Regressar a um texto e repensá-lo a partir das vozes de terceiros. Expor o processo, constantando que tudo pode ser diferente. Sete simpáticas e disponíveis criaturas em torno de Quem está aí? dividem-se espontaneamente e sem qualquer indicação nesse sentido pelas oito cenas, oferecendo-lhes novas cambiantes e dimensões. Uma imagem que se me cola à cabeça: a de um caracol como animal de estimação. Recolho-me a pensar em Richter e na autoficção, no eu que se desdobra enquanto se põe em causa. O problema de uma escrita demasiado autobiográfica é, cada vez mais, não haver biografia que chegue. A quem interessará as milhares de horas despendidas a resolver problemas quotidianos? A quem interessarão as nossas dores? Este o quarto de três actos frustrados, isto é, a sombra do trio reunido. Onde terei lido que as sombras têm cheiro? (Vila Real, Fundação da Casa de Mateus)
antologia do esquecimento
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
TÍTERES
Fui ver os Bonecos de Santo Aleixo no dia em que soube da morte do Nuno. Que outra forma encontrar para disfarçar a repugnância face às notas de rodapé mal alinhadas? Saí de lá a pensar que há mais vida naqueles bonecos do que em muitas almas, tese que não carece de prova ao ligarmos a televisão num qualquer canal noticioso. O teatro. O teatro é a arte onde as vítimas ganham voz, isto é, onde a voz das vítimas e dos carrascos é colocada ao mesmo nível. Em mais nenhum lado as vítimas encontram corpo e espaço para se fazerem ouvir como no teatro, nessas assembleias em que, colectivamente, assistimos não aos julgamentos, mas à exposição dos elementos que compõem uma relação possível entre vozes. A voz do ministro dos negócios estrangeiros português fez-se ouvir: benigno, disse ele. E ao dizê-lo, transformou num acto saudável o esbulho, o rapto, a violência mais pérfida dos tiranos. Em suma, o uso ilegítimo da força para agressões que violam a soberania dos estados passa a ser benigno. Como uma espécie de cancro benigno. Só que este mata. Infelizmente, não se matará a si próprio nem quem cauciona tal benignidade. Apetecia-me ver novamente os bonecos.
domingo, 4 de janeiro de 2026
NUNO DEMPSTER (1944 - 2026)
sábado, 3 de janeiro de 2026
MAIS UMA NAÇÃO LIVRE
Depois de um documentário sobre Harvey Keitel, seguiu-se um filme com Adrien Brody. Foi ele a única razão para ficar acordado a ver um desfile de gente a ser assassinada como pinos a cair numa partida de bowling. Pela manhã, notícia do ataque à Venezuela. Maduro em lugar incerto. Ficção e realidade, qual delas mais improvável? Não foi preciso esperar, o discurso já estava montado e iria ocupar toda a comunicação social portuguesa. Sem excepção. Nas televisões ganhava forma a narrativa da luz de esperança para o povo oprimido que há tanto esperava pela libertação. Alguém citava Maquiavel, esse grande diplomata, lembrando que os fins justificam os meios. Infelizmente, não se explicava a ninguém nem sequer se discutia a natureza de "O Príncipe", muito menos o que verdadeiramente pretendia Maquiavel com as suas teses políticas numa Itália ocupada e dividida. No bairro, os ciganos entretinham-se com pirotecnia, bombas de Carnaval, explosivos aparentemente inofensivos. Enfim, antes isso que verem televisão.
EUA RAPTAM PRESIDENTE DA VENEZUELA
Depois de Gaza tudo será possível. O Direito Internacional não conta, a ONU não conta, o discurso político enredou-se numa teia de argumentos hipócritas de que dificilmente se libertará. Dois pesos, duas medidas, foi o filme a que assistimos com a invasão da Ucrânia pela Federação Russa e as intervenções de Israel na Palestina (Cisjordânia incluída), na Síria, no Líbano, num Irão ainda recentemente humilhado pelos EUA. Outra ingerência contra o inoperante Direito Internacional. Suportada pelo poder da força, a economia alimenta o poder da força. Não é diferente do que a humanidade conheceu na Idade Média, a despeito das armas serem outras. Isto não vai levar a nada de bom. Antes pelo contrário. Uma coisa é certa: numa UE morta estamos protegidos, nós, portugueses, pela nulidade que somos, desde que os amigos israelitas e americanos continuem a poder servir-se das nossas traseiras. Valho-nos termos cu. Tivéssemos tomates, estávamos feitos. Assim como assim poderemos continuar a dizer que a culpa é dos comunistas e dos ciganos.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
DESCONCERTO
Primeira leitura do ano: Measure for Measure, de William Shakespeare (1564-1616), Dente por Dente na tradução de Luiz Francisco Rebello. Mistress Overdone, gerente de bordel, podia ser a patroa de Chen-Té e de Yvette Pottier, duas prostitutas no teatro de Brecht. Aproveito para engendrar associações com Mandrágora, de Maquiavel (1469-1527), ou mesmo George Dandin ou le Mari confondu, de Molière (1622-1673). As palavras astúcia, ardil, argúcia são comuns. E faço inventários:
- A Tragédia de Otelo, Mouro de Veneza, Veneza, Chipre, inveja e manipulação, Iago, o mau da fita, racismo, Desdémona vilipendiada, acusada de trair Otelo, morta pelo marido enganado.
- Measure for Measure (1603?), Viena, a hipocrisia dos moralistas, corrupção da justiça, o desconcerto do mundo. Isabel, freira a quem é sugerido vender o corpo para salvar o irmão da decapitação.
- A tragédia do Rei Lear (1605?), Bretanha pré-romana, o poder dividido pelas filhas, cegueira e loucura
- A Tragédia de Macbeth (1606?), Escócia, a ambição que leva à loucura e à paranóia, a manipuladora Lady Macbeth, a sonâmbula, sentimento de culpa, loucura. Cordélia, deserdada por dizer a verdade. Conspiração. O pai arrependido, a execução da verdade e da bondade.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
RECEBER A MORTE COM UM DIRECTO
MISSÃO IMPOSSÍVEL
Almoço no Borges. Sobre a mesa, uma travessa de tempo. Os
tentáculos da falta de tempo para cumprir promessas, levar a cabo projectos,
concretizar planos que deixámos de fazer para não ter de lidar com frustrações.
Chegado a casa, divido-me entre o quarto, deitado na cama a ver reels, e a sala,
deitado no sofá a ver mais um episódio da saga Missão Impossível. Fosse este
tempo aplicado nos projectos, nas promessas, nos planos, levaríamos por certo à
mesa as espinhas da preguiça, a falta que nos faz não fazermos nada, o tempo
que dispensamos à indolência, a uma certa lazeira que nos protege da fatídica
saturação com que ainda colhemos o mundo dentro de nós.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
SABER PERDER
«Escrever um texto é como ajustar o vidro da vitrine do museu: separa-nos do mundo no tempo em que aconteceu, ao mesmo tempo que o dá a ver. As palavras escolhidas para uma paisagem, um encontro entre duas pessoas, uma história ouvida a alguém são apenas uma de todas as maneiras possíveis de inscrever esse recorte de realidade numa nova ordem, outra sequência, uma superfície onde não pertence, mas onde acaba por ficar» (p. 32).
Será, então, escrever uma aprendizagem de morrer? Ou uma aprendizagem de perder? O que se perde pela escrita é o que pela escrita se resolve, pedaços ou fragmentos largados na página como artefactos soterrados por um tempo fechado que a arqueologia da leitura se encarregará de reabrir. Há uma natureza fragmentária nos textos deste Saber Perder que me agrada bastante. A magia do fragmento repousa no desafio de reconstrução que nos propõe, tal como as ruínas de um edifício apelam à nossa imaginação. As viagens aludidas em alguns textos, nomeadamente as que se referem a um périplo grego, enviam-nos para essa dimensão interrogativa acerca do sentido, sem necessitarem de propor uma qualquer solução para o mais antigo problema do pensamento humano que não passe por uma espécie de abnegação ou desapego que consiste, pois bem, em saber perder. Até porque: «O mundo continua a funcionar, outras vidas decorrem sem eu ser chamada a encontrar objectos que não fui eu que perdi» (p. 49)


