segunda-feira, 24 de agosto de 2026

NORMALIDADE

 
Esta noite sonhei que eu não era eu. Para ser mais exacto, eu era eu, estava no sonho, mas não aparecia, havia um outro que era o meu corpo, a minha voz, com quem eu interagia, se bem que não fosse eu. E esse outro-eu estava sempre a repreender-me porque eu fazia tudo ao contrário do que era esperado. Por exemplo, o eu-outro pedia-me que abrisse um chapéu de chuva. Eu abria, mas o chapéu chovia. Era um chapéu que dava chuva em vez de nos proteger da chuva. A cada porta que o eu-outro me pedia para fechar, eu abria, ainda que depois, ao atravessar a porta, eu sentisse que entrava quando saía e saía quando entrava. Acordei muito angustiado, a ponto de sentir necessidade de me levantar e dirigir-me à casa de banho para lavar o rosto. Assim fiz, reparando, ao chegar à casa de banho, que havia calçado os chinelos ao contrário, o esquerdo no direito e o direito no esquerdo. Fiquei então muito aliviado, estava tudo certo no sonho, acabei até a lavar os pés em vez do rosto, não havia problema algum comigo, entre o sonho e a realidade tudo batia certo, a normalidade é que não me cabia nos pés.

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