sexta-feira, 18 de junho de 2021

STROLLIN’ WITH PAM (1955)

 


O correio atrasado, as leituras atrasadas, e no entanto uma agitação tremenda no corpo tenso. Só os nervos chegam sempre a horas nesta neblina do espírito que satura músculos e ossos e provoca roturas de ligamentos na língua. É noite feita, tudo dorme à minha volta, excepto a jugular deste tronco que por dentro liga vontade e medo. E o alarme do carro do vizinho, disparado porventura ao som da minha respiração ofegante. Não é bem medo, é o impedimento sufocante dos demónios atreitos ao espírito. Ouço repetidamente o mesmo disco de Phil Woods, vejo-o rodar mil e uma vezes repetidas sobre o eixo e deixo-me hipnotizar pelo movimento giratório. Li que foi casado com a ex-mulher de Charlie Parker. Movimento giratório. Também gostava de me casar com a ex-mulher dum génio, talvez aprendesse alguma coisa por contágio. Estes cruzamentos nada significam, bem sei, mas tem piada a coincidência. Woodlore é um belíssimo álbum que dispensa tais alusões e parvoíces, mas a noite caiu envolta em borralha e eu estou a modos que precisado de estridências. Parker não entra nas contas. São apenas formas de dizer, de não cair, de manter vertical, digamos, o sopro. Agora a sério: tudo dorme à minha volta, excepto a jugular deste tronco que por dentro liga arbítrio e solidão.

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