terça-feira, 23 de novembro de 2010

A BIBLIOTECA

A colecção Gente Independente, da Cavalo de Ferro, distingue-se pela conjugação de factores nem sempre conciliáveis: bons títulos de autores estrangeiros a preços muito apelativos. O formato de bolso e o tipo de impressão ajudam à festa. A Biblioteca, de Zoran Živković (n. 1948), foi reeditado na bendita em Setembro passado. Trata-se de um livro que valeu ao autor sérvio o World Fantasy Award de 2003. Originalmente publicado em 2002, Biblioteka reúne seis contos interligados por um denominador comum: a bibliofilia. Cada história alude à existência de uma biblioteca fantástica: A biblioteca virtual, A biblioteca particular, A biblioteca nocturna, A biblioteca infernal, A biblioteca minimal e A biblioteca requintada. Livros sobre livros ou sobre escritores não é negócio que falte ao mundo, embora este conjunto de histórias dificilmente possa vir a ser reduzido a essa característica mais visível. Se aquilo que liga as personagens é a leitura, a escrita ou a simples relação com o objecto livro, o que as afasta não é apenas a pluralidade de situações inusitadas em que se vêem envolvidas. Há nestes contos uma dimensão alegórica que importa sublinhar e reflectir.

Zoran Živković é aquilo a que podemos chamar um homem de letras, reparte a sua vida pela investigação, crítica, edição, produção de ensaios e de obras ficcionais. Estes elementos particulares vêm à tona nos seus contos. É notório o domínio das fórmulas literárias estabelecidas pelos grandes autores do género, entre os quais Kafka e Borges serão, provavelmente, as influências mais directas. A biblioteca virtual, por exemplo, é um conto claramente kafkiano, sobretudo naquele sentido que Borges remetia para as famosas aporias de Zenão de Eleia. O segredo reside na desorganização lógica da situação que envolve uma personagem, fazendo desmoronar à volta de um indivíduo todos os pontos cardeais que o permitam sentir-se orientado. Esta desorientação provocada incute no leitor um elemento especialmente atractivo: a hipótese. De facto, os contos de A Biblioteca jogam com esta carta particular da imaginação: e se por hipótese isto pudesse acontecer? O leitor sabe que é pouco provável que tal suceda, mas acede à jogada, aceita as primeiras premissas, tenta seguir o raciocínio e acaba por se perder num labirinto onírico sobre o qual já não tem mão.

Neste sentido, a mais eficaz das bibliotecas de Zoran Živković é A biblioteca infernal. Trata-se de um conto de contornos cínicos que coloca a personagem central num espaço dúbio, uma biblioteca que, afinal, se revela ser o Inferno. O tom inicial remete para O Processo, nada há que nos permita determinar a essência dos intervenientes, onde estão, por que estão ou o que fazem no local onde se encontram, embora rapidamente se sugira um diálogo entre o Diabo (o bibliotecário) e um morto acabado de chegar ao Inferno. O Inferno agora é uma biblioteca, os castigos passaram a chamar-se terapias e têm a determinação paradoxal da leitura eterna: «Em breve aprenderá a conviver com as nossas condições. No início ser-lhe-á provavelmente mais difícil, até se habituar, mas por fim perceberá que a leitura oferece prazeres inigualáveis. Todos o percebem durante a eternidade, alguns mais cedo, outros mais tarde» (p. 66).

Contos como este revelam também um sentido assaz irónico da vida. Aquele que aprecia livros, que os ama e a eles entrega a mais substancial das partes da sua vida, rapidamente se vê imerso num mar de dúvidas e problemas sem resolução. Uma existência de papel, assim lhe chamou o poeta. O mais embaraçoso desta existência é o problema do tempo. O leitor parte em desvantagem. Quando nasce, tem atrás de si séculos de literatura que pedem para ser recuperados. Há uma espécie de missão impossível que norteia o leitor, colocando-o numa relação muito estreita com o absurdo da existência, na fronteira que separa a realidade da ficção, uma fronteira que aparece consolidada nos livros eles mesmos, com suas vidas fantasmagóricas e seus dilemas inexplicáveis. Ao ler, o leitor está, no mesmo instante, a viver a sua vida e a dar vida à vida dos livros. No fundo, aceita para si um momento ilusório e inexplicável. Porque, afinal, «as coisas estranhas têm simplesmente de ser aceites como tal, sem explicações» (p. 24). É essa a principal moral destas histórias.
Escrito para o Rascunho.

sábado, 20 de novembro de 2010

O ANTI-LÁZARO


Não te levantes da tumba morto
o que ganharias com ressuscitar
um feito
…………..e depois
………………………a rotina de sempre
não te convém velho não te convém

o orgulho o sangue a avareza
a tirania do desejo venéreo
as dores que a mulher causa

o enigma do tempo
as arbitrariedades do espaço

reconsidera morto reconsidera
não te recordas como era?
à menor dificuldade espoletavas
em impropérios à direita e à esquerda

tudo te incomodava
já não resistias
nem à presença da tua própria sombra

má memória velho má memória!
o teu coração era um monte de escombros
─ estou a citar os teus próprios escritos ─
e da tua alma nada restava

para quê então voltar ao inferno de Dante?
para que a comédia se repita?
qual divina comédia qual quê
fogo de artifício ─ miragens
isco para caçar vermes gulosos
isso sim seria um grande disparate

és feliz cadáver és feliz
nada te falta no teu sepulcro
ri-te dos peixes coloridos

alô ─ alô estás a ouvir-me?

quem não há-de preferir
o amor da terra
às carícias de uma lúgubre prostituta
ninguém em plena posse das suas faculdades
a não ser que tenha um pacto com o diabo

continua a dormir homem continua a dormir
sem as ferroadas da dúvida
senhor e amo do teu próprio caixão
na quietude da noite perfeita
liberto de inutilidades
como se nunca tivesses estado acordado

por nenhum motivo ressuscites
não tens por que ficar nervoso
como disse o poeta
tens toda a morte pela frente


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O HOMEM IMAGINÁRIO




O homem imaginário
vive numa mansão imaginária
rodeada de árvores imaginárias
à beira de um rio imaginário

Das paredes que são imaginárias
pendem antigos quadros imaginários
irreparáveis fendas imaginárias
que representam feitos imaginários
ocorridos em mundos imaginários
em lugares e tempos imaginários

Todas as tardes tardes imaginárias
sobe as escadas imaginárias
e aparece na varanda imaginária
a olhar a paisagem imaginária
que consiste num vale imaginário
rodeado de colinas imaginárias

Sombras imaginárias
vêm pelo caminho imaginário
entoando canções imaginárias
à morte do sol imaginário

E nas noites de lua imaginária
sonha com a mulher imaginária
que lhe ofereceu seu amor imaginário
volta a sentir essa mesma dor
esse mesmo prazer imaginário
e volta a palpitar
o coração do homem imaginário


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

PROJECTO DE TREM INSTANTÂNEO

entre Santiago e Puerto Montt

A locomotiva do trem instantâneo
está no lugar de destino (Pto. Montt)
e a última carruagem
no ponto de partida (Stgo.)

a vantagem que este tipo de trem apresenta
consiste em que o viajante chega
instantaneamente a Puerto Montt no
exacto momento de apanhar a última carruagem
em Santiago

a única coisa que deve fazer continuamente
é mudar-se com as suas maletas
pelo interior do trem
até chegar à primeira carruagem

uma vez realizada esta operação
o viajante pode proceder ao abandono
do trem instantâneo
que permaneceu imóvel
durante todo o trajecto


Atenção: este tipo de trem (directo) serve apenas para viagens de ida

Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)Versão de HMBF

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

QUIZ



Ao rever Quiz Show no canal Hollywood, reparei numa deixa que explica muita coisa. Robert Kintner, presidente da NBC, interpretado por Allan Rich numa postura que não descurou nenhum pormenor típico de um filho da puta, diz: na nossa sociedade, a especulação transforma-se facilmente em factos. Ansiamos desesperadamente pela revolta dos escravos.

POEMAS DO PAPA



1

Acabam de eleger-me Papa
sou o homem mais famoso do mundo

2

Cheguei ao topo da carreira eclesiástica
agora posso morrer tranquilo

3

Os Cardeais estão incomodados comigo
porque não os cumprimento como antes
demasiado solene?
afinal sou o Papa, caramba

4

Amanhã de manhã
mudo-me para o Vaticano

5

Tema do meu discurso:
Como Triunfar na Carreira Eclesiástica

6

Saudações à esquerda e à direita
todos os diários do mundo
publicam a minha fotografia na primeira página

não há dúvidas
de que pareço muito mais jovem do que sou

7

Não é de espantar
desde pequeno que queria ser Papa
trabalhei arduamente
até que se cumprissem os meus desejos

8

Virgem do Perpétuo Socorro!
esqueci-me de abençoar a multidão


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

ESPARSA

Amigo Van Zeller, venho a confessar-me. Quando era adolescente, julgava os 27 anos uma idade "porreira, pá" para se morrer. James Douglas Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin, todos eles referências saudáveis, tinham morrido com 27 anos. Kurt Cobain também, mas quando Kurt Cobain morreu eu já não era propriamente adolescente. Nessa altura eu contava 20 Invernos. Perante a proximidade dos 27 comecei a fazer outras contas. Cesário Verde morreu com 31, Fernando Pessoa com 47, Camilo Pessanha com 58… 47 anos, caro Van Zeller, começa a parecer-me uma boa idade para morrer, embora ultimamente me tenha lembrado amiúde de Ruy Belo. Num texto que devia ser de leitura obrigatória pelo menos 1 vez por mês, Joaquim Manuel Magalhães diz que «tudo aquilo que não aconteceu a Ruy Belo mostra os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar». Depois lembra o homem calado, sem partido político, licenciado em Filologia Românica, licenciado em Direito, doutor em Direito Canónico, com uma tese sobre literatura, tradutor de Blaise Cendrars, Saint-Éxuppery… Só defeitos. Em 1977 havia gente no departamento de Literaturas Românicas que ensinava poesia portuguesa e não sabia quem era Ruy Belo. Uma pessoa não é obrigada a saber tudo. Perante isto, Joaquim Manuel Magalhães pergunta o fundamental: «Um País destes pode dar-se ao luxo de ter um Doutor e licenciado em dois cursos a dar aulas nocturnas no Cacém? Quando não as queria dar?» A resposta é óbvia, tanto pode que teve. E tem. Pelos vistos, continuará a ter. Num país onde os cretinos que mandam dizem quaisqueres em vez de quaisquer, vocêzes em vez de vocês, fostes em vez de foste, póssamos em vez de possamos, é normal que assim seja. Ser normal significa que alguém deixou que assim fosse. A gente ouve os nossos políticos a discursar, os nosso empresários a perorar, os dirigentes disto e daquilo a papaguear e fica com a sensação de que vive num país de analfabetos funcionais. E depois há aqueles que lambem as botas aos cretinos que mandam, intermediários da cretinice com um apurado sentido da obediência. São os pajens da mediocridade. Não nos admiremos, portanto, do estado a que as coisas chegaram. Se aqui chegaram, é porque os cretinos e os pajens mantêm-se incólumes, sem rosto nem nome. Como chegam onde chegam é um mistério digno de Sherlock Holmes. Pergunto-me, camarada Van Zeller, quem fodeu a vida a Ruy Belo? Pardon my French. Ninguém sabe, supomos apenas tratar-se de gente que fez as suas vidas ocupando cargos, desempenhando funções, saindo ilesos para o esquecimento. Mas o esquecimento não se vinga da incompetência, muito menos faz justiça. Vem ao caso uma Esparsa de Camões:

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.

Será sina? Às vezes cremos haver gente que não só não nasce com o cu virado para a lua como parece ter nascido com o cu enterrado na lava do Inferno. Serão versos ressentidos e remoídos os do autor de Sôbolos rios que vão? Será conversa ressabiada a de Joaquim Manuel Magalhães? Por mim falo, se há coisa de que me posso gabar é de ter boa memória. Hei-de deixar ao mundo o meu ínfimo testemunho, devidamente documentado para que ninguém corra o risco de trocar os nomes às bestas. Ruy Belo morreu com 45 anos. Faltam-me mais ou menos 9 para cumprir o serviço. «Babilónia ao mal presente, / Sião ao tempo passado».

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A PROPÓSITO DE ESPINGARDA


HÁ QUE PAVIMENTAR a cordilheira
mas não com cimento nem com sangue
como supus em 1970
há que pavimentá-la com violetas
há que plantar violetas
há que cobrir tudo com violetas
humildade
……………..igualdade
…………………………..fraternidade
há que encher o mundo de violetas


O PINTASSILGO CHILENO ─ creio ─
tem a obrigação de se manter em silêncio
enquanto não recuperar a sua liberdade
e não pensar em nada que não seja
a liberdade
……………..a porta da gaiola
actos e não palavras deliciosas

ou recupera o seu nome de pássaro
que significa amor à liberdade
ou torna-se digno de um réptil

o cúmulo dos cúmulos
é pôr-se a cantar versos de cego
como se nada se passasse no Chile


POR SER SINCERO quase me fodi
por optimismo me enganei
por ser compassivo ─ humilde
recebi um bom pontapé
assim por lerdo passei
por andar a predicar o bem

Menos mau que tudo tenha mudado
agora que roubo a granel
medalhas de ouro e de prata
agora que como por cem:
todos me respeitam agora
que não peço nem dou quartel

Sou o folgazão da outra banda
agora que perdi a fé
espero que me canonizem
a qualquer momento. Ámen.


17 ELEMENTOS SUBVERSIVOS
foram ontem surpreendidos
nos arredores de La Moneda
transportando laranjas
e um exemplar da Bíblia Sagrada

3 deles puseram-se em fuga
não sem antes confrontarem a polícia
que se viu obrigada a actuar em defesa própria

os delinquentes acabaram mortos


DIGA-SE LUPANAR e não prostíbulo
meretriz em vez de prostituta
Nosso Senhor
………………….em vez de Jesus Cristo
Via Láctea ─ jamais Rio Jordão
a palavra é o homem
nunca diga sol
……………………diga astro rei
diga Pronunciamento Militar
e verá como lhe subirão os abonos

se disser golpe olhá-lo-ão de soslaio

é feio dizer chinoca
diga antes cidadão chinês
é mais respeitoso
………………………….muito mais cristão

o que ouvem senhoras e senhores
aquele que diz corcel em vez de cavalo
tem o futuro assegurado


POESIA POESIA tudo poesia
fazemos poesia
até quando vamos à casa de banho

palavras textuais do Cristo de Elqui

miar é fazer poesia
tão poesia como tocar alaúde
ou cagar ou poetizar ou peidar-se

e vamos vendo o que é a poesia

palavras textuais do Cristo de Elqui


E POR FAVOR destrói este papel
a poesia segue-te os passos
a mim também
…………………….a todos nós



Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

domingo, 14 de novembro de 2010

JUNTA DE SALVAÇÃO NACIONAL


A ideia de um conselho de sábios que nos salve do abismo é a menos sábia das ideias. Penso no Titanic a afundar-se e vem-me logo à memória o papel dos sábios nessa tragédia. Resumiu-se, basicamente, a encontrar um bote que os pusesse a salvo da inevitável catástrofe. Julga o caro leitor que um conselho de sábios o pode salvar dos inimigos sem rosto? Reveja La Haine, o filme de Mathieu Kassovitz. Neste momento, você e eu somos aquele tipo que vai caindo e diz de si para si jusqu'ici tout va bien. Mas o importante não é a queda, é a aterragem.

SETE TRABALHOS VOLUNTÁRIOS E UM ACTO SEDICIOSO



1

o poeta atira pedras à lagoa
círculos concêntricos propagam-se

2

o poeta senta-se numa cadeira
dando corda a um relógio de bolso

3

o poeta lírico ajoelha-se
diante de uma cerejeira em flor
e começa a rezar um pai-nosso

4

o poeta disfarça-se de homem rã
e esconde-se no lago do parque

5

o poeta lança-se no vazio
pendurado num guarda-chuva
desde o último andar da Torre Diego Portales

6

o poeta resguarda-se no Túmulo do Soldado Desconhecido
e daí dispara flechas envenenadas contra os transeuntes

7

o poeta maldito
entretém-se atirando pássaros às pedras

ACTO SEDICIOSO

o poeta corta as veias
em homenagem ao seu país natal


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)Versão de HMBF

sábado, 13 de novembro de 2010

DESCANSA EM PAZ


claro ─ descansa em paz
e a humidade?
………………e o musgo?
…………………………..e o peso da lápide?
e os cangalheiros bêbados?
e os ladrões de vasos?
e os ratos que roem os caixões?
e os vermes malditos
que se colam por todos os lados
tornando-nos a morte insuportável
ou parece-vos que nós
não percebemos nada…

é admirável dizer descansa em paz
sabendo que isso não é possível
só pelo gosto de dar à língua

saibam que percebemos tudo
as aranhas correndo pelas pernas
como Pedrito Lastra pela sua ca(u)sa
não nos deixam dúvidas a esse respeito
deixemo-nos de graçolas
ante a tumba aberta de uma ponta a outra
há que dizer as coisas como são:
vocês a contar carneirinhos
e nós ao fundo do abismo


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF


Nota: no original, os dois últimos versos são «ustedes al Quitapenas / y nosotros al fondo del abismo». Uma pesquisa sobre Quitapenas permitiu-nos saber que se trata de uns bonecos guatemaltecos que se dão às crianças com dificuldades em adormecer.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

OS PROFESSORES

Os professores deram connosco em loucos
com perguntas que não vinham ao caso
como se somam números complexos
se há ou não há aranhas na lua
como morreu a família do czar
será possível cantar com a boca fechada?
quem pintou bigodes na Gioconda
como se chamam os habitantes de Jerusalém
há ou não há oxigénio no ar
quantos são os apóstolos de Cristo
qual o significado da palavra consueto
quais foram as palavras que Cristo disse na cruz
quem é o autor de Madame Bovary
onde escreveu Cervantes o Quixote
como é que David matou o gigante Golias
etimologia da palavra filosofia
qual é a capital da Venezuela
quando chegaram os espanhóis ao Chile

Ninguém dirá que os nossos mestres
eram umas enciclopédias ambulantes
tudo exactamente ao contrário:
uns modestos professores primários
ou secundários já não me recordo bem
─ agora de bengala e batina
como se estivéssemos no início do século ─
não tinham por que incomodar-se
em incomodar-nos daquela maneira
excepto por razões inconfessáveis:
para quê tanto delírio pedagógico
tanta crueldade no mais negro vazio!

Dentadura do tigre
nome científico da andorinha
quantas partes tem uma missa solene
qual a fórmula do anídrico sulfúrico
como se somam fracções com denominadores diferentes
estômago dos ruminantes
árvore genealógica de Filipe II
Os Mestres Cantores de Nuremberg
Evangelho segundo São Mateus
nomeie cinco poetas finlandeses
etimologia da palavra etimologia

Lei da gravitação universal
a que família pertence a vaca
como se chamam as asas dos insectos
a que família pertence o ornitorrinco
mínimo comum múltiplo entre dois e três
há ou não há trevas na luz
origem do sistema solar
aparelho respiratório dos anfíbios
órgãos exclusivos dos peixes
tabela periódica dos elementos
autor de Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse
em que consiste o fenómeno chamado mi-ra-gens
quanto demoraria um comboio a chegar à lua
como se diz ardósia em francês
sublinhe as palavras terminadas em consoante

A verdade das coisas
é que nós sentávamo-nos indiferentes
quem ia incomodar-se com tais perguntas
no melhor dos casos apenas nos agitavam
um único defeito da cabeça
a verdade verdadeira das coisas
é que nós éramos gente de acção
a nossos olhos o mundo reduzia-se
ao tamanho de uma bola de futebol
e chutá-la era o nosso delírio
nossa razão de sermos adolescentes
houve campeonatos que se prolongaram até à noite
sempre me perseguiu
a bola invisível na obscuridade
havia que ser mocho ou morcego
para não chocar com os muros de barro
esse era o nosso mundo
as perguntas dos nossos professores
atravessavam gloriosamente os nossos ouvidos
como água pelas costas de um pato
sem perturbar a calma do universo:
partes constitutivas da flor
a que família pertence a doninha
método de preparação do ozono
testamento político de Balmaceda
surpresa de Cancha Rayada
por onde entrou o exército libertador
insectos prejudiciais à agricultura
como começa o Poema del Cid
desenhe uma roldana diferencial
e determine a condição de equilíbrio

O amável leitor compreenderá
que nos era pedido mais do que o justo
mais que o estritamente necessário:
determinar a altura de uma nuvem?
calcular o volume da pirâmide?
demonstrar que a raiz de dois é um número irracional?
aprender de memória as Coplas de Jorge Manrique?
deixem-se de baboseiras connosco
hoje temos que terminar um campeonato
mas chegavam as provas escritas
e consequentemente as provas orais
(numa de esfregar caiu Caldeira)*
com uma regularidade digna da melhor causa:

Teoria electromagnética da luz
em que se distingue o trovador do jogral
é correcto afirmar vendam-se ovos?
sabe o que é um poço artesiano?
classifique os pássaros do Chile
assassinato de Manuel Rodríguez
independência da Guiana Francesa
Simón Bolívar herói ou anti-herói
discurso de renúncia de O’Higgins
vocês estão mais bloqueados que uma ampulheta

Os professores tinham razão:
em boa verdade
o cérebro fugia-nos pelas narinas
─ só vendo como nos estalavam os dentes ─
a que se devem as cores do arco-íris
hemisférios de Magdeburgo
nome científico da andorinha
metamorfose da rã
que entende Kant por imperativo categórico
como se convertem pesos chilenos em libras esterlinas
quem introduziu o colibri no Chile
por que não cai a Torre de Pisa
por que não se afundam os jardins flutuantes de Babilónia
por que não cai a lua sobre a Terra?
municípios da província de Ñuble
como se trisseca um ângulo recto
quantos e quais são os poliedros regulares
este não faz a menor ideia de nada

Teria preferido que a terra me devorasse
a responder a estas perguntas descabeladas
sobretudo depois das prédicas moralizantes
a que nos submetiam inevitavelmente todos os dias
sabem vocês quanto custa ao estado
cada cidadão chileno
desde o momento em que entra na escola primária
até ao momento em que sai da universidade?
um milhão de pesos de seis vinténs!

Um milhão de pesos de seis vinténs
e continuavam apontando-nos o dedo:
como se explica o paradoxo hidrostático
como se reproduzem os fetos
enumere-me os vulcões do Chile
qual é o rio mais comprido do mundo
qual é o couraçado mais poderoso do mundo
como se reproduzem os elefantes
inventor da máquina de costura
inventor dos balões aerostáticos
vocês estão mais bloqueados que uma ampulheta
vão ter que ir para casa
e regressar com os vossos encarregados
para conversar com o Reitor da Escola

E entretanto a Primeira Guerra Mundial
E entretanto a Segunda Guerra Mundial
A adolescência ao fundo do pátio
A juventude debaixo da mesa
A maturidade que não se conheceu
A velhice
……………com suas asas de insecto.

Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)Versão de HMBF




*de um verso de Lope de Vega: En una de fregar cayó Caldera.

domingo, 7 de novembro de 2010

NÃO CONFUNDIR


Em 1977 o grupo teatral La Feria encenou um espectáculo baseado nos poemas de Nicanor. Hojas de Parra foi considerado um espectáculo subversivo pelas autoridades governamentais, levando o poeta a agudizar o tom crítico da sua antipoesia. Num discurso proferido na Sociedad de Escritores de Chile insurgia-se contra a crónica injustiça social que assolava o seu país, acusando a fome, o exílio, os crimes ecológicos e os desaparecimentos perpetrados pela ditadura de Pinochet. Em 1982, publicou Ecopoemas, uma plaquette clandestina onde a bandeira da ecologia era acenada como nunca antes na sua poesia. M.ª Ángeles Pérez López afirma que, por esta altura, o cepticismo que caracterizava a antipoesia foi momentaneamente vencido por uma confiança no poema enquanto despertador de consciências. Chistes par(r)a desorientar a la (policía) poesía (1983) resultou de uma colaboração com 30 artistas que criaram composições visuais sobre os poemas de Nicanor Parra, produzindo cartões postais onde se denunciavam os males do mundo: poluição, consumismo, repressão, maniqueísmo ideológico. 1983 foi igualmente o ano de edição de Poesía política, uma recolha onde poemas anteriormente editados conviviam com poemas novos que lançavam no ar o testemunho de uma chegada ao poder «da burocracia da morte». Contudo, Parra nunca se considerou um poeta político. A sua poesia não obedecia senão à agenda existencial do anti-poeta, afirmava-se a partir de uma estranha confluência da poesia popular com o humor negro dos surrealistas e os aspectos visuais da poesia experimental. Todas essas dimensões são perfeitamente perceptíveis na recolha de 1985: Hojas de Parra. Aí encontramos textos escritos desde 1969, uns inéditos e outros publicados em revistas e antologias, numa síntese perfeita dos temas parrianos: a degradação da sexualidade, a velhice, a morte, a frustração enquanto sentimento predominante, “o esmagamento da vida pelas instituições normativas”. Um exemplo:

QUE GANHA UM VELHO EM FAZER GINÁSTICA
que ganhará em falar ao telefone
que ganhará em tornar-se famoso
que ganha um velho em ver-se ao espelho

Nada
afundar-se cada vez mais na lama

já são três ou quatro da madrugada
por que não trata de adormecer
não ─ deu-lhe para fazer ginástica
deu-lhe para as chamadas de longa distância
deu-lhe para Bach
…………………..Beethoven
……………………………..Tchaikovsky
deu-lhe para ver-se ao espelho
deu-lhe para continuar a respirar obsessivamente

lamentável ─ melhor seria que apagasse a luz

Velho ridículo diz-lhe sua mãe
és igualzinho ao teu pai
ele também não queria morrer
Deus te dê vida para andares de automóvel
Deus te dê vida para falares por telefone
Deus te dê vida para respirares
Deus te dê vida para enterrares tua mãe

Caíste no sono velho ridículo!
mas o ancião não pensa em dormir
não confundir chorar com dormir


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

E-MAIL

A Matilde está a fazer uma cópia de um poema que imprimi da Net para ela e perguntou:

“Oh mãe, o senhor aqui parou de escrever e passou logo para baixo. Faço assim também?”
Respondi:
“Sim, filha. É uma cópia, deves fazer exactamente como está.”
Ela diz com espanto e um sorriso:
“Ohhhhh... Os poemas são demasiado livres.”

EM CIDADE ESTRANHA

Houve um tempo em que os poetas concentravam muito do seu talento a louvar feitos heróicos. Nuvens misteriosas abateram-se sobre a Terra, perdendo os poetas o sentido épico da existência e voltando-se temerosamente para os céus. O misticismo começou a desaparecer quando paixões mais humanas desviaram os homens dos itinerários de Deus. Cantou-se então o amor carnal e o desespero, as paixões, a coragem, a liberdade, mas também o fracasso. E cantou-se a natureza, elevando-se as suas forças e a sua beleza a píncaros sagrados. A Revolução Industrial imprimiu uma nova paisagem, o panorama bucólico das aldeias era agora transposto pelo caos das cidades. Quando nada mais havia para cantar, os poetas tomaram nas mãos a desconstrução das formas. Surgiu aquilo a que hoje chamamos de vanguardas. O verso livre vingou, a linguagem tornou-se ela própria tema, o conteúdo fundiu-se com a forma. A Segunda Guerra Mundial trouxe de novo a sensação de ruína, a descrença nas conquistas humanas, o afastamento dos ideais e das ideologias. Ao mesmo tempo que criava, o homem era monstruoso. Desde então, sem Deus e sem fé na raça humana, os poetas cantam-se a si próprios. E, num individualismo relativo, olham para o mundo com descrença, desesperando por “refúgios efémeros” onde encontrar justificação para a caminhada.

Tomem-se de exemplo estes versos de Daniel Francoy (n. 1979): «a poesia ─ verdade vazia e inútil ─ / não há de confessar aos ventos / o meu medo de morrer sozinho» (p. 41). São versos vulgaríssimos que podiam ter sido escritos por centenas de poetas da actualidade. A desinflação do poético é um dado adquirido. Já ninguém aguarda da poesia salvação para o desespero. Quem eventualmente aguarde, só pode ser tomado por lunático. No entanto, os poetas insistem nos versos, guerreiam entre si, disseminam a palavra por inúmeros weblogs, polemizam, publicam livros, celebram essas publicações em lançamentos, recitais, convocatórias mais ou menos familiares, mais ou menos concorridas. A «verdade vazia e inútil» acusada à poesia é apenas um elemento retórico que pretende produzir um efeito estético. Não há verdade alguma naquela acusação, apenas e tão-só um estilo que subjaz a algo muito mais útil: a demanda das coisas belas. Não estranhemos, pois, que na poesia de Daniel Francoy o «cheiro de terra queimada» (p. 25) conviva com «a pureza da terra vermelha» (p. 35). É dessa saudável contradição que surge a melhor poesia.

Em Cidade Estranha seguido de Retratos de Mulheres (Artefacto, Junho de 2010) dois conjuntos de poemas são colocados lado a lado sem razão aparente. No posfácio, Nuno Dempster chama a atenção para «a insatisfação que a realidade causa, algum desencanto e a deterioração do meio em que se vive» que caracteriza os poemas do primeiro conjunto, ao passo que o segundo conjunto está marcado pela «alegria de viver». Simplificando um pouco mais, diríamos que as mulheres surgem, na sua clássica qualidade de musas (notar evocações de Camões e de Cesário), enquanto refúgios da beleza que a vida citadina ameaça. O sujeito poético predominante no primeiro conjunto é uma espécie de flâneur que descreve sem deslumbre nem encanto a transitoriedade dos dias, a sensação de perda e de inutilidade que a passagem das horas edita na pele daquele que atravessa ruas e praças, sente «as manhãs de forte luz» e diz: «são a morte do divino: / deus é uma palavra oca» (p. 11). Forçado a substituir o belo pela lamentação da efemeridade, o poeta resvala num sentimento elegíaco da vida. Para ele, não importa tanto a utopia da felicidade como parece ser crucial sublinhar os breves momentos de alegria que o resguardam de uma morte sempre a florescer.

Dylan Thomas, evocado em epígrafe no poema da p. 51, é a voz que mais ecoa: «O seu derradeiro verso era os vermes em sua face / iluminada pelo sol que já irrompe fustigante» (p. 13). Mas há algo de intrigante nesta sensação de perda que habita os versos de Daniel Francoy. A morte que ressoa dentro de tudo, lançando o homem num exílio interior sem salvação aparente, impele a uma Pergunta Para Ficar Alegre: «Se a vida perdura, único milagre possível, / e se o aroma das flores volta após o inverno, / porque não pensar que coisas simples e pequenas / ─ como o amor ou a tristeza de um homem ─ / tenham solução e que a alegria vai nascer / antes de raiar a próxima aurora?» (p. 26) É nesta possibilidade que notamos uma contida inflexão do discurso. A aridez dá lugar à garapa gelada (bebida típica do Brasil) ─ «nenhuma tristeza resiste a uma garapa gelada» (p. 37) ─, a «cidade estranha e mesquinha» (p. 54) povoa-se de belas mulheres, corpos de raparigas sob o luar alto, música e sonho. É nesta balança que o poeta sopesa a vida, é desse balanço que surgem os poemas. Digamos que o olhar mantém-se abatido, mas recusa desistir sobre o seu próprio abatimento. E isso é bom.
Escrito para o Rascunho.