A memória é uma das marcas fortes nos livros de Eduardo
Galeano (1940-2015), a memória pessoal e a memória colectiva, a memória dos
povos, de uma cultura, a memória do historiador, mas principalmente a memória
do jornalista. Os seus textos desamarram do tempo a notícia, captando-lhe o
pormenor que não se esgota na circunstância. Começou como caricaturista no
semanário El Sol, tornando-se mais tare editor do jornal Marcha. O jornal Marcha
foi um importante e influente órgão de imprensa no Uruguai, para o qual também
escreveu Mario Benedetti (1920-2009). Num dos últimos textos de Dias e Noites
de Amor e de Guerra (Antígona, Março de 2019) evocam-se esses tempos:
«Queimaram as colecções e os arquivos de Marcha. / Fechá-la parecia-lhes pouco.
/ Marcha viveu trinta e cinco anos. Todas as semanas demonstrava, só por
existir, que não nos vendermos era possível» (p. 309). Estas palavras têm um
peso concreto, não são mera celebração nem vã memória. Ligam-se a um dos
princípios fundadores da escrita neste autor, o exercício da liberdade. Memória
e liberdade alicerçam o texto, não abdicando de um sentido de intervenção
cívica orientado pela urgência da denúncia e pelo dever de não deixar cair no
esquecimento.
Já em Buenos Aires, Eduardo Galeano dirigiu entre 1973 e
1976 a revista Crisis. Tinha fugido à ditadura do seu país, depois da
perseguição que lhe fizeram na sequência da publicação de “As Veias Abertas da
América Latina” (1971). Exilou-se na Argentina. As memórias do volume agora
publicado pela Antígona, com tradução de Helena Pitta, datam desse período.
Alguns textos surgem assinalados pelas datas que evocam, as quais vão de 1975 a
1977. Saltam à vista os conjuntos intitulados O sistema, O universo visto pelo
buraco da fechadura, Notícias. «A memória guardará o que vale a pena», escreve
no fragmento Fecho os olhos e estou no meio do mar. E o que vale a pena são
notícias vindas do exterior, encontros e desencontros, fogachos intimistas,
alguns de carácter onírico, embora sugestivos de uma existência com as suas
chagas próprias, breves reflexões políticas, aforismos.
A América Latina é o território onde mais se movimenta, a
Guatemala, a Argentina, o Brasil, o Uruguai, Cuba, as tiranias com suas câmaras
de tortura, os corpos atirados ao mar, o horror da incerteza, o desaparecimento
súbito, as máquinas de morte, a perseguição a jornalistas, escritores, gente de
cultura impedida de dizer, de falar, de exercer livremente uma vocação. O
sistema é uma máquina de silenciar causando ruído, é uma máquina de medo e de
morte, é uma máquina de fazer temer a vida: «A ditadura é
uma rotina da infâmia: uma máquina que nos torna surdos e mudos, incapazes de
ouvir, impotentes para falar e cegos àquilo que é proibido ver. / O primeiro
morto por tortura desencadeou no Brasil, em 1964, um escândalo nacional. O
morto por tortura número dez quase não apareceu nos jornais. O número cinquenta
foi aceite como «normal». / A máquina ensina a aceitar o horror, como se aceita
o frio no Inverno» (p. 124).
Há qualquer coisa na escrita de Eduardo Galeano que nos
envergonha, a simplicidade com que se nos dirige, a experiência de vida que a
fundamenta, a capacidade de se focar no essencial, não perdendo tempo nem
energias com o acessório, uma escrita onde a capacidade de síntese apela à
introspecção. Pensar o mundo dos homens através destes textos é como olhar para
uma paisagem sem intermediários, apenas os olhos e a luz natural a
percepcionarem o mundo. Esta poesia não precisa de floreados nem de fintas sintácticas,
não nos coloca num labirinto exigindo-nos que descubramos a saída. Também não
nos aponta a saída como quem simplifica percursos e desafios. Não, esta escrita
antes nos oferece retratos, coloca-nos no miradouro de onde podemos assistir à
noite dos gritos e ao dia dos suspiros, de onde podemos observar o tempo e as
suas máquinas de maldade, mas também a força de quem a elas se opõe colocando
em risco a própria vida. Sim, porque aqui trata-se de pôr em risco a própria vida.
Já não estamos no patamar caricato e patusco dos artistas da difamação, dos
adeptos da calúnia, dos palhacinhos de um circo medíocre para plateias de
bestas entretidas com literatices sem interesse algum. Aqui fala-se de gente,
de pessoas, trocam-se experiências porque houve vida a sustentá-las,
aqui escreve-se sem exibicionismo nem censura, “transforma-se em ouro a
porcaria que corrói quem escreve”. No final talvez sobre um sonho:
Querias lume e os fósforos não se acendiam. Nenhum
fósforo te dava lume. Todos os fósforos estavam decapitados ou molhados.
Mais sobre Eduardo Galeano: Las Venas Abiertas de America Latina, O Caçador de Histórias, Mulheres, O Livro dos Abraços, As Palavras Andantes.

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