Estou apaixonado por uma velha. É uma velha cor de esmalte com bigodes de arame. Passa os dias dependurada no estendal a abanar como ceroulas. Não sei que faça. Se a mire, se a admire. É uma velha tão bonita que crepita dentro do meu jovial coração. É uma velha pipoca.
terça-feira, 29 de novembro de 2005
sexta-feira, 25 de novembro de 2005
O DANIEL
O Daniel tem 5 anos. Ontem perguntou à minha irmã o que é um homossexual. A minha irmã tentou responder-lhe. Vai ele, muito admirado, tentou corrigi-la: «Não, não. Na minha escola isso é um gay.»
EROTICA ROMANA
Nome maior da literatura universal, Johann Wolfgang Goethe nasceu em Franco-forte-sobre-o-Meno em 1749 e faleceu em Weimar em 1832. Inicialmente ligado ao movimento Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), Goethe acabaria por se tornar na principal inspiração do romantismo alemão. Do Sturm podemos dizer que se revela na obra do génio alemão a exaltação permanente das forças naturais, nas quais devemos incluir o Amor, e a superação do iluminismo através da afirmação veemente de um politeísmo estético onde a dimensão simbólica assume real destaque. Além destes aspectos há ainda outros comummente enunciados: o elogio da liberdade e do desejo, a deificação do ímpeto, isto é, das paixões mais impetuosas mesmo/sobretudo quando estas implicam a infracção. O indivíduo, mais do que exemplar da criação, torna-se representação viva do génio criador. Prelúdio do romantismo, o Sturm und Drang exprimiu um “novo classicismo” em ebulição onde mais do que repetir o já feito se impunha reassumir a ideia de que tudo está por fazer. «O Antigo era o Novo quando os felizes viviam, / Vive tu em felicidade e revive em ti os tempos remotos» (p. 51). – escreve Goethe na XIV das elegias que compõem esta Erotica Romana, ressuscitada pela excelsa Cavalo de Ferro numa tradução de Manuel Malzbender. Porque se trata de um dos mais belos livros deste exangue 2005, impõe-se que, antes de continuarmos, demos conta do nível excelente desta edição, completada com preciosas notas explicativas, reacções à obra (antes da publicação) e uma crítica pela pena de August Wilhelm Schlegel. Pouco mais do que impossível de definir, o romantismo de Goethe distingue-se principalmente por um pathos conflituoso e anelado. Isto é, as emoções, na poesia de Goethe, são o começo da rejeição do sentimentalismo e o princípio da recuperação da espontaneidade dos antigos. Poesia atormentada, mais pela ânsia e pela insatisfação do génio que pela sentimentalidade patológica de outros românticos, é na sua força do desejo que melhor vislumbramos aquilo que Schiller classificou como «uma verdadeira aparência de espíritos do bom génio poético». Erotica Romana, por reunir um ciclo de poemas eróticos de Goethe, escritos a partir da sua estada em Itália (1786-1788), merece por isso especial atenção. São XXII elegias introduzidas e encerradas com dois poemas ao deus Príapo, filho de Afrodite e de Diónisos, «criança feia, com uns órgãos genitais enormes». Atentemo-nos nesta nota de Robert Graves: «Príapo teve a sua origem a partir das impúdicas estátuas fálicas que presidiam às orgias dionisíacas». Também as elegias de Goethe são orgiásticas, revelando o lado mais lascivo da biografia do poeta de Werther e de Fausto. Múltiplas são as passagens onde o escândalo espreita. Terminemos com esta: «Banquetes e sociedade, passeios, jogos, ópera e bailes / Só roubam o tempo mais conveniente ao Amor. / Repugnam-me esplendor e cerimónias, pois afinal / Não se levantará a saia de brocado tal como a de lã? / E se ela quiser acomodar o amado entre os seus seios, / Não desejará ele libertá-la logo de todos os adornos? / Não deverão jóias e rendas, estofos e ganchos / Cair todos antes de ele poder sentir a bela? / Mais perto a teremos! E já a tua sainha de lã desliza / Em pregas para o chão quando o amigo a desprende. / Apressado leva a rapariga, em leve linho envolvida, / Como o faria uma ama, para o leito gracejando. / Sem cortinados de seda e sem colchões bordados / Acomodam-se os dois no quarto vazio. / Toma então Júpiter mais da sua Juno / E delicie-se o mortal, se mais o conseguir. / Deleitam-nos os prazeres do verdadeiro Amor nu / E o doce ranger da cama que baloiça» (p. 15-17).sexta-feira, 18 de novembro de 2005
QUI PASSE, FOR MY LADYE
Ao compositor inglês William Byrd (1543-1623), terá Manuel de Freitas (n. 1972) ido colher o título do seu mais recente opúsculo: Qui passe, for my Ladye (edição do autor). Nos últimos anos, a prática do pequeno formato andava arredada dos hábitos editoriais portugueses. Manuel de Freitas retoma-a com alguma insistência: Levadas, Büchlein Für Johann Sebastian Bach, Juxta Crucem Tecum Stare, O Coração de Sábado à Noite, Vai e Vem, são alguns exemplos. Estes livros, com pouco mais do que trinta páginas e menos que uma vintena de poemas (os mais extensos), podem legitimamente sugerir a questão da utilidade desta opção de publicação. Não seria preferível reunir num só volume todas estas sequências? Haverá aqui algum tipo de urgência em publicar, alguma impaciência? Pretender-se-á com isto fazer render o pescado da poesia? São questões lícitas na boca de um qualquer leitor de poesia. Contudo, não é necessário ser mais do que um qualquer leitor de poesia para entender que reunidos num só volume cada um destes títulos perderia a sua singularidade. A verdade é esta: apesar da voz ser a mesma, há circunstâncias que lhe alteram o tom. Qui Passe, For My Lade, por exemplo, nada tem que ver com Vai e Vem, já publicado este ano, a não ser o facto do autor de ambos ser o mesmo. Aliás, o livro que agora nos prende acaba mesmo por ser uma relativa surpresa no contexto da obra de Manuel de Freitas. Os dezanove poemas que o compõem remetem para um destinatário revelado na epígrafe que abre o livro. No poema inicial, o poeta adverte: «É tão difícil escrever um poema / que não fale da morte» (p. 9). A advertência funciona aqui, na mesma medida, como uma espécie de lamento e confissão. O que encontramos nos restantes poemas é um empreendimento que parece ter por fim a escrita de poemas de amor. Porém, logo em Estudos Camonianos a morte intromete-se. E assim sucederá até ao fim. O ambiente desassossegado desta poesia, provém de um lamaçal lírico onde a angústia se confunde com o amor. «Porque isto / que não passa, sabemo-lo bem, é a vida // ou a morte, uma perda que dura / e que não se apaga assim, sob um cerco / de navalhas ou de inúteis, vigorosos / sentimentos. Por exemplo o amor, / essa estranha mistura de angústia, desejo / e novamente angústia» (p. 12). A perda, que o amor não apaga, resulta também do próprio amor. Daí que o amor se revele apenas como um instante de quase felicidade, instante que a morte, única clareza que podemos pretender da vida, apaga. Talvez ilusão da juventude, de um tempo já perdido, o amor acaba por ser apenas mais uma das encenações da morte. Nesta poesia sem saída que não seja a da obsessão permanente com o fim, torna-se quase consolador encontrar no lugar da ruína versos de uma melancolia que, não deixando de ser lancinante, acaba por nos mergulhar numa espécie de sonho romântico: «Pudesse eu de novo beijar os teus lábios / no meridiano azul desse cálice» (p. 27). Bem sei que o romantismo não está na moda (ou talvez já não seja bem assim), mas por vezes ele mostra-se onde menos o esperamos. Lugares outrora frequentados e canções outrora escutadas, polvilham-nos não só a memória mas também o coração. E nesta poesia com a cor da morte (que não é branca), há não só a agrura do edifício em ruínas, a aceleração do quotidiano urbano, o escárnio da vidinha alheada, mas também o adiamento da própria morte «no teu corpo, esse único lugar / onde a noite, às vezes, se detém» (p. 28). É verdade que sem serem sentimentalistas, estes poemas não deixam de ser sentimentais. Haverá porém poesia que o nãos seja? Toda a poesia é afectiva e sentimental. Mesmo aquela que se julga o avesso disso, porque isso não mais é do que o horizonte onde o poeta se encontra com a sua humanidade. Desse fardo, não nos livraremos. Pelo menos, enquanto houver quem escreva poesia.quinta-feira, 10 de novembro de 2005
ESTE OUTONO SOBRE OS MÓVEIS DOIRADOS
Numa das badanas de Este Outono Sobre Os Móveis Doirados (Edição do Autor, 2005), Carlos Mota de Oliveira é-nos apresentado como autor marginal (segundo palavras de Maria Regina Louro, no Público, e de Luiz Pacheco, no Diário Popular). Não nos é possível determinar se a apregoada marginalidade se refere ao autor ou à obra. É que nisto de marginalidades, tal como noutros territórios, há os que o são do coração e os que o são da razão. O conceito soa bem ao ouvido de certo leitor menos prevenido contra as subtilezas do estilo e, não raras vezes, resulta apenas numa circunstância estratégica, mais ou menos proveitosa, de auto-hetero-promoção. Tenho para mim que os escritores marginais não o são apenas pela excentricidade das suas vidas e, o que mais importa, pela singularidade das suas obras, mas sobretudo pela natureza do seu próprio carácter, natureza essa que dispensa notas de rodapé, anotações bio-bibliográficas de badana, sugestões de distanciamento alicerçadas em panegíricos amigalhaços. E isto não tem nada que ver com poesia, porque a poesia está acima de tudo isto. Ela não é do estilo, é da respiração. Do autor sabemos então que nasceu em Lisboa em 1951 e, segundo reza a estória, «passeou-se [que é já uma maneira de dizer] pela Escola Primária na ilha de S. Miguel, o Liceu em Luanda e Lisboa, a Universidade na cidade de Évora». A distância do meio literário tradicional (qual ele seja!) não dispensa porém os elogios frequentes de diversos escritores. É uma distância, está de ver, originalíssima e irreverente. Publica desde 1973, na sua maioria em Edição de Autor, obras poéticas em nome próprio e com os nomes de Ana de Sá e José Bebiano. O primeiro livro, como outros de circulação limitada, intitulou-se Isabelarcoírisdovinho. Há ainda obras nas casas editoriais Fenda (por exemplo: Ana de Sá, 1982), Teorema (por exemplo: A Poesia de António Arade, 1999) e Caminho (Versículos Sacânicos, 2003). O trabalho que ora nos dói chega-nos prefaciado por Miguel Serras Pereira, em nota íntima, ao jeito de carta, onde se dá conta de «três pontos de partida da pista de leitura»: «a paisagem, que deve ler-se aqui como sendo consubstancialmente histórica», «a morte e o desgaste da carne e do si-próprio paisagísticos» e, por fim, o «tempo reencontrado». Dito de outro modo, esta poesia, de verso telegráfico, lê-se no entrementes da consciência política combativa. Ou seja, o que perpassa nestes poemas é um lirismo decotado com temperos de humorada indignação. Em Meio Milhão de Desempregados o alvo é claro: «(…) Um deputado / não é / uma ninharia // Um deputado / não é / a unha // de um / solípede // um chifre / nojento // um / fumeiro // ou uma loção / para / a sarna! // Um deputado / não é / o pecado original // Um deputado / faz / o ninho // nas / cadeiras // do / hemiciclo // e os / seus ovos // são recolhidos / e / consumidos!” // Ó Amaral / montas / é muito mal! // Enche-te / mas é / de genebra // um / pouco // de noz / moscada // uma casca / de laranja // e toca-nos / ao / bicho! (…)» O recado tem receptor directo, mas parece-me pouco mais do que anódino. Mário Henrique-Leiria fez muito melhor na década de 1970. Se quiserem dar-se ao trabalho, basta compararem as nêsperas de um com as ameixas do outro.segunda-feira, 7 de novembro de 2005
ÓDIO

Pela enésima vez, La Haine. Em tempos idos, alimentei grandes teorias acerca do ódio. Li muita coisa sobre o tema e pensei até em meter-me a braços com uma tese sobre o assunto. Sou porém daqueles a quem as teses não dão tesão. Fiquei-me pelas leituras e pelo esforço de uma organização interna dos conceitos, uma espécie de consciência interna do ódio. Da «tragédia cósmica» de Empédocles, onde o Ódio/Discórdia (em maiúsculas) aparece ao lado do Amor como uma das forças orientadoras do mundo, às sábias questões levantadas por São Tomás no Tratado das paixões da alma, indo por aí adiante até à estimulante retórica das paixões enunciada por Michel Meyer no magnífico O Filósofo e as Paixões, foi alguma a literatura que procurei ler sobre o ódio. Infelizmente, o ódio apareceu-me muitas vezes tratado como resultado da ausência de amor. Alguns autores temeram conferir ao ódio uma força, senão interdependente do amor, pelo menos em estreita relação com o seu oposto natural. Uma vez, um meu aluno disse-me, depois de visionar O Ódio (1995), que só se odeia aquilo que de certa forma se ama, aquilo que não nos é indiferente e, por isso, nos causa uma dor que, num ímpeto, se transforma num desejo de querer mal. Nunca percebi onde é que ele foi buscar tal ideia no filme de Kassovitz. Este filme coloca uma série de questões muito pertinentes sobre intolerância, discriminação, repressão, etc. No fundo, tudo se resume à incapacidade que as sociedades têm sentido, ao longo dos tempos, em conviver com a diferença e a liberdade de cada um dos seus indivíduos. Os sociólogos falarão em socialização, a psicossociologia falará em preconceitos e estereótipos, outros referir-se-ão a esse estribilho absoluto que dá pelo nome de integração. Trata-se apenas de não saber conviver, ou de não querer conviver, com uma das características humanas essenciais: o ódio. Russell colocou bem o problema, porém foi demasiado optimista ao considerar ser possível eliminar o ódio da vida humana. Chega a ser contraditório afirmá-lo, já que para isso teríamos, então, de negar a nossa própria humanidade. Dir-me-ão: é precisamente isso o que temos feito ao longo dos tempos. Tem resultado? Não. A solução só pode estar em canalizar esta força destrutiva para algo construtivo. A poesia, por exemplo, como outras artes, podem ser óptimos vínculos de canalização das forças humanas mais destrutivas. Temos alguns exemplos que vêm, desde logo, à cabeça: A Cena do Ódio, de José de Almada-Negreiros, é o mais exemplar de todos. Só quem ama muito o seu país, podia odiá-lo daquela maneira. Outro exemplo que nos é familiar chega-nos do Brasil, pela pena de Mário de Andrade: «Desque me fiz poeta e fui trezentos, eu amei / Todos os homens, odiei a guerra, salvei a paz!» E que dizer desta estrofe de J. W. Goethe: «É importante, por fim, / Que o poeta tenha ódio, / Que como o belo não cante / O que é feio e causa tédio.» Deixem-me que vos recorde, ainda, a bela Cantiga do Ódio, de Carlos de Oliveira, ou estes versos seminais de Walt Whitman: «Partaker of influx and efflux I, extoller of hate and conciliation, / Extoller of amies and those that sleep in each others’ arms.» Alguns poetas, muito mais dados ao amor que ao ódio, têm perdido demasiado tempo a cantar a primavera dos seus próprios corações. Têm esquecido, pessoas exemplares que são, gente de uma humanidade incomensurável, os blocos de gelo que também lhes crescem no sangue. Têm omitido em demasia a azia com que, por certo, também vivem parte das suas vidas. Talvez por não verterem nos seus versos o gelo das suas almas, se permitam viver passivamente num mundo odioso. Amar, todos sabemos. É tempo de aprender a odiar o que não nos merece amor. Kassovitz cantou o ódio no seu filme, naquele que será, para sempre, o seu filme. A última cena termina com o rosto de Baudelaire pintado numa parede de fundo. É do poeta francês o melhor poema sobre o ódio que li até hoje:
O TONEL DO ÓDIO
O Ódio é o tonel das brancas danaídes;
A Vingança febril, de braços rubros, fortes,
Tenta precipitar nessas trevas vazias
Grandes baldes com o sangue e as lágrimas dos mortos,
Em segredo o Diabo fura esses abismos
Por onde verteriam mil suores e esforços
Se o Ódio, ele mesmo, reanimasse as vítimas
E para as espremer ressuscitasse os corpos.
O Ódio é um bêbado numa taberna,
Que quanto mais bebeu mais sede ainda vai tendo,
Vendo-a multiplicar-se, qual hidra de Lerna.
- Mas, se ébrio feliz conhece quem o vence,
A sorte lamentável o Ódio está votado:
A de nunca poder adormecer saciado.
In As Flores do Mal, Assírio & Alvim, trad. Fernando Pinto do Amaral.
9 de Março de 2005.
quinta-feira, 3 de novembro de 2005
POEMAS DISPERSOS
Afinal as Poesias Completas, publicadas há cinco anos pela Assírio & Alvim, não estavam assim tão completas. Remedeia-se agora a ferida com a edição de alguns dispersos, ainda que completa não fique de todo a obra do bom, do bom, do bom O’ Neill. Nascido Sagitário no ano da graça de 1924, Alexandre O’Neill publicou o primeiro livro, A Ampola Miraculosa, nos Cadernos Surrealistas em 1949. A aventura surrealista, ainda que efémera, terá sido marcante, mas jamais determinante num poeta demasiado seu para ser dos outros. Aliás, surrealistas em Portugal nunca foram muitos. Como julgo já ter lido algures, talvez António Maria Lisboa e pouco mais. O surrealismo português foi mais dos poemas do que dos poetas. Avulso, quero dizer. O’Neill, que abandonou a escola num abrir e fechar de olhos, trouxe dela na carteira o sonho que viria a matrimoniar-se com o real. Disso nos dá conta, em prefácio, Vítor Silva Tavares: «a aventura surrealista «ortodoxa» de Alexandre O’Neill pouco mais dura que o amor de um estudante: máximo quatro anos». Fernando Cabral Martins, no posfácio, é igualmente esclarecedor: «O «neo» e o «sur» são prefixos que então, por vezes, se cruzam ou se trocam». Os prefixos de O’Neill, os que são só dele, são os dos grandes poetas - esses que tendo indo à escola resistem à tentação de se tornarem escolásticos. Assim, o sonho do «sur» mais o real do «neo» só podiam ser insuficientes para quem sempre riu da suficiência. A eles se junta, em profícua orgia, um desencanto muito próprio (absoluto na Feira Cabisbaixa), um talento para jogar com as palavras que vem do inicial Tempo de Fantasmas (1951) e se desdobra pelos poemários subsequentes, um olhar atento sobre o absurdo das coisas quotidianas, isto é, sobre o quotidiano das coisas absurdas. Tudo a desaguar nessa escrita lúcida, mesmo quando fanfarrona, paradoxal, ambígua, da «estranheza dos lugares comuns e [d]a abjecção do tempo comum» (Fernando Cabral Martins). Alexandre O’Neill é, de entre os maiores poetas portugueses do século XX, aquele que melhor soube encontrar o lugar de confluência do riso e da lágrima, do quotidiano e do intemporal, do local e do universal, da tradição e da vanguarda, do desespero e da esperança. Poeta totalíssimo, ele legou-nos uma obra que é um país. Anos 70 – poemas dispersos, confinando-se a uma década, permite-nos perceber tudo isso. O essencial dos poemas que compõem este volume provém das inspiradas colaborações do poeta em jornais como o Diário de Lisboa, A Capital, A Luta (incrível: houve jornais que, em tempos, publicavam poesia deste calibre!!!). Há ainda as participações na Antologia da Poesia Concreta em Portugal, organizada por José Alberto Marques e E. M. de Melo e Castro em 1973, mais alguns inéditos. Trata-se de um leque diversificado e desigual de poemas que, nunca atingindo a menoridade, nos confirmam ter sido/ser O’Neill o nosso poeta maior da menoridade. Poemas que são estórias, poemas que são crónicas, poemas que são gozo, poemas que são combate, poemas que são tudo isso sem se reduzirem a uma única dimensão disso. Poemas como este brevial (sic) SOLTEIRICE: «Espeta-te com o garfo. / Corta-te com a faca. / Deita-te no prato. / Espera» (p. 68). Resta dar conta da exímia organização do volume, a cargo de Maria Antónia Oliveira e de Fernando Cabral Martins, enriquecido com alguns desenhos de Luís Manuel Gaspar, um conjunto alargado de notas sobre a origem dos poemas, uma cronologia e os já referidos prefácio e posfácio.
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