] 1º Andamento / Lento Kr [
entrego-te as cicatrizes
o corpo da minha morte
a minha louca sorte,
tudo, mas tudo te deixo
— até o último verso
de todos os meus poemas —
se nãocultares ao espelho
o muro em carne viva
fuzilada pelo medo
já não basta
ocultarem a ingratidão
o plasma daninho
a cegueira da tarambola
na tarântula o cisco no olho
que não deixa sentir a lágrima
a folhagem florescente
habita o casaco o botão
a céu aberto os desvalidos
com linha e entretela
engrolam farrapos ao vento
ocultando o Robinson Crusoé
cativo no frasco dos palitos
para que se vá de mofo
longe de olhar fetal
na cresce não se cresce
a cadeado o baloiço
sem açaime as joaninhas
o cachorro libando água
intestinal da sanita
lambe a corcunda ao dono
que de boas contas retribui
de gosma e cafuné
enquanto ainda são tenros
prás lições da vivissecção visceral
vão aprendendo a rabiscar
infernos d'engolir lesmas,
os burocratas na cresce.
São dos que bolçam sangue
sobre o mar e a terra.
São o vómito da gorja,
a excrescência da crueldade nazi
que passou a usar próteses
e rosna: — Quem é maior? Quem
é? Bill Evans ou Bill Gates?
Quem detonou a derrota
dos miolos das criaturas?
da sobra — estilhaços,
líquenes mortos
ordinários nove horas
nas sarjetas
o inquietante instante
chefetes d'estado nunca
são suínos genuínos
nem ao som dum tambor
tropeçamos de trotinete
nos caroços da sina/papas
d'ignorância farrobodó
rés-vés Campo d'Ourique
ocultando a existência
de seres belos e oníricos
apartamentos sem céu
apartados a céu aberto
oh! há algazarra no panóptico
chinela o putedo pilado
em tráfego no parque
d'estacionamento
entre viaturas, limpando
com a máscara cirúrgica
o pingo d'esporra final
da clientela oculta... ultra
culta [eco perdigoto]
de criptónio o lazer coze a retina
a lâmpada aquece o letreiro
luminoso pisca
o olho ansiolítico
e nada mais verás senão
falsas bestas esganando
a garganta à insónia
Jorge Aguiar Oliveira, in Criptónio, colecção elemeNtário, volume n.º 7, Flan de Tal, Maio de 2021, pp. 9-11.

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