Zoran Živković é aquilo a que podemos chamar um homem de letras, reparte a sua vida pela investigação, crítica, edição, produção de ensaios e de obras ficcionais. Estes elementos particulares vêm à tona nos seus contos. É notório o domínio das fórmulas literárias estabelecidas pelos grandes autores do género, entre os quais Kafka e Borges serão, provavelmente, as influências mais directas. A biblioteca virtual, por exemplo, é um conto claramente kafkiano, sobretudo naquele sentido que Borges remetia para as famosas aporias de Zenão de Eleia. O segredo reside na desorganização lógica da situação que envolve uma personagem, fazendo desmoronar à volta de um indivíduo todos os pontos cardeais que o permitam sentir-se orientado. Esta desorientação provocada incute no leitor um elemento especialmente atractivo: a hipótese. De facto, os contos de A Biblioteca jogam com esta carta particular da imaginação: e se por hipótese isto pudesse acontecer? O leitor sabe que é pouco provável que tal suceda, mas acede à jogada, aceita as primeiras premissas, tenta seguir o raciocínio e acaba por se perder num labirinto onírico sobre o qual já não tem mão.
Neste sentido, a mais eficaz das bibliotecas de Zoran Živković é A biblioteca infernal. Trata-se de um conto de contornos cínicos que coloca a personagem central num espaço dúbio, uma biblioteca que, afinal, se revela ser o Inferno. O tom inicial remete para O Processo, nada há que nos permita determinar a essência dos intervenientes, onde estão, por que estão ou o que fazem no local onde se encontram, embora rapidamente se sugira um diálogo entre o Diabo (o bibliotecário) e um morto acabado de chegar ao Inferno. O Inferno agora é uma biblioteca, os castigos passaram a chamar-se terapias e têm a determinação paradoxal da leitura eterna: «Em breve aprenderá a conviver com as nossas condições. No início ser-lhe-á provavelmente mais difícil, até se habituar, mas por fim perceberá que a leitura oferece prazeres inigualáveis. Todos o percebem durante a eternidade, alguns mais cedo, outros mais tarde» (p. 66).
Contos como este revelam também um sentido assaz irónico da vida. Aquele que aprecia livros, que os ama e a eles entrega a mais substancial das partes da sua vida, rapidamente se vê imerso num mar de dúvidas e problemas sem resolução. Uma existência de papel, assim lhe chamou o poeta. O mais embaraçoso desta existência é o problema do tempo. O leitor parte em desvantagem. Quando nasce, tem atrás de si séculos de literatura que pedem para ser recuperados. Há uma espécie de missão impossível que norteia o leitor, colocando-o numa relação muito estreita com o absurdo da existência, na fronteira que separa a realidade da ficção, uma fronteira que aparece consolidada nos livros eles mesmos, com suas vidas fantasmagóricas e seus dilemas inexplicáveis. Ao ler, o leitor está, no mesmo instante, a viver a sua vida e a dar vida à vida dos livros. No fundo, aceita para si um momento ilusório e inexplicável. Porque, afinal, «as coisas estranhas têm simplesmente de ser aceites como tal, sem explicações» (p. 24). É essa a principal moral destas histórias.
Escrito para o Rascunho.