sexta-feira, 25 de julho de 2014

FÉRIAS

Estimados clientes, estamos de partida para férias. Qualquer assunto urgente, por favor entrai em contacto com Juryman:


L'OUBLI


de tudo o que esqueci me inquieta
uma memória outra. Feita de trapos, de búzios, de folhas
quadriculadas onde só restam junto
à curva azul dos olhos, as marcas
da batalha naval.
De madrugada é sobretudo a névoa que me falta,
o pêlo das mulheres, e as palavras
escritas devagar num livro redondo.
Protasis, apodosis. Anotado nas margens
de um antigo aristóteles: distinguir
energia de kinesis.
Distinguir
Gemeinschaft, Gesellschaft.
A energia em spinoza: conatus in suo esse
perseverandi.
Distinguir, sublinhar, suplicar.
Depois as rodas giram, as árvores
fazem pequenos ruídos ao crescer.
E esqueço-me da idade, a minha, encostado
ao balcão do bar em blue-jeans e camisola verde, 
o olhar preocupado das camas vazias e
das estrelas que morrem, se apagam, inexoravelmente.
Como um pequeno daimon de lutero, List,
Tucke, Schalkheit, será possível que
alegria de sempre sejam
hábitos, a experiência: associações de ideias,
o disse reynolds.
Porque te sentas porventura a meu lado
de mãos inclinadas. The ENGLISH are,
perhaps, greater philosophers, BUT
the FRENCH are the only people who
(por vezes, os nomes. A origem
e direcção das ruas, o modo
de levantar os dedos na carne,
e distinguir a voz ao fundo dos rios,
ou pela pele, os gestos, a maneira
de espalhar o silêncio, as mãos
dobradas sobre o peito.

esquecer é depois uma tesoura de água,
hesitante em frente à estante
dos livros pornográficos, folheando
slim and slanky, sem outra já lembrança
dos corpos na saliva;
asphodel, that greeny flower,
os olhos debruçam-se no aparelho das chamas
e nunca são os mesmos) error,
error, non est Geom,
ao meiodia são horas de ler cartas
com sabor a resina, tacteio
devagar os cavalos empinados ao canto,
decifrar uma língua pendurada dos fios,
ser português: e esqueço-me das mãos, o ruído
das aves ao crescer repete-se no crânio,
one falls in love and desires
mastery
                old Zeus ——— young Augustus
adormecido em lianas de cobre e de heroína:
«esquecer-me de tudo, memória
completa», (é talvez madrugada em Lisboa)
das regras do silêncio, da vulgar
tabuada decorada nos dedos,
o quadrado perfeito: harmonia: as chaves,
as horas, Klein's icosahedron.
Distinguir, uma face estrangeira suspensa
dos cabelos pela pedra inocente,
tempestades de vidro em barcos internos,
o fumo agreste sobre
o granito queimado das esquinas.
(agarro-me aos teus pulsos agarrado
ao horizonte. Ahab, meu amigo.
ils ont dit oui/à la pourriture)

: concelhos de emigração forte: os que
nos dois períodos apresentam taxas iguais
ou superiores a dez por cento
e que são trinta:
                       somente
a luz não é suspeita
feita de trapos, búzios, de seixos
guardados numa caixa de cartão azul,
e de chaves molhadas no bolso dos dedos
arrancados à pressa, a asma de verão
no sud-express, clarté de l'air,
soleil qui ose, e morre no silêncio
das máquinas agudas na garganta,
terias tu também esquecido a erva
ao canto dos quartos, O love
who places all where each is, as they are, for
                 every moment,
yield
           to this man
que a impossível distância / cicatrize
feita de trapos, búzios, de jornais
circulando nas veias, de estações viajando
ao encontro dos lentíssimos comboios, aonde
mercenários do congo discutem massacres,
de dicionário aos ombros como uma bomba fria.
esqueço, o som das asas
multiplica-se, alarga-se, explode sobre as folhas
quadriculadas da manhã, se encostado ao balcão
me aproximo sem gestos, e arde
no céu das mãos uma madeira antiga (je voudrais
m'approcher de toi et que tu m'aimes)
e me espanta nas costas um número tatuado
como uma flor-de-lis desenhada na água.
Kadmos, Laios. À margem: left-sided?, uma
frase de Séneca: per alta vade spatia
sublimi aethere: testare nullos esse, qua veheris, deos.
Margem: mission control / said early this morning
the oxygen supply will hold up. A voz
perdendo-se nas rugas, intervalos,
ao dormir devagar sonho vozes sem boca,
os braço inclinados: porque te sentas
porventura a meu lado, não vês
as unhas presas ao mar, a névoa
nas axilas, quanto me esqueço, lembro, quanto
me é madrugadanoite em volta de lisboa,
a ardósia decepada e uma garganta morta.
Asma, asthme, asthma, são cabelos nascidos dentro da boca,
a crescer para dentro das paredes,
os deuses invisíveis na distância, esqueço,
distinguir, conhecer: as palavras
escritas sem cessar no envelope redondo,
                        old Zeus ——— young Augustus
quanto as chaves nos duram sobre os olhos.

asphodel
             has no odor
                              save to the imagination,
tem o sabor das pedras contra o vidro,
esquecer, o ruído das rodas no ventre dos navios,
o pêlo das mulheres no intervalo dos ossos.
                                                     O love,
pousar as mãos na forma da madeira, abrir
uma caixa submersa, ver
palavras em fumo subindo na tarde,
estas, e um resto de saliva cai-nos dos olhos
sobre o cartão queimado, farrapos, búzios,
um mapa de lisboa com cruzes a lápis.
                                              O love,
este fumo nas ceias sem cheiro nem voz,
escrevendo-se longe num céu de mãos abertas
fuzilado de deus, porque me sento
ao balcão em blue-jeans e camisola azul
e anoitece, anoitece sempre, anoitece na cama
onde brilha nas costas um número passado,
anoitece nas folhas, nos barcos inclinados para a terra,
na ardósia onde se apaga devagar um nome,
anoitece nos olhos, ó somente dizer
amor, amor, e fazer-me sentido quanto esqueço
sem peso
             outro que a boca,
um hálito estrangeiro sobre as pedras:

désirer la maîrise c'est
en être loin, trop loin: esquecer é depois
esta inquieta maneira que nos fica
de debruçar as ruas, de acender
as luzes de repente e respirar 
a tranquilidade do terror adiado,
                          ó somente não ter
mais nada que lembrar, mais palavras a arder
dentro do crânio quando as folhas crescem,
acordar em Rapallo ou Santa Barbara
dentro de um corpo, colado, coincidente,
erguer o totem a meio do pátio com lixo e paixão
que nos dê sombra e a mansidão dos pulsos,
acabar, desistir, fechar o ouvido ao arrastar das unhas
nas paredes, não falar outra língua
que a da madeira ardida no cimo da água,
rios
    paralelos ao mar: ó somente
dizer, dizer, bater as mãos e os frutos contra a terra,
escavar a terra, escavar os rios dentro da terra,
escavar as mãos e o frutos dentro da terra,
adiar a memória que nos fica inquieta
a crescer nos farrapos, nos búzios; no pêlo das mulheres
deitadas nos pulsos, nas veias de cartão com cruzes desenhadas
                                                                   conatus
in suo esse perseverandi
but one falls in love and desires / mastery
                               ó somente dizer

«yield
        to this man
                        that the impossible distance
be healed»

(escrito em 1960, uma tarde tão lenta, as
asas cresciam nas costas dos muros,
uma mala de esquinas inclinada na boca: «adeus,
amigo antigo, amigo velho,
vou partir e não amo ninguém»; quanto
debruçado na chuva me custara o silêncio,
quanto as palavras, em notas
sobrepostas: «assim
sempre a distância nos cura de si mesma»,
«distância é estar aqui hoje e agora»,
ou mais tarde, verão de 1964, em portugal
quase perdido no rumor das chaves: «être ici
est magnífique, mas a luz apodrece
tão depressa!»; e à entrada de um novo
dicionário: «é impossível escrever português
fora de portugal. é impossível
escrever». Buscando
uma língua, um sinal, bêbedo de esperma
em siracusa imaginária, atravessando o golfo
em direcção ao cairo, ou «gravemente»
entre duas colinas, no centro da galiza, 
notando: «é preciso ler rosalía para nos
entender», «o a. diz, e é talvez verdade,
que cortámos os pulsos na fronteira, sem dar conta».
Buscando uma margem, um céu onde pousar
as mãos, uma cinza que baste
às marcas no peito, uma vertente
nua de cicatrizes: de genebra, a um amigo,
novembro de 67: «não se respira aqui,
come-se ar, e sabe a desânimo».
De boston, em resposta a poemas 
alheios: «estou inocente, é difícil».
Idem, março de 70, a uma crítica porventura
amável: «eu falod e raízes sem paixão nem medo.
Sempre me repugnou a ideia de salvar-me
ou de ser salvo: Xto & etecétera».)

de tudo quanto esqueço,
                                     vê,
me dói mais que a memória uma mancha
nas palmas das mãos. Porque me sento
ao balcão do bar com farrapos nos olhos
e desejo uma voz habitada por dentro,
la maîtrise, mastery.
Uma flor que não pense, sem perfume que entorne
a boca da memória.
Uma rosa que queime sem cinzas aos ombros.
Espalhar o silêncio, as armas
dobradas sobre o peito,
e dizer da alegria inclinada nos rios,
oculta, oculta ainda,
                              listen:
asphodel has no odor
save to the imagination
but it too
            celebrates the light,
ouve, por detrás das palavras uma voz acordada
escreve a luz,
celebra a luz,
nascer aqui être ici
é o espaço visível na ranhura dos lábios,
se as mãos se estendem na madeira ardida
o vento golpeia o intervalo dos dedos,
ouve, o ruído dos ossos ao crescer sobre a terra,
a eternidade possível a estender-se na água,
transitória, mexendo devagar
as pálpebras, ouve, movendo-se
através das paredes uma cicatriz quente,
desenhando, apagando, as marcas na quadrícula
regular do cimento,
ouve, esquecendo, esquecido, batendo de repente nos ombros
sem perfume outro
                          que a imaginação,
como aguarda, como foge, como se rasga
no côncavo da pele, como
espreita nos muros, nos trapos, nos búzios,
no pêlo das mulheres adormecidas,
no rumor das camas
vazias, na saliva
mais lenta, ouve, como cresce
nas árvores, nas asas, na terra
paralela aos pulsos, como se aproxima,
como suplica, como se perde,
ouve, como celebra
                             a luz,
(nous n'avons rien à voir / avec leur pourriture)
ouve, os braços invisíveis na distância,
a voz, o ruído
das unhas na parede,
o aparelho das chamas, como
celebram a luz,
                     suspensa
dos búzios, dos seixos guardados
numa caixa marinha, ouve,
como esqueço, como escrevo, aos galopes, nas veias, nos olhos,
porque me sento ao balcão do silêncio
a teu lado, ouve como esqueço,
porque celebro a luz e te encontro e te abraço
i have the words.

António Franco Alexandre (n. 1944), in Sem Palavras nem Coisas (1974). «Se excluirmos Distância (1969), livro de estreia com numerosas rugosidades de escrita e dívidas muito nítidas a uma retórica supostamente anti-discursiva dominante nos anos 60 portugueses, a marca da obra de António Franco Alexandre na nossa mais recente poesia está ligada aos finais do ano de 1974. (...) António Franco Alexandre propõe, portanto, e como quase todos os poetas portugueses mais significativos, virtualidades alteradoras importantes em português, na precisa medida em que procede a essa relativa absorção processual de outras tradições internacionais e as distribui perante nós, integradas numa perspectiva emocional própria. (...) O principal contributo da poesia de António Franco Alexandre não reside tanto na técnica de que nos torna participantes, mas na qualidade de réquiem urbano que nos faz ouvir, na mágoa dos corpos perdidos que nos faz partilhar, no desalento com que nos faz contemplar os objectos de um erotismo fatigado e infeliz. Essas , contudo, não deixam de ser importantes. Como a ampla construção de um poema através de sucessivas variações de um tema único ou de temas próximos, uma espécie de técnica pedida emprestada à sextina ou ao vilanelle, mas onde cada estrofe se visse explodida até um núcleo mais vasto de versos, constituindo uma das divisões em que se encontra articulado o poema» (Joaquim Manuel Magalhães, in Os Dois Crepúsculos).

quinta-feira, 24 de julho de 2014

TUDO BONS RAPAZES


 
 
A bem dizer, têm todos um charme que lhes advém de uma aparente calma e da sabedoria. E que fique claro: não auferem do rendimento social de inserção.


quarta-feira, 23 de julho de 2014

(Os pontos ordinais)


Quando se fazem água os olhos
e o sol nasce outra vez por sobre a praia,
abre-se e escorre o mundo como o fruto
comido sob a sombra.
                                 Ao norte,
abeiram-se ventos surdos, leras cruzes
caminham por si sós com pés de ferro,
apodrecem areias pela noite.
Não sei se há florestas verdadeiras.
São folhas de comento (ó Nibelungos!),
são armários de corda cheios de bicos
dentro, e uivos. São pálidas senhoras
nos seus colos sentadas desde sempre
com unhas fortes e o pequeno defeito
dos dentes canibais: ao norte.
                                             Mas
quando se fazem água os olhos
e se estendem os braços para toda a parte,
não se procura nada, o ar
tem o azoto próprio e colocado parco
na correcta função: o mundo
não tem rosas dos ventos
além de rosas, ventos, e a pequena harmonia
de ser um centro inteiro.
                                   Ao sul
há luzes negativas, e as tais areias podres
são bolachas desfeitas contra a pele.
Se tudo é rarefeito, tudo é cheio
de males devagarinho e delicados, poços
amargurados, já verticais e fixos
antes de se pensarem, imensidades
crassas onde a lonjura apenas
é fumo aguado, olvido,
assombração caiada. E garras
sob os panos: sul.
                          Mas
quando se fazem água os olhos,
ao se cavar na terra temos neve
tão quente como nós, e larga colcha
de lumes inauditos cobre os dedos
mais sagazes que o medo, mais
fortes do que a nuvem. Tempo
alagado e limpo sobre as ervas
minúsculas, tão finas, que o próprio
vento as zune com cuidado, embora
se nos baste, e a lava cresça
em festa e madrugada.
                                 A leste,
os úmeros abatem-se, os goivos secam
como no peito vai enferrujando
a espada. À noite os calendários
acendem-se com brilhos, entumescem
de gritos adestrados e de polpa
com repressões geladas. É defectivo
o verbo, nem há outros, as pessoas
são todas a terceira. Separam
a morte os tendões da memória,
a carne cospe-se para um balde
vazio, os ovos tremem dentro
como lágrimas presas: a leste.
                                             Mas
quando se fazem água os olhos
e as horas refluem ao coração mais largo,
saltam da terra os poços,
amadurecem uvas junto aos dedos
e há tigelas de orvalho preparadas
para as manhãs no peito. Em pé
há mundo que se veja até ao rio,
onde os choupos são novos e conhecem
os corpos e os peixes. Sim, há noites
para falar mais baixo, porque tudo
se chega ao pé de tudo, e o limiar
da boca é toda a voz.
                                A oeste
o sono é baço, e morde o pano
que as partes cobre onde é veloz
a cobra. Os seres abocam
a névoa do silêncio, engordam
muito em baixo, junto dos calcanhares,
e cardam a cal e o sebo
de um roedor gigante sentado sobre as patas.
As janelas apartam, os nomes secos
ateiam as fogueiras prolongadas
um pouco para a direita, para o norte.
As opas são opacas e azedas.
Não há já chuva a oeste.
                                    Mas
quando se fazem água, os olhos
abrigam luz tão leve qual um vento
que regressasse ao ninho pela tarde.
As tômbolas de folhas nos concedem
um lar sem dimensão onde as palavras
são dadas e mais longas. Onde é preciso
nada, e as luvas breves. Onde
os brilhos são mar ao pé da mão
e a vida achada entre uma pedra
e outra. Saber é não saber
quando um repente avança
por sobre a pele do verbo
e a verdade se instala, e acordada
é mesa e cama e copo,
roupa lavada para amanhecer
ou pequeno assobio colocado
entre a boca e a boca. Que tojo
nos pertence, tudo terra?
Não passa o que se passa:
e é fazerem-se água os olhos,
no jeito em salto e branco
em que as cores apetecem
outras cores a seu lado,
que permite que exista sobre o ramo,
junto do peito ou perto pelo ar,
o real definido além dos mapas,
a mão no espaço,
                          um corpo,
                                         a liberdade,
um pássaro no mundo.


Pedro Tamen (n. 1934), in Escrito de Memória (1973). «(...) a sua poesia entrega-se à desmontagem do prosaísmo discursivo da linearidade declarativa, da ausência de perturbação sintáctica que caracterizavam a dominante poesia interventiva, de intenção social expressa, ou aquela de floração psicológica intimista e ligada aos ritmos tradicionais que a moribunda tradição presencista ainda aclamava. Os suportes principais dessa renovação discursiva em Pedro Tamen são o regresso a uma atenção ao verso enquanto unidade principal do discurso do poema, o recurso a processos retóricos ampliadores do sentido e distorsores da linearidade frásica ou rítmica (como o encavalgamento, a aliteração, a assonância, a motivação vocabular), a recuperação da prática conceptual que traz para o centro da preocupação poética uma certa tradição barroca sem vocação excessivamente maneirista. (...) Sem qualquer espécie de acentuação da recusa da pessoalidade, que conduziu o nosso século a alguns dos mais hiper-pessoais discursos poéticos por via da impessoalidade rebuscada, Pedro Tamen constrói uma neutralização da confessionalidade e do excesso subjectivista por uma insistência no facto de as palavras serem mais suportes conceptuais do que impulsos designativos de intimismos» (Joaquim Manuel Magalhães, in Os Dois Crepúsculos). 

MOSTRAR A CATÁSTROFE

Cada vez mais se pede à poesia que mostre a catástrofe. Cada vez mais se lhe pede o desequilíbrio, a recusa da ordem vocabular, a desagregação da crença na linguagem. Cada vez mais se lhe exige que testemunhe a crise dos tempos, que se fanatize às ordens ideológicas. Vivemos a cegueira dos discursos.

Joaquim Manuel Magalhães, a propósito de Pedro  Tamen, is Os Dois Crepúsculos - Sobre poesia portuguesa actual e outras crónicas, A Regra do Jogo, 1981, p. 191.

terça-feira, 22 de julho de 2014

A BORLA...


São migalhas enormes, apodrecidamente dispostas ao contrário.
O sumo dos limões sabe a coisas sem nexo
- toda a casa se transforma em escuridão
e a escrita é quase imperceptível:
percebo que os pensamentos navegam, não se fixam,
e, nos sonhos, os objectos estão dispostos
precisamente noutro sítio, onde os não vejo, não existem:
estão a mais, ou a menos; não são iguais, são-me estranhos, aparecem, desaparecem, e, muitas vezes não sei onde estou: acordo (não acordo) com um estranho sentimento de não saber onde estou.
Finalmente decido: é aqui; reconheço; reconheço-me.
E a mágoa é confessa, vai do princípio ao fim, vai começar o dia.
Precipito-me, sempre aleijado, no começo do dia.
Sei, bem sei, que ando aos tropeções, que não me alegro por nada deste mundo.
E tenho um medo dos diabos pelo que me venha a acontecer.
Sei que - começado o dia - não impedirá que as conversas cumulem
prazeres díspares
E que as ruas se estreitem
E que os sentimentos se concentrem
num só sentimento: de angústia. Depois passa.
Passa sempre depois e por cima de mim.
Deixa-me, é certo, de pé. De pé, neste mundo de borco. Neste charco. Nesta bruma sem nada que não seja brumoso, chuvoso, incógnito, presentemente erecto e ameaçador - sempre que julgo, que me julgo livre.
Há em mim uma predestinação para o desastre, é o que julgo.
Há em mim demasiadas coisas lúgubres.
Há em mim um passeio celeste entre ciprestes prefigurando a morte.
Há em mim uma clausura empobrecida pelas paredes fixas de uma vida fechada - nunca viajei! nunca viajarei! mantenho-me fechado, dentro de mim fechado, - esse o pecado e o erro, essa a agonia.
Nunca fiz mal, é certo; adivinhei - tão simples! - a idiota forma
de transformar a palavra em alimento, em música, em reflexo irresistível do meu coração!
Mas isso que adianta? que companheiro tem? que espaço e que alegria perfaz e proporciona? que céus deixam, por isso, de estar contra nós, os acrobatas da beleza, os imbecis cicerones da virtude, os bárbaros escravos da justiça, os senhores celerados do Futuro Indeciso. 

- Cuspam! cuspam em nós e amaldiçoem-nos.
As garras estão famintas.
E os homens - esses - ainda não nasceram.
Pelo menos ainda não viram o sol que nós vimos.

E isso os desgosta, e com toda a razão.
E isso lhes dá
Direito a que nos façam
PRISIONEIROS.

Damos as mãos, de graça!
Demos - de borla! - os pulsos...

Lisboa, 9 de Setembro de 1971.


Raul de Carvalho (n. 1920 - m. 1984), in Um e o Mesmo Livro (1984). «Apesar do seu atraso e das limitações apontadas, o surrealismo marca quase toda a poesia posterior a 1950 que referimos, pelos seus exercícios de automatismo subconsciente, humor negro, técnicas de utilização do acaso objectivo ou das interferências de associação verbal. Isso é já muito sensível num poeta de ritmo inestancável, pouco selectivo, mas borbulhante de fugas imaginativas e seguro em certas evocações da sua infância alentejana, Raul de Carvalho» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «É, pelo fôlego torrencial e pela intensidade vibrante da expressão que tudo carreia, desde os entusiasmos fugazes às emoções mais profundas, desde as atitudes formais à dolorosa consciência da dignidade humana, um dos maiores líricos deste período» (Jorge de Sena, Líricas Portuguesas).

segunda-feira, 21 de julho de 2014

TERRORISMO

João Lisboa deixou aqui um cibo do que motivou este post, mas o problema é mais grave do que a dimensão caricata da situação possa indicar. Tenho lidado com muita gente em cargos de chefia cujos e-mails revelam um tratamento absolutamente criminoso da língua portuguesa. Há quem se desculpe com a informalidade do discurso praticado nos e-mails, nas redes sociais, etc., mas a prática oral não nos faz ter esperança neste cenário desolador. Não estamos a falar de gente com a quarta classe, estamos a lidar com licenciados, gente com currículo académico, gente que ascende a cargos de chefia e exerce sobre os outros o seu poder gramaticalmente enodado. Serem estes exemplos mais comuns e vulgares do que o desejável… inquieta-nos. A dislexia, que tem servido para tudo num sistema de ensino onde a língua portuguesa é tratada sem o mínimo decoro, também não justifica o terrorismo a que vamos sendo sujeitos. Não estamos a falar de meros lapsos gramaticais ou de incorrecções gráficas, quando chegamos à sintaxe o aspecto é deplorável e, muitas vezes, completamente incompreensível. Ficam as dúvidas: onde estudou esta gente? Como passaram de ano para ano a escrever desta forma? Como comunicam com os seus subordinados? Pode alguém levar a sério uma lei, uma ordem, uma regra, votada, indicada, aplicada por gente que escreve desta maneira?

GUERRA?


As pessoas parecem estar a acordar para a causa palestiniana. Acabei de ver esta imagem com a seguinte legenda: isto é genocídio. Veremos até quando durará a vigília. É que o genocídio não é de hoje, perdura há anos embora a nossa comunicação social o vá mantendo na gaveta com interesseiro sentido informativo. Imaginem os números da imagem à luz do que se tem passado nas últimas décadas. A malta da direita dizia, há anos, a propósito do embuste iraquiano, que em guerra não faz sentido falar de proporcionalidade. Talvez não. Mas isto é outra coisa, isto não é guerra, isto é mesmo genocídio.

VEM, DENTRE AS MULHERES



Vem para sob a telha vã do meu telhado.
Vem, mas se puderes,
Não como os anjos mensageiros que descem aos vales
Num rastro iluminado,
Mas vinda humanamente e só, dentre as mulheres,
Sujeita aos impiedosos golpes do granizo
E à chuva dos males
E ao transe de gerar se for preciso.

Serve-me se vires
Que servindo-me serves o teu coração
Angustiado.
Vela-me sempre
Se velando-me velas o teu coração
Alarmado.
Cobre o meu peito
Se cobrindo-me cobres o teu coração
Desolado.

Ah, vem! Se tu não trazes a missão de quem
Nasceu piedoso e santo.
Porque, em verdade, se tu queres distrair a dor
Ou lá que seja que peleja em mim,
Vai, noiva de mundos, vai fria, buscar
Saber maior.
Vai serenamente,
Serenamente mas inquieta vai, ó vesperal
De perenal sabedoria.
Vai silente, discente, não pia
E dilui-te, evolui-te na cósmica amplidão
Como traidora ou ladra, ou como espia.

Vai!

Quando souberes traçar linhas sem fim
(Os contorcidos e medonhos traços
Dos passos humanos)
Vem desenhar comigo o sofrimento
Nos últimos poemas consentidos.
Quando tarde meu sono tardar
E tu saibas cantar a harmonia
Das coisas transcendentes que os meninos decoram mamando,
Vem, ah, vem cantar-me a loucura d'Aquele
Que se esconde e me prende
Chamando.
E quando livre e falsa e fria,
Alcançares fazer justiça plena
Sem que os homens te queimem por vil sacrilégio
De fazê-la...
Tala, tala,
Tala os siderais espaços do Senhor.
Guia os teus passos para a cova dos ladrões celestes
E prende o ladrão-mor
Que roubou minha seara de estrelas!

Entretanto o meu corpo há-de ruir.
E embora a ideia custe,
Inútil serás
Que deixarás nele cumprir-se a lei de Proust.

Políbio Gomes dos Santos (n. 1911 - m. 1939), in Voz Que Escuta (1944). «Políbio Gomes dos Santos relacionou-se com o grupo que viria a constituir o Novo Cancioneiro. A sua poesia, porém, apesar de vigorosa e prometedora, não chegou a libertar-se, quer na forma, quer na intenção, dos moldes «presencistas» então ainda muito prestigiosos, que no entanto transforma para um lirismo impessoal e mais directo» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas). «Traz à sátira social uma arte poética de estranha qualidade, um temperamento rico e doloridamente original, capaz de unir certos motivos num mesmo fio: o do sangue de muitas vidas corrente em direcção à morte e o da bacia hidrográfica a escoar-se para o mar; o do próprio corpo doente e o da pobre cidade burguesa febril e visionariamente radiografada, numa impressionante identificação da doença fisiológica com a social que transfigura o narcisismo de António Nobre, ponto de partida da sua estética» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).

sábado, 19 de julho de 2014

COIMBRA

Éramos uma dúzia, mais do que alguma vez me seria possível imaginar. Hoje somos um para cada lado, cada qual com seus destroços e uma faixa de Gaza no pensamento. Próxima estação: gratidão.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

IN VANO VERITAS


Entre as formas de expressão literária concisas, o aforismo é das mais exigentes. Oferecer concisão ao pensamento pressupõe, anterior à sentença final, uma reflexão profunda que o imediatismo por vezes trai. Noutras ocasiões, não podemos sequer falar de sentença. Falamos de uma espécie de estado intermédio, porventura impossível de definir, entre as premissas e a conclusão de um raciocínio. Eivado de ironia, de dúvida, de cinismo ou de féerie, o aforismo denota uma inquietação do pensamento que, ao contrário do que possa parecer, não se compadece com certezas absolutas. Transporta-nos, antes, para um terreno problemático onde o que parece explícito traz implícitas diversas nuances conceptuais.
Portugal não tem uma clara tradição aforística, sendo possível encontrar obras de pendor aforístico, quase sempre de estilo diarístico, ou momentos esparsos onde o aforismo se mistura com as formas de expressão popular ou a poesia epigramática. Mas faltam-nos aforistas da dimensão de um Friedrich Nietzsche ou de um E. M. Cioran. Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949) foi um digno representante do aforismo cínico, mas caiu no esquecimento. Mais recentemente, alguns escritores têm sentido apetência pelo género (amiúde com fastidioso vício humorístico). Contudo, ninguém se dedicou entre nós ao aforismo como o búlgaro, radicado em Portugal desde a década de 1980, Dimíter Ánguelov (n. 1945).
A recolha  In Vano Veritas (Debout Sur L’Oeuf, Janeiro de 2014), trocadilho com a expressão latina In vino veritas, volta a colocar-nos na presença de um olhar tão inquieto quão desassombrado: «Passava pelo Ministério do Arquivamento quando exclamei instintivamente “In vano veritas!”. Felizmente ou não, ninguém me ouviu» (p. 25). Este aparente apontamento quotidiano é revelador de uma moral que não se nos impõe, colocando antes autor e leitor num mesmo estado de questionamento sobre a vanidade da existência. Por vezes interrogativos, outras vezes hipotéticos, os aforismos de Ánguelov nunca são expressamente conclusivos. Mesmo quando pressupõem definições, recorrendo ao verbo ser enquanto cópula entre sujeito e predicado, eles deixam em aberto a possibilidade da contradição. Exemplo superior desta prática é a distribuição por três páginas de vinte e cinco definições para o termo elegância.
Deste modo, «A elegância é: a mais perfeita relação entre a verdade e a aparência» ou «não procurar ver no fundo dos olhos do outro porque lá só reside aquilo que é universal de tudo o que vive – uma expressão tão directa que não suporta qualquer ideia de verdade, embora se tenha escrito que a verdade é o olho minúsculo de um ser há muito desaparecido» ou «uma graciosa nuvem que se mantém à devida distância da sua própria sombra» (pp. 7-8)… O que aqui fica claro é a superior relevância da observação face à veleidade determinística, não sendo tanto preocupação do autor fixar conceitos como parece ser explorá-los na sua extensão conotativa. Daí que, tomando como temas centrais os problemas da fé, das relações entre abstracto e concreto, pessimismo e optimismo, ou a questão da Natureza (com maiúscula), Dimíter Ánguelov revele, sobretudo, uma certa heterodoxia que se afasta da tentação para doutrinar.
Estes aforismos podem partir de possibilidades, podem definir pela negativa, podem sustentar-se em interrogações, mas raramente generalizam e universalizam a perspectiva proposta acerca do sujeito reflectido. Quando tal acontece, o mais que podemos esperar é isto: «Tudo aquilo que somos é um passado a dormitar» (p. 32). Como em todas as recolhas do género, há momentos onde a banalidade ameaça o conjunto: aqui uma escusada tentativa de se explicar, acolá um lugar-comum, além uma tirada humorística menos interessante. Mas no cômputo geral, a produção é de uma acutilância deveras estimulante:

Há uma única razão para ser optimista: a certeza de que mais tarde ou mais cedo deixaremos de o ser. (p. 16)
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Mostrar erudição é como aparecer de smoking emprestado – pode ficar-te bem mas toda a gente sabe que não é teu. (p. 17)
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Quando reparamos que as abomináveis traças nos esburacaram a roupa elas já são belas borboletas que nos alegram com o seu voo inocente. (p. 27)
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Se julgarmos pela maneira como Deus rege o Universo, aqui na Terra Ele não chegaria a director de jardim zoológico. (p. 29)