segunda-feira, 30 de novembro de 2020

"DA LADROAGEM E DA EDIÇÃO ÀS TRÊS PANCADAS"

 

Publicou a Língua Morta, em Julho deste ano, uma antologia com o título O Meu Livro de Cabeceira é Um Revólver, organizada pelo poeta e tradutor Jorge Melícias (n. 1970). Devo dizer, a bem da verdade, que tive conhecimento desta antologia alguns meses antes da mesma aparecer anunciada pela editora em causa. Desconhecia o conteúdo, que me foi proposto para o weblog que dinamizo, mas que cordialmente recusei por não ser vocação da Antologia do Esquecimento transformar-se num weblog colectivo. Ainda assim, reitero a Jorge Melícias o agradecimento que então lhe fiz pela cordialidade da oferta, a qual interpretei como ponto de encontro de uma admiração por ambos partilhada relativamente a autores que levaram ao limite a sua existência enquanto criadores. O meu livro Suicidas (Deriva, 2013) tornou clara esta admiração, e se a ele me refiro agora é pelo trabalho que então me deu de busca, investigação e tentativa de compreensão de um fenómeno humano inesgotavelmente complexo. 

Foi pois com entusiasmo que, no passado dia 24, depois de um encontro com alunos na Biblioteca Municipal de Caldas da Rainha, me desloquei até Óbidos para adquirir a referida antologia. Qual não foi o espanto quando, ao folhear o índice, deparei com diversos nomes que me eram totalmente desconhecidos.  A ignorância não tem limites, menos ainda a minha. Parti para a leitura das notas biográficas que acompanham a obra, as quais suponho serem da responsabilidade do antologiador. O editor em causa já fez saber que só quis preocupar-se com as datas de nascimento, as quais terá cotejado com o que acerca dos autores em causa se encontra divulgado na Internet. A desconfiança de que algo não batia certo surgiu à leitura da terceira nota, dedicada a um tal de Tomás González. Aí se informa tratar-se de uma personagem fictícia saída da imaginação do escritor espanhol Eliseo González, autor de uma suposta antologia intitulada Galería de Suicidas. A curiosidade levou-me a buscar informação sobre esta putativa antologia, não demorando muito que ficasse estupefacto com o que fui encontrar. 

Na realidade, Galería de Suicidas é uma obra de ficção publicada, em 2003, pela editora Huerga & Fierro. Como todas as referências ao autor apontavam para Burgos, tratei de vasculhar um pouco. A 7 de Setembro de 2003, o Diario de Burgos dedica uma folha ao livro de González. Aí se lê, em artigo assinado por R. Pérez Barredo, que «através de doze heterónimos o autor radiografa os subterrâneos da dor, da loucura, da criação, da derrota e do amor» (tradução minha). Já o entretanto falecido Jorge Villalmanzo, com quem González teve projectos comuns, desenvolveu o tema afirmando que «Galería de suicidas é uma antologia de poetas “tombados” e da sua poesia – ficcionada e poetizada por este autor indefinível» (tradução minha). No mesmo jornal, a 9 de Novembro de 2003, Ricardo Ruiz assina uma crítica ao livro onde diz que a «sua poesia parece poesia mas não é; a sua prosa parece narrativa, mas também não o é. Poeta e prosador em partes iguais, e desiguais, na obra de Eliseo González nada é o que parece… Tudo é verdade porque tudo é mentira» (tradução minha). Tudo isto escapou quer ao editor Diogo Vaz Pinto, quer ao tradutor e antologiador Jorge Melícias, o que seria desculpável se o deslize tivesse na sua origem apenas o deslumbramento causado pelo conteúdo da obra em causa. Mas não é apenas de deslumbramento que estamos a falar. 

Quem ler as notas biográficas do livro de Eliseo González, compreensivelmente decalcadas na antologia da Língua Morta, fica perplexo com a romanceação da morte e da dor, com as contradições e impossibilidades que sugerem de imediato estarmos perante uma obra de ficção. Não é só o facto de praticamente nenhuma informação se encontrar sobre esses autores na internet, apontando toda a que se encontra para o livro de Eliseo González. É a própria pseudo-informação divulgada na antologia da Língua Morta. Alguns exemplos: sobre Paula Sinos pouco mais se sabe além do que vem no relatório do maquinista de comboios que teria abalroado a poetisa: «Travei, mas era tarde. Jamais esquecerei aquele rosto, o seu estúpido olhar…» (p. 147). Sobre um tal de León Artigas há a referir «o profundo arrependimento por não ter dado ouvidos ao seu pai (que, aparentemente, dirigia uma serralharia) e por não ter dedicado a sua vida a martelar» (p. 148). Isto parece-vos credível? A propósito de José Ignacio Fuentes refere-se a publicação de um livro que teria sido «um verdadeiro fenómeno, atingindo números de vendas raramente vistos em Espanha» (p. 150). O livro chama-se Los Heraldos del fin (1990). Quem o conseguir encontrar leva prémio. Não deverá ser difícil, é obra relativamente recente. A cereja no topo do bolo prova-se, no entanto, na  biografia dedicada a um suposto Víctor Ramos. Teria nascido em 1960, mas aos 10 anos, em 1970, já tinha fundado o Movimiento de Guerreros Antigays. Porquê? Porque não suportava a sua própria orientação sexual. Vai daí andou por programas de rádio e televisão a casquinar nos homossexuais, foi acusado de estar na génese de uma série de suicídios e acabou a matar-se, na prisão, sangrando «até à morte por castração auto-infligida» (p. 152). Incrédulos? Não fiqueis. Se tanto o editor Diogo Vaz Pinto como o tradutor Jorge Melícias julgaram isto credível, por que havemos nós de desconfiar? 

Temos, desta arte, uma antologia de 17 suicidas em que 8 não o foram porque nem sequer chegaram a nascer. Estes 8 são produto da imaginação de um escritor espanhol que está neste momento parcialmente publicado em Portugal sem que faça a mínima ideia do facto (tenho o e-mail dele, caso o pretendam contactar para felicitações). Tudo isto podia ter graça não fosse lamentável. Melícias é um excelente tradutor, não é isso que está em causa. Vaz Pinto, deveras aguerrido na defesa de uma ética e rigor que pretende impor aos outros mas se dispensa de honrar, também não deverá ser crucificado por este lapso. Diz que se deixou levar pela confiança depositada no tradutor, que é um editor de textos e não mais. Bem, a ideia que fazemos de um editor é ligeiramente mais exigente. O título deste post, de resto, copia palavras do próprio a propósito do famigerado “caso fraudulento da Cristina Bartleby”. Não me peçam para lembrar o que isso foi. 

Enquanto leitor, é-me apenas lamentável que extraordinários poetas como Alfonso Costafreda ou Pedro Casariego Córdoba surjam misturados com uma teia heteronímica que acaba por tornar risível o que, na verdade, não o é. Não havia necessidade nenhuma para que assim fosse, até porque não faltariam nomes de poetas suicidas para acrescentar aos que de facto o foram. Jorge Melícias já traduziu alguns que não surgem nesta antologia. Que cada um retire daqui as suas conclusões. A minha é simples, a ideia de que o espírito crítico e a desconfiança, mais de nós próprios do que dos outros, tem vindo a levar nos últimos anos bordoadas fatais resulta nesta salgalhada. Embora nada tenha que ver com o assunto, se fosse ao editor ou ao tradutor entraria em contacto com Eliseo González quanto antes. Ele merece saber que foi publicado em Portugal. 



Adenda: faltou dizer que foi a propósito desta antologia que o escritor valter hugo mãe escreveu isto: «Creio que todos pressentimos que o suicídio é o manifesto de coerência do poeta.» Curiosamente, dois dos poetas que cita no seu artigo são heterónimos de um escritor espanhol que está vivo, para incoerência do próprio. 

domingo, 29 de novembro de 2020

UM CONTO ESQUIMÓ

 


O MENINO COMILÃO

 
   Um menino vivia com a avó num iglu construído pelo avô. Desde a morte deste, a fome crescia pela casa. Um dia, a anciã tirou o neto do iglu. Não podia continuar a alimentá-lo. Implorou-lhe que encontrasse algo para comer.
   O menino partiu e encontrou um bacalhau que tinha sido largado na praia. Apanhou-o, arrancou-lhe a cabeça e devorou-o de uma só vez. Continuou o passeio e tropeçou num leão-marinho. Atirou-se a ele, arrancou-lhe a cabeça e comeu-o. Mas mesmo assim continuava com fome. Mais adiante, deu com uma morsa de grandes bigodes aquecendo-se ao sol. Antes que a morsa chegasse à água, o menino já lhe tinha arrancado a cabeça e devorou-a sem ressentimentos.
   Por fim, o pequeno glutão avistou uma baleia branca que acabara de ser arpoada por um pescador. Tal como tinha feito com o bacalhau, o leão-marinho e a morsa, arrancou-lhe a cabeça e comeu-a inteira, pele, barba e intestinos incluídos. Sentiu-se então melhor. Pela primeira vez na vida tinha conseguido devorar a sua própria fome. Pôs-se a cantar uma canção que dedicou ao seu estômago. Teve sede e dirigiu-se a um pequeno lago, onde bebeu sofregamente. O lago secou e o menino regressou ao iglu. Porém, tinha engordado tanto que não conseguia entrar pela porta.
  Entra pela janela aconselhou-lhe a avó.
   A janela era mais pequena do que a porta. Contudo conseguiu meter a cabeça, ainda que os ombros ficassem presos.
   Entra pelo respirador aconselhou a anciã. O tubo do respirador era mais estreito do que a janela, mas a cabeça e os ombros do menino passaram, o estômago não.
   Passa pelo buraco da minha agulha rogou a esquimó.
   Levantou a agulha até ao tecto do iglu e o menino passou e caiu no solo. Naquele instante, a anciã deu-se conta de que o neto tinha engordado tanto apenas por haver comido demasiado.
   Não te aproximes da lamparina! disse-lhe com  firmeza.
   Mas o menino, perdendo o equilíbrio, rodopiou até à lamparina. Esta caiu sobre ele e explodiu. A anciã escapara a tempo. Quando o silêncio voltou a reinar, a velha arrastou-se até ao iglu e espreitou pela janela. O menino e a lamparina haviam desparecido. No seu lugar encontravam-se um bacalhau, um leão marinho, uma morsa e uma baleia nadando num pequeno lago azul.
 
In Cuentos Esquimales (Los cuentos del iglú), recogidos por Edward L. Keithahn, adaptación de Louise Weiss, traducción de Silvia Komet, José J. de Olañeta, Editor, 1990, pp. 35-38. Versão de HMBF.

sábado, 28 de novembro de 2020

A SEMENTEIRA DE BRUMAS

O nevoeiro faz da paisagem uma noiva frígida à espera que ele se levante. Do terraço consigo a custo vislumbrar os ciprestes, os giacomettis das árvores. Uma morta da família tinha-os carinhosamente plantado para, um dia, ocultarem a autoestrada que agora só desliza até casa pelos seus sons marítimos. Talvez aproveitem o nevoeiro para trocarem de lugar mas a esse espectáculo me furto. Tenho de descer para fazer o almoço deixando que a Terra gire a sua aliança com o desvelo de quem pode exprimir à vontade uma enorme repulsa por tudo o que a ordena.


Marina Tadeu, aqui.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

PASSADO, PRESENTE, FUT...

Acabei de ver na TVI uma discussão muito interessante entre um historiador que se afastou do PCP em 1968 e esteve na fundação do MRPP em 1970, um ex-político que foi maoísta mas acabou como deputado do PSD e um advogado que saiu do PCP em 2009. Estiveram todos a discutir o passado e o futuro do PCP. Os do PCP propriamente ditos ficaram em casa, como manda o embargo. Porreiro, pá.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

UM NATAL ESPECIAL

Havia dois grandes momentos de Natal no shopping, a chegada do Pai Natal e o fecho das lojas às 19h do dia 24. O primeiro atraía centenas de famílias com crianças atreladas, vestidas a preceito ou pintalgadas nas faces já em pleno recinto. Era uma loucura de se ver, as galerias dos três pisos atoladas de gente a tirar fotografias. A chegada do Noel fazia-se acompanhar da visita de uma individualidade, que para o caso correspondia ou a um actor de telenovelas ou a um ex-concorrente de reality shows. As pessoas da província adoram ser visitadas pelos grandes vultos da cultura portuguesa. A barulheira infernal dificultava a comunicação com os poucos clientes que arriscavam entrar na livraria naquelas condições, para aos berros nos pedirem o ÚLTIMO LIVRO DO NICOLAS ou nos perguntarem onde tínhamos arrumados os livros de 5€. Este conceito de arrumação prende-se com as necessidades de cada um. Para muita gente, nesta altura, não interessa o que se compra, mas sim o valor do que se compra. Para não oferecerem meias, pediam livros a 5€. Mas houve um Natal que me ficou especialmente na memória, tudo por causa de um Papai Noel descaradão que parecia andar por ali mais para divertir lojistas do que clientela. Era um regalo vê-lo encostar-se ao balcão do café para beber uma mini com as barbas descidas à papeira, um pouco como agora fazemos com as máscaras cirúrgicas. É para refrescar, o fato está quente, justificava-se. Depois ia até à porta do shopping, pendurava as barbas nas orelhas e fumava uma cigarrada. Os putos que há minutos tinham estado sentados ao colo do Pai Natal, para que os pais pudessem tirar as suas inolvidáveis fotografias, olhavam-no incrédulos, puxados pelos braços de progenitores arreliados com as promoções de samart tvs na Rádio Popular. Outro número deste Pai Natal heterodoxo dava-se no corredor para o trono da bela foto. Os putos faziam fila. Quando chegava a vez de saltarem para o colo do Noel de serviço, este fazia sinal para que avançassem e as crianças davam passinhos hesitantes na sua direcção. O malandro fazia então sinal para que parassem, apontava na direcção das mães e convidava-as a virem sentar-se na sua coxa gorda. Umas riam muito, outras não achavam graça nenhuma. Os pais quedavam com os telemóveis na mão e obedeciam à vontade das mães. Apesar dos avisos sucessivos da segurança, o Pai Natal atrevido manteve até ao fim o comportamento irrepreensivelmente desobediente. Paguei-lhe um moscatel no último dia.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

GATO POR LEBRE

Quitéria não se importa que lhe vendam gato por lebre. Se o gatinho estiver saboroso, como tudo e lava o prato.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

DOIS LIVROS DE MARTA CALDAS

 


Posiciono-me diante dos livros de Marta Caldas (n. 1982) como alguém que olha para um objecto que lhe é estranho, inacessível, ou se ajoelha na esperança de que o animal lhe venha comer à mão. Não vem. O animal é esquivo, defensivo, selvagem. Ora se aproxima cautelosamente, ora rompe numa correria desenfreada e se afasta. Não é animal que se deixe domesticar, mais certo é morder-nos a mão e zarpar. Estou familiarizado com o concretismo brasileiro, com as experiências levadas a cabo, a partir da década de 1960, pelo chamado Movimento de Poesia Experimental Portuguesa, conheço toda a retórica da anti-arte que fertilizou diversos vanguardismos, do automatismo à escrita caligramática, da experimentação tipográfica e visual a várias formas de abstraccionismo cujo princípio era o da privação de sentido, e de tudo isso julgo serem herdeiros Assembleia (Douda Correira, Março de 2019) e E Aquáticos (Setembro de 2020). O primeiro é dedicado a Alice Becker-Ho, escritora francesa que foi cansada com Guy Debord. Não lhe conhecendo a obra. Conheço, todavia, a de Manuel Rodrigues, pelo menos desde a publicação de Múrice (Março de 2015), que me chegou pela mão generosa de um amigo ligado às artes plásticas. Também a autora de E Aquáticos tem formação em Artes Plásticas, sendo várias as afinidades que encontro nestes dois livros com o que conheço de Manuel Rodrigues. O modo como trabalham a linguagem, colocando-a numa situação limite em matéria de significação, é similar. A forma como estes textos, na sua variedade multilingue, resistem, paradoxalmente, a qualquer tentativa de tradução, é semelhante. A resistência, se assim podemos dizer, à comunicabilidade, adoptando estratégias e práticas que baralham o sentido a ponto de parecerem preferir o não-sentido, é idêntica. Este aspecto é especialmente ironizado por Marta Caldas em Assembleia, num texto que vai sendo desenvolvido mediante a utilização de indicações gráficas e verbais que apontam para uma «extensão nova de sentido». Entramos no texto como quem entra num edifício desconhecido, seguindo as indicações para algo que aparenta ser um processo em construção, a organização de uma instalação, de um acontecimento, para o qual contribuem várias enumerações, acções, advertências. Percorremos os corredores às cegas, confiando que as palavras nos levarão a algum termo, a uma conclusão, a uma imagem ou a uma ideia conclusivas. Interrogo-me à medida que vou percorrendo as páginas como quem sai de uma sala para entrar noutra: que textos são estes? É como se estivesse a ler um caderno de apontamentos, preenchido por notas imprecisas, com relações misteriosas, diálogos. «Não era por aí. Perdi-lhes a orientação». Às tantas surgem laivos de uma narrativa imprecisa onde se descobre um nome próprio, Simon, cores, luz, elementos naturais, mas sempre num contexto de filiação a certa poética explosiva que escape a modelos gramaticais, sintácticos e semânticos, a discursos estandardizados, uma poética que se está literalmente nas tintas para a norma que se impõe enquanto garantia de posteridade. Ler estes livros é participar numa experiência de sabotagem da geometria textual que configura a ideia de literatura: «Dizadeusquetenhosaudades». E Aquáticos introduz um elemento que, não estando totalmente ausente no livro anterior, é neste muito mais central: o erotismo. Aqui o vernáculo mistura-se com fonemas instauradores de uma tensão fonética que, por diversas ocasiões, nos desloca para o imaginário histórico e cultural fixado pelos textos sagrados judaico-cristãos: «a A dão trufas». Às tantas dá a sensação de estarmos a ler algo produzido por um gerador de texto com o qual o corpo humano estabelece uma espécie de paronímia. Ambos são máquinas, ambos produzem texto: «notável combinação humana». Que textos são estes? São um catálogo de incertezas desafiador da nossa postura enquanto leitores. Nada têm para nos dizer que não resulte de um gesto explosivo da significação tradicional, de uma permanente e obstinada sabotagem das convenções determinadoras dos jogos de linguagem, distanciando-se por completo da ideia feita de uma voz poética padronizável, até se recolher num lugar anterior ao pecado do conhecimento: «a não esquecer: ma grossa bruma / e’le disse: / - não comas de nenhuma árvore / de árvore nenhuma».

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

NOW’S THE TIME (1945)


 

Sentou-se na esplanada a ver passar as raparigas, planantes de uma jovialidade que escarnece da velhice. Quero lá saber se ficarei murcha e engelhada, dizia uma. A outra respondia com gargalhadas irreflectidas, indiferente às regras deste jogo que consiste em captar a cada instante um outro que permita olvidar aquele que passou. O espírito impunha-lhe uma forma de alegria que o corpo denegava. O dever de ser feliz porfiava com a condição de estar melancólica, envolvendo a carne numa náusea fria que a deixava zonza. Fechou os olhos, deixando-se embalar pela sensação de que não são apenas três os tempos que marcam o compasso da existência. Imaginou-se rodeada de coisas sem passado nem presente nem futuro, mas depois voltou a abrir os olhos. As raparigas atravessavam novamente a avenida, agora no sentido contrário, libertando no ar um rastro de perfume enjoativo.

domingo, 22 de novembro de 2020

DA PERCEPÇÃO

Quitéria tem a ligeira percepção de que estamos a perder uma oportunidade, com esta pandemia, para percepcionarmos o mundo de outra forma, pois as percepções que nos são vendidas cheiram ao mofo do oportunismo percepcionista com que os comentadores de serviço perceptivamente enformam a perceptibilidade de uma realidade feita à medida do percepcionismo acomodado.

sábado, 21 de novembro de 2020

EMBARGO

Durante a conferência, 4, pelo menos 4 lacaios, interrogaram o primeiro-ministro sobre o congresso do PCP. Nem 1 fez pergunta semelhante dando como exemplo a convenção do Chega. O primeiro-ministro foi buscar a lei, de 1986, e explicou-a como se estivesse na escola primária a ensinar a tabuada do 1. Faltou dizer aos senhores lacaios com cartão de jornalista que a actividade política não foi suspensa, nem para o PCP nem para o Chega nem para nenhum outro partido. A preocupação com a percepção pública é comovente, leva-nos até a ter pena de tal percepção pelas dores de alma que deve causar a quem vem desde há muito impondo um embargo mediático ao PCP. É que essa percepção não é senão alimentada pelas preocupações da comunicação social, de quem, pela graça de uma coisa rara chamada coerência, o PCP não está, nunca esteve, jamais estará refém.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

CARTAS

O assunto é polémico e merece discussão: o que há numa carta que justifique a sua publicação? Os exemplos ecoam de várias épocas e com propósitos distintos. As cartas trocadas entre Lou Andreas-Salomé e Sigmund Freud não têm o mesmo interesse das cartas trocadas entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, por residir sobre as últimas uma curiosidade voyeurista que escapa às primeiras. As Cartas Portuguesas, pelas suas características intrínsecas, são objecto incomparável ao que sobre elas foi composto nas Novas Cartas Portuguesas. Estas tinham um propósito libertador que escapa às outras. Sobre o epistolário trocado entre Henry Miller e Lawrence Durrell escreveu Jorge de Sena uma crítica corrosiva, anunciando logo no cartão-de-visita tratar-se de «uma ampla selecção que qualquer par de escritores portugueses e brasileiros (…) teria literalmente vergonha de ver publicada». Este é um dos pontos para mim mais sensíveis. Se excluirmos do cenário algumas e célebres cartas abertas, o que legitima a publicação de textos que presumimos do foro íntimo? A autorização dos autores, o interesse público, a necessidade de esclarecimentos que, a certa altura, parecem só ser possíveis colocando as cartas sobre a mesa. Por cá, são célebres as diatribes geradas pela publicação de Pacheco Versus Cesariny (1974), a que este respondeu, na mesma linha mas sem o mesmo fôlego, com o Jornal do Gato (1974). Tornar pública uma carta pode parecer um gesto revelador. Assim seria, se não aconselhasse o bom senso a desconfiar dessa índole confessional que parece caracterizar a epistolografia. No texto de uma carta temos acesso ao que o emissor pretende fazer chegar ao destinatário, sendo, no limite, pouco avisado julgar que nessa mensagem repousam os restos mortais da verdade. Há cartas cujo conteúdo vem já tão contaminado de calculismo que nelas pouco resta de autêntico. Assim como num texto confessional o autor só confessa o que pretende ver confessado, também numa carta o autor só diz o que pretende ver assimilado pelo seu interlocutor. Numa época como a nossa, em que estes processos foram substituídos pelo instantâneo dos e-mails e das sms, o tema aparenta ser ainda mais controverso. Temos de contar com transformações substanciais no que concerne ao tempo de resposta. Um e-mail pode ou não denotar uma espontaneidade e autenticidade que o tempo de resposta de uma carta preservava, garantindo outrora uma ponderação que nos dias de hoje é cada vez mais traída pela urgência. É relativamente fácil, embora sempre polémico, perceber quando um texto foi pensado, ponderado, calculado, ou resultou de mera necessidade fisiológica. Não faço juízos de valor, mas julgo ser importante ter estes aspectos em conta quando lidamos com epistolografia.

Calhou que no ano corrente me pusesse a ler cartas e me visse obrigado a reflectir tais questões. Deixarei de lado as releituras, que venho assinalando por aqui com breves citações, focando-me em três títulos recentes e uma reedição que li agora pela primeira vez. Da editora Barco Bêbado, as novidades: Pontas de Fogo (Maio de 2020), Intervenção (minha) surrealística?!!!!! (Julho de 2020) e «por menos, só talvez no Biafra» (Setembro de 2020). Da Maldoror, uma reedição: Cartas ao Léu (Junho de 2020), outrora publicadas, em 2005, pelas Quasi Edições. Pode parecer displicente chamar para aqui o pequeno volume de Paulo da Costa Domingos, se apenas tivermos presentes os dois poemas que o abrem assinalando uma atitude de confronto com o meio instalado no terreno das letras portuguesas. Dir-me-ão que o gesto incendiário de pouco valeu, tendo em conta o statu quo. Discordo. Nesta matéria tendo para a epistemologia que compreende a sabotagem dos paradigmas, a qual foi exemplar e pragmaticamente levada a cabo pelo editor Vitor Silva Tavares ao recusar para si o epíteto de marginal, preferindo o de paralelo, fazendo da sua vida (repito e sublinho: vida) um modelo de incompatibilidade com mercado editorial. Não é por acaso que o nome do editor surge no final desta plaquete — celebrativa? sinalizadora? —, numa breve e iniciática missiva onde sobressai certa epígrafe de José de Almada Negreiros a sintetizar exemplarmente a relação de um país com os seus poetas. O que daqui se retira é inequívoco, mais do que nos desculparmos com o que a vida reserva importa assumirmos sem transigências as opções que fazemos na vida. Num meio onde dar uma no cravo e outra na ferradura é lei, traz algum conforto perceber que nem todos estão dispostos a obedecer à lei.
Caso conhecido de incumprimento, padrasto de epígonos abastardados que o próprio jamais imaginaria, foi Luiz Pacheco. Intervenção (minha) surrealista?!!!!! reproduz uma carta ao mesmo Vitor Silva Tavares, provavelmente escrita em Caldas da Rainha, provavelmente datada de 1967, sobre a putativa participação de Pacheco no movimento surrealista português. O assunto está mais que debatido, não havendo nesta carta nada de especialmente relevante para quem conheça a história. À excepção, talvez, de um pormenor. Algo que tantas vezes escapa a quem se debruça sobre tais temas, mas não escapou à inteligência de Pacheco (que a tinha, por mais que a procurem reduzir a mera caricatura). Simples: sobre surrealistas e neo-realistas, sobre conflitos entre uns e outros, o melhor era perceber, antes de mais, de onde veio esta “rapaziada”. Pelas origens entenda-se as classes sociais. Ao seu estilo, lá vai adiantando o autor de Comunidade: «Está muita coisa por dizer, outras por averiguar, talvez mais ainda já bem sabidas e averiguadas mas que não convém a ninguém dizer — em público, pelo menos». Convém, pois, entender qual o berço dessa dita “literatura clandestina” que se opôs ferozmente ao que repudiava. A dúvida é sociológica, mas não só. A questão das origens rapidamente nos deslocará para questões mais sensíveis, de subsistência, de sobrevivência, que raramente são varridas para debaixo do tapete por uma cultura ainda hoje refém da legitimação académica.
É relativamente fácil ser-se malandro com as costas quentes, mais fácil ainda quando, além das costas quentes, se tem acesso à massagem consoladora de patrocinadores fiéis. Sobre tais matérias, o caso Cesariny foi uma delícia de pormenores. Tivesse optado pelo destino que o pai lhe traçara, e teria sido, muito provavelmente, um ourives frustrado de bolsos cheios. Não deu ouvidos ao papá, comeu, digeriu e defecou o cordão umbilical. A brincadeira custou-lhe os dentes, são guerras que se pagam caro, com o corpo. Nem sempre matam, mas é como se matassem. Moem até ao osso. Torna-se ao mesmo tempo impressionante e entediante verificar como ainda hoje, passados 70 anos sobre a publicação de Corpo Visível, há quem se entretenha a discutir se Cesariny foi um grande poeta da língua portuguesa. Ou se o que foi de pintor é suficiente para que conste nos manuais. Melhor seria que esclarecessem o que foi feito com o milhão outorgado à Casa Pia por um homem que, a certa altura, desabafa para nosso desconforto: «Depois da vida Toda Vagabundo — O MELHOR! — escudo e meio para a bica — cheguei à bem mais horrível situação — se é sítio — de, darem-me algum, e eu NÃO TER NINGUÉM com quem gastar!» A correspondência trocada entre Mário Cesariny, o brasileiro Sérgio Lima (ainda vivo) e Vítor Silva Tavares, tendo em vista a publicação do livro Aluvião Rei na &etc, testemunha um estar e um fazer que desejamos acreditar não se ter perdido por completo, pois mostra-nos como à publicação de um livro não subjaz apenas a ânsia imediatista de atirar para o mercado mais um conjunto de folhas manchadas com tinta. O preço que se paga pelo amor (haverá outra palavra?) manifesta-se na ironia de Silva Tavares, quando a dado momento diz a Cesariny: «serão amanhã entregues na distribuidora (pomposo nome para uma empresa que não consegue colocar, quanto mais vender, 200 livros da & etc…) uns quantos, para incautos e amadores. É sina e será fado. Cumpra-se» (p. 47).
Outra dimensão da mesma problemática vem retratada em Cartas ao Léu, correspondência de Luiz Pacheco enviada a João Carlos Raposo Nunes, poeta e livreiro de Setúbal. Deste volume sublinhemos, antes de mais, o ensaio de António Cândido Franco sobre a epistolografia de Luiz Pacheco, assim como as notas diversas e os anexos que enriquecem sobejamente um conjunto de cartas que pouco interesse teriam não fosse o processo de dissecação a que foram sujeitas. Entre os anexos há um texto de Pacheco, datado de Maio de 1994, publicado inicialmente no jornal O Inimigo, que deve fazer reflectir, pelo que possa ter de datado ou de estúpida e irremediavelmente imperecível. É um desabafo sobre o “negócio” dos livros, o qual pode ser interpretado sob múltiplas perspectivas. As mais comuns são as do editor e do autor, embora a do livreiro também conte. E a do leitor, já agora. E a da crítica. Dos objectos que povoam o nosso quotidiano, o livro é, sem dúvida, aquele que mais está sujeito a avaliações divergentes, tantos são os intervenientes na sua execução. Pacheco ensinou-nos o mérito que pode haver em dizer mal, o qual não é unilateral nem pode ser dissociado do demérito que há na intolerância a uma crítica ou ao contraditório. Nisto, é sabido, os maiores amantes de Pacheco e afins são os mais intolerantes à crítica. E autocrítica têm pouca ou nenhuma. Estão de mal com o mundo julgando-se acima das misérias do mundo, colocam-se no centro à volta do qual tudo gira. Pacheco ensinou-nos também o valor da obstinação, dando lições de coragem num período da nossa história em que foram tantos os cobardes a fazerem-se passar por heróis. Isso e mais lhe devemos, algo que suplanta o retrato caricatural que dele pretendem fazer história. No final da vida, com um sorriso de orelha a orelha, fez o rescaldo a calotes, dívidas, desfalques. O saldo do balanço é de uma indigência que chega a ser cómica, mas deixa um travo a acidez que é o de reconhecermos naquele balanço quase cego o destino reservado a quem opte pela graça de um viver livre. O mais certo é o negócio fechar por falência, como certa é a morte num corpo. Com que nos comprometemos, então, enquanto por cá andamos? Que compromisso nos exige a criação? A paixão no fazer ou a ânsia de ganhar?

O PALHINHAS & CA.

 


O Palhinhas & Ca. 
colecção periódicos locais/mensais
número 67
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia
Outubro/Novembro 2020
 
 
Não sabias? Soubesses!, p. 11.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

UM POEMA DE ZETHO CUNHA GONÇALVES

 


OS LEÕES DA MESMA LEOA
[Tradição oral Sessouto]

Os leões da mesma leoa
conhecem-se.

Um homem cai
com a sua sombra.

Um leopardo morre
com as suas cores.

Cão sem orelhas,
mau caçador.

Zetho Cunha Gonçalves, in O Leopardo Morre Com as Suas Cores, Literaturas Afrikanas, 2018, s/p.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

CARONTE À ESPERA

Publicado pela primeira vez em 2012 numa editora brasileira chamada Aped, Caronte à Espera (Elsinore, Março de 2020) conheceu este ano uma segunda oportunidade. Cláudia Andrade, a autora, assinava então os seus livros com o pseudónimo Victória F. Também Artur, o protagonista desta história, parece andar em busca de uma segunda oportunidade. Reformado, é um homem cuja falência se mostra tanto no plano físico como espiritual. «Um Artur apodrecido» (p. 16), resignado à rotina amorosa das quartas-feiras com Beatriz, sua mulher, passeia por uma cidade onde outros reformados como ele «feneciam, plácida e vagarosamente, alimentando os patos» (idem). A rotina, a desilusão, a sensação de que nada mais resta pelo que valha a pena manter-se vivo, levam-no a pensar na morte, uma «morte sem contratempos, metodologias, dores ou incómodos» (p. 21). Tudo isto é dito no início do livro, pelo que a companhia que nos fará Artur será a de alguém que decide morrer, já só entusiasmado, a palavra é esta, com os seus «planos de morte» (p. 12).
   O potencial suicida que Cláudia Andrade nos apresenta é um homem tímido, titubeante, acanhado nos gestos, hesitante nas decisões, um corpo praticamente arruinado, uma mente praticamente falida. Taralhouco, chama-lhe um primo. Não é um jovem deprimido, não é um poeta com tendências autodestrutivas, não é um espírito assaltado pela angústia existencial que tantas vezes transforma a vida num estertor, não é um suicidado da sociedade nem alguém que soçobra aos pés da revolta provocada pelo estado insuportável do mundo. Há um lado caricato no velho Artur que inspira ternura, uma ternura algo condescendente, reconheça-se, para com a forma atabalhoada de encarar o seu próprio desespero. Ele é um fantasma prestes a deixar-se assombrar por outro fantasma. Um desconhecido numa fotografia do seu álbum de casamento oferecer-lhe-á um desígnio, partindo então na demanda desse desconhecido como quem parte em busca do Santo Graal.
   A viagem empreendida pela personagem principal de Caronte à Espera é, em si mesma, uma improbabilidade, assumindo a dado momento contornos feéricos inesperados. Não me refiro ao modo de falar sofisticadíssimo, requintado e por vezes algo rebuscado das personagens: «O que chamar à consoladora noção de ter chegado miraculosamente a salvo a uma outra, longínqua, porção de irreversível tempo?» (p. 33) — pergunta um segundo primo de Artur. A dimensão feérica vislumbro-a eu no enigmático encontro com Ivan, completo desconhecido que, de um momento para o outro, se vê a massajar os pés de Artur. A narradora bem nos alerta para a «surrealidade sem peso» (p. 54) em que Artur voga, a qual redundará num emaranhado de relutâncias com desfecho antagónico aos propósitos iniciais. Mais adiante reforça-se, para que não nos esqueçamos, que «as suas vísceras continuaram a flutuar numa ambarina solução de surrealidade» (p. 102).
   Não se espere encontrar nesta história de fantasmas interiores e de memórias espectrais uma preocupação com o jogo de verosimilhanças que determina o grau de realismo numa ficção. Estamos no domínio de uma mitologia contemporânea que insiste em manter elos de proximidade com as características narrativas da mitologia clássica, desde logo patenteados no título da obra em causa. Caronte, como sabeis, era o barqueiro que carregava as almas dos mortos. A ironia está, neste caso, em aprender a mergulhar nas águas do Rio Aqueronte e regressar de lá a nado. As descrições da velhice neste livro, projectadas a partir da observação de um corpo frágil, demorado, trémulo, são ao mesmo tempo comoventes e cómicas, havendo nelas a ambivalência de quem se redescobre infantil em idade avançada.
   O que mais agradavelmente impressiona é, contudo, o estilo da autora, sempre equilibrado entre uma expressividade rica em imagens, bastante adjectivada, e a atenção a pormenores aparentemente supérfluos que acabam por se revelar altamente definidores das personagens: «Os passeios pela praia alongaram-se, dificultaram-se, as pernas vencendo atleticamente o apoio movediço da areia mole. Por lá, descobriu a dança das anémonas, o agrado de cumprimentar e ser cumprimentado pelos pescadores da beira-mar e o prazer de se banhar acima dos tornozelos, pelo que comprou até, numa feira local, uns calções de banho de um intrépido azul-cobalto» (p. 95). Assim se descreve, por exemplo, a reaprendizagem do gozo de viver num idoso com intenções de se matar.
   Caronte à Espera é um primeiro romance, já com alguns anos de vida, de uma autora que viu este ano o seu trabalho ser justamente premiado por um volume de contos intitulado Quartos de Final e Outras Histórias. Bem que merece esta segunda oportunidade que lhe foi dada, deixando-nos na expectativa do que o futuro nos reservará
.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

IT NEVER ENTERED MY MIND (1954)

 


Na verdade, trata-se de uma melodia originalmente composta para um musical cómico. Quem a escute na voz de Shirley Ross, dificilmente reconhecerá o que Miles conseguiu fazer com ela. É mais frequente do que se julga, esta transfiguração de uma cor, as metamorfoses a que sujeitamos as coisas com o nosso modo de olhar para elas. Ainda ontem sorríamos, e já hoje nos parece tão distante essa alegria. Comentamos melancolicamente as primeiras chuvas, a vizinha que vem à janela fumar, o cão à espera do dono, filtrando a realidade à nossa volta com uma nostalgia que pinga, gota a gota, como a água numa torneira avariada.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

DO VERBO MOFAR

Um burguês instalado, filho dos papás, velho como as coisas mais velhas, a fazer perguntas com cheiro a mofo: Você tem um amigo preto? Se a sua filha quisesse casar com um cigano, qual seria a sua opinião? Como é possível trabalhar numa coisa que se repudia? Só faltava a mini e o prato com tremoços no cenário. Fez-me lembrar aqueles jogos em que um tipo está tão cansado que já nem quer saber, fica lá com a bicicleta. O problema é que o gajo que ficou com a bicicleta vai incendiar a aldeia. Querem apostar que o mesmo burguês panhonha que ali esteve enfastiado a bufar perguntas da caca vai perguntar ao João Ferreira se a Venezuela é uma democracia? Estamos feitos. Sugestões de questões para fazer ao facho? Cá vão duas, de borla. Aproveitem que eu não duro para a eternidade:

1. Diz que não gostava que uma filha sua casasse com um cigano. E se fosse com um dos neonazis do seu partido?

2. Por que é que você diz tantas vezes uma coisa e o seu contrário?

3. Quanto é que passou a ganhar desde que é deputado? O que fez com o que julga excessivo, deu aos pobrezinhos?

4. Se um gay lhe apalpasse o cu na rua, como reagiria?

5. O que acha das falcatruas em que o seu Benfica anda metido?

6. O que faz o seu partido ao pilim que recebe do Estado?

7. Os padres pedófilos deviam ser castrados? Vem na Bíblia?

8. Já sabemos que tem poderes medicinais em matéria de vício tabágico. Quanto a vírus, como é?

9. O que pensa dessa malta que nega a pandemia, não quer usar máscara, e o apoia como a um santo?

10. Os seus amigos pretos gostam de ciganos? Casaria uma filha sua com um dos seus amigos pretos? E se o futuro genro fosse filho de uma cigana com um preto nascido na Guiné colonizada?

11. Há polícias corruptos?

12. Um polícia que abuse da autoridade deve ser castrado?

13. Rui Rio: autoritário pacóvio, noiva rejeitada ou puta fina?

& etc. Desculpem, eram para ser só duas.

domingo, 15 de novembro de 2020

FESTA DE NATAL

Um país que é um circo, com um palhaço na presidência da República, um equilibrista como primeiro-ministro, uma comunicação social reduzida à condição de caniches amestrados, uma oposição de ilusionistas. Não há paciência para este circo, é uma tristeza assistir, de dia para dia, ao afundar da democracia. Ontem, ao passar os olhos pelo telejornal da SIC, lá veio a bucha do congresso do PCP. Será a Festa do Avante de Inverno, preparem-se. Está tudo encenado para a nova retórica dos favorecimentos, uma narrativa que só favorece, publicita e propagandeia os grunhidos daqueles que ainda ontem, em pleno Rossio, entre "caralhadas" diversas, falavam de uma "pseudo-pandemia ó qu' é". Tudo isto é muito triste, perceber que quem mais tem o dever de defender a democracia é quem está menos preparado para o fazer. Do berço dado por Passos Coelho ao discurso xenófobo até à coligação açoriana recentemente subscrita pelos paladinos do liberalismo, passando pela contabilidade de vergonhas na AR, é uma passadeira estendida à passagem de um Portugal burgesso como há muito não se via.

sábado, 14 de novembro de 2020

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #30

Não nos queixemos do tempo que faz, minhas filhas, e afastemos de uma vez por todas o tempo que é, nem que para tal nos vejamos compelidos a mastigar em solidão as nossas próprias dores. Há uma alegria no mundo que lhe traz mistério, é a da fonte no meio do deserto, uma nuvem com a forma de um animal, o gesto de abraçar alguém e dizer-lhe: estou contigo. A par desta alegria há uma tristeza que parece infinita porque é natural nos homens ampliar o sofrimento. Reparai como é tão mais fácil chegar a um coração pela tragédia quão difícil se torna sensibilizá-lo pelo gozo de viver. O riso envergonha-nos, as lágrimas seduzem-nos, e, no entanto, a sensação de que tudo é uma comédia persiste.

   Há uns anos, como sabeis, dediquei um livro aos que se matam. Confesso-vos que nunca me interessou o porquê de se matarem, pelo menos nunca me interessou tanto quanto continua a interessar-me o porquê de não se matarem outros. Será o suplício de nos mantermos vivos menos poético do que a decisão de nos termos mortos? Quantos serão os modos de se estar morto em vida? O que para mim sempre esteve em causa resumiu-o Ruy Belo: «Suicido-me nas palavras. (…) Ao escrever, mato-me e mato». Ninguém percebe as forças que animam tal decisão, muito menos a percepção anterior à de que tudo é em vão. Ainda assim, a gente mata-se a escrever como quem se mata a esgaravatar no deserto esperando que à superfície surja água com que saciar a sede.

   O meu desprezo é, sempre foi, pela exibição da tristeza, pelo exibicionismo da melancolia, pela sublimação da morte quando, vai-se a ver, e a vida gira como um carrossel grotesco de hipócritas lambuzando-se em algodão doce. Este mundo, minhas filhas, está atolado de pierrots a plagiarem meninos da lágrima. Daí que na introdução a um livro anterior aos meus suicidados eu haja proposto a esses pierrots que se matassem, abdicassem ou se dedicassem à criação de galinhas em vez de perderem tempo a cacarejar desesperos e desassossegos de pacotilha. «O poeta é um ser condenado»? Sim, mas não menos que um ladrilhador ou a dona Ilda das limpezas.

   Tão distintas são as razões que levam alguém a pôr termo à vida que considerar o suicídio «o manifesto de coerência do poeta» só pode significar uma de duas coisas: ou nada se percebe da vida ou nada se entende de poesia. Terá Thomas Chatterton pretendido matar-se, aos 17 anos, para manifestar uma putativa coerência que o Nobel Yasunari Kawabata só vislumbrou aos 72? O que haverá de comum entre o suicídio de Antonin Artaud e a desesperança de Antero de Quental? Acerca do tema, de resto, escreveu o primeiro:  «A matar-me não será no intuito de destruir-me, mas sim para me reconstituir, o suicídio será para mim unicamente um meio de me reconquistar pela violência, de fazer uma irrupção à bruta no meu ser, de ganhar a pouco segura vantagem de Deus». A fé dos homens tem contornos inimagináveis.

   Minhas filhas, a nós, que estamos vivos, não resta senão respeitar a decisão de quem quer morrer, aceitando que por detrás da mesma pouco ou nada nos é dado compreender. Ridículo seria reduzir a «manifesto de coerência» a depressão, a doença mental, a raiva, a fúria, o desespero, o desejo, a fuga ao sofrimento, o acidente, a honra, a vergonha, o amor, a frustração, que de tantas e de tão variadas formas podem impelir alguém ao precipício da morte. Há quem se mate por paixão, há quem se mate por vazio. Yves Le Bonniec e Claude Guillon encararam o suicídio como uma arma para denunciar misérias, enquanto Marx interpretou-o como resultado de uma opressão social assassina. Durkheim estudou-o do ponto de vista sociológico, Hume abordou-o a partir do prisma da culpabilidade moral, Camus dedicou-lhe algumas das suas melhores páginas, mas poucos como René Crevel terão sabido expressá-lo no que tem de essencial e individualmente humano. Por humano entendo frágil. Talvez André Gorz, com o seu exemplo, tenha conseguido expressá-lo de modo igualmente esclarecedor.

   É deste último que pretendo falar-vos. Sabeis da admiração que tenho pela sua carta derradeira, dirigida ao amor da sua vida, a actriz Doreen Keir. Casaram em 1949, tiveram uma vida rica e feliz: «Há cinquenta e oito anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca». Consolidaram o amor discutindo o mundo, cúmplices numa guerra contra os males que o ameaçam. As viagens e as percepções divergentes estimularam-lhes um pensamento que só resulta inteiro quando não está só, quando evolui do confronto de ideias e recusa o autismo castrador da opinião sem contraditório. A tristeza bateu à porta pela visita da doença. Aracnoidite, cancro do endométrio. «Cada um escutava a respiração do outro», até terem ambos deixado de respirar em conjunto num dia de Setembro de 2007. Foram encontrados dois dias depois, deitados um ao lado do outro, com as palavras de André ressumando razões: «Não me posso imaginar a continuar a escrever se tu já não estiveres». É mais comum do que se julga, esta impossibilidade gerada pela ausência.

  Crevel era uma criança quando viu o pai pendurado pelo pescoço, razão pela qual fez do suicídio uma obsessão «como a melhor e a pior garantia contra o suicídio». Palavras do próprio. Gorz encarou-o como uma espécie de eutanásia, partindo com a sua companheira por não aguentar mais viver no sofrimento da perda acelerada pela doença. Semelhantes são os casos de Arthur Koestler e Heinrich von Kleist. Gilles Deleuze decidiu tratar do cancro nos pulmões pondo fim à vida, Camilo estava cego. Emilio Salgari não aguentou a loucura da mulher e a miséria em que vivia. O suicídio entre os mais jovens é muitas vezes acompanhado de diagnósticos de depressão, esquizofrenia, transtornos vários, existências excessivas, autodestrutivas, consumo de drogas, descompensações. Até que ponto temos mão nas doenças que nos assaltam? O ambiente social, a pressão, fazem estragos, estejamos a falar de artistas ou de taberneiros. Conheci dois que se enforcaram, nenhum deles escrevia poemas.

   Isto para dizer que se «o poeta que se mata cumpre-se», resta saber se o poeta que fica por se matar não se cumpre. Fernando Pessoa cumpriu-se? Herberto Helder cumpriu-se? E o que será isso de um poeta se cumprir? Uma vida cumpre-se entre a concepção e a morte, o poeta não se cumpre senão nos poemas que o fazem cumprir-se. O suicídio é um poema? Todos os suicidas são poetas? Estará o poeta português valter hugo mãe, que recentemente assinou o prefácio de um livro da actual coqueluche do entretenimento televisivo nacional, ciente da incoerência em que incorre mantendo-se vivo? Diz ele que «escrevem-se poemas para protelar», propósito, cremos, do qual não resultarão senão maus poemas. Ao contrário, na senda de Ruy Belo, creio eu que um artista deve criar como vive, amando, destruindo-se naquilo que cria, como por fusão nos destruímos naquilo que amamos. A violência vem da ordem que se altera, não do fim que se impõe.

   Minhas filhas, o poema não recusa a vida como a morte o faz, o poema aceita a vida tal como ela é: contraditória, paradoxal, absurda, bela e horrível na mesma proporção. Talvez a falácia surja dessa tendência para substituir deus pela poesia, ou para fazer da poesia um avatar do sagrado, como se tudo não se passasse num corpo, o nosso, que é o princípio e o fim de tudo quanto nos acontece. Não julgueis, minhas queridas, que por dar termo a esse corpo alguém manifesta ou deixa de manifestar poesia. Poético é o acaso de sermos minúsculos grãos de poeira neste vastíssimo universo que, por medo ou necessidade, procuramos reduzir ao significado que atribuímos a nós mesmos e não temos, assim disfarçando a terrível evidência de que tudo não passa de um equívoco. Um mal-entendido, esta importância que nos damos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

CREMATÓRIO

 Quitéria propõe um campo de extermínio para livros com a palavra Auschwitz no título.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

AUTUMN LEAVES (1958)

 


Não me recordo de alguma vez lhe haver avistado uma lágrima no rosto, chão de outono atapetado de folhas caídas como lágrimas secas. Até que ponto tal lacuna me instruiu a chorar para dentro, não sei. A certa altura qualquer coisa implodiu, derribando os açudes com o estrondo de um grito não mais suportável. As faces foram fertilizadas pelo choro, as raízes irromperam vigorosas deixando sobre a pele uma sombra de frutos maduros. Claro que preferia não ser sentimental, conter as emoções de acordo com as mais básicas regras da literatura contemporânea, sabotar o sofrimento com um pouco de auto-ironia ou até mesmo certo cinismo. Preferia não ser eu, na esperança de que não fosses tu em mim, eu em ti, os dois empenhados um no outro.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

UM POEMA DE RITA TABORDA DUARTE


 

AGRICULTURA

Sempre se estranha   a agricultura   na cidade

trabalho árduo   pertence às velhas           :
de um negro oculto   pelo cedo vizinho
                                                   da manhã.
semeiam milho
mais sementes esboroadas  ;
pão                      e               broa
pousam por terra
na herança estreita e última
entre as inférteis pedras do calcário.

na tarde regada a sombra e sol
nascem pombos   arvorados
roucos no bico
   ...penas nas asas.



Rita Taborda Duarte, in Poética Breve, Black Sun Editores, Julho de 1998, p. 24

terça-feira, 10 de novembro de 2020

FLEURETTE AFRICAINE (1962)


 

A meu pai.

 

O perfume a roupa lavada liberta-se dos estendais, voluteando no ar até sossegar sobre a terra como um manto de sementes. O aroma enraíza-se, então, frágil e persistente, obedecendo ao ritmo das estações que, de ano para ano, nos brindam com papoilas passageiras. Minha mãe está fechada num quarto de hospital, sonhando sabe-se lá com quê durante as intermediáveis vinte e quatros horas do dia. Levaram-lhe uma orquídea ao quarto para que pudesse reconfortar-se com vida contemplando as pétalas, omitindo que, pouco depois, a flor se despediu do mundo entre sacos de lixo com gaze manchado de sangue, máscaras cirúrgicas, fraldas. Meu pai está preocupado que ela não venha a saber de uma flor nova desabrochada no quintal. Talvez seja africana, aqui trazida pelo vento.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS (1920-2020)


O Questionário de Proust

O principal atributo do seu carácter?
A ingenuidade, mantida a todo o custo.

Que qualidades mais aprecia no homem?
A inteligência e a sensibilidade, que o conduzirão à Liberdade.

Que qualidades prefere na mulher?
Que seja boa mãe, sendo inteligente, sensível e livre.

Que mais valoriza nos amigos?
Que sejam de facto amigos; entre amigos deve haver lealdade e não hipocrisia.

O seu principal defeito?
Não ser facilmente sociável.

A sua ocupação favorita?
Olhar; é pelos olhos que quasi tudo penetra em mim.

O seu sonho de felicidade?
Acabar com as guerras, como algumas a que tenho assistido, que afinal não justificam os sacrifícios humanos.

Qual seria a sua maior infelicidade?
Que o mundo não saísse rapidamente deste terrível impasse.

Quem gostaria de ter sido?
Não invejo ninguém, e vivo apaixonadamente.

Onde gostaria de viver?
Num sítio isolado junto ao mar.

Que cor prefere?
Todas, puras e impuras.

A sua flor preferida?
As flores do campo.

O seu pássaro preferido?
Todos.

Os seus prosadores favoritos?
No espaço deste questionário prefiro Dostoievski, e o nosso Camilo Castelo Branco.

Os seus poetas favoritos?
No espaço deste questionário apenas refiro Rimbaud, Lautréamont, Cesário Verde, Mário Cesariny, Herberto Helder...

Os seus heróis da ficção?

As suas heroínas da ficção?

Os seus compositores favoritos?
Bach.

Os pintores?
Muito resumidamente, Piero Della Francesca, Grunewald, Bosch, Patinir, Blake, Goya, Cesanne, Kandinsky, Simbolistas, Picasso, Miró, Amadeu de Souza Cardoso, António Quadros, Mário Eloy, etc.

Os heróis da vida real?
Os loucos que não sejam fingidos.

As heroínas da história?

Quais os seus nomes favoritos?
António, João, Victor, Manuel...

A sua aversão de estimação?
A cobardia perante a vida, o calculista, a ânsia do dinheiro.

Acontecimentos históricos que mais o desagradam?
As escravaturas que ainda existem.

O dom da natureza que mais gostaria de ter?
Voar, e ter a força suficiente para levar comigo mais alguém.

Como gostaria de morrer?
Diluído na atmosfera.

Qual o seu actual estado de espírito?
A desejar e temer a morte.

Que falhas lhe inspiram maior tolerância?
A ignorância, que pode ser uma forma de saber.

A sua divisa?
Liberdade para todos.


In Apeadeiro, revista de atitudes literárias, números 4 e 5, Inverno de 2004, direcção de valter hugo mãe e Jorge Reis-Sá, Quasi Edições, Janeiro de 2004, pp. 57-61. No mesmo dossier constam conteúdos diversos, entre os quais uma entrevista por Maria Augusta Silva. A dado momento, isto:

Enquanto artista, sente-se maltratado pelo seu país?
Imenso. Neste país é preciso andar atrás dos ministros e isso não faço; é preciso darmo-nos com gente importante e não me dou nem a procuro, e muito menos políticos. Ao longo da vida conheci pessoas importantes, algumas amáveis, com quem tive ou tenho uma relação civilizada.

Marginalizado?
De certo modo, mas nem será por mal. Um elefante põe a pata em cima de uma formiga e nem sabe que está a pisar a formiga.

É na página 26.


domingo, 8 de novembro de 2020

CLAVICÓRDIO

Clavicórdio (Língua Morta, Fevereiro de 2020) é o primeiro livro em prosa de Andreia C. Faria (n. 1984), poeta que viu a reunião da sua obra ser distinguida com o Prémio Literário Fundação Inês de Castro em 2019. Por reunião da obra entendam-se quatro livros publicados entre 2008 e 2017. Não se estranhe que em tão pouco tempo alguém vislumbre razões que justifiquem a reunião de “uma obra”, já que vem tornando-se habitual este tipo de prática no maior grupo editorial português. Depois de, em 2010, ter vaticinado dez anos de vida à publicação de poesia, Vasco Teixeira, da Porto Editora, não só meteu ao bolso a Assírio & Alvim, como expôs Herberto Helder ao lado de Sveva Casati Modignani e recrutou uma das estrelas da casa para arquitectar uma colecção de poesia. Túmulos de lázaros agónicos, as pequenas editoras assistem, assim, a uma elevação dos seus autores ao reino dos céus, a bem de, à beira do Senhor, estes conseguirem mais leitores. É esta a conversa, chegar a mais leitores.
   Tomara que tamanha multidão dê conta de Clavicórdio, compilação de textos dispersos que, a despeito da disparidade no estilo e de algumas deficiências que uma revisão mais atenta ajudaria a corrigir, prenunciam algo de valoroso. Embora nada o indique, alguns destes textos já haviam sido tornados públicos. Pavões, Pequena Arte de Amar e Peixe-Lua foram outrora publicados na revista on-line Enfermaria 6. O último em 2014, os dois primeiros em 2015. Ao conto intitulado Quando o Milho Alto foi atribuída, em 2009, uma menção honrosa no Prémio Literário José Luís Peixoto. Curiosamente é esta narrativa a que mais deixa a desejar, pelo que denota de convencional e porventura iniciático. É um texto que resulta algo isolado no resto do conjunto, o qual nada tem que ver com o tom folclórico e lendário da aldeia onde Armanda olha «o céu à cata de estrelas» (p. 71).
   Mais estimulantes são os três textos anteriormente publicados na Enfermaria 6, desde logo por resistirem a qualquer tipo de classificação em matéria de género. São textos onde ficção, poesia e até ensaio se misturam e equilibram, numa prosa escorreita e sensível que permite identificar uma vocação para a erotização do pensamento. A beleza, o amor, os jogos de sedução, o desejo, a relação do humano com a natureza, sugerem meditações breves que têm tanto de introspectivo como de expansivo. Isto é especialmente evidente numa tendência para a reflexão que o texto Pequena Arte de Amar sublinha do seguinte modo: «Penso no desejo como um homem incapacitado contemplando girassóis. Penso no desejo como um homem prostrado na sua cadeira de rodas um animal mitológico contemplando girassóis» (p. 44). Algumas páginas depois: «Pensava nos dedos ásperos do meu amante, nas varizes da minha mãe, no suor enegrecido pela fuligem das fábricas nas camisas do meu pai. Pensava nos operários de todo o mundo regressando a casa de camioneta ao fim do dia. Pensava no hálito forte deste homem, na verruga no rosto daquela mulher, na fácil e traiçoeira compaixão que se sente às vezes por um desconhecido» (p. 50).
   Privilegiando a expressão poética do pensamento, em detrimento da interacção entre personagens, estes textos aproximam-se de uma prosa que não busca no relato de acontecimentos o sentido da sua existência. O pensamento é o acontecimento em si, como no Caderno, Clavicórdio que ofereceu título ao livro e se lê tal como um caderno de apontamentos, exercício quase de tipo automático e psicanalítico que se apropria livremente de material onírico sem preocupações de coerência. Se na página 8 «Já não há nada para amar», a páginas 17 «Ainda estou entre os que amo» (p. 17). Memórias difusas articulam-se com imagens de proveniências diversas, reminiscências cinematográficas, numa espécie de glossolalia que justapõe os planos do sonho e da realidade.
   Dos textos coligidos neste pequeno volume de 91 páginas, aqueles que mais me chamaram a atenção foram, contudo, dois onde o sujeito poético (evitarei chamar-lhe narrador por me parecer que não estamos no domínio exclusivo da ficção narrativa) se abre ao outro. Eva e O Nosso Melhor Ouvido colocam em cena personagens marcantes, com características diferenciadoras que apelam a uma construção imagética desafiante. Eva e David, nomes com ressonâncias bíblicas evidentes, têm em comum dois corpos macerados pela realidade. O de Eva, mutilado pela guerra: «Eva tinha perdido a mão esquerda e a perna do mesmo lado, até à raiz da coxa» (p. 51). O de David, sovado por um mundo sem Deus: «Quando pela primeira vez o vi nu o que mais me impressionou foi o estômago. Parecia ter sido sovado até ficar côncavo, colado às costelas. E as mãos, que revelavam o seu peso num corpo tão magro, morenas, contorcidas de veias numa inusitada proximidade com a lua» (p. 83).
   Se o primeiro destes dois contos traz à memória O Nervo Ótico, da argentina María Gainza (n. 1975), não só pela contiguidade operada entre o espaço museológico e uma memória deformadora dos acontecimentos, mas também pela ambiguidade gerada entre aquele que narra e o que observa, já a frase inicial de O Nosso Melhor Ouvido enviou-me directamente para Os Passos em Volta, de Herberto Helder (n. 1930 – m. 2015), livro com o qual este Clavicórdio parece suportar algumas afinidades. Não obstante, a Eva de Andreia C. Faria coloca o feminino no centro da reflexão, questionando o que historicamente sobre ele pesa beleza, gentileza, sedução —,a partir da imagem de um corpo amputado, inspirador como uma Vénus de Milo, do sofrimento, da maldade e da crueldade que são, a par do amor, da amizade, o magma de uma humanidade sujeita à tirania do tempo e em continuada transformação:  
 
«Deve-se saber sofrer sem resignação, mas também sem revolta, era o que dizia a mim mesma. Também sem espanto. Sofrer como se o sofrimento não se me dirigisse. E, no entanto, a quem mais poderia estar ele destinado, o meu sofrimento? Eu não sofria por amor do mundo. Não encontrava na empatia o bem electrizante, a hipótese de subversão dentro do mal. Mas agora Eva é o amor do mundo. Ela é todo o sofrimento e a sua recusa. É a beleza de tudo o que é cruel. O deleite perante a injustiça. Não perdeu o interesse pela vida, Eva.»

sábado, 7 de novembro de 2020

UM SONETO DE JOSÉ EMÍLIO-NELSON

 


SONETO VII

Da esquina das avenidas, nas tintas,
A escumalha e as raparigas esfumadas.
Os cães, dia de raça, empilham-se nas latas
E derrubam as tralhas enlameadas, indigentes.

Estrambólicos, cadáveres com saia curta, praguejam
Aos peões que cruzam a berma, fatigados,
E lhes deitam a vianda rosada, denteada.
E ainda assim os tilintam, moedeiros falsos.

Saúdo os que vigiam, à paisana, esfalfados,
E nos garantem a bonança, céu lilás, a forçá-los,
E os varrem para escoadouro das águas.

Infectam a cidade com as serapilheiras.
Por isso dêem-lhes, na doçura do clima,
Um chafariz camarário de creolina.


José Emílio-Nelson, in Sonetos Glaucos, Debout Sur l'Oeuf, Agosto de 2020, p. 11.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

INDECENTE

Um amigo fez-me chegar por Messenger um daqueles arrotos que o João Miguel Tavares publica no Público convencido de que são crónicas. Não fui ler, já dei para o peditório do João Miguel. De resto, o que a chamada revelava não acrescenta nada à bazófia exibida semanalmente no Governo Sombra. A tese agora é que não há diferenças substanciais entre o que defendem Chega e BE ou PCP. São todos igualmente perigosíssimos. Isto podia não merecer comentário, mas não podemos esquecer o convite que Marcelo (cada vez mais senil) fez a este palerma para discursar no dia de Camões. A coisa até saiu em livro, para desgraça da literatura em geral e de algumas árvores em particular. Quando assistimos à celebração generalizada do afastamento do trampa, quando aguardamos ansiosamente por outras descargas de autoclismo a bem da higiene mental dos povos e de uma réstia de decência no debate político, vem este tonteco com tais comparações. É mais um da direita portuguesa que faz questão de não perceber nada, de assobiar para o lado, varrer para debaixo do tapete. Vão todos ficar com os pés a cheirar a merda queixando-se de quem leva os cães a passear. Decência, bastaria esta palavra para que o João Távarrres não metesse tudo no mesmo saco confundindo alhos com bugalhos. Meter tudo no mesmo saco é o primeiro passo para que a escumalha se fortaleça. É claro que quando o mal estiver feito os "genuinamente liberais" deste mundo vão dizer que não foi nada com eles. Pois claro, como pode ser amigo do ambiente quem nunca fez a separação do lixo? Eu faço. Por exemplo, não meto no mesmo saco o Chega e a IL. É uma questão de decência, higiene mental, profilaxia que o palermóide do Governo Sombra parece estar interessado em negligenciar. Não viria mal ao mundo, não fosse o palco que lhe dão.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

PALADAR

 


 
I
 
Estás indisponível,
sou o último nome
esboçado a lápis na tua agenda.

 
II
 
Abrir o sexo,
masturbar a tua ausência,
escolher um pesadelo
e adormecer.

 
III
 
Procurar-me-ás no outono
quando no coração houver
ferrugem.
 
No texto,
o paladar da época:
sangue e metal.

 
 
Nuno F. Silva (n. 1993), in Epilepsy Dance (DSO, Agosto de 2020). Publicou o primeiro livro, Flor de espinhos, com apenas 18 anos, mantendo uma inusitada regularidade desde então. Epilepsy Dance, na editora Debout Sur l’Oeuf, é o mais recente de 7 livros editados. Nos poemas deste livro a melancolia é um substância maligna que circula no sangue e corrói o corpo, diferente do estatuto de estado de alma mais ou menos momentâneo que geralmente encontramos na poesia de inclinação elegíaca. Uma pontuação desconexa acompanha os ritmos de um corpo em estado de dança epiléptica, evocação do modo de estar em palco de Ian Curtis, malogrado vocalista da banda britânica Joy Division. A morte e o suicídio são temas transversais, a par da solidão e de um erotismo sombrio mais evidente na segunda parte do livro. Hóspede Ausente e O Canibal de Memórias são dois conjuntos de poemas que se interligam, precisamente, por uma sensação de mal-estar que, ao invés do que é habitual, parte de uma noção de “corpo avariado” para a alma e não desta para aquele.