terça-feira, 4 de junho de 2019

DIAS E NOITES DE AMOR E DE GUERRA


A memória é uma das marcas fortes nos livros de Eduardo Galeano (1940-2015), a memória pessoal e a memória colectiva, a memória dos povos, de uma cultura, a memória do historiador, mas principalmente a memória do jornalista. Os seus textos desamarram do tempo a notícia, captando-lhe o pormenor que não se esgota na circunstância. Começou como caricaturista no semanário El Sol, tornando-se mais tare editor do jornal Marcha. O jornal Marcha foi um importante e influente órgão de imprensa no Uruguai, para o qual também escreveu Mario Benedetti (1920-2009). Num dos últimos textos de Dias e Noites de Amor e de Guerra (Antígona, Março de 2019) evocam-se esses tempos: «Queimaram as colecções e os arquivos de Marcha. / Fechá-la parecia-lhes pouco. / Marcha viveu trinta e cinco anos. Todas as semanas demonstrava, só por existir, que não nos vendermos era possível» (p. 309). Estas palavras têm um peso concreto, não são mera celebração nem vã memória. Ligam-se a um dos princípios fundadores da escrita neste autor, o exercício da liberdade. Memória e liberdade alicerçam o texto, não abdicando de um sentido de intervenção cívica orientado pela urgência da denúncia e pelo dever de não deixar cair no esquecimento.
   Já em Buenos Aires, Eduardo Galeano dirigiu entre 1973 e 1976 a revista Crisis. Tinha fugido à ditadura do seu país, depois da perseguição que lhe fizeram na sequência da publicação de “As Veias Abertas da América Latina” (1971). Exilou-se na Argentina. As memórias do volume agora publicado pela Antígona, com tradução de Helena Pitta, datam desse período. Alguns textos surgem assinalados pelas datas que evocam, as quais vão de 1975 a 1977. Saltam à vista os conjuntos intitulados O sistema, O universo visto pelo buraco da fechadura, Notícias. «A memória guardará o que vale a pena», escreve no fragmento Fecho os olhos e estou no meio do mar. E o que vale a pena são notícias vindas do exterior, encontros e desencontros, fogachos intimistas, alguns de carácter onírico, embora sugestivos de uma existência com as suas chagas próprias, breves reflexões políticas, aforismos.
   A América Latina é o território onde mais se movimenta, a Guatemala, a Argentina, o Brasil, o Uruguai, Cuba, as tiranias com suas câmaras de tortura, os corpos atirados ao mar, o horror da incerteza, o desaparecimento súbito, as máquinas de morte, a perseguição a jornalistas, escritores, gente de cultura impedida de dizer, de falar, de exercer livremente uma vocação. O sistema é uma máquina de silenciar causando ruído, é uma máquina de medo e de morte, é uma máquina de fazer temer a vida: «A ditadura é uma rotina da infâmia: uma máquina que nos torna surdos e mudos, incapazes de ouvir, impotentes para falar e cegos àquilo que é proibido ver. / O primeiro morto por tortura desencadeou no Brasil, em 1964, um escândalo nacional. O morto por tortura número dez quase não apareceu nos jornais. O número cinquenta foi aceite como «normal». / A máquina ensina a aceitar o horror, como se aceita o frio no Inverno» (p. 124).
   Há qualquer coisa na escrita de Eduardo Galeano que nos envergonha, a simplicidade com que se nos dirige, a experiência de vida que a fundamenta, a capacidade de se focar no essencial, não perdendo tempo nem energias com o acessório, uma escrita onde a capacidade de síntese apela à introspecção. Pensar o mundo dos homens através destes textos é como olhar para uma paisagem sem intermediários, apenas os olhos e a luz natural a percepcionarem o mundo. Esta poesia não precisa de floreados nem de fintas sintácticas, não nos coloca num labirinto exigindo-nos que descubramos a saída. Também não nos aponta a saída como quem simplifica percursos e desafios. Não, esta escrita antes nos oferece retratos, coloca-nos no miradouro de onde podemos assistir à noite dos gritos e ao dia dos suspiros, de onde podemos observar o tempo e as suas máquinas de maldade, mas também a força de quem a elas se opõe colocando em risco a própria vida. Sim, porque aqui trata-se de pôr em risco a própria vida. Já não estamos no patamar caricato e patusco dos artistas da difamação, dos adeptos da calúnia, dos palhacinhos de um circo medíocre para plateias de bestas entretidas com literatices sem interesse algum. Aqui fala-se de gente, de pessoas, trocam-se experiências porque houve vida a sustentá-las, aqui escreve-se sem exibicionismo nem censura, “transforma-se em ouro a porcaria que corrói quem escreve”. No final talvez sobre um sonho:

Querias lume e os fósforos não se acendiam. Nenhum fósforo te dava lume. Todos os fósforos estavam decapitados ou molhados.



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