É difícil escrever sobre um livro como Cães de Chuva (Assírio & Alvim,
Fevereiro de 2021), o mais recente de Daniel Jonas (n. 1973), por ficar a
sensação, após a primeira, segunda, terceira leituras, que tudo quanto acerca dele
possa ser dito já o foi nos próprios poemas. De resto, é precisamente isso o
que se depreende num poema como Aliterações,
espécie de arte poética em que à repetição do verso «Um poema é» se vão
sucedendo várias possibilidades de definição que não encerram o sentido, antes
o abrem à musicalidade das palavras e ao ritmo que as embala. Tudo pode ser matéria
de poema e, no fundo, um poema não é sobre coisa alguma, como, de resto,
acontece com toda a arte. Haverá um mote, um tema, um tópico, mas em última
análise o poema não versa senão sobre si mesmo, identidade autónoma, não
necessariamente independente do mundo e das suas circunstâncias, mas com este relacionado
enquanto reflexo, transfiguração, expressão. Mesmo quando se apresenta descritivo, o
poema depara com os limites da linguagem face ao objecto de descrição. E estes
são determinados pela própria natureza das palavras.
Nesta poesia o vocabulário é extenso,
o domínio lexical de Daniel Jonas é por demais conhecido e tem sido apontado em
diversas ocasiões, mas essa riqueza, por mais ampla que seja, revela-se sempre
insuficiente no território da expressão. Daí que ensaie formas muito diversas,
do rigor formal em livros tais como Nó
(Assírio & Alvim, 2014) ou Sonótono
(Cotovia, Maio de 2007) ao verso livre em Canícula
(Língua Morta, 2017) ou Bisonte (Assírio
& Alvim, 2016), de uma escrita currente
calamo a minuciosos exercícios de síntese. As capacidades multímodas do
Autor mostram-se neste livro em quatro conjuntos com títulos enigmáticos — Cailean, Madain, Caleb, Sirius —, tal como enigmático é o título do
conjunto, em poemas ora longos, ora curtos, sendo especialmente notável o modo
como em nenhum dos casos o autor perde a mão e é capaz de surpreender recorrentemente com
imagens fortemente expressivas e imprevisíveis, sugestivas e cultas: «Um
poema é / a balsa que se chora no Egeu, / a trágica ampulheta a toda a hora. /
É coser o cílio ao sobrolho / com os fios das pestanas / e apagar para sempre a
fina dor do que se vê» (p. 34).
É verdade que no primeiro conjunto a herança pessoana faz-se sentir de um modo atrevido, até descarado, nomeadamente quando os versos enveredam por um registo emocional ambivalente e paradoxal — «Eu sou notícias de ontem.» (p. 15), «Eu estou triste como um cais apodrecido.» (p. 16), «Ouvi isto um dia quando por mim passei / e destapei a cabeça e me disse olá» (p. 19), todo o longo poema [Às vezes tudo é triste, mesmo o que não é.] (pp. 28-31) —, mas esta herança não corresponde senão a um processo de reescrita e de tradução que vem sendo elaborado na poesia de Daniel Jonas desde Os Fantasmas Inquilinos (Cotovia, 2005). Note-se, aliás, como é já desse livro que provém a indagação agora desenvolvida no poema Aliterações. Ciente da sua tradição, Jonas produz uma poesia culta em que a multirreferencialidade e a intertextualidade, ao contrário do que sucede com vários outros poetas da mesma geração e com a mesma formação académica, são ferramentas ao serviço de uma voz que se busca a si mesma numa relação com o mundo circundante que não prescinde de um riquíssimo legado cultural. Neste sentido, devemos sublinhar tanto uma forte presença do facto histórico como da experiência quotidiana, assim como um olhar inquieto e inquiridor que tem o mundo natural como interlocutor privilegiado.
Se já o notáramos em Bisonte,
neste Cães de Chuva voltamos a
senti-lo. Há todo um léxico proveniente das ciências naturais que problematizam
a relação do homem com a natureza nestes livros. Não se trata de bucolismo.
Antes pelo contrário, e o poeta faz questão de o dizer: «O bucolismo é absurdo.
A urbe mórbida.» (p. 31) Trata-se antes de uma tomada de consciência, a partir da observação da própria natureza, da
crueldade que matiza o universo e de uma essencial precariedade humana. No poema A uma
borboleta, por exemplo, sobressai um irónico retrato da vanidade
existencial. Logo a seguir, o magnífico poema intitulado Orvalhinhas oferece-nos um quadro implacável da crueldade inerente
à natureza mostrando como uma planta carnívora se alimenta de insectos: «O
insecto num sudário de pepsina / É torturado em perfume» (p. 40). Estamos a
falar de um livro frequentemente assaltado pelo tema da morte, com elegias que
tanto podem ter por motivo uma actriz de filmes pornográficos (extraordinário poema, um dos melhores que se escreveram em língua portuguesa neste século) como uma sonda
espacial. O termo da vida, o fim para que tudo tende, instala amiúde nestes
versos um clima melancólico, de tédio, que, em última instância, poderá ser
resumido a um entendimento da «tarefa do tempo» (p. 45) exemplarmente desenhada
no poema Tempus Fugit.
É verdade que no primeiro conjunto a herança pessoana faz-se sentir de um modo atrevido, até descarado, nomeadamente quando os versos enveredam por um registo emocional ambivalente e paradoxal — «Eu sou notícias de ontem.» (p. 15), «Eu estou triste como um cais apodrecido.» (p. 16), «Ouvi isto um dia quando por mim passei / e destapei a cabeça e me disse olá» (p. 19), todo o longo poema [Às vezes tudo é triste, mesmo o que não é.] (pp. 28-31) —, mas esta herança não corresponde senão a um processo de reescrita e de tradução que vem sendo elaborado na poesia de Daniel Jonas desde Os Fantasmas Inquilinos (Cotovia, 2005). Note-se, aliás, como é já desse livro que provém a indagação agora desenvolvida no poema Aliterações. Ciente da sua tradição, Jonas produz uma poesia culta em que a multirreferencialidade e a intertextualidade, ao contrário do que sucede com vários outros poetas da mesma geração e com a mesma formação académica, são ferramentas ao serviço de uma voz que se busca a si mesma numa relação com o mundo circundante que não prescinde de um riquíssimo legado cultural. Neste sentido, devemos sublinhar tanto uma forte presença do facto histórico como da experiência quotidiana, assim como um olhar inquieto e inquiridor que tem o mundo natural como interlocutor privilegiado.
Se os títulos das secções são enigmáticos,
remetendo para o tópico canídeo, o título do livro não o é menos. O cão,
enquanto símbolo tanto de fidelidade como de precariedade (vida de cão), é
usual na poesia portuguesa. O exemplo mais evidente será o livro Canis Dei (1995) de Armando Silva
Carvalho. É um mamífero doméstico, mas de proveniência selvagem. Há deles
rafeiros que percorrem as ruas farejando no lixo alimento para a sobrevivência.
Associamo-lo aos cínicos, que assim se chamavam por viverem como cães. Cão, enquanto
adjectivo, também se refere aos cabelos brancos que aparecem com a idade. Mas o
que são Cães de Chuva? Encontramos a
expressão num poema de António Franco Alexandre — «intensas maresias, cães de
chuva» (Primeiras Moradas) —, e damos com ela, traduzida literalmente, num
álbum de Tom Waits. Os Rain Dogs de
Tom Waits são vagabundos, rafeiros, são cães desorientados porque a chuva lhes
apagou o rastro e confunde os cheiros, são os sem-abrigo, os sem-terra, os clochard, e é esta condição
desafortunada que os poemas de Cães de
Chuva respiram, seja quando se referem a campos de concentração, seja
quando recorrem às mitologias grega e nórdica e bíblica para nos lembrar que «Deus,
na sua sabedoria, fez-nos previsíveis / para os outros e incertos para nós
mesmos» (p. 117).

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