. Apenas quase tudo. Sobram umas figuras algo distantes, recatadas, obscuras, metidas nos seus dias asilados, absortas e pouco dadas ao convívio mundano, que retiradas do brilho esplendoroso das cátedras nos vão desinquietando com a simplicidade das coisas banais. Autora de diários, julgo ser essa a designação mais conveniente, entre os quais O Fulgor Instável das Magnólias (Língua Morta, 2021) é o mais recente, Ivone Mendes da Silva (n. 1959) é também autora de um brevíssimo livro de contos: Os Contos Esquivos (Língua Morta, 2020). São 16 pequenas pérolas que raramente ultrapassam as três páginas, das quais a mais curta é esta:
 
GÓTICO AMERICANO
 
   Eudora era a mais velha mas nem por isso lhe agradava ter sobre os irmãos aquela forma de autoridade que mais não é do que uma competência delegada pelos pais ansiosos por estarem libertos das rotinas do zelo e da custódia ao longo das tardes passeios e férias. Delegavam nela a supervisão dos mais novos e negavam-lhe o direito a distrair-se como se isso fosse uma investidura de que deveria orgulhar-se. Na verdade incomodava-a até à raiva. Uma raiva que trazia à trela curta mas que estava lá e bem pulsante e eu havia de jurar que na tarde em que Jay trambolhou pela escada abaixo se de Eudora não foi a mão pelo menos foi o sorriso.
 
   Precisamente os americanos chamam-lhe short story, e não foi por ser a mais curta que me apeteceu citá-la na íntegra. É que nela encontramos eximiamente representados alguns dos elementos mais característicos dos contos da autora. Desde logo, em termos formais, há que sublinhar a ausência de vírgulas. É um pormenor de pontuação aparentemente insignificante, mas que sobressai como imagem de marca em textos narrativos marcados por um sentido rítmico muito próprio. Dos diários, a autora transporta a escrita corrente, imersa nos dias, captando o mundo à sua volta a partir de um tipo de sujeito que faz incluir na classe dos «grandes solitários» (p. 43). Nos contos a rotina é ultrapassada não pelo excesso, completamente ausente destes textos, tão pouco pelo absolutamente inusitado, mas antes por uma malícia refinada que assinala os desvios éticos das personagens, como é disso exemplo o sorriso de Eudora na história acima transcrita. 
   Outro aspecto relevante é o tipo de representação do feminino que vamos encontrando ao longo dos contos, nada atreito a considerações moralizantes de época: «Toda a gente sabe que as mulheres se cansam muito depressa» (p. 18), «A imaginação é para as mulheres uma forma de conhecimento» (p. 20), «As raparigas novas têm para com os homens velhos uma cortesia que é uma forma de sedução na qual temperam o propósito com o desafecto para que seja maior a eficácia» (p. 38), «Quando se predispõem as mulheres são rápidas no gesto» (p. 39). Aprendam, homens. Outros exemplos podiam ser dados. É procurá-los.
   A par destas reflexões de índole aforística, vislumbramos também em praticamente todos os contos notas fugazes acerca da arte de narrar e a literatura em geral. Não surgem do nada para nada, não buscam autojustificação e muito menos aparecem enquanto imposições didácticas, sendo talvez mais correcto dizer-se que entabulam com o leitor uma espécie de conversação amena a propósito da arte de que ambos, escritor e leitor, desfrutam. Logo no primeiro conto: «a literatura é impiedosa. É uma arte de sombras e evita com pertinácia a mansidão e a claridade» (p. 8). No seguinte: «narrador que se preze traz as personagens pela trela antes que se soltem e se percam no avesso do texto» (p. 15). É precisamente o que faz Ivone Mendes da Silva, sem necessitar de floreados retóricos nem de meditações profundíssimas em torno de um mundo que é quase sempre mais claro e evidente do que as representações que dele fazem os artistas.
   O desafio destes contos está, precisamente, em aceitar a clareza e a evidência do mundo sem subterfúgios, colhendo a beleza esquiva onde ela se nos apresenta. Neste caso, através de uma escrita cuja elegância assenta também no modo de fazer a língua brilhar recuperando-lhe, com peso e medida, um vocabulário esquecido que se distribui pelas páginas como flores selvagens isoladas em terreno agreste.

sexta-feira, 26 de março de 2021

UM TEXTO DE ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL

 


MORRER DE AMOR

Na dor
Oprime-se o peito
E desvanece-se em suspiros
A silente morte que
Com passos de lã
Na meia-luz do fim da tarde
Me vem ditar a história
De António e Maria:

António enxergou a mulher a levar a xícara à boca e os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas. Ali estava ela, a sua Maria, bebendo a cevada da manhã, desgrenhada, sem jeito, tão diferente da majestosa rapariga com quem casara e que toda a vida amara. Um amor sublime, de extrema meiguice, que nunca deu azo a qualquer discussão: mesmo nos momentos de maior penúria e apreensão, quando esfomeados e cansados, o ambiente chistoso perdurava, como se nada pudesse assolar a ígnea felicidade de estarem juntos. Mas desde que a demência se interpôs entre ambos, o quotidiano tornou-se permanente aflição: ela já não o conhecia, sempre belicosa e perdida nas suas elucubrações, o corpo sem arranjo, a vida em suspensão. Na obsessão de lhe atrasar a privação da memória, todos os dias a levava a passear à beira rio, pelos sítios onde tinham sido felizes, mas sempre regressava desconexo e frustrado pela inanidade dos esforços. E agora, apoquentando-lhe ainda mais o juízo, receoso que se esvaísse num qualquer buraco ou que fosse atacada pelos bichos bravios, perdia-se:
ontem, depois de três dias desaparecida, fora encontrada, exaurida, a deambular numa inverneira. Assim, António tomara uma decisão extrema e nessa manhã iam fazer um último passeio à beira rio. Haveria de se atar a ela e, num derradeiro gesto de amor, com ela se atirar aos remoinhos, ficando juntos para sempre.

Ficou assim em suspenso
Como eco sem fim
A vertigem demasiado humana
Duma vida cinzelada na escarpa dos afectos
Um vazio que se olvida
Um nada que o tempo já apagou

Adolfo Luxúria Canibal, in no fim era o frio e outros textos de amor e solidão, do lado esquerdo, Março de 2019, pp. 23-24.

quarta-feira, 24 de março de 2021

UM POEMA DE ANTÓNIO JOSÉ FERNANDES

 


INTERVALO


Deixa que o silêncio sufoque o eco do último grito
E que uma súbita leveza erga nossas pálpebras para os astros
No minuto inesperado que a explosão da tristeza tornará nocturno

Deixa a calma mais profunda conquistar pulsos e mãos
Como se os ponteiros parassem no fim do tempo
E não houvesse futuro devorando projectos e faces

Deixa que as luzes se apaguem
Que os desejos se extingam
Que os segredos cessem no fundo da memória

Deixa o sossego ser completo
E o silêncio tão nítido
Que o sangue se transforme num rio de medo
Latejando em nossas veias

Deixa que sejamos minúsculos e sós

Então compreenderemos o verdadeiro valor do amor na terra
Nunca mais nossas lágrimas serão simples gotas fúteis
Comunicaremos de lábios a lábios outra beleza mais lúcida
E o gesto de nos olharmos novamente regressará às origens


António José Fernandes, in Ainda Não é Tarde, edição do autor, 17.º volume do Cancioneiro Geral, 1955, p. 46.

terça-feira, 23 de março de 2021

PEOPLE (1964)

 


Foi composta para um musical da Broadway com Barbra Streisand no papel de Funny Girl. Bob Merrill escreveu a letra, Jule Styne deu-lhe música. Estou a ouvir a versão do guitarrista Grant Green, com Larry Young no órgão, gravada para a Blue Note. É das baladas mais maravilhosas que ouvi na vida, o que justifica as inúmeras covers de que foi objecto. Até o mestre Ellington lhe pegou, com o saxofone de Johnny Hodges a cantar sobre um piano relativamente escondido. «People who need people / Are the luckiest people in the world», canta a menina Streisand. Talvez Grant Green fosse um tipo solitário. Poucos anos depois de gravar o tema, viciado em heroína, começou a arrastar-se por projectos erráticos até ao declínio final. Morreu de ataque cardíaco em 1979, com 43 anos. Não sei se as pessoas que precisam de pessoas são as mais afortunadas do mundo. Para dizer a verdade, nem me interessa muito sabê-lo. Sei que prezo um certo isolamento, prefiro observar à distância e ofereço-me momentos de exílio de que não prescindo. Cá em casa dizem que me alheio com facilidade, queixam-se de que não presto atenção às conversas, vivo absorto nos meus pequenos monólogos interiores. Talvez seja isso o que me cansa nas pessoas, falam demasiado. Eu canso-me só de me ouvir em silêncio. Falta-me aptidão para escutar com atenção o outro, manter diálogos, encher chouriços, bater coros. Sou um tagarela intimista, o que redunda numa espécie de incontinência verbal, silenciosa, cuja manifestação mais visível é a escrita. Gosto de falar com os animais e com as plantas, às vezes com os mortos. Não espero que me ouçam e talvez aprecie tê-los como interlocutores por julgar que não os importuno. Não quero maçar ninguém. Vou fazer 47 anos e não sou viciado em heroína.

segunda-feira, 22 de março de 2021

DAT’S IT (1955)

 


Podia dizer que Wardell Gray foi um excepcional sax tenor, que começou por brilhar ao lado do pianista Earl Hines, deu nas vistas com Benny Carter, Benny Goodman, Count Basie, trabalhou com a magnífica Mary Lou Williams antes de investir na vida doméstica e se dedicar às drogas e aparecer morto no deserto, próximo de Las Vegas, com o pescoço partido. Acidente? Crime? Ficaram as dúvidas sem resposta. Falou-se de dívidas de jogo ao gangster russo-americano Meyer Lansky. Para a história ficaram as palavras dedicadas por Kerouac em On the Road: «Ao som exuberante de Dexter Gordon e Wardell Gray a soprarem "The Hunt", eu e o Neal jogámos a lançar a Louanne um ao outro no sofá, que não era propriamente uma bonequinha frágil.» Por outro lado, há dias difíceis que obrigam a suprimir começos banais. Um poema, por exemplo: um dia também as jóias ficarão sem dedos. Nem pulso, pescoço, orelhas em que ostentar o brilho de materiais preciosos sacados à terra por gente despida. Regressaremos nus à condição primeva das plantas, dos bichos, corpo adornado pelo corpo, cientes porventura do valor que aos ossos devemos sob a terra. Pedras preciosas, semipreciosas, passo-as directamente de mão. Que lhes dêem bom uso. Ficarei apenas com o alfinete que prendia as fraldas, relógios de pulso antigos, avariados, porque neles o tempo já não corre, e um par de abacates amadurecendo na fruteira.  

domingo, 21 de março de 2021

ADAM ZAGAJEWSKI (1945-2021)

 


AUTO-RETRATO

Entre o computador, o lápis e a máquina de escrever
passa metade do meu dia. Um dia isso perfará metade dum século.
Vivo em cidades estrangeiras e às vezes converso
com pessoas estranhas sobre coisas que me são estranhas.
Ouço muita música: Bach, Mahler, Chopin, Shostakovich.
Na música encontro força, fraqueza e dor, três elementos naturais.
O quarto não tem nome.
Leio poetas, vivos e mortos, aprendo neles
a tenacidade, a fé e o orgulho. Tento compreender
os grandes filósofos — na maioria dos casos consigo
apanhar apenas farrapos dos seus preciosos pensamentos.
Gosto de dar longos passeios pelas ruas de Paris
e olhar para os meus semelhantes, impelidos pela inveja,
cobiça ou raiva; gosto de observar a moeda de prata,
que passa de mão em mão e devagar perde
a sua forma redonda (apaga-se o perfil do imperador).
A meu lado crescem árvores que não exprimem nada,
a não ser uma verde e indiferente perfeição.
Pelos campos vagueiam pássaros negros
que continuam esperando, pacientes como viúvas espanholas.
Já não sou novo, mas há pessoas mais velhas do que eu.
Gosto do sono profundo, em que cesso de existir,
e de rápidas corridas de bicicleta pela estrada campestre,
quando os choupos e as casas
se dissolvem como cúmulos em céus ensolarados.
Às vezes nos museus os quadros falam para mim
e de repente desvanece-se a ironia.
Adoro olhar o rosto da minha mulher.
Aos domingos, telefono ao meu Pai.
De duas em duas semanas encontro-me com os verdadeiros amigos,
desse modo mantemos a fidelidade recíproca.
O meu país libertou-se dum mal. Gostaria
que a isso se seguisse outra libertação.
Será que posso ser útil? Não sei.
Não sou, na realidade, um filho do mar,
como escreveu sobre si mesmo Antonio Machado,
mas sim um filho do ar, da hortelã-pimenta e do violoncelo,
e nem todos os caminhos do alto mundo
se cruzam com os caminhos da vida que, por enquanto,
me pertence.


Adam Zagajewski, in Sombras de Sombras, selecção e tradução de Marco Bruno, revisão de Jorge Sousa Braga, Tinta-da-China, 2017, pp. 135-137. Outro poema do mesmo autor: aqui. Notícia do falecimento: aqui.

sábado, 20 de março de 2021

EMBATE (Disponível a partir do dia 29 de Março.)

 

Embate é um livro dedicado aos livros dos outros. Para sermos exactos, porque 2 dos 11 autores abordados não têm livros publicados, Embate é um livro de textos sobre textos. O que os liga é a prática da poesia, núcleo a partir do qual se desenrolam reflexões sobre temas diversos. Neste caso, a poesia é mais um motivo para reflectir o mundo do que tema fechado sobre si mesmo. O que liga os autores em questão é essa abertura ao mundo e à vida, opção que os vem afastando tanto do cânone das academias como do cânone dos danados.

 *

Henrique Manuel Bento Fialho
"Embate"
145 páginas
10€

 *

 Aceitam-se reservas através do e-mail:

medulalivros@gmail.com

sexta-feira, 19 de março de 2021

LUJON (1961)

 


Dia do pai, fui ver o meu. Comemos amêijoas, berbigão, camarões. A minha irmã esmera-se nos ajuntamentos familiares. Não direi quantos éramos à mesa para não me acusarem de crimes contra a humanidade, mas confesso que não foi possível comer nem beber com máscara sobre as trombas. Ainda tentei, sem sucesso. É sina. Distanciamento do costume, para descanso das hostes. Havia também duas criaturas caninas que finalmente se conheceram, o Delfim e a Nala. Uma agitação. Enquanto olhava os moluscos nas frigideiras fui assaltado pela imagem de meu pai a atravessar a Lagoa de Óbidos comigo às cavalitas. Fazíamos praia no Bom Sucesso. No regresso, parávamos nos campos para apanhar caracóis. Eram paneladas de caracóis que só visto. Tudo regado com vinho de produção caseira, que depois engarrafávamos no quintal da casa pobre. Rica casa. Extasiava-me com as rolhas a flutuarem em água a ferver, puta de imagem que nunca mais me abandonou. Aos domingos, dia de folga, o velho aceitava-nos na cama, aos dois mais novos, e contava-nos histórias. Foi o meu primeiro contador de histórias, devo-lhe a homenagem. Fábulas. Incansável no trabalho, ainda hoje, com 77, foi porém um pai relativamente ausente. Quem cuidava de nós era a mãe. O pai matava-se a trabalhar com um futuro melhor no horizonte. O que era um futuro melhor? O presente? Casa boa, carro, filhos formados, isto é, cursados, cultos, a salvo da estupidez que engolia a maioria. Deixou de ser assim? As minhas irmãs sofreram com preconceitos de que só mais tarde se libertou. Eu também, mas menos. Certa austeridade, típica de um homem com a 4.ªclasse nascido e criado numa aldeia pobre, a labutar desde os 11 anos, atirado para uma guerra estúpida numa África distante. Era radiotelegrafista, safou-se ao mato. Mas deve ter visto coisas menos boas, de que não fala. Assim como pouco fala dos tempos de criança, que também não terão sido agradáveis. Os meus avós eram alcoólicos, tema ainda hoje relativamente tabu. Apesar de tudo tem sido bom pai, foda-se. Seria injusto queixar-me. Eu é que não sei se tenho sido bom filho. Chego a casa, deito-me a ouvir Down to Earth, do organista Freddie Roach, e invejo Kenny Burrell na guitarra. Nada mais invejo neste mundo do que um guitarrista de excelência, só queria ser, ter sido, poder ser, um guitarrista de excelência. Já agora, o tema em causa foi composto por Henry Mancini. Mestre do easy listening, fartou-se de compor para cinema e televisão. O original de Lujon ouve-se, a dado momento, no filme The Big Lebowski. Também gosto desta versão:



quinta-feira, 18 de março de 2021

O CORPO DA VERDADE

 


151. Falou-me de pétalas que coleccionava em cadernos de papel grosso, folhas numeradas a caneta de tinta permanente. Eram, dizia-me, os exemplares translúcidos das mais simples imagens do corpo.

152. Sinto o corpo, este mesmo que me obedece. Sentir a sua obediência é sentir-me como uma verdade. Depois, há as outras verdades sentidas, mas todas com o mesmo sentimento de espessura.

153. A verdade é um atributo dos corpos. São duas, porém, as suas modalidades: ou a verdade se resolve num dar corpo ao que já o espera, uma ideia, uma expectativa — e, então, a verdade é satisfação, adequação —, ou a verdade vem com o movimento de um corpo inesperado, sem ideia nem referente. Só a segunda convém ao desejo dos corpos.

154. Pode-se falar de verdades contidas e de verdades livres, dois tipos portanto, como da diferença entre dar corpo a uma ideia e fazer a ideia de um corpo.

155. Se os nomes são os corpos da Linguagem, então aqueles servem-nos como instalações da verdade. É nos nomes que damos às coisas que instalamos a sua verdade, mesmo que ainda não saibamos nada dela.

156. Há nomes que não nos inventamos — os nossos corpos a título exemplar —, e, por isso, há verdades que precedem todas as palavras. São verdades tão singulares como os nomes próprios. 

157. Podemos reproduzir verdades contidas porque temos o poder de tornar a experimentá-las — basta para isso recordar  ideia e esperar que ganhe corpo. O mesmo não sucede com as verdades livres, nelas apenas podemos recordar o facto de terem acontecido, a singularidade do impacto que tiveram.

158. O tédio da vida surge quando desta já só vemos o que esperamos ver. E surge porque, então, a vida já só é morte e a morte já só é a vida que resta sentir.

159. Posso ver numa paisagem uma paisagem e tudo é claro, mas pode uma paisagem fazer-me ver sem que eu saiba dizer exactamente o quê, de certeza não apenas uma paisagem. É nesta possibilidade que se joga um autêntico regresso às coisas, contra o tédio da vida. E o que digo das paisagens não é menos válido se dito das pessoas, dos amigos, até de mim mesmo, a saber, que só encaramos realmente a vida permitindo-nos provar radicalmente a experiência.

160. Só se compreende que a criatividade importe à arte, se se começar por compreender que a arte se distingue por nos obrigar a uma experiência radical.

161. Um empirismo radical é sempre da ordem do artístico. E o que este faz é inverter a ordem do ver — já não sou eu que vejo as coisas, são as coisas que me fazem vê-las.

162. Só podemos falar de obras de arte porque essas obras proporcionam um certo tipo de experiência, digamo-la artística; mas só podemos falar de tal experiência se alguém se permite expor-se-lhe na sua radicalidade — não há, pois, arte sem disponibilidade para a experienciar. 

163. Disponibilizar-me para a experiência radical é submeter-me ao acaso, sem domínios prévios ou vontade de poder em exercício; é sofrê-lo sem me permitir contê-lo. E nisto não é só a experiência que se radicaliza: também a compreensão se torna vivida na sua forma mais radical.

164. Esta é uma forma de compreender a estética — o acaso ser vivido como uma lei necessária que não legislei, nem legislarei.

165. De certo modo, gostaria de poder afirmar que a arte está para a filosofia como a verdade viva para a verdade da vida, pois a vida não se suporta se não se regressar, nem que seja de quando em quando, à experiência bruta das coisas. E esta é uma afirmação filosófica.

166. Por vezes distraio-me das coisas simplesmente para que as coisas não me distraiam ou, dito de outro modo, para permanecer atentamente desatento. E então já só ouço o tempo sendo. Apercebo-me assim que, derradeiramente, é o ouvido o sentido que mais convém ao tempo.

167. Não poderia falar do que não fosse capaz de imaginar, e menos ainda pdoeria eu imaginar algo a não ser a partir de algo que, de alguma forma, já tivesse vivido — donde, no fundo, não suceder nunca que alguém mergulhe por inteiro na ignorância.

168. Entre o objecto de uma experiência e a experiência desse objecto vai uma diferença tão grande quanto a que opõe o repetível ao irrepetível. Por exemplo, veja eu algo. Agora perguntem-me o que vejo. Responderei publicamente que o que vejo é isto ou aquilo, que é desta forma ou daquela. Mas perguntem-me também como vejo isso que vejo e reparem então como a resposta é outra: discurso sem verdade nem falsidade, simples metáfora em exercício de confrontação com outros «como vi», todos irrepetíveis, todos privados.

169. Há experiências mudas, não há significações mudas; há significações privadas, não há objectos privados.

170. Falamos de experiências mentais como se houvesse também simples experiências, outras, não mentais portanto; mas esse é um engano considerável, pois a haver diferença — e haverá com certeza — entre o mental e essa outra mentalidade não será mais do que um efeito mental.

171. Não é verdade que haja em mim algo inacessível aos outros, como se isso que há em mim fosse uma linguagem privada e  o que há nos outros fosse outras linguagens privadas. Não, não há nada em mim inacessível por si só; o que sucede, seja isso bom ou mau, é que o meu cmainho de acesso às coisas não é caminho que mais alguém possa percorrer.

172. Se te digo quem me dera ver as coisas como tu as vês, não são as coisas que me faltam; mas, simplesmente, estar contigo na estrada que te leva a uma paisagem.

173. Fôssemos absolutamente transparentes um ao outro, não seria por isso que saberia se existes, sequer se eu próprio existo. Nisto não há qualquer solipsimo; aliás, como eu vejo as coisas, esta é bem a sua refutação.

174. Há coisas que podemos conhecer profundamente, e, todavia, nunca chegar a saber se existem. É o caso da interioridade.

André Barata & Rita Taborda Duarte, Círculos / Dos sentidos das coisas, com ilustrações de Luís Henriques, Editorial Caminho, 2007, pp. 59-62.

quarta-feira, 17 de março de 2021

UM SONETO, UMA CANÇÃO E BADANAS

 


20

Pulcro sepulcro caiadinho e tudo,
neste monturo a que chamamos mãe,
insisto em existir em tempo entrudo
xibante máscara de enganar ninguém.

Eis por que a dor nada acrescenta ao mudo
poço do eco tardo. Vem bellem
untuosa, no roxo cardealudo
(luminiscente e tudo) da opulen-

Cia desesperada e sem saída
ratear ainda a rasa mal medida
do exausto coração sem testemunho.

Queremos, sem mais razão do que nenhuma,
rezar com fé à fé de termos uma
última fé em algo sem tamanho.

*

ària em el apoetése de plurais

Dilatação das coronárias
fumigação de coronéis
coroação de funcionárias
que a vinte e seis papam donzéis
corneações já partidárias
de cavalinhos de carrosséis
osgas-cabrões, ratas falsárias
martas zézinhos ritas manéis
trazem de luto as dores canárias
e no escorbuto ouro de aneis
o absoluto mudou as árias
das cifras várias e faz pasteis
com as razões mais extraordinárias
e comissões de veterinárias
apalpam pasmos espasmam corcéis
do amor recibo das semennárias
traças de arquivo que lambem méis
grossos, lascivos, das luminárias
abelhas sábias rés de bordéis
que voam sós nos céus das várias
autoridades de cascavéis
plenipo putenciárias
filhos de apuros bem o sabeis
a morte é lenta e as três marias
são quasi virgens, rica vintage
de trinta e três, licor de leis
licor de lérias primor das tárdias
hemo petizes  perdizes débeis
da caça fina grossa de asnárias
discursativas odes cruéis
descansativas gódes por árias
e ventos vários showsando seis
glândulas nulas lulas mamárias
com leite ralo de hall de hotéis
galeões canela e naus corsárias
porões à vela stripastíseis
de membros mísseis desorbitais
falos passíveis de mil e seis
centos incríveis conventuais
maneiras cruas mas cozinháveis
de servir frios mas desejáveis
a servir mortos mas comestíveis
a servir podres mas digeríveis
a servir chochos mas toleráveis
a servir escravos mas algemáveis
no alguidar das leis  agrárias
pataca a mim pataca às várias
patas e ratas patarratárias
zitas e paras parasitárias
parras com guitas nas nadegárias
autoridades alfandegárias
da raia aflita dos impossíveis
polvos gigantes indivizíveis
que irmãos nos cindem o bem possível
no cono interno da alimária.

*

JOÃO PEDRO GRABATO DIAS

   João Pedro Grabato Dias é um poeta sem rosto social. O livro que hoje se oferece ao público é o livro de um poeta excepcional que habita um cidadão que ninguém conhece.
   Em 1968, o júri do Prémio de Poesia do Concurso Literário da Câmara Municipal de Lourenço Marques, (constituído por Rui Knopfli, Orlando Mendes, Eduardo Parreira, Maria de Lourdes Cortez e Eugénio Lisboa) foi surpreendido ao deparar, de entre a massa compacta de poemas concorrentes, com um texto de qualidade excepcional, sem título, assinado com um pseudónimo que depois se verificou pertencer ao poeta João Pedro Grabato Dias. Foi, se bem nos recordamos, o único trabalho que obteve desde o primeiro instante, a unanimidade incontroversa. O júri dos outros prémios — alguns bastante controversos — pareceu surpreendido com o acordo total e imediato no Prémio de Poesia. Um dos membros do júri de Poesia resolveu por isso mostrar a razão desse acordo e leu o poema em voz alta. E parece que a ninguém mais restaram dúvidas.
   Como dois dos membros desse júri dirigiam também a página de Artes e Letras do semanário «A Voz de Moçambique», decidiram publicar lá, no número 303, de 25 de Janeiro de 1969, o poema premiado. A ideia escondida era estabelecer, por essa forma, contacto com o misterioso poeta laureado. Pensava-se que ele escrevesse a V. M., que para lá mandasse, eventualmente, outros poemas... Nada aconteceu. João Pedro Grabato Dias não foi sequer (até hoje!) levantar o montante do Prémio à Câmara Municipal de Lourenço Marques.
   Por fim, há poucas semanas, apareceu ao signatário, com um punhado de sonetos que hoje se publicam. Deixemos de lado o choque por nós sofrido ao vermos finalmente o rosto do cidadão João Pedro Grabato Dias. Por uma vez, o personagem correspondia ao texto e «o homem que a obra faz supor» era igual «ao homem que fez a obra»... Os sonetos traziam de novo aquela voz singular ulcerada e mitológica, ensimesmada, onírica, irònicamente realista, brutal, descabelada, ardentemente bizarra, reveladora de um mundo fantasmagórico e quase demasiado verdadeiro, traduzido por uma extraordinária «fauna léxica» que a um tempo nos subjuga e desorienta...
   Estes sonetos são apenas parte da abundante produção do Poeta João Pedro Grabato Dias. Esperemos que a publicação deles possa encorajar o seu enigmático autor a outros empreendimentos — com o que só terá a lucrar, dizemo-lo sem receio, a Poesia Portuguesa.

Eugénio Lisboa

João Pedro Grabato Dias, in Sonetos de Amor e Circunstância e uma Canção Desesperada, capa de António Quadros, texto de badana de Eugénio Lisboa, Prémio Reinaldo Ferreira 1968, 1.º Prémio do Concurso Literário da Câmara Municipal de Lourenço Marques, edição do autor, Lourenço Marques, 1970, p. 26, pp. 58-59.

UM HAIKU E VARIAÇÕES DE JOÃO CARLOS RAPOSO NUNES

 


Um raminho a andar sozinho?
Ah! Lá está a formiga
trabalhadora


*


Variações II

A formiga de asa
dorme e sonha
no coração da terra



Adormece o coração
da formiga de asa
sonhando a terra



O coração adormece
sonhando na terra
com formigas de asa


João Carlos Raposo Nunes, in Brancura. Livro de Haikus, Editora Licorne, 2016, p. 25 e pp. 37-39. Com desenho de Délio Vargas, anexos sobre a história do haiku

SUMMER SEQUENCE (1946)

 


Têm estado uns dias de sol primorosos, daqueles que atraem espíritos taciturnos para a rua e sugerem passeios por onde a natureza desponta primaveril. O meu despertador são as rolas. Corro os estores e lá estão elas, a pular de galho em galho nos pinheiros carregados de pinhas. Nunca os vi assim, com tantas pinhas. Às tantas não são rolas o que vejo, mas pinhas que cantam como rolas. Os vizinhos do rés-do-chão convocam bandos de pombos espargindo bagos de arroz pelo chão. A Nala gosta de correr na direcção dos pombos, fica de rabo tenso a vê-los levantar voo, ergue ligeiramente a cabeça e ladra. Levo-a a dar um passeio mais longo do que é costume. Atravessamos o baldio arborizado contíguo ao bairro e descemos na direcção do colégio. As crianças brincam calorosas no recreio, para excitação da cadelita desabituada do convívio com estranhos. O entusiasmo é contagiante. Contornamos o edifício escolar, ladeando as hortas urbanas, metemos pelo relvado junto ao complexo desportivo. Já se vêem miúdos nos treinos de râguebi e de futebol, poucos, separados. Ocorre-me filmar a cadelita compenetrada nos treinos com bola. Um indivíduo que passa por nós aborda-me em tom agressivo: «’Tá-me a filmar ó quê?». Respondo-lhe que não. «Mas não, o quê?», insiste. Segue-se uma mais longa do que desejável discussão sobre direitos à privacidade, captação de imagens em espaços públicos, Código Penal para aqui, crimes de devassa para acolá. Às tantas, o interlocutor saca do argumentum magister dixit: distintivo da PSP. Expliquei-lhe que não me intimidava, até porque o argumento era uma falácia lógica devidamente denunciada por Aristóteles no volume VI do Organon. Não estando certo do tema haver sido abordado nos Elencos Sofísticos, requeri ao senhor agente à paisana que colocasse máscara se pretendesse dar seguimento ao diálogo. Pareceu-me desmotivado. Algo assarapantado, desculpou-se. Que não me tinha reconhecido. «Eu conheço-o, você é boa pessoa», concluiu antes de prosseguir marcha. Já tinha saudades da interacção social, confesso, mas chateou-me um bocado interromper a composição de Ralph Burns para a orquestra de Woody Herman que vinha a ouvir. Ademais a IV parte, a minha preferida.

terça-feira, 16 de março de 2021

UM SONHO

 
Pela sua índole reveladora, confesso que hesitei imenso antes de partilhar este sonho com os meus amigos. Mas a minha mulher, que é psicóloga, encorajou-me com palavras sábias: «Querido, não há problema, eles não leram Freud». Assim sendo, cá vai:
 
 
Esta noite sonhei com a ministra da Saúde. Assumo, tenho um fetiche com Marta Temido. Eu era cigano e vendia nas feiras, para as quais me dirigia na minha Opel Astra. Sucede que a suspensão das feiras obrigou-me a encontrar outras formas de sustento, pelo que transformei a carrinha num meio de transporte de passageiros. Apanhei a ministra à saída do Hospital Termal das Caldas da Rainha. Assim que se recostou nos estofos traseiros, ouvi-a dizer: «Apetecia-me algo». Respondi-lhe de pronto: «Senhora, não seja por isso». E meti a rodar um CD dos Séneca, uma banda indie irlandesa que nunca ouvi. Assim seguimos, na minha Astra a ouvir Séneca, até à Foz. Estacionámos num miradouro para observar o pôr-do-sol, ao que a ministra sugeriu que nos deitássemos nos bancos de trás enquanto luz houvesse. A ministra sorriu-me, eu sorri-lhe. Desde que Cristina Ferreira se referiu aos dentes da senhora ministra que vivo enamorado por aquele sorriso. Sem saber o que dizer, embora estivesse certo do que me apetecia fazer, desci aos fundos da minha ascendência cigana e perguntei-lhe: «Senhora, quer que lhe leia a sina?» Ela estendeu-me lestamente a palma da mão e, sem delongas, ordenou: «Vá». Percorri-lhe a linha do coração com o dedo indicador, e ela repetiu «vá». Passei para a linha da cabeça, e ela «vá». Li-lhe a linha da vida, e ela insistiu «vá». Continuei pela linha do destino, e ela «vá». Às tantas, não tinha mais sina para lhe ler, mas ela insistia vá, vá, vá. E eu dizia sina, e ela dizia vá, e eu afogueava a sina, e ela resfolegava no vá, e nisto de vá, sina, vá, sina, vá, sina, dei um toque no travão de mão e a Opel Astra precipitou-se na direcção do abismo. Estávamos num promontório. Enquanto mergulhávamos rumo ao oceano, ainda a ouvi dizer: «Eu sabia, não devia ter confiado nesta astrazeca. Nunca confiar numa astrazeca».

TRÊS LIVROS DE PAULO DA COSTA DOMINGOS

    Paulo da Costa Domingos (n. 1953) é autor de obra vasta e complexa, a qual sofreu inflexões formais ao longo dos anos mas manteve, do início até ao presente, uma admirável consistência enquanto processo desmistificador da historiografia dominante, quer como testemunho crítico de um mundo com o qual se mistura, isto é, que não observa a partir do conforto de gabinetes que tendem a reduzir a realidade a um algoritmo e as relações entre os homens a estatísticas de Excel, quer como construtor de um edifício poético persistentemente desenquadrado das convenções académicas do seu tempo. «A nossa tecnologia de ponta / foi sempre respira e ri», declara a dado passo como quem desvela um dos axiomas (est)éticos por que se orienta. Atentemo-nos aos três títulos mais recentes, posteriores à reunião da obra anterior a que deu o título Carmes, 1971-2018 (Companhia das Ilhas, 2019).

  
Enquanto lia o poema Ilícito (Averno, Maio de 2020) ocorreu-me, por razões porventura relacionadas com o tipo de discurso esotérico plasmado nos versos, a imagem d’ O Velho da Montanha, fundador da seita conhecida como Ordem dos Assassinos. Também Haçan Saba (ou, se preferirem, Hassan-i Sabbāh) foi símbolo de uma força subversiva com técnicas de combate particulares. Uma delas consistia em misturar os guerreiros da seita entre mendigos e vagabundos para, disfarçados no meio da escória do poder, minarem e sabotarem o funcionamento das cidades onde actuavam. Tudo isto parece altamente inspirador enquanto representação de um dos papéis possíveis para o poeta desempenhar no seu tempo e no seu espaço de actuação, ainda que a epígrafe final da plaquete em causa me desminta quanto à fonte do poema. Esta foi, antes, o enigmático «The Book of J», traduzido do hebraico por David Rosenberg e comentado por Harold Bloom. Trata-se de um texto supostamente redigido pela altura do Génesis (ou talvez lhe seja anterior). Bloom sugere que pode ter sido escrito por uma mulher, sem qualquer intenção religiosa.
   Ilícito é, portanto, uma ironizarão do texto esotérico, não para ter gracinha, como por vezes se julga ser o propósito da ironia, mas precisamente para lhe desconstruir o conteúdo laudatório e esperançoso. O Mestre a que se dirige é o Mestre dum mundo falhado, duma criação fracassada, que não infunde qualquer tipo de fé em paraísos vindouros: «Todavia depois do dia, a noite: / a descida ao fosso da vigília, / ao não-sonho. E depois da noite / o dia, todavia. A seiva que sobre / nos dedos. Mestre, mestre, / esta máquina pós-moderna / ceifa os doze indomáveis na hora / primeira, o homem da montanha / na hora terceira. Fende o dique, / para que o dia anoiteça em óleo / e lama: a lama dúbia da noite» (p. 9). O princípio é, como se disse, desmistificador e, mais do que isso, assumidamente heterodoxo no propósito final de denunciar um mundo em colapso: «E aqui eu pude, por fim, descalçar-me: / nem idolatria nem religião. / Na fresca escuridão, uno» (p. 21).

  
Outro aspecto estimulante nesta poesia é o modo como a insubordinação manifesta no discurso se edifica a partir do tratamento dado à língua. «Agora o plano é outro: // tentamos fixar a língua» (p. 44), diz-se num dos poemas de caligrafia orográfica à decifração angélica (viúva frenesi, Outubro de 2020). Curiosamente, mais uma vez as montanhas. Esta “caligrafia das montanhas”, lugar de abrigo dos guerrilheiros, observa-se particularmente nos domínios da acentuação e da pontuação, mas também em termos sintácticos e semânticos. O uso frequente de tremas e de apóstrofos, pontos de exclamação e de interrogação invertidos, hífens inesperados (b-arca, a-deus), confere aos poemas uma aparência imprevista e autónoma, contribuindo para uma singularidade que a exila no contexto de um panorama onde só raramente os poetas arriscam para lá do respeito reverencial à norma instituída. Neste livro reúnem-se dois conjuntos onde tais procedimentos, que não excluem a revisitação de poemas anteriores (vide o soneto da p. 50), ficam esclarecidos: «No dia do entendimento, afinal / tudo fica simples, humilde, acobardado: / um eco que fenece  / do lado do frio da travessia / de que os poetas se despojaram, / porque lhes basta / o horizonte. // Enqüanto outros constroem / varandas / para tais e tantos fóruns, / onde se negoceia / a vida inteligente / do trigo. // Antes de aqui chegarmos: / à derrogatória do sentido, / num real afinal infecto» (p. 43).
   Assumidamente registada ao longo dos anos como «Um livro. De bordo.» (idem, p. 19), a poesia de Paulo da Costa Domingos conhece, porém, no seu mais recente livro, intitulado neve sobre a roseira (Barco Bêbado, Fevereiro de 2021), um episódio algo intimista como é raro encontrarmos no seu trabalho poético. Se a desmontagem dos pilares que suportam os paradigmas historiográficos se exerce fazendo uso dum olhar acutilante sobre o passado e duma perspectiva crítica sobre o presente, é verdade que estes poemas nunca deixaram de reflectir, em doses homeopáticas, aspectos emotivos da vivência pessoal e das experiências colectivas. Não sendo excepção, neste mais recente livro abrem-se, no entanto, as persianas a uma paisagem peculiarmente testamentária que encontra na oração fúnebre final um dos seus momentos mais elevados.

  
«neve sobre a roseira na torre de heidelberg» é um longo poema-testamento em que o exame de consciência a que o sujeito se submete o expõe eticamente, sem prescindir de elencar as influências em que alicerçou o seu edifício cívico: «¿Crê?... / Mais do que isso: acredita / na pura inutilidade produtiva, / esse é, pois, o trunfo dele: cometas / que rebobinam a trajectória, caravelas / sem destino de volta à superfície cheias / de significantes e veneno» (p. 60). Mais à frente: «Repare-se: / os demónios que a si vieram, / falinhas mansas a esconder o quão grosseiras / mas ele prossegue na estrada larga / de amoras e silvas e piteiras: / assobia toscamente (ruído e facas) / os farrapos rítmicos d’ uma bandeira // (silenciosa) / de medidas desesperadas, como seja: / o baldio de Eliot, a usura de Ezra, / o ofício cantante, o opiário, a revolução / electrónica, a estilística da língua, / o livro de J, o pão e a culpa, a cidade / queimada… a sociedade do espectáculo» (p. 61). Escusado será expor as referências elencadas.
   Escritos entre 22 de Outubro e 27 de Dezembro de 2020, os poemas deste livro registam já uma Lisboa confinada, assaltada pela pandemia sanitária e outras entretanto agravadas e disseminadas. Há um tom existencial que o atravessa, motivado pelo confronto diário com a morte e com a amargura fundada por uma sociedade destituída de afectos, composta de gente voluntariamente fechada em casa ou circulando a medo em ruas onde o distanciamento é preventivo, dever e obrigação: «3 ratos de bufaria e blandícia / escutam denúncias em take away / e processam a raiz da vida » (p. 17). Acresce que se trata de um volume muito bonito enquanto objecto visual, enriquecido pelos desenhos de Patrícia Guimarães e com um cuidado que começa na sobrecapa em papel vegetal e se estende por diversos pormenores que levam a pensar no livro não só como «um saco de letras impressas à procura / de significação na vida quotidiana / do Universo conhecido» (p. 48), mas como um refúgio ao qual o poeta em causa se dedicou a vida inteira. É esta beleza da criação que contrasta com o conteúdo ferido pelo «Perplexo / espectáculo na sociedade recreativa dos grunhos» (p. 29). O acento acusatório, que é uma constante nesta poesia, não surge, deste modo, completamente isolado e desprovido de sentido. A verrina tem os seus escapes, através dos quais penetram «ternura, angústia, perplexidade, luz» (p. 58). Nem tudo está perdido. A poesia admite momentos de suspensão. É, de certo modo, a avaria que provoca interrupções na programação.