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sexta-feira, 29 de março de 2019

ZEITNOT


Oriundo da Bulgária, o escritor Dimíter Ánguelov (n. 1945) há muito que assentou arraiais entre nós. Paulo Franchetti, numa apresentação do autor cuja leitura se recomenda (aqui), informa-nos da dedicação ao jornalismo e ao ensino universitário, tendo sido Ánguelov um destacado divulgador e tradutor de autores portugueses tais como Mendes Pinto, Eça, Camilo, Nemésio e Herberto. Já radicado em Portugal, publicou na &etc os livros “Código evidente” (1989) e “Nihil obstat” (1995). Referindo-se a estes livros, Franchetti apresenta o seu autor como “desconstrutor”: «ou, o que dá no mesmo, um construtor de não-objectos, de situações ou objectos impossíveis». Com colaboração literária e crítica dispersa por vários órgãos de comunicação social portugueses (Expresso, Diário de Lisboa) e revistas de referência (LER, Colóquio Letras), Dimíter Ánguelov distingue-se, antes de mais, pela prática do aforismo. Zeitnot (Debout Sur l’Oeuf, Janeiro de 2019) é o seu segundo livro para a DSO, seguindo-se ao volume In Vano Veritas (Debout Sur l’Oeuf, Janeiro de 2014). Entre os cinco anos que separam as duas publicações, Ánguelov publicou ainda “No meio do Silêncio” (Artelogy, 2016) e, num registo mais ficcional, “A Rapariga de Jam” (Artelogy, 2016) e “Criação Curel” (Artelogy, 2017).
   Parente pobre da filosofia, o aforismo é uma arte da síntese. Podemos entendê-lo enquanto conclusão de um raciocínio cujas premissas apenas se subentendem. É verdade que a tendência para chamar aforismo a todo e qualquer texto curto que não encaixe nas convenções literárias faz com que este tipo de produção se associe mais facilmente ao discurso filosófico, embora muitas vezes não seja exacto que o próprio discurso filosófico não resulte enriquecido do exemplo ficcional e da riqueza metafórica que alimenta o poético. “Zeitnot”, expressão germânica relacionada com a cronometragem num jogo de xadrez, pode ser por si mesma uma metáfora da vida. Em causa está o tempo disponível, o que resta de tempo àquele que vive para dizer tudo quanto pensa, para fazer tudo quanto diz, para pensar tudo quanto faz. A pressão do tempo opera no sujeito um desejo de síntese, força a abreviação do discurso, leva a uma economia verbal que nada tem que ver com precipitação do pensamento, antes se impondo como gestão do silêncio, pura música.
   O último aforismo desta colectânea dá bem conta de como o poético se intromete neste processo: «A vida? Uma onda que se defende do mar» (p. 36). Podemos imaginar um antes e até um depois para esta definição, a sua brevidade não exclui diversas possibilidades reflexivas. A pergunta está feita e é simples, genérica, comum, a resposta nem por isso, mas deixa no ar um apelo à reflexão que é a maior dádiva desse falar por parábolas que remonta aos próprios textos bíblicos. Isto não faz do autor, obviamente, um messias da palavra universal. De resto, ele é suficientemente heterodoxo para não se deixar cair na armadilha dos profetas: «A fé salvou muita gente. De outra fé» (p. 13). O pragmatismo sobrepõe-se à metafísica, assumindo a ironia como força motriz do pensamento. Por vezes a ironia descamba para um humorismo mais ligeiro: «Constatei várias vezes que as piores coisas acontecem-me sempre entre Janeiro e Dezembro. Por uma razão muito simples falta de margem de erro» (p. 31). Noutras ocasiões, o humor faz-se valer de subtilezas sintáticas e gramaticais, de trocadilhos ortográficos, de paradoxos clássicos: «É saudável que a nossa vida piore cada vez mais antes de nos despedirmos dela» (p. 18). Os epigramas literário, político e social induzem a veia satírica. E alguns micro diálogos encenam situações dramáticas. Há ainda dois aforismos curiosos, os quais se debruçam sobre a própria natureza do aforismo: «Um bom aforismo faz-nos esquecer de todos os romances» (p. 10); «Um aforismo explicado torna-se imediatamente uma banalidade» (p. 11).
   Autor discreto, reservado, de certo modo recolhido numa espécie de sombra onde não chegam as luzes da ribalta, Dimíter Ánguelov tem vindo a produzir no nosso país uma obra sem par neste tempo onde a verbosidade (que é uma forma de obesidade verbal), ainda que vazia de qualquer pensamento, vale mais do que a ginástica desse mesmo pensamento. A dieta que nos oferece em nada aligeira o que possamos pensar, antes nos desafia com o essencial, antes nos propõe exercitar a inteligência com graciosidade e refinado sentido de humor. Zeitnot está disponível para encomenda aqui. Sugiro-a sem qualquer tipo de escrúpulos.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

IN VANO VERITAS


Entre as formas de expressão literária concisas, o aforismo é das mais exigentes. Oferecer concisão ao pensamento pressupõe, anterior à sentença final, uma reflexão profunda que o imediatismo por vezes trai. Noutras ocasiões, não podemos sequer falar de sentença. Falamos de uma espécie de estado intermédio, porventura impossível de definir, entre as premissas e a conclusão de um raciocínio. Eivado de ironia, de dúvida, de cinismo ou de féerie, o aforismo denota uma inquietação do pensamento que, ao contrário do que possa parecer, não se compadece com certezas absolutas. Transporta-nos, antes, para um terreno problemático onde o que parece explícito traz implícitas diversas nuances conceptuais.
Portugal não tem uma clara tradição aforística, sendo possível encontrar obras de pendor aforístico, quase sempre de estilo diarístico, ou momentos esparsos onde o aforismo se mistura com as formas de expressão popular ou a poesia epigramática. Mas faltam-nos aforistas da dimensão de um Friedrich Nietzsche ou de um E. M. Cioran. Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949) foi um digno representante do aforismo cínico, mas caiu no esquecimento. Mais recentemente, alguns escritores têm sentido apetência pelo género (amiúde com fastidioso vício humorístico). Contudo, ninguém se dedicou entre nós ao aforismo como o búlgaro, radicado em Portugal desde a década de 1980, Dimíter Ánguelov (n. 1945).
A recolha  In Vano Veritas (Debout Sur L’Oeuf, Janeiro de 2014), trocadilho com a expressão latina In vino veritas, volta a colocar-nos na presença de um olhar tão inquieto quão desassombrado: «Passava pelo Ministério do Arquivamento quando exclamei instintivamente “In vano veritas!”. Felizmente ou não, ninguém me ouviu» (p. 25). Este aparente apontamento quotidiano é revelador de uma moral que não se nos impõe, colocando antes autor e leitor num mesmo estado de questionamento sobre a vanidade da existência. Por vezes interrogativos, outras vezes hipotéticos, os aforismos de Ánguelov nunca são expressamente conclusivos. Mesmo quando pressupõem definições, recorrendo ao verbo ser enquanto cópula entre sujeito e predicado, eles deixam em aberto a possibilidade da contradição. Exemplo superior desta prática é a distribuição por três páginas de vinte e cinco definições para o termo elegância.
Deste modo, «A elegância é: a mais perfeita relação entre a verdade e a aparência» ou «não procurar ver no fundo dos olhos do outro porque lá só reside aquilo que é universal de tudo o que vive – uma expressão tão directa que não suporta qualquer ideia de verdade, embora se tenha escrito que a verdade é o olho minúsculo de um ser há muito desaparecido» ou «uma graciosa nuvem que se mantém à devida distância da sua própria sombra» (pp. 7-8)… O que aqui fica claro é a superior relevância da observação face à veleidade determinística, não sendo tanto preocupação do autor fixar conceitos como parece ser explorá-los na sua extensão conotativa. Daí que, tomando como temas centrais os problemas da fé, das relações entre abstracto e concreto, pessimismo e optimismo, ou a questão da Natureza (com maiúscula), Dimíter Ánguelov revele, sobretudo, uma certa heterodoxia que se afasta da tentação para doutrinar.
Estes aforismos podem partir de possibilidades, podem definir pela negativa, podem sustentar-se em interrogações, mas raramente generalizam e universalizam a perspectiva proposta acerca do sujeito reflectido. Quando tal acontece, o mais que podemos esperar é isto: «Tudo aquilo que somos é um passado a dormitar» (p. 32). Como em todas as recolhas do género, há momentos onde a banalidade ameaça o conjunto: aqui uma escusada tentativa de se explicar, acolá um lugar-comum, além uma tirada humorística menos interessante. Mas no cômputo geral, a produção é de uma acutilância deveras estimulante:

Há uma única razão para ser optimista: a certeza de que mais tarde ou mais cedo deixaremos de o ser. (p. 16)
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Mostrar erudição é como aparecer de smoking emprestado – pode ficar-te bem mas toda a gente sabe que não é teu. (p. 17)
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Quando reparamos que as abomináveis traças nos esburacaram a roupa elas já são belas borboletas que nos alegram com o seu voo inocente. (p. 27)
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Se julgarmos pela maneira como Deus rege o Universo, aqui na Terra Ele não chegaria a director de jardim zoológico. (p. 29)