Terça-feira, 29 de Novembro de 2011

PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE

Compreendo a alegria da humanidade perante tais generalizações, mas a História informa-nos de que o património (material ou imaterial) da humanidade não são cantigas. A guerra e a poluição são património da humanidade. Que ninguém os celebre diz muito da farsa em que vivemos.

O FADO E O POVO

Tenho ouvido dizer que o fado exprime a alma de um povo. Mais uma razão para me sentir de nenhures. O fado não me exprime. Tenho com ele uma relação similar à que mantenho com a maioria das pessoas, ou seja, o povo: não gosto nem desgosto, é-me indiferente.

PORTA-BAGAGEM

Facilmente prescindiria do meu carro não fosse o porta-bagagens. Assim como adoro andar a pé, de olhos fixos no chão ou cabeça levantada para as nuvens, detesto conduzir. Sinto que o volante é um par de algemas disfarçado, e toda aquela coordenação entre pedais e caixa de velocidades deprime-me. De resto, a velocidade entedia-me. O problema está em que não consigo meter numa mochila tudo o que cabe no porta-bagagens. Se pudesse andar com um porta-bagagens às costas seria, muito provavelmente, o mais feliz dos homens sobre a terra.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #33





Ao contrário do que o nome indica, os Chicago Underground Duo não são propriamente um duo. Pelo menos não o são de uma forma estanque e definida. Ao longo dos anos têm experimentado diversas formações e a designação do projecto foi acompanhando as respectivas metamorfoses. Em 12º of Freedom (1997) encontramos os dois elementos fundadores da banda − Rob Mazurek (sopros) e Chad Taylor (percussões) −, mas também o guitarrista Jeff Parker. Todos eles serão mais conhecidos pelas participações em bandas tais como os Tortoise, agrupamento de post-rock filiado na editora Thrill Jockey, pese embora a reputação conquistada nos domínios do free jazz. Este álbum, que, se bem sei, é o primeiro da banda, aproxima-se mais desse registo do que de outra encarnação qualquer. O tema January 15th ainda se aventura numa espécie de post-hard-bop com linhas melódicas e rítmicas identificáveis, mas a generalidade dos temas resulta de improvisações sem qualquer preocupação formal. Foi assim definida esta aventura pelos implicados: “an organic mixture of African, Electronic, Coloristic, Jazz influenced life supporting systematic, non-systematic feeling from two humans trying ever to expand outward and inward for the people and ourselves.” Como um filme sem história ou um livro sem narrativa, estamos no campo da pura exploração poética. As histórias e as narrativas aparecem implícitas nas frases, nos gestos repentinos, súbitos, nos ritmos alternados, no diálogo mantido para lá dos círculos delimitadores da emissão-recepção e da causa-efeito. No entanto, aqui e acolá, conseguimos construir paisagens a partir das notas que nos chegam como quem pára para escutar as ressonâncias do silêncio. Compreende-se alguma resistência a este tipo de som, que não nasce para ser massificado nem reclama um público generalista. A maioria das pessoas caminha sem reparar nas pedras que pontapeia pelo caminho. Apenas uma pequena minoria repara nesses ínfimos retiros de matéria que, afinal de contas, são uma extensão de nós próprios. Portanto, esta é música para aqueles que reparam. Não é música para quem pretenda apenas distrair-se.

CANTIGA

a este moto




Quem disser que a barca pende,
dir-lhe hei, mana, que mente.



VOLTAS

Se vos quereis embarcar
e para isso estais no cais,
entrai logo; que tardais?
Olhai que está preiamar!
E se outrem, por vos fretar,
vos disser que esta que pende,
dir-lhe hei, mana, que mente.

Esta barca é de carreira,
tem seus aparelhos novos;
não há com ela outra em Povos,
boa de leme e veleira.
Mas, se por ser a primeira,
vos disser alguém que pende,
dir-lhe hei, mana, que mente
.


Luís de Camões (n. 1524?)

Domingo, 27 de Novembro de 2011

Em 100 clientes, lá aparecem 3 ou 4 que são autênticas bestas. A média é esta, há que ser honesto. O que os restantes 96 não percebem, nem têm que perceber, é que por causa daquelas 3 ou 4 bestas, por vezes, os nervos ficam-nos todos entalados na garganta e a paciência atinge os limites do suportável. O segredo está, portanto, em aprender a resistir às bestas. Como? Com um sorriso cínico nos lábios, alguns sapos no estômago e muita fé em que as pragas que lhes rogamos venham a ser concretizadas na graça do Senhor.

EPISTEMOLOGIA DAS EMOÇÕES




Nas Breves Notas Sobre Ciência (Relógio d’Água, Abril de 2006), primeiro volume da série Enciclopédia, Gonçalo M. Tavares aflora o problema da utilidade em algumas entradas. Tomemos de exemplo esta, intitulada Desenho e Ciência: «Tudo o que não podes desenhar são abstracções. Tudo o que não podes desenhar é inútil. (Mas como desenhar estas duas frases? Será inútil dizer que quase tudo é inútil? Eis um problema.)» O problema levantado não nos permite determinar o que não seja inútil. A questão, tal como está formulada, apenas nos leva a supor a existência de algo que não seja inútil. O que será isso, então, que poderemos considerar útil? A resposta parece residir na segunda proposição do problema: «Tudo o que não podes desenhar é inútil». Seguindo a lógica clássica torna-se legítimo pressupor que a negação desta proposição fornece uma resposta plausível à nossa dúvida, ou seja, tudo o que podemos desenhar é útil. Neste sentido, e porque nos é difícil encontrar algo que não possa ser desenhado: tudo é útil, inclusive o inútil. A utilidade do inútil reconhece-se nos extremos das coisas, nos seus fundamentos e nos seus fins. Digo coisas em sentido lato e vulgar, como quem diz tudo. A utilidade do ar que respiramos, reproduzível em contornos diversos sobre formas díspares, parece ser a mesma das palavras com que escrevemos a palavra ar, pois as palavras são os desenhos por excelência das coisas. Podemos, no entanto, perguntar: assim como não sobreviveríamos sem ar, conseguiríamos viver sem palavras? As árvores precisam de palavras para viverem? De que necessitam os seres vivos para estarem vivos? Nenhum desenho poderá reproduzir melhor a palavra amor do que a palavra amor. Também por isso é significativo que, mais à frente, Gonçalo M. Tavares nos provoque com o seguinte silogismo: «A metodologia útil é um martelo. / A ciência utiliza o martelo. / A arte utiliza a ciência. / (E o amor pode inutilizar tudo.)» Da mesma forma poderíamos afirmar: a metodologia útil é o amor; a vida utiliza o amor; a poesia utiliza a vida; e a ciência pode inutilizar tudo. O problema que se nos coloca parece trazer implícito no velho (e aparentemente insanável) conflito entre os domínios da razão e da emoção. Hoje, mais do que nunca, no interior de uma era alicerçada na técnica, importa reconhecer os papéis desempenhados pela ciência e pela poesia ao longo do desenvolvimento da humanidade. À segunda reconhecemos uma dinâmica criadora sintetizada na palavra amor, é a dinâmica da respiração. Nenhum homem existiria sem a acção do amor. À ciência associamos mais facilmente a castração da humanidade, desde logo a partir da subjugação do pensamento a um método delimitador do campo de acção do conhecimento. Ainda que seja inquestionável o papel transformador e progressista da actividade científica, não pode deixar de nos inquietar o caminho que nos foi abrindo, na direcção de uma alienação colectiva cuja fé reside na propagação de paradigmas que o tempo vai renovando à medida que novos instrumentos nos permitem desbravar os terrenos da realidade. As famosas verdades científicas não passam, pois então, de mentiras transitórias em que a maioria acredita a bem de uma utilidade organizativa e orientadora do homem no caos da realidade. A verdade será bem diferente, a verdade é desse amor que pode inutilizar tudo, no sentido de tornar útil o inútil. De certo modo, era isto que os cínicos defendiam quando acusavam a artificialidade das leis e defendiam tudo o que fosse natural. A lei dos cínicos era a poesia transformada em ciência, numa espécie de anarquismo comunitário que não estaria longe do modo de vida levado a cabo por algumas tribos indígenas que nos sobram enquanto vestígios de uma liberdade reprimida pela ciência, primeiro, e pela técnica, depois. O que parece estar na origem de tudo isto é o medo do homem perante o seu próprio corpo, o receio induzido por limitações naturais que nenhuma ciência resolve e a poesia apenas pode cantar/desenhar. Mas quando a conclusão é a mais universal de todas - esse termo a que chamamos morte - o que pode a ciência ao pé dos desenhos da poesia?

MILLION DOLLAR BABY




Clint Eastwood não é um especial adepto dos happy endings, preferindo antes levar as suas personagens a extremos de exaustão narrativa. Esta exaustão revela-se no momento em que o indivíduo, imerso nas (im)possibilidades da sua situação existencial, se depara sem soluções. É provável que a determinada altura nas encruzilhadas da vida os caminhos se tornem de sentido único, sem saída, e as pessoas se sintam obrigadas a agir já não em função dos seus critérios morais mas sim determinadas pela força das circunstâncias. O mais relevante neste tipo de personagens pode ser entendido a partir de duas perspectivas. A primeira é a daquele que julga ser a consciência a dimensão do homem que mais condiciona a moralidade, a segunda substitui a consciência pela necessidade. O mais curioso é que, entre ambas, a liberdade encontra melhor o seu lugar nos ditames da necessidade e na quase recusa da consciência, ou seja, é quando o homem determinado pelos valores morais resolve deixar de resistir à necessidade que a liberdade se afirma. O dilema é ontológico e coloca em questão as teses que opõem a liberdade ao necessário como se o necessário, por ser o mais natural, fosse o princípio a partir do qual a liberdade pode afirmar-se. Isto significa que, em consciência, a liberdade tem tanto a sua fundamentação na resistência à moral como na resistência aos instintos. Parece um desígnio perigoso, este de colocar o acto livre na teia da necessidade. Veja-se Million Dollar Baby. O conflito vivido pelo treinador Frankie Dunn é o de obedecer cega e indolentemente à sua moral ou o de lhe desobedecer cedendo à força das emoções, impedindo, dessa forma, a perpetuação do sofrimento da atleta Maggie Fitzgerald. O lema de Frankie no ringue – protege-te sempre – é igualmente o seu lema na vida, pelo que se lhe torna ainda mais imponderável desligar a máquina a que Maggie ficou vitalmente ligada após um combate decisivo. Desligar pode muito bem ser, em certas circunstâncias, a melhor forma de nos protegermos. Já não apenas dos outros, mas sobretudo de nós próprios. E nessa opção eu consigo notar tanta liberdade como noutra qualquer.

Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

COM TODO O RESPEITO





Com Todo o Respeito é dos álbuns mais genuínos que Jorge Palma publicou nos últimos anos, e para tal muito terá contribuído a produção de Flak. Os primeiros temas têm uma toada rock irresistível, com as guitarras eléctricas, em ritmo moderado, a marcarem o compasso de versos simples mas extremamente eficazes. São canções que evoluem para refrães facilmente memorizáveis, como manda a regra, antecedidos de declarações bem dispostas, laissez faire, contaminadas apenas por um inquestionável amor à vida (a chuva cai / e eu estou-me a borrifar). Alguns temas têm origem em colaborações multilingues. Tudo por um Beijo, por exemplo, foi escrita para o filme A Bela e o Paparazzo, de António Pedro Vasconcelos, e os temas Imperdoável e O Mundo e a Casa (com Cristina Branco na voz) foram compostos para a peça A Balada da Margem Sul, de Hélder Costa, levada à cena pela Companhia de Teatro A Barraca. Há ainda momentos apaixonados, típicos do repertório que Palma foi construindo ao longo dos anos, como A Miúda do Oriente, balada arrancada a meias com Carlos Bica no contrabaixo. Outras colaborações fazem deste, também, um álbum de partilhas, mas o que mais impressiona é a insistência e a teimosia num formato que poderia já estar gasto não fosse a simplicidade com que Jorge Palma aborda as palavras. Uma Alma Caridosa, com Pedro Vidal na guitarra e Carlos Barreto no contrabaixo, é um blues que sublinha com clara pertinência a sátira de Carlos Tê sobre o burocrático mundo português. De resto, os temas finais contrastam pela crítica e dramatismo ausentes no início da colectânea. Mais um Comboio é um angustiante retrato da actualidade onde até a voz de Flak soa bem (o pior não é estar triste / o pior é não saber porquê). Agora Não, Ainda Não tem um não sei quê de seventies nas guitarras e é apenas das melhores canções que Palma compôs nos últimos anos (para ouvir em repeat que não cansa), e Com Todo o Respeito, que deu nome ao álbum, resume em registo acústico e cínico (à moda antiga) o estado político-social que nos vem consumindo nas últimas décadas. Muito bom.

Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #32



Brian Eno deve ter sido a referência mais citada nesta lista. Não é por acaso. Recordemos Music For Films (1978), uma recolha que o tempo poderia ter transformado em música para elevadores. Não foi o que sucedeu. Rodeado de nomes como Phil Collins (percussões), Fred Frith e Robert Fripp (guitarras) ou John Cale, Eno outorgou ao futuro uma lição de bom gosto. Estes temas são aquilo que os filmes reclamam, obviamente, mas não se cingem a uma mera função decorativa, como quem contorna os traços delineados pelo artista original. Das breves composições aqui expostas ressaltam paisagens imaginárias cuja vivacidade é de uma clareza impressionante, mais ainda se tivermos em conta o carácter fragmentário dos temas. Podemos fechar os olhos e deixar que o ar nos penetre pelos ouvidos, o tímpano transformar-se-á na íris da imaginação. No tema Slow Water, por exemplo, a guitarra de Robert Fripp (King Crimson) transporta-nos para ambientes flutuantes próximos de um estado hipnótico. A raiz electrónica que dita as regras, numa precursora atitude vanguardista, pode levar-nos a questionar a orgânica dos temas numa música essencialmente plástica. No entanto, a actualidade prova que as experiências sonoras levadas a cabo em temas como ‘There is Nobody’ ou Patrolling Wire Borders são água em estado gasoso. Um falso nevoeiro.

A/C BURAKA SOM SISTEMA

amor é cego minino
fortuna é cega mulher


AO AMOR E À FORTUNA

Amor e Fortuna são
dous deuses que os antigos
ambos os pintaram cegos;
ambos não seguem rezão;
ambos aos mores amigos
dão mores desassossegos;
ambos são sem piedade;
ambos não lhe tomais tino
do querer ou não querer;
ambos não falam verdade:
Amor é cego minino,
Fortuna é cega mulher.


Sá de Miranda (n. 1481)

Domingo, 20 de Novembro de 2011

TRÂNSITO




Há 37 anos nos arquivos, como o arquivista de Schuiten & Peeters, também eu fui desacreditado pelos pares. Não tive que elaborar nenhum relatório sobre cidades obscuras, bastou-me ter singrado os mares de Calvino no encalço d’As Cidades Invisíveis. Os realistas chamarão delírios a esta tendência para atribuir à imaginação um pouco mais do que as alegrias do entretém. É possível que não sonhem, que durmam sempre como pedras, que a humidade não lhes suba à cabeça quando, em sonhos, são enrolados pelas musas. Eu fui há muito assaltado pelos delírios da imaginação, andei aos trambolhões em ruelas sinistras, cruzei-me com monstros nas avenidas mais improváveis e, por vezes, dei de caras com Deus nas esquinas do pânico. Já rezei, porque a todos a fraqueza provocada pelo desespero inspira certos cuidados. Mas nunca bebi águas santas, prefiro as turvas do inferno, colhidas nos vinhais alentejanos e pisadas pela devoção dos homens. Digo que fui desacreditado por ter de carregar às costas este peso de mim próprio. A verdade é esta: só fui verdadeiramente feliz quando me perdi... e sempre que me perdi senti uma necessidade inexplicável de voltar a encontrar o caminho. A vida deve ser um pouco esse labirinto do Minotauro. Quando nos topamos sem mapas nem indicações, desprovidos de bússolas ou guias, sentimos um certo alívio, mas rapidamente esse alívio se transformará em necessidade. E aí, nesse ponto, meus caros, somos todos mais parecidos uns com os outros do que Castor com Pólux. As minhas cidades obscuras têm todas nomes facilmente identificáveis, o meu Outro Mundo é este Mundo Outro onde Mário Sá-Carneiro não aguentou as suas lamentáveis crises. Rio Maior, por exemplo, com Ruy Belo no outro lado da rua a caminho da Feira das Cebolas. Tornou-se com o tempo uma cidade obscura, irreconhecível, decantada pela ruína dos locais onde passei uma infância de sonho e atravessei uma adolescência de pesadelo. Hoje, quando penso na fonte, não me vêm à memória as águas límpidas das Três Bicas nem os campos cultivados do Açude onde fumei barba de milho, cacei pardais e comi nozes roubadas à beira do rio. Apenas musgo e lodo onde os pés da memória resvalam para poços sem fundo. O que se perdeu não volta mais. Há-de isso ficar no meu relatório, assim ele me seja solicitado. Lisboa, a capital onde fui encontrar as mais tremendas desilusões. Compreenda-se, quem vem da província e chega à capital não espera encontrar a mesma monotonia, o mesmo Conselho fiscal de párias emproados, a mesma agonia de náufragos que O’Neill soube recriar melhor do que ninguém. Vim embora sem saudades e encalhei em Caldas da Rainha, onde há onze anos venho documentando o tempo sem grandes preocupações. Um salto a Sul, um salto a Norte, passeios comedidos, sempre com bilhete de ida e volta. Não seria sincero se não dissesse trazer no peito essa angústia de sempre ter que voltar. Tenho vários diários de viagem escritos entre o Cairo e Marraquexe, Dublin e Paris, Veneza e Roma, Praga e Budapeste, mas nenhum se pode comparar ao que trouxe de São Miguel e ao que fui escrevendo, ao longo dos anos, na Costa Vicentina. Além de São Martinho do Porto, que aqui tão perto se me mantém, por razões meramente sentimentais, numa semi-obscuridade indecifrável, são esses os meus lugares. E a Nazaré, claro, onde irei hoje matar saudades. Mas o que pretendo dizer com isto tudo é que os arquivos de um homem são os lugares que ele pisa, as paisagens bordam-nos a pele, condicionam a respiração. Schuiten & Peeters desenham esta relação na figura de um homem rodeado de documentos, livros, papéis. O Arquivista, no fundo, é a célula mãe a partir da qual o corpo se desenvolve e cresce para um fim universalmente reconhecível. A paisagem do arquivista, muralhas de estantes repletas de livros, é parte substancial da minha paisagem, mas está longe de delimitar o panorama inteiro. E esse pode até não prescindir do papel, mas só reclama solas para caminhar e um certo sentido da deslocação. Em suma: trânsito.

MEMÓRIA DO MEU PAI

Cada homem velho que vejo
Faz-me lembrar o meu pai
Quando ele caiu de amores pela morte
Na época em que os feixes eram colhidos.

Aquele homem que vi na rua Gardner
Cambaleando no passeio foi um,
Olhou para mim de soslaio,
Eu podia ter sido seu filho.

E lembro-me do músico
Arranhando a sua rabeca
Em Bayswater, Londres,
Também ele me apanhou no enigma.

Cada homem velho que vejo
Na atmosfera colorida de Outono
Parece querer dizer-me:
“Uma vez eu fui o teu pai”.



Patrick Kavanagh


Versão de HMBF.

Sábado, 19 de Novembro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #31





A poesia de Odysseus Elytis (ou Odysséas Elytis) tem sido alvo de várias intervenções ao longo dos tempos. Nascido em 1911, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura em 1979. Os leitores portugueses podem tomar-lhe o gosto a partir da leitura de Louvada Seja (Áxion Estí), obra publicada na língua de Camões, com tradução de Manuel Resende, pela Assírio & Alvim, em Março de 2004. Angélique Ionatos, cantora grega radicada na Bélgica, oferece-nos uma outra perspectiva dos versos de Elytis. Em 1995 compôs uma série de temas a partir da elegia Parole de Juillet. Para o efeito, convocou as vozes de Spyros Sakkas e de Emmanuel Pousse, o baixo de Didier Malbee, as cordas de Henri Agnel, o violino de Michael Nick, o clarinete de Bruno Sansalone e a percussão de Jean-François Roger. Organizado como uma peça teatral, Parole de Juillet enfatiza as palavras do poeta grego com arranjos que remetem para a música tradicional grega. O maior risco deste tipo de trabalhos é o de subverter a cadência das palavras, impondo-lhes ritmos e melodias que fazem desmaiar a força dos poemas. Seria como levar à missa a paixão, o desejo, o tesão. Angélique Ionatos não só soube respeitar essa musicalidade como lhe deu um volume extraordinariamente eficaz. Neste caso a conjugação resulta perfeita. As cordas atingem, a espaços, níveis de exaltação deveras empolgantes. O tom elegíaco dos versos é respeitado, mas não determina nem condiciona o risco em que as composições se aventuram. E esse risco é o de não permitir que a melancolia se transforme em comiseração, temperando com raiva quanto baste os nervos da tristeza. Uma óptima companhia para os dias que atravessamos.

AFORISMOS DO SUICIDA (2)

Até jamais, se Deus quiser. E o nó permitir.

AFORISMOS DO SUICIDA (1)

Esta vida é uma luta, mas eu não sou soldado.

A DANÇA ACABOU

No passado dia 22 de Janeiro anunciei aqui A Dança das Feridas, um livro do qual se fizeram 150 exemplares únicos e irrepetíveis (na verdade eram 160, 10 ficam para mim). Porque têm surgido nos últimos dias algumas solicitações, venho esclarecer que não tenho mais livros para venda. O último exemplar seguirá para Lisboa na próxima segunda-feira. Como disse anteriormente, em nenhuma circunstância será realizada, com minha permissão, uma segunda edição deste livro. Agradeço a todos quantos divulgaram, comentaram e adquiriram A Dança das Feridas.

FARRAPOS

Acordava todos os dias a pensar que tinha morrido, que já nada fazia sentido, que tudo o que fora se perdera pelo caminho como farrapos de roupa comidos pelo tempo. Às vezes sonhava, mas eram geralmente sonhos agonizantes. Que lhe falecera um familiar, que um amigo se suicidara. Um dia, acordou a sonhar que lhe estava a chover em cima. E estava mesmo, não era sonho. Água barrenta pingando de um cano rebentado. O facto sustentava-lhes as metáforas, também ele era um cano rebentado, uma corrente de água suja atravessando as muralhas de cimento da memória e pingando toda a sua força sobre um corpo adormecido. Sentia-se dormente, sonâmbulo. As pessoas à sua volta inspiravam-lhe tanta compreensão como desespero. Acreditava que uma larga maioria das pessoas era absolutamente vulgar, gente comum, bem comportada, regida pelo bom senso de uma educação informal. Depois havia os inadaptados, alguns desviados da sociedade, mais ou menos perigosos, dos quais se sentia próximo somente pela incapacidade de se fazer integrar num todo respeitável. E havia os pedantes, os insuportáveis, indivíduos geralmente favorecidos por uma formação académica que lhes outorgava méritos proporcionais à insensibilidade com que definiam o mundo. Gente anatomicamente desfigurada pela infelicidade, gente vingativa, medíocre, manigante, intriguista, pretensiosa, gente com a boca cheia de papas de palavras, argumentos forrados por uma simpatia calculista, gente para quem o mundo é a mesura do conforto e o conforto é a medida do sacrifício. Acordava a pensar em toda essas pessoas e em como era um pouco de todas elas sem que fosse realmente uma só. Era um monstro, uma construção falhada de Deus, um protótipo do caos, uma estranha criatura. De vez em quando esboçava retratos no papel, caminhos desviados do norte, percursos sem sentido, plantas crescendo no banco dos réus. Continuava a saber caminhar, mas custava-lhe pôr um pé à frente do outro, as pernas tremiam-lhe sempre que tinha de se levantar, sempre que o obrigavam a erguer-se em prol dos deveres domésticos, sentia o estômago revoluteando-se porque estava cada vez mais distante do silêncio, da paz, da solidão, da liberdade que sempre desejara. Pelas opções tomadas ao longo da vida, recebeu de troco as preocupações do futuro, o fim da alegria proporcionada pela escrita, a morte da poesia, a distância, a ausência, recebeu de troco uma dor terrível e paralisante nos músculos da vontade, uma contagiante indolência, um relógio tiquetaqueando segundo a segundo as horas do desespero. Não lhe ficava bem queixar-se do mundo entre ruínas, por isso queixava-se de si próprio. Levantava-se com a cabeça ainda molhada pela água barrenta, olhava-se ao espelho e dizia: ponto final. Então o espelho começava a mover-se como se fosse água, o seu corpo reflectido em pequenas ondas sombreadas, e ele mergulhava por ali adentro e gritava larguem-me, quero estar só, deixem-me, mesmo não havendo ninguém à sua volta, ninguém que o prendesse, ninguém que o detivesse. Era consigo próprio que gritava, era de si próprio que devia libertar-se, percebia então que ele próprio era a sua mais inexorável prisão. Acorrentado a não sabia que medos, sentava-se a lamentar a incapacidade de chorar. Dos olhos saltavam-lhe lágrimas secas de pânico, grãos de areia, pedras. Não sabia como soltar do peito tanta amargura, os desastres de uma vida perdida algures pelo caminho como farrapos de roupa comidos pelo tempo.

Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011

AVATAR

Escrevi “sexo à bruta” no motor de pesquisa do Google, só por curiosidade. No preciso instante em que terminava de escrever a palavra “bruta”, a minha mulher entrou no quarto e violou-me. Agora precisava de pesquisar sobre avatares do Diabo, mas temo o que possa suceder.

Domingo, 13 de Novembro de 2011

MEIA-NOITE EM PARIS




Enquanto o céu rebenta em guerra, largando sobre a terra as lágrimas dos feridos, inundando praças, ruas, avenidas, provocando com seus raios os desastres do respeito, impacientando os animais e os corações dos homens, viajo ao passado através do humor inteligente de Woody Allen. Paris, porto de artistas e vulcão criativo, cidade onde a arte andou pelas ruas e frequentou cafés como gente vulgar, serve de cenário para um jogo intelectual com origem na mais comum das inquietações: como seria a nossa vida se pudéssemos viver noutra época? A dúvida tem implícita uma insatisfação provocada pelo presente, seja ele qual for, mas essa insatisfação é também a rede que nos ampara a queda sempre que constatamos a universalidade do tédio. Gente queixando-se da decadência vivida na sua época é o que nunca faltou ao mundo. É assim, pelo menos, desde que o homem regista essa insatisfação como um legado onde os vindouros poderão consolar a melancolia. Ao protagonista de Midnight in Paris, uma comédia mais surrealista do que romântica, é oferecida a possibilidade de conviver com os seus heróis na Paris dos anos 20 e da Belle Époque. O próprio conceito de Belle Époque acaba desfigurado quando escutamos Paul Gauguin queixar-se das gerações mais novas de então, numa mesa onde se encontravam Degas e Toulouse-Lautrec. Esta viagem através dos tempos permite a Gil (Owen Wilson) libertar-se dos constrangimentos motivados por uma noiva superficial e por um casal de amigos onde a figura do intelectual pedante é desmascarada sem parcimónias. Ao mesmo tempo, permite-lhe, e permite-nos, cruzar-se com Eliot, Picasso, Dali, Man Ray, Hemingway, Luis Buñuel ou Gertrude Stein num contexto semi-onírico onde os preconceitos existenciais são contornados pelas situações vividas. Ou seja, mais do que a consciência do presente, é a consciência do passado que nos permite delinear com clareza os problemas da nossa existência. Como é óbvio, muitos dos dramas de hoje seriam frugais se, ao vivermos esses dramas, concentrássemos as nossas atenções nos tempos em que era normal decapitarem-se homens e mulheres na praça pública. O que torna a actualidade insuportável é a ilusão de um progresso moral inexistente, de uma evolução que pode ser falimente relativizada quando nos confrontamos com a essência inalterada dos comportamentos humanos. Que a arte nos permita maquilhar a bestialidade fundadora do ser é mais uma ambição do que um objectivo alcançado. Por outro lado, Woody Allen mostra-nos, numa espécie de conto de fadas para adultos, que o segredo para uma vida satisfatória, bem diferente dessa utópica felicidade apregoada de cruz ao peito, pode estar na aceitação dos anacronismos que moldam a personalidade de cada um dos homens. Ser antiquado, afinal, é apenas ser resistente à degradação imposta pela modernidade. É nisso que pensamos quando tomamos a noção de que a nossa realidade, vista à luz da primeira metade do século XX, seria pura ficção científica.

Sábado, 12 de Novembro de 2011

ADVENTO




Já tanto saboreámos e experimentámos, amada –
Que sem surpresa nos surge através de uma fenda larga.
Mas aqui, na escura sala do Advento,
Onde o pão preto seco e o chá sem açúcar
Da penitência voltarão a encantar o luxo
Da alma de uma criança, nós devolveremos ao Juízo Final
O conhecimento roubado que não pudemos usar.

E a frescura que estava em todas as coisas bolorentas
Quando as olhávamos na infância: o espírito chocando
Com o espanto numa negra colina inclinada do Ulster
Ou o assombro profético na conversa entediante
De um velho palerma, despertarão para nós e irão
Levar-nos ao portão do jardim para vermos as urzes
E as crateras, carreiros, velhos redis onde o Tempo começou.

Ó, após o Natal não será preciso buscar
O sentido que define uma velha frase em chamas –
Vamos escutá-lo no argumento sussurrado pela batedeira
Ou nas ruas onde os rapazes da aldeia cambaleiam.
E também o escutaremos entre homens decentes
Que estrumam as árvores nos jardins,
Onde quer que a vida comum flua em abundância.
Não seremos ricos, o meu amor e eu, e se Deus
Quiser não teremos de cobrar justificações sobre
A pungente singularidade das sebes inclinadas
Nem de analisar o hálito de Deus nas declarações vulgares.
Lançámos no caixote do lixo os soldos em barro forjado
Do desejo, do conhecimento e dos momentos de consciência –
E Cristo surgiu com uma flor de Janeiro
.



Patrick Kavanagh

Versão de HMBF

MARQUESA DE ALORNA




Viu o livro na televisão, não se lembra se o viu na SIC ou na TVI. Informo-a de que não temos registo de nenhum livro com tal título, A Princesa e o Lord. Ela insiste, garante que o livro existe, a escritora esteve no programa em causa a falar sobre o livro. Será A Marquesa de Alorna? É provável. Mostro-lhe a capa, confirma, é mesmo isso. Enquanto paga, remata: não era Princesa, era Marquesa, mas o Lord está lá.

Domingo, 6 de Novembro de 2011

Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011

AS EXTRAORDINÁRIAS AVENTURAS DE DOG MENDONÇA E PIZZABOY

Já terão ouvido falar n’O Caso das Criancinhas Desaparecidas. Luiz Pacheco ficcionou-o há umas décadas numa das suas novelas, criancinhas desaparecidas no lago das Caldas da Rainha que iam parar à Lagoa de Óbidos através dos esgotos da cidade. Depois transformavam-se em sereias, se fossem meninas, ou em duros querubins, se fossem rapazes. Portugal é um país propenso a este género de enigmas, terreno fértil em metamorfoses várias de onde brotam figuras híbridas. Na Lisboa do século XXI o cenário pode ser diferente, mas a essência fantasmagórica dos seus habitantes mantém-se. Há muito de ser-se português nisto de ser-se monstruoso. No fundo, há muito de ser-se humano. E é essa universalidade que garante elevação ao argumento. Já na terceira edição, o primeiro volume de As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, numa edição impecável como outra coisa não seria de esperar da Tinta-da-China, revela-nos o submundo de uma cidade que vem sendo retratada, pelo menos desde Voltaire, com o espanto motivado pelas realidades sombrias, obscuras, tenebrosas. É famosa a luminosidade da capital portuguesa, associada a xailes negros e pregões colados ao destino. O fado pode não ser toda a nossa cultura, mas é, pelo menos, o berço onde os mortos nos embalam com seus nevoeiros de esperança. Filipe Melo, declarado adepto do cinema dito fantástico, fã de zombies e de criaturas aterradoras, concebeu nesta novela gráfica uma aventura cinematográfica com os ingredientes clássicos do fantástico. O elemento real, entre lobisomens, gárgulas, demónios e monstros de vária ordem, é um rapaz chamado Eurico (aka Pizzaboy) que trabalha numa pizzaria. A história limita-se a desenvolver, e de alguma forma prestar tributo, aos filmes de aventuras, não prescindindo de fortes e convincentes composições metafóricas de timbre humorístico (uma suposta lavandaria gigante nos esgotos da cidade não é mero entretenimento). Com os desenhos entregues ao talento do argentino Juan Cavia, também ele com experiência na arte do cinema, Filipe Melo propõe uma narrativa visual de contornos satíricos que transforma o imaginário monstruoso da ficção numa ingénua dimensão da criatividade ao pé da tenebrosa realidade arquitectada pelo nazismo na primeira metade do século XX. O terror perpetua-se na realidade, cabendo à imaginação livrar-nos do mal exorcizando os demónios em concepções que possam, de algum modo, equilibrar os dois pratos da balança. O segundo volume está aí, intitula-se As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II – Apocalipse. Do magma lançado pela História saltamos para a inesgotável fonte mística. Numa altura em que tanto se apregoa o fim do mundo, vem a calhar esta divertida antecipação dos acontecimentos. De novo juntos, o detective do oculto, o rapaz das pizzas, agora a trabalhar num Call Center, a inseparável companhia demoníaca do detective (tem algo de japonês nos traços) e a cabeça de uma gárgula garantindo os contrapontos humorísticos da tragédia. Neste volume, Filipe Melo e seus comparsas metem-se com a religião, invadem os marcos do transcendente e acabam por glosar a ficção de contornos esotéricos que vem fazendo as delícias de milhares de leitores nestes derradeiros anos da humanidade. Como não podia deixar de ser, decorrendo a acção em terras lusas, há uma deslocação a Fátima. Lado a lado, visões do Inferno, Papas desmaiados, Hitler, um cardeal abençoando as revelações do milagre. As pragas do Apocalipse estão em marcha, Abaddon desatará o nó do seu novo mundo na capital portuguesa. Nenhum humano nos pode salvar, estamos nas mãos dos monstros. Esta inclinação por monstros bem-humorados, heróicos e salvadores da pátria humana tem muito que se lhe diga, mas o melhor é pegar nos livros e folheá-los como quem vai ao cinema.

I SEE A DARKNESS





O nome de Johnny Cash sugere-me uma imagem e uma palavra. A imagem, talvez demasiado tipificada, é a de um homem a tocar guitarra dentro de uma cela. Vem dos filmes de cowboys, certamente. Um contraste que me marcou para a vida. Enclausurado, o homem tem a tiracolo o objecto da libertação. Todo o acto criativo se resume nessa imagem, a de alguém que busca uma liberdade refém da situação ontológica mais definidora do ser-se humano. Todos nós somos reclusos entre as quatro paredes das memórias, dos medos, dos deveres, dos traumas que nos formam e nos transformam ao longo da vida. A imagem do homem atrás das grades é, em última instância, a imagem de um coração dentro de um corpo. Eis a palavra inspirada pelo nome de Johnny Cash: coração. Onde alguns vêem alma eu vejo coração, por isso prefiro dizer que o homem canta com o coração a dizer que canta com a alma. A alma não sei o que é, mas o coração sinto-o, é algo a bombear o ânimo que nos mete de pé, ora freneticamente, ora em baixa tensão. A novela gráfica de Reinhard Kleist (Self Made Hero, 2009) oferece-me essa imagem e a palavra a duas cores, as mais nobres das cores. O vermelho do apelido que aparece estampado na capa é como o sangue disparado pelo músculo vital. Atrás dos ferros, os dedos do homem percorrem as cordas da guitarra como animais acossados. Cash, é reconhecido, tinha dedos lentos, um espírito de pedras rolantes na melancolia do campo. Foi iluminado pela lua quando, certa noite, penetrou as paredes frias e grossas da prisão com as suas melodias. Uma voz fechada nas pedras que a memória nos coloca sobre os ombros a toda a hora. Kleist empresta-lhe alguma chuva, conta-nos a infância, as ambíguas relações familiares, os rumos traçados que foram sendo desviados pela força da paixão. Em certos momentos, comove-nos como antes nos comoveram as aventuras de Tom Sawyer ladeando descalço o seu próprio reflexo nas águas do rio. Um homem que canta atrás das grades não foge. De certo modo, disso nos convence a medicina poética: ele já está livro. Logo, não precisa de fugir. Fosse essa a sua intenção escavaria túneis em silêncio. Ele canta para abrir as portas do corpo ao coração, para que a tempestade interior amaine nas paredes do silêncio. Ele canta como alguém que se encontra só, montado no seu cavalo, entre as brumas da floresta. Há uma expressividade naquelas rugas do rosto que nenhum tribunal pode tratar com as suas condenações. A sentença foi ditada há muito, foi ditada por uma inquietude que as olheiras não disfarçam. Penetrando agora as artérias do músculo vital, como alguém que entra a esmo numa gruta sem rede nem orientação, o homem pode dizer que viu a luz dentro da escuridão. E por isso canta atrás das grades, olhando de soslaio o passado que vibra a cada nota, a cada acorde, a cada som gotejado pela guitarra.

Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011

MESSIAS

As bases do mundo que Messias anuncia são naturalmente frágeis. Ele fala para ser apedrejado, julgado, torturado, com a certeza de que terá de percorrer a sua via-sacra no sentido da execução. O resto é esperança. Mas e se Messias estiver certo? Quem está disposto a colocar essa hipótese? Poderemos nós estar certos da ausência conspirativa nos desígnios do mundo? Convencido apenas de que tudo me escapa, vou regando as sementes a ver se colho frutos. Perante teorias aprendi cedo a ser humilde. Tento compreendê-las antes de julgá-las, não as censuro, até porque das piores hipóteses já surgiram as leis mais verosímeis. Não percamos de vista o exemplo de Galileu Galilei.

Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

SOMOS DOIS

Ao mendigo de que não sei o nome sempre aceito a mão (hoje as duas enluvadas, minha e dele) ao aperto depois do Marlboro. Ao grande homem do momento de quem a obscuridade foge, presidente da república portuguesa, teria nojo de a sentir. Felizmente o mundo é largo. E disso se trata; de largueza.


P.S.: de resto, já recusei a mão ao carranca. E fui detido depois de atear fogo a um cartaz do bicho enquanto ele passava com sua comitiva de séquitos. Foi o meu momento de rebeldia cadastrada. Tive um outro, em protestos contra uma extinta PGA, mas dessa feita não me solicitaram o BI.

TERRENCE MALICK


A 1 de Novembro celebra-se o dia de Todos os Santos, celebra-se o martírio, o sacrifício, a entrega absoluta e incondicional. Celebro São Francisco de Assis, o mais cínico de todos os santos, atacado por uma loucura sublime, apedrejado na rua por criancinhas cruéis, filhas de seus pais, devoto da paz e da necessidade, inimigo feroz do superficial. Sobre este amor à pobreza, Leonardo Coimbra dita a sentença final: «Enquanto ele bebe a Vida na sua Fonte, os outros ignoram a Fonte e procuram esconder a morte, que é a essência da sua separatividade, sob os acidentes doirados das riquezas acessórias. A força da Pobreza é tanta que os próprios estóicos viram nela o método para caldear o aço da vontade para os grandes golpes do Destino». Mas antes dos estóicos, e ao contrário deles, já os cínicos, à maneira da velha tradição hinduísta, elogiavam a pobreza não enquanto meio, disciplina, mas enquanto libertação. E é de liberdade que falamos, não é de cemitérios marmóreos festejados com arranjos florais maquilhadores da putrefacção.

Enquanto os amantes dos mortos entopem as floristas, numa inglória antecipação do dia dos fiéis defuntos, eu revejo-me nas terras áridas onde Edward S. Curtis fotografou os últimos resquícios de uma cultura rica na pobreza franciscana da aceitação. Também os índios aceitavam a Natureza na sua evidente superioridade, não procuravam dominá-la em vão, sentiam-se parte integrante da mesma, sentiam-se, por isso, divinos na parte que lhes cabia do Grande Saber Universal. Não disfarçavam a morte, não a enganavam nem a fintavam com arranjos florais, celebravam-na com danças e cânticos solares, emitindo sons vibrantes inchados de um significado insignificante, enquanto os cavalos bebiam directamente dos rios uma água que era propriedade de todos e não de uma só Companhia.

Convertidas em reserva natural, as Badlands são hoje, também, um cemitério da vontade, terras onde o amor e a esperança são já tão-somente resquícios em pó de um tempo perdido. Não me falem de paraísos onde apenas sempre houve inferno. Quando chego a casa e penso nessas terras perdidas, de pernas e braços e mãos atados a uma cadeia de superficialidades, sinto-me eu próprio o morto que deve ser celebrado. E sobre a cabeça despejo as jarras de flores, fico a olhar-me ao espelho, com olhos de lunático, e acendo uma vela em memória de tudo o que não fui. Empurra-nos a existência para este fosso, empurra-nos e força-nos como uma fila de cegos na direcção do abismo, e quando acordamos é tarde de mais.

É sempre tarde de mais. Podemos ainda sacrificar-nos pelos outros, por um amor impossível, podemos sentir a terra sob os pés descalços e abrir as mãos à espuma das vagas, que nada mais será o mesmo. À nossa volta apenas uma luz obscura, alienante, um carrossel de alucinações e ilusões, tanta vida desperdiçada em horas, dias meses de uma entrega absurda a tudo o que não tem valor e nos explora, consome, oprime e impede. Porque é disso que se trata quando falamos de pobreza, é de uma liberdade que começa na recusa, na corajosa abdicação de um prometido conforto, na eliminação ou, pelo menos, na resistência firme aos paraísos artificiais, na demanda de um qualquer paraíso real. Se existe ou não, só poderemos sabê-lo se nos predispusermos a uma busca honesta e sincera. Passa talvez pelo arrependimento, por não nos convertermos naquilo que sempre odiamos, por sabermos reconhecer as opções erradas na via seguida ao longo dos anos, por ir ao encontro de um novo mundo: pacificador, porque libertador. Ao contrário, todos os dias serão dia de finados e o mais finado de todos será aquele que continuar a iludir a sua própria morte.

Estas paisagens atiram-me para o vazio, obrigam-me a reflectir a humidade dos olhos, mostram-me de um modo muito claro e evidente, quase cartesiano, o mistério da existência, um mistério sem mistério, tão claro e evidente como este estar aqui e agora com as terras áridas no pensamento, as más terras onde o pó cobre a pele das sombras. Árvores, dêem-me árvores, árvores gigantescas por entre as quais o sol se infiltre com seus raios de calor. Não quero pomares, nem jardins, quero florestas selvagens onde aves migratórias façam ocasionalmente o ninho e a Fonte adquira a consistência de uma raiz milenar. O martírio é estarmos vivos assim, como mortos, fazendo das ruas cemitérios e de cada casa um túmulo de memórias desperdiçadas.