Se fosse vivo, faria hoje 100 anos. Não é assunto que
interesse a muita gente. Faz-se o que se pode. Carlos de Oliveira nasceu a 10
de Agosto de 1921 em Belém do Pará, filho de emigrantes portugueses. A família
regressou a Portugal em 1923 e instalou-se na Gândara, concelho de Cantanhede.
Será este o cenário privilegiado na sua obra, tanto a
poética, reunida e meticulosamente revista em Trabalho Poético (1976), como a
ficcional. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, em Coimbra, com uma
tese intitulada Contribuição para uma Estética Realista. Entretanto, estreou-se
na poesia com Turismo (1942) e publicou o primeiro romance em 1943. A gândara
lá estava, logo no início de Casa na Duna: «Na gândara há aldeolas ermas,
esquecidas entre pinhais, no fim do mundo». Conotado com o movimento
neo-realista, colaborou em trabalhos diversos com Fernando Namora, José Gomes
Ferreira e Fernando Lopes Graça. Casou-se em 1949 e mudou-se para Lisboa no ano
seguinte, publicando artigos em jornais e revistas — as crónicas reunidas em
Aprendiz de Feiticeiro (1971) foram escritas entre 1945 e 1970 —,
trabalhando no arquivo de um jornal, na redacção da revista Vértice, até se
dedicar exclusivamente à escrita. Os romances Uma Abelha na Chuva (1953),
adaptado ao cinema por Fernando Lopes em 1971, e o derradeiro Finisterra (1978)
são obras-primas da literatura portuguesa, mas foi com os poemas de Cantata
(1960) que a obra de Carlos de Oliveira sofreu uma significativa inflexão no
estilo:
SALMO
A vida
é o bago de uva
macerado
nos lagares do mundo
e aqui se diz
para proveito dos que vivem
que a dor
é vã
e o vinho
breve.
Recentemente, antecipando o centenário do nascimento do escritor, a editora Barco Bêbado publicou um belíssimo volume intitulado cinzareia (Julho de 2021) com desenhos de Carlos Ferreiro e um ensaio de Fernando Cabral Martins dedicado à obra de Carlos de Oliveira. Nele se defende que o Autor não ficou «preso a opções de escola, a regras de grupo», optando por uma estética singular que incorporou elementos da segunda geração surrealista, do grupo (informal) Poesia 61 e até do concretismo, concluindo que:
«A obra de Carlos de Oliveira coloca de forma essencial a
questão da referência, da relação directa com o mundo concreto. Nomeadamente, e
conforme o vai mostrando em teoria e em acto, enquanto redescrição —
ou transformação — do mundo. Mas tudo assenta numa questão de moral: não
fugir à luta. A importância desta questão pode talvez ser vista como de
circunstância, estando relacionada com um tempo concreto. Mas a poesia, como toda
a arte, é uma questão de moral. Saber que os outros existem. Não esquecer que a
história existe.»
Ora aqui está algo que causaria comichões a quem pretende
uma separação radical das águas da arte e da moral. Causaria, se tais criaturas
pensassem o que dizem em vez de se concentrarem no fragor das suas atitudes
pouco mais do que inócuas. Ler Carlos de Oliveira hoje far-lhes-ia bem, se
lessem, para definitivamente entenderem como a estética e a ética são aliadas inexoráveis:
«Fogo de sol a sol, relampejando nas enxadas, que remédio. Na areia germina
pouco pão e as regas, além da chuva, precisam de suor. Mas os lugares malignos
em nossa casa, não os merecemos. Tanto sítio para pôr o inferno, e logo nos
calhou a nós». Precisamente no mesmo romance onde respigo a citação,
Finisterra, encontro um capítulo, o XIX, que podia servir de ensaio acerca da
complexidade do real neste Autor. Talvez baste um parágrafo:
«A geometria submersa na realidade tem (pelo menos) duas
lógicas contraditórias. Uma força interior conduz-me cegamente (deixei também
de analisá-la) às formas simples da fidelidade. Amo (e isto significa: distingo)
um objecto; não preciso de mais para concretizar o sentimento abstracto que me
ordena (no campo do real) sentimentos inconciliáveis. Ainda hoje não sei se
vale a pena fugir-lhes. Pouco importa. Ao fim e ao cabo, pormenores.»
O real é visível e invisível, acolhe tanto os dados da
percepção como a história que por detrás, no interior do ser, a condiciona. O
real resulta de um modo de ver, não é o que é, é o que vai sendo, e entre o que
vai sendo só o que fica, permanece, só o que perdura para lá da circunstância é
verdadeiramente real. E que pode ser isso que perdura para lá da circunstância?
A natureza humana, pois claro, feita de emoções e de sentimentos. A poesia, a
arte em geral, pode somente oferecer-nos um reflexo, uma imagem das coisas, as
coisas tal como as vemos, tal como as sentimos. Fernando Cabral Martins diz que
«a poesia por palavras [admitindo que haja outra] é a emoção acertada com a
ideia, é um modo intenso de vida que cada poeta actualiza», e eu não encontro
melhor maneira de definir, se tal é possível, tanto a prosa como o Trabalho
Poético de Carlos de Oliveira. Do seu último livro de poemas, Pastoral (1971), este ao mesmo tempo complexo e tão simples:
LEITURA
Quando por fim as árvores
se tornam luminosas; e ardem
por dentro pressentindo;
folha a folha; as chamas
ávidas de frio:
nimbos e cúmulos coroam
a tarde, o horizonte,
com a sua auréola incandescente
de gás sobre os rebanhos.
Assim se movem
as nuvens comovidas
no anoitecer
dos grandes textos clássicos.
Perdem mais densidade;
ascendem na pálida aleluia
de que fulgor ainda?
e são agora
cumes de colinas rarefeitas
policopiando à pressa
a demora das outras
feita de peso e sombra.
*
Mais: aqui.


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