Francisco Martins Rodrigues traduziu para português três discursos de Harold Pinter e a Dinossauro publicou-os sob o título A Teia - referência directa a um dos momentos chave do discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura, proferido em Dezembro de 2005. Nesse discurso, amplamente discutido, criticado, debatido, Pinter começa por elaborar uma distinção entre a postura que separa o cidadão do artista perante a verdade. Para o dramaturgo inglês, o artista busca a verdade partindo do princípio que, no universo da arte, ela é sempre fugidia. Já o cidadão deverá antes exigir a verdade, obrigando os actores políticos a um discurso objectivo, claro, inequívoco. Por vezes isso não é possível, pois «a generalidade dos políticos, tanto quanto nos é dado observar, se interessam não pela verdade mas pelo poder» (p. 19). Poucas pessoas se atreverão a duvidar de um estereótipo tão conveniente, mesmo aquelas que, por força de um pensamento claro, objectivo, inequívoco, evitem a todo o custo qualquer tipo de estereótipo. No entanto, por muito que me custe dizê-lo, parece-me haver alguma ingenuidade nesta perspectiva. O que dissocia a arte da política não é tanto o modo de encarar a verdade, como parece ser o modo como se actua sobre essa verdade. O poder da arte reside, precisamente, em (re)construir a verdade, na criação de mundos e universos mais ou menos distantes da realidade, transfigurando-a, pervertendo-a, armadilhando-a. O grande poder da arte é o de dizer a verdade, na medida em que faça implodir o sentido de uma perspectivação única acerca do real. Que pretende com isso a arte? Buscar uma verdade que seja o mais universal possível. A política separa-se aqui da arte por, ao contrário desta, procurar restringir o campo da verdade, fazendo crer que há uma única verdade quando, na realidade, a arte mostra-nos precisamente o inverso. Ora, enquanto cidadão, não me cabe tanto exigir objectividade ao político, o que seria de todo contraproducente, como me caberá antes estar atento aos limites e às restrições que o discurso político me queira impingir sob o manto de uma aparente objectividade. Daí que o que choque, mais uma vez, não sejam as mentiras de Bush e de Blair. O que choca, mais uma vez, é que tanta gente no mundo tenha acreditado nessas mentiras, a ponto de haver reeleito os mentirosos. Estamos perante um imbróglio. Harold Pinter está convencido de que, para se manterem no poder, alguns líderes políticos acham fundamental que as pessoas ignorem a verdade. Não tenho dúvidas disso. Fazem o seu trabalho de políticos. Já Platão, n’A República, falava da mentira útil. A mentira útil é um princípio básico da democracia que passa, desde logo, por procurar convencer os cidadãos de que a democracia é o melhor sistema político de todos os sistemas políticos viáveis. Mas a democracia, seja ela americana ou inglesa, passa também por conceder aos cidadãos a possibilidade de se armadilharem, pelo conhecimento, estando atentas, pelo espírito crítico, contra as teias da política-aranha. Se os cidadãos preferirem cair na teia, o que fazer? Harold Pinter aponta o dedo aos «crimes cometidos pelos Estados Unidos», mas estes crimes não foram cometidos por uma entidade abstracta ou por uma pessoa concreta, foram cometidos por pessoas que apoiariam, sublinharam, aceitaram esses crimes, tornando-se assim cúmplices dos mesmos. Que fazemos a essas pessoas? Reduzimo-las à dimensão dos seus líderes políticos? Não seria isso impor a essas pessoas uma verdade que, em grande parte, não entendem e recusam? Não vale a pena exigir do discurso político objectividade, ele jamais esteve ou estará disposto a aceitar tal exigência. É preferível lutar para que os cidadãos sejam, tanto quanto possível, críticos perante esse discurso. Em democracia não dá para pedir mais. Além de Arte, Verdade e Política, A Teia reúne Somos a Doença (2002) e Subserviência Desprezível (2002), mais dois discursos onde a verdade, sendo a de Pinter e, por simpatia, a nossa, está longe de ser toda a verdade.terça-feira, 29 de agosto de 2006
A TEIA
Francisco Martins Rodrigues traduziu para português três discursos de Harold Pinter e a Dinossauro publicou-os sob o título A Teia - referência directa a um dos momentos chave do discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura, proferido em Dezembro de 2005. Nesse discurso, amplamente discutido, criticado, debatido, Pinter começa por elaborar uma distinção entre a postura que separa o cidadão do artista perante a verdade. Para o dramaturgo inglês, o artista busca a verdade partindo do princípio que, no universo da arte, ela é sempre fugidia. Já o cidadão deverá antes exigir a verdade, obrigando os actores políticos a um discurso objectivo, claro, inequívoco. Por vezes isso não é possível, pois «a generalidade dos políticos, tanto quanto nos é dado observar, se interessam não pela verdade mas pelo poder» (p. 19). Poucas pessoas se atreverão a duvidar de um estereótipo tão conveniente, mesmo aquelas que, por força de um pensamento claro, objectivo, inequívoco, evitem a todo o custo qualquer tipo de estereótipo. No entanto, por muito que me custe dizê-lo, parece-me haver alguma ingenuidade nesta perspectiva. O que dissocia a arte da política não é tanto o modo de encarar a verdade, como parece ser o modo como se actua sobre essa verdade. O poder da arte reside, precisamente, em (re)construir a verdade, na criação de mundos e universos mais ou menos distantes da realidade, transfigurando-a, pervertendo-a, armadilhando-a. O grande poder da arte é o de dizer a verdade, na medida em que faça implodir o sentido de uma perspectivação única acerca do real. Que pretende com isso a arte? Buscar uma verdade que seja o mais universal possível. A política separa-se aqui da arte por, ao contrário desta, procurar restringir o campo da verdade, fazendo crer que há uma única verdade quando, na realidade, a arte mostra-nos precisamente o inverso. Ora, enquanto cidadão, não me cabe tanto exigir objectividade ao político, o que seria de todo contraproducente, como me caberá antes estar atento aos limites e às restrições que o discurso político me queira impingir sob o manto de uma aparente objectividade. Daí que o que choque, mais uma vez, não sejam as mentiras de Bush e de Blair. O que choca, mais uma vez, é que tanta gente no mundo tenha acreditado nessas mentiras, a ponto de haver reeleito os mentirosos. Estamos perante um imbróglio. Harold Pinter está convencido de que, para se manterem no poder, alguns líderes políticos acham fundamental que as pessoas ignorem a verdade. Não tenho dúvidas disso. Fazem o seu trabalho de políticos. Já Platão, n’A República, falava da mentira útil. A mentira útil é um princípio básico da democracia que passa, desde logo, por procurar convencer os cidadãos de que a democracia é o melhor sistema político de todos os sistemas políticos viáveis. Mas a democracia, seja ela americana ou inglesa, passa também por conceder aos cidadãos a possibilidade de se armadilharem, pelo conhecimento, estando atentas, pelo espírito crítico, contra as teias da política-aranha. Se os cidadãos preferirem cair na teia, o que fazer? Harold Pinter aponta o dedo aos «crimes cometidos pelos Estados Unidos», mas estes crimes não foram cometidos por uma entidade abstracta ou por uma pessoa concreta, foram cometidos por pessoas que apoiariam, sublinharam, aceitaram esses crimes, tornando-se assim cúmplices dos mesmos. Que fazemos a essas pessoas? Reduzimo-las à dimensão dos seus líderes políticos? Não seria isso impor a essas pessoas uma verdade que, em grande parte, não entendem e recusam? Não vale a pena exigir do discurso político objectividade, ele jamais esteve ou estará disposto a aceitar tal exigência. É preferível lutar para que os cidadãos sejam, tanto quanto possível, críticos perante esse discurso. Em democracia não dá para pedir mais. Além de Arte, Verdade e Política, A Teia reúne Somos a Doença (2002) e Subserviência Desprezível (2002), mais dois discursos onde a verdade, sendo a de Pinter e, por simpatia, a nossa, está longe de ser toda a verdade.domingo, 27 de agosto de 2006
OS CICLOS DO BAMBU
Há uns bons meses, em crónica no jornal Expresso, Clara Ferreira Alves elencou aqueles que considera serem «os grandes autores da segunda metade do século XX e do século XXI que temos»: Philip Roth, J. M. Coetzee, Salman Rushdie, Martin Amis, Michel Houellebecq, John Le Carré, Harold Pinter, V. S. Naipaul, ou o português José Saramago. Na opinião da cronista, estes autores caracterizam-se por manterem «a visão distópica e negra como sustento da sua narrativa, da sua escrita e da sua voz». Dito de outra forma: «Não acreditam no triunfo da humanidade, pelo contrário, condenam-na e desautorizam-na, à luz da iniquidade histórica do tempo e da mania de destruição e autodestruição que continua a ser a principal característica do predador humano». Tendo sempre a desconfiar deste género de caracterizações, destas hierarquias valorativas, destes modos de organizar o mundo e a literatura enquanto representação escrita desse mesmo mundo. Não sei se aqueles são os grandes escritores do século XXI, nem se a sua literatura consiste numa afirmação dessa tal «visão distópica e negra» da humanidade. Chego mesmo a suspeitar que as visões distópicas e negras da humanidade surjam mais das perspectivas preconceituosas com que olhamos o mundo à nossa volta do que do mundo ele mesmo. Afinal de contas, não sendo o homem muito diferente do que era na antiga Grécia, vive-se hoje incomensuravelmente melhor do que se vivia naqueles tempos. A diferença residirá, talvez, na pressa com que se vive e no modo como a toda a hora nos chegam e afectam os males de quem vive. Não creio que esteja a ser optimista reconhecendo o que para mim, apesar de tudo, parece óbvio. Da humanidade não se pode esperar que não seja humana. Isto é: cínica, cruel, invejosa, bárbara, hipócrita, mesquinha, energúmena; mas também: criativa, sincera, lúdica, solidária, inteligente, sábia, verdadeira. Tudo isto são os homens e as mulheres que compõem aquilo a que chamamos humanidade. Privar esta humanidade de uma das suas facetas será, inevitavelmente, assumir uma perspectiva preconceituosa acerca da mesma. Mas que tem tudo isto que ver com literatura? É que as asserções de Clara Ferreira Alves deixaram-me a pensar que, hoje em dia, uma literatura contracorrente será aquela que se oponha ao paradigma das visões distópicas e negras da humanidade. Será uma literatura ligeira sem ser vazia, uma literatura de esperança que não resvale na crendice, uma literatura sóbria (mas não excessivamente racional), uma literatura que divirta sem provocar aquele tédio próprio do entretenimento desprovido de sentido, uma literatura onde ainda se encare a humanidade sob o ponto de vista de uma eterna aventura, uma literatura que não negue à humanidade a sua natureza: ser parte integrante dessa Natureza da qual há muito começou a se afastar - “Sejam férteis e cresçam; encham a terra e dominem-na; dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.” Xavier Queipo (n. 1957) não será um dos «grandes autores da segunda metade do século XX e do século XXI que temos», mas é uma literatura dessas, contracorrente portanto, a que nos propõe na colectânea de contos que a Deriva publicou em Novembro passado. Os Ciclos do Bambu, assim se chama a compilação, reúne um belo conjunto de textos escritos sob o signo do Oriente e das filosofias orientais. Não se trata de patacoada Zen, fundamentada naquele tipo de culto pueril que enche salas de yôga e faz as delícias de uma burguesia ocidental dedicada à contemplação duas vezes por semana. Estes contos, repletos de referências à filosofia taoista, a pequenos poemas orientais, a provérbios chineses, escritos por vezes como se fossem «um mantra de palavras inventadas ou sonhadas», promovem um sossego e um equilíbrio que chega a ser estranho de tão desprezado na literatura actual. «São escolhas, rupturas da ansiedade primordial, inflexões no trânsito» (p. 97). Pois são, e cada qual escolhe viver como quer, a ler, se assim quiser, o que quiser. Xavier Queipo é médico, vive em Bruxelas, tem vários livros publicados (romance, contos, poesia). Eu comecei por aqui, mas vou procurar mais.quinta-feira, 24 de agosto de 2006
O ACOSSADO
É provável que o verdadeiro interesse de «À Bout de Souffle» (1960), primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard (n. 1930), esteja hoje contaminado pela importância que assumiu na história do cinema mundial. Seja como for, é um dos filmes que revejo sempre com reduplicada satisfação. Primeiro porque é um filme divertido, mesmo lúdico, repleto de jogos de palavras, de envios, contrastes, e de cenas com um sentido de humor primoroso; depois porque é um marco do cinema mundial e, principalmente, de um dos movimentos cinematográficos, a Nouvelle Vague, onde singraram quase todos os meus realizadores franceses de eleição (Agnès Varda, François Truffaut, Alain Resnais, Eric Rohmer, Jacques Rivette); finalmente por se tratar de um filme de Jean-Luc Godard, de quem guardo bem vivos na memória, pelo menos, duas mãos cheias de filmes: «Vivre sa vie: Film en douze tableaux», «Le Mépris», «Pierrot le fou», «Masculin féminin: 15 faits précis», «2 ou 3 choses que je sais d'elle», «Tout va bien», «Numéro deux», «Je vous salue, Marie», «Hélas pour moi» e, claro, o iniciático «À Bout de Souffle». Dos mais recentes, reconheço, só «Éloge de l'amour» contribui verdadeiramente para o meu habitual estado insone. O argumento de «O Acossado», adaptado por Godard a partir de um texto original de François Truffaut, é sobejamente conhecido. «Michel Poiccard, 1,79m, cabelos castanhos, antigo comissário de bordo da Air France, recebe correio através da agência Inter-Americana», é procurado por homicídio. Apaixonado por Patricia Franchini, uma americana empregada no International Herald Tribune, propõe-lhe uma mudança para Roma. Patricia, cujas dúvidas acerca do amor por Poiccard não são omitidas, hesita. Grávida, dividida entre a relação com o libertino Poiccard e um bem sucedido jornalista do jornal onde trabalha, Patricia vive a angústia típica das personagens existencialistas: «Não sei se sou infeliz por não ser livre ou se não sou livre por ser infeliz.» Michel Poiccard, interpretação estupenda de Jean-Paul Belmondo, vive de roubar carros, cujas marcas vai debitando ao longo do filme, e de citar Humphrey Bogart nos gestos. Os diálogos com o cinema norte-americano são constantes. A própria relação entre Poiccard e Patricia, uma lindíssima Jean Seberg, é ironicamente apresentada como uma aproximação franco-americana. Godard, como outros da sua geração, nunca escondeu o fascínio pelo cinema americano. Enquanto crítico de cinema, durante a década de 1950, na Gazette du cinema e nos Cahiers du Cinema, cita Griffith, Nicholas Ray, Hitchcock, entre muitos outros. «Um filme de Hitchcock, por exemplo, é tão importante como um livro de Aragon.» - escreverá em 1959. Mas «O Acossado» é mais que uma mera tentativa de aproximação ao "film noir", é todo um tratado sobre a traição filmado ao ritmo de uma frenética banda de jazz. A cada sopro no saxo, um novo plano nos surge. Patricia, que termina a denunciar o paradeiro de Poiccard à polícia, em nenhum momento merece a nossa censura. Assim como o desregrado Poiccard dificilmente nos inspira outra coisa que não seja fascínio e, porque não confessá-lo, admiração. Ele põe constantemente em causa o convencional, as leis de uma sociedade a afundar-se vertiginosamente numa insuportável normalidade, as normas e os valores que fundamentam a castração da liberdade individual. Em «Les 400 Coups», de François Truffaut, é igualmente esse grito de liberdade o que mais se evidencia. Poiccard não foge da morte, ele foge para a morte. Ao contrário do escritor que Patricia entrevista, ele não ambiciona tornar-se imortal para depois morrer. Ele ambiciona apenas ser ele próprio enquanto caminha para a morte.
terça-feira, 22 de agosto de 2006
ÁGUA, CÃO, CAVALO, CABEÇA
Apesar de escrever muito, Gonçalo M. Tavares (n. 1970) não nos exige muito tempo de leitura. Não porque tudo o que escreva seja breve ou muito do que publique seja mau. Admirador declarado que sou da sua poesia e de alguma da sua ficção, dificilmente me ocorreria classificar de mau um livro do autor de Jerusalém. Quanto à brevidade de muitos dos seus textos, bem sabemos não ser ela o garante de uma leitura acelerada. Rimbaud, por exemplo, escreveu pouco e curto, mas demora séculos a ser lido. O tempo que me demorou a leitura deste Água, Cão, Cavalo, Cabeça (Caminho, Abril de 2006) foi o tempo de intervalar dois mergulhos num mar de Agosto. Arrumado na prateleira da ficção, este livro mistura dentro de pequenas histórias apontamentos vários que vão da crónica íntima ao aforismo de cariz mais existencial. Alguns contos parecem-me muito bons, como um intitulado A higiene pessoal, sobretudo quando abordam com impressionante concisão as obsessões literárias do autor: o corpo e a sua domesticação, a loucura ou a doença, a morte, a oposição entre o social e o individual, entre outras. Nesses contos, chamemos-lhes assim, deparamos frequentemente com fragmentos narrativos que, quanto a mim, valeriam só por si uma outra autonomia. Um exemplo pode ser o de três breves parágrafos do conto Um coração de rosas: «Contei-te que às três da manhã encontrei um cão ferido e o levei nos braços e apareceu o dono uns metros mais à frente e perguntou-me o que é que eu fazia: ele queria abandonar o cão, eu que o deixasse, ele era o dono. Acabei na casa dele, os dois e o cão, ele a contar-me a vida. Tinha tido uma avó que adorava o cão, mas a avó morreu e ele agarrou na pata do cão e com uma pistola de só fazer barulho, primeiro atirou na pata do cão, e isto é violento, mas não é muito violento, e depois agarrou na cabeça do cão e encostou a pistola à cabeça do cão. / - Nunca pensei que tivesse efeito. / (A forma como o cão caminha não foi do tiro no pé, mas na cabeça: está louco, o cão, vê-se nas pernas.)» (p. 23) Acontece que Gonçalo M. Tavares não se contenta, quanto a mim infelizmente, com esta brevidade. Complica desnecessariamente a história, não a tornando propriamente indecifrável mas condenando-a, senão forçando-a, a uma espécie de teia de relações esquizofrénica que acaba por descorporalizar ou fragmentar os muitos corpos que são o corpo de uma só ficção. Se a intenção era essa, o exercício revela-se eficaz mas não deixa de ser óbvio. Se a intenção for outra, o exercício revela-se, em larga medida, meramente fastidioso. O que há de melhor a retirar destas ficções é o negrume de um humor que poderá escapar, dada a ruína e a decadência a todo o momento patenteadas. Entrevê-se também um erotismo declinado na figura recorrente da prostituta. Logo na primeira ficção aparece-nos assim: «Dois soldados, em vez de enterrarem os cadáveres dos seus amigos mortos em batalha, escaparam às ordens, e num pequeno bar, ainda com o uniforme manchado, mandam vir uma mulher – uma prostituta – e os dois sobem com ela para um quarto e fornicam-na. Um colando-lhe o pénis na boca e o outro fornicando-a por trás como fazem os cães às cadelas e os homens às mulheres ou a outros homens» (p. 10). O sexo enquanto produto de consumo, as mulheres transaccionadas ao balcão como se fossem cocktails (perdoem-me o trocadilho rasteiro), algumas cenas domésticas mais desconfortáveis, o canino modo de viver humano, dão-nos uma imagem do mundo demasiado concentrada no que o enferma. Se o mundo fosse só isso, nenhuma oportunidade de suicídio seria desperdiçada.sexta-feira, 18 de agosto de 2006
A PORTA ESTREITA
Há muito que andava para ler qualquer coisa de André Gide (n. 1869- m. 1951), Nobel da Literatura de 1947. A curiosidade sobre a sua obra fui buscá-la a um texto de Arthur Cravan (n. 1887 – m. 1918), incluido por Breton na Antologia do Humor Negro, dedicado ao fundador da Nouvelle Revue Française. Nesse texto, Cravan descreve do modo que a seguir se reproduz o venerável M. Gide: «não se parece com um filho do amor, nem com um elefante, nem com vários homens: parece-se com um artista; e quero fazer-lhe um simples cumprimento, aliás desagradável: a sua pluralidadezinha vem-lhe do facto de ele poder, à vontade, ser considerado um cabotino». Convém dizer que Cravan, sobrinho de Oscar Wilde, era uma espécie de «erva-do-diabo»: atraente na forma e nos efeitos, mas mortífera quando indevidamente (in)gerida. Pugilista de ofício e das letras, Cravan editou efemeramente uma pequena revista de nome Maintenant, negociada em regime ambulante, que viria a fazer as delícias dos dadaístas. Como sempre me atraíram os malvados e os alvos das suas malvadezas, aguardei oportunidade para me atirar à obra de André Gide (de resto, também ele incluído na antologia supracitada). Nascido em Paris, Gide foi autor de uma vasta obra que se desdobrou em vários domínios (da poesia ao romance, da novela ao ensaio, do teatro à literatura de viagens). Por preguiça, peguei no seu único livro que morava cá em casa, A Porta Estreita, numa edição há não muito tempo distribuída com o Diário de Notícias. Trata-se de uma novela publicada em 1909, onde são facilmente reconhecíveis múltiplos aspectos da vida do autor. Como Jerónimo, o narrador-personagem, Gide perdeu o pai aos 11 anos, foi criado pela mãe e por uma tia, enamorou-se por uma prima ainda em tenra idade. Desse enamoramento dá conta A Porta Estreita. A educação puritana de que foi alvo aparece bem traduzida no retrato traçado da sociedade do Havre e nos percursos das personagens (eles dedicam-se aos estudos, ao noivado e ao serviço militar; elas dedicam-se às crises, ao noivado e às crises). É o próprio autor quem fala da «disciplina puritana» à qual terão sido submetidos os impulsos do seu coração, inclinando-o para aquilo a que entendia chamar de virtude. Até aqui tudo parece auto-biográfico, mas sucede que enquanto Gide se casou com a prima, teve uma filha de uma outra relação e assumiu mais tarde a sua condição homossexual, Jerónimo viu-se enredado numa teia amorosa com termo trágico. Apaixonado pela prima Alissa, Jerónimo descobre que esta resiste ao seu amor por saber da paixão que sua irmã, Julieta, nutre pelo primo. A consciência beata de Alissa impele-a ao sacrifício em nome da irmã, deixando Jerónimo na agonia de um amor cuja distância era apenas interrompida pela troca de correspondência. A parte final da novela consiste precisamente na transcrição dessas cartas, culminando com as páginas do diário de Alissa onde se exalta o poder do Senhor na expiação dos pecados: «Como a alma deve ser feliz para que a virtude se confunda com o amor! Às vezes, duvido de que exista outra virtude além da virtude de amar, de amar o mais possível e cada vez mais… Mas, outras vezes, Santo Deus! A virtude afigura-se-me como uma resistência ao amor! Mas, ousarei chamar virtude à mais natural tendência do meu coração! Oh, atraente sofisma! Oh, atracção capciosa! Capciosa! Miragem maligna da felicidade!» (p. 109) Convertido ao comunismo em 1930, Gide nunca negou esforços na busca do sagrado. Nesta novela essa busca está patente nas crises morais das personagens, sobretudo em Alissa - que prefere a santidade à felicidade. Ainda que bastante crítico, o catolicismo pode também aqui ser entendido como um entrave do coração quando parta do princípio, porventura falso ou estupidamente puritano, de que à virtude se opõe o amor, de que à santidade se opõe a felicidade. Em última análise, esta curta novela pode ser lida como uma espécie de acusação do puritanismo matricial na vida de Gide. Eu é que, confesso, não tenho muita pachorra para as crises existenciais dos bem nascidos.quinta-feira, 17 de agosto de 2006
ESSES DIAS
Tal como uma reprodução dificilmente fará justiça ao original, um livro que reproduza um weblog raramente logrará o efeito de leitura do suporte que o originou. Talvez por culpa de preconceitos como este, nunca me senti seduzido pela leitura de livros baseados em weblogs. Sobretudo tratando-se de um livro cuja essência sobreviva de um certo equilíbrio entre os ritmos de produção e de leitura. Ler diários não é propriamente o mesmo que ler um weblog, já que o segundo permite uma interactividade que escapa aos primeiros. Desconfio que O Ofício de Viver, de Cesare Pavese, ou mesmo o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, teriam assumido outras direcções se os seus autores possuíssem e-mail e caixa de comentários num sítio onde tivessem publicado com uma certa periodicidade as entradas desses livros. À excepção das mil e uma pequenas histórias, de Luís Ene, pequena parte de um weblog que cheirava a livro desde o início, jamais me ocorreu adquirir um livro que estivesse acessível na rede. Li Os Dias Não Estão Para Isso, poemas que Nuno Costa Santos colheu no seu melancómico. Mas aqui o caso é substancialmente diferente dos demais, pois trata-se não de um weblog passado a livro mas de uma parte desse weblog posteriormente reorganizada tendo em vista um suporte editorial diverso. De weblogs como O Meu Pipi e o Rititi, nunca fui fã; prefiro o Gato Fedorento em DVD; o Barnabé e o Dicionário do Diabo (este último, de Pedro Mexia, aparecido em livro com o título Fora do Mundo), li religiosamente enquanto weblogs, mas nunca me passou pela cabeça comprá-los em livro. Há ainda os weblogs que nunca li mas, por razões que ao divino senhor caberá esclarecer, foram de tal forma «referência na Internet» que alguns editores viram neles uma absoluta necessidade de edição em papel (tome-se de exemplo No Parapeito, de Rita Ferro Rodrigues). Um dia ainda diremos: mais valem alguns weblogs a naufragar que certos livros na mão. Não é o caso de Esses Dias – HenryKiller.Blog (Canto Escuro, Abril de 2005), cujo autor e editor Vítor Vicente (n. 1983) em boa hora me fez chegar às mãos. Objecto obscuro, dificilmente me proporcionaria as horas de prazer que proporcionou não fosse a urbanidade do seu autor. O mais fácil seria catalogar de literário este HenryKiller.Blog, mas tudo se extravasa nesta escrita (mormente os catálogos). De estro tão hábil quanto incisivo, as entradas denunciam um culto levado à prática por tudo o que seja «literatura libertária» e afins. O autor não se inibe de declarar as suas preferências, sejam elas literárias (Miller e Burroughs), filosóficas (Marx e Nietzsche), melómanas (Mão Morta e Nick Cave), cinéfilas (João César Monteiro e Woody Aleen) ou poéticas (Pessoa e Rilke). Sucedem-se fascinadas leituras de livros, relatos quotidianos, evocações de amigos, microbiografias, elogios ao comunismo, numa fluidez literária que desculpa a ausência de uma revisão mais criteriosa à qual escaparam algumas gralhas de outra forma imperdoáveis. Mas os momentos mais entusiasmantes deste diário outrora on-line são, quanto a mim, os relatos da sobrevivência académica. Ex-aluno de Filosofia, transferido da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Vítor Vicente não se poupa na denúncia da xaropada burocrática que enferma o mundo académico português: «Ninguém sabe nada. A ignorância é generalizada, como uma febre que alastra indiscriminadamente pela população. Tudo são signos ilegíveis e códigos indecifráveis» (p. 17). Fá-lo citando nomes e numa linguagem que não pede licença nem reza a Deus, ciente das consequências da atitude passada a comportamento: «Ser desbocado sai caro. Paga-se uma taxa alfandegária muito alta por se transpor a fronteira da linguagem ligeira e cómoda, por se fazer da boca a porta-voz do que nos vai no cérebro e/ou no coração» (p. 153). Durante um ano de weblog o autor diz ter-se divertido. Ao lê-lo agora, diverti-me eu.
Subscrever:
Comentários (Atom)
