terça-feira, 10 de março de 2026

DIAS DE GUERRA

 
Feitas as contas, tudo se resume a táctica, a velha táctica que ora nos aproxima, ora nos afasta, por mera conveniência. Não há amor nem amizade, não há respeito, reverência ou admiração, naquele sentido de apreço, que vença a táctica nas motivações humanas. E isso será mesmo o que torna os seres humanos os mais desprezíveis animais à face da terra. O amor enquanto fraqueza vem no Brecht. Não sei se apenas o escreveu ou se cumpriu em vida, há um fosso enorme entre o que os artistas dizem e o que fazem. Na superfície branca da página somos todos imaculados, na face rugosa dos dias nem por isso. Aquele que pintava flores tinha pedras no coração, o que escrevia versos translúcidos era opaco nos gestos, a que dançava como pétalas agia como as feras, no músico do silêncio a consciência era ruído. Se por incoerência ou hipocrisia, pouco importa. É táctica. Mais ridícula é a constatação de que na raiz da táctica medra a semente da frustração, tão frequentemente regada por complexos insanáveis, razões tão ridículas como um pé chato, a dislexia que nos faz chorar quando rimos, o sorriso engolido na boca pintada do palhaço. O palhaço das roupas rasgadas carregava um sorriso rubro em que de vez em quando tropeçava para fazer rir quem o via:

Tinha a cabeça avariada
por incurável dislexia
fazia rir quem chorava
fazia chorar quem ria

Dias de guerra, estes em que nos encontramos imersos. Podia ser diferente? Não deposito esperança nisso, a não ser que nos cinjamos ao jardim privado para o qual convidamos o sol das manhãs, um gato vadio, o animal de companhia. A solidão é o melhor dos medicamentos contra o jogo das simulações e a histeria da dissimulação que entretém mascarados, foliões, fantasistas.

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