Um dia antes do previsto, o júri reuniu e deliberou: este ano não há prémio para ninguém. As obras a concurso são frágeis, quebram ao mínimo embate, e apresentam indisfarçáveis limitações na composição para um prémio com este prestígio. Na realidade, tratava-se apenas de um prémio com dois anos. O prestígio, matéria discutível e assaz relativa, consistia no valor monetário reservado ao concorrente vencedor: cem mil euros. Em tempos de crise e míngua, cem mil euros dão jeito a muita gente. No caso, dariam jeito a um pobre escritor (mesmo quando o não são, os escritores são sempre paupérrimos), dariam jeito ao júri, que não terá deixado de ver o seu trabalho devidamente reconhecido e compensado (diria mesmo que o melhor prémio é chegar a júri de prémio literário), e darão jeito à entidade que atribuiria o prémio não fossem os critérios de excelência do júri em causa.
A notícia, como é óbvio, caiu que nem uma bomba. Uma bomba que não produziria danos laterais nem colaterais, não estivéssemos nós a falar de um país mesquinho e suíno. Caiu, portanto, que nem uma bomba de mau cheiro. Uns desconfiaram dos critérios do júri, outros da sua boa vontade, outros julgaram inacreditável que entre 300 e tal obras a concurso não existisse uma só, uma simples obra, a merecer o cobiçado prémio. Muitos dos que desconfiavam, julgavam, conjecturavam, presumiam, eram eles próprios escritores. Falavam baixinho, em surdina, não fosse o bom júri acordar do sono merecido após tão árdua tarefa. Nenhum deles declarou ter concorrido ao prémio. Seria uma vergonha, um enxovalho, verem-se varridos por fragilidades e limitações que nunca antes haviam sentido, que nunca antes tinham experimentado, que nunca antes haviam sequer suposto nas suas obras mais ou menos aplaudidas, mais ou menos elogiadas, mais ou menos, como sói dizer-se, bem recebidas por público e crítica ou só por público ou só por crítica.
Eis senão quando a bombinha de mau cheiro se transformou num cataclismo nacional com repercussões internacionais. O único Prémio Nobel da Literatura do país em causa resolveu falar. E que disse ele? Eu concorri ao prémio, quero saber o que tinha de frágil e limitado o meu original, exijo que o júri explique em que é que a minha obra não é merecedora deste prémio. As primeiras reacções foram de espanto, as segundas foram de pasmo, as terceiras foram de incredulidade, as quartas foram de indignação, as quintas foram de raiva, as sextas foram de revolta, as sétimas foram de uma autêntica revolução. Começaram a aparecer concorrentes de todo o país, uns anonimamente, outros oferecendo o rosto à causa. Escritores ilustres, candidatos a, gente consagrada, outra nem por isso, todos se misturaram numa lista de 300 e tal concorrentes, cada qual com as suas reclamações e os seus argumentos.
O júri não quer acreditar no que está a acontecer-lhe. Alguns fiéis leitores dos reclamantes ameaçam de morte os elementos do júri, os quais são enxovalhados sempre que saem à rua. Chegam mesmo a ser cuspidos, apedrejados, agredidos física e moralmente. O júri é atacado na sua hombridade, ninguém compreende como foi possível entre 300 e tal concorrentes, muitos deles com obra feita e reconhecida, com centenas, para não dizer milhares de leitores por todo o país, como foi possível num cenário destes não ter sido encontrada uma obra, uma simples obra merecedora dos cem mil euros. Até que do fundo da confusão, como um anjo erguendo-se da lixeira humana, se ouviu uma voz esclarecida e esclarecedora:
─ Para a próxima serão os concorrentes a eleger o seu próprio júri, o júri escolhido pelos concorrentes será devidamente premiado. O resto é conversa. Não é sequer justo pensar que alguém passe a vida a ser avaliado por gente a quem não reconhece as mínimas capacidades de avaliação. E está visto que o júri deste ano enfermava de claríssimas fragilidades e limitações avaliativas. Pelo que, de hoje em diante, serão os concorrentes a escolher o seu próprio júri.
E assim foi.
A notícia, como é óbvio, caiu que nem uma bomba. Uma bomba que não produziria danos laterais nem colaterais, não estivéssemos nós a falar de um país mesquinho e suíno. Caiu, portanto, que nem uma bomba de mau cheiro. Uns desconfiaram dos critérios do júri, outros da sua boa vontade, outros julgaram inacreditável que entre 300 e tal obras a concurso não existisse uma só, uma simples obra, a merecer o cobiçado prémio. Muitos dos que desconfiavam, julgavam, conjecturavam, presumiam, eram eles próprios escritores. Falavam baixinho, em surdina, não fosse o bom júri acordar do sono merecido após tão árdua tarefa. Nenhum deles declarou ter concorrido ao prémio. Seria uma vergonha, um enxovalho, verem-se varridos por fragilidades e limitações que nunca antes haviam sentido, que nunca antes tinham experimentado, que nunca antes haviam sequer suposto nas suas obras mais ou menos aplaudidas, mais ou menos elogiadas, mais ou menos, como sói dizer-se, bem recebidas por público e crítica ou só por público ou só por crítica.
Eis senão quando a bombinha de mau cheiro se transformou num cataclismo nacional com repercussões internacionais. O único Prémio Nobel da Literatura do país em causa resolveu falar. E que disse ele? Eu concorri ao prémio, quero saber o que tinha de frágil e limitado o meu original, exijo que o júri explique em que é que a minha obra não é merecedora deste prémio. As primeiras reacções foram de espanto, as segundas foram de pasmo, as terceiras foram de incredulidade, as quartas foram de indignação, as quintas foram de raiva, as sextas foram de revolta, as sétimas foram de uma autêntica revolução. Começaram a aparecer concorrentes de todo o país, uns anonimamente, outros oferecendo o rosto à causa. Escritores ilustres, candidatos a, gente consagrada, outra nem por isso, todos se misturaram numa lista de 300 e tal concorrentes, cada qual com as suas reclamações e os seus argumentos.
O júri não quer acreditar no que está a acontecer-lhe. Alguns fiéis leitores dos reclamantes ameaçam de morte os elementos do júri, os quais são enxovalhados sempre que saem à rua. Chegam mesmo a ser cuspidos, apedrejados, agredidos física e moralmente. O júri é atacado na sua hombridade, ninguém compreende como foi possível entre 300 e tal concorrentes, muitos deles com obra feita e reconhecida, com centenas, para não dizer milhares de leitores por todo o país, como foi possível num cenário destes não ter sido encontrada uma obra, uma simples obra merecedora dos cem mil euros. Até que do fundo da confusão, como um anjo erguendo-se da lixeira humana, se ouviu uma voz esclarecida e esclarecedora:
─ Para a próxima serão os concorrentes a eleger o seu próprio júri, o júri escolhido pelos concorrentes será devidamente premiado. O resto é conversa. Não é sequer justo pensar que alguém passe a vida a ser avaliado por gente a quem não reconhece as mínimas capacidades de avaliação. E está visto que o júri deste ano enfermava de claríssimas fragilidades e limitações avaliativas. Pelo que, de hoje em diante, serão os concorrentes a escolher o seu próprio júri.
E assim foi.
