quarta-feira, 11 de agosto de 2021

PEGASUS (1976)


 

O mundo está cheio de espiões, agentes duplos pagos para passar informações confidenciais sobre os segredos do mundo. Os mais bem guardados segredos circulam, de mão em mão, em pastas seladas com ficheiros encriptados a que apenas especialistas idóneos logram ter acesso. São informações preciosas acerca de pedras e de metais, intenções malignas, opções estratégicas, assuntos inacessíveis ao comum dos mortais. Um inglês na Alemanha foi apanhado a espiar para os russos, um russo que espiava para os ingleses foi envenenado com a filha, os israelitas espiam os árabes e difundem pelo universo, como vento a difundir pólen, ferramentas poderosas de spyware ao nível das melhores armas produzidas pela National Security Agency. As vespas asiáticas espiam as abelhas, as melgas espiam as moscas, pragas de espiões, disfarçados de insectos, espiam colheitas à superfície da terra, enquanto no fundo dos oceanos microplásticos espiam sardinhas, polvos espiam tubarões, cubozoários espiam baiacus. O planeta Terra é discretamente espiado por seres extraterrestres e até no meu bairro há espiões, quedam à janela a ver quem passa, afloram às varandas fingindo olhar para o céu, vigiam ruas e rufias, espreitam as casas uns dos outros, esperam obter notícias secretíssimas, escandalosas, quanto a envolvimentos amorosos interditados pela moral, pelos bons costumes, pelo distanciamento social, pela tradição, pela autoridade de segurança alimentar, pelo padre, pelo papa, pelo papão, pela higiene e segurança familiar. O mundo está cheio de espiões. E eu fechado dentro de mim mesmo, sem sequer entender o que me vai e porque vai na cabeça. Que pretenderão saber? Em que segredos pretendem pôr mão? O que haverá para conhecer que seja tão relevante a ponto de não se poder revelar? Que enigmas, sigilos, arcanos, mistérios, atiçam a curiosidade desta gente? A morte, já sabemos, é certa para todos. Haverá na vida mistérios mais essenciais do que esse saber nuclear que é estarmos todos à morte, ser efémera a travessia, fundamental o amor?
 
Nota: Pégaso, o cavalo alado da mitologia grega, deu nome a uma constelação e, mais recentemente, a um vírus de spyware desenvolvido por uma empresa israelita, porventura também com a intenção de, nele montados, atingirem o Monte Olimpo. É igualmente o título de uma composição do saxofonista Hank Levy, constante no último álbum do maestro Stan Kenton: Journey Into Capricorn (1976).

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