Há quem se contente com o velho dito: se não os consegues vencer, junta-te a eles. Há quem não se contente com o velho dito. Anda triste,
terça-feira, 29 de novembro de 2016
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
FLASHING FOR THE REFUGEES ON THE UNARMED ROAD OF FLIGHT
Muitas canções de Another Side of Bob Dylan (1964)
distanciam-se do tom socialmente empenhado dos registos anteriores, enveredando
por um lirismo de tipo romântico marcado por histórias onde incompatibilidades
diversas colocam o amor em xeque. All I Really Want to Do dirige-se desde logo a uma
segunda pessoa, neste caso indefinida, declarando uma posição sobre o
relacionamento a dois: «I ain’t lookin’ for you to feel like me / See like me
or be like me». Canções como Black Crow Blues ou I Don’t Believe You, mas
também Ballad in Plaine D ou It Ain’t Me, Babe exibem o estigma da separação.
Noutros casos, a presença de personagens femininas – a «gypsy gal» de Spanish
Harlem Incident, Ramona, ou mesmo Rita da divertida Motorpsycho Nightmare –
parecem aludir a uma espécie de incompatibilidade entre o espírito livre e alucinado
do trovador, como se nota em I Shall Be Free N.º 10, e os requisitos de uma existência
a dois.
É relevante que no primeiro volume das crónicas Bob Dylan reforce a
importância determinante que a família acabou por exercer nas suas decisões,
sobretudo na opção por uma vida recatada e tanto quanto possível
concentrada no núcleo familiar. Mas mais relevante ainda é tentar conciliar
essa opção com a bandeira da liberdade. Naquela que é talvez a mais
reinterpretada canção de Another Side of Bob Dylan é-nos oferecida uma
perspectiva complexa da liberdade, a qual aceita no seu vasto programa todos quantos à face da terra façam da vida uma luta pela sobrevivência. O que
é a liberdade senão esta possibilidade de, como se costuma dizer, fazer pela
vida?
Chimes of Freedom é um poema enorme em qualquer parte do mundo, daí que
não seja de estranhar o sentido que faz tanto na voz de Bruce Springsteen como
na de Youssou N’Dour. Os The Byrds ofereceram-lhe uma versão açucarada,
saltando três estrofes inteiras. Mas vale mesmo a pena ler aqui a letra na
íntegra.
CONFORTO DO LAR
Deverá o conforto de um lar determinar a credibilidade de
uma opinião?
Opiniões de barriga cheia acerca do problema da fome são
credíveis?
Precisará de contrair o vírus aquele que o trata?
Se a fome impede o pensamento, como pensar a fome sem
estar alimentado?
Aquele que atravessou o terror estará mais habilitado a
falar acerca do terror do que aquele que nunca o atravessou?
O que é um lar confortável para o animal selvagem?
Poderá o macartismo ser aceitável?
Que credibilidade oferecer a teorias sobre a liberdade proferidas por aquele que coloniza?
A caridade iliba o crime?
Mais simples: quem estou eu a ajudar se comprar umas sapatilhas Adidas made in Camboja?
domingo, 27 de novembro de 2016
FERIDO
Sob o pseudónimo literário de m. parissy, o jornalista
Mário Galego (n. 1969) vem publicando desde a estreia em 1989, com um volume em
edição de autor intitulado corpo indómito, vários livros de poesia em editoras
de distribuição restrita. Oriundo da Nazaré, foi aí que participou na
dinamização de projectos editoriais como a extinta non nova sed nove ou a
activa Volta d’Mar. Além dos opúsculos editados através desses projectos, conhecemos-lhe
livros aparecidos na Universitária Editora - dublin e tu (1999) -, nas Edições
Mortas – morte com dedos em ferida (2000) -, na Black Son Editores - mãos de
arquipélago (2003) -, na Canto Escuro – vertigem (2007) -, e na Tea for One –
dança (2015). O seu mais recente livro, intitulado Ferido (Setembro de 2016), é
o quarto título que faz sair na Volta d’Mar. Tal contabilidade é relevante para
que se perceba a inscrição desta poesia num circuito marginal ao da produção
poética merecedora, aqui e acolá, de atenções críticas facilitadoras de uma
visibilidade menos reduzida.
Do que conhecemos desta poesia, importa salientar, desde
logo, uma forte ligação ao lugar de origem do seu autor. Os livros de m.
parissy são profícuos na reprodução de uma paisagem costeira onde o mar, a
praia, as falésias, marcam presença recorrente. Ferido não é excepção. Logo nos
primeiros versos encontramos “mares desconhecidos” e “cheiro a peixe”, tornando-se
ainda mais evidentes as demarcações geográficas com a referência a locais
concretos tais como a pensão Leonardo ou a uma toponímia deveras familiar: «rua
França Borges, rua / da Saudade, rua das Flores» (p. 10). Estas referências,
que em livros anteriores poderiam surgir mais veladas, assumem num livro com as
características de Ferido um papel determinante. São o espaço de ocorrências
que os versos recuperam e percorrem como quem narra uma história. Ainda que a
dimensão metafórica não tenha sido de todo abandonada, ela encontra-se aqui em equilíbrio
com a dimensão narrativa.
Não é por acaso que o livro começa com a conjugação do
verbo haver na primeira pessoa do singular do pretérito imperfeito do
indicativo, anunciando a existência de algo ao mesmo tempo que nos envia para
um tempo passado. Onde se lê havia podíamos ler era uma vez, como
tradicionalmente sucede na maioria das histórias. E é a partir de aqui, e desta
forma, que somos introduzidos num universo íntimo onde a memória ocupa uma
função primordial. De estrofe em estrofe, como quem salta de capítulo em
capítulo numa sequência cujos versos se interligam naturalmente, ficaremos a
saber que esse tempo é o da infância, clara e objectivamente declarado numa das
estâncias finais do poema. É a memória dos sete anos, idade de uma etapa escolar
iniciática, que aqui vem à superfície, não por dela se conservar a banal imagem
do paraíso perdido ou o tão vulgarizado sentimento de uma nostalgia romântica, mas
por nela se entreverem fracturas que o poema procura resolver num gesto que é
em si mesmo catártico e, por isso, rejuvenescedor: «Foi preciso / inscrever o
passado, para que dali / voltasse a nascer» (p. 30).
A par desta dimensão narrativa do poema, m. parissy
insiste numa das suas características discursivas mais reconhecíveis, isto é, o
uso sem peias de uma linguagem metafórica como reforço imagético de sensações e
de percepções dos momentos em que o sujeito poético se coloca: «Um nevoeiro
cobria o / peito» (p. 10), «Um sol / por baixo da língua» (p. 11), «Acordava
com o silêncio que doía» (p. 22)… Agradável se torna quando associamos estas
leituras da realidade à criança de sete anos aludida no poema, por fazerem
ainda mais sentido no contexto específico em que a criança se encontra: fechada
num quarto, isolada do exterior, adivinhamos que por doença, ligada ao mundo
apenas através de uma janela de madeira velha que nunca se abre. Seis meses de
reclusão aos sete anos de idade são, pois, a ferida que o poema procura sarar. Dessa
experiência de reclusão, surge «O medo que a liberdade / não existisse» (p.
37). Ora, que medo maior pode um poeta sentir?
Tudo era esterilizado: pratos,
toalhas, roupa. Nada podia conter
sinais do exterior. Nem sequer as
revistas Natura pousadas na mesa-
de-cabeceira. Nem a comida, nem
as duas mãos que a transportava.
A esterilização do espaço interior para o qual vamos
sendo deslocados ao longo do livro contrasta com a liberdade do espaço
exterior, onde para lá da sombra se vêem rapazes a brincar, a jogar a bola, e o
mundo decorre com uma normalidade insultuosa para quem se encontra na anormal
circunstância de não poder sequer ser tocado pelas mãos impuras que lhe trazem
comida. Entre os planos da doença e da saúde estabelecem-se elos de inúmeras
leituras possíveis, acerca dos quais poderíamos formular as mais variadas
conjecturas. A verdade é que não nos parece legítimo enveredar por tais
caminhos quando a reminiscência transfigurada num livro como Ferido é já de si
tão forte e intensa: uma criança de sete anos, isolada do mundo durante seis
meses, fechada num quarto, limitada a observar o mundo exterior por uma janela
fechada como se fosse um criminoso sem consciência do crime que cometeu.
Transportar a intensidade de uma experiência destas para o poema, sem a tornar despudoradamente
emocional e sentimental, é revelador de um engenho sem o qual nenhuma boa
poesia subsiste.
NA MORTE DE FIDEL
Tem piada, o modo como as pessoas reagem à morte de um homem.
Lembrava-me ontem a Ana da repulsa que partilhámos ao observar as imagens de
Muammar al-Gaddafi ou Saddam Hussein a serem humilhados e executados. Nenhuma
simpatia pelas personagens fundamentava tal repulsa, apenas respeito pela
pessoa humana. Esse respeito paradoxal que nos obriga a salvaguardar a
humanidade da selvajaria, mesmo quando estão em causa seres humanos que
atentaram contra outros seres humanos.
O exemplo de Fidel é diferente, muito
diferente. As pessoas que festejam a sua morte têm as suas razões, tal como
aqueles que ainda hoje celebram o aniversário de Salazar. Tenho a certeza que
há-de haver quem festejará a morte de Mário Soares, como vi pessoas festejarem a
morte de Cunhal. Há gente para tudo, diz a minha mãezinha amiúde e
eu repito.
Mas para mim Fidel é mesmo um herói, sem qualquer espécie de dúvidas
e apesar de vários gestos que podemos criticar na sua acção ao longo dos anos.
As grandes figuras históricas são sempre ambivalentes. Constato porém que para
as pessoas que hoje celebram a morte de Fidel, chamando-lhe ditador, como se
nessa palavra estivesse contido o significado final do mal (Bush filho, por
certo, não foi um ditador, e no entanto…), Cuba não existia antes da revolução.
Saberão as pessoas o que era Cuba antes de Fidel e de Che? Saberão o que era a
Cuba de Fulgencio Batista? Talvez não fosse esperar muito que investigassem um pouco, procurando pelo
menos perceber que a História não é a preto e branco. Está tingida de inúmeras
nuances.
Libertada Cuba de Batista, saberão de facto as pessoas o que foi o regime
implantado por Fidel e seus camaradas? Como se relacionou com o mundo do seu tempo? Como
conseguiu sobreviver à reacção do neo-colonialismo norte-americano? Saberão das
privações a que ficou obrigada toda uma nação depois de um embargo que fez o
que fazem sempre as tão elogiáveis "democracias" do mundo capitalista? Isto é, isolar,
condicionar, manipular, obrigar os outros a serem como elas são em proveito não
de si próprias, mas dos interesses de terceiros.
Leia-se este livro e tente-se
perceber um pouco para lá dos lugares-comuns que tantas vezes limitam o
pensamento. Muitas pessoas estarão convencidas de que a democracia,
por si só, é um dado adquirido, mesmo quando permite que energúmenos se
perpetuem no poder. E que democracias? Votar de quatro em quatro anos? Esperar
que esta gente esclarecida possa em consciência escolher os seus líderes? Fará
sentido a democracia se não for acompanhada de educação e de cultura? De uma
imprensa de facto livre que não esteja à mercê dos interesses de quem a financia?
Mais ou menos repressivos, os sistemas encontram sempre maneira de reprimir
quem se lhes oponha. Em última instância, somos todos vítimas das black fridays
que, tal como nos tempos do pão e do circo, falseiam a negra realidade de um
mundo profundamente desigual, assimétrico, onde uns poucos obesos consomem
desmesuradamente os recursos do mundo, condenando à miséria perpétua a maioria que nele
sobrevive em condições democraticamente aceitáveis. Mas as boas consciências do capitalismo selvagem podem suspender a democracia quando bem entenderem.
Grato, pois, a Fidel, e a
outros como ele, por terem colocado as suas vidas ao serviço de um mundo mais
equilibrado, contra injustiças que, está visto e provado, não são eleições de
quatro em quatro anos, com percentagens absurdas de abstencionistas, que as vão
resolver. O problema é mais profundo e não tem uma única face. Tem várias. Daí que seja tão subjectivo falarmos hoje de "imprensa livre" (qual?) ou de democracia (quais?), apontando o dedo àqueles cuja história foi e é de resistência, resiliência e sobrevivência a males bem maiores do que não haver eleições de quatro em quatro anos ou uma imprensa tão livre e esclarecedora como, por certo, será a nossa (para não irmos mais longe).
A talho de foice, desejo apenas que todos os portugueses que este Natal façam compras numa Zara, a título de exemplo, se sintam imensamente gratos pela democracia que vigora no Bangladesh.
sábado, 26 de novembro de 2016
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
A URGÊNCIA DE UMA CANÇÃO
Será sempre ingrato tentar determinar a influência social
de uma obra de arte. Não tão ingrato é procurar perceber como essa obra se
relaciona com a sociedade do seu tempo. Muitas das canções que Bob Dylan
escreveu são autênticas crónicas de um tempo, reflectindo angústias, temores,
dramas de toda uma sociedade. Mas será que morreram nesse tempo? Terrível de constatar é a actualidade que mantêm,
nomeadamente quando apontam o foco para os direitos cívicos na América de todas
as oportunidades. Tomemos de exemplo duas canções do álbum The Times They Are
A-Changin’ (1964), sem dúvida um dos mais empenhados em colocar a canção ao
serviço de causas. Escutemos Only a Pawn in Their Game:
A qualidade do vídeo pode não ser a melhor, mas a
dimensão histórica do acontecimento merece a partilha. Refere-se a letra a
Medgar Evers, um activista dos direitos civis assassinado a 12 de Junho de 1963
por um declarado racista que os tribunais americanos conseguiram absolver por
duas ocasiões. A performance de Dylan data de 28 de Agosto de 1963. Estávamos
em cima dos acontecimentos e Dylan cantava, para uma multidão de negros, que o
assassino de Evers era apenas um peão no jogo de uma injustiça maior. Que
injustiça maior era essa? A forma como os brancos pobres da América eram
manipulados e usados, pelos senhores do poder, contra os negros: «the poor
white man’s used in the hands of them all like a tool». O ódio de Dylan, por
assim dizer, não se afirmava contra um criminoso como Byron De La Beckwith, apenas
condenado em 1994, mais de 30 anos depois do homicídio cometido. A letra da
canção não fica pela rama, vai à raiz do problema. Outro exemplo imperdível da
inteligência dylaniana é a canção The Lonesome Death of Hattie Carroll. Vale a
pena ver este vídeo com atenção, até pelo que tem de pedagógico sobre a
construção de uma letra para ser cantada:
Partindo mais uma vez de factos, Dylan não se limita a
relatar o que levou à morte de Hattie Carroll. São diversas as
versões acerca dos acontecimentos de 9 de Fevereiro de 1963 em Maryland, sendo
certo que Hattie Carroll foi insultada e agredida por um rapaz branco, rico,
que se encontrava alcoolizado e havia provocado vários distúrbios nessa mesma
noite. Zantzinger, o jovem branco, agrediu Hattie, de 51 anos, mãe de 11
filhos, com uma bengalada, acabando esta por falecer de hemorragia cerebral. Apanhou seis meses de pena suspensa. De estrofe em estrofe, Dylan conta os factos e remata cada uma das estrofes com três versos de
elevado teor crítico: «But you who philosophize disgrace and criticize all
fears / Take the rag away from your face / Now ain’t the time for your tears».
Só na última estrofe, depois de denunciar a injustiça da pena aplicada ao criminoso,
é que o verso derradeiro se transforma: «For now’s the time for your tears». Como se
estivesse a apontar todo um sistema judicial e dissesse: tenham vergonha na
cara. Talvez estas não sejam canções de protesto, mas são, certamente, canções
de denúncia. E é isso que as torna urgentes ao longo dos tempos.
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
EM DIRECTO NA TELEVISÃO
David S. “Davey” Moore foi um pugilista norte-americano
que morreu aos 29 anos de idade "em pleno combate". No dia 21 de Março de 1963, ao que parece no dia da poesia, bateu-se contra o cubano Sugar Ramos com direito a transmissão televisiva a
nível nacional. Ainda antes de abandonar o ringue, proferiu algumas
declarações. Mas no balneário as lesões consequentes do combate revelaram-se
fatais. Entrou em coma, acabando por falecer 75 horas depois. Bob Dylan dedicou-lhe
uma canção intitulada Who Killed Davey Moore?
A partir de um facto histórico, as interrogações são um
tratado acerca da desresponsabilização. Quem matou Davey Moore? —
pergunta o trovador. E todos lhe respondem “não fui eu”. Todos têm um argumento
que os iliba e desculpa perante os outros. Porventura de consciência
aligeirada, já que limpa não estará, a plateia assiste ao tombo do guerreiro
alheando-se da desgraça. O tema é antigo e podia levar-nos até às mãos lavadas
de Pôncio Pilatos. Ao escutar esta canção ocorrem-me inúmeras situações de alienação
social onde o desinteresse das populações redunda numa criminosa cumplicidade.
A versão de Pete Seeger é absolutamente maravilhosa:
A PUTA CAMPONESA
O muro alto da frente que tapa o pátio
tem com frequência um reflexo de sol infantil
que lembra o estábulo. E o quarto desarrumado
e deserto de manhã, quando o corpo desperta,
tem o cheiro do primeiro perfume inocente.
Até o corpo, enrodilhado no lençol, é o mesmo
dos primeiros anos em que o coração saltava descobrindo-o.
Aqui acordamos desertas ao apelo antecipado
da manhã, e na pesada penumbra ressurge
o abandono dum outro despertar: o estábulo
da infância e o pesado cansaço do sol
quente sobre os portais indolentes. Um perfume
impregnava ao de leve o familiar suor
dos cabelos, e os animais sentiam-no. O corpo
gozava furtivo a carícia do sol
insinuante e calma como uma leve carícia.
O abandono do leito acalma as pernas
estendidas, jovens e roliças, quase ainda infantis.
A rapariguinha inocente sentia o cheiro
do tabaco e do feno e tremia ao contacto
fugitivo do homem: gostava de brincar.
Às vezes brincava com o homem deitada
no meio do feno, mas o homem não cheirava os cabelos:
procurava-lhe no feno as pernas contraídas,
moía-lhas, esmagando-as como se fosse seu pai.
O perfume eram flores pisadas sobre pedras.
Muitas vezes regressa no lento despertar
aquele sabor decomposto de flores distantes
e de estábulo e de sol. Não há homem que saiba
a subtil carícia daquela acre recordação.
Não há homem que veja, além do corpo estendido,
aquela infância passada numa ânsia inocente.
Cesare Pavese (n. 9 de Setembro de 1908, Santo Stefano Bello, província de Cuneo, Itália - m. 27 de Agosto de 1950, Turim), in Trabalhar Cansa, tradução e introdução de Carlos Leite, Edições Cotovia, Fevereiro de 1998, pp. 101-103.
TEXTOS DE CONTRACAPA
Nem se dão ao trabalho de ler. Basta aparecer. O texto pode
dizer cobras e lagartos por entre linhas, pode ser acéfalo, acrítico, pode ser
um chorrilho de baboseiras, que não interessa. O que interessa é ter capa e
foto, o artista em corpo para que seja celebrada a referência. E é só isso que
se celebra, e no celebrar está a suma do interesse público. Em privado. Que
isto agora é tudo público em privado. Ou será privado em público? Ou será
privado de público?
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
COINCIDÊNCIAS
São apenas obras literárias sofríveis assinadas por
extraordinários escritores de canções. Belos Vencidos e Tarântula foram
originalmente publicados em 1966, estão ambos editados em Portugal pela
Relógio D’Água, traduzidos por estimáveis poetas da minha geração. Margarida Vale
de Gato traduziu o livro de Leonard Cohen, Vasco Gato traduziu o livro de Bob
Dylan. É ainda curioso que ambos os tradutores tenham o mesmo apelido.
Demasiadas coincidências.
Do livro de Dylan podemos reter um desejo e o
reconhecimento das limitações que impedem o desejo de se concretizar: «gostaria
de fazer algo que valesse a pena como por exemplo plantar uma árvore no oceano
mas não passo de um guitarrista». Do romance de Cohen, igualmente experimental,
mas menos confuso, podemos guardar inesperadas identificações escatológicas em
forma de dúvida: «Por que me sinto eu tão reles quando acordo pela manhã? Especulando
se vou ou não ser capaz de cagar. O meu corpo vai funcionar? As minhas tripas
vão conseguir triturar? A velha máquina será capaz de transformar a comida em
merda castanha?»
Eis-nos perante os mais profundos dilemas de um homem.
DA TERRA OCA
9.
os barcos ficam amarrados aos paredões
número um, número dois, número três do cais
e o frio aquece, ao redor dos guindastes
as grossas camisolas de lã dos estivadres
parados entre as encomendas e a última escala.
enquanto as docas estão ancoradas
vão contando como e porquê
viram, diferentes, as auroras boreais.
dizem: mais para cima é o gelo
ou a perfídia magnética do pólo...
no perigoso rebordo das lendas
o desconhecido não se relata
mas inventa-se, de ironia em ironia
pelos interstícios dos mapas.
é insuportável o reflexo do sol
neste frio e o mundo pode ser
um discurso impaciente
no meio de um grande silêncio.
ícaro teria voado para lá
onde dizem nascer os pássaros
e os gelos, mais a norte, se derretem?
é preciso explicar o inverso sentido dos climas
na transgressão dos animais... aqui
sabe-se de tudo como quem espreita
os vizinhos chegando aos bordos pelas escadas.
alguns dizem — no entanto —
que certos exploradores
foram mesmo silenciados pela loucura:
outro sol no centro do mundo.
R. Lino (n. 1952), in Atlas Paralelo (1984). Estreada em 1984 com Palavras do imperador Hadriano:
Primeira, Segunda e Terceira Séries (Coimbra, Centelha), R. Lino é uma das mais discretas poetas portuguesas contemporâneas. Além de moderadíssima
em obra publicada, prima pela reserva num tempo em que o culto da imagem tantas vezes sobressai diante da obra feita. Ainda em 1984, publicou
Atlas Paralelo na saudosa colecção Gota de Água, da INCM. Seguiram-se Paisagens
de Além Tejo (Rolim, 1986) e Daquíra (Frenesi, 1988). Refira-se que Atlas
Paralelo e Paisagens de Além Tejo constituiriam os dois primeiros volumes de
uma trilogia a ser completada com Mapas, sobre o qual não temos qualquer
notícia. Depois dos títulos vindos a lume durante a década de 1980, R. Lino regressou apenas em 2012 com : Predação: /
Urânia, Nós e as Musas (edição da Autora). Em 2013 a Companhia das Ilhas
publicou-lhe Baixo-Relevo, com poemas concebidos nos idos de 1984 e 1985.
Enigmática, esta poesia furta-se a definições programáticas. Nela reconhecemos a
relevância dos dados históricos e geográficos, deles surgindo uma linguagem sem
preocupações retratistas ou testemunhais. Climas, ambientes, paisagens, lugares, sítios povoados
por fauna e flora mormente campestres, atravessam esta obra sem que nela os elementos
rurais se sobreponham a uma criticidade ontológica sem fronteiras de qualquer
espécie. Paralela à geografia física dos dias, surge a geografia do poema
entendido não como representação, mas como realidade outra onde lugar e
história são assimilados e dessa assimilação decorrem como expressões do ser.
sábado, 19 de novembro de 2016
RECORDAÇÃO DO PAI
Batia com a esquerda,
por vezes cego de raiva.
A direita estilhaçada até ao ombro
num campo de batalha russo.
Quando chovia
a luva preta cheirava a cabedal
e doía-lhe o braço perdido.
Se estava de feição dava-nos dinheiro
e deixava-nos enfiar-lhe o elástico branco
pela manga da camisa.
Mais ainda que a força da sua esquerda
e os rompantes da sua ira
temíamos
a sua ternura sem jeito.
Talvez até o amássemos,
sentindo-lhe escondido o medo da solidão.
Mas acabávamos sempre a fugir-lhe.
Melhor me lembro
desse braço postiço
com a mão de couro preto
do que lembro o seu rosto.
Ainda estou a vê-la
imóvel na toalha branca,
ao lado do prato,
com a carne já cortada:
Incapaz de violência,
e de uma dependência inexprimível.
Hans-Ulrich Treichel (n. 12 de Agosto de 1952, Versmold, Vestefália,
Alemanha), in Como se Fosse a Minha Vida, tradução colectiva (Mateus, Outubro
de 1993), revista e apresentada por João Barrento, Quetzal Editores, 1994. pp. 13-14.
SUBMARINO N.º 1
Submarino - Rivista Luso-italiana di Studi Comparati, n.º 1
Direttore responsabile: Carlo Cerrato
Comitato Direttivo: António Fournier, Alessandro Granata Seixas, Manuele Masini
Scritturapura Casa Editrice, Dezembro de 2015
- Cesare Pavese (in Suicidas, Deriva, 2013), traduzido para italiano por Livia Roggero, pp. 52-53;
- Solidão (in Antologia do Esquecimento, 2003), em edição bilingue, versão italiana por Livia Roggero, p. 109.
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
UMBIGO
Na precipitação preguiçosa com que tudo é feito e escrito, literatura ou crítica, raríssimos são os que têm, ao mesmo tempo, a culta humildade de conhecerem as suas limitações, e a autoridade para falarem de alguma coisa que não seja a sua raivinha semanal. Pelo que não há alternativa para um honrado escritor português senão partilhar alguns louros com a canalha, e receber dela o esterco que ela lhe reserva. Isto não sou eu quem o diz — curiosamente, é toda a gente, quando fala dos "outros", por certo achando que são menos como os "outros", exorcismando-se. Não haverá no mundo vida literária em que tanta gente se compraza deliciadamente, em privado, com julgar pulhas os outros. Em público, é diferente. Pois saibam V. Ex.ª que, enquanto não tiverem a coragem de se conhecerem como tal, continuarão a sê-lo e a envenenar uma juventude que não tem outro remédio senão criar-se à vossa imagem e semelhança. Como princípio de cura, leiam o Poema em Linha Recta de Álvaro de Campos. E deixem de ler-se uns aos outros, que não vale a pena. Há décadas passadas, foi moda atacar José Régio por, dizia-se, contemplar o próprio umbigo. O mais que pode dizer-se, hoje, é que mais vale o próprio do que o alheio. Porque, se uma pessoa começa no umbigo, é um perigo onde acaba.
Jorge de Sena, in Poesia e Cultura, excerto do ensaio A poesia e a vida (1972/73), Edições Caixotim, Outubro de 2005, pp. 107-108.
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
LANÇAMENTO
Talvez fosse avisado deixar a biografia fora disto, não
se desse o caso de em nota introdutória ao seu mais recente livro, de título
Lançamento (Douda Correria, Outubro de 2016), Margarida Vale de Gato (n. 1973) induzir
entre os poemas coligidos e a vida vivida uma interdependência impossível de
ignorar. Tal interdependência sucede em dois sentidos paralelos, o da perda,
aliada a mortes inesperadas, e o de quem permanece entre os vivos. «Eu quero
fazer sentido da perda», declara a autora como quem manifesta um programa
poético. Para tal, cada um dos poemas reunidos convoca um nome próprio.
Independentemente das associações que a uns e a outros possam ser permitidas,
em apenas um dos poemas o nome próprio se faz acompanhar do apelido que determina
a pessoa a quem os versos claramente se dirigem: Rui Costa, cabeçudo,
por tudo. Trata-se de uma excepção, pois em mais nenhum poema se estabelece uma
interlocução do mesmo tipo. Ainda que a espaços possamos encontrar elos objectivos entre sujeito poético e receptor (no poema Alice, por exemplo, é evidente
que o discurso se dirige à filha da autora), esta objectividade não é de todo
relevante para a compreensão do poema. De resto, há nomes que se repetem —
Luís (4X), Miguel, Rui e António (3X), Pedro (2X) —, um que surge no plural — Teresas —,
outros que aparecem acompanhados: Jaime e José; António, Henrique, Patrícia;
Flarimundo e Manuela.
Seguido de uma ensaio onde a autora achou por bem explanar
os motivos por detrás de tal arrumação, ficamos a saber que: «Estes nomes que
eu amo não são, de todo, recados, nem sequer destinatários. Quando muito
transferências, estafetas e não arautos. Agrada-me por enquanto que se
mantenham como sentinelas, resguardando a interpretação apressada. Interessa-me
o confessional sonegado, o encontro entre escrita e biografia no emocionante efémero,
que se resolve e fixa, quando lhe assiste a arte, sem causas nem razão». Como
compreender este encontro entre escrita e biografia senão deixando a biografia
fora disto? Ao leitor, pouco importará a biografia sonegada no poema. Esta é já
a expressão de uma outra coisa que não exactamente a vida. O que o leitor
encontrará é uma paisagem, nesse sentido que outrora lhe foi dado por quem
descobriu haver entre a representação e o objecto representado uma cisão inultrapassável.
Talvez caiba ao poeta, assim como a qualquer artista, fazer da sua obra uma
ponte entre a experiência do vivido e uma possível transfiguração dessa
experiência, conquanto aceitemos não haver obra onde a discursividade poética aflua
invariavelmente para algo que por detrás da realidade se esconde. Que algo é
esse? Podemos chamar-lhe ideia, podemos chamar-lhe amor, podemos chamar-lhe
paixão, podemos chamar-lhe afecto, podemos chamar-lhe sentimento, podemos
chamar-lhe respiração. Podemos chamar-lhe imensas coisas. No fundo, é sempre um
ponto de encontro entre a percepção daquele que se expressa e a percepção
daquele que pela interpretação procura entender o que foi expressado.
Neste
sentido, os nomes próprios atribuídos aos poemas não diluem a função contextualizadora
de um título. Antes reivindicam para os poemas uma aproximação à vida que pode
ser entendida, em suma, como um dos propósitos da escrita. Podíamos confrontar
esta posição com a de um poeta como Ruy Belo, para quem o acto de escrever era
uma espécie de suicídio repercutido até à palavra derradeira. «Ao escrever,
mato-me e mato», escrevia. Resta saber se neste gesto não está implícita uma
revogação da morte, na medida em que ao matar-se e matar aquele que escreve
transfere para o texto os dados da vida. É precisamente de transferências que
fala Margarida Vale de Gato, propondo para a poesia «um lugar grato onde um
amigo ao menos nos habita». Realiza-o insistindo numa sintaxe complexa, repleta
de inversões, e na desconstrução de formas fixas já testada nos livros
anteriores, acrescentando agora uma inusitada narratividade em alguns poemas,
sendo que em dois deles a quebra de verso cede à prosa e o discurso assume uma
configuração sociopolítica que não é de todo a mais recorrente nesta poesia.
Ainda
que os temas sejam diversos de poema para poema, além do sentimento de perda
que motiva o livro há uma outra temática que parece transversal. Refiro-me à
inclinação para uma paisagem campestre desde logo introduzida nos primeiros
versos: «Planto jasmim semeio bagas carrego terra / numa pá desde a ribeira ao
quintal vingam / coisas que vivem». Sem que se oponha aos retratos capturados
na agitação da cidade, este olhar mais estendido sobre as coisas da terra e,
por vezes, penetrador de uma paisagem rural, não idealiza a Natureza nem sequer
aprova o campo enquanto suposto paraíso perdido a que se regressa por
nostalgia: «Para a ceifa não fui feita minha chorona mãe, / não te rales se
souberes de mim presa ou a monte / com mau nome traficada, a capital é um pulo
/ eu não quero estar mal parada». Ao invés, o rural parece também aqui ser
sinónimo de uma perda que regressos momentâneos, sejam físicos ou através da
memória, não logram reparar. Em suma, tanto em sintonia com o homem só de
Emerson como com o artista solitário de Rilke, «A poeta escreve sempre na
prisão». A liberdade não advém do lugar como consequência deste nem do
exercício mais ou menos lúdico de uma arte, ela constrói-se no corpo, pelo
corpo, em paradoxal comunhão com o outro que connosco partilha espaço e
comunica. Assim o entendemos ao ler num dos mais belos poemas deste livro versos que nos capturam por neles encontrarmos o essencial:
«Nenhuma parte do corpo, porém, como a cabeça / segura tantos orifícios
animais, por mais que a beleza / seja da nossa responsabilidade como a limpeza
e a luz / da pele, como a limpeza e a luz do traço no papel / morreríamos
incomunicáveis sem os nossos buracos. / O raro alimento, o faro, o bafo, o som,
o beijo / necessitam feias fendas, alargados poros».
DEMOCRACIA AMERICANA
Na democracia dos USA não ganha quem tem mais votos, nem que seja um milhão. Ganha quem vencer nos estados certos. Isto aplicado à bola tinha o seu quê de agradável. Não ganharia quem acabasse com mais pontos, mas quem ganhasse os jogos mais importantes (clássicos e "dérbis"). Todo um novo leque de possibilidades se abriria para que eu pudesse finalmente rever o meu Sporting campeão.
terça-feira, 15 de novembro de 2016
VIAGEM SINGULAR A WORPSWEDE
Worpswede é uma localidade alemã próxima de Bremen. No
final do séc. XIX, um grupo de jovens pintores, saturados dos ensinamentos da
Academia, estabeleceu no local uma comunidade artística com propósitos
inovadores. No início, integraram-na os pintores Fritz Mackensen (1866-1953),
Hans am Ende (1864-1918) e Otto Modersohn (1865-1943), aos quais se juntaram
mais tarde outros artistas e escritores. O poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926) foi um deles,
tendo mesmo chegado a contrair matrimónio nessa cidade com a escultora Clara
Westhoff (1878-1954). Um dos aspectos comum a todos estes artistas é o interesse pela
paisagem. Viagem Singular a Worpswede (Feitoria dos Livros, 2016) é um
dos breves ensaios dedicados por Rilke a esta tendência. Traduzido e precedido
de um ensaio por João Barrento, revela-se uma agradável leitura acerca da relação
do artista com a Natureza. E é precisamente no ensaio introdutório, entre
citações de Georg Simmel, Walter Benjamin e Adorno, que vislumbramos uma forma
curiosa de colocar este problema: Rilke olha para a Natureza com a nostalgia de
algo perdido.
Seria interessante confrontar esta perspectiva, porventura
tipicamente europeia, com a de um transcendentalista como o norte-americano
Ralph Waldo Emerson (1803-1882) no ensaio A Natureza. Uma ponte se estabelece desde logo
entre ambos: a condição solitária do homem entregue à natureza. Mas se em
Emerson esta é ainda um desafio, no texto de Rilke surge na forma de um
sentimento estranho. A comparação serve para reforçarmos a nossa convicção de
que, salvo raríssimas excepções, a cultura europeia tendeu sempre a olhar para os
fenómenos da natureza com distância, tornando-os coisas mentais quando se
aproveita deles enquanto objecto de representação artística. O interesse de
Rilke pela pintura paisagística não deve ser dissociado desta condição: «a
paisagem é para nós algo de estranho, e sentimo-nos terrivelmente sós sob
árvores em flor ou à beira de ribeiras que correm» (33).
Sedentarizado nos complexos arquitectónicos das grandes urbes, o homem europeu perdeu definitivamente o seu contacto com a
natureza, sentindo-a cada vez mais como algo «estranho e violento». O que a
experiência de Worpswede proporcionou foi uma espécie de regresso a essa
infância perdida cuja principal característica era a de um elo, entretanto
quebrado, com a paisagem. Rilke vai longe ao reivindicar para o artista a
viagem que procura reaproximar-nos do mundo natural: «Toda a arte é isso: amor
que se derramou sobre enigmas» (p. 71). Ou seja, toda a arte é um enigma que
permite ao homem nele mergulhado aproximar-se do grande mistério da natureza. Como
validar uma tese destas num mundo em que a criação artística tende a exercer-se
cada vez mais nos espaços confinados de estúdios, fábricas, ateliers? Ocorre-me
a figura de Cesariny, afirmando e reafirmando que nunca escreveu um poema em
casa. Os poemas surgiam-lhe na rua, escrevia-os à mesa de cafés, rodeado de uma
energia vital que as paredes do lar tendem a aniquilar por domesticá-la.
Em
termos estéticos e, por consequência, éticos, temos aqui um problema ainda mais
fundo, porventura cultural. São raríssimos os artistas que hoje se interessam
pela paisagem, abrindo-se a ela com a inocência e o espanto da criança ou aceitando
integrar-se nela com o espírito daquele que dizemos selvagem. Delimitado pelo
Eu, em confronto com o Outro, aquele que cria tende a ser objecto de si
próprio, esvaziando-se em auto-retratos de interesse duvidoso. E se isto é desde
há muito evidente no mundo ocidental, com os seus desvios de ordem sociológica
e política muito localizados, perguntamo-nos como será nesse outro mundo onde a
arte tradicionalmente surgia de uma inversa anulação do eu. Experimentemos
regressar, por exemplo, a múltiplas formas de poesia chegadas do extremo
oriente, que facilmente se tornará compreensível por que razão a rã de Bashô
jamais poderia coaxar num poema de Shakespeare, de Dante ou de Camões.
Concentrados nas coisas do espírito, os nossos artistas raramente se
aperceberam do mundo que existia para lá deles próprios. A este propósito, é
deveras interessante o olhar que Rilke lança sobre os camponeses de Worpswede,
sublinhando, aliás, que com eles nunca se misturavam os artistas. Esta
demarcação de espaços onde cada qual tem o seu papel a desempenhar enviou-me
para o poeta norueguês Hans Børli, de origens humildes, ele próprio madeireiro,
a escrever poemas no seio de uma floresta que soube ao mesmo tempo contemplar e
representar. Era parte integrante de um todo imenso em contínua
transformação, que, para todos os efeitos, não deixa de ser enigmático por dentro dele haver quem se descubra integrado.
ABRIR UM INQUÉRITO
Segundo o jornal Público, a responsável por uma
Associação de Psicólogos Católicos afirmou que ter um filho homossexual é como
ter um filho toxicodependente. Desconheço o contexto em que tal afirmação possa
ter sido proferida, nem sabia da existência de uma Associação de Psicólogos
Católicos. A invasão da ciência pelo esoterismo é-me estranha. Mas agrada-me o
perfil da beata, desafia-me o pensamento com toda uma série de conjecturas:
1. Para esta "psicóloga", a que será comparável ter um filho gay toxicodependente?
2. Poderemos considerar que consultar um psicólogo católico é o mesmo que nos confessarmos a um padre?
3. Qual a diferença entre um padre e um padre e um padre?
4. E se o filho gay for católico?
5. E se for católico, gay, toxicodependente e
seminarista?
6. Presumindo que a toxicodependência careça de tratamento, que receita para tratar um homossexual?
7. Referindo-se a psicóloga a estigmas, como surgirão os estigmas?
8. Poderemos considerar a afirmação proferida um estigma social?
9. Ter um filho toxicodependente é um problema inquestionável. Ter um filho homossexual é um problema?
10. Ter um filho sacristão é como ter uma vítima de pedofilia?
11. Ter um filho seminarista é como ter um potencial criminoso?
6. Presumindo que a toxicodependência careça de tratamento, que receita para tratar um homossexual?
7. Referindo-se a psicóloga a estigmas, como surgirão os estigmas?
8. Poderemos considerar a afirmação proferida um estigma social?
9. Ter um filho toxicodependente é um problema inquestionável. Ter um filho homossexual é um problema?
10. Ter um filho sacristão é como ter uma vítima de pedofilia?
11. Ter um filho seminarista é como ter um potencial criminoso?
(…)
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
domingo, 13 de novembro de 2016
O RUMO
Os especialistas digladiam estatísticas, números,
interpretações. Socorrem-se das revistas e dos jornais estrangeiros que leram e
espantamo-nos com o tanto que lêem. Têm convicções fortíssimas acerca das
causas e, quais pitonisas, prevêem já as consequências. De arrasto,
misturam tudo numa salada de indignações que não aquece nem arrefece. A única
coisa que lhes ferve é o estilo. Duvido que sentissem as mesmas coisas ou
pensassem da mesma maneira se trabalhassem numa Bershka ou na Zara.
O mundo
prossegue a um ritmo vertiginoso na direcção do abismo, com seus Centros
Comerciais gigantescos, inaugurados com pompa e circunstância, a
comercializarem artigos produzidos com mão de obra barata estrangeira para
serem vendidos a mão de compra inflacionada. Natal à porta, febre consumista exacerbada,
chega a ser insultuoso passar-se ao lado destas matérias como se elas não
coubessem nas estatísticas. Mas esperam o quê de uma sociedade assim? Gente
frustrada, com cursos tirados, a trabalhar sábados, domingos e feriados,
serventes da máquina consumista em distribuições horárias a que se dá o nome de
flexibilidade para se disfarçar o desrespeito pelas 40 horas semanais.
Façamos
nós contas da nossa especialidade: um dia tem 24 horas. 8 são para trabalho efectivo. Sobram
16. Retiremos já 2 horas, uma para almoço, outra para jantar. Sobram 14.
Retiremos mais duas horas perdidas em transportes públicos. Sobram 12.
Retiremos uma para a higiene pessoal e o pequeno-almoço. Sobram 10. Retiremos,
pelo menos, 6 horas de sono para um corpo cansado. Sobram 4. Das 24 horas que
um dia tem, sobram 4 ao burguês para cultivar valores fazendo o que bem
entender: desporto, lazer, família, estudo, informação… Ora, alguém julga que
nestas 4 horas um cidadão comum, arrasado pela fadiga quotidiana, vai estar interessado
nas estatísticas dos especialistas? Tem a cabeça cheia de ruído. Dêem-lhe entretenimento, que merece,
dêem-lhe sensacionalismo, que não pesa, dêem-lhe pornografia, que descontrai.
Grosso modo, os efeitos de uma sociedade assim organizada são óbvios:
comodismo, indiferença, letargia. Em dias de folga, se os tiverem, as pessoas
não se dedicarão à reflexão nem à meditação transcendental. Aproveitarão para
se embebedar, fazer churrascos, retirar da vida o parco prazer do que tomam
por dia de liberdade. Desiludam-se os especialistas. O ódio, a raiva, os
medos, que medram no imo de gente assim explorada, não encontram nenhum significado, nem por nenhum processo mágico se identificarão com discursos apaziguadores. Estas
pessoas já só entendem a retórica dos recalcamentos. Mas essa não se mede em
estatísticas, treina-se nos palcos de um espectáculo que é o das audiências.
Numa sociedade toda ela inclinada para o fantasioso da opinião (abram-se os
jornais), da partilha indiscriminada e publicitária da intimidade
(frequentem-se as redes sociais), da promoção do ódio dos fracos aos mais
fracos (sentem-se nos cafés a ouvir o povo), que podemos nós esperar senão a redução da democracia a um degradante reality show? Com a cultura do saber e da
reflexão completamente destruída, e até arcaizada pelos novos pensadores
do imediatismo, não admira que o populismo some e siga. Irá somar ainda mais, movido, como sempre, pela estupidificação das massas. Não há tempo para pensar, o pensamento exige tempo e silêncio, tempo e silêncio são inimigos deste novo mundo, pensar exige ócio, o ócio é um terrorista do passado que a contemporaneidade pós-humana jamais tolerará. Com a complacência e a responsabilidade de todos que não se oponham a isto sem
ceder à ditadura do humorismo e adoptando uma postura de exigência que tenha
por fim mudar o rumo da sociedade, mas mudá-lo de facto.
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
BELOS VENCIDOS (um excerto)
10. Sempre quis ser amado pelo Partido Comunista e pela Santa Madre Igreja. Queria viver numa canção folk, como o Joe Hill. Queria chorar pelas pessoas inocentes que a minha bomba deixaria necessariamente estropiadas. Queria agradecer ao velho camponês que nos daria de comer na nossa fuga. Queria usar a minha manga vazia arregaçada até cima, ver as pessoas sorrir quando eu fizesse a continência com a mão errada. Queria ser contra os ricos, mesmo que alguns deles conhecessem Dante; momentos antes da derrocada um deles ficaria a saber que também eu conhecia Dante. Queria que levassem o meu busto pelas ruas de Pequim, com um poema escrito no meu ombro. Queria poder sorrir aos dogmas, e apesar de tudo deixar que estes me distorcessem a personalidade. Queria defrontar as máquinas da Broadway. Queria que a Quinta Avenida recordasse os atalhos índios que por lá passavam. Queria sair de uma cidade mineira com maus modos e convicções incutidos por um tio ateu e bêbedo, ovelha negra da família. Queria atravessar a América num comboio blindado, ser o único branco aceite pelos negros na convenção. Queria ir a cocktails de metralhadora ao ombro. Queria dizer a uma velha namorada escandalizada pelos meus métodos que as revoluções não se fazem nos buffets, que não podemos ser selectivos, e ver o seu vestido de noite prateado molhar-se no sítio da cona. Queria lutar contra o golpe de estado da polícia secreta, mas de dentro do partido. Queria que uma velha a quem morreram os filhos se lembrasse de mim nas suas orações, numa igreja de adobe, e que os filhos me garantissem que o fizera. Queria persignar-me quando ouvisse palavrões. Queria ser tolerante para com os vestígios de paganismo numa festa de aldeia, condenando a Cúria. Queria envolver-me em negócios obscuros de imobiliário, ser o agente de um bilionário sem nome e sem idade. Queria escrever bem dos Judeus. Queria ser alvejado entre os Bascos por transportar a eucaristia para o campo de batalha contra Franco. Queria pregar sobre o casamento com a indiscutível autoridade de uma virgem, espreitando os pêlos negros das pernas das noivas. Queria escrever um manifesto contra o controlo de natalidade num inglês muito claro, um panfleto que se vendesse nas salas de espera, ilustrado a duas cores com desenhos de estrelas cadentes e da eternidade. Queria proibir a dança durante uns tempos. Queria ser um padre drogado que gravasse um disco para a Folkways. Queria ser deportado por razões políticas. Acabo de descobrir que o cardeal... recebeu um avultado suborno de uma revista feminina, fui alvo de propostas desonestas por parte do meu confessor, vi os camponeses serem traídos por razões necessárias, mas os sinos tocam esta noite, outra noite no mundo de Deus, e há muitos que precisam de alimento, muitos joelhos ansiosos por se vergarem, subo os degraus gastos enrolado na velha pele de arminho.
Leonard Cohen, in Belos Vencidos, trad. Margarida
Vale de Gato, Relógio D'Água, Novembro de 1997, pp 31-32.
AS CANÇÕES DE LEONARD COHEN
Começou tarde, dizem, quando comparado com outros que não
começam por onde ele começou. Antes do primeiro álbum ser lançado em 1967,
Cohen já tinha editado livros de poemas e dois romances. The Favourite Game
(1963), o primeiro, desbrava o caminho da salvação através do sexo. Beautiful
Losers (1966), o segundo, colocava algumas pedras no caminho. Certo crítico
terá falado de um desagradável épico religioso de incomparável beleza. Conversa
de crítico. As canções não simplificaram a complexidade do pensamento,
deram-lhe antes uma voz porventura mais fácil de chegar ao outro, aquele com
quem o vate em vão procura comunicar. Em abstracto, esse outro é sempre uma indefinição que se dilui na expressão do eu. Leonard Cohen nunca deixou de ser
escritor nas suas canções, as quais reflectem uma inquietação mística sem igual
no panorama da chamada cultura popular (perspectiva demasiado simplista e redutora da
natureza de uma canção). O que é a santidade? E o amor? Como se conjugam com a
liberdade? E com a sexualidade? Como explicar o mal? No fundo, as dúvidas que
estas canções sugerem têm um pendor clássico que fica bem no cenário de ilhas
gregas onde o autor viveu. Citemos
William Kloman: «Cohen’s political temperament is revolutionary. But, like
Camus, he is starkly aware of the paradoxes of rebellion. He is frozen in an
anarchist’s posture, but unable to throw his bomb». Talvez a vida “monasterial”
num templo budista fosse terapêutica menor para tamanha inquietação. Creio que uma vez
na ilha, jamais de lá saiu. O universo de Leonard Cohen é o da insularidade, de
guitarra na mão, rodeado de um mar de incertezas por todos os lados, enquanto da voz
se estendem palavras ora melancólicas, ora irónicas, ora autocríticas, ora eróticas,
palavras desconfortáveis como o canto de um pássaro engaiolado à procura de
liberdade. Que bem ficou neste A Noite Fez-se Para Amar:
as canções de Cohen no filme de Robert Altman são uma
espécie de alma a ecoar a visão melancólica que o realizador tem do mundo. Não
sei se triste, se desesperançado, o eco reproduzido pelas canções
induz um romantismo trágico na relação entre os dois malditos que se amam. Nada
há de simpático nestas personagens, a não ser as suas fraquezas, os seus
vícios, e de como delas surde uma força indómita que não pode senão ser
considerada virtuosa. Coragem? Desespero? São figuras humanas, filmadas
enquanto tal relegam para o plano da fantasia os heróis inverosímeis do westernclássico.
Mas não deixam de ser, também elas, figuras de um tempo que a todo o momento
nos chega como identificador da nossa própria miséria.
UM POEMA EM PROSA DE LEONARD COHEN
PERGUNTO-ME SE O MEU IRMÃO
Pergunto-me se o meu irmão chegará a ler isto alguma vez. Sem dúvida que o repudiaria, espero que com gentileza, diria talvez que o mar é todas as coisas que eu disse, máquinas de sonhar, um olho de cristal, tudo isso, mas embora seja verdade é melhor conservar estas coisas em segredo. Agora poderia dizer-lhe algo que nunca soube quando vivíamos juntos. Que é um luxo esse de se deixarem coisas no tinteiro, um luxo de que muito poucos podem disfrutar. Os filhos do vento e da água não precisam de se esmerar acerca daquilo que o seu sangue conhece, mas quantos podem controlar essa economia, e quantos mais se vêem obrigados a arranhar e escavar o mundo de mil diferentes maneiras, apenas para estabelecer a mínima conexão entre as suas vidas. Os heróis e os semi-heróis, os meninos ungidos aspirando pelas constelações que os esperam, esses podem desdenhosamente não implorar ao mundo horizontal com palavras e metáforas organizadas, mas eu careço do seu equilíbrio; como tantos outros, eu não aspiro a nada, não estou a ponto de ascender à minha glória, de modo que devo mover-me torpemente entre as minhas amarras, devo negociar o amor que vou alcançar, fora da minha breve história particular não haverá paixão que me revele, ninguém em particular me reclamou, de modo que me devo dedicar à confusa política do general e gritar aos deuses para demonstrar a sua irrealidade, tal como o meu irmão e eu quando embaciávamos os vidros das janelas com o nosso bafo, para que pudéssemos desenhar neles com os nossos dedos. Ele desenhava perfis, para os quais eu desenhava complicados olhos, e ninguém te pede que decidas qual dos nossos esforços foi mais significativo.
Leonard Cohen (n. 21 de Setembro de 1934, Westmount, Canadá - m. 10 de Novembro de 2016, Los Angeles, Califórnia, EUA), in Filhos da Neve - antologia poética, versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê, colecção Rei Lagarto n.º 10, Assírio & Alvim, 2.ª edição, 1997, p. 167.
LEONARD COHEN (1934-2016)
«Algures estarás a ouvir a minha voz. Tantos que a estão a ouvir. Há um ouvido em cada estrela.»
Leonard Cohen, in Belos Vencidos, trd. Margarida Vale de Gato, Relógio D'Água, Novembro de 1997, p 227.
IRRITAÇÕES
Nunca devemos pensar que já vimos tudo. Devemos ser humildes
perante as inúmeras possibilidades da parolice humana, sobretudo se vivermos em
Portugal e formos portugueses. Hoje, num programa da SIC Radical chamado
Irritações, deparei-me com o vídeo ao alto. Seria caso para confessar que me caíram
os tomates ao chão, não estivesse eu devidamente preparado para imaginar ser
tudo possível num país como o nosso. Acho bem que se veja este vídeo, que se reveja vezes sem conta e até que se façam debates e estudos sobre ele. Estão
ali pessoas que, enfim, parecem respeitáveis fora do papel absolutamente
ridículo e até algo petulante que estão a representar. O que o vídeo denota é
bem mais grave do que parece. Para aquela gente, as eleições americanas não são
eleições americanas. São eleições de uma espécie de administração central do
mundo. Não admira que assim os EUA, ou pelo menos alguns americanos, se julguem senhores do mundo, pois que até
por aqui há quem esteja disposto a reconhecê-lo. Não sei se parecem palhacinhos
ou marionetas, mas que ficam todos com cara de imbecis não há qualquer dúvida.
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
TEMER TRUMP
Apoiantes do impeachment a Dilma, descontentes com as políticas
defendidas pelo PT e embarcados no submarino anticorrupção, acharam conveniente
meter no poder Michel Temer, mas mostram-se agora admirados e desiludidos com a
chegada de Trump ao poder nos EUA. Temer Trump seria um bom título para uma
crónica. Não serei eu a escrevê-la.
Adenda: este post no Take Direto:
Adenda: este post no Take Direto:
Existem pessoas que apoiaram o golpe e que ficaram
chocadas com Trump ter sido eleito presidente dos Estados Unidos. Para estas
pessoas é fácil explicar que o choque que elas conseguem ver que o mundo sente
em relação a Trump é parecido com o que o mundo sentiu em relação a Temer. E
ainda com um ingrediente especial: o mundo viu o golpe no Brasil como um ataque
inaceitável à democracia (um golpe mesmo) e não como um resultado eleitoral que
todos lamentam.
POTÊNCIA
Então, parece que o tipo do cabelo esquisito é o próximo big boss da maior potência mundial. Vai ser giro assistir ao fim do mundo. Só quem não vê westerns é que podia esperar outra coisa :-).
No dia em que o criminoso de Arouca se entregou à polícia, retirar relevo a tamanho feito com a eleição de Trump para a Casa Branca é uma injustiça. Está garantida a alternância democrática. Que mais queriam?
Entre Bush e Trump, tivemos Obama. Foi fixe. Agora é o aguenta aguenta do costume. No Web Summit discute-se se a Internet nos está a tornar mais estúpidos. É óbvio que não, pelo menos na América tem contribuído fortemente para o esclarecimento das populações.
Adenda:
É só rir#1:
«A manchete do New York
Post condensa de forma terrível muito do que está em jogo: "Eles
disseram que não podia acontecer". Quem são eles? Somos nós, os que
ainda acreditavam que havia uma margem de conhecimento e racionalidade exterior
aos populismos do nosso presente»... (João Lopes, aqui).
É só rir#2:
Já sei que sou anti-americano, pelo que será escusado virem com essa bandeira sempre que se quiser discutir a América para lá de Nova Iorque e de Los Angeles. Muitos europeus tendem a olhar para os EUA com uma incompreensível ingenuidade, como se nada existisse entre a Califórnia e Nova Iorque. Sucede que entre esses dois estados temos o Montana, o Wyoming, o Utah, o Kansas, o Texas, o Louisiana, o Mississipi, o Arkansas, o Missouri, o Tenessi, Iowa, etc, etc, etc, onde não consta que os índices de racionalidade, cultura e conhecimento/saber das populações sejam, vá lá, muito promissores.
Aquilo a que normalmente se chama a América profunda só podia simpatizar com o discurso de Trump, um discurso todo ele voltado para o medo e, por consequência, para o ódio a esse outro sempre apresentado como uma ameaça. Recordemos uma das tiradas mais famosas e porventura mais eficazes de Trump:
É só rir#2:
Já sei que sou anti-americano, pelo que será escusado virem com essa bandeira sempre que se quiser discutir a América para lá de Nova Iorque e de Los Angeles. Muitos europeus tendem a olhar para os EUA com uma incompreensível ingenuidade, como se nada existisse entre a Califórnia e Nova Iorque. Sucede que entre esses dois estados temos o Montana, o Wyoming, o Utah, o Kansas, o Texas, o Louisiana, o Mississipi, o Arkansas, o Missouri, o Tenessi, Iowa, etc, etc, etc, onde não consta que os índices de racionalidade, cultura e conhecimento/saber das populações sejam, vá lá, muito promissores.
Aquilo a que normalmente se chama a América profunda só podia simpatizar com o discurso de Trump, um discurso todo ele voltado para o medo e, por consequência, para o ódio a esse outro sempre apresentado como uma ameaça. Recordemos uma das tiradas mais famosas e porventura mais eficazes de Trump:
«Os EUA tornaram-se a lixeira dos problemas dos outros. É
verdade. E não falamos dos melhores e mais requintados. Quando o México envia
cidadãos seus, não envia o que de melhor tem. (…) Envia pessoas com imensos
problemas e essas pessoas trazem esses problemas para cá. Trazem drogas, trazem
crime, são violadores».
Contra isto, Trump promete erguer um muro ao longo da
fronteira dos EUA com o México. No Texas agradecem-lhe.
É só rir#3
«Tenho dificuldade em perceber como é que as vítimas dos algozes são sempre os seus primeiros defensores» (aqui).
É só rir#4
Solidário com Hillary, Passos Coelho funda o grupo terapêutico dos políticos que saíram derrotados de eleições apesar de terem tido mais votos:
É só rir#3
«Tenho dificuldade em perceber como é que as vítimas dos algozes são sempre os seus primeiros defensores» (aqui).
É só rir#4
Solidário com Hillary, Passos Coelho funda o grupo terapêutico dos políticos que saíram derrotados de eleições apesar de terem tido mais votos:
terça-feira, 8 de novembro de 2016
DE NOITE
Publicadas em 1912, as Elegias de Teixeira de Pascoaes
tiveram na sua origem a perda de um sobrinho. Muitos dos poemas resultam numa
mera expressão da dor, fechados num sentimentalismo catártico que não me
interessa particularmente. Mas outros são autênticas obras-primas do género,
valendo por si só e isoladamente muito mais do que toneladas de literatura
elegíaca vinda a lume posteriormente. Em poemas como Canto heróico ou Elegia da
Solidão a dor afecta à escrita atinge uma dimensão crítica impressionante, atirando
o poeta para um abismo de dúvidas acerca da existência que são o magma da
própria poesia. Nesses e noutros poemas que à sombra desses perduram, Deus surge
envolto em dúvida, indiferente, fantasmagórico: «Não sei quem és, eu não te
entendo, Deus!» (Junto Dele). E ainda que o mistério da dor seja caminho
desbravado para a esperança, a vida resume-se a um berço onde a morte já
respira: «Dia a dia, nós vamos falecendo; / Esta vida carnal é um arremedo / Da
vida, à luz da qual eu não entendo / A tragédia da morte, a dor e o medo» (Vida
Eterna). Existir é, deste modo, experienciar «a tragédia da morte, a dor e o
medo» como uma indefinição que leva à dúvida e, por fim, à esperança. Mas esta
esperança não é a dos católicos, nem o Deus que surde desta inquietação é o
Deus dos católicos. Esta esperança é a daquele que se sabe finito numa certa
forma de ser, mas se descobre eterno na essência material das coisas:
transformação. É a esperança de um homem ligado à terra, consciente do drama que representa em vida, corpo onde a esperança e a saudade se fundem num horizonte de perda.
DE NOITE
Quando me deito e mais a minha dor,
Minha noiva-fantasma, e em derredor
Do meu leito a penumbra se condensa,
Faz-se em meus olhos nus uma luz imensa,
E parece-me o Reino espiritual.
E ali, despido o hábito carnal,
Tu brincas e passeias, não comigo,
Mas com a minha dor… o amor antigo.
A minha dor está contigo ali
Como outrora eu estava ao pé de ti.
Se eu fosse a minha dor, com que alegria
De novo a tua face beijaria!
Mas eu não sou a dor, a dor etérea…
Sou a carne que sofre, esta miséria
Que no silêncio clama!
A sombra, o corpo agonizante, o drama…
Teixeira de Pascoaes, in Elegias (1912).
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