O
mundo está cheio de espiões, agentes
duplos pagos para
passar informações confidenciais sobre
os segredos do mundo. Os
mais bem guardados segredos circulam, de mão em mão, em
pastas seladas com ficheiros encriptados a
que apenas especialistas idóneos logram ter acesso. São
informações preciosas acerca
de pedras e de metais, intenções
malignas, opções
estratégicas, assuntos
inacessíveis ao
comum dos mortais. Um
inglês na Alemanha foi
apanhado a espiar para os russos, um
russo que espiava para os ingleses foi
envenenado com a filha, os
israelitas espiam os árabes e
difundem pelo universo, como
vento a difundir pólen, ferramentas
poderosas de spyware ao
nível das melhores armas produzidas
pela National Security Agency. As
vespas asiáticas espiam as abelhas, as
melgas espiam as moscas, pragas
de espiões, disfarçados de insectos, espiam
colheitas à superfície da terra, enquanto
no fundo dos oceanos microplásticos
espiam sardinhas, polvos
espiam tubarões, cubozoários
espiam baiacus. O
planeta Terra é
discretamente espiado por
seres extraterrestres e
até no meu bairro há espiões, quedam
à janela a ver quem passa, afloram
às varandas fingindo olhar para o céu, vigiam
ruas e rufias, espreitam
as casas uns dos outros, esperam
obter notícias secretíssimas, escandalosas, quanto
a envolvimentos amorosos interditados
pela moral, pelos
bons costumes, pelo
distanciamento social, pela
tradição, pela
autoridade de segurança alimentar, pelo
padre, pelo
papa, pelo
papão, pela
higiene e segurança familiar. O
mundo está cheio de espiões. E
eu fechado dentro de mim mesmo, sem
sequer entender o que me
vai e porque vai na cabeça. Que
pretenderão saber? Em que
segredos pretendem pôr mão? O
que haverá para conhecer que
seja tão relevante a
ponto de não se poder revelar? Que
enigmas, sigilos, arcanos, mistérios, atiçam
a curiosidade desta gente? A
morte, já sabemos, é
certa para todos. Haverá
na vida mistérios mais
essenciais do que esse saber nuclear que
é estarmos todos à morte, ser
efémera a travessia, fundamental
o amor?
Nota:
Pégaso, o cavalo alado da mitologia grega, deu nome a uma constelação e, mais
recentemente, a um vírus de spyware desenvolvido por uma empresa israelita, porventura também com a intenção de, nele montados, atingirem o Monte
Olimpo. É igualmente o título de uma composição do saxofonista Hank Levy, constante
no último álbum do maestro Stan Kenton: Journey Into Capricorn (1976).

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