A erva atirou-me para o sofá com pulmões entumecidos de riso trémulo, daquele tipo que escapa, mesmo em não sendo desejável escapar, por já não teres autodomínio nem controlo sobre o corpo e as portas da prisão platónica ficarem escancaradas para que a alma deserte. Tivesse Sócrates fumado erva destas e a civilização ocidental não lhe deveria axiomas ao mesmo tempo tão purificadores do espírito e cristalizadores da carne. Defumada, uma pessoa sente-se impotente e o mais que consegue é rever Scarface cogitando sobre cada uma das 226 vezes que a palavra fuck é proferida. Foda-se pode querer dizer muita coisa, dependendo do tom, da entoação, do timbre, da gesticulação, dependendo da ênfase, do contexto, isto é, da temperatura, da meteorologia, da conjugação astral, dependendo de se estar com os pés para a cova ou fora da cama. Pode ser uma cuspidela nas trombas do real ou delirante assombração, pode ser com espanto que se diz foda-se. Como, a título de exemplo, alguém que ouça Joe Henderson no álbum de estreia e se pergunte de onde veio tão tonificante libação. É como se a alma em fuga regressasse ao corpo transportada num riquexó puxado pelo vento. É como um riquexó empurrado pelo sopro.

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