Feitas as contas,
tudo se resume a táctica, a velha táctica que ora nos aproxima, ora nos afasta,
por mera conveniência. Não há amor nem amizade, não há respeito, reverência ou
admiração, naquele sentido de apreço, que vença a táctica nas motivações
humanas. E isso será mesmo o que torna os seres humanos os mais desprezíveis
animais à face da terra. O amor enquanto fraqueza vem no Brecht. Não sei se
apenas o escreveu ou se cumpriu em vida, há um fosso enorme entre o que os
artistas dizem e o que fazem. Na superfície branca da página somos todos
imaculados, na face rugosa dos dias nem por isso. Aquele que pintava flores
tinha pedras no coração, o que escrevia versos translúcidos era opaco nos
gestos, a que dançava como pétalas agia como as feras, no músico do silêncio a
consciência era ruído. Se por incoerência ou hipocrisia, pouco importa. É
táctica. Mais ridícula é a constatação de que na raiz da táctica medra a
semente da frustração, tão frequentemente regada por complexos insanáveis,
razões tão ridículas como um pé chato, a dislexia que nos faz chorar quando
rimos, o sorriso engolido na boca pintada do palhaço. O palhaço das roupas
rasgadas carregava um sorriso rubro em que de vez em quando tropeçava para
fazer rir quem o via:
Tinha a cabeça
avariada
por incurável
dislexia
fazia rir quem
chorava
fazia chorar quem
ria
Dias de guerra,
estes em que nos encontramos imersos. Podia ser diferente? Não deposito
esperança nisso, a não ser que nos cinjamos ao jardim privado para o qual
convidamos o sol das manhãs, um gato vadio, o animal de companhia. A solidão é
o melhor dos medicamentos contra o jogo das simulações e a histeria da
dissimulação que entretém mascarados, foliões, fantasistas.
Sem comentários:
Enviar um comentário