Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

UM DIA ANTES DO PREVISTO

Um dia antes do previsto, o júri reuniu e deliberou: este ano não há prémio para ninguém. As obras a concurso são frágeis, quebram ao mínimo embate, e apresentam indisfarçáveis limitações na composição para um prémio com este prestígio. Na realidade, tratava-se apenas de um prémio com dois anos. O prestígio, matéria discutível e assaz relativa, consistia no valor monetário reservado ao concorrente vencedor: cem mil euros. Em tempos de crise e míngua, cem mil euros dão jeito a muita gente. No caso, dariam jeito a um pobre escritor (mesmo quando o não são, os escritores são sempre paupérrimos), dariam jeito ao júri, que não terá deixado de ver o seu trabalho devidamente reconhecido e compensado (diria mesmo que o melhor prémio é chegar a júri de prémio literário), e darão jeito à entidade que atribuiria o prémio não fossem os critérios de excelência do júri em causa.

A notícia, como é óbvio, caiu que nem uma bomba. Uma bomba que não produziria danos laterais nem colaterais, não estivéssemos nós a falar de um país mesquinho e suíno. Caiu, portanto, que nem uma bomba de mau cheiro. Uns desconfiaram dos critérios do júri, outros da sua boa vontade, outros julgaram inacreditável que entre 300 e tal obras a concurso não existisse uma só, uma simples obra, a merecer o cobiçado prémio. Muitos dos que desconfiavam, julgavam, conjecturavam, presumiam, eram eles próprios escritores. Falavam baixinho, em surdina, não fosse o bom júri acordar do sono merecido após tão árdua tarefa. Nenhum deles declarou ter concorrido ao prémio. Seria uma vergonha, um enxovalho, verem-se varridos por fragilidades e limitações que nunca antes haviam sentido, que nunca antes tinham experimentado, que nunca antes haviam sequer suposto nas suas obras mais ou menos aplaudidas, mais ou menos elogiadas, mais ou menos, como sói dizer-se, bem recebidas por público e crítica ou só por público ou só por crítica.

Eis senão quando a bombinha de mau cheiro se transformou num cataclismo nacional com repercussões internacionais. O único Prémio Nobel da Literatura do país em causa resolveu falar. E que disse ele? Eu concorri ao prémio, quero saber o que tinha de frágil e limitado o meu original, exijo que o júri explique em que é que a minha obra não é merecedora deste prémio. As primeiras reacções foram de espanto, as segundas foram de pasmo, as terceiras foram de incredulidade, as quartas foram de indignação, as quintas foram de raiva, as sextas foram de revolta, as sétimas foram de uma autêntica revolução. Começaram a aparecer concorrentes de todo o país, uns anonimamente, outros oferecendo o rosto à causa. Escritores ilustres, candidatos a, gente consagrada, outra nem por isso, todos se misturaram numa lista de 300 e tal concorrentes, cada qual com as suas reclamações e os seus argumentos.

O júri não quer acreditar no que está a acontecer-lhe. Alguns fiéis leitores dos reclamantes ameaçam de morte os elementos do júri, os quais são enxovalhados sempre que saem à rua. Chegam mesmo a ser cuspidos, apedrejados, agredidos física e moralmente. O júri é atacado na sua hombridade, ninguém compreende como foi possível entre 300 e tal concorrentes, muitos deles com obra feita e reconhecida, com centenas, para não dizer milhares de leitores por todo o país, como foi possível num cenário destes não ter sido encontrada uma obra, uma simples obra merecedora dos cem mil euros. Até que do fundo da confusão, como um anjo erguendo-se da lixeira humana, se ouviu uma voz esclarecida e esclarecedora:

─ Para a próxima serão os concorrentes a eleger o seu próprio júri, o júri escolhido pelos concorrentes será devidamente premiado. O resto é conversa. Não é sequer justo pensar que alguém passe a vida a ser avaliado por gente a quem não reconhece as mínimas capacidades de avaliação. E está visto que o júri deste ano enfermava de claríssimas fragilidades e limitações avaliativas. Pelo que, de hoje em diante, serão os concorrentes a escolher o seu próprio júri.

E assim foi.

Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: CHILE

Cheguei a Nicanor Parra (n. 5 de Setembro de 1914) através de um artigo de Joaquim Manuel Magalhães sobre Respiração Assistida de Fernando Assis Pacheco (n. 1937 — m. 1995). Nesse artigo, publicado no Expresso de 3 de Julho de 2004, Magalhães chamava a atenção para a influência do chileno na poesia de Assis Pacheco: «Como referência para os leitores da obra de Assis Pacheco, Parra inclui-se com ele no numero de poetas, bem raros, para os quais a importância da poesia não depende do seu empolamento, mas numa distância do estentório por parte do autor, que não quer tornar-se um tribuno de si mesmo, por muito que saiba quanto é ele que está envolvido naquelas palavras que, depois, para ver o que acontece, parece dependurar como um trapo à distância como se de coisa mal cheirosa se tratasse. Sempre como se o valor da poesia estivesse noutro lugar que no da poesia ela mesma; ou como se a presença do seu autor só ganhasse autenticidade se este se distanciasse para silêncios supostamente indiferentes». A relação de Nicanor Parra com a poesia pode, de facto, ser entendida a partir de um pressuposto de distanciamento, mas esse distanciamento não tem tanto na sua origem uma desvalorização do poético como parece ter uma revalorização de tudo o que possa ser considerado matéria de poesia. O antipoeta opta por uma postura ecológica relativamente às ferramentas do poeta aureolado, é parco em metáforas, imagens e símbolos, prefere uma linguagem prosaica e coloquial ao hermetismo de uma poesia assente na sublimação do mundo. Os seus poemas estão em relação directa com a experiência, não buscam paraísos utópicos nem imaginários, deixam-se contaminar de desesperança e aceitam o absurdo da existência, mas propõem um enraizamento coerente na claridade da palavra. O antipoeta é um colector de factos, acontecimentos, situações, dessublima a realidade e desmistifica a poesia, traz para dentro do poema os conflitos quotidianos, intenta uma espécie de sabotagem de todas as ideologias que não sejam a sua própria ideologia, uma ideologia antiacadémica, contrapoder, ferozmente crítica e derisória das instituições manipuladoras e opressoras da opinião pública. Os seus principais inimigos são a inverdade e a incoerência, daí que, por vezes, a antipoesia nos pareça niilista e até cínica, na medida em que parte de uma autodesvalorização como pilar da disposição céptica e iconoclasta que manifesta. Tem por alvo as verdades unívocas e por isso mistura riso e pranto, humor e negrume, mistura o popular com o vanguardista, a quadra ao gosto comum com o ready made, anulando a «separação hierárquica entre alta e baixa cultura». Mario Rodríguez afirma que Parra é um destruidor de mitos. Nenhum dos outros grandes poetas chilenos, de Vicente Huidobro (n. 1893 – m. 1948) a Pablo Neruda (n. 1904 — m. 1973), de Pablo de Rokha (n. 1894 – m. 1968) a Gabriela Mistral (n. 1889 – m. 1957), logrou criar um universo tão particular. Na relação com os seus pares, Parra foi igualmente incisivo: «La relación com el pasado literário es impugnadora y subversiva en la medida en que se distancia de la solemnidad, la grandilocuencia o el carácter sacro de la poética establecida, y si son muchos los ejemplos que pueden aducirse, seguramente el más relevante lleva por título «Manifiesto». Ahí Parra condena «La poesía de pequeño dios / La poesia de vaca sagrada / La poesía de toro furioso», en clara referencia a Huidobro, Neruda y De Rokha»… E com o fragmento que se segue encerro a minha jornada pela poesia do mapuche:


NÃO SEI NÃO SEI

Eu pertenço a um mundo perdido
Porém acredito no ser humano
Porém acredito em Deus e no Diabo
Para o dizer de uma vez por todas
Eu sou
Um desses mostrengos modernistas
Que confundiram o Ser com o Ente
Nem progressista nem conservador
Mas sempre o contrário Sr. Reitor:
Ecologista morto de medo:
Uma pulga no ouvido do Minotauro:
Meu reino por um par de muletas eléctricas!
Não me meterão vivo no caixão:
Ao cemitério irei pelos meus próprios pés

UMA ANTOLOGIA

O manuel a. domingos desafiou-me a escolher nomes ─ entre 30 a 70 ─ para uma antologia pessoal da poesia portuguesa do século XX. Podem ver a lista dele acolá. A minha selecção é esta:

Camilo Pessanha (Coimbra, 1867), Ângelo de Lima (Porto, 1872), Judith Teixeira (Viseu, 1880), Raul Leal (Lisboa, 1886), Fernando Pessoa (Lisboa, 1888), Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 1890), José de Almada Negreiros (Trindade, São Tomé e Príncipe, 1893) e António Botto (Concavada, 1897).

José Gomes Ferreira (Porto, 1900), Fernanda de Castro (Lisboa, 1900), Vitorino Nemésio (Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores, 1901), José Régio (Vila do Conde, 1901), Miguel Torga (São Martinho de Anta, 1907), Jorge de Sena (Lisboa, 1919) e Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 1919).

Carlos de Oliveira (Belém do Pará, Brasil, 1921), Mário Cesariny (Lisboa, 1923), Natália Correia (Fajã de Baixo, Ilha de São Miguel, Açores, 1923), Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, 1923), Alexandre O’Neill (Lisboa, 1924), António Ramos Rosa (Faro, 1924), António Maria Lisboa (Lisboa, 1928) e Ana Hatherly (Porto, 1929).

Herberto Helder (Funchal, Ilha da Madeira, 1930), António José Forte (Póvoa de Santa Iria, 1931), Rui Knopfli (Inhambane , Moçambique, 1932), Ruy Belo (São João da Ribeira, 1933), João Pedro Grabato Dias (Viseu, 1933), Luís Pignatelli (Espinho, 1935), J. C. Ary dos Santos (Lisboa, 1936), Fernando Assis Pacheco (Coimbra, 1937), Alberto Pimenta (Porto, 1937), Maria Teresa Horta (Lisboa, 1937), Fiama Hasse Pais Brandão (Lisboa, 1938), Armando Silva Carvalho (Olho Marinho, 1938), Luiza Neto Jorge (Lisboa, 1939) e António Barahona (Lisboa, 1939).

Sebastião Alba (Braga, 1940), António Gancho (Évora, 1940), A. M. Pires Cabral (Chacim, 1941), Ruy Duarte de Carvalho (Santarém, 1941), Eduardo Guerra Carneiro (Chaves, 1942), Inês Lourenço (Porto, 1942), Manuel António Pina (Sabugal, 1943), António Franco Alexandre (Viseu, 1944), Nuno Dempster (Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores, 1944), Manuel Gusmão (Évora, 1945), Al Berto (Coimbra, 1948), Silva Carvalho (Vila do Conde, 1948), Helder Moura Pereira (Setúbal, 1949) e Jorge Fallorca (Mortágua, 1949).

Fernando Guerreiro (Lisboa, 1950), Paulo da Costa Domingos (Lisboa, 1953), Amadeu Baptista (Porto, 1953), Joaquim Castro Caldas (Lisboa, 1956), Ana Luísa Amaral (Lisboa, 1956), Jorge Aguiar Oliveira (1956), Jorge Sousa Braga (Vila Verde, 1957), Luís Miguel Nava (Viseu, 1957) e António Cabrita (Almada, 1959).

Por fim, Adília Lopes (Lisboa, 1960), José Ricardo Nunes (Lisboa, 1964), Rui Coias (Lisboa, 1966), Vitor Nogueira (Vila Real, 1966), José Miguel Silva (Vila Nova de Gaia, 1969), Nuno Moura (1970), Manuel de Freitas (Vale de Santarém, 1972), Rui Costa (Porto, 1972), Margarida Vale de Gato (Vendas Novas, 1973) e Miguel-Manso (Santarém, 1979).

Domingo, 28 de Novembro de 2010

APRESENTAÇÃO DE SOB OS TEUS PÉS A TERRA


Mais vodka, menos vodka, foi isto que improvisei no passado dia 26 na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul:


Ouvimos falar de estreias tardias quando um poeta lança o seu primeiro livro em idade avançada. Às vezes penso que não há estreias tardias, há apenas estreias precipitadas. Voltei a pensar assim ao ler o livro da Soledade Santos, que nasceu no Sabugal, terra da Guarda, em 1957, e aparece agora, pela primeira vez, em livro individual. Já lhe tinha lido muitos poemas num weblog infelizmente suspenso, o Nocturno com Gatos, de onde suponho virem muitos dos poemas deste livro, entre os quais, desde logo, aquele que tem o mesmo título do weblog em causa. Também lhe li uma dúzia de poemas numa singela antologia, publicada em Setembro de 2002, pela editora Sete Sílabas, uma antologia intitulada Quatro poetas na net que juntava aos poemas da Soledade versos de Nuno Dempster, também estreado tardiamente, de Daniel Francoy, recentemente publicado pela Artefacto, e de José Félix. São poetas que de alguma forma anteciparam um fenómeno hoje evidente: a Internet tornou-se um meio privilegiado na divulgação de poesia, o que não é de estranhar num tempo em que a relação das editoras com a arte poética é deveras tímida.

Julgo que a principal dificuldade que se colocou à Soledade foi a selecção e a organização dos seus poemas. Uma coisa é ir escrevendo poesia, outra coisa, bem diferente, é organizar num só conjunto essa produção. Os críticos tendem a olhar para os livros de poemas muito em função de critérios de homogeneidade temática e estilística. Pessoalmente, e talvez seja um defeito pessoal, agradam-me esses livros que os críticos apelidam de desiguais, não porque tenham poemas bons e outros menos bons, isso é coisa que acontece a todos sem excepção, mas por arriscarem uma diversidade que me parece concordar com a natural instabilidade das pessoas. Surgindo o poema de uma relação íntima entre os estados de alma e a indagação racional, o trabalho do poeta só pode ser o de actuar sobre os instantes, moldando o barro até que este assuma uma forma expressiva satisfatória. O livro da Soledade não é desigual no que respeita à sua qualidade intrínseca, mas está organizado em quatro conjuntos de poemas que, quanto a mim, denotam estados de alma diversos. São poemas que terão sido escritos em fases diferentes da vida, agora organizados num todo cuja coerência é, precisamente, a sua heterogeneidade.

Antes de mais, convém deixar claro que estamos a falar de uma poeta que domina claramente os mecanismos da língua portuguesa. No entanto, se nas entrelinhas pressentimos ecos de vozes nacionais, à excepção de Herberto Helder, os poetas citados de um modo óbvio são todos estrangeiros: Elizabeth Bishop, Luis Cernuda, Leonard Cohen, Odysséas Elytis (a quem o título do livro foi pedido de empréstimo), Yannis Ritsos, René Char, Andre Breton, Ursula K. Le Guin. Se repararmos, esta constelação polifónica ajuda-nos a perceber que a Soledade não está interessada em submeter a sua poesia a nenhum tipo de trâmite poético, a nenhuma teoria estética pré-estabelecida. Estará mais interessada, provavelmente, em aproveitar o que exista de bom e de belo em cada uma daquelas vozes, ainda que divergentes, e fazer disso exemplo. Não estamos a falar de uma poesia multirreferencial ou, como por vezes se diz, de uma poesia culta, o que é quase sempre o mesmo que dizer poesia chata. Estamos somente a falar de uma poesia que não enjeita um diálogo informal com outras poesias.

No primeiro conjunto de Sob os teus pés a terra está presente o sentimento de perda num contexto mais problemático do que efectivo. Os poemas da Soledade revelam uma consciência interna do tempo e dessa ditadura que o tempo imprime às coisas. O tempo, o passar do tempo, torna indiscutível o desaparecimento: leva-nos pessoas, situações, momentos, transforma-nos o corpo numa espécie de receptáculo de memórias que pesam sobre a terra. Mas este sentimento de perda tem as suas nuances. Um poema como IN MEMORIAM pode ajudar-nos a compreender melhor quais são essas nuances. No centro do poema estão os amigos, os que mudaram ao longo do tempo, os que partiram, os que foram esquecidos. Tudo isto resultaria absolutamente vulgar, não viessem duas estrofes finais trair essa vulgaridade: «Mas nada se perdeu digo-vos, / onde havia um muro e um rio / e uma canção de vidro escuro / como rasgões cada pedra ostenta / ecos de risos ímpetos os sulcos / empoeirados do crescimento. // E tudo é como foi imperfeito / e a seu modo permanece» (p. 12). O que passou como que ficou registado nas pedras (elemento sólido, resistente, testemunhal), e o essencial, a imperfeição das coisas, mantém-se.

O sentimento de perda, na poesia de Soledade Santos, não remete para paraísos perdidos nem para infâncias sentimentalmente recordadas. Ele é antes uma espécie de consciência do esmaecimento, do desbotamento - como uma peça de roupa que ao longo dos anos vai perdendo cor mas pela qual guardamos um afecto especial. Estes remates “paradoxalizantes” são frequentes nos poemas da Soledade. Desarmam um lirismo impressionável e idílico. Quando o poema ameaça repetir algo que teremos escutado noutras paragens, aparecem dois, três versos, uma estrofe inteira a desarrumar a leitura e os preconceitos que poderão adulterar essa leitura. Perdemos o domínio do poema, o poema como que instala um momento de transtorno que é característico de toda a boa poesia. Por vezes o remate sugere uma certa ironia. É o que acontece, a título de exemplo, no poema CARTA. Qualquer pessoa que o comece a ler julgará tratar-se de uma carta de amor. E de alguma forma o é. Mas no final o amor passa para segundo plano mediante a constatação da parca qualidade do papel: «Por isso escrevo, / mas afecta-me a transparência essa vaga moléstia / chamada distância e nem sequer / é de boa qualidade este papel em que a caneta arranha» (p. 31).

Os dois poemas anteriormente referidos permitem perceber outras características desta poesia: a clareza linguística é uma delas, a depuração da linguagem, assim como um ritmo que joga frequentemente com rimas internas, associações livres, utilização de vocábulos já não muito usuais, aglutinações. No entanto, este uso é feito de uma forma ligeira, natural, não se quer impor como característica essencial de uma poética. A arte poética que ressalta dos poemas da Soledade Santos é muito menos formal, é uma arte poética que busca a simplicidade. Isso está patente em poemas como NÃO PRECISAMOS DE MUITA COISA ou no poema UMA POÉTICA. Não sendo uma poesia bucólica, é uma poesia que tem no campo o seu principal cenário. Mesmo a Lisboa que aparece, sobretudo na última parte do livro, é uma Lisboa rústica, perdida, provinciana, lá está, esmaecida. São poemas que mantêm uma relação muito próxima com a natureza, com o campo, com os sons, os cheiros, as imagens do campo. Estão repletos de patos selvagens, cotovias, corvos, salgueiros, sardinheiras, crisântemos, pardais, cerejas, figueiras, ervas, galinhas, perus, patos, rolas…

Quero, no entanto, sublinhar dois aspectos que me pareceram mais marcantes nos dois últimos conjuntos do livro. Os poemas finais deixam-se invadir por uma melancolia e um desencanto que me parece ter na sua origem o sentimento de solidão. Se no início era a perda que se evidenciava, agora é a solidão, talvez como consequência da perda, o que mais se evidencia. Neste sentido, a figura do gato, é uma constante do terceiro conjunto, quer enquanto companhia doméstica, quer, talvez, como elemento contrastante com a vida rotineira e caseira do sujeito poético. Há como que um sentimento de não lugar que vem à tona, uma espécie de não pertença. O gato é, ao mesmo tempo, animal doméstico e independente. Ele representa, porventura, uma impaciência que não se cala dentro daquele que vive a solidão. Não deixa de ser curioso, a propósito ainda da organização do livro, que o primeiro poema do primeiro conjunto e o primeiro poema do último conjunto dialoguem tão bem. São poemas que de alguma forma se complementam. Remetendo para a origem biográfica, como que se resolvem numa espécie de biografismo ausente. É como se a Soledade estivesse a dizer: eu vim dali, já não sou dali, não sou de lugar algum, serei apenas de mim mesma, talvez nem isso seja, sou da terra, inevitavelmente da terra, somos todos da terra:

A ÚNICA VERDADE

Em louvor de Bernardim Ribeiro

A única verdade é a linha que puxo na extremidade da agulha,
ponto a ponto desenho
a paciência, refaço os gestos
das minhas avós.

Quantas coisas se passavam na cabeça das mulheres em seu estrado,
em seus olhos dobrados,
e eu que nunca tive
paciência.

Mas quem fui bem vedes que o não sou já
e pois que não tenho armas para ofender,
faço desenhos de flores brilhantes com linhas
de seda paciente,
é tudo o que posso fazer
com os olhos dobrados
na noite
que não pára de crescer
.


Soledade Santos, Sob os Teus Pés a Terra, Artefacto, Novembro de 2010.

CAVERNA DE LADRÕES

Jesus entrou no templo e pôs de lá para fora todos os que ali estavam a vender e a comprar. Atirou ao chão as bancas dos que trocavam dinheiro e as mesas dos que vendiam pombas. Depois disse-lhes: “Deus diz na Sagrada Escritura: O meu templo será casa de oração. Mas vocês transformaram-no em caverna de ladrões! (Mt, 21,12)

Jesus entrou no templo e começou a pôr de lá para fora os que estavam a vender e a comprar. Atirou ao chão as bancas dos que trocavam dinheiro e as cadeiras dos que vendiam pombos e não deixava ninguém transportar coisas pelo templo. Depois começou a ensinar deste modo: “Deus diz na Sagrada Escritura: O meu templo será casa de oração para todos os povos. Mas vocês transformaram-no em caverna de ladrões! (Mc, 11,15)

Jesus entrou no templo e começou a pôr de lá para fora os que estavam a fazer negócio, dizendo-lhes: “Deus afirma na Sagrada Escritura: O meu templo será casa de oração. Mas vocês transformaram-no em caverna de ladrões”. (Lc, 19,45)

Como se aproximava a festa da Páscoa dos judeus, Jesus foi a Jerusalém. No templo encontrou homens a vender bois, ovelhas, pombas, e os cambistas sentados às suas bancas. Ao ver isto, Jesus fez com umas cordas um chicote e expulsou do templo toda aquela gente com as ovelhas e os bois. Deitou por terra o dinheiro dos cambistas e virou-lhes as mesas. Depois disse aos que vendiam pombas: “Tirem tudo isto daqui! Não façam da casa de meu Pai uma casa de negócio!” Os seus discípulos lembraram-se das palavras da Sagrada Escritura: O meu amor pela tua casa, ó Deus, é como um fogo que me devora. (Jo, 2, 13)

Não deixa de ser irónico que o nascimento do homem que assim se comportou seja celebrado numa correria consumista desenfreada. Ainda não chegámos a Dezembro e já as ruas se atulham de uma hipocrisia insustentável. Campanhas, descontos, promoções, engodos, anzóis, isco. Nos livros, aproveita-se a época para fazer aparecer dezenas de ansiadas e ansiosas edições. Sufocam-se títulos apreciáveis sob toneladas de lixo vendável. Os templos do consumo enchem-se de grevistas, aproveita-se o 13.º mês gastando-o à tripa-forra. Como será se para o ano faltar este incentivo ao consumo? A bem dizer, não sei nem quero saber. Apetece-me fazer como Jesus, correr tudo à chibatada e libertar-me deste stress diário a que alguns chamam, eufemísticamente, prestação de serviços.

Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA






Nota: há 3 anos escrevi um post com muitas cores. É curioso que vários dos desejos então manifestados venham sendo realizados. O livro da Soledade é um deles.

JOSÉ E PILAR

Um post de José Mário Silva aqui. Um país desolador. Aproveitem a greve, vão ao cinema.

Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

A BIBLIOTECA

A colecção Gente Independente, da Cavalo de Ferro, distingue-se pela conjugação de factores nem sempre conciliáveis: bons títulos de autores estrangeiros a preços muito apelativos. O formato de bolso e o tipo de impressão ajudam à festa. A Biblioteca, de Zoran Živković (n. 1948), foi reeditado na bendita em Setembro passado. Trata-se de um livro que valeu ao autor sérvio o World Fantasy Award de 2003. Originalmente publicado em 2002, Biblioteka reúne seis contos interligados por um denominador comum: a bibliofilia. Cada história alude à existência de uma biblioteca fantástica: A biblioteca virtual, A biblioteca particular, A biblioteca nocturna, A biblioteca infernal, A biblioteca minimal e A biblioteca requintada. Livros sobre livros ou sobre escritores não é negócio que falte ao mundo, embora este conjunto de histórias dificilmente possa vir a ser reduzido a essa característica mais visível. Se aquilo que liga as personagens é a leitura, a escrita ou a simples relação com o objecto livro, o que as afasta não é apenas a pluralidade de situações inusitadas em que se vêem envolvidas. Há nestes contos uma dimensão alegórica que importa sublinhar e reflectir.

Zoran Živković é aquilo a que podemos chamar um homem de letras, reparte a sua vida pela investigação, crítica, edição, produção de ensaios e de obras ficcionais. Estes elementos particulares vêm à tona nos seus contos. É notório o domínio das fórmulas literárias estabelecidas pelos grandes autores do género, entre os quais Kafka e Borges serão, provavelmente, as influências mais directas. A biblioteca virtual, por exemplo, é um conto claramente kafkiano, sobretudo naquele sentido que Borges remetia para as famosas aporias de Zenão de Eleia. O segredo reside na desorganização lógica da situação que envolve uma personagem, fazendo desmoronar à volta de um indivíduo todos os pontos cardeais que o permitam sentir-se orientado. Esta desorientação provocada incute no leitor um elemento especialmente atractivo: a hipótese. De facto, os contos de A Biblioteca jogam com esta carta particular da imaginação: e se por hipótese isto pudesse acontecer? O leitor sabe que é pouco provável que tal suceda, mas acede à jogada, aceita as primeiras premissas, tenta seguir o raciocínio e acaba por se perder num labirinto onírico sobre o qual já não tem mão.

Neste sentido, a mais eficaz das bibliotecas de Zoran Živković é A biblioteca infernal. Trata-se de um conto de contornos cínicos que coloca a personagem central num espaço dúbio, uma biblioteca que, afinal, se revela ser o Inferno. O tom inicial remete para O Processo, nada há que nos permita determinar a essência dos intervenientes, onde estão, por que estão ou o que fazem no local onde se encontram, embora rapidamente se sugira um diálogo entre o Diabo (o bibliotecário) e um morto acabado de chegar ao Inferno. O Inferno agora é uma biblioteca, os castigos passaram a chamar-se terapias e têm a determinação paradoxal da leitura eterna: «Em breve aprenderá a conviver com as nossas condições. No início ser-lhe-á provavelmente mais difícil, até se habituar, mas por fim perceberá que a leitura oferece prazeres inigualáveis. Todos o percebem durante a eternidade, alguns mais cedo, outros mais tarde» (p. 66).

Contos como este revelam também um sentido assaz irónico da vida. Aquele que aprecia livros, que os ama e a eles entrega a mais substancial das partes da sua vida, rapidamente se vê imerso num mar de dúvidas e problemas sem resolução. Uma existência de papel, assim lhe chamou o poeta. O mais embaraçoso desta existência é o problema do tempo. O leitor parte em desvantagem. Quando nasce, tem atrás de si séculos de literatura que pedem para ser recuperados. Há uma espécie de missão impossível que norteia o leitor, colocando-o numa relação muito estreita com o absurdo da existência, na fronteira que separa a realidade da ficção, uma fronteira que aparece consolidada nos livros eles mesmos, com suas vidas fantasmagóricas e seus dilemas inexplicáveis. Ao ler, o leitor está, no mesmo instante, a viver a sua vida e a dar vida à vida dos livros. No fundo, aceita para si um momento ilusório e inexplicável. Porque, afinal, «as coisas estranhas têm simplesmente de ser aceites como tal, sem explicações» (p. 24). É essa a principal moral destas histórias.
Escrito para o Rascunho.

LI ALGURES



li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
(e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, que não, que ao menos me encontrasse a paixão
[e eu me perdesse nela,
a paixão grega


Herberto Helder, in A faca não corta o fogo – súmula & inédita, Assírio & Alvim, Setembro de 2008, pp. 205-206

Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010

NO WAY BACK



«Como sair daqui?» Perguntas bem, amigo.
Diógenes diria «à catanada, vivamente»,
Lichtenberg «à gargalhada», se o conheço.
Thomas Bernhard proporia «num rectângulo
de tábuas» e Machado que o caminho de saída
se desdobra ao caminhar. Beckett é provável
que dissesse «rastejando».
………………………………………Diderot aventaria
«pela rua do liceu», Tchekov «pela viela
mais escura, à tua esquerda». Séneca diria,
muito sonso, «pelo passeio das Virtudes»,
Vaneigem pelo «jardim das Belas-Artes».
Bashô responderia (e eu com ele) «é muito cedo,
fica mais um pouco, ainda há vinho na garrafa».

José Miguel Silva, in Walkmen, &etc., Dezembro de 2007, p. 27.

Sábado, 20 de Novembro de 2010

1500 ELEGIAS

No decorrer de uma crise sonâmbula, o pombo Benjamim aproximou-se dos gatos persas. Qual Cristo chegado à Terra, desceu das alturas para proclamar seu amor fraterno e universal. «Curvo-me perante vossa dor, vosso trauma e vossa fome. Aceitai-me em vossas garras, assim como eu vos aceitarei em meu papo depenado». Sem que esboçassem qualquer emoção, os gatos não foram de meias medidas: trucidaram o pombo até ao ínfimo dos ossos, satisfazendo seus estômagos esganados e ceifando a fome que há muito lhes estabelecia a identidade. No termo da consoada, cada um guardou para si uma pena do pombo e foram unânimes em reconhecer a pertinência do discurso proferido antes do banquete. Era a segunda vez que Baltazar dava pela falta do pombo, embora da primeira as circunstâncias pessoais tivessem atenuado as perturbações colectivas. Agora, o mundo andava diferente. Baltazar comovia-se com outra facilidade perante a falta dos que mais estimava. Baltazar sentiu desenterrarem-se-lhe no coração sentimentos que há muito não sentia. Galgou telhados, esquinas, apeadeiros, rotundas, cais, bairros de má fama, jardins, praças e quintais em busca de seu pombo predilecto. Só na escultura erguida no centro centralíssimo da rotunda outrora inaugurada, foram para cima de 100 andares cuidadosamente vistoriados. Nem um indício de Benjamim. A princípio Baltazar deprimiu, estado de alma frequente em quem não encontra aquilo que procura. Mas esse princípio foi apenas o tempo de esfregar os olhos. A depressão deu então lugar a uma fecunda e romântica nostalgia, a uma melancolia insuportável. O desaparecimento, a ausência, a perda, a saudade, seriam motivo para 1500 inspiradas elegias. Se é justo acusar ao grosso da obra produzida desigual inspiração, não é de todo inadequado gabar-lhe o tom emotivo sem mácula sentimentalista, uma nostalgia no percentil adequado em poemários congéneres, a inefável elegância dos versos, o domínio da prosódia, o colorido do amor dentro da dor da perda e da perda da dor, do sofrimento amargo da ausência e da ausência amarga do sofrimento, a ternura e humildade do estilo, assim como o florilégio naïf de alguns sentimentos curtos, a floração de uma afectividade tão acentuada quão lúcida, a preocupação constante com a métrica livre, precursora de um lirismo mais experimental – se bem que uma métrica livre obrigada a preocupações constantes não seja exactamente livre –, o talento na invenção de imagens de índole metafórica e de metáforas de índole imagética, a natureza simbolista das trovas de sabor clássico, o idealismo dos cânticos de harmonia tão natural que dir-se-iam de pombo, a poderosa sonoridade rítmica em cada estrofe, em cada verso, em cada palavra, em cada letra parcimoniosamente seleccionadas, sem descurar o sentido dos raciocínios e a lógica do discurso, enfim uma susceptibilidade distinta e radicalmente apurada tanto no imagismo disciplinado como na supressão do hermetismo elíptico que voga nas jubilosas poéticas de registo contemporâneo. 1500 inspiradíssimas elegias e 60 milhões de versos sobre saudade e perda. A obra, integralmente manuscrita em mortalhas king size, nunca chegaria a ser editada, optando o autor por defumá-la sob a forma de charros de hidroerva.

Escrito para O Indesmentível.

O ANTI-LÁZARO


Não te levantes da tumba morto
o que ganharias com ressuscitar
um feito
…………..e depois
………………………a rotina de sempre
não te convém velho não te convém

o orgulho o sangue a avareza
a tirania do desejo venéreo
as dores que a mulher causa

o enigma do tempo
as arbitrariedades do espaço

reconsidera morto reconsidera
não te recordas como era?
à menor dificuldade espoletavas
em impropérios à direita e à esquerda

tudo te incomodava
já não resistias
nem à presença da tua própria sombra

má memória velho má memória!
o teu coração era um monte de escombros
─ estou a citar os teus próprios escritos ─
e da tua alma nada restava

para quê então voltar ao inferno de Dante?
para que a comédia se repita?
qual divina comédia qual quê
fogo de artifício ─ miragens
isco para caçar vermes gulosos
isso sim seria um grande disparate

és feliz cadáver és feliz
nada te falta no teu sepulcro
ri-te dos peixes coloridos

alô ─ alô estás a ouvir-me?

quem não há-de preferir
o amor da terra
às carícias de uma lúgubre prostituta
ninguém em plena posse das suas faculdades
a não ser que tenha um pacto com o diabo

continua a dormir homem continua a dormir
sem as ferroadas da dúvida
senhor e amo do teu próprio caixão
na quietude da noite perfeita
liberto de inutilidades
como se nunca tivesses estado acordado

por nenhum motivo ressuscites
não tens por que ficar nervoso
como disse o poeta
tens toda a morte pela frente


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

DANTES O TEMPO CORRIA LENTO, MEU

Dantes detestava fazer anos, agora comovo-me por tudo e por nada. Entro ao serviço às 10h, no dia do meu 36º aniversário, e comovo-me. Abro o cacifo, deparo-me com um presente dos colegas (duas garrafas de tintol e queijinho chulé) e comovo-me. Um cliente pede-me o livro do Leandro. Leandro, Rei da Helíria? ─ pergunto. Leandro, o cantor. Desconheço, mas comovo-me. Espreito os mails. A Ana envia-me um vídeo da Marilyn muppet a cantar os parabéns e eu comovo-me. Ainda por cima chama-me sexy thing. Só mesmo um muppet. A Maria João oferece-me The Beatles e eu comovo-me. O único gajo cuja data de aniversário eu nunca esqueço, manda-me um SMS. Parabéns, pá. Estou comovido. A minha mãe diz-me pela 36ª vez que quando eu nasci ela ficou com uma enorme dor nos queixos por fazer força para me pôr no mundo. 5Kg300g de comoção. A tia e as manas telefonam e eu comovo-me. Os amigos que sabem que eu detesto fazer anos fazem por ignorar a data e eu comovo-me. O meu director comercial pede-me mais um esforço, talvez ainda tenha de trabalhar lá para as 23h. Escorrem-me lágrimas de emoção pelas faces. Uma ex-colega escreve-me a dizer que tem saudades de trabalhar comigo. Comovo-me. A Matilde oferece-me uma rosa e a Beatriz uma margarida (cor-de-laranja, registe-se). São as melhores prendas do mundo, estas filhas. Acho que vou morrer de comoção. Alguém veio aqui hoje em busca do “cu da poesia” e deixou-me comovido. SMS, mails, telefonemas, é tudo tão comovente. Sim, certo, claro, óptimo, agradecido, mas agora, se não se importam, vou traduzir mais um poemazito do Nicanor a ver se me recomponho.

Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010

O HOMENZINHO



O homenzinho está sozinho na arena, haver ou não haver multidão nas bancadas é igual: está sozinho na arena, o olhar pregado na porta também chamada dos sustos. Em vez do touro, porém, é um anjo que sai e vem ao seu encontro. O homem queda-se interdito mas não arreda pé. Nos breves instantes que seguem tem oportunidade de pensar o que vai fazer com o seu pequeno arsenal ─ a capa, a muleta, as bandarilhas, o estoque... Mas o anjo cruza-se com o homem como se não o visse, ágil atravessa a arena, passa pelo burladero e some-se na trincheira. Nunca mais ninguém o vê. Ao touro também não.


Rui Caeiro, in Olhar o Nada, Ver a Deus, Averno, Abril de 2003, p. 85.

O HOMEM IMAGINÁRIO




O homem imaginário
vive numa mansão imaginária
rodeada de árvores imaginárias
à beira de um rio imaginário

Das paredes que são imaginárias
pendem antigos quadros imaginários
irreparáveis fendas imaginárias
que representam feitos imaginários
ocorridos em mundos imaginários
em lugares e tempos imaginários

Todas as tardes tardes imaginárias
sobe as escadas imaginárias
e aparece na varanda imaginária
a olhar a paisagem imaginária
que consiste num vale imaginário
rodeado de colinas imaginárias

Sombras imaginárias
vêm pelo caminho imaginário
entoando canções imaginárias
à morte do sol imaginário

E nas noites de lua imaginária
sonha com a mulher imaginária
que lhe ofereceu seu amor imaginário
volta a sentir essa mesma dor
esse mesmo prazer imaginário
e volta a palpitar
o coração do homem imaginário


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

DEFEITO

De todos os meus defeitos, o mais nocivo de todos é a ingenuidade. Há quem lhe chame desleixo, há quem lhe chame desinteresse ou desmotivação. Pode não parecer, mas é mesmo ingenuidade. E nada há que me faça perder tanto como essa ingenuidade.

Quinta-feira, 18 de Novembro de 2010

ALIMENTO ESPIRITUAL


Podemos adoptar como princípio o conto A Biblioteca Infernal, de Zoran Živković, onde a personagem central, julgando encontrar-se numa biblioteca, dá por si em pleno Inferno. O guarda do estranho local explica: «Cada época tem o seu próprio Inferno. Agora é uma biblioteca». As razões para que tal tenha sucedido são fáceis de entender se tivermos em conta a quantidade ínfima de pessoas que em vida leu um livro do princípio ao fim. Espantado com a situação, o visitante do Inferno pergunta: «É este, então, o meu castigo? Ler?». Mas o guarda recusa chamar-lhe castigo, opta por chamar-lhe terapia: passar a eternidade a ler. Castigo ou terapia, a leitura há-de ser sempre uma actividade controversa. Ensinamos as nossas criancinhas a ler, escrever e contar porque julgamos estar a prepará-las melhor para os desafios da vida dotando-as dessas ferramentas indispensáveis na nossa sociedade. Porque os desafios da vida são o grande negócio da existência, perguntamo-nos se não seria preferível protegê-las de tais castigos?

Tuiavii teria as suas razões para considerar que os povos ocidentais mergulham numa espécie de embriaguez e delírio com a leitura, embora esta embriaguez e delírio, dando as mesmas dores de cabeça em situações de ressaca, proporcionem tipos de prazer dissemelhantes. «O Papalagui lê. Mergulha os olhos no que os muitos papéis contam. E todos os Papalaguis fazem o mesmo: lêem. Lêem o que os chefes de tribo de mais alta estripe, ou os seus porta-vozes, disseram dos seus fonos. Isso vem inscrito, palavra por palavra, na tal esteira, mesmo quando eles disseram uma grande palermice. Também lá vem descrito o género de pano que traziam ao falarem, e o que comeram, e o nome do seu cavalo, e se sofreram ou não de elefantíase, se são fracos do juízo». Tuiavii refere-se aos jornais. É impossível negar que os jornais, «inútil alimento», assim como a maioria dos livros, estão cheios de futilidades destas, conversa supérflua para encher chouriços, mas podemos ir um pouco mais além na nossa demanda de um sentido para a leitura.

Castigo será se não provocar prazer, se o tempo desperdiçado com a leitura não for compensado pelo que de melhor ela tem para oferecer. E o que ela tem para oferecer não é, embora por vezes tente penetrar esses domínios, uma multiplicidade de orgasmos mentais que justifiquem a sua prática. Estou convencido de que os homens apenas insistem no amor, sabendo das amarguras que o amor origina, porque o prazer que ele tem para oferecer legitima o risco da derrota e do sacrifício. Com a leitura passa-se algo semelhante: ainda que ela possa, em determinadas circunstâncias, revelar-se um pesado castigo, jamais esse castigo será suficientemente insuportável para nos demover do risco que corremos ao iniciar uma leitura. Imaginemos por um momento que toda a literatura universal desaparecia subitamente do mundo. O que aconteceria? Certamente não aconteceria o mesmo se em vez de literatura desaparecesse um elemento essencial como a água, mas é muito provável que num cenário desses o homem se encarregasse imediatamente de produzir mais literatura.

Perguntar para que serve a leitura é quase o mesmo que perguntar para que servimos. Podemos escrever como o Miguel-Manso num poema: «pronto enfim para a ideia para o poema // com a certeza feliz e exacta de tudo ser / inútil». Em vez de perguntarmos para que serve a leitura, perguntemos para que serve o homem; em vez de perguntarmos para que serve o homem, perguntemos para que serve o mundo; em vez de perguntarmos para que serve o mundo, perguntemos para que serve o universo. Não tem que servir para nada, é porque é. E a parangona da inutilidade é a mais inútil de todas as parangonas. Se não for pelo castigo, que seja pela terapia. Ainda há não muito li num jornal que a poesia salva, que pelo menos terá poupado o presidente de uma empresa petrolífera e o presidente da SIBS ─ empresa que gere o Multibanco ─ por na poesia terem esses indivíduos encontrado, digo eu, subterfúgios para a consciência. Tal como a escrita, a leitura liberta. Essa é a sua maior utilidade numa sociedade de escravos como aquela de que fazemos parte. E se uma biblioteca pode ser infernal, a vida não o é em menor grau.

UMA LOJA DOS CHINESES CHAMADA PORTUGAL

Há dias, o Rui Tavares escreveu o seguinte: «a China mudou muito. Ficou mais rica e poderosa; os ingénuos do capitalismo acreditaram que com o dinheiro viria a democracia, que “a China ficaria mais parecida connosco”. Afinal, foi o contrário que aconteceu. Nós é que estamos agora mais parecidos com a China, mais dispostos a trocar democracia por dinheiro — por exemplo dispostos a deslocar uma manifestação, em Lisboa, para que os dirigentes chineses possam viver no seu mundo de deferência e fantasia». Entretanto, foi-se o chinês e veio a NATO. Cavaco Silva e Barack Obama trocam presentes, os activistas anti-NATO são impedidos de entrar em Portugal na fronteira de Vilar Formoso. Viva a democracia portuguesa com sabor a chop suey.

UMA ENTREVISTA

Através do Acto Falhado, chego a esta entrevista realizada em 1972 ao poeta Jorge de Sena. Trata-se de uma entrevista realizada em Moçambique, a propósito de uma série de conferências sobre Camões. Alguns excertos:
Eu era um poeta moderno e não o sabia.

Senti-me sempre incluído em diversas correntes, as correntes é que nunca me incluíram nelas. Creio que fui neo-realista, creio que fui surrealista ao mesmo tempo ou antes de aparecerem esses ismos.

Em Portugal é muito difícil e sempre foi que as pessoas não sejam todas arrumadas numa prateleira, com um rótulo, num catálogo. Nunca aceitei quaisquer programas partidários de qualquer espécie, não pertenço e creio que nunca pertencerei a qualquer partido político. Sempre fui a pessoa menos associativa do mundo.

Todas as literaturas, normalmente, são feitas de obras notáveis e obras relativamente medíocres. E se a gente passar a vida todas as semanas a ler 80% de porcarias e 20% de obras boas, a gente acaba por medir o nível das coisas boas pelo nível da porcaria.

O grande drama da literatura portuguesa foi sempre um grande afastamento da realidade concreta, uma grande falta de experiência da realidade concreta, que resulta das próprias estruturas sociais do nosso país.

Um dos males deste século é as pessoas terem dado mais importância aos movimentos do que às obras.

Entre a Inglaterra e a América não existem aquelas patacoadas que existem entre Portugal e o Brasil, ou seja, em Portugal não se põem os escritores brasileiros nas selectas que é para as pessoas não se contaminarem daquela gramática horrível e no Brasil não se põem os escritores portugueses para que não se pense que os escritores portugueses estão a colonizar o Brasil outra vez. O que é, evidentemente, uma situação mutuamente ridícula.

Há uma coisa chamada linguística que mostra que as línguas nunca estão certas nem erradas. Eu não posso dizer que qualquer povo fale certo ou errado, que qualquer região de Portugal fale certo ou errado ou que qualquer região do Brasil fale certo ou errado. O que eu posso dizer é que há uma língua padrão, que se estabeleceu mais ou menos artificialmente, e que essa língua não coincide com aquela que está viva na boca do povo.

O que é preciso fazer na crítica literária é exactamente o mesmo que os homens da ciência do Direito sabem. Há coisas que são matéria de Direito, outras que são matéria de facto, outras que são matéria de opinião. Enquanto esta mínima classificação que as pessoas aprendem na introdução aos estudos jurídicos não for aplicada também à ciência literária, nós não saímos deste patinhar de confusão que se chama crítica literária e que não é exactamente isso.

Não sou daqueles sujeitos que visitam um país durante 8 dias e depois escrevem um livro de 600 páginas.

A literatura portuguesa centra-se grande parte em Lisboa e se as pessoas não forem assinar o ponto a Lisboa estão bem arranjadas da vida. Eu que o diga, que não vivo em Lisboa há uma dúzia de anos e sei bem o que me custa. Portanto, posso apreciar perfeitamente os sentimentos que possam existir nos escritores moçambicanos porque a minha posição não é diferente da deles.

Penso, e talvez isto não agrade muito em Lisboa, que não há hoje, em português, muitos poetas mais jovens da categoria de um Rui Knopfli, da mesma forma que penso que não há muitos críticos em Lisboa da categoria de Eugénio Lisboa aqui. Simplesmente isto em Lisboa não se sabe e até é, digamos, herético dizer-se porque, por definição, todos eles, sejam de que cor forem, são todos melhores que o resto do mundo porque estão lá. É só, e por mais razão alguma.

PROYECTO DE TREN INSTANTÁNEO

MAIS UM PARA A CADERNETA

Há aqueles que são espremidos até não terem mais para dar, coagidos a trabalhar o máximo em troco do mínimo. Sob eles pesa a pressão desumana do desemprego. Não queres, vem outro depois de ti. Depois há os outros: Um jovem de 26 anos, sem currículo profissional nem formação de nível superior, foi contratado, em Dezembro, como assessor técnico e político do gabinete da vereadora Graça Fonseca na Câmara de Lisboa (CML). Remuneração mensal: 3950 euros ilíquidos a recibo verde. Desde então, o assessor - que estava desempregado, fora funcionário do PS e candidato derrotado à Junta de Freguesia de Belém - acumulou esse vencimento com cerca de 41.100 euros de subsídios relacionados com a criação do seu próprio posto de trabalho. Filho de um funcionário do PS que residiu até 2008 numa casa da CML com uma renda de 48 euros/mês, Pedro Silva Gomes frequentou o ensino secundário e entrou muito novo para os quadros do partido. Eu continuo convencido de que só há uma forma de acabar com a porcaria. Pensem numa pocilga que precisa de ser limpa.

PROJECTO DE TREM INSTANTÂNEO

entre Santiago e Puerto Montt

A locomotiva do trem instantâneo
está no lugar de destino (Pto. Montt)
e a última carruagem
no ponto de partida (Stgo.)

a vantagem que este tipo de trem apresenta
consiste em que o viajante chega
instantaneamente a Puerto Montt no
exacto momento de apanhar a última carruagem
em Santiago

a única coisa que deve fazer continuamente
é mudar-se com as suas maletas
pelo interior do trem
até chegar à primeira carruagem

uma vez realizada esta operação
o viajante pode proceder ao abandono
do trem instantâneo
que permaneceu imóvel
durante todo o trajecto



Atenção: este tipo de trem (directo) serve apenas para viagens de ida


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

QUIZ



Ao rever Quiz Show no canal Hollywood, reparei numa deixa que explica muita coisa. Robert Kintner, presidente da NBC, interpretado por Allan Rich numa postura que não descurou nenhum pormenor típico de um filho da puta, diz: na nossa sociedade, a especulação transforma-se facilmente em factos. Ansiamos desesperadamente pela revolta dos escravos.

POEMAS DO PAPA



1

Acabam de eleger-me Papa
sou o homem mais famoso do mundo

2

Cheguei ao topo da carreira eclesiástica
agora posso morrer tranquilo

3

Os Cardeais estão incomodados comigo
porque não os cumprimento como antes
demasiado solene?
afinal sou o Papa, caramba

4

Amanhã de manhã
mudo-me para o Vaticano

5

Tema do meu discurso:
Como Triunfar na Carreira Eclesiástica

6

Saudações à esquerda e à direita
todos os diários do mundo
publicam a minha fotografia na primeira página

não há dúvidas
de que pareço muito mais jovem do que sou

7

Não é de espantar
desde pequeno que queria ser Papa
trabalhei arduamente
até que se cumprissem os meus desejos

8

Virgem do Perpétuo Socorro!
esqueci-me de abençoar a multidão


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

OBRIGADO

Há muito que não me ria tanto. Quem é que se lembra de pôr uma meloa no micro-ondas com o propósito de a pinocar? Aqui.

ESPARSA

Amigo Van Zeller, venho a confessar-me. Quando era adolescente, julgava os 27 anos uma idade "porreira, pá" para se morrer. James Douglas Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin, todos eles referências saudáveis, tinham morrido com 27 anos. Kurt Cobain também, mas quando Kurt Cobain morreu eu já não era propriamente adolescente. Nessa altura eu contava 20 Invernos. Perante a proximidade dos 27 comecei a fazer outras contas. Cesário Verde morreu com 31, Fernando Pessoa com 47, Camilo Pessanha com 58… 47 anos, caro Van Zeller, começa a parecer-me uma boa idade para morrer, embora ultimamente me tenha lembrado amiúde de Ruy Belo. Num texto que devia ser de leitura obrigatória pelo menos 1 vez por mês, Joaquim Manuel Magalhães diz que «tudo aquilo que não aconteceu a Ruy Belo mostra os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar». Depois lembra o homem calado, sem partido político, licenciado em Filologia Românica, licenciado em Direito, doutor em Direito Canónico, com uma tese sobre literatura, tradutor de Blaise Cendrars, Saint-Éxuppery… Só defeitos. Em 1977 havia gente no departamento de Literaturas Românicas que ensinava poesia portuguesa e não sabia quem era Ruy Belo. Uma pessoa não é obrigada a saber tudo. Perante isto, Joaquim Manuel Magalhães pergunta o fundamental: «Um País destes pode dar-se ao luxo de ter um Doutor e licenciado em dois cursos a dar aulas nocturnas no Cacém? Quando não as queria dar?» A resposta é óbvia, tanto pode que teve. E tem. Pelos vistos, continuará a ter. Num país onde os cretinos que mandam dizem quaisqueres em vez de quaisquer, vocêzes em vez de vocês, fostes em vez de foste, póssamos em vez de possamos, é normal que assim seja. Ser normal significa que alguém deixou que assim fosse. A gente ouve os nossos políticos a discursar, os nosso empresários a perorar, os dirigentes disto e daquilo a papaguear e fica com a sensação de que vive num país de analfabetos funcionais. E depois há aqueles que lambem as botas aos cretinos que mandam, intermediários da cretinice com um apurado sentido da obediência. São os pajens da mediocridade. Não nos admiremos, portanto, do estado a que as coisas chegaram. Se aqui chegaram, é porque os cretinos e os pajens mantêm-se incólumes, sem rosto nem nome. Como chegam onde chegam é um mistério digno de Sherlock Holmes. Pergunto-me, camarada Van Zeller, quem fodeu a vida a Ruy Belo? Pardon my French. Ninguém sabe, supomos apenas tratar-se de gente que fez as suas vidas ocupando cargos, desempenhando funções, saindo ilesos para o esquecimento. Mas o esquecimento não se vinga da incompetência, muito menos faz justiça. Vem ao caso uma Esparsa de Camões:

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.

Será sina? Às vezes cremos haver gente que não só não nasce com o cu virado para a lua como parece ter nascido com o cu enterrado na lava do Inferno. Serão versos ressentidos e remoídos os do autor de Sôbolos rios que vão? Será conversa ressabiada a de Joaquim Manuel Magalhães? Por mim falo, se há coisa de que me posso gabar é de ter boa memória. Hei-de deixar ao mundo o meu ínfimo testemunho, devidamente documentado para que ninguém corra o risco de trocar os nomes às bestas. Ruy Belo morreu com 45 anos. Faltam-me mais ou menos 9 para cumprir o serviço. «Babilónia ao mal presente, / Sião ao tempo passado».

Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

A PROPÓSITO DE ESPINGARDA


HÁ QUE PAVIMENTAR a cordilheira
mas não com cimento nem com sangue
como supus em 1970
há que pavimentá-la com violetas
há que plantar violetas
há que cobrir tudo com violetas
humildade
……………..igualdade
…………………………..fraternidade
há que encher o mundo de violetas


O PINTASSILGO CHILENO ─ creio ─
tem a obrigação de se manter em silêncio
enquanto não recuperar a sua liberdade
e não pensar em nada que não seja
a liberdade
……………..a porta da gaiola
actos e não palavras deliciosas

ou recupera o seu nome de pássaro
que significa amor à liberdade
ou torna-se digno de um réptil

o cúmulo dos cúmulos
é pôr-se a cantar versos de cego
como se nada se passasse no Chile


POR SER SINCERO quase me fodi
por optimismo me enganei
por ser compassivo ─ humilde
recebi um bom pontapé
assim por lerdo passei
por andar a predicar o bem

Menos mau que tudo tenha mudado
agora que roubo a granel
medalhas de ouro e de prata
agora que como por cem:
todos me respeitam agora
que não peço nem dou quartel

Sou o folgazão da outra banda
agora que perdi a fé
espero que me canonizem
a qualquer momento. Ámen.


17 ELEMENTOS SUBVERSIVOS
foram ontem surpreendidos
nos arredores de La Moneda
transportando laranjas
e um exemplar da Bíblia Sagrada

3 deles puseram-se em fuga
não sem antes confrontarem a polícia
que se viu obrigada a actuar em defesa própria

os delinquentes acabaram mortos


DIGA-SE LUPANAR e não prostíbulo
meretriz em vez de prostituta
Nosso Senhor
………………….em vez de Jesus Cristo
Via Láctea ─ jamais Rio Jordão
a palavra é o homem
nunca diga sol
……………………diga astro rei
diga Pronunciamento Militar
e verá como lhe subirão os abonos

se disser golpe olhá-lo-ão de soslaio

é feio dizer chinoca
diga antes cidadão chinês
é mais respeitoso
………………………….muito mais cristão

o que ouvem senhoras e senhores
aquele que diz corcel em vez de cavalo
tem o futuro assegurado


POESIA POESIA tudo poesia
fazemos poesia
até quando vamos à casa de banho

palavras textuais do Cristo de Elqui

miar é fazer poesia
tão poesia como tocar alaúde
ou cagar ou poetizar ou peidar-se

e vamos vendo o que é a poesia

palavras textuais do Cristo de Elqui


E POR FAVOR destrói este papel
a poesia segue-te os passos
a mim também
…………………….a todos nós



Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

Domingo, 14 de Novembro de 2010

O DESAFIO

A professora primária da Matilde teve, este ano, a infeliz ideia de recomendar para casa desafios de fim-de-semana. A intenção era promover a interactividade familiar, envolver os encarregados de educação nos trabalhos escolares, chamar as famílias às suas naturais responsabilidades. À partida pareceu-nos uma boa ideia, mas qualquer pessoa minimamente previdente perceberia que boas ideias deste tipo estão contagiadas por uma ingenuidade tremenda relativamente aos mecanismos que regem a humanidade. Dez anos de docência ensinaram-me algumas coisas, entre as quais a mais importante foi que os encarregados de educação são, na generalidade, incompetentes, demitem-se das suas funções e sobrecarregam os filhos com frustrações pessoais. Fosse como fosse só me restava arrumar a desconfiança e corresponder às expectativas.

O primeiro desafio foi simples, mera questão de raciocínio lógico. Resolvemos o problema em conjunto enquanto o diabo esfregou um olho. No dia da apresentação do trabalho, perguntei à miúda se estava tudo bem com o problema que tínhamos resolvido. Respondeu-me que sim, mas desinteressadamente. Pressenti-lhe uma certa frustração no encolher de ombros, no olhar desmaiado, no tom de voz aborrecido. Se estava tudo bem, insisti, porquê essa desmotivação? Explicou-me que a professora resolvera levar os exercícios a concurso e que o nosso nem sequer tinha sido escolhido para ir à final. Quis saber como é que se levava um exercício de lógica a concurso. Um exercício de lógica ou está bem ou está mal resolvido. Ponto. Fui então surpreendido pela explicação da petiza: houve meninos que não se limitaram a resolver o exercício, fizeram o exercício e os pais ajudaram a embelezar a apresentação. Esforçaram-se mais.

Portanto, eu era um pai negligente, apressado, chato e previsível. Escusado será explicar que mal pude esperar pelo exercício seguinte. Falei sobre o assunto com a minha mulher, fomos ao Staples e munimo-nos de um conjunto de ferramentas que nos permitiria fazer um brilharete. Andámos a semana toda a pensar naquele exercício, deitávamo-nos a falar sobre o assunto e levantávamo-nos a discutir ideias que nos tinham ocorrido durante o sono. O esforço acabou devidamente recompensado. Nessa semana a minha filha ganhou o primeiro lugar com o seu exercício de lógica, alindado com bonecos feitos de materiais reciclados. Estava um mimo e foi um orgulho ver a fotografia da miúda no quadro de honra da turma.

Ora, nenhum pai, mesmo o mais incompetente, gosta de ver um filho derrotado. Como a turma é de 20 crianças, e tendo em conta que só um dos meninos ganha o exercício semanal, todas as semanas 19 pais vêem-se confrontados com a frustração dos filhos. Acresce que por vezes cruzamo-nos na rua uns com os outros. Se calha falarmos sobre a escola, logo vem à baila o assunto dos exercícios de fim-de-semana. Reparei nisso quando no outro dia levei a Matilde à natação. Então muitos parabéns, disse a mãe do Humberto. Mas a Matilde só faz anos em Fevereiro, lembrei. Não é isso, ganharam o exercício do fim-de-semana, lembrou a mãe do Humberto. E estava muito bonito, reforçou. Mereceram ganhar, havia outros igualmente bonitos, mas o vosso… Aquela frase assim interrompida deixou-me pensativo e de alguma forma comecei a temer o pior. Não sou propriamente pessimista, mas no que toca a competições entre famílias espero sempre o pior dos cenários.

O tempo veio dar-me razão. Com o passar das semanas, os trabalhos foram sendo cada vez mais exigentes. Alguns pais, desesperados por ainda não terem visto os filhos no quadro de honra, começaram a contratar designers profissionais. Um casal separou-se por não conseguir chegar a acordo quanto à cor mais adequada ao cabelo de um boneco em plasticina que deveria representar a Fada Oriana. Alguns, mais endinheirados, resolveram consultar arquitectos e artistas plásticos. Tem havido trabalhos dignos de um MoMA. Por vezes, as famílias concentram-se de tal forma no embelezamento dos exercícios que acabam por se esquecer dos exercícios propriamente ditos. Neste preciso momento, o assunto atingiu tais proporções que já há quem fale numa guerra surda entre famílias. Um encarregado de educação, amigo do Presidente da Câmara, resolveu ir mais além e pediu a demissão da professora. Tudo por causa de um desafio cujo objectivo era reunir a família em torno de uma actividade escolar. Ninguém sabe onde isto vai parar, mas todos anseiam por que pare de uma forma ou de outra.

JUNTA DE SALVAÇÃO NACIONAL


A ideia de um conselho de sábios que nos salve do abismo é a menos sábia das ideias. Penso no Titanic a afundar-se e vem-me logo à memória o papel dos sábios nessa tragédia. Resumiu-se, basicamente, a encontrar um bote que os pusesse a salvo da inevitável catástrofe. Julga o caro leitor que um conselho de sábios o pode salvar dos inimigos sem rosto? Reveja La Haine, o filme de Mathieu Kassovitz. Neste momento, você e eu somos aquele tipo que vai caindo e diz de si para si jusqu'ici tout va bien. Mas o importante não é a queda, é a aterragem.

SENHORA, VALEI-ME!

Esta manhã tive um orgasmo. Fiquei tão entusiasmado que resolvi partilhá-lo. Primeiro com a mulher, na hora do banho; depois com a restante família, a caminho da Nazaré. Alambazamo-nos com um arroz de marisco e fomos observar as marés enquanto explicávamos às crianças a lenda de D. Fuas. No regresso, passámos pelo Mosteiro de Alcobaça. Desnudaram de arvoredo o pobre Mosteiro, deixando entre a fachada e o casario um largo espaço aberto que há-de servir para alguma coisa quando alguém se lembrar de lhe dar utilidade. Mas a peregrinação ao Mosteiro trazia fisgado um orgasmo múltiplo, familiar, de fim de tarde. Abancámos na pastelaria Alcôa e solicitámos fatias de um bolo de chocolate com o qual a Ana sonha, pelo menos, 24 vezes ao dia. Chá para elas, café para o je. A modos que chegar a casa, ligar-me à sociedade através de uma rede sem fios e deparar com um Prémio Blogo-Kula 2010 Blog Individual, variante colar, não é coisa que me deixe especialmente erecto. Tem o seu lado agradável, saber que nos vamos visitando, lendo, treslendo, saber que vamos andando por aí, cada qual com os seus orgasmos particulares, íntimos ou partilháveis, certos de que a todos espera el fondo del abismo.

SETE TRABALHOS VOLUNTÁRIOS E UM ACTO SEDICIOSO



1

o poeta atira pedras à lagoa
círculos concêntricos propagam-se

2

o poeta senta-se numa cadeira
dando corda a um relógio de bolso

3

o poeta lírico ajoelha-se
diante de uma cerejeira em flor
e começa a rezar um pai-nosso

4

o poeta disfarça-se de homem rã
e esconde-se no lago do parque

5

o poeta lança-se no vazio
pendurado num guarda-chuva
desde o último andar da Torre Diego Portales

6

o poeta resguarda-se no Túmulo do Soldado Desconhecido
e daí dispara flechas envenenadas contra os transeuntes

7

o poeta maldito
entretém-se atirando pássaros às pedras

ACTO SEDICIOSO

o poeta corta as veias
em homenagem ao seu país natal


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

Sábado, 13 de Novembro de 2010

O CICLO DO AMOR

O telefonema de Baltazar deixou Bianca como uma montanha a parir um rato (imagem que, tendo em conta as dimensões da pessoa em causa, será fácil de imaginar). Tudo não passara de uma tempestade num copo de água, diremos mesmo que tudo não passara de uma tempestade num cálice de vinho do Porto. Bianca percebia finalmente que a sua paixão era unilateral, que Baltazar não só nunca a amara como dificilmente faria a mínima ideia do que pudesse ser isso do amor. O amor que Bianca sentia por Baltazar resultava da necessidade que tinha de ser amada, finalmente reconhecia perante si própria essa evidência. Não perderia nem mais um grama por Baltazar, esse traste pouco mais que nada indeciso entre charros de hidroerva e benzodiazepinas. Ela sabia tudo o que havia a saber sobre o amor. Já havia lido muito sobre o assunto nos livros do Dr. Joseph Murphy, do Dr. Brian Weiss, do Dr. David Posen, do Dr. Phill McGraw, do Dr. Wayne Dyer. Sabia que o maior problema das relações amorosas é a ausência de uma crise. No início, quando a paixão entra em erupção, é tudo uma alegria, dos corpos irrompem chamas que acaloram corações gélidos. Por vezes chegam mesmo a esquentar outras partes do corpo, o que não convém. Mas logo a alegria encontra abrigo debaixo dos pequenos defeitos, pormenores de carácter, rugas, cicatrizes, pontos negros, pequeníssimas imperfeições do corpo que acalmam o vulcão. Então instala-se a rotina, a monotonia ganha terreno, da alegria faz-se um hábito e do hábito nasce o tédio. Com o passar dos anos, os amantes começam a sentir a secura do tédio. As secas pedem tempestades, exigem tempestades, procuram tempestades. Tempestades que voltem a agitar as águas, uma crise que volte a provocar erupções vulcânicas. Depois, das duas uma: ou o casal se reencontra e supera a tempestade ou naufraga impelindo os amantes para ilhas separadas onde poderão recomeçar as suas vidas. Quase sempre com novos amores que gerarão novos vulcões dos quais nascerão novos desertos que pedirão novas tempestades que darão noutros naufrágios que levarão a mais ilhas desertas e assim sucessivamente. É este o ciclo do amor, Bianca sabia-o, lera-o nos livros, de alguma forma o experimentara. Portanto, havia agora que optar pelo pragmatismo de Richard Rorty, pelo utilitarismo de John Stuart Mill ou pela terceira via de Anthony Giddens. Eram essas as opções, seria esse o caminho. No entanto, sabe o leitor tão bem quanto o narrador que na prática nunca a vida é como se mostra em teoria. A gente põe-se a pensar nos factos, joga com eles o xadrez das possibilidades, vem uma inesperada rabanada de vento e ficamos com as jogadas todas baralhadas. Foi o que sucedeu.

Escrito para O Indesmentível.

A DARDEJAR


O Dr. Fallorca dardejou o esquecimento, deixando-me reminiscente em hora de pontas. Quem quiser que entenda. Manda a regra que dê seguimento à correnteza, apesar do tempo não estar para resfriamentos. Sugiro pois que se agasalhem os dez seguintes:
- J. Rentes de Carvalho, a contar o tempo lá das holandas;
- Sol, aqui chegada de Montevideu;
- JPT, o Senhor Moçambique;
- Mariana de Terra de Santa Cruz;
- João Miguel Henriques, emigrado na Eslovénia.
Faltam cinco, eu sei. Peço desculpa mas estou sem tempo.
Adenda: entretanto lembrei-me de juntar ao lote o João Camilo das américas. Só não sei se lhe ofereça um dardo ou um kula.

SINEAD O'CONNOR


WALK ON THE WILD SIDE



E houve o dia em que acordei transformado num braço direito. Melhor sorte teve Gregor Samsa, que acordou transformado num insecto. O que pode fazer um homem transformado num braço direito? Que pode ele vestir? Uma manga abotoada na ponta, apertando o pulso como uma gravata aperta o pescoço. Um homem transformado em braço direito tem nós na testa, só lhe servem para dar cabeçadas nas paredes. E no lugar dos cabelos tem dedos. Substitui o barbeiro pela manicura, corta as unhas, pinta as unhas, pouco mais lhe resta para se embelezar. Mantém a forma fazendo flexões com os dedos, como se estivesse a fazer o pino. De resto, tem de caminhar sempre do avesso. Um homem transformado em braço direito não tem pés para andar, só tem dedos. Dedos na ponta da cabeça. É como se andasse pelos cabelos. E anda, de pernas para o ar, isto é, de cotovelo para o ar. Anda do avesso. Triste vida, a do homem transformado em braço direito.

DESCANSA EM PAZ


claro ─ descansa em paz
e a humidade?
………………e o musgo?
…………………………..e o peso da lápide?
e os cangalheiros bêbados?
e os ladrões de vasos?
e os ratos que roem os caixões?
e os vermes malditos
que se colam por todos os lados
tornando-nos a morte insuportável
ou parece-vos que nós
não percebemos nada…

é admirável dizer descansa em paz
sabendo que isso não é possível
só pelo gosto de dar à língua

saibam que percebemos tudo
as aranhas correndo pelas pernas
como Pedrito Lastra pela sua ca(u)sa
não nos deixam dúvidas a esse respeito
deixemo-nos de graçolas
ante a tumba aberta de uma ponta a outra
há que dizer as coisas como são:
vocês a contar carneirinhos
e nós ao fundo do abismo


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF


Nota: no original, os dois últimos versos são «ustedes al Quitapenas / y nosotros al fondo del abismo». Uma pesquisa sobre Quitapenas permitiu-nos saber que se trata de uns bonecos guatemaltecos que se dão às crianças com dificuldades em adormecer.

Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010

CARLOS EDMUNDO DE ORY (1923-2010)


TRÊS COISAS

Cansado já de tudo
Cansado de amar
Nada mais tenho que um modo
de existir respirar

Já não sei aonde ir
Nem sei de onde venho
Queimei-me de existir
Cinzas agora tenho

Perdi meu coração
Paguei-o como peça
de fogo enfim carvão
Tornada fumo a cabeça

Persegui como um cego
três coisas sem piedade
respiração e depois
prazer e obscuridade

Carlos Edmundo de Ory, in Doze Nós Numa Corda – Poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Dezembro de 1997, p. 53.

SITUAÇÃO

1- Os ossos vão rangentes.
2- Parecer não é ser.
3- As coisas estão o que são: uns a coaxar, outros a engoli-los.
4- Ir para o olho da rua não é necessariamente mau, desde que não te transformes em ramela. Previne-te com soro fisiológico e compra passagem para a Índia.
5- Ter projectos é muito bom, com amigos não convém. Vão-se os amigos, ficam os projectos.
6- O que ando a fazer? Ando a ver se respiro.
7- Se está interessado no meu livro, que o compre. Só ofereço livros a amigos.
8- A Ana e as meninas vão bem, cada vez mais entregues a si próprias.
9- Pois, das primeiras vezes que ouvi papá também fiquei muito comovido. Foi só até ter percebido que, afinal, estavam a pedir-me papa.

O SENHOR DO ADEUS

Morreu o senhor do adeus, um indivíduo que acenava às pessoas e por isso foi promovido por uns tontos da capital ainda mais tontos que ele. Transformaram-no em estrela de uma supostamente extinta simpatia e levaram-no ao cinema, chegando mesmo a transformá-lo em crítico da sétima arte. Ao contrário de outros estarolas igualmente promovidos ao estrelato pelos tontos da capital, o senhor do adeus nunca se mostrou inconveniente. Se o fosse, logo o teriam arrumado na prateleira. Ele servia na perfeição os intentos medíocres da gente medíocre, aquele tipo de gente que aprecia muito um homem que acena às pessoas mas é capaz de se dirigir a um empregado de mesa sem sequer dar os bons dias.

Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010

KONSTANTIN BIEBL

His father was a dentist and committed suicide in 1916. Morì suicida, dopo aver sofferto a lungo di crisi depressive il 12 novembre 1951. Vou à tua procura.

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: REPÚBLICA CHECA


É sabido que só em 1918 Praga se tornou a capital da independente república da Checoslováquia, até então sob dominação austríaca. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha Nazi apoderou-se do país. Finda a guerra, ficou aquela zona sob jugo soviético. Em 1992 a Checoslováquia foi partida em duas partes: de um lado a Eslováquia, do outro a República Checa. Estive por lá em 1998, 6 parcos anos após a independência. Quem visite Praga ficará com a imagem de um local propício à poesia. Da cidade das cem cúpulas, guardo o rio Vltava atravessado por magníficas pontes, guardo uma arquitectura de tons elegíacos que nos transporta para um imaginário medieval, guardo as ruas estreitas que Kafka pisou, guardo as praças apinhadas de gente, música e marionetas. E, no entanto, são poucos os poetas checos lidos neste país de poetas à beira mar plantado. Jaroslav Seifert, Prémio Nobel da Literatura em 1984, nasceu na Praga austro-húngara em 1901. Que saiba, permanece praticamente desconhecido entre nós. As excepções foram alguns poemas traduzidos por Listopad aquando do Nobel e de umas singelas versões publicadas recentemente na revista Piolho. Outros ilustres desconhecidos são o recentemente falecido Ludvik Kundera (Brno, 1920), primo de Milan Kundera, Josef Hiršal e Vladimír Holan (Praga, 1905), que merecia mais atenção do que a que lhe tem sido dedicada, o vanguardista Vítězslav Nezval (Biskoupky, 1900), Konstantin Biebl (Slavětín, 1898), mais um a adicionar à longa lista de poetas suicidas, os surrealistas Zbyněk Havlíček e Pavel Řezníček (Blansko, 1942) de quem Cesariny nos ofereceu uma fugaz ideia. E há o clássico Jan Nepomuk Neruda (Praga, 1834), cuja obra continua inacessível aos leitores portugueses. Quem também nasceu em Praga foi Rainer Maria Rilke (n. 1875), hoje considerado um dos maiores poetas da língua alemã. Guardemo-lo para outras paragens. A República Checa aos checos. Jaroslav Seifert nasceu a 23 de Setembro de 1901 no seio de uma família de operários que residia nos subúrbios de Praga. Estreou-se em 1918, embora a primeira colectânea de poemas tenha surgido apenas 3 anos depois. Aderiu ao comunismo, dirigiu várias revistas e jornais de conteúdo iminentemente político, traduziu poetas franceses. Contudo, em 1929, subscreveu um manifesto que se insurgia contra as tendências bolcheviques. Acabou por ser expulso do Partido Comunista Checoslovaco. Dedicou praticamente toda a sua vida ao jornalismo e à poesia. Faleceu no dia 10 de Janeiro de 1986:

FUNERAL SOB A MINHA JANELA

Queixo-me ao vento, a nossa vida não é senão um minuto,
cavalos, regressem,
se pelo menos os cavalos pudessem regressar:
regressem ao nosso tempo, uma vez mais para recomeçar!

Se pelo menos os ponteiros invertidos do relógio nos pudessem trazer
de volta os momentos que desperdiçámos, aos bocadinhos,
se pelo menos a engrenagem, operando em sentido contrário,
pudesse deslindar o nó do suicídio,
se pelo menos a lua que ainda ontem se deitou
regressasse uma vez mais ao céu de hoje,
se pelo menos conseguíssemos chorar de novo
as nossas mágoas triviais!

Queixo-me ao vento ─ ouçam o seu lamento agoniado ─
se pelo menos o vento pudesse trazer de novo,
trazer de novo a máscara da pele morta ─
a máscara que no sopro da morte
deslocou da face um último fôlego
e que o vento agora varre e desgasta ─
para que nos beijemos uma vez mais
antes que esvaneça e se despedace
no cimo das árvores, nas gotas da chuva.


Jaroslav Seifert, in Piolho 001, trad. Sílvia C. Silva, Edições Mortas, Maio de 2010, pp. 57-58.

Terça-feira, 9 de Novembro de 2010

O ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO


Calhou que José Saramago, o único Prémio Nobel da Literatura português até à data, tivesse morrido neste fatídico ano em que tudo parece submeter-se à ditadura dos mercados e aos objectivos financeiros dos agiotas. Sabemos como o autor de O Ano da Morte de Ricardo Reis se opunha visceralmente à desumanização perpetrada por isso que os especuladores denominam eufemísticamente de economia glogalizada. Também sabemos que nunca deixou de fazer da literatura uma força de agitação das consciências, um testemunho alegórico do seu tempo e, numa perspectiva mais universalista, dos conflitos éticos, morais, sociais e até culturais que marcam indelevelmente a história dos homens. Com a sua morte, é como se tivéssemos ficado órfãos de uma certa forma de estar na vida literária. A literatura não se esgota numa dimensão política, é certo, mas será sempre um erro pretender excluí-la, enquanto gesto enérgico, por vezes incendiário, dessa sua componente essencial.

No universo da poesia, falar de poema político serve apenas para atalhar a problemática inerente à complexa relação mantida entre a estética e a ética. Toda a boa poesia é, ao mesmo tempo, política e apolítica. É política por nela vislumbrarmos aquilo a que os surrealistas chamavam de «projecto político de vida poética», mas também é apolítica quando esse projecto de vida poética exige a supressão das regras impostas pelo inferno da sociedade. Um poema político só pode ser, pois claro, aquele que dê testemunho de uma relação livre e crítica com a realidade, de uma relação desconfortável e inconformada, de uma relação que transcende uma postura meramente contemplativa, passiva ou puramente estética. Estas são posturas que não deixando, também elas, de serem políticas, estão longe de se afirmarem mormente pela função assertiva do poema político. É essa assertividade que encontramos n’O Ano da Morte de José Saramago, longo poema de Amadeu Baptista recentemente publicado pela impagável &etc (Setembro de 2010).

Poeta de reconhecida prolixidade, brindada com variadíssimos prémios literários atribuídos/obtidos ao longo da última década, Amadeu Baptista reincide no poema longo, de verso livre e extenso. Note-se, porém, que estamos a falar de um poeta com uma obra vastamente erigida sobre o poema-sequência, variante mais tímida, ou talvez menos dinâmica, do poema longo. Neste caso, a morte de José Saramago é o pretexto encontrado para cerca de 65 estrofes contundentemente depreciadoras da actualidade. O impetuoso ritmo de escrita que caracteriza o poema obriga-nos a uma leitura ininterrupta, transportando-nos para lugares perfeitamente identificáveis (Porto, Viseu) ao mesmo tempo que nos lança no interior de uma espécie de fábula que mistura columbofilia com poesia e pombos com poetas: «Pombos, poetas, columbófilos, versos ─ os homicidas / extravasam as regras instituídas, hão-de querer matar / cada um destes sobreviventes, hão-de afundar-nos / na catástrofe da aurora, em que nenhum arbusto pega / de estaca, nenhum modelo de barro sucede ao exemplo / da argila que chora» (p. 10).

De resto, a imarcescível resistência dos poetas, em contraponto à degradação do meio social, é uma questão recorrente na poesia de Amadeu Baptista. Não é por isso de estranhar que neste poema encontremos também um interlocutor concreto, o poeta Nuno Dempster. A condição dos poetas fica então estabelecida, são «homens calados que não podem estar calados» (p. 13), embora seja «uma desvantagem escrever versos que ninguém há-de ler» (p. 24). Apesar da mediocridade disseminada pelo mundo, a qual neste livro tem por emblema as lojas dos chineses, estes versos que ninguém há-de ler evocam constantemente um tempo passado, como que pretendendo reforçar, num pessimismo queirosiano, a torpeza do tempo presente. A esse diálogo mantido entre o presente e o passado nós chamamos peregrinação interior, do mesmo tipo daquelas que o autor de Antecedentes Criminais tão bem levou a cabo nos melhores dos seus mais recentes livros: Negrume (Março de 2006), Açougue (2008) e Os Selos da Lituânia (Janeiro de 2009). São livros de uma impressionante clareza, amargos, desolados, indignados, ainda que estimulantes nas suas seminais propostas: «está o Saramago morto, / estamos todos mortos neste infame globo, / quanto mais mortos estivermos melhor nos escravizam // Ah, dancemos, / dancemos, ainda, irrevogavelmente, / soltemos uma gargalhada visceral sobre tudo isto» (p. 41).
Escrito para o Rascunho.

Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010

OS PROFESSORES

Os professores deram connosco em loucos
com perguntas que não vinham ao caso
como se somam números complexos
se há ou não há aranhas na lua
como morreu a família do czar
será possível cantar com a boca fechada?
quem pintou bigodes na Gioconda
como se chamam os habitantes de Jerusalém
há ou não há oxigénio no ar
quantos são os apóstolos de Cristo
qual o significado da palavra consueto
quais foram as palavras que Cristo disse na cruz
quem é o autor de Madame Bovary
onde escreveu Cervantes o Quixote
como é que David matou o gigante Golias
etimologia da palavra filosofia
qual é a capital da Venezuela
quando chegaram os espanhóis ao Chile

Ninguém dirá que os nossos mestres
eram umas enciclopédias ambulantes
tudo exactamente ao contrário:
uns modestos professores primários
ou secundários já não me recordo bem
─ agora de bengala e batina
como se estivéssemos no início do século ─
não tinham por que incomodar-se
em incomodar-nos daquela maneira
excepto por razões inconfessáveis:
para quê tanto delírio pedagógico
tanta crueldade no mais negro vazio!

Dentadura do tigre
nome científico da andorinha
quantas partes tem uma missa solene
qual a fórmula do anídrico sulfúrico
como se somam fracções com denominadores diferentes
estômago dos ruminantes
árvore genealógica de Filipe II
Os Mestres Cantores de Nuremberg
Evangelho segundo São Mateus
nomeie cinco poetas finlandeses
etimologia da palavra etimologia

Lei da gravitação universal
a que família pertence a vaca
como se chamam as asas dos insectos
a que família pertence o ornitorrinco
mínimo comum múltiplo entre dois e três
há ou não há trevas na luz
origem do sistema solar
aparelho respiratório dos anfíbios
órgãos exclusivos dos peixes
tabela periódica dos elementos
autor de Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse
em que consiste o fenómeno chamado mi-ra-gens
quanto demoraria um comboio a chegar à lua
como se diz ardósia em francês
sublinhe as palavras terminadas em consoante

A verdade das coisas
é que nós sentávamo-nos indiferentes
quem ia incomodar-se com tais perguntas
no melhor dos casos apenas nos agitavam
um único defeito da cabeça
a verdade verdadeira das coisas
é que nós éramos gente de acção
a nossos olhos o mundo reduzia-se
ao tamanho de uma bola de futebol
e chutá-la era o nosso delírio
nossa razão de sermos adolescentes
houve campeonatos que se prolongaram até à noite
sempre me perseguiu
a bola invisível na obscuridade
havia que ser mocho ou morcego
para não chocar com os muros de barro
esse era o nosso mundo
as perguntas dos nossos professores
atravessavam gloriosamente os nossos ouvidos
como água pelas costas de um pato
sem perturbar a calma do universo:
partes constitutivas da flor
a que família pertence a doninha
método de preparação do ozono
testamento político de Balmaceda
surpresa de Cancha Rayada
por onde entrou o exército libertador
insectos prejudiciais à agricultura
como começa o Poema del Cid
desenhe uma roldana diferencial
e determine a condição de equilíbrio

O amável leitor compreenderá
que nos era pedido mais do que o justo
mais que o estritamente necessário:
determinar a altura de uma nuvem?
calcular o volume da pirâmide?
demonstrar que a raiz de dois é um número irracional?
aprender de memória as Coplas de Jorge Manrique?
deixem-se de baboseiras connosco
hoje temos que terminar um campeonato
mas chegavam as provas escritas
e consequentemente as provas orais
(numa de esfregar caiu Caldeira)*
com uma regularidade digna da melhor causa:

Teoria electromagnética da luz
em que se distingue o trovador do jogral
é correcto afirmar vendam-se ovos?
sabe o que é um poço artesiano?
classifique os pássaros do Chile
assassinato de Manuel Rodríguez
independência da Guiana Francesa
Simón Bolívar herói ou anti-herói
discurso de renúncia de O’Higgins
vocês estão mais bloqueados que uma ampulheta

Os professores tinham razão:
em boa verdade
o cérebro fugia-nos pelas narinas
─ só vendo como nos estalavam os dentes ─
a que se devem as cores do arco-íris
hemisférios de Magdeburgo
nome científico da andorinha
metamorfose da rã
que entende Kant por imperativo categórico
como se convertem pesos chilenos em libras esterlinas
quem introduziu o colibri no Chile
por que não cai a Torre de Pisa
por que não se afundam os jardins flutuantes de Babilónia
por que não cai a lua sobre a Terra?
municípios da província de Ñuble
como se trisseca um ângulo recto
quantos e quais são os poliedros regulares
este não faz a menor ideia de nada

Teria preferido que a terra me devorasse
a responder a estas perguntas descabeladas
sobretudo depois das prédicas moralizantes
a que nos submetiam inevitavelmente todos os dias
sabem vocês quanto custa ao estado
cada cidadão chileno
desde o momento em que entra na escola primária
até ao momento em que sai da universidade?
um milhão de pesos de seis vinténs!

Um milhão de pesos de seis vinténs
e continuavam apontando-nos o dedo:
como se explica o paradoxo hidrostático
como se reproduzem os fetos
enumere-me os vulcões do Chile
qual é o rio mais comprido do mundo
qual é o couraçado mais poderoso do mundo
como se reproduzem os elefantes
inventor da máquina de costura
inventor dos balões aerostáticos
vocês estão mais bloqueados que uma ampulheta
vão ter que ir para casa
e regressar com os vossos encarregados
para conversar com o Reitor da Escola

E entretanto a Primeira Guerra Mundial
E entretanto a Segunda Guerra Mundial
A adolescência ao fundo do pátio
A juventude debaixo da mesa
A maturidade que não se conheceu
A velhice
……………com suas asas de insecto.

Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF




*de um verso de Lope de Vega: En una de fregar cayó Caldera.