Publicou a Língua Morta, em Julho deste ano, uma antologia com o título O Meu Livro de Cabeceira é Um Revólver, organizada pelo poeta e tradutor Jorge Melícias (n. 1970). Devo dizer, a bem da verdade, que tive conhecimento desta antologia alguns meses antes da mesma aparecer anunciada pela editora em causa. Desconhecia o conteúdo, que me foi proposto para o weblog que dinamizo, mas que cordialmente recusei por não ser vocação da Antologia do Esquecimento transformar-se num weblog colectivo. Ainda assim, reitero a Jorge Melícias o agradecimento que então lhe fiz pela cordialidade da oferta, a qual interpretei como ponto de encontro de uma admiração por ambos partilhada relativamente a autores que levaram ao limite a sua existência enquanto criadores. O meu livro Suicidas (Deriva, 2013) tornou clara esta admiração, e se a ele me refiro agora é pelo trabalho que então me deu de busca, investigação e tentativa de compreensão de um fenómeno humano inesgotavelmente complexo.
Foi pois com entusiasmo que, no passado dia 24, depois de um encontro com alunos na Biblioteca Municipal de Caldas da Rainha, me desloquei até Óbidos para adquirir a referida antologia. Qual não foi o espanto quando, ao folhear o índice, deparei com diversos nomes que me eram totalmente desconhecidos. A ignorância não tem limites, menos ainda a minha. Parti para a leitura das notas biográficas que acompanham a obra, as quais suponho serem da responsabilidade do antologiador. O editor em causa já fez saber que só quis preocupar-se com as datas de nascimento, as quais terá cotejado com o que acerca dos autores em causa se encontra divulgado na Internet. A desconfiança de que algo não batia certo surgiu à leitura da terceira nota, dedicada a um tal de Tomás González. Aí se informa tratar-se de uma personagem fictícia saída da imaginação do escritor espanhol Eliseo González, autor de uma suposta antologia intitulada Galería de Suicidas. A curiosidade levou-me a buscar informação sobre esta putativa antologia, não demorando muito que ficasse estupefacto com o que fui encontrar.
Na realidade, Galería de Suicidas é uma obra de ficção publicada, em 2003, pela editora Huerga & Fierro. Como todas as referências ao autor apontavam para Burgos, tratei de vasculhar um pouco. A 7 de Setembro de 2003, o Diario de Burgos dedica uma folha ao livro de González. Aí se lê, em artigo assinado por R. Pérez Barredo, que «através de doze heterónimos o autor radiografa os subterrâneos da dor, da loucura, da criação, da derrota e do amor» (tradução minha). Já o entretanto falecido Jorge Villalmanzo, com quem González teve projectos comuns, desenvolveu o tema afirmando que «Galería de suicidas é uma antologia de poetas “tombados” e da sua poesia – ficcionada e poetizada por este autor indefinível» (tradução minha). No mesmo jornal, a 9 de Novembro de 2003, Ricardo Ruiz assina uma crítica ao livro onde diz que a «sua poesia parece poesia mas não é; a sua prosa parece narrativa, mas também não o é. Poeta e prosador em partes iguais, e desiguais, na obra de Eliseo González nada é o que parece… Tudo é verdade porque tudo é mentira» (tradução minha). Tudo isto escapou quer ao editor Diogo Vaz Pinto, quer ao tradutor e antologiador Jorge Melícias, o que seria desculpável se o deslize tivesse na sua origem apenas o deslumbramento causado pelo conteúdo da obra em causa. Mas não é apenas de deslumbramento que estamos a falar.
Quem ler as notas biográficas do livro de Eliseo González, compreensivelmente decalcadas na antologia da Língua Morta, fica perplexo com a romanceação da morte e da dor, com as contradições e impossibilidades que sugerem de imediato estarmos perante uma obra de ficção. Não é só o facto de praticamente nenhuma informação se encontrar sobre esses autores na internet, apontando toda a que se encontra para o livro de Eliseo González. É a própria pseudo-informação divulgada na antologia da Língua Morta. Alguns exemplos: sobre Paula Sinos pouco mais se sabe além do que vem no relatório do maquinista de comboios que teria abalroado a poetisa: «Travei, mas era tarde. Jamais esquecerei aquele rosto, o seu estúpido olhar…» (p. 147). Sobre um tal de León Artigas há a referir «o profundo arrependimento por não ter dado ouvidos ao seu pai (que, aparentemente, dirigia uma serralharia) e por não ter dedicado a sua vida a martelar» (p. 148). Isto parece-vos credível? A propósito de José Ignacio Fuentes refere-se a publicação de um livro que teria sido «um verdadeiro fenómeno, atingindo números de vendas raramente vistos em Espanha» (p. 150). O livro chama-se Los Heraldos del fin (1990). Quem o conseguir encontrar leva prémio. Não deverá ser difícil, é obra relativamente recente. A cereja no topo do bolo prova-se, no entanto, na biografia dedicada a um suposto Víctor Ramos. Teria nascido em 1960, mas aos 10 anos, em 1970, já tinha fundado o Movimiento de Guerreros Antigays. Porquê? Porque não suportava a sua própria orientação sexual. Vai daí andou por programas de rádio e televisão a casquinar nos homossexuais, foi acusado de estar na génese de uma série de suicídios e acabou a matar-se, na prisão, sangrando «até à morte por castração auto-infligida» (p. 152). Incrédulos? Não fiqueis. Se tanto o editor Diogo Vaz Pinto como o tradutor Jorge Melícias julgaram isto credível, por que havemos nós de desconfiar?
Temos, desta arte, uma antologia de 17 suicidas em que 8 não o foram porque nem sequer chegaram a nascer. Estes 8 são produto da imaginação de um escritor espanhol que está neste momento parcialmente publicado em Portugal sem que faça a mínima ideia do facto (tenho o e-mail dele, caso o pretendam contactar para felicitações). Tudo isto podia ter graça não fosse lamentável. Melícias é um excelente tradutor, não é isso que está em causa. Vaz Pinto, deveras aguerrido na defesa de uma ética e rigor que pretende impor aos outros mas se dispensa de honrar, também não deverá ser crucificado por este lapso. Diz que se deixou levar pela confiança depositada no tradutor, que é um editor de textos e não mais. Bem, a ideia que fazemos de um editor é ligeiramente mais exigente. O título deste post, de resto, copia palavras do próprio a propósito do famigerado “caso fraudulento da Cristina Bartleby”. Não me peçam para lembrar o que isso foi.
Enquanto leitor, é-me apenas lamentável que extraordinários poetas como Alfonso Costafreda ou Pedro Casariego Córdoba surjam misturados com uma teia heteronímica que acaba por tornar risível o que, na verdade, não o é. Não havia necessidade nenhuma para que assim fosse, até porque não faltariam nomes de poetas suicidas para acrescentar aos que de facto o foram. Jorge Melícias já traduziu alguns que não surgem nesta antologia. Que cada um retire daqui as suas conclusões. A minha é simples, a ideia de que o espírito crítico e a desconfiança, mais de nós próprios do que dos outros, tem vindo a levar nos últimos anos bordoadas fatais resulta nesta salgalhada. Embora nada tenha que ver com o assunto, se fosse ao editor ou ao tradutor entraria em contacto com Eliseo González quanto antes. Ele merece saber que foi publicado em Portugal.
Adenda: faltou dizer que foi a propósito desta antologia que o escritor valter hugo mãe escreveu isto: «Creio que todos pressentimos que o suicídio é o manifesto de coerência do poeta.» Curiosamente, dois dos poetas que cita no seu artigo são heterónimos de um escritor espanhol que está vivo, para incoerência do próprio.



















