terça-feira, 26 de outubro de 2004

Os Últimos Lugares

Confesso ter sido este o meu primeiro contacto com a poesia de Manuel Afonso Costa (n. 1949), que, segundo me foi possível saber, publicou apenas um outro livro de poesia, intitulado Os Limites da Obscuridade (Caminho, 1991). Note-se que, a serem verdadeiros os dados disponíveis, do primeiro para o segundo livro vai um hiato de treze anos. Não sabemos quais as razões que motivaram tal suposto silêncio nem nos interessa especular sobre o assunto, mas não deixa de ser um facto curioso de assinalar. Os Últimos Lugares está organizado em três secções que permitem adivinhar um nexo sequencial, ainda que, arriscamos, esse nexo possa ser mais uma consequência duma possível construção de sentido para o leitor do que uma elaboração previamente definida. Assim, na primeira secção encontramos uma espécie de introdução àquele que nos parece ser o problema essencialmente versificado neste livro: a construção de um lugar fora do território das coisas físicas, um lugar para os mortos e para aquilo que aparentemente se perde no «irremediável devir». Onde situar, então, esse derradeiro lugar? Talvez nessa linha dúbia que separa a memória do esquecimento, porque «através do esquecimento / os mortos são sombra iluminada» (p. 20). Assim como «as folhas agitadas pelo vento / procuram um lugar» (p. 25), também nós, no confronto com a morte, o procuramos, para nós e para os outros que por nós vão passando. Observemos «o tempo a passar como um réptil nesses lugares / onde confluem passos e memórias e cigarros» (p. 24) e apercebamo-nos de que o lugar que nos espera é um lugar mobilado pelo passado e por escassas memórias. (Cf. p. 29) Traçam-se, desta forma, as fronteiras desses «últimos lugares», lugares íntimos, lugares de memória, lugares que não deixam morrer. Na segunda secção deste livro, parece consolidar-se essa ideia da memória como lugar de conservação da vida, porque há uma outra morte que não «esta morte terrestre» e «há uma outra terra que é na terra das tuas / veias a promessa de uma luz inteira.» (p. 36) Torna-se-nos assim claro que o esquecimento pode ter vários caminhos, pode transformar-se numa espécie de esquecimento lembrado se o seu lugar for, por exemplo, um poema. Os poemas da última secção deste livro, intitulada Os trabalhos e os dias, são, por isso mesmo, poemas repletos de memória, poemas «com pessoas lá dentro». Essas pessoas podem ser a mãe, o pai, a avó materna do poeta, ou uma mulher que vendia peixe. Mas eles são também poemas polvilhados de imagens passadas, como a imagem de dois corpos à beira do desejo. São, enfim, poemas que lançam «com paixão as sementes para a terra», para essa terra que há pouco mencionávamos, tal como «o pai lançava com paixão as sementes para a terra». (p. 58) Porque há uma espécie de "fatalidade" na memória.

PIPA CLUB

Ninguém consegue controlar o que os outros pensam de si. Nem vale a pena o esforço. É impossível determinarmos a forma como os outros nos olham. Ponto final, parágrafo.

Há pessoas para as quais a nossa indiferença se transforma numa prova espantosa de amizade. Por outro lado, muitas vezes trabalhamos os nossos comportamentos tendo em vista a estima de alguém que admiramos e o retorno que recebemos do nosso esforço é a mais cruel das antipatias. É a mais inviolável das leis da vida: não podemos controlar aquilo que os outros pensam e nós. Podemos ser o mais autênticos possível, podemos ser espontâneos, podemos ser nós próprios - mesmo não sabendo aquilo que somos (uma pessoa só é ela própria se não souber aquilo que é) -, e, no entanto, aquilo que os outros pensam de nós pode ficar a milhas do que somos na realidade. Por mais que matutasse, nunca consegui perceber por que inextricável razão o porteiro do Pipa Club não ia com a minha cara. Remoinhei a mioleira vezes sem conta, à procura de razões que justificassem a sua clara falta de afeição. Perscrutei afincadamente as causas daquele rancor. Digo rancor, porque assim me parecia. Mas nem sei se era rancor. Como pode alguém saber o que está por detrás do carácter manifestado por um indivíduo? Talvez ele soubesse de alguma coisa sobre mim que eu próprio desconhecia. A verdade é esta: nunca fui capaz de o interrogar sobre isso. Há pessoas que se curvam e recurvam pela consideração dos outros. Eu sou demasiado orgulhoso. Não consigo ter esse tipo e comportamentos. Só sei que somos um repertório infindável de apetrechadas conjecturas. Julgamos os outros permanentemente na base de presunções sem qualquer tipo de fundamento. Ou porque ouvimos dizer que, ou porque nos disseram que, ou porque alguém disse a alguém que, ou porque isto, aquilo, assim, aqueloutro. Resolvi não mais pensar no assunto. Nem valia a pena o esforço. Era impossível. Até que ontem regressei ao Pipa Club e verifiquei que o porteiro era outro. Mandava a lógica das probabilidades que este agora me deixasse entrar e fosse muito simpático e me cumprimentasse com maior ou menor parcimónia. Falso. Manda a lógica que em assuntos de benquerença não haja lógica alguma. O meu amigo M. diz que é da Química. Por mim até pode ser da Física. Mas é lei: o que os outros pensam/sentem de nós é uma coisa, e isso nós não podemos controlar; o que nós somos nem sempre concorda com o que alguns-outros possam pensar a nosso respeito e, a bem da coerência, jamais deverá ser trabalhado em função disso. Isto se o que nós somos pode ser trabalhado. Pois foi dado ao homem o poder de trabalhar ao espelho os rostos de cada dia, mas ainda não lhe foi possibilitado trabalhar a sua natureza por dentro.

sexta-feira, 22 de outubro de 2004

Migrações do Fogo

Apesar de ter publicado o primeiro livro apenas em 1990 (Dois Sóis, A Rosa – a arquitectura do mundo), Manuel Gusmão (n. 1945) é hoje por muitos considerado uma das vozes mais importantes da poesia portuguesa contemporânea. Não que isso importe, mas o facto é que a maturidade da sua poesia tem muito mais a ver com os poetas da sua geração (António Franco Alexandre ou Joaquim Manuel Magalhães, só para dar dois exemplos) do que com as diversas vozes poéticas que vieram à tona na década de 90 do século passado. Para o caso, esta discussão é ainda mais irrelevante porque a poesia de Manuel Gusmão caracteriza-se, desde logo, por uma “intemporalidade” que a coloca acima de qualquer classificação canónica que toda a grande poesia dispensa. Olhando para o título deste seu mais recente livro, Migrações do Fogo, vêm-nos inicialmente à ideia a noção de um movimento cíclico. Talvez não seja de todo descabido pensarmos no conceito nietzscheniano de eterno Retorno: um ciclo onde tudo volta, onde o Mesmo volta; e que volta ao mesmo. «Tudo parece ter outra vez começado. (...) // Recomeçou: retrocedendo, internou-se outra vez / no poema (...).» (p. 11) Assim escreve Manuel Gusmão no primeiro poema - Como Coisas Caindo -, da primeira parte - Alguém Perdendo-se – das três que compõem Migrações do Fogo. As restantes partes, intitulou-as o poeta de Na Noite Das Imagens e Canção Última. Importa saber então a que se refere o poeta quando fala de um fogo que migra: à poesia, à memória, ao amor, à vida, ao próprio tempo? Provavelmente refere-se à «incessante migração das formas do mundo» (p. 34). Por «formas do mundo» entende-se, principalmente, as imagens que povoam os poemas - «estranhas esculturas do tempo» (p. 39). Temos assim que o tempo é o movimento das imagens, o «ritmo cego que não enlaça já ninguém» (p. 26) mas guia aquele que escreve. Daí a recorrência às metáforas do cinema e da música, das imagens em movimento, mas também à noção de labirinto: «O migrante: é ele o labirinto.» (p. 33) Talvez o labirinto possa ser encarado como a história do mundo, sendo que aí o homem ocuparia o papel de «migrante de si mesmo: aquele que perdendo-se continua. / aquele que continua a construir o labirinto // das grandes migrações; o antiquíssimo livro do exílio // em que de si e dos seus se vai perdendo.» (p. 87) Desta forma, os poemas serão como que pequenos filmes que recolhem as imagens, as vivênicas, a experiência, a história do mundo que somos nós. Voltamos ao conceito de eterno Retorno, no sentido em que Deleuze o interpretou: o voltar é a forma original do Mesmo, que apenas se diz do diverso, do múltiplo, do devir. O Mesmo não volta, é o voltar apenas que é o Mesmo daquilo que devém. Ou seja, a essência da história é esse «retorno» sem origem, entendido como movimento perpétuo, contínuo, das coisas do mundo, do poema. «Eu defendo que a poesia é também uma forma de pensamento.» - declarou Manuel Gusmão numa entrevista à revista LER (n.º 54, 2002). De facto, encontramos nesta poesia uma atitude reflexiva que nos impele para um trabalho hermenêutico de índole filosófica. Temos aqui, talvez, uma espécie de fenomenologia do tempo. Porém, mais do que reflectirem o tempo, estes poemas – e, podemos arriscar, toda a poesia deste poeta – são um reflexo da essência do tempo, captando os seus movimentos e racionalizando-os numa pluralidade de perspectivas. Por detrás de uma estética, esta poesia de Manuel Gusmão esconde também uma ética, uma espécie de último folgo humanista que nos remete de novo para a ideia de apenas ao homem caber a sua própria salvação: «Finita e imortal, tu sabes: é a imperfeita perfeição dos corpos / a matéria imemorial que inventou a música ou o amor. / Paga o preço ao espírito, inventa um deus se te perdeste / no mercado e chegaste atrasado ao encontro, // mas não esqueças longa e leve a dança da luz nos corpos / graves. Só eles caindo conhecem a queda que voa. (...) // Paga, paga a morte que vem, para que venha / e não se atrase.» (p. 32) Fica, então, entre outras, uma ideia final: a de que enquanto vamos caindo na direcção da morte, há imagens que passam, partem e tornam a passar por nós, imagens que vão pasando, como num filme, tornando a vida apenas inteligível a partir de uma noção de movimento, noção essa fundadora da própria essência do mundo. Origem sem origem, nascimento e destruição, assim nos é apresentado o mundo na poesia de Manuel Gusmão. Porque tudo o que é, não é estático, vai sendo. A complexidade desta poesia exige, de facto, uma predisposição que nem todo o leitor terá. Porém, não será difícil encontrar, aqui e acolá, poemas cuja força plástica e metafórica poderão cativar mesmo o leitor mais carente de “coisas simples”.

segunda-feira, 11 de outubro de 2004

Sobretudo as vozes

No N.º I da revista Telhados de Vidro (Averno, Novembro de 2003), Silvina Rodrigues Lopes (1950) publicou um pequeno ensaio intitulado A Anomalia Poética. Nele podia ler-se o seguinte: «A poesia lê-se sem ajuda de “especialistas”, e isso em nada contradiz o facto de haver nela uma memória antiquíssima e um pensamento da poiesis e da linguagem, os quais, dada a continuidade linguagem-mundo, ou linguagem-formas-de-vida, não só não podem ser circunscritos, como implicam em simultâneo o desdobrar do pensamento (de muitas maneiras e em muitas direcções), as sensações, percepções e afectos, conscientes e inconscientes.» É precisamente esse desdobramento, entendido como um desafio, que a poesia de Silvina Rodrigues Lopes nos propõe. O conjunto de textos que compõem Sobretudo as vozes, começa por ser inclassificável logo na forma. Dizemo-lo de poemas, por vir «até nós, obscuro e transparente, como o espírito, a inquietação.» (p. 15) Podíamos também falar de aforismos ou pequenos poemas em prosa. Mas não me parece que qualquer tipo de classificação possa delimitar, com maior ou menor pertinência, o campo de acção desta escrita que vale, principalmente, pela força com que procura «negar evidências» (p. 40). O acto de escrever começa por explicar-se a si próprio como um chamamento do desconhecido: «é não sei de onde que agora ouço erguer-se esta voz.» (p. 7) No seu desenvolvimento, ele aparece como construção de um lugar habitável: «Ouço e escavo as palavras até serem casas.» (p. 13) Recordemos, então, a supracitada perspectiva continuista, da relação entre linguagem e mundo, que a autora tem defendido. Repare-se que por continuidade não se deve entender identificação ou uniformaidade: «Em cada palavra, em cada troca, a garra da desigualdade crava-se fundo. Altera a circulação. A vida é morte.» (p. 20) Essa desigualdade inexorável entre linguagem e mundo, acarreta riscos: «É grande o perigo de auscultar as palavras.» (p. 59) E talvez o maior risco seja mesmo o de entender, finalmente, que «as palavras que se recusam a ser como eu. Partem-se. E avisam: não colar os bocados, dão choque.» (p. 62) Dito isto, torna-se claro que a experiência poética só pode ser uma experiência do incerto, uma experiência-limite que terá por sobreviventes as vozes que daí advêm, quais rostos que assinam o ser em todos os seus meandros possíveis. Sobretudo as vozes é um livro que contagia, precisamente, por nele se erigir uma voz livre que se aplica em nos lembrar que «há o selo da eternidade em cada instante.» (p. 31) Nele se encontra uma espécie de ontologia, onde o ser das coisas respira no ser da palavra, ou seja, no ser daquilo que nomeia as coisas. Talvez seja nesse lugar de encontro entre a coisa e o nome que a nomeia, talvez seja nesse lugar irreconhecível e indizível, longe «do estar aqui, que é o nosso viver» (p. 34), talvez seja nesse lugar “ilógico”, poético, diverso, talvez seja aí que morem as vozes de cada um de nós.

terça-feira, 5 de outubro de 2004

Berçário

A colecção Uma Existência de Papel, das Quasi Edições, tem vindo a crescer na rota de uma das mais importantes colecções de poesia portuguesa. Essa importância advém não apenas do facto de ali encontrarem morada novos poetas portugueses (Vasco Gato, Rui Lage, Pedro Sena-Lino, José Rui Teixeira), ombro a ombro com alguns consagrados (José Régio, António Ramos Rosa, Fiama Hasse Pais Brandão, Ana Hatherly), mas também da criteriosa selecção editorial que deixa perceber uma forte inclinação por vozes mais nostálgicas e metafóricas. Se as tendências que uma colecção denota não determinam, por si só, a topografia sentimental de um livro que dessa colecção faça parte, elas servem, mais que não seja, como princípio de um possível enquadramento territorial desse livro, ainda que sob risco de uma tipificação redutora e preconceituosa. Berçário, o segundo livro de Rui Lage (1975), parece-me um óptimo exemplar dessa poesia mais permeável à fulguração de corpulentas imagens do ponto de vista metafórico: «A pele é um passeio breve / sob a lã do firmamento / desde o rio subindo / desde o prado descendo.» (p. 24) Mas o que realmente espanta nestes poemas é o domínio rítmico, cuja natureza deve-se, provavelmente, quer a um depurado trabalho da linguagem, quer à espontaneidade de uma respiração que logra transfigurar os significantes mais comuns intensificando-lhes o sentido: «Numa mão a enxada / na outra o violino. / Ao fim do dia o violino pesa / tremendamente, / a enxada repousa magoada de terra, / guardada pelos ninhos debruçados / sobre a luz da manhã.» (p. 37) Refira-se, então, que estamos num campo afectivo que seduz pela forma como arrisca na irredutibilidade da memória a uma mera descrição do passado. Tal como o título deste conjunto de poemas indica, retoma-se aqui o tempo perdido, as origens, a primeira infância, num conjunto de imagens que rejeitam totalmente uma cristalização do tempo: «Oxalá se perdesse, a memória, / atrás de alguma colina, mas ei-la / de novo, servil como um pequeno cão de rua, / roçando-se de encontro / aos meus joelhos.» (p. 60). Podemos assim concluir que Berçário tem para nos oferecer um conjunto de poemas que nos situam naquele lugar onde o ritmo, a respiração, assenta numa musicalidade que revela a verdade de um sentir, de uma certa forma de sentir. Essa certa forma de sentir exige do leitor uma certa predisposição, sem a qual, parece-me, torna-se difícil captar-lhe «o peso incerto do coração».