domingo, 27 de novembro de 2011

MILLION DOLLAR BABY




Clint Eastwood não é um especial adepto dos happy endings, preferindo antes levar as suas personagens a extremos de exaustão narrativa. Esta exaustão revela-se no momento em que o indivíduo, imerso nas (im)possibilidades da sua situação existencial, se depara sem soluções. É provável que a determinada altura nas encruzilhadas da vida os caminhos se tornem de sentido único, sem saída, e as pessoas se sintam obrigadas a agir já não em função dos seus critérios morais mas sim determinadas pela força das circunstâncias. O mais relevante neste tipo de personagens pode ser entendido a partir de duas perspectivas. A primeira é a daquele que julga ser a consciência a dimensão do homem que mais condiciona a moralidade, a segunda substitui a consciência pela necessidade. O mais curioso é que, entre ambas, a liberdade encontra melhor o seu lugar nos ditames da necessidade e na quase recusa da consciência, ou seja, é quando o homem determinado pelos valores morais resolve deixar de resistir à necessidade que a liberdade se afirma. O dilema é ontológico e coloca em questão as teses que opõem a liberdade ao necessário como se o necessário, por ser o mais natural, fosse o princípio a partir do qual a liberdade pode afirmar-se. Isto significa que, em consciência, a liberdade tem tanto a sua fundamentação na resistência à moral como na resistência aos instintos. Parece um desígnio perigoso, este de colocar o acto livre na teia da necessidade. Veja-se Million Dollar Baby. O conflito vivido pelo treinador Frankie Dunn é o de obedecer cega e indolentemente à sua moral ou o de lhe desobedecer cedendo à força das emoções, impedindo, dessa forma, a perpetuação do sofrimento da atleta Maggie Fitzgerald. O lema de Frankie no ringue – protege-te sempre – é igualmente o seu lema na vida, pelo que se lhe torna ainda mais imponderável desligar a máquina a que Maggie ficou vitalmente ligada após um combate decisivo. Desligar pode muito bem ser, em certas circunstâncias, a melhor forma de nos protegermos. Já não apenas dos outros, mas sobretudo de nós próprios. E nessa opção eu consigo notar tanta liberdade como noutra qualquer.

domingo, 13 de novembro de 2011

MEIA-NOITE EM PARIS




Enquanto o céu rebenta em guerra, largando sobre a terra as lágrimas dos feridos, inundando praças, ruas, avenidas, provocando com seus raios os desastres do respeito, impacientando os animais e os corações dos homens, viajo ao passado através do humor inteligente de Woody Allen. Paris, porto de artistas e vulcão criativo, cidade onde a arte andou pelas ruas e frequentou cafés como gente vulgar, serve de cenário para um jogo intelectual com origem na mais comum das inquietações: como seria a nossa vida se pudéssemos viver noutra época? A dúvida tem implícita uma insatisfação provocada pelo presente, seja ele qual for, mas essa insatisfação é também a rede que nos ampara a queda sempre que constatamos a universalidade do tédio. Gente queixando-se da decadência vivida na sua época é o que nunca faltou ao mundo. É assim, pelo menos, desde que o homem regista essa insatisfação como um legado onde os vindouros poderão consolar a melancolia. Ao protagonista de Midnight in Paris, uma comédia mais surrealista do que romântica, é oferecida a possibilidade de conviver com os seus heróis na Paris dos anos 20 e da Belle Époque. O próprio conceito de Belle Époque acaba desfigurado quando escutamos Paul Gauguin queixar-se das gerações mais novas de então, numa mesa onde se encontravam Degas e Toulouse-Lautrec. Esta viagem através dos tempos permite a Gil (Owen Wilson) libertar-se dos constrangimentos motivados por uma noiva superficial e por um casal de amigos onde a figura do intelectual pedante é desmascarada sem parcimónias. Ao mesmo tempo, permite-lhe, e permite-nos, cruzar-se com Eliot, Picasso, Dali, Man Ray, Hemingway, Luis Buñuel ou Gertrude Stein num contexto semi-onírico onde os preconceitos existenciais são contornados pelas situações vividas. Ou seja, mais do que a consciência do presente, é a consciência do passado que nos permite delinear com clareza os problemas da nossa existência. Como é óbvio, muitos dos dramas de hoje seriam frugais se, ao vivermos esses dramas, concentrássemos as nossas atenções nos tempos em que era normal decapitarem-se homens e mulheres na praça pública. O que torna a actualidade insuportável é a ilusão de um progresso moral inexistente, de uma evolução que pode ser falimente relativizada quando nos confrontamos com a essência inalterada dos comportamentos humanos. Que a arte nos permita maquilhar a bestialidade fundadora do ser é mais uma ambição do que um objectivo alcançado. Por outro lado, Woody Allen mostra-nos, numa espécie de conto de fadas para adultos, que o segredo para uma vida satisfatória, bem diferente dessa utópica felicidade apregoada de cruz ao peito, pode estar na aceitação dos anacronismos que moldam a personalidade de cada um dos homens. Ser antiquado, afinal, é apenas ser resistente à degradação imposta pela modernidade. É nisso que pensamos quando tomamos a noção de que a nossa realidade, vista à luz da primeira metade do século XX, seria pura ficção científica.

sábado, 12 de novembro de 2011

ADVENTO




Já tanto saboreámos e experimentámos, amada –
Que sem surpresa nos surge através de uma fenda larga.
Mas aqui, na escura sala do Advento,
Onde o pão preto seco e o chá sem açúcar
Da penitência voltarão a encantar o luxo
Da alma de uma criança, nós devolveremos ao Juízo Final
O conhecimento roubado que não pudemos usar.

E a frescura que estava em todas as coisas bolorentas
Quando as olhávamos na infância: o espírito chocando
Com o espanto numa negra colina inclinada do Ulster
Ou o assombro profético na conversa entediante
De um velho palerma, despertarão para nós e irão
Levar-nos ao portão do jardim para vermos as urzes
E as crateras, carreiros, velhos redis onde o Tempo começou.

Ó, após o Natal não será preciso buscar
O sentido que define uma velha frase em chamas –
Vamos escutá-lo no argumento sussurrado pela batedeira
Ou nas ruas onde os rapazes da aldeia cambaleiam.
E também o escutaremos entre homens decentes
Que estrumam as árvores nos jardins,
Onde quer que a vida comum flua em abundância.
Não seremos ricos, o meu amor e eu, e se Deus
Quiser não teremos de cobrar justificações sobre
A pungente singularidade das sebes inclinadas
Nem de analisar o hálito de Deus nas declarações vulgares.
Lançámos no caixote do lixo os soldos em barro forjado
Do desejo, do conhecimento e dos momentos de consciência –
E Cristo surgiu com uma flor de Janeiro
.



Patrick Kavanagh

Versão de HMBF

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

AS EXTRAORDINÁRIAS AVENTURAS DE DOG MENDONÇA E PIZZABOY

Já terão ouvido falar n’O Caso das Criancinhas Desaparecidas. Luiz Pacheco ficcionou-o há umas décadas numa das suas novelas, criancinhas desaparecidas no lago das Caldas da Rainha que iam parar à Lagoa de Óbidos através dos esgotos da cidade. Depois transformavam-se em sereias, se fossem meninas, ou em duros querubins, se fossem rapazes. Portugal é um país propenso a este género de enigmas, terreno fértil em metamorfoses várias de onde brotam figuras híbridas. Na Lisboa do século XXI o cenário pode ser diferente, mas a essência fantasmagórica dos seus habitantes mantém-se. Há muito de ser-se português nisto de ser-se monstruoso. No fundo, há muito de ser-se humano. E é essa universalidade que garante elevação ao argumento. Já na terceira edição, o primeiro volume de As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, numa edição impecável como outra coisa não seria de esperar da Tinta-da-China, revela-nos o submundo de uma cidade que vem sendo retratada, pelo menos desde Voltaire, com o espanto motivado pelas realidades sombrias, obscuras, tenebrosas. É famosa a luminosidade da capital portuguesa, associada a xailes negros e pregões colados ao destino. O fado pode não ser toda a nossa cultura, mas é, pelo menos, o berço onde os mortos nos embalam com seus nevoeiros de esperança. Filipe Melo, declarado adepto do cinema dito fantástico, fã de zombies e de criaturas aterradoras, concebeu nesta novela gráfica uma aventura cinematográfica com os ingredientes clássicos do fantástico. O elemento real, entre lobisomens, gárgulas, demónios e monstros de vária ordem, é um rapaz chamado Eurico (aka Pizzaboy) que trabalha numa pizzaria. A história limita-se a desenvolver, e de alguma forma prestar tributo, aos filmes de aventuras, não prescindindo de fortes e convincentes composições metafóricas de timbre humorístico (uma suposta lavandaria gigante nos esgotos da cidade não é mero entretenimento). Com os desenhos entregues ao talento do argentino Juan Cavia, também ele com experiência na arte do cinema, Filipe Melo propõe uma narrativa visual de contornos satíricos que transforma o imaginário monstruoso da ficção numa ingénua dimensão da criatividade ao pé da tenebrosa realidade arquitectada pelo nazismo na primeira metade do século XX. O terror perpetua-se na realidade, cabendo à imaginação livrar-nos do mal exorcizando os demónios em concepções que possam, de algum modo, equilibrar os dois pratos da balança. O segundo volume está aí, intitula-se As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II – Apocalipse. Do magma lançado pela História saltamos para a inesgotável fonte mística. Numa altura em que tanto se apregoa o fim do mundo, vem a calhar esta divertida antecipação dos acontecimentos. De novo juntos, o detective do oculto, o rapaz das pizzas, agora a trabalhar num Call Center, a inseparável companhia demoníaca do detective (tem algo de japonês nos traços) e a cabeça de uma gárgula garantindo os contrapontos humorísticos da tragédia. Neste volume, Filipe Melo e seus comparsas metem-se com a religião, invadem os marcos do transcendente e acabam por glosar a ficção de contornos esotéricos que vem fazendo as delícias de milhares de leitores nestes derradeiros anos da humanidade. Como não podia deixar de ser, decorrendo a acção em terras lusas, há uma deslocação a Fátima. Lado a lado, visões do Inferno, Papas desmaiados, Hitler, um cardeal abençoando as revelações do milagre. As pragas do Apocalipse estão em marcha, Abaddon desatará o nó do seu novo mundo na capital portuguesa. Nenhum humano nos pode salvar, estamos nas mãos dos monstros. Esta inclinação por monstros bem-humorados, heróicos e salvadores da pátria humana tem muito que se lhe diga, mas o melhor é pegar nos livros e folheá-los como quem vai ao cinema.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

PIOLHO #7


Piolho - Revista de Poesia
N.º 7, Novembro de 2011
Coordenação de Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho, Fernando Guerreiro, A. Dasilva O.
Edições Mortas / Black Sun editores

Normalmente lavo as mãos antes e depois de escrever - apontamento para um ensaio sobre a poesia de Nuno Moura, pp. 24-26.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

TERRENCE MALICK


A 1 de Novembro celebra-se o dia de Todos os Santos, celebra-se o martírio, o sacrifício, a entrega absoluta e incondicional. Celebro São Francisco de Assis, o mais cínico de todos os santos, atacado por uma loucura sublime, apedrejado na rua por criancinhas cruéis, filhas de seus pais, devoto da paz e da necessidade, inimigo feroz do superficial. Sobre este amor à pobreza, Leonardo Coimbra dita a sentença final: «Enquanto ele bebe a Vida na sua Fonte, os outros ignoram a Fonte e procuram esconder a morte, que é a essência da sua separatividade, sob os acidentes doirados das riquezas acessórias. A força da Pobreza é tanta que os próprios estóicos viram nela o método para caldear o aço da vontade para os grandes golpes do Destino». Mas antes dos estóicos, e ao contrário deles, já os cínicos, à maneira da velha tradição hinduísta, elogiavam a pobreza não enquanto meio, disciplina, mas enquanto libertação. E é de liberdade que falamos, não é de cemitérios marmóreos festejados com arranjos florais maquilhadores da putrefacção.

Enquanto os amantes dos mortos entopem as floristas, numa inglória antecipação do dia dos fiéis defuntos, eu revejo-me nas terras áridas onde Edward S. Curtis fotografou os últimos resquícios de uma cultura rica na pobreza franciscana da aceitação. Também os índios aceitavam a Natureza na sua evidente superioridade, não procuravam dominá-la em vão, sentiam-se parte integrante da mesma, sentiam-se, por isso, divinos na parte que lhes cabia do Grande Saber Universal. Não disfarçavam a morte, não a enganavam nem a fintavam com arranjos florais, celebravam-na com danças e cânticos solares, emitindo sons vibrantes inchados de um significado insignificante, enquanto os cavalos bebiam directamente dos rios uma água que era propriedade de todos e não de uma só Companhia.

Convertidas em reserva natural, as Badlands são hoje, também, um cemitério da vontade, terras onde o amor e a esperança são já tão-somente resquícios em pó de um tempo perdido. Não me falem de paraísos onde apenas sempre houve inferno. Quando chego a casa e penso nessas terras perdidas, de pernas e braços e mãos atados a uma cadeia de superficialidades, sinto-me eu próprio o morto que deve ser celebrado. E sobre a cabeça despejo as jarras de flores, fico a olhar-me ao espelho, com olhos de lunático, e acendo uma vela em memória de tudo o que não fui. Empurra-nos a existência para este fosso, empurra-nos e força-nos como uma fila de cegos na direcção do abismo, e quando acordamos é tarde de mais.

É sempre tarde de mais. Podemos ainda sacrificar-nos pelos outros, por um amor impossível, podemos sentir a terra sob os pés descalços e abrir as mãos à espuma das vagas, que nada mais será o mesmo. À nossa volta apenas uma luz obscura, alienante, um carrossel de alucinações e ilusões, tanta vida desperdiçada em horas, dias meses de uma entrega absurda a tudo o que não tem valor e nos explora, consome, oprime e impede. Porque é disso que se trata quando falamos de pobreza, é de uma liberdade que começa na recusa, na corajosa abdicação de um prometido conforto, na eliminação ou, pelo menos, na resistência firme aos paraísos artificiais, na demanda de um qualquer paraíso real. Se existe ou não, só poderemos sabê-lo se nos predispusermos a uma busca honesta e sincera. Passa talvez pelo arrependimento, por não nos convertermos naquilo que sempre odiamos, por sabermos reconhecer as opções erradas na via seguida ao longo dos anos, por ir ao encontro de um novo mundo: pacificador, porque libertador. Ao contrário, todos os dias serão dia de finados e o mais finado de todos será aquele que continuar a iludir a sua própria morte.

Estas paisagens atiram-me para o vazio, obrigam-me a reflectir a humidade dos olhos, mostram-me de um modo muito claro e evidente, quase cartesiano, o mistério da existência, um mistério sem mistério, tão claro e evidente como este estar aqui e agora com as terras áridas no pensamento, as más terras onde o pó cobre a pele das sombras. Árvores, dêem-me árvores, árvores gigantescas por entre as quais o sol se infiltre com seus raios de calor. Não quero pomares, nem jardins, quero florestas selvagens onde aves migratórias façam ocasionalmente o ninho e a Fonte adquira a consistência de uma raiz milenar. O martírio é estarmos vivos assim, como mortos, fazendo das ruas cemitérios e de cada casa um túmulo de memórias desperdiçadas.