Quarta-feira, 31 de Agosto de 2011

DAISY MILLER

Na introdução a esta edição de Daisy Miller (Penguin, 1986), o falecido professor de literatura Geoffrey Moore afirma que a novela de Henry James dividiu os leitores norte-americanos em dois tipos: Daisy Millerites e anti-Daisy Millerites. Isto hoje seria remotamente possível. Não por qualquer falha na prosa de James, cujo estilo fica bem sintetizado na expressão down-to-earth (aquilo a que alguns críticos portugueses menos exigentes tenderiam a classificar de realismo), mas porque Daisy Miller não passaria de uma vulgar e algo decepcionante jovem. Lida à luz da época, a mulher carregava sobre os ombros o peso de uma formalidade deveras opressora e pouco consentânea com a soltura da jovem em causa. Hoje, o que então era classificado de impróprio, é impróprio de outra maneira, é careta.

De certa forma, o tempo foi inimigo de Daisy Miller. Se interpretarmos a obra sob o prisma de uma oposição entre o modo de vida norte-americano e o modo de vida europeu, facilmente nos confundimos com o esbatimento das delimitações que então ainda separavam o Velho do Novo Mundo. As poucas diferenças que ainda se verificam são demasiado ténues para que insistamos em oposições ou conflitos culturais. No mesmo desvairado turbilhão de elementos, vamos encontrando pólos de resistência, mais ou menos identificáveis, a um irreversível processo de aculturação. Por outro lado, a perspectiva da libertação feminina, quer na sociedade europeia, quer na sociedade norte-americana, já não deixa espaço para grandes reivindicações. As assimetrias que persistem em justificar a luta feminista foram sendo naturalmente secundarizadas pela emergência de novos grupos de maltratados, os quais souberam chamar a si a importância da transformação social.

Ora, neste sentido, Daisy Miller podia ser hoje em dia uma espécie de José Castelo Branco, a ave rara que motiva tanto escárnio quanto ódio, o indivíduo para o qual as atenções se viram por culpa da sua excentricidade. O que os/as afasta é de pormenor. Daisy Miller é naturalmente mulher, cativante pela beleza, sedutora pela informalidade. Um flirt. Já José Castelo Branco é artificialmente andrógino, repugnante pelo grotesco, repelente pela extrema e previsível solenidade que exibe a toda a hora. Um bluff. Que as televisões o transformem em estrela, que os jornais o chamem à página, que as revistas o persigam, diz bem da pobreza de espírito da sociedade globalizada em que vivemos. Somos parte integrante desta decadência porque não logramos não sê-lo, é-nos inevitável. Não foi dado ao homem o dom de sair da sua abjecta humanidade. Não admira, pois, que esse produto nascido em Moçambique, criado num dos mais conservadores dos países europeus e emigrado para a capital do Império, possa tornar-se num símbolo da globalização tal como a fomos absorvendo. Sempre que vos falarem em globalização pensem no José Castelo Branco. Verão que o efeito é esclarecedor.

Mas há, por fim, uma dimensão em Daisy Miller que a enobrece e a livra de qualquer perspectiva mais rebuscada ou redutora. É uma dimensão universal porque pode ser chamada a todos aqueles que, independentemente da sua matriz sociocultural, nascem com os pés fora da camilha maioritária, os desabrigados, as chamadas ovelhas negras, os extraviados do rebanho, os solitários. O carácter espontâneo − ingénuo aos olhos de uns, impuro aos olhos de outros − de Daisy Miller não prefigura apenas aquele vitalismo facilmente detectável nos autores do Novo Mundo. O que há de natural em Daisy Miller é a sua morte prematura, é a constatação de que toda a autenticidade sucumbe à doença dos tempos, a domesticação imposta por uma sociedade incapaz de conviver com os desejos dos seus corpos. Não sabemos se a jovem Daisy era inocente, cremos apenas que Henry James não foi inocente ao criá-la, ainda que se tenha defendido chamando pura poesia à sua criação.

Terça-feira, 30 de Agosto de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #25



Às portas do século XXI, Scott Walker, com as pupilas feridas de luz, cantava: Do I hear 21, 21, 21… O tom estava dado. Farmer in the City, tema de abertura deste Tilt, lembrava um dos maiores poetas do século passado: Pasolini. Tudo perfeito, os arranjos de cordas da Sinfonia of London, os sintetizadores de Brian Gascoigne, as percussões de Ian Thomas, a voz cavernosa do intérprete, uma melancolia arrebatadora debaixo de um título certeiro. Com uma carreira encetada ainda na década de 1960, Scott Walker havia sido ofuscado por problemas psiquiátricos graves. 1995 marcou o regresso. É um disco doloroso, difícil, negro. Entre o canto lírico e o rock industrial, o drama encenado em Tilt percorre as vielas devolutas de uma Tempo em ruínas. As palavras limitam-se a sugerir imagens, situações grotescas, relações sadomasoquistas com a decadência do mundo. Óptimo velório do século XX, funesta premonição dos tempos vindouros. Curiosamente, em todos os temas há momentos penetrados por uma estranha luz. Imagine-se um quarto escuro súbita e momentaneamente trespassado por finíssimos raios solares, novamente ocultados por nuvens densíssimas em trânsito intermitente. É esse o ambiente que se experiencia no trabalho de Scott Walker.

DICIONÁRIO

Uma cliente com sotaque brasileiro pediu-me um dicionário de Português – Brasileiro.

O PODER DA IMAGEM

Há dias, a Ana disse-me que é amiga de um indivíduo no Facebook que tinha escrito isto: «Coloco os pêlos do nariz no vidro da janela e revejo as memórias a morder as costas das montanhas, onde o Verão incendeia a crista das folhas». Desde então, não me sai da cabeça a imagem de um tipo a colocar pêlos do nariz no vidro de uma janela. Nem sequer quero saber de memórias a morder as costas das montanhas. A imagem dos pêlos do nariz no vidro de uma janela é suficientemente forte para que eu não queira saber do resto. Hei-de experimentar fazer o mesmo. A Ana depois limpa.

Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

WASSILLY

As personagens de Break It Down (Lydia Davis) são geralmente paranóicas, sofrem de uma disfuncionalidade doméstica que as impele para um labirinto de reflexões inconsequentes. Ou ocupam lugares instáveis em famílias à beira do abismo, ou estão perdidas no deserto do ensimesmamento. Separações, divórcios, sonhos adiados por desilusões devastadoras são os argumentos que dão forma a existências cujas vidas parecem justificar-se apenas pela procura de momentos pacificadores. De todos, o conto que mais me cativou foi Esboços para uma Vida de Wassilly. Wassilly (was silly?), sendo a mais ficcional das personagens, é igualmente a mais realista. Tem qualquer coisa de sartriano, embora a náusea ainda não o tenha derrotado definitivamente. A sua batalha é íntima, não está em conflito com o mundo nem com os outros. Apenas consigo próprio, com o desânimo que o tomou, com a desilusão que o assaltou. Lydia Davis é genial na objectividade que coloca na caracterização do seu personagem: «ele era apenas um intelectual gordo», «uma pessoa agradável mas ineficaz». E ainda que a ideia que construiu de si próprio esteja desfasada da realidade, Wassilly não tem solução senão viver o resto dos seus dias na companhia de um cão. No mundo real, só falta o cão aos wassillyanos.

A MÃE





A rapariga escreveu um conto. «Muito melhor era escreveres um romance», disse-lhe a mãe. A rapariga construiu uma casa de bonecas. «Muito melhor era uma casa a sério», disse-lhe a mãe. A rapariga fez uma pequena almofada para o pai. «O que lhe fazia mesmo falta era uma manta», disse-lhe a mãe. A rapariga cavou um pequeno buraco no jardim. «Muito melhor era teres escavado um buraco grande», disse-lhe a mãe. A rapariga cavou um buraco grande e adormeceu lá dentro. «Muito melhor era dormires para sempre», disse-lhe a mãe.



Lydia Davis, in Break It Down − Demolição, trad. José Mário Silva, prefácio de José Luís Peixoto, Ulisseia, Outubro de 2010, p. 139.

Domingo, 28 de Agosto de 2011

DIETA


A apregoadíssima dieta do Estado está a dar os seus resultados. Enquanto o Estado emagrece, o Governo engorda: Dois meses depois de ter tomado posse, o Governo já nomeou quase 500 funcionários para o Executivo, com o gabinete do ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares a liderar a lista, com 65 elementos. Razão tinha Sílvia Ramos: Este é o momento…de se correr atrás de lugares… Portanto, correr é o princípio da dieta. O exercício físico faz milagres.

EM QUE MUNDO VIVES?



Pessoas amigas acusam-me de pessimismo, de passar muito tempo a pensar em supostos paraísos perdidos.




É provável que estejam certas, mas fica-me sempre a dúvida:






em que mundo viverão essas pessoas?

Sábado, 27 de Agosto de 2011

FAMÍLIA



Chief Joseph and his family in Leavenworth where they were exiled from 1877 to 1885.

NEVER FORGET MY DYING WORDS

Entre as figuras carismáticas dos índios da América do Norte, Sitting Bull e Geronimo talvez sejam os mais populares. Muitas horas de cinema, quase sempre numa perspectiva enviesada e facciosa, encarregaram-se de construir os mitos. O chefe da tribo dos Apaches Chiricauas deixou-nos um testemunho autobiográfico que pode ajudar a desmentir os mitos e a repor alguma verdade histórica (Geronimo e os Apaches – Autobiografia do Último Chefe Índio, Edições Sílabo, 2005 – a edição da Antígona não se encontra tão acessível). Quem merece igual atenção é o chefe Joseph, líder dos Nez Percé, que a Largebooks se encarregou de relembrar num volume atabalhoado intitulado O Futuro do Homem – Premonições de Índios Norte-Americanos (Março de 2011). O livro vale pela reprodução de um discurso de Joseph proferido em 1879.

Chefe Joseph (1840-1904), de seu verdadeiro nome Hinmuuttu-yalatlat, nasceu no vale Wallowa, na região de Oregon. Era filho de um chefe que, segundo alguns historiadores, ter-se-á convertido ao cristianismo. Daí o nome Joseph, herdado do pai. Como muitas tribos ameríndias, os Nez Percé (Narizes-Furados) devem a sua designação a um processo de aculturação que começou com a chegada dos primeiros colonos, exploradores e missionários. Eram estes quem os baptizava em função de características específicas. No caso, ficaram assim conhecidos por ostentarem argolas no nariz. Joseph relembra-o no seu discurso, uma narrativa eloquente que percorre a história dos Nez Percé desde os primeiros contactos com os homens de rosto branco até à deslocação para reservas, passando pelos conflitos armados e pela resistência à alienação territorial.

Joseph era um pacifista, sempre evitou derramar sangue e procurou tanto quanto lhe foi possível serenar os espíritos mais revoltados dos elementos da sua tribo. Ainda que não nos seja possível determinar a autenticidade das suas afirmações, ficam para a história, neste seu discurso, uma tremenda preocupação com o valor da palavra e a demanda de uma justiça assente nos princípios da igualdade e do direito à liberdade: «Pedimos que a mesma lei se aplique a todos os homens. Se o índio infringe a lei, que seja castigado conforme a lei. Se o homem branco infringe a lei, que seja castigado também» (p. 69). As acusações destes chefes tribais aos sucessivos governos dos EUA manifestam invariavelmente uma inexorável desconfiança perante o valor da palavra junto do homem branco. Falando num modo claro e conciso, sem recorrer à retórica das parábolas que funda a lógica judaico-cristã, o índio não percebe a facilidade com que o homem branco se desdiz. Para o índio a palavra tem o valor da rocha, ela é garantia de verdade, entre ela e os actos não se podem verificar desvios. Vale tanto como a coragem, a amizade, a sinceridade, a Terra.

Ao morrer, o pai de Joseph transmitiu-lhe a necessidade da desconfiança. Ao mesmo tempo, e na mesma proporção, incutiu-lhe a importância de defender a terra, não enquanto propriedade transaccionável, mas como bem universal:

My son, my body is returning to my mother earth, and my spirit is going very soon to see the Great Spirit Chief. When I am gone, think of your country. You are the chief of these people. They look to you to guide them. Always remember that your father never sold his country. You must stop your ears whenever you are asked to sign a treaty selling your home. A few years more and white men will be all around you. They have their eyes on this land. My son, never forget my dying words. This country holds your father's body. Never sell the bones of your father and your mother.

Na mente do índio, o conceito de propriedade diverge fortemente daquele que enforma a economia ocidental. Porque a terra não é de ninguém, não pode ser vendida, comprada, transaccionada. É um bem sobre o qual o homem nasce, cresce e morre, deixando aí as marcas da sua passagem pelo mundo. O processo de apropriação territorial de que os índios foram alvo, a par de uma aculturação forçada e de uma conversão imposta, não constituiu apenas mais um extermínio do homem sobre o homem. Foi, sobretudo, uma amputação irreversível da Natureza, que se viu assim privada dos povos e das culturas que melhor a compreendiam.

Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011

EIS A RELVA

Henry David Thoreau falava de uma tal de Society for the Diffusion of Useful Knowledge. Não nos é difícil imaginar a palidez dos membros de uma sociedade com tal designação. Nada distingue mais o homem dos outros animais do que esta pretensão do conhecimento, uma pretensão a partir da qual soube o bicho-homem edificar obras magníficas e sobre a qual conseguiu também arruinar grande parte do que edificou e outra grande parte do que para ele fora edificado. É isto o bicho-homem: um animal ingrato, constrói para destruir e, não satisfeito, encarrega-se igualmente de destruir o que não construiu − os vales, as falésias, os fiordes, as serras, as montanhas, os oceanos, a floresta, toda a criação que fala por si mesma e não cabe nas enciclopédias humanas. O conhecimento, para Thoreau, não estava no domínio sobre a natureza, mas residia ele mesmo nessa fonte de todas as coisas. Os índios com quem Thoreau travou conhecimento pensavam da mesma forma, isso mesmo lhe terão dito. O mal está em pensarmo-nos escravos de quem nos cria e quem nos oferece tudo o que é essencial para que possamos viver a vida que nos cabe, a Natureza. Mas viver a vida que nos cabe não é digno para um gene egoísta em desenvolvimento. O gene egoísta pretende o controlo das forças vitais, distancia-se da vida, arrasta-se num sofrimento atroz na direcção da sobrevivência solitária e mendicante, escravo das suas próprias ambições como uma larva em busca de conforto. A Society for the Diffusion of Useful Ignorance proposta por Thoreau parece-nos muito mais aceitável. A um Useful Knowledge preferimos uma Useful Ignorance. Esta ignorância útil traz implícito um sentido mais nobre e mais elevado, o sentido da vida. Quem tem a Terra não precisa de outro sentido, quem insiste em desmenti-la busca no Céu a resposta para as suas angústias. Um ateísmo esclarecido pressupõe a utilidade da ignorância. Não nos interessa conhecer Deus quando temos a Natureza à mão, não nos interessa o Céu quando podemos caminhar sobre a relva. As coisas divinas materializam-se nos demónios bíblicos: nas pragas, nas pestes, nas temíveis tempestades, nos dilúvios, nos furacões, nos tornados, nos tsunamis, nos terramotos… Basta-nos essa força. É nela que encontramos inspiração para a vida, o deslumbramento dos néscios, dos selvagens, dos ignorantes. Ignorar é saber dispensar a utilidade de um conhecimento gerador de medos e angústias. Só sei que nada sei, dizia o putativo pai de uma lógica de pensamento ruinosa. Nem sei se sei alguma coisa, deveria antes ter dito. E sobre tal premissa toda uma nova cultura poderia ter sido erguida, uma cultura simplificada numa espécie de não sei nem me interessa, conquanto me seja dada a possibilidade de viver como bem entendo, em paz comigo e com os outros, daquilo que a terra me dá e rouba. Mas o homem quer mais, o homem ambiciona mais do que aquilo que a terra lhe dá, convence-se de que há algo mais para lá daquilo que a terra lhe dá, escava, voa, busca, procura, investiga sem se dar conta que na azáfama do seu labor está inscrita uma única verdade: a voragem do tempo sobre as células, o fim, a morte. Enquanto escava, morre; enquanto voa, morre; enquanto investiga, morre; enquanto vive, morre. Que benefícios trouxeram ao mundo séculos e mais séculos desta cultura do conhecimento? Que utilidade real tem este chamado saber? Que sabedoria há num saber destes? Podemos hoje interrogar-nos sobre quantas pessoas sobreviveriam nas sociedades ditas avançadas, evoluídas, desenvolvidas se uma qualquer catástrofe ambiental, social, política, económica as obrigasse a regressar à Terra? Quantas saberiam plantar, colher, pescar, caçar? Quantas pessoas estariam aptas a sobreviver num mundo que lhes retirasse a companhia de gás, os hipermercados, a água canalizada, o forno eléctrico? É a esta dependência que chamam conhecimento útil, é a esta pálida inabilidade que chamam conhecimento útil. Paradoxo dos paradoxos, nenhum conhecimento útil fez de nós seres mais inúteis do que um conhecimento assim.

PALAVRAS SÁBIAS



We have heard of a Society for the Diffusion of Useful Knowledge. It is said that Knowledge is power; and the like. Methinks there is equal need of a Society for the Diffusion of Useful Ignorance, what we will call Beautiful Knowledge, a knowledge useful in a higher sense; for what is most of our boasted so — called knowledge but a conceit that we know something, which robs us of the advantage of our actual ignorance? What we call knowledge is often our positive ignorance; ignorance our negative knowledge. By long years of patient industry and reading of the newspapers, — for what are the libraries of science but files of newspapers? — a man accumulates a myriad facts, lays them up in his memory, and then when in some spring of his life he saunters abroad into the great Fields of thought, he as it were goes to grass like a horse, and leaves all his harness behind in the stable. I would say to the Society for the Diffusion of Useful Knowledge, sometimes — Go to grass. You have eaten hay long enough. The Spring has come with its green crop. The very cows are driven to their country pastures before the end of May; though I have heard of one unnatural farmer who kept his cow in the barn and fed her on hay all the year round. So, frequently the Society for the Diffusion of Useful Knowledge treats its cattle.



Henry David Thoreau

WINDOWS

As janelas voam pelo computador
e o seu correr no ecrã
luminoso
corta a palavra aos profetas.

Profetas parados no computador:
à espera do meu dedo
para recomeçarem
a fala de deus.

Do deus
que segundo eles
não quer
que eu mexa
um dedo.

Tenho a preguiça de um deus
computorizado
e que não quer a fala
dos profetas.

Mas as janelas voam, voam, voam
e deus entra por elas.


Armando Silva Carvalho, in O Que Foi Passado a Limpo - Obra Poética (1965-2005), Assírio & Alvim, Março de 2007, pp. 454-455.

O GOZO DA CENSURA

Às vezes censuro comentários. São geralmente anónimos ou assinados com nomes improváveis. O tom desses comentários é sempre o mesmo, um tom de sátira rasteira que dissimula uma índole intriguista e ressabiada. Não me custa censurar estes comentários, não me deprime saber da existência de indivíduos com tal (falta de) carácter, mas começo a sentir na consciência um certo peso. É o peso do gozo da censura. Sinto, de facto, um certo gozo quando censuro um comentário. E esse gozo, que faz de mim um ínfimo ditador no seu mundo reles, magoa-me a alma. Por isso mesmo, vou deixar de censurar comentários. A partir de agora, sempre que sentir essa necessidade, peço ao meu cão para o fazer por mim. Ele não tem consciência, não se importa.

Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011

OS STAKEHOLDERS SÃO FODIDOS

Quem o afirma é Pitta, em mais uma notícia da parvónia. O resto dá bem nota dos tempos em que vivemos. Já não se espera que a arte suscite polémica, epera-se que seja decorativa. E que na sombra tépida da decoração sejamos bons rapazes, amiguinhos, filhos de Deus. Entre criadores, sponsors e público, o dia universal da confraternização é todos os dias. São todos uns artistas, é o que é.

A ESQUERDA REVOLUCIONÁRIA




Relvas, se queres um assessor verdadeiramente revolucionário, contrata-me a mim.

Quarta-feira, 24 de Agosto de 2011

O CÉU EXISTE MESMO

O Céu Existe Mesmo é um best-seller internacional que se encontra há várias semanas nos “topes” portugueses. A livraria onde trabalho não é excepção. Sucede que entre as várias dezenas de solicitações do livro em causa não consigo lembrar-me de uma única onde o título tenha sido pronunciado correctamente, para não falar das pessoas que nos chegam a pedir aquele livro amarelo que vendeu muito na América ou o livro do menino que foi ao céu e veio de lá a falar com os mortos. Eis um apanhado de alguns títulos alternativos levados aos balcões de uma livraria pela clientela mais inventiva:

Agora é que o Céu Existe; Afinal o Céu Existe; O menino que caiu do Céu; O Menino que foi ao Céu; O Menino que tinha Asas; O Céu desceu à Terra; Mesmo que o Céu Exista; O Menino Amarelo

RESSONAR

Os suplementos culturais são, na sua essência, superficiais, é por isso que se chamam suplementos. Nem o facto de António Guerreiro passear as suas prosas num deles os torna menos levianos. Na última edição do Atual, certa figura, escritor e advogado, foi chamada a partilhar com o mundo as suas escolhas. Podia ser pai de família, desempregado, proxeneta, ladrilhador, que para o caso é indiferente. Na verdade, o indivíduo é escritor e advogado e tal informação define, por si só, a relevância de um homem. Pede-se-lhe que cite uns nomes, diga uns títulos, contribua para que mais um pedaço de folha do suplemento seja preenchido com uma completa inanidade. Desta feita, brindou-nos o nobre conselheiro com uma sugestão aparentemente insuspeita: um tal de Adormecer, supostamente escrito por Hélia Correia. É provável que seja a continuação de Adoecer, tal como Harry Potter e a Câmara dos Segredos foi a sequela de Harry Potter e a Pedra Filosofal.

Terça-feira, 23 de Agosto de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #24


Hoboken é uma cidade do Estado de New Jersey. Foi lá que os Yo La Tengo se formaram no ano de 1984. Onze anos passados sobre o parto, editaram este Electr-O-Pura. Soa hoje muito melhor do que soava em 1995, algo raro em bandas geralmente associadas a fenómenos efémeros de culto mais ou menos massificado. A música dos Yo La Tengo, desigual ao longo dos anos, logra neste registo um corpo consistente que o tempo apenas apurou. Canções à base de guitarras, com muita distorção e feedback pelo meio, ritmos ora lentos, ora acelerados, mas um sentido melódico inconfundível. Os harmónicos e os riffs sacados em classe noisy disfarçam uma intenção que faz deste disco um exercício falsificador da realidade, de resto patente nos tempos enganosos e nos comentários aleatórios que acompanham os títulos das canções. My Heart’s Reflection, a título de exemplo, reproduz um ambiente contemplativo marcado por uma secção rítmica hipnótica sobre a qual uma guitarra à deriva solta solos aparentemente dissonantes. O efeito é deveras cativante, embala-nos num groove irresistível. Logo de seguida, Attack on Love é pura desbunda sónica sem qualquer tipo de consequência. Estes contrastes entre as 14 canções realçam uma pureza que, estando longe de ser ingénua, nunca resvala no pretensiosismo da maioria das bandas do género que se ouvem hoje por aí.

QUANDO VÓS CHEGAIS, NÓS MORREMOS

Quando, em 1989, me ofereceram O Papalagui (Edições Antígona), estava eu muito longe de imaginar a repercussão que os discursos do chefe de uma tribo nos mares do sul poderiam exercer sobre uma imberbe alma burguesa. Toda a gente conhece as palavras de Tuiavii de Tiavéa, o chefe polinésio a quem foi permitido viajar pela Europa observando os hábitos e costumes ocidentais. A forma como posteriormente nos descreveu aos seus concidadãos revela uma argúcia ímpar no que respeita a capacidades de observação. Esta é, porventura, a característica mais generalizável aos indígenas entretanto sumidos sob a treva dos sombreiros produzidos em massa. Talvez nada nos afaste mais desses povos ligados à terra por inerência do que a capacidade de observar em silêncio e sem quaisquer constrangimentos morais. A recolha levada a cabo pelo holandês Erich Scheurmann, traduzida para português pela poeta Luiza Neto Jorge, teve, pelo menos, o mérito de popularizar uma perspectiva crítica do modus vivendi capitalista/consumista que foi ganhando terreno no chamado mundo civilizado. Civilização, para os europeus que assaltaram as Américas, África e todos os demais territórios onde puderam impor a sua inesgotável ganância, saqueando e escravizando povos militarmente mais débeis e devastando territórios até então respeitados na sua essência, teve sempre um único significado: domínio sobre a terra e sobre todos os animais (classe problemática que não exclui seres bípedes e sem penas). A este domínio foi correspondendo uma inevitável negação da raiz selvagem que os índios da América do Norte, por exemplo, nunca quiseram renegar. No livro A Fala do Índio (Fenda Edições, tradução de Júlio Henriques), Teri C. McLuhan compilou vários discursos e fragmentos que testemunham, precisamente, essa devoção à Terra/Natureza, não apenas enquanto território, mas sobretudo como fonte e leito de uma vida que não reconhece a morte e, por isso, sabe manter-se em permanente estado indomesticável. Muito trabalho tiveram os missionários cristãos para tapar as carnes nuas e rapar as guedelhas fartas dos filhos do Sol. O nosso ódio à nudez, a nossa renúncia da matriz animal, a nossa vergonha imposta por um medo castrador e governador da consciência, advêm de uma domesticação sem a qual não teríamos chegado ao lindo estado a que chegámos, a este estado de peles pálidas e consciências ressentidas, cultura de assassinos e suicidas, quando não suicidados da sociedade, deveras empenhados no culto populista de papas homofóbicos, racistas, hipócritas e inimputáveis. A alma do índio está bem expressa nas palavras de Sharitarish, o chefe Pawnee, que não se deixou impressionar pelo exibicionismo dos colonos: «O Grande Espírito fez-nos a todos – fez a minha pele vermelha e a vossa branca; pôs-nos nesta terra e entendeu que deveríamos viver cada um de forma diferente. Criou brancos para cultivar a terra e alimentar-se de animais domésticos; mas a nós, peles vermelhas, criou-nos para deambular através das florestas selvagens e das planícies; para que nos alimentássemos de animais selvagens e vestíssemos as suas peles» (in A Alma do Índio, Padrões Culturais Editora). E embora nem todas as tribos índias encaixem no nomadismo advogado por Sharitarish, a verdade é que em todas elas encontramos a aceitação de uma condição selvagem como a mais benéfica, pura e divina. A estes povos chamou Colombo gente in Dios (em Deus), condição que os colonizadores brancos não souberam reconhecer por neles já não existir nada de divino. Nesta gente já só havia o que até hoje perdura como vírus aparentemente inexorável, isto é, um etnocentrismo dissimulado de ecumenismo que matou e mata impunemente pelas mãos sujas de zeladores convencidos de que Deus mora nas suas encíclicas e não na Terra calcada pelas solas dos sapatos Prada. O Deus parcial dos homens brancos − assim se lhe referiu o chefe Seattle num discurso memorável hoje conhecido como A Noite do Índio (Casa do Sul Editora, tradução de Joaquim Palma) − nunca foi o Deus universal dos povos indígenas, um Deus indistinto das suas forças vitais: o ar, a água, a terra, o fogo. Foi sempre um Deus demasiado benevolente para com gente avarenta tomada pela cobiça. Àqueles, como Smohala, que acusaram o lado pernicioso do trabalho, afirmando que «os homens que trabalham não têm acesso ao sonho, e a sabedoria é através dos sonhos que nos chega», o Deus dos brancos ofereceu o extermínio. Porque o Deus dos brancos pode ter nascido para libertar povos oprimidos, mas transformou-se rapidamente na mais exploradora das máquinas. E aí estão os homens pálidos, seus reverentes escravos, a dar vivas a papas que mais facilmente perdoam bispos pedófilos do que mulheres abortadeiras.

Domingo, 21 de Agosto de 2011

FILHOS E ENTEADOS

Eduardo Pitta sonha com comércio aberto 365 dias por ano, 24 horas por dia, ali mesmo à porta da sua alegre casinha. Portanto, só ele é que é filho de Deus. Os outros são enteados. Sugiro-lhe que monte tenda na Praça Jemaa El Fna ou no mercado Khan el Khalili. Aí o comércio nunca pára, Pitta poderá ver satisfeitas as suas necessidades. Que as pessoas queiram meter férias quando bem lhes apetece, nem pensar nisso. Façam-se leis sobre o assunto, Passos Coelho que pondere um imposto a cobrar aos comerciantes que pretendam meter férias em Agosto, sobretudo se tiveram casa aberta num raio de 200 metros a partir da porta de Pitta.