A poesia de Santareno, na sua cosmocidade expressiva, é produto de inquietações pessoais, de desespero íntimo, de um Eu perturbado, um pathos conflitual e onírico, em luta contra os fantasmas que o açoitam, na qual o Outro é sempre elemento perturbador, fautor de trágicos desvarios, de assombros, de maldição, morte, «frustração e agressividade provocadas por uma doentia espiritualidade exacerbada».
O seu complexo misticismo, herdado de uma mãe fervorosamente católica, que o levará a frequentar o Seminário dos Olivais, e a influência de um pai republicano laico, que chegou a cortar, com outros inconformados revolucionários, a azinheira onde, revelaram-no 3 crianças, incautas sob um sol toldado de neblinas matinais, ignorância milenar, olhos túrgidos de fome, sopas de cavalo-cansado e maus presságios, terão avistado uma luz que rompeu a bruma e lhes falou de fatalidades futuras e de infernais ventos de Leste.
Joaquim Martinho do Rosário, pai de Santareno, mestre artesão, com outros camaradas, arrastaram o cepo azinheiro pelas ruas de Santarém, num gesto de saudável rebeldia e lucidez, denunciando com esse gesto impresivo e simbólico o aproveitamento que os políticos da época, Sidónio Pais e, depois, Salazar, com o beneplácito da Igreja do Cardeal Cerejeira, preparavam, com embuste e obscurantismo inauditos, servindo-se do improvável fenómeno como cáustico de fé e sujeição. Este e outros gestos do inconformado republicano, levariam Joaquim do Rosário, por diversas vezes, aos calabouços das prisões políticas, e ao degredo em Angola, nesse trágico ano de 1926-
Domingos Lobo, in Poeta dos Desesperos Íntimos, ensaio sobre Bernardo Santareno publicado no n.º 8, 5.ª série, da Gazeta Literária da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Outono/Inverno 2020, p. 31
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