segunda-feira, 16 de novembro de 2009

ELOGIO DO CINISMO (7)



Giovanni Reale e Dario Antiseri resumem em três pontos «a menor vitalidade que o cinismo demonstrou em relação ao estoicismo, ao empirismo e ao cepticismo»:

- O «extremismo e anarquismo» dos cínicos não propôs valores alternativos às convenções consagradas pela tradição;
- Houve no cinismo um «desequilíbrio de fundo» que consistiu em reduzir o homem à sua animalidade;
- O cinismo foi de uma «pobreza espiritual» cuja mensagem só pode ser validada pela intuição emocional.

Qualquer uma destas críticas, independentemente da sua legitimidade, obrigam-nos a ponderar o “reale” alcance da mensagem cínica. Não vislumbro qualquer fraqueza na prova intuitiva, pelo menos no que ela foi demonstrando ter de suporte à dedução. Étienne Gilson sublinhou que o mestre do racionalismo moderno chegou intuitivamente ao primeiro princípio da sua filosofia, algo que até parece indiferente para o caso. O cinismo foi sempre, de facto, muito pobre espiritualmente, pois nunca se fez provar pela dedução ou pela intuição, pelo menos não tanto como se fez provar pela prática. Não estamos perante uma filosofia das ilusões, uma filosofia hipócrita que se faça valer por princípios abstractos sem qualquer aplicação material. Não estamos perante a cidade ideal de Platão ou a cidade de deus de Santo Agostinho, não estamos perante o reinado dos céus cristão, nem perante a Utopia, não estamos perante o socialismo de Marx. É caricato verificar que hoje em dia os advogados de várias ideologias, do cristianismo ao comunismo, usam o argumento de que nenhuma dessas filosofias foi levada à prática, procurando assim justificar as degenerações em que fracassaram certas experiências, por demais conhecidas, dos aclamados zeladores do Ideal. Deste modo, o catolicismo terá consistido numa mera apropriação da mensagem cristã, uma apropriação que ainda hoje está longe de pôr em prática os recados de Cristo, da mesma forma que as ditaduras comunistas são agora interpretadas como trasladações das elucubrações de Marx, Lenine e outros que tais. Ora, o cinismo, na sua vertente primitiva, fez-se sempre provar pela prática da mensagem, não deixando lugar a interpretações enviesadas e pretensiosas de uma proposta que não estava preocupada em ser rica espiritualmente. A sua riqueza consistia na força do exemplo, o exemplo era dado pela carne, não provinha exclusivamente das ruminações do pensamento. É, pois, compreensível, a pouca simpatia que esse exemplo logra almejar nos reinados da fantasia, nas cidades guiadas pela aparência, nos territórios racionalistas que beatificarão mensagens como esta: faz o que eu digo, não faças o que eu faço. Apontam-se o extremismo e o anarquismo dos cínicos como se esses homens tivessem limitado a sua acção a minar as convenções castradoras da cidade, como se ao “estigmatizarem as condecorações e as honras, ao fustigarem os representantes do fisco, ao insultarem os colaboracionistas, ao criticarem os mestres, os polícias e todos os tipos de autoridades, tanto filosóficas como militares”, eles não estivessem a propor «valores alternativos positivos», valores que consistiam num modelo de vida livre e libertário, autónomo, independente. Que outra coisa senão uma proposta alternativa pode ser a busca da felicidade para lá do superficial, a busca da felicidade através da autarquia e da indiferença à glorificação por parte daqueles que são cúmplices da escravatura social? A diferença é só esta: não se pode fazer escola da liberdade, impondo aos outros uma mensagem que se oferece a quem, livremente, pretenda tomá-la para si. Não nos esqueçamos que mesmo o escravo mais maltratado se curva perante as medalhas oferecidas por quem sempre o maltratou. Que os cínicos tenham reduzido o homem à sua animalidade, só abona em seu favor. Nada do que exigiam ia além desta animalidade específica do homem que é a de, num só corpo, coexistirem a necessidade, o desejo e a capacidade de escolher, de optar, para lá das paixões superficiais. Em suma: nada a impor, tudo a propor; a cada um o que lhe aprouver, assim esteja garantida a vontade de poder sem sede de comandar os outros, de decidir pelos outros.

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