terça-feira, 6 de janeiro de 2026

CARACOL DE ESTIMAÇÃO

Regressar a um texto e repensá-lo a partir das vozes de terceiros. Expor o processo, constantando que tudo pode ser diferente. Sete simpáticas e disponíveis criaturas em torno de Quem está aí? dividem-se espontaneamente e sem qualquer indicação nesse sentido pelas oito cenas, oferecendo-lhes novas cambiantes e dimensões. Uma imagem que se me cola à cabeça: a de um caracol como animal de estimação. Recolho-me a pensar em Richter e na autoficção, no eu que se desdobra enquanto se põe em causa. O problema de uma escrita demasiado autobiográfica é, cada vez mais, não haver biografia que chegue. A quem interessará as milhares de horas despendidas a resolver problemas quotidianos? A quem interessarão as nossas dores? Este o quarto de três actos frustrados, isto é, a sombra do trio reunido. Onde terei lido que as sombras têm cheiro? (Vila Real, Fundação da Casa de Mateus)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

TÍTERES

 
Fui ver os Bonecos de Santo Aleixo no dia em que soube da morte do Nuno. Que outra forma encontrar para disfarçar a repugnância face às notas de rodapé mal alinhadas? Saí de lá a pensar que há mais vida naqueles bonecos do que em muitas almas, tese que não carece de prova ao ligarmos a televisão num qualquer canal noticioso. O teatro. O teatro é a arte onde as vítimas ganham voz, isto é, onde a voz das vítimas e dos carrascos é colocada ao mesmo nível. Em mais nenhum lado as vítimas encontram corpo e espaço para se fazerem ouvir como no teatro, nessas assembleias em que, colectivamente, assistimos não aos julgamentos, mas à exposição dos elementos que compõem uma relação possível entre vozes. A voz do ministro dos negócios estrangeiros português fez-se ouvir: benigno, disse ele. E ao dizê-lo, transformou num acto saudável o esbulho, o rapto, a violência mais pérfida dos tiranos. Em suma, o uso ilegítimo da força para agressões que violam a soberania dos estados passa a ser benigno. Como uma espécie de cancro benigno. Só que este mata. Infelizmente, não se matará a si próprio nem quem cauciona tal benignidade. Apetecia-me ver novamente os bonecos.

domingo, 4 de janeiro de 2026

NUNO DEMPSTER (1944 - 2026)

 


Esta náusea, este
viver sozinho contra o que me cerca
e contra uma poesia só imaginada.
Nuno Dempster
 
   Nascido a 26 de Abril de 1944, em São Miguel, nos Açores, Nuno Dempster é o nome literário de Manuel Gusmão Rodrigues. Através de uma publicação da editora Companhia das Ilhas, soube apenas hoje de madrugada do seu falecimento no passado 2 de Janeiro.
   Neto de Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), um dos poetas de Orpheu, de quem organizou o volume Um Poeta Rodeado de Mar (Companhia das Ilhas, Agosto de 2021), Nuno Dempster era engenheiro técnico agrário de formação. Trabalhou inicialmente numa cooperativa agrícola de cariz revolucionário, tendo sido saneado, em 1977, pelos que tomaram de assalto a direcção da coperativa sob reacção do 25 de Novembro. Prestou assistência técnica no fabrico de rações e na produção animal, dois ramos em que se especializou.
   Conhecemo-nos pessoalmente em 2008, depois de o Nuno me procurar no meu então local de trabalho. O primeiro contacto foi nos weblogs e, posteriormente, via e-mail: «Passo pelas Caldas em trabalho e dou aí um salto para lhe oferecer o meu único livro (havia outro, mas rejeitei-o), um calhamaço de quase trezentas páginas que, com espanto meu, me publicaram.» O calhamaço era Dispersão - Poesia Reunida (Edições Sempre-em-Pé, Novembro de 2008), que tive a honra de apresentar, a 30 de Maio de 2009, na Livraria Arquivo, em Leiria.
   Para efeitos oficiais, Nuno Dempster estreava-se então em livro, aos 65 anos, com uma obra em que reunia dez anos de criação poética distribuídos por sete divisões: Caminhos sobrepostos, Confluências, Osmose, Génese, Em cinza quente, Palimpsesto, Inventário. Um novíssimo poeta tardio, portanto, contra a lógica das urgências que pauta a nossa era. Confidenciava-me, a 15 de Novembro de 2021: «tudo a seu tempo vem quando é certo de vir.» E se os livros vieram, por assim dizer, tardiamente, o mesmo não sucedeu com a poesia, que desde cedo ocupou um jovem inicialmente entusiasmado com o surrealismo que escrevia poemas, dava-os a ler a um ou dois amigos e depois deitava-os fora.
   Aos 27, a escrita ter-se-á interrompido com o falhanço de um romance sobre a Guiné, tema a que regressaria tanto na secção Inventário, do volume intitulado Dispersão, como no longo e extraordinário poema K3 (&etc, Janeiro de 2011), do melhor que se escreveu em verso sobre a chamada Guerra Colonial. Vingou-se a interrupção posteriormente, com a retoma da escrita nos anos 90 e a construção de uma obra consistente dividia pela poesia, pelo conto e pelo romance.
   Antes de K3, publicou Nuno Dempster na &etc de Vítor Silva Tavares outro longo poema: Londres (Janeiro de 2010). E à mesma editora regressaria com Uma Paisagem na Web (Maio de 2013). Têm os três livros em comum o facto de serem poemas longos e exibirem nas capas pinturas de Maria João Lopes Fernandes. Sobre a sua poesia, prefiro citá-lo em discurso directo: «procuro escrever poesia de sentido claro, adoptando a ideia de Sena de que a poesia é para ser entendida, e evitando a poesia do eu ensimesmado, mesmo quando escrevo na primeira pessoa, aliás de acordo com o marxista que fui e sou desde que me fiz homem, com o cuidado de me afastar, na escrita, da classe operária do Neo-realismo, para a qual, neste desgraçado tempo, entrou e vai entrando boa parte da classe média servidora
   Há na sua obra, no entanto, um gosto pelos clássicos e um cuidado na forma de que os próprios títulos dão conta: Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo (Edições Sempre-em-Pé, Setembro de 2011), Elegias de cronos (Artefacto, Junho de 2012) ou, mais recentemente, Limbo, Inferno e Paraíso – Três Estados Apócrifos (Companhia das Ilhas, Março de 2022), livro que, só por si, muito nos obrigaria a reflectir sobre o diálogo com os clássicos, no caso o Dante da Divina Comédia, e o seu entendimento enquanto obras de um tempo concreto de que são testemunho da injustiça e do mal universal e intemporalmente perpetrados. Cem poemas, trinta e quatro no Limbo e trinta e três no Inferno e no Paraíso, o mesmo número de poemas que há de cantos por estado na Comédia
   Em prosa, publicou Nuno Dempster os livros O Papel de Prata, O Reflexo e Outros Contos pelo Meio (Companhia das Ilhas, Outubro de 2012), Seis Histórias Paralelas (Companhia das Ilhas, Setembro de 2023) e o romance Há rios que não desaguam a jusante (Companhia das Ilhas, Outubro de 2018), narrativa cuja acção se inicia em 1961 colocando no centro das atenções um tal coronel Pierre Latour, neto bastardo de Leopoldo II da Bélgica, herdeiro de uma fortuna que vai acrescentando à conta de trafulhices várias. Um romance exemplar sobre a maldade dos homens, ao qual ninguém ligou nenhuma neste país de génios plantados entre sete colinas.

OSSADAS

A seguir ao que se passou em Auschwitz
é coisa bárbara escrever um poema.
Theodor W. Adorno

As ossadas dos séculos
há muito se perderam.
A soma dos pequenos campos
dá um campo mais vasto
que as hordas de germânicos
nos compêndios da História.
Então já se matava em série
e nunca se parou.
Hoje a soma ultrapassa em muito
os mortos de Auschwitz,
o termo genocídio tornou-se banal
e também o ruído dos bulldozers
que enterram cadáveres.
Adorno equivocou-se por excesso.
A poesia convive com as trevas
e com o sol, escrita por revolta
ou ao espelho,
ou suspirando,
ou ideando um mundo
onde nunca se viram
os corcéis de João Evangelista.

Nuno Dempster, in Variações da Perda, Companhia das Ilhas, Junho de 2020, p. 73. Mais sobre Nuno Dempster: Na Luz Inclinada, Limbo, Inferno e Paraíso, um poema, Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Há rios que não desaguam a jusante, Anti-Elegia Para o Meu Final, Dispersão, outro poema.

sábado, 3 de janeiro de 2026

MAIS UMA NAÇÃO LIVRE

Depois de um documentário sobre Harvey Keitel, seguiu-se um filme com Adrien Brody. Foi ele a única razão para ficar acordado a ver um desfile de gente a ser assassinada como pinos a cair numa partida de bowling. Pela manhã, notícia do ataque à Venezuela. Maduro em lugar incerto. Ficção e realidade, qual delas mais improvável? Não foi preciso esperar, o discurso já estava montado e iria ocupar toda a comunicação social portuguesa. Sem excepção. Nas televisões ganhava forma a narrativa da luz de esperança para o povo oprimido que há tanto esperava pela libertação. Alguém citava Maquiavel, esse grande diplomata, lembrando que os fins justificam os meios. Infelizmente, não se explicava a ninguém nem sequer se discutia a natureza de "O Príncipe", muito menos o que verdadeiramente pretendia Maquiavel com as suas teses políticas numa Itália ocupada e dividida. No bairro, os ciganos entretinham-se com pirotecnia, bombas de Carnaval, explosivos aparentemente inofensivos. Enfim, antes isso que verem televisão.

EUA RAPTAM PRESIDENTE DA VENEZUELA

 
Depois de Gaza tudo será possível. O Direito Internacional não conta, a ONU não conta, o discurso político enredou-se numa teia de argumentos hipócritas de que dificilmente se libertará. Dois pesos, duas medidas, foi o filme a que assistimos com a invasão da Ucrânia pela Federação Russa e as intervenções de Israel na Palestina (Cisjordânia incluída), na Síria, no Líbano, num Irão ainda recentemente humilhado pelos EUA. Outra ingerência contra o inoperante Direito Internacional. Suportada pelo poder da força, a economia alimenta o poder da força. Não é diferente do que a humanidade conheceu na Idade Média, a despeito das armas serem outras. Isto não vai levar a nada de bom. Antes pelo contrário. Uma coisa é certa: numa UE morta estamos protegidos, nós, portugueses, pela nulidade que somos, desde que os amigos israelitas e americanos continuem a poder servir-se das nossas traseiras. Valho-nos termos cu. Tivéssemos tomates, estávamos feitos. Assim como assim poderemos continuar a dizer que a culpa é dos comunistas e dos ciganos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

DESCONCERTO

 
Primeira leitura do ano: Measure for Measure, de William Shakespeare (1564-1616), Dente por Dente na tradução de Luiz Francisco Rebello. Mistress Overdone, gerente de bordel, podia ser a patroa de Chen-Té e de Yvette Pottier, duas prostitutas no teatro de Brecht. Aproveito para engendrar associações com Mandrágora, de Maquiavel (1469-1527), ou mesmo George Dandin ou le Mari confondu, de Molière (1622-1673). As palavras astúcia, ardil, argúcia são comuns. E faço inventários:
 
- Hamlet (1599?), Dinamarca, o filho a quem o pai aparece sob a forma de fantasma, vingança, loucura, Ofélia, amante do príncipe, suicida-se.
- A Tragédia de Otelo, Mouro de Veneza, Veneza, Chipre, inveja e manipulação, Iago, o mau da fita, racismo, Desdémona vilipendiada, acusada de trair Otelo, morta pelo marido enganado.
- Measure for Measure (1603?), Viena, a hipocrisia dos moralistas, corrupção da justiça, o desconcerto do mundo. Isabel, freira a quem é sugerido vender o corpo para salvar o irmão da decapitação.
- A tragédia do Rei Lear (1605?), Bretanha pré-romana, o poder dividido pelas filhas, cegueira e loucura
- A Tragédia de Macbeth (1606?), Escócia, a ambição que leva à loucura e à paranóia, a manipuladora Lady Macbeth, a sonâmbula, sentimento de culpa, loucura. Cordélia, deserdada por dizer a verdade. Conspiração. O pai arrependido, a execução da verdade e da bondade.
 
E fiquemos por aqui, entre as balizas do mundo desconcertado e da loucura humana muito há a jogar. As regras mudam, mas o jogo mantém-se inalterado ao longo dos séculos.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

RECEBER A MORTE COM UM DIRECTO

 
Momentos antes da tragédia, alguns jovens filmaram de smartphone erguido as chamas a alastrar e o incêndio a tomar forma. Davam pulos de alegria, depois o fumo e o fogo consumiu-os. O primeiro círculo do Inferno, caro Dante, está na Terra. Por exemplo, no interior de um bar suíço.

MISSÃO IMPOSSÍVEL

Almoço no Borges. Sobre a mesa, uma travessa de tempo. Os tentáculos da falta de tempo para cumprir promessas, levar a cabo projectos, concretizar planos que deixámos de fazer para não ter de lidar com frustrações. Chegado a casa, divido-me entre o quarto, deitado na cama a ver reels, e a sala, deitado no sofá a ver mais um episódio da saga Missão Impossível. Fosse este tempo aplicado nos projectos, nas promessas, nos planos, levaríamos por certo à mesa as espinhas da preguiça, a falta que nos faz não fazermos nada, o tempo que dispensamos à indolência, a uma certa lazeira que nos protege da fatídica saturação com que ainda colhemos o mundo dentro de nós.

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

SABER PERDER

 


   São cerca de 600 os textos sobre livros que escrevi e depositei no weblog ao longo dos anos. Sei-o não porque um qualquer fetiche contabilístico me tivesse levado a contá-los, mas tão-somente por ser esse o número que surge à frente da categoria Leituras. Outros textos haverá que não ficaram catalogados nesta arca em rede, repousam nos arquivos como páginas esquecidas em pastas antigas. Há ainda os que acabaram editados em livro e revistas, alguns terão servido para prefaciar ou posfaciar obras alheias. Nunca pensei que alguém pudesse atribuir alguma relevância a esses exercícios íntimos, mas partilháveis, de organização de ideias, embora me aconteça amiúde verificar o contrário. Neste Saber Perder (Companhia das Letras, Fevereiro de 2025) reencontrei numa das badanas uma frase escrita sobre um dos dois livros de poesia de Margarida Ferra (1977), poeta editada pela &etc nos volumes Curso Intensivo de Jardinagem (2010) e Sorte de Principiante (2013). Foi preciso esperar uma dúzia de anos para voltar a lê-la em livro, não no formato vertical dos poemas partidos em verso, mas no formato horizontal de uma prosa que podemos classificar, sem que tais classificações assumam grande importância, de relatos autoficcionais. Releio o que então escrevi sobre o segundo livro da Margarida e creio não estar longe da verdade se o voltar a afirmar acerca destes textos em prosa, sobretudo no que diz respeito ao esforço de autoconhecimento empreendido nesta escrita.
   Coligidas sob seis títulos, um dos quais emprestado para identificação do conjunto, estas prosas não se cingem à forma do conto tradicional, ainda que possam ser lidas como contos. Porque não? Contos concebidos sob a forma de apontamentos breves, de tipo quase diarístico, dispostos tematicamente, formando uma malha de episódios, cogitações, viagens no espaço e no tempo, num tom intimista e de constante autorreflexão que nos cativa tanto pela sobriedade como pela elegância com que questionam o lugar do ser e das coisas no mundo em que se relacionam. Assim é quando o olhar se volta para um casal de imigrantes paquistaneses que procuram sobreviver no bairro como quando mergulha ao encontro das raízes familiares, deslocando-se da actualidade para um tempo mais ou menos distante em espaços circunscritos ao universo real da narradora. A vida doméstica é, por assim dizer, a cena onde a acção se desenrola, sendo o eu o protagonista desse drama clássico que é o de quem busca entender-se no mundo de que é parte integrante mesmo quando, pela escrita, tenta afastar-se, recolher-se, exilar-se, procurando o lugar de solidão em que as palavras escritas despertam. Álbuns de fotografias, objectos privados, joias de família, anéis e alianças, memórias de lugares e de pessoas, as casas e os seus recheios, compõem o acervo de uma museologia íntima de que a escrita faz parte:

   «Escrever um texto é como ajustar o vidro da vitrine do museu: separa-nos do mundo no tempo em que aconteceu, ao mesmo tempo que o dá a ver. As palavras escolhidas para uma paisagem, um encontro entre duas pessoas, uma história ouvida a alguém são apenas uma de todas as maneiras possíveis de inscrever esse recorte de realidade numa nova ordem, outra sequência, uma superfície onde não pertence, mas onde acaba por ficar» (p. 32).

   Será, então, escrever uma aprendizagem de morrer? Ou uma aprendizagem de perder? O que se perde pela escrita é o que pela escrita se resolve, pedaços ou fragmentos largados na página como artefactos soterrados por um tempo fechado que a arqueologia da leitura se encarregará de reabrir.  Há uma natureza fragmentária nos textos deste Saber Perder que me agrada bastante. A magia do fragmento repousa no desafio de reconstrução que nos propõe, tal como as ruínas de um edifício apelam à nossa imaginação. As viagens aludidas em alguns textos, nomeadamente as que se referem a um périplo grego, enviam-nos para essa dimensão interrogativa acerca do sentido, sem necessitarem de propor uma qualquer solução para o mais antigo problema do pensamento humano que não passe por uma espécie de abnegação ou desapego que consiste, pois bem, em saber perder. Até porque: «O mundo continua a funcionar, outras vidas decorrem sem eu ser chamada a encontrar objectos que não fui eu que perdi» (p. 49)

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

QUIRIBATI

 
Quitéria foi passar o ano ao Quiribati, primeiro país a entrar em 2026. Diz que, até ver, não notou nenhuma diferença. Continua tudo parvo e perecível como antes.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

DANTES EU COSTUMAVA QUERER MUDAR O MUNDO

Dantes eu costumava querer mudar o mundo e agora só penso onde estacionar.
Dantes eu costumava querer mudar o mundo, mas esqueci-me do que isso significava.
Dantes eu costumava querer mudar o mundo e depois conheci-te.
Dantes eu costumava querer mudar o mundo e depois o meu pai morreu.
Dantes eu costumava querer mudar o mundo e agora só quero integrar-me.
Dantes eu costumava querer mudar o mundo e agora só quero instalar-me.
Dantes eu costumava querer mudar o mundo e depois comecei a vaguear por aí e perdi-me.
Dantes eu costumava querer mudar o mundo e depois esqueci-me do que queria.
Dantes eu costumava querer mudar o mundo, até perceber o que o mundo verdadeiramente é.
Dantes eu costumava querer tanto mudar o mundo que nunca mais parei.
Dantes eu costumava querer mudar o mundo e comecei a mudar tanto que me esqueci de quem era.

Falk Richter, in Trust, L'Arche, versão de HMBF, 2010.

domingo, 28 de dezembro de 2025

sábado, 27 de dezembro de 2025

SUPERAÇÃO

 
Este Natal, Quitéria superou-se. Depois da salada de frutas, da tarte de limão merengada, da mousse de lima, do arroz-doce, do bolo rei, dos coscorões, do bolo de bolacha e dos figos em calda, ainda conseguiu enfardar uma caixa inteira de Ferrero Rocher enquanto via o "Sozinho em Casa".

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

BICAMPEONATO

 
Para o JPC
 
Quero dizer-te que nem o bicampeonato
safou o mundo de continuar uma porra triste
Os lobos continuam disfarçados de cordeiros
e só os filhos da puta se mantêm fiéis a si mesmos
Entretanto vamos escrevendo umas merdas
como quem se fustiga por não encontrar sentido
nisto de estar vivo ser estar à morte
e de haver quem passe frio, fome e morra de sede
à beira de caudais infestados pelo mijo
e pela merda dos que vivem cativos no umbigo
Cá vamos indo, como diria o outro
de viola a tiracolo e impacientados
pela consciência das injustiças e da insídia
que alimenta canibais amigos de seu amigo
Mas nem todo o vinho é azedo, nem todo o pão
embolorou sob nuvens húmidas d' inverno
A primavera continua autónoma e as estradas
ainda começam como o amor, posto que
há insectos mais nobres do que homens
a despeito de títulos e prebendas, coisas que
servem pra enfeitar lápides e nomear cortadas
Escuta, venho apenas lembrar que o mar
vem galgando a terra, pelo que não percamos
a esperança de voltarmos a ter escamas e guelras
Debaixo de água o silêncio há-de compensar-nos
e assim como assim se é para ser comido, então
que seja por tubarões, se é para ser engolido
então que seja por baleias, se é para ser traído
então que seja por sereias descamadas sobre
rochas de água nas ilhas do sonho. Até já

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

MENTALIDADE RONALDO

 
Então, pessoas, como é que estão essas mentalidades Ronaldo? Quantos agachamentos, flexões e pranchas esta manhã? Foram para a ilha privada com as vossas Georginas ou optaram por forçar o portão das traseiras com Mayorgas? Força, amigos, já faltou mais para sermos sauditas. E viva a democracia das monarquias absolutas, a espada da Sharia vos abençoe.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

BOAS FESTAS

 
Então é assim, hoje, quando estiverem a enfardar comida e bebida, lembrem-se que o tal Jesus, que era para se chamar Emanuel, nasceu lá para os lados da Palestina, dizem que parido por uma virgem prenha pelo poder do Espírito Santo, porventura também atacado de Alzheimer. Ao nascimento do tal Jesus que era para se chamar Emanuel, correspondeu logo um massacre de criancinhas, prenúncio, quiçá, do que os judeus andam hoje a fazer lá por Gaza. Depois de ser baptizado, Jesus refugiou-se no deserto e aí o Diabo o tentou durante quarenta dias e quarenta noites sem comer, não os suficientes para que Jesus batesse as sandálias. Vai daí foi pregar para a Galileia, anunciando o Reino dos céus, dizendo ao povo para se arrepender dos pecados, e felizes os que têm o coração dos pobres, os que choram, os humildes, etc. Eu gosto especialmente desta: «Considerem-se felizes quando vos insultarem e perseguirem e vos caluniarem». Ouviram? Então cumpram. Portanto, amem os vossos inimigos, cumpram o jejum, nada de adultérios, nem se preocupem com o que comer, beber e vestir, não deitem pérolas a porcos nem dêem aos cães o que é santo, o caminho da vida eterna está em fazerem aos outros o que desejariam que eles vos fizessem (isto, enfim, é discutível, mas vocês é que sabem). A despeito de curas e milagres, Jesus até que é credível: nasceu de uma virgem, ressuscitou e disse coisas, enfim, de paz e amor. Tipo: «Não pensem que vim trazer a paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra.» Isto foi ele que disse, não fui eu que inventei. Boas festas.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

PRESIDENCIAIS

 
Uma luta de galináceos na CNN a que, por conveniência, há quem chame debate. Qualquer um daqueles cocós pode vir a ser presidente da república portuguesa, assim mesmo, em minúsculas, que a qualidade é do mais baixo que há. Já temos a Assembleia da República transformada em pocilga, vamos ter o Palácio Nacional de Belém transformado em galinheiro. Ia dizer pobres de nós, mas, na verdade, se calhar é mesmo esta porcaria o que merecemos.