Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

A FESTA


É muito positivo chegar a casa e ter a lareira acesa, dois ou três toros para aquecer os pés, uma garrafa de vinho tinto para acompanhar a leitura da Fome. É agradável sentir o aconchego das mantas quando o sono ameaça o cansaço. Dava tudo por dormir bem, acreditem. Nada há que me incomode mais do que esta falta de sono. Se pudesse, passava a vida a dormir com o Livro do Desassossego a servir-me de almofada. Ou então a olhar as minhas filhas enquanto dormem descansadamente, sem aflições nos sonhos, todos tão inofensivos que nos parecem impossíveis de sonhar. Eu só tenho pesadelos, normalmente acordado.

Sabe bem quando uma cliente nos reconhece e solicita um autógrafo, apertar a mão aos habitués e trocar dois dedos de conversa, beber o café da manhã enquanto aos ouvidos ressoam vozes do passado, ver sair os livros da nossa predilecção. Por vezes sinto o corpo sacudido por uma espécie de tremura, olho para o lado e julgo ver quem há muito não via, tenho visões, é uma coisa estranha que me sabe bem. Como quando sou assaltado pelos mortos, de leitura suspensa e olhos colados aos velhos que passeiam nas ruas o tempo que lhes resta.

Gosto de olhar para o passado e pensar que, apesar de tudo, nunca sofri acidentes graves. O mais grave de todos foi ter nascido, mas esse tenho eu de carregar às costas até que as costas deixem de me doer. É algo que sabe mal, este desconforto permanente das costas doridas. Uns dizem que é do sacro, outros da postura, sabe bem pressentir-lhes uma presciência que escapa às minhas dores. Não gosto de conduzir, mas acho piada às bátegas que escorrem no vidro do carro. Sabem bem.

Por outro lado, é muito desagradável esta insatisfação permanente, pensar que estou a passar ao lado da sombra, ver alguns amigos desesperados, em fuga, deixando para trás ficheiros ao cuidado de quem lhes queria mais do que pode. É mesmo um desastre ter-se nascido português, Ruy, nasce-se, de facto, em desvantagem. Mas sabe bem pensar que, apesar de tudo, ainda temos luz eléctrica e uma caixa de fósforos para os cigarros. Imperial, bebo a qualquer altura do ano. Sabe bem o gosto dessas coisas colado ao paladar, à língua que nos traz à página sempre que nos metemos a pensar no que sabe bem.

Mas façamos destas 21 horas a avenida de uma convalescença que se prolonga para lá da idade. A maioria das pessoas que observo, julgo, são felizes com uma casa apetrechada de electrodomésticos, uma Wii para o entretém, uma Bimby para a cozinha, um plasma para a cultura. E sonham com uma casa maior e com um carro melhor e com pouco mais sonham do que actualizar esses seus sonhos à medida da evolução dos modelos. A tecnologia produz esse efeito nas pessoas: sonham sempre com as mesmas coisas, mas de um modo actualizado.

Ora, eu prescindiria de tudo isso e tudo isso trocaria por silêncio, paz, sono, sete palmos de solidão onde enterrar o pastiche da alegria rotineira. O cais onde ancoram os dias é esta necessidade de nos predispormos ao que a época espera de nós: muito doidos no Carnaval, muito livres no Verão, muito solidários no Natal, muito contentes no Ano Novo, muito parvos o ano inteiro. Chega a ser agressivo sentirmo-nos desfasados da rotina, é como se houvesse entre nós e o mundo um desajustamento, uma incapacidade para a integração. Não é desalinho voluntário, é mesmo ficar aquém das expectativas.

Então procuramos enganar tudo e todos com o pouco que nos sabe bem, mesmo sabendo que aquilo que nos exclui da festa não é um excesso de tristeza. É apenas uma enfadonha ausência de alegria.
Ao alto: António Areal, s/título, 1966.

AI O NATAL, O NATAL

Tendo em conta o número de trocas, quer-me parecer que das duas uma: ou muita gente não sabe o que compra e para quem compra ou pouca gente recebeu no sapatinho o que estava à espera. Mas dos que eu gosto mesmo é daqueles que vêm trocar um livro e perguntam: não dá para devolverem o dinheiro?

Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

O TAMANHO IMPORTA

Tive uma vez um amigo cá em casa que se mostrou muito espantado por, sendo eu viciado em música, não possuir um sistema de som de jeito. Palavras dele, com as quais concordei revelando igual admiração relativamente à antiguidade da melomania. Como é possível ter havido amantes de música antes do som quadrifonico ter sido inventado? Voltei a lembrar-me desta conversa ao ver hoje um casal, na garagem de um centro comercial, a tentar enfiar uma televisão do tamanho de uma parede num carro do tamanho de uma caixa de fósforos.

NA MESMA COMO A LESMA

Não quero saber de relações amorosas, só trazem ralações. Não quero saber de balanços nem de listas. Já toda a gente devia saber que são uma treta. O mundo continua a girar e nós vamos mantendo viva a ilusão de que vale a pena. De ano para ano, repetem-se os tiques, as datas, os feitos... As planificações repetem-se e as campanhas acompanham a rotina. Entre o Carnaval e o Natal há uma espécie de círculo onde vamos caminhando passiva e conformadamente. Por dedução somos hoje capazes de adivinhar o futuro com uma ínfima margem de erro. Querem apostar que o ano que vem nos reserva uma grande catástrofe natural seguida de impressionantes movimentos de solidariedade? Querem apostar que a Mariza será convidada num qualquer programa do Herman José? Querem apostar que o Medina Carreira continuará a frequentar os canais televisivos semeando a sua desesperança? Querem apostar que a Maria do Rosário descobrirá uma nova estrela da literatura portuguesa? Querem apostar que seremos roubados? Querem apostar que os jornais encontrarão os seus escândalos como um mendigo encontra pão para a boca? Querem apostar que os festivais de Verão terão lotação esgotada? Querem apostar que o Rui Santos dirá pelo menos um milhão de vezes "este é que é o mal do futebol português"? Querem apostar que o Moita Flores será chamado a comentar crimes hediondos? E que a poesia portuguesa continuará a ser o tema preferido de meia dúzia de idiotas? Querem apostar que pelo fim de ano do próximo ano voltaremos a ter listas dos melhores do ano que passou e balanços da década e parolices do género? Querem apostar que tudo continuará na mesma como a lesma?

Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010

AS FOTOCOPIADORAS DO STAPLES


Ensinaram-me que ser católico só traria vantagens. O paraíso após a morte, confessados todos os pecados. Um futuro risonho à minha espera. E nem preciso que seja virgem. Em Terra, ser crápula pouco vale. Posso atirar a primeira pedra, esperar que faça ricochete, posso cuspir contra o vento, posso até cobiçar a mulher do próximo… só tenho que ser, como Arturo, mais veloz que a morte. E o meu guia espiritual bem alvitrou: olha que a cristandade começa no reconhecimento do pecado. Reconheço, Senhor, todos os meus pecados, reconheço que meto frequentemente o pé na poça, que a toda a hora conspurco o meu nome e o nome dos demais, reconheço, Senhor, o quão péssimo exemplo sou para os vindouros, reconheço-o arrependido porque estou consciente de todos as minhas transgressões. Aceita o meu arrependimento, aceitarei o teu éden.

Da base desta política existencial brotam os caules dos abetos. Enraízam-se no estrume como o mal no sangue. É deles que surge o mais ignóbil dos mitos. Veja-se esse malogrado Sucre, apenas um entre tantos, perseguido pelas insónias como Lucky Luke pela sombra. Uma diferença os distingue: o primeiro foi menos lesto. A História reservou-lhe um lugar, tépido lugar, um lugar que a vida teimou em usurpar-lhe. Não lhe concederam o consolo do reconhecimento. Agora vomitam as enciclopédias, como sempre nestes casos, encómios do mais untuoso que se pode esperar. Que foi ignorado em vida, que os críticos assobiaram para o lado, mas que sempre esteve consciente do seu incomensurável talento. Um homem nascido antes de tempo, assim costumam falar as mulheres-a-dias de serviço. Depois da porcaria feita, alguém que limpe a casa.

A ignorância devia ser pecado mortal. Não é por ninguém crer realmente em pecados mortais, ninguém crê de verdade na imortalidade, ninguém espera de facto o Paraíso à porta da morte. É preciso ter uma grande lata para querer entrar no céu. Acrescentam as domésticas o reconhecimento póstumo, os elogios que o apanharam já na esquina do esquecimento. Ai a posteridade, a posteridade… Largos são os lábios da posteridade. Portanto, como Nietzsche, já diagnosticado de loucura, empurrado para a fatal agnosia: um dia compreenderão a minha voz. Por enquanto, faltam-nos ouvidos. Andam ocupados com outras músicas, músicas efémeras, imediatas, consoladoras, e delas se alimenta quem na vida foge ao sofrimento do desamparo, caminhando solitariamente para um abismo de indiferença. Y así, Ramos Sucre ya no podrá, como escribiera en su poema «El maldito», escapar de los hombres hasta después de muerto.

Que depois de morto lhe valha a vitória, ao maldito, herói deste tempo amesquinhado nas primeiras páginas da futilidade. Tragam aos escaparates a luz das litanias, saberão os comensais usufruir dos vossos conselhos. A caixa registadora aí está para confirmar o sucesso garantido das opções, o povo vai que nem carneiro atrás do bastão crítico dos pastores, são mais papas que o Papa, mais padrecos que o prior da Sé. Daí que me pareça muito máximo o aforismo de Baudelaire: «Ser um homem útil pareceu-me sempre algo de muito hediondo.» Porque ser útil mais não é do que prestar vassalagem à distracção, ao desvio melindroso das opções seguras, sem risco, meramente convencionais e previsíveis. A ninguém se pede o dom da futurologia, mas é no mínimo legítimo esperar que não andem todos com o cagalhão na tola a repetir enfatuadamente os mesmos títulos, as mesmas personagens, as mesmas capas, os mesmos editores.

A quem devemos o obséquio de tanta concordância? A quem devemos tanta coincidência omnisciente? Ninguém, entre vós, para fazer o papel de São Francisco de Assis? Pode ser que daqui a uns anos, já mortos, alguém como eu ignore os vossos nomes. E mais uma vez pense blá blá blá para o discurso dos heróis da indiferença. Pobres desgraçados, em vida uns andrajosos, em morte uns condecorados. Esperemos que nas avenidas nubladas do céu brilhem então suas medalhas penduradas como sinais: olhem para mim, andei por lá a comer raízes, agora estou farto de louvores. Vãs esperanças. Aos mortos nada se acrescenta, bom mesmo é que os esqueçam de uma vez por todas para que, lembrando-os tão frugalmente, não voltemos a sentir vergonha da nossa estúpida existência. Porque é isso que deve sentir quem lembra los críticos de su época, uns papa rissóis tão ao serviço da mercantilização do saber como as fotocopiadoras do Staples.

Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

BLÁ BLÁ BLÁ

Ramos Sucre, superficialmente juzgado por los críticos de su época, estaba consciente de la trascendencia de su obra poética, y el reconocimiento actual viene a confirmar la certeza de su pensamiento, cuando en carta a su hermano Lorenzo el 25 de octubre de 1929, afirma: «Creo en la potencia de mi facultad lírica. Sé muy bien que he creado una obra inmortal y que siquiera el triste consuelo de la gloria me recompensará de tantos dolores». Y así, Ramos Sucre ya no podrá, como escribiera en su poema «El maldito», escapar de los hombres hasta después de muerto. »»

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: VENEZUELA


Pois bem, o que por aí se diz, e eu não pude confirmar, é que José Antonio Ramos Sucre nasceu em 1890 na cidade portuária de Cumaná, capital do estado venezuelano de Sucre. Descendente directo do revolucionário Antonio José de Sucre, um dos heróis da independência latino-americana, teve no berço aristocrático a possibilidade de ir um pouco mais além nos estudos. Entregue a um tio padre, cursou Filosofia, Direito, línguas e doutorou-se em Ciências Políticas. Apesar de formado em Direito, nunca chegou a exercer. O pai morreu-lhe aos doze anos. Dedicou-se ao ensino de História, Geografia, Latim e Grego. A inclinação para as línguas (dominava várias) permitiu-lhe trabalhar como tradutor para o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Venezuela. Começou a publicar ensaios e poemas nas revistas e jornais de Caracas, tendo o primeiro livro, Trizas de papel, aparecido apenas em 1921. Trata-se de um volume que reúne aforismos, artigos breves e poemas em prosa num só corpo. Praticante exímio do poema em prosa, nunca viu o seu talento reconhecido pela crítica oficial. Coube às insónias o trabalho de reconhecimento. Assolado pela ansiedade e pela depressão, procurava desviar-se do desespero fazendo longas caminhadas nocturnas pelas ruas de Caracas. Foi publicando a expensas próprias os seus livros. Além do supracitado, a sua obra resume-se a mais quatro títulos: Sobre las huellas de Humboldt (1923), La torre de Timón (1925), Las formas del fuego (1929) e El cielo de esmalte (1929). La torre de Timón (1925) recompila os dois primeiros livros. Admirado por um grupo restrito de leitores, embora influentes, José Antonio Ramos Sucre foi nomeado cônsul da Venezuela em Genebra no ano de 1929. A estadia europeia não foi fácil. As insónias agravaram-se, levando-o ao internamento em clínicas de Hamburgo e de Merano, na Itália. As terapias sucessivas mostraram-se ineficazes e a 18 de Março Ramos Sucre tentou suicidar-se com uma sobredose de barbitúricos. Mesmo assim o sono nada quis com ele. Reincidiu a 9 de Junho, falecendo 4 dias depois em Genebra. Sobre ele disse José Bento: «Com uma precisão de linguagem e uma ousadia singulares, o abandono das formas correntes da poesia do seu tempo, e não só no seu país, um entendimento fecundo da poesia clássica e um abrir de vias à poesia moderna, Ramos Sucre é uma presença insólita na poesia contemporânea de língua espanhola». Quem mais para nos levar à Venezuela?


ÓMEGA


...Quando a morte acudir finalmente à minha súplica e seus avisos me tiverem preparado para a viagem solitária, invocarei um ser primaveril, com o fim de solicitar a assistência da harmonia de origem suprema, e um alívio infinito fará repousar o meu semblante.
...As minhas relíquias, ocultas no seio da escuridão e animadas de uma vida informe, responderão do seu desterro ao magnetismo de uma voz inquieta, proferida num litoral despido.
...A recordação eloquente, à semelhança de uma lua exígua sobre a vista de uma ave sonâmbula, perturbará o meu sono impessoal até à hora de me sumir, com o meu nome, no esquecimento solene.

José Antonio Ramos Sucre, in Hífen ─ Cadernos Semestrais de Poesia, n.º 7, trad. José Bento, Maio de 1992, p. 75.

Domingo, 26 de Dezembro de 2010

A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR, BANDINI

Perdoem-me os erros, que nada representam ao pé daquilo por que temos passado nos últimos tempos. Terminei agora mesmo a leitura de A Primavera há-de chegar, Bandini. Dos livros de John Fante que li até hoje, este foi aquele que menos me cativou. O facto de a acção se passar em plena época natalícia não ajuda. Tenho com o Natal uma relação semelhante à que cultivo com a política, abstenho-me antes que dê em doido. Seja como for, trata-se de um Fante. Há que dar o benefício da dúvida. Quem não estiver familiarizado com o universo do autor norte-americano (nasceu em Denver no ano da graça de 1909), saiba que há nele um sentido de humor que se revela ainda muito incipiente neste primeiro tomo da saga conhecida como The Bandini Quartet: Wait Until Spring, Bandini (1938), The Road to Los Angeles (apenas publicado em 1985, apesar de ter sido o primeiro a ser escrito), Ask the Dust (1939) e Dreams from Bunker Hill (1982). Também com tradução de Rui Pires Cabral, a Ahab tinha editado entre nós Ask the Dust (Pergunta ao Pó, 2009). Reincide agora na história de Arturo, alter-ego de John Fante, com A Primavera Há-de Chegar, Bandini (Setembro de 2010).

No centro das atenções está uma família, entre a qual se destaca o jovem Arturo, aqui com 14 anos. Os restantes são o pai Svevo, a mãe Maria e os dois irmãos August e Federico. Com as raízes na Itália, vivem em Rocklin, Colorado, as dificuldades da integração. São pobres, deslocados, mas orgulhosos. O narrador não poupa nas imagens que evidenciam essa pobreza. Ao primeiro parágrafo fala-nos dos «buracos nas solas das botas» do pai de família, um assentador de tijolos que gosta de beber o seu copo enquanto joga uma partida de póquer com os amigos italianos: «Estava enregelado e tinha buracos nas solas das botas. Nessa mesma manhã forrara as botas com pedaços de cartão de uma caixa de macarrão. O macarrão ainda não fora pago. Ao forrar as botas, não deixara de pensar nisso» (p. 13). Os pormenores são reveladores da prosa fria que nos espera. Não chega a John Fante dizer que as botas estavam rotas, é preciso reforçar a imagem da pobreza com uma caixa de macarrão que ainda não tinha sido pago.

Já a religiosidade de Maria Bandini, uma dona de casa remoída pelo ciúme, ocupada na educação dos três filhos, é-nos assim descrita: «Maria não precisava de livros nem revistas. Tinha o seu próprio meio de evasão, o seu caminho privado para a satisfação: o rosário» (p. 65). Na voz do narrador ecoam os sentimentos do mais rebelde dos três filhos: Arturo. Os complexos de integração perseguem-no. Preferia chamar-se John a Arturo, Jones a Bandini, preferia ser americano de gema, viver em Denver, preferia frequentar um liceu público a andar numa escola católica. Fala do pai tanto com admiração como com desprezo, fala da mãe com ternura e uma espécie de repugnância amordaçada. Há ainda Donna Toscana, a mãe de Maria, sogra de Svevo, com quem este não pode nem à distância. Uma inesperada visita da avó Donna, mulher de «língua venenosa como uma víbora», espoletará o conflito familiar sobre o qual se ergue a narrativa. No entanto, o pilar é frágil.

Muito mais interessante que as desavenças entre Svevo e Maria é a forma como Arturo vai crescendo interiormente na relação frustrada que mantém com o que o rodeia. Os melhores momentos do romance saltam da consciência de Arturo para a página. Desde logo a sua relação paradoxal com a religião. Veia herdada da mãe, a religião é no jovem Arturo uma ameaça incompreensível, fonte de inquietas reflexões e temores disparatados. O Capítulo Cinco é todo um tratado sobre as dúvidas religiosas que podem assolar um jovem da estirpe de Arturo Bandini: «Arturo Bandini estava bastante certo de que não iria para o Inferno depois de morrer. O Inferno era o destino daqueles que cometiam pecados mortais. Arturo sabia que tinha cometido muitos, mas a confissão salvava-o. Acreditava que chegaria sempre a tempo à confissão ─ ou seja, antes de morrer. E batia em madeira sempre que o assunto lhe acudia ao espírito ─ para garantir que chegaria sempre a tempo à confissão. Assim, Arturo estava bastante certo de que não iria para o Inferno depois de morrer. Por duas razões. Em primeiro lugar, a confissão; em segundo lugar, o facto de ser bastante veloz» (p. 93).

Infelizmente, parágrafos como o supracitado não abundam neste romance. Ao crescimento de Arturo, Fante prefere explorar paralelamente a relação conflituosa entre Svevo e Maria. O Natal conflituoso, cheio de provações e ausências, resvala amiúde num sentimentalismo de que o próprio narrador parece estar consciente. É como se não houvesse alternativa. O que aqui está em causa é a «linguagem da vida» (p. 176). A presença permanente da neve debaixo de solas rotas tinge o cenário e adensa o elemento essencial da obra: a esperança. No fundo, é disso que se trata quando falamos na Primavera por chegar. A esperança de que a família retome o seu curso, o pai volte a ter trabalho, a mãe volte a ser bonita, a amada ressuscite num qualquer recanto da memória, agora já não sumida no gelo, mas erguida no meio de vastos campos verdejantes, em flor. A Primavera por que Arturo anseia é um eco que ressoa sobre si próprio a vanidade da existência. Para se manter vivo, é preciso acreditar que a qualquer momento o Sol se ergue sobre o gelo e transforma a neve em água: elemento da vida. E a pergunta final só pode ser: que tipo de pecado é a esperança?
Escrito para o Rascunho.

BEIJO GRANDE

A grande dúvida que me atormenta neste momento, depois de ter aberto e lido dezenas de mensagens de boas festas, é como devo interpretar os beijinhos grandes que me fizeram chegar. Um beijo eu sei o que é. Um abraço também. Mas o que são beijos grandes? Linguados?

Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

SOM ROUCO


Fechara o caderno e abrira uma garrafa do melhor vinho para passar uma noite ao ouvido da música, como nos bons velhos tempos, poderia dizer (e era assim que agora os recordava, embora soubesse que nada foi como agora recorda). Num súbito acesso de alegria mentida, talvez pelo fluir do vinho, talvez porque o embalo da canção lhe despertasse um sorriso antigo, começou a dançar na sala sozinha e, alegria dobrada, arrebatado pela leveza ágil do desempenho exemplar, exacto no gesto, exacto na cadência, gritou como nos bons velhos tempos: Yeeaah. Ouviu um som rouco que lhe saiu da garganta, espécie de ronco de animal ferido. Por momentos, assustou-se com a sua própria voz. Mas logo retomou a tristeza como quem reencontra no espelho o rosto que sempre foi o seu. Desligou a música, abriu o caderno, e segurando o lápis, começou a escrever o som medonho que ouviu.

Jorge Roque, in Broto Sofro, com ilustrações de Guilherme Faria, Averno, Julho de 2008, p. 81.

Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010

UMA PAUSA PARA CAFÉ


Façamos uma pausa enquanto nos empanturramos em açúcar. Numa mão o cálice de álcool, na outra o cigarro. Gorduras, dióxido de carbono, corantes e conservantes. O café, as vitaminas, um analgésico para as feridas da cabeça. As nossas crianças estão sujeitas a todo o tipo de viroses: a televisão, os jogos, a literatura barata, e nós preocupados com a vida saudável. Primam o pause por instantes, brevíssimos instantes. Pensem por um segundo na quantidade de árvores abatidas para que todos os presentes possam ser embrulhados. Ponderem os custos. O papel não cai do céu, valha-nos Deus, não medra nos campos como batatas. Pensem no lixo produzido, multipliquem o lixo produzido nas vossas casas por centenas de milhares de fogos num só país, estendam os vossos pensamentos a todo um continente, acreditem na fome que começa no Norte de África e se prolonga até Sul como um osso que nunca viu músculo. Parece demagógico pensar assim. De certo modo será. Pensamo-lo enquanto fazemos do nosso trabalho a satisfação consumista de todos nós. Não chegam as batatas para a fome, delas há que sobram para a obesidade.

Primam o pause por instantes, parem todos os veículos, carros, comboios, tráfego aéreo, marítimo, cargueiros repletos de lixo tóxico, petroleiros derramando crude pelas veias da Terra, a droga que nos traz o vento, a trovoada, a intempérie, o caos, o medo, um incêndio, sirenes, raios de meter respeito, tornados e tudo o mais que nos possa ser dito sobre o que está suspenso na nossa meditação diária, momentânea, na nossa necessidade de dizer, nem que seja por breves instantes: foda-se, perdido por cem, perdido por mil. Encham a boca com as gerações futuras, mastiguem bem o discurso das gerações futuras, e enquanto digerem as gerações futuras cubram de mimos as gerações futuras com consolas, bonecas, playstations, amarcordes e apocalipses. Encham de açúcar as gerações futuras, empanturrem-nas em gordura e sumos refrigerantes, agasalhem bem as gorduras com todo o tipo de agasalhos previamente testados no cachaço animal. As gerações futuras hão-de agradecer todas as espécies extintas. Há-de vir a ser muito agradável, nostálgico, elegíaco, poético até, recordar no futuro o presente como se fosse passado e dizer: naquele tempo havia mamíferos de todas as espécies.

A incongruência, o espírito selectivo, o homem a encontrar o cão numa esquina e a imitá-lo, desejando ser como ele: doméstico. Um pause por instantes, brevíssimos instantes. Apetece baudelairizar, enrolar um charro, entregar os nervos ao ópio, escandalizar o tempo, alargar os horizontes, esticar a corda, apetece meter um fim a esta angústia parva, hipócrita, demagógica, apetece adornar o texto com todo o tipo de considerações filosóficas, objectiváveis, reflexivas… Na verdade, apetece mandar a lógica às favas e repetir o ditame: «o haxixe, como toda as alegrias solitárias, torna o indivíduo inútil para os homens e a sociedade supérflua ao indivíduo». Ah, sim, ser-se um inútil para os homens e viver de alegrias solitárias, punhetar o espírito e fazê-lo às escondidas, melindrar a relação social com a nossa indisfarçável inaptidão, ser-se assim como que um tipo fora de tudo, muito crânio, retórico, engraçado, humorístico, fazer de tudo um acto de brincar, coisa fofa e sorrir de dentinhos à mostra, com a mão no ombro da desobediência, descansar para a fotografia com a postura do ídolo que nos imaginamos ser.

Basto-nos chegar ao café onde nos sentimos confortáveis e pensar naqueles a quem escapa tal conforto, desejar que todos possam um dia vir a sentir o prazer de beber um café em silêncio, folhear a Primavera de Bandini enquanto na rua chove torrencialmente sobre um inesperado incêndio. Desejar que um dia todos possam premir o pause para que nas suas consciências tenha a semente do bom tempo oportunidade de crescer e dela se fazer a árvore que nela já se antevê, por ciência e dedução. Assim é que, sabendo dos males que o mundo arrasta, nos deixamos arrastar por ele como se fôssemos um bem. Tivéssemos um pingo de vergonha na cara, de vergonha séria e desesperada, perceberíamos logo que de bem temos apenas o mais ninguém senão nós poder aperceber-se do mal que é. Porque o homem que se pense a si próprio outra coisa não poderá concluir sobre si mesmo: é mau, ignóbil, dispensável, inútil, não tem qualquer valor. Se está vivo é por acaso, se está por acaso é para que se faça disso assunto muito sério. Deixá-lo viver… pausadamente, de preferência, e iludido o suficiente para que desiludido não seja arrebatado pela morte.

UM PRESENTE NO SAPATÃO

Hoje pediram-me um livro que foi escrito postumamente. Ainda por cima era de memórias. Talvez as de Brás Cubas, agora que penso no assunto. Mas o momento do dia passou-se com um colega. Um indivíduo de modos algo rústicos solicitou um exemplar de A Metamorfose. Com o livro nas mãos, não se rogou na manifestação de desagrado e espanto: tão pequeno? ─ protestou. Não vou oferecer uma coisa tão pequena, isto não tem jeito nenhum. Voltou-se para a primeira estante que viu, sacou a lombada mais larga (O Romance de Genji) e disse de sua justiça: isto sim, isto é que é uma prenda. Será. À fartazana. Este Natal Kafka não caberá no sapatinho de Murasaki Shikibu.

CONSELHOS E RESPOSTA A PEDIDOS DE CONSELHOS




«Deveremos pregar os bebés com pioneses?» pergunta-me J.O. na sua carta. Não, não vou responder a esta pergunta insidiosa. Já não me sinto em segurança, e mesmo que se tratasse duma borboleta, não responderia, embora ela tenha um voo particularmente enervante, do género «venho, não venho» e, sobre a asa, uma arte decorativa para bombeiros costureiras, não, a seu respeito também me não hão-de apanhar.
Quanto aos bebés, são eles a honra da nação. A futura honra. E se berram, é muito natural. Berros como as ondas do mar, com altos e baixos: é porque têm de tomar fôlego, irados como estão, e dar-nos a conhecer com veemência que lhes dói qualquer coisa. Berros como um apelo à luz: é porque esperam conseguir exprimi-lo, esvaziando assim o sofrimento.
Estes maus artistas criam. Infelizmente você assiste a essa criação. É grotesca. Cedo demais para os convencer do seu desagradável falhanço. Daqui por uns anos, estes falhados, por fim prudentes, hão-de renunciar à expressão para se dedicarem à mecânica ou à agricultura. É porém calamitoso que agora se obstinem.
Diz-me ainda J.O. na sua carta: «Eu passo-os por farinha. Será correcto? Atiro-os duma duna de areia muito alta. Assim já não se ouve a berraria nem a respiração, e o dia termina como numa igreja. Será correcto?»
Não, não respondo a este homem. A guerra, segundo penso, deve tê-lo enervado.
Vá lá, desculpo-o, mas que ele tenha cuidado.
Talvez nem toda a gente se mostre tão compreensiva como eu.

Henri Michaux, in O Retiro pelo Risco – Antologia Poética, org. Joëlle Ghazarian, trad. Júlio Henriques, Fenda, 1999, pp. 57-58.

Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: BÉLGICA


Eu gostava de ser Henri Michaux, de ter nascido na Bélgica em 1899. A Bélgica é um país pequeno e eu, ainda que não goste de belgas, gosto muito de dEUS… e de países pequenos. Também gosto de Michaux, chego mesmo a invejá-lo. Namur é uma cidade bonita para se nascer, tem belas catedrais e fica entre dois rios. A cidade onde eu nasci também tem um rio, mas é fraca de catedrais. E o rio cheira mal, por causa da indústria dos enchidos. Eu não fui educado por jesuítas, embora tivesse pensado ser padre. Não se admirem. Eu pensei em tudo. Chegou mesmo a passar-me pela cabeça ser freira. Tal como Michaux tive as minhas crises religiosas, revoltei-me contra todos os meus pais. Porém, ficam-se por aqui as semelhanças. A minha revolta foi sempre uma revolta como que estacionada nas suas paupérrimas circunstâncias. O belga pôs-se a andar para as Américas, percorreu África, a Índia, andou pela China e disso deu conta nos escritos que começou a publicar na revista Le Disque Vert. Eu já publiquei em várias revistas mas, infelizmente, nenhuma que se compare à Le Disque Vert. O nome soa-me tão bem. Os pais de Henri não gostavam da vida que ele levava. Os meus também nunca aprovaram a vida que levo. Henri mudou-se para Paris, Henrique ficou-se por Caldas da Rainha. Eu gostava de ser Henri Michaux, e só por isso fui professor, mas nem por isso cheguei a secretário. Também pintei; não escrevi para revistas avant-garde porque nunca houve disso na minha terra; mas lá como cá sempre houve quem do alto da sua imensa e inquestionável presciência soubesse decretar o que é ou não literatura. E o que Michaux escreveu não era, e o que eu escrevo está entre um ser e um não ser que ninguém declara porque ninguém liga peva ao que eu escrevo. Tiveste sorte Michaux, os teus detractores eram tipos interessados na tua não-literatura. Escreveste por onde andaste, andaste por onde escreveste. Arriscaste. Do desertor disseram os sábios: viajante incansável, desprendido (recusou todos os prémios literários que lhe atribuíram), cinéfilo, tímido, desajeitado, de saúde frágil, misantropo, consumidor generoso de éter, ópio, mescalina e letras (não necessariamente por esta ordem de prioridades). Escreveu e desenhou, desenhou e pintou, pintou e viajou «contra. Para expulsar de si a sua pátria, os apegos de toda a espécie e aquilo que nele, a contragosto, se fixou de cultura grega ou romana ou germânica ou de hábitos belgas». Os surrealistas viram nele qualquer coisa, ele viu qualquer coisa nos surrealistas, mas teve juízo e não se fixou. Um homem apto para a vida não se fixa em lugar algum. Fixar significa submeter, ou seja, negar a vida. Michaux e Marie-Louise, Michaux e Aline, na Argentina com Borges, no México com Paz, a primeira exposição em Paris (1937), Brasil, é fácil perder-lhe o rasto. Em 1943 casou-se com Marie-Louise Ferdière, enviúvou em 1947 na sequência de um trágico acidente: Marie-Louise morreu carbonizada, sozinha, em casa. Michaux adopta nacionalidade francesa em 1955. Micheline Phan Kim Chi será a sua derradeira companhia. Em 1972, a Fata Morgana começou a publicá-lo. Cioran dedicou-lhe algumas palavras. Nos seus textos a loucura sua, nos seus poemas a alienação ganha forma, nas suas palavras a experiência mística transcende as dicotomias que separam o corpo das realidades obscuras. É tudo nervo e transfronteiriço. É tudo vontade de viver e de experimentar. Daí a viagem, o culto do não-lugar, a recusa, o desenho e a palavra num só sopro. Morreu a 19 de Outubro de 1984, às 2 da manhã, vítima de enfarte. Três dias depois o mundo deu por isso:

UMA RAPARIGA SUBMISSA

A boca de depravação ainda não está de todo usada
o recolhido olhar não se apagou
o longo nariz sobre a cara
seguindo o percurso do ar respirado
dir-se-ia que o nariz escuta
que ouve o que está enterrado

A província ainda a envolve, a família...
ficou irmã
No lugar libertino para onde foi levada a rapariga submissa
vendo-a oferecida
como por milagre, e esperando submissa
homens que sonham com uma irmã que possam abraçar debaixo dos lençóis
Ela ausente, mantendo-se ao longe, sonhando com um mundo
sem choques, sem grosseria
onde não haveria cobiça nenhuma
No rosto, a aldeia
ficou
a aldeia, as folhagens,
a pacificação daquele pouco ruído
da pouca gente
do pouco tumulto
posta a nu a rapariga submissa no entanto ainda sob os véus
longos anos de modéstia nesse abrigo a guardam
cobrindo a tão grosseiramente desnudada
Apelos incestuosos que suscita sem pensar, e a perturbação
faz engrossar os sexos
rumo a ela, inacessível…
entrar nela, nela que devia ser respeitada
introduzir o órgão interdito, o que mais devia esconder-se
introduzi-lo entre as pernas distintas, sob o olhar sempre intruso
nela sempre um pouco ausente, a recolhida
nela que não se defende
nela macular a religiosa, profanar, aspiração antiga

Depois para ela sempre calma
o culpado (em segredo) se inclina agora calmo
e umas palavras se confiam, a ela que esquece
que esquece

Publicação póstuma (
Poésie 94, nº 51, 1994)


Henri Michaux, in O Retiro pelo Risco – Antologia Poética, org. Joëlle Ghazarian, trad. Júlio Henriques, Fenda, 1999, p. 135-136.

CAIM COM ACENTO IGUAL A QUEM

Há pessoas que se sentem indecisas entre Dostoievski e Nicholas Sparks, outros querem saber se podem enlouquecer se lerem o livro de S. Cripriano de trás para a frente e há aqueles que procuram o «Quem» do José Saramago. O Caim? ─ questiona o livreiro. Ou isso… ─ responde o estimado cliente, acrescentando: nunca sei onde é o acento.

WORTEN SEMPRE?

Há dois meses parti o monitor a um computador. Como tinha seguro, fui deixá-lo à Worten e comprei um disco externo para guardar tudo o que havia dentro do portátil magoado. Ontem liguei o disco externo pela segunda vez. Ardeu. Para recuperar o que lá está dentro preciso de um orçamento. Só o pedido vale 40€, o orçamento não faço a mínima ideia em quanto possa ficar. Não vou gastar 40€ para pedir um orçamento. Os tipos da Worten também não sabem por onde anda o portátil magoado. Magoado, perdido, eventualmente abandonado e só entre congéneres. Só podia ser meu. Não sei se voltarei à Worten. É possível que ainda me cobrem por isso.

Domingo, 19 de Dezembro de 2010

UM POEMA DE DYLAN THOMAS

Dylan Thomas é intraduzível. Qualquer tentativa de tradução dos seus poemas deve ser considerada um crime de lesa poesia. Porém a carne é fraca e, por vezes, a gente mete-se a pensar como poderia ser em português uma música que não aceita outra língua senão a que lhe é própria. O meu perdão antecipado aos puristas:

HOUVE UM TEMPO

Em que época puderam os bailarinos com seus violinos
suspender os problemas nos parques infantis?
Houve um tempo em que podiam chorar sobre os livros,
mas o tempo gerou uma larva nos seus caminhos.
Estão inseguros sob o arco dos céus.
É mais seguro o que nesta vida fica por conhecer.
Sob os signos celestes aqueles que não têm armas
têm as mãos limpas, e, como o fantasma impiedoso
que sozinho fica ileso, também os cegos vêem melhor
.


Dylan Thomas, versão de Was there a time, datado de Dezembro de 1935, in Collected Poems 1934-1953, Phoenix, 2000.

NATAL DOS CENTROS COMERCIAIS #2

As renas do Pai Natal foram substituídas por uma girafa gigante, prateada, luzente. O velho tem barbas postiças, anda com um badalo na mão e soa como se fosse uma vaca. Pousa para a fotografia, as crianças sentam-se ao seu colo mas, infelizmente, nenhuma delas se lembrou ainda de lhe puxar as barbas. Dantes, o Pai Natal entrava de mansinho pelas chaminés. Agora é um exibicionista da pior espécie. Só lhe falta fazer como o pinguim do espectáculo montado logo ali ao lado. Sobe para o palco, dá ao rabo, agita as ancas gordas e acena às criancinhas sob uma cassete que vai repetindo várias vezes ao dia. Cenário humano mais deprimente é difícil de imaginar neste contexto consumista. Vem gente de todos os lados, formam filas intermináveis, não percebo como aguentam a espera para entrar no Inferno. Depois irritam-se, gritam com os putos compreensivelmente anestesiados pelas luzes e cativos das inúmeras ofertas. Também os pais, por mais que o procurem disfarçar, não resistem ao apelo. Babam-se por tudo o que seja pechincha, andam de olhos esbugalhados, parecem feras esfomeadas. Se for preciso, as pessoas tropeçam-se umas às outras por causa de uma caixa de camarão a preço de saldo. Hão-de apanhar valentes diarreias, gastroenterites, e é bem-feita. Pelo cu hão-de expelir a sua máxima insensatez.

NATAL DOS CENTROS COMERCIAIS #1

Para que servem autoridades como a ASAE ou a ACT? Quase sempre para chatear quem trabalha, sacar umas multas a troco de picuinhices, servir de trampolim a indivíduos ambiciosos, satisfazer os impulsos de poder de uns quantos crápulas. Há praticamente um mês que ando a trabalhar num centro comercial onde a sujeição permanente ao ruído é simplesmente intolerável. Já houve queixas. Alguém apareceu?

Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010

GRAMÁTICA DO TEMPO: TOPs


É tudo uma questão de coerência. Admito que alguém possa ser coerente na sua incoerência, mas nem por isso o padrão disfarça o espírito. A Perda de Auréola, de Baudelaire, começa com uma manifestação de espanto. Está em causa o lugar. Tu aqui? Num lugar reles! É como se alguém estivesse a apontar o dedo ao hipócrita. Então, andas a moralizar o mundo, a sublimar a realidade, a ver anjos onde os outros vêem sombras, e agora vejo-te no meio da lama. O acusado defende-se: «a minha auréola, num movimento brusco, caiu-me da cabeça no lodo do macadame». Culpa o trânsito, o movimento, a confusão, a agitação, as pressas, o fumo emitido pelas chaminés, a rotina, a produção em série. Percebemos nos interstícios da sua explicação o tubo de escape da máquina fabril, uma nova forma de escravatura emergindo no seio das sociedades ditas desenvolvidas, a cronometragem dos gestos, os horários, cada passo medido em função das circunstâncias, as tabelas, a hierarquização das forças no corpo produtivo, aquilo a que à distância de hoje chamamos revolução industrial, entretanto substituída por uma revolução tecnológica que não nos há-de retirar de onde sempre estivemos: o charco das justificações.

Primeira tarefa do dia: picar o ponto, chegar a horas para sair a desoras. Este anjo humanizado, antes de se afirmar semelhante a nós, simples mortais, entregue à crápula, vê na sua humanização um mal que vem por bem. Agora pode passear-se incógnito: «julguei menos desagradável perder as minhas insígnias do que partir os ossos»… a apanhar a auréola caída na lama. Para quê reclamar a perda? O remate é irónico: «a dignidade aborrece-me. E também penso com satisfação que algum poetastro a vai apanhar e cobrir-se com ela impudentemente». Diverte-se com o equívoco quem assim fala, mas o que não falta, ainda hoje, passados tantos anos sobre este extraordinário texto, é poetastros aureolados. Quem diz poetastros pode dizer muitas coisas, as actividades de um homem não determinam a gramática do tempo. Passa-se que a perda de auréola definha, como uma espécie de símbolo esbatido pela evidência, sob as palmas dos pés dos aureolados. As sociedades ocidentais sempre careceram de heróis, premeiam sazonalmente as suas esferas, fazem deste e daquele medalhado exemplo para os demais, não sobrevivem sem os seus homens do ano, figuras do ano, poetas do ano, livros do ano, filmes do ano, factos do ano, tragédias do ano, num contexto promocional que procura ser pedagógico, didáctico e, assim sendo, deformador do riso que não pode ser subtraído à vida.

Soldadinhos de trazer por casa, os fardados da sociedade servil alimentam-se de esperanças vãs. Com os prémios pendurados na parede e as insígnias espalhadas pela farda, talvez se julguem um pouco menos mortais. Mas a lama é gulosa e democrática, há-de absorver tanto o peso pesado como o peso pluma. Ganham, obviamente, a baba dos elogios e a massagem do reconhecimento fátuo. A perda de auréola no lodo do macadame industrial é um daqueles anúncios eivados de esperança vã, um pouco semelhante à declaração de morte que Nietzsche passou a Deus. O filósofo mediu o pulso à divindade e disse morto o Criador. No fundo, era essa a sua vontade. Mas o fundo não se reduz à vontade dos filósofos, por mais apreciáveis que sejam os seus decretos. Já o poeta mediu o pulso ao sublime e declarou a morte do Anjo, figura romântica por excelência de um elo à divindade que Baudelaire esperava desfazer de uma vez por todos. Cada qual, assim como muitos outros antes deles, nas vãs esperanças das suas ambições, sonharam mais do que puderam. De que lhes valeu a ousadia? Morreram miseravelmente, não menos miseravelmente terão vivido.

Quem olhar hoje para o mundo percebe que a ideia de Deus e de homens divinos, sejam eles heróis, anjos ou simplesmente ídolos, faz parte de uma mercantilização do estatuto que assegura a velha, mas sempre pertinente, dialéctica do senhor e do escravo. Os que estão por cima promovem a ignorância dos que estão por baixo, esperando muito serviço e pouca interrogação, procuram calar na raiz o desespero, dizendo que não vale a pena interrogar, questionar, espicaçar, insurgir-se contra a fatal organização do mundo. A submissão pode abrir caminhos que a insubordinação não desbrava. Se esperas ser reconhecido por mim, faz de forma a que as minhas expectativas não sejam defraudadas. É preciso pôr gosto na defraudação das expectativas, fazer da desilusão um prazer. Deus castiga os que não procuram ser senão anjos. Desejemos então o castigo, depenemos os anjos. Levante-se o réu, manda o juiz. Levante-se você, seu filho da puta, retorque João César Monteiro, espírito raro que perdeu na lama a auréola que uns poucos lhe recuperam. Aqui, agora, de vez em quando, prosando por vingança, seja nosso prémio o não sermos bajulados. De todos será o esquecimento. A Morte é, de facto, a única que a nada se reduz. Viver bem a vida pode ser não lhe dar utilidade alguma.

CADA POVO TEM AQUILO QUE MERECE


São variadíssimas as razões para não se votar em Cavaco nas próximas eleições. Foi um primeiro-ministro medíocre a quem devemos grande parte do que temos hoje, um país desperdiçado em cursos de formação profissional inúteis, distribuição de subsídios à la carte, negociatas obscuras com bancos falidos, corruptelas ministeriais para todos os gostos, uma oligarquia burocrática, conservadora e hierárquica onde os de baixo se afogam na baba dos que estão por cima. É uma figurinha cinzenta e conservadora, um triste espírito bolorento sem o dom da palavra, um indivíduo sensaborão que só representa bem Portugal no que Portugal tem de mais português: a saloiice, a falta de cultura, o culto da mediania que subsidia tanto a manipulação e a arbitrariedade dos agiotas como a submissão e o conformismo dos paus-mandados. Há muitos tristes episódios do professor carranca no YouTube. É difícil escolher um que seja sintomático do tipo de criatura que estamos a falar. Eu gosto destes dois. Olhem para aquilo e pensem: é o Presidente da República do nosso país.

CANDIDATOS

Será que não se sentem sumamente ridículos quando, sabendo da inevitabilidade da derrota, encerram os debates dizendo o que farão enquanto presidentes da república?

Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

APANHAR O COMBOIO



Nunca tal me sucedeu: começo a tropeçar num estado de auto-censura. Não sei o que se passa, mas passa-se qualquer coisa. Para mim o problema já não é se devo ou não escrever isto ou aquilo, mas como libertar-me novamente dos grilhões profissionais e domésticos que me impedem a escrita. Talvez não seja má ideia começar precisamente por aqui.

«CÂNTICO NEGRO»

Cago na juventude e na contestação
e também me cago em Jean-Luc Godard.
Minha alma é um gabinete secreto
e murado à prova de som
e de Mao-Tsé-Tung. Pelas paredes
nem uma só gravura de Lichtenstein
ou Warhol. Nas prateleiras
entre livros bafientos e descoloridos
não encontrareis decerto os nomes
de Marcuse e Cohn-Bendit. Nebulosos
volumes de qualquer filósofo
maldito, vários poetas graves
e solenes, recrutados entre chineses
do período T'ang, isabelinos,
arcaicos, renascentistas, protonotários
- esses abundam. De pop apenas
o saltar da rolha na garrafa
de verdasco. Porque eu teimo,
recuso e não alinho. Sou só.
Não parcialmente, mas rigorosamente
só, anomalia desértica em plena leiva.
Não entro na forma, não acerto o passo,
não submeto a dureza agreste do que escrevo
ao sabor da maioria. Prefiro as minorias.
De alguns. De poucos. De um só se necessário
for. Tenho esperança porém; um dia
compreendereis o significado profundo da minha
originalidade: I am really the Underground.


Rui Knopfli, do livro Mangas Verdes com Sal (1969), in Obra Poética, IN-CM, Fevereiro de 2003, p. 270.

DEIXA-OS POUSAR

É bom afastarmo-nos um pouco. A realidade, vista à distância, adquire uma outra dimensão. Morreu Carlos Pinto Coelho. Em Portugal politiza-se tudo, a WikiLeaks, que na boca do presidente Lula parece uma canção dos Buraka Som Sistema, é grega e troiana mesmo em território neutro. Até a morte do Carlos Pinto Coelho pode ser politizada. Esta tendência aparentemente intransponível para o maniqueísmo faz da sociedade civil portuguesa uma cosia em forma de assim. Quando os americanos invadiram o Iraque, sob mentiras que só João Pereira Coutinho, no deslizar da sua testa desinfectada, pode continuar a acreditar terem sido verdades, ou se era pró ou anti-americano. A história repete-se. O Carlos Pinto Coelho morreu. Ou se é pró ou anti Pinto Coelho. Depois mistura-se tudo, escutas ilegítimas com tráfego de informação, pirataria informática com jornalismo sensacionalista, política de terra queimada com intriga palaciana. O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo e o Pitta lembra-nos que andamos todos a pagar o ensino privado dos que não querem andar no público. É do bom senso. Francisco José Viegas faz o pleno. No mesmo dia, apanho-o na Antena 1 a falar de livros, no Q a falar de bola, na TVI24 a falar de política, no blog a repetir o que perorou na 1, na I, no Q… e na LER. Já está ao nível de um Pacheco Pereira, autênticos homens da renascença em pleno séc. XXI espalhando pelas avenidas da informação o seu flagrante bom senso. Portanto, o lobo é o Assange e cordeiros todos os visados. Coitados. Isto, de facto, não restam dúvidas: o mundo está bom é para se estar fora dele. E deixá-los falar.

Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

BALADA DOS JOVENS REBELDES

Chatice, nova rabecada do chefe.
Na esquina a malta alarve
dos medíocres. Somos os medíocres.
Os que ficamos à esquina, o tempo
passando por nós, nós
de patilhas e blue jeans e gargalhadas
estridentes. No escritório
a factura e o número. Interpondo-se
entre eles, a solicitação móbil
dumas coxas morenas. A sugestão
dum seio agressivo sob o tecido azul.
A factura, o erro, a rabecada
do chefe. Esqueçamos
as tragédias do asfalto,
as tragédias nos tugúrios,
gente com fome, gente
com indigestão de canapés. Arrotos
a caviar e champanhe.
Ah, esqueçamos.
Os dedos nervosos, no gesto estudado,
passando através dos cabelos. O blusão,
a pulseira de cabedal, nós
à esquina. Gargalhadas brutais.
Rock-a-bye babie, blue
and sentimental. O tacão
martelando o solo, à esquina.
A vida passando na rua
a nosso lado. Nós a dialéctica
do blusão e das patilhas.
Eh malta! Vamos às pretas?


Rui Knopfli, do livro Reino Submarino (1962), in Obra Poética, IN-CM, Fevereiro de 2003, p. 149.

A5

Tem livros em formato A5?

UM ARTIGO

Sobre Nicanor Parra, sugerido pelo Rui Manuel Amaral. Agradecido:

Hace mucho que Parra está de vuelta de toda vanidad ligada al hecho de publicar. Nadie mejor que él sabe de la condición utópica que lleva aparejada la iniciativa de reunir sus obras completas. La obra de Parra, la más libre y radical de toda la poesía escrita en español durante el último siglo, se resiste a ser fijada y encuadernada. Pese a lo cual, leer en secuencia los libros que ha consentido publicar en el transcurso de más de medio siglo, constituye una experiencia irreversible, trastornadora de todas las ideas que circulan comúnmente acerca de qué es y qué deja de ser poesía. Quizá debido a esto, el más grande poeta vivo de la lengua -como ha sido saludado por voces muy autorizadas- sigue siendo poco leído e insuficientemente apreciado en España. Una y otra vez me han preguntado las razones de que así sea, y todas las explicaciones que he sido capaz de aportar aluden a una incomprensión de sus propósitos y de sus alcances, propiciada por un previo malentendido acerca de qué cosa sea la lírica y cuál la relación de la palabra poética con el habla. No pretendo que en España no haya lectores receptivos a la antipoesía y buenos entendedores del programa que subyace a ella, el más subversivo y renovador de la poesía latinoamericana. Lo que sí digo es que los rumbos de la poesía española han desatendido en general -por razones penosas de explicitar- la propuesta de Parra, y que el estado de opinión más general acerca de ella es un amasijo de tópicos apenas dignos de ser rebatidos. (Aqui)

ESTÁ MAU, MAS NÃO TANTO

Um fenómeno relativamente recente é o facto de muitos livros começarem a já não aparecer nas Fnac e Bertrand do Porto. Vê-se isso, por exemplo, na poesia.
É um facto que o Porto é marginal. É uma questão de escala, de dimensão, de poder de compra. É um fatalismo. Se me perguntar se daqui a dez anos ainda se edita poesia em Portugal, dir-lhe-ei que não. Quando muito, teremos algumas edições artesanais.
Mas também têm nascido pequenas livrarias especializadas.
E haverá mercado para isso. Para o tipo que faz uma edição de 30 ou 50 exemplares, que os amantes de poesia comprarão.

Vasco Teixeira, responsável editorial da Porto Editora


Quem assim fala editou no ano que passou uma coisa chamada Poemas Portugueses. No catálogo de Natal da Bertrand constam livros tais como Mensagem (Edição Comentada, Comemorativa do 75º Aniversário da Morte de Fernando Pessoa), Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen, Uma Viagem à Índia, Ofício Cantante - Poesia Completa, este último numa secção intitulada «0s melhores da década». Daqui a dez anos, talvez nada disto seja possível, talvez estejamos todos mortos, talvez os porcos tenham ganhado asas e voem sobre os céus da nação. Portanto, se fizer favor, multiplique lá os 30 por 10 ou os 50 por 3.

VENEZA, AGOSTO DE 1998


O que é que isto tem de cliché? Já agora, este momento deu em poema.

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: MOÇAMBIQUE

Moçambique tem-nos oferecido muitos poetas: Rui de Noronha (Lourenço Marques, actual Maputo, 1909), Salette Tavares (Lourenço Marques, 1922), José Craveirinha (Lourenço Marques, 1922), Alberto de Lacerda (Ilha de Moçambique, 1928), Eugénio Lisboa (Lourenço Marques, 1930), Rui Knopfli (Inhambane, 1932), Heliodoro Baptista (Gonhame, 1944), Eduardo Pitta (Lourenço Marques, 1949), Luís Carlos Patraquim (Lourenço Marques, 1953), Fernando Luís Sampaio (1960), Paulo Teixeira (Lourenço Marques, 1962), Paulo Moreiras (Lourenço Marques, 1969)… De uns, dificilmente se dirá que são poetas moçambicanos. De outros, dir-se-á que são de lugar nenhum. É o que de me melhor vestem os poetas, a batina de nenhures. Dos supra, há um que aprecio particularmente, pelo menos tanto quanto aprecio aqueles que para mim são os melhores. Comecei a lê-lo somente em 1997, com a publicação de O Monhé das Cobras (1997). Por essa obra de síntese, se assim é justo dizê-lo, perpassava uma redentora nostalgia que ao invés do lirismo melancólico de alguma poesia balofa, nada tinha de auto-complacente. Antes pelo contrário. Nesse conjunto de poemas, o poeta moçambicano relia o passado à luz de um olhar afiado pelos gumes da ironia e do exame. Livro de arrumos, tempo de autópsia antecipada, exame de consciência, memórias, talvez. Se é legítimo falar de um perfume elegíaco nesse livro, não menos será se o encararmos na sua vertente mais sinóptica daquilo «que é central em toda a obra de Rui Knopfli: a extraterritorialidade, o não pertencer a uma pátria, a colisão obrigatória e inevitável com uma linguagem pura, rectificada, censurada» (Francisco José Viegas). Estes elementos tornaram-se patentes após a leitura da Obra Poética. Rui Knopfli ficará como o poeta do não-lugar. A sua poesia, inicialmente sarcástica e quotidiana, mais problemática após A Ilha de Próspero (1972), coloca em evidência a não-pertença, o não-lugar, condição de uma originalidade e autenticidade que requerem uma total independência dos aguilhões das confrarias, sejam elas literárias, geográficas ou ambas as coisas. Não são de espantar as considerações de Jorge de Sena aquando de uma passagem por Moçambique: «Penso, e talvez isto não agrade muito em Lisboa, que não há hoje, em português, muitos poetas mais jovens da categoria de um Rui Knopfli, da mesma forma que penso que não há muitos críticos em Lisboa da categoria de Eugénio Lisboa aqui. Simplesmente isto em Lisboa não se sabe e até é, digamos, herético dizer-se porque, por definição, todos eles, sejam de que cor forem, são melhores que o resto do mundo porque estão lá. É só, e por mais razão alguma». Pouco mudou. Serve-nos de lugar o não-lugar knopfliano. Na sua poesia tanto é apátrida o homem, dito ser ontológico, como o sujeito poético. Entendido o lugar à maneira de Heidegger, ou seja, como «o “aqui” e “lá” determinados a que pertence um instrumento», podemos falar então de um lugar possível para quem a nada pertence. O seu espaço não tem limites e o seu tempo não é mensurável. Para já, deixo este:

NATURALIDADE

Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável… Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeus? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.


Do livro O País dos Outros (1959)

MENINOS DO PAPÁ

Há tempos, apanhado no meio de uma desagradável provocação, perguntaram-me se o meu pai não era uma referência para mim. Respondi prontamente que não. De resto, sempre detestei meninos do papá. É verdade que não se é necessariamente menino do papá por se trazer a figura do progenitor pendurada ao peito, mas acaba sempre por ser meio caminho andado. Gosto muito do meu pai, admiro-o, mas detestaria ser como ele. Em conversa com o Tolan, após uma caldeirada recheada e entre dois uísques (para ele) / conhaques (para mim), não pude certo dia deixar de concordar com esta evidência: não acredito em nenhum gajo que a determinada altura da vida não se revolte contra os pais. É condição essencial do crescimento revoltarmo-nos contra os nossos pais. Se as minhas filhas nunca se revoltarem contra mim, revoltar-me-ei eu contra elas. Há-de ser o bonito. Hoje tive um sonho sobre isto. É um sonho estranho, mas concluí que era sobre isto devido a variadíssimos elementos simbólicos que os leitores que não são meninos do papá ou da mamã facilmente compreenderão. Passo a descrevê-lo:

Regressei à terra dos pais, onde fui encontrar todos os meus cães desaparecidos. Um deles, o Fadista, outrora de pêlo negro farfalhudo, tinha agora o pêlo todo rapado. Atirou-se-me às faces para me lamber as lágrimas que me escorriam dos olhos. Eu trazia uma Bíblia na mão, que deixei cair e nunca mais procurei. Entretanto, reparei nuns aglomerados de gente sentada em torno de fogueiras. Caminhei na direcção desses grupos, os quais pareciam estar em retiro, e passei por eles indiferente. Sozinho, separado dos demais, a comer qualquer coisa de uma lancheira, vi o Mário Viegas. Dei um murro na lancheira e fechei-a. O Mário Viegas olhou-me de soslaio, como que indagando quem seria eu e o que faria ali. Comecei a descer o vale e reparei numa série de vedações. Transpus uma, em arame farpado, e subi para uma extensa escadaria de madeira. Do outro lado da escadaria, um tipo gordo, que julgo ser um meu familiar afastado, apregoava um combate de boxe entre duas mulheres. Não liguei. Atentei-me antes a umas faíscas que pareciam sair do chão no sopé do vale. Como estava escuro, não consegui perceber o que seria. Pareciam faíscas de soldadura, em jactos mais largos, verticais, altos. Fogo de artifício? Subitamente desapareceram e do seu lugar vi sair um carro do lixo. Fui então acordado pela minha filha, que me dizia ter descoberto o sentido da vida: nascemos para viver, morremos para descansar.

Domingo, 12 de Dezembro de 2010

O LUGAR-COMUM

Todos os lugares-comuns são estúpidos, embora nas cidades que tossem representem uma certa forma de inteligência. Inclusive aquele de reconhecer ao lugar-comum uma ponta de verdade simplesmente por ser comum. O mundo está pejado de estapafúrdicos lugares-comuns e o que é comum não deixa de ser estapafúrdico só por ser comum. Deus é um lugar-comum, tal como o Pai Natal. No entanto, a generalidade das pessoas não consegue ver para lá do lugar-comum. Este deverá ser um lugar de encontro e uma ferramenta de partilha. Enquanto lugar de encontro é apenas a negação da personalidade, é a demissão de um pensamento autónomo pela submissão a um pensamento comum. O lugar-comum é sinónimo de submissão, de preguiça, de irresponsabilidade e indiferença, de abdicação, de apostasia. Como nas cidades que tossem circula a presunção de que já tudo foi criado, imaginado e pensado, nada poderá então ser original. Assim o decreta o império do lugar-comum. As pessoas apreciam-no porque são preguiçosas, porque o lugar-comum proporciona-lhes abstenção, dá-lhes um certo conforto e alguma consolação, não as obriga a esforços complementares. As pessoas gostam de sentir que pensam o mesmo que os outros ou que os outros pensam o mesmo que elas. Julgam-se mais integradas por se verem repetidas no "discurso oficial", não percebendo que, no fundo, são apenas sombra de banalidades e trivialidades sem qualquer efeito prático. Verdade seja dita: nas cidades que tossem o lugar-comum não é trivial, é curricular, visionário, poderoso, persuasivo, profético. O cidadão tossegoso não está interessado em mundos perfeitos. Julga que a perfeição é um ideal filosófico meramente conjecturável. Por isso, toca de arrumar as utopias no fundo de arcas bafientas. As utopias não servem as cidades que tossem, estas são e estão servidas pelo congregacional lugar-comum. Nada de fracturas! Vivam os homens que opinam sobre tudo não dizendo peva. Mestres do lugar-comum, vinculam a ilusão de um saber partilhável. Partilhável? Partilhar é proporcionar ao outro aquilo que ele não tem. O lugar-comum é de todos, ainda que, por isso mesmo, não seja de ninguém. Logo, não se partilha. Ninguém pode partilhar aquilo que não tem nem aquilo que é de todos. Excepto nas cidades que tossem. Um dos lugares-comuns mais frequentes nas cidades que tossem é este: só damos valor às coisas quando não as temos. Este lugar-comum não só é falso como é arrogantemente dissimulador. Pretende dissimular duas evidências: que não damos valor a nada senão a nós próprios, que somos completamente indiferentes à perda. O tempo tudo cura, dizemos. É outro lugar-comum que nega o primeiro, na medida em que afirma que o esquecimento é mais forte do que o poder de lembrar. Quando perdemos uma coisa, das duas uma: ou investimos prontamente em algo que a substitua ou, pura e simplesmente, limitamo-nos a deixar que o esquecimento faça o seu trabalho. Porque o sentimento de perda não valida o outro, apenas denuncia um desconforto íntimo e pessoal. Ninguém sente a falta de um outro. As pessoas sentem falta de algo que faz parte de si próprias, ou seja, sentem-se na falta de uma parte de si próprias. E este egoísmo é a raiz das cidades que tossem.

Escrito para O Indesmentível.

Sábado, 11 de Dezembro de 2010

OS CRIMINOSOS


ROUBAR/ENGANAR

Detesto quando me roubam, mais ainda quando me enganam. Nem sempre nos enganam quando nos roubam, mas sempre nos roubam quando nos enganam.

REGIME DE EXCEPÇÕES

Camarada Van Zeller, deixe que lhe diga: ando, como dizê-lo?, embasbacado. Não será bem o termo. Boquiaberto, talvez, embora essa condição se deva mais ao nariz entupido que aos reais motivos que aqui me trazem. Ando atolado de espanto e estacado de assombro. Vocelência veja, o mundo não está para menos. A médio Tejo um tornado resolve varrer tudo o que apanha pela frente deixando atrás de si um caos estimulante, em Espanha os controladores de voo põem em prática o que o poeta tinha posto em poesia, do ar caem bocados de um avião angolano, o Nobel da Paz foi entregue a uma cadeira vazia, os quadros de Picasso ficam por leiloar por causa de um electricista, o Messias chame-se Assange é louro e nasceu na Oceania, a França e a Alemanha recusam continuar a contribuir para o salvamento do euro, o euro está com falta de ar, em Portugal publicam-se livros que lembram o escudo, caem-nos lágrimas dos olhos, a nostalgia é uma ferramenta poderosíssima, a PSP foi ao Martim Moniz deter um indivíduo e identificar umas centenas, tememos que se tivesse ido à AR teria detido umas centenas e identificado 1 indivíduo, provavelmente o Manuel Alegre que, curiosamente, tem andado com um ar bastante pesaroso… Há remédio santo: ouvir o professor Marcelo aconselhar juizinho ao PSD, algo semelhante a ouvir a Dra. Jennifer Melfi aconselhar juizinho ao Anthony Soprano. Mas a cereja no topo do bolo é a nova ideia para resolver a crise (começo a pensar que já não há grande diferença entre dizer ideia para resolver a crise e ideia para a crise). Ei-la: «Patrões da indústria dizem que fundo para financiar despedimentos tem “pernas para andar”». A minha mulher ouviu isto e ficou com a periquitos aos saltos. A passarinha só amainou as pernitas para andar quando eu lhe expliquei o processo. Temo, camarada Van Zeller, que lhe agrade a medida. Ora tope lá o esquema: eu sou seu empregado, você quer-me despedir, o Estado dá-lhe do meu dinheiro para que você me possa despedir. Portanto, não só vou para a rua como ainda lhe pago para ser despedido. No fundo, faz sentido. É um serviço que me estão a prestar. Ser despedido é agradável, é um serviço público incomparável, é uma reforma antecipada, é meio caminho andado para a boa vida. Jovem, queres um emprego? Trabalha de graça. Jovem, vais ser despedido? Paga para isso. Porque não há-de um cidadão pagar para ser despedido? O desemprego só traz coisas boas. Podemos passar mais tempo a ver televisão, passear junto à falésia, ler o jornal na esplanada do café preferido, apurar as circunferências em torno de anúncios de emprego, piscar o olho às miúdas, lubrificar a imaginação enquanto magicamos mil e uma maneiras de nos suicidarmos. Tudo vantagens. Portanto, estou pronto para pagar à minha entidade patronal para que ela me possa despedir. Até porque cada vez mais se confirma que não haverá regime de excepções para o salário mínimo, continuarei a ganhar menos de 500€ por mês. Um futuro promissor. Os regimes de excepções não são para a gosma, a ralé, a escória, o lumpen. Não senhores. Excepções a quem as trabalha. E mai' nada.

OPERAÇÃO VERDADE OCULTA

Os que agora se revoltam contra o WikiLeaks, transformando Julian Assange num Freddy Krueger dos tempos modernos, são praticamente os mesmos que apoiaram os Irmãos Dalton (Bush, Barroso, Blair, Aznar) aquando da invasão do Iraque. Não sei se é por serem néscios ou diligentes, mas está claro que tanto apreciam viver sob a mentira como manter a verdade oculta.

Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

UMA QUESTÃO DE NÍVEL

Algumas das pessoas que me conhecem apontam-me uma ligeira inclinação para a misantropia, outras dizem-me simplesmente anti-social. Tenderia a concordar com elas não fosse o caso de me ter convencido de que, ao contrário, a sociedade é que é anti-eu. Evito ajuntamentos, detesto multidões, os agrupamentos ou aglomerados causam-me claustrofobia. Nunca fui a uma manifestação. Nos concertos, quando é para ficar de pé, escolho sempre o lugar mais resguardado possível. E em salas fechadas, se for para ficar sentado, só me apanham nas coxias. Em suma, não desprezo o ser humano. Apenas procuro evitá-lo, começando por mim próprio.

Quando era professor, se havia lugar onde não punha os pés, esse lugar era a sala de professores. Detestava o convívio com aquela gente emproada que fazia questão de dizer, pelo menos vinte vezes ao dia, a profissão que tinha, como se isso lhes garantisse um qualquer estatuto social que eu nunca vislumbrei. Depois tratavam-se por colegas, o que me irritava particularmente. Um colega é um tipo porreiro com quem gostamos de partilhar factos da vida, não é um qualquer energúmeno que oportunistamente nos atraiçoa ou diminui sem qualquer tipo de escrúpulo moral. Sempre achei que não queria conviver com os… colegas... porque detestaria transformar-me num deles. Também foi por isso que deixei de dar aulas, embora seja hoje obrigado a reconhecer que foi pior a emenda do que o soneto.

O ar que se respira nas redacções chega a ser mais poluente do que o ar nas salas de professores. Andei dez anos pelas redacções. Primeiro em jornais, depois em revistas. Havia de tudo um pouco: senadores de aspecto altivo com a presunção de uma sabedoria facilmente desmontável, putos ambiciosos capazes de vender os próprios pais em troca de um elogio da direcção, meninas sonsas e intriguistas sempre à coca de oportunidades, gente que funcionava a créditos, como as máquinas de flippers… Mas o que mais me irritava não era este melting pot microscópico, era a previsibilidade e a decepcionante insipidez de toda aquela gente. No fundo não passavam de canalhas como os outros convencidos de uma importância social que de-fi-ni-ti-va-men-te não tinham, pequenas marionetas que num dado momento das suas vidas profissionais passaram a acreditar tanto em si próprias que se esqueceram dos fios que traziam presos às rótulas, correntes mais ou menos detectáveis esquecidas na sombra de uma patética presunção. Iam aos mesmos sítios, frequentavam os mesmos restaurantes, cafés, bares, discotecas. Alguns faziam questão de encenar uma espécie de imagem romântica do profissional da comunicação, que passa pela frequentação de uma vida nocturna intensa suportada a álcool, nicotina, cocaína e sexo. Aventuras o mais das vezes espalhafatosas.

Mais do mesmo fui encontrar quando passei a dedicar-me 100% à escrita. Obrigado a conviver com escritores, editores, alguns comerciais, sobretudo por causa das sessões de autógrafos, e demais gente envolvida no mundo de um livro, pouco mais tenho a dizer do que isto: uns cagões. Gente enfatuada, ensimesmada, cativa de etiquetas desprezíveis, gente mesquinha a quem se pode gabar o sentido de humor quando a graça não recai sobre os próprios. Isto é, gente que gosta de rir dos outros mas odeia ver-se alvo de riso. Julgo ter isso que ver com a generalização de personalidades neuróticas na vida literária. Uns complexados, é o que é. Sabem de antemão que nasceram em desvantagem, por mais que façam para chegar aos calcanhares do reconhecimento isso jamais terá qualquer relevância num país da nossa dimensão. Enfim, como o coelho que corre atrás da cenoura vão os pategos correndo atrás do prejuízo, do rissol, do patrocínio, do prémio miserável, da viagem paga ao estrangeiro, da digressão europeia, da capa numa qualquer revisteca de circulação restrita nos states… O cenário é de uma mediocridade tamanha que rejeita qualquer apetite pela convivência.

Só agora, agora que estou desempregado, me sinto entre os meus. Finalmente tenho com quem partilhar algo de verdadeiramente importante: o desespero. Os meus comparsas passam, tal como eu, vinte e quatro horas por dia ocupados no seu desesperante desemprego. As necessidades, o apetite pela sobrevivência, torna-nos mais humanos. Atraiçoamo-nos sem escusas, burlamo-nos sem preconceitos, enganamo-nos sem hesitação, mas sempre por uma boa causa. Quando um tipo está desempregado, os fins acabam por justificar os meios. É isso que nos torna mais solícitos. Estamos todos ao mesmo desnível.

Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

DESPREZAR O DESESPERO


Sucede que estamos a prazo. A certeza com que se nos apresenta esta fatalidade complica-nos as opções. Ou vivemos o que temos a viver rápida e intensamente ou prolongamos a agonia até ao limite suportável da resiliência.

Eu, em tempos idos, senti o romantismo das palavras de Novalis: «Não censures nada do que é humano; tudo é bom, embora não seja bom em todo o lado, nem sempre, nem para todos». Pobre Novalis, morreu novo, aos 29 anos, sem idade para descortinar a precipitação das suas palavras. Terá vivido rápida e intensamente? Foi apanhado desprevenido a meio do percurso?

Talvez o malogrado poeta não quisesse afirmar o que hoje nos parece mais claro, talvez houvesse nas suas palavras o desejo de uma nova cristandade fundada numa revalorização do homem à luz do idealismo heróico dos gregos antigos. Os idealistas alemães tinham manias dessas. Hoje, atiram-se aos porcos da Europa como hienas insaciáveis.

Bem vistas as coisas, vão conseguindo pela força da razão, a mesma que move, ordena e mecaniza os mercados, o que não almejaram pela força da coerção. Não deixa de ser irónico que assim seja. Eis o projecto humanista de Novalis. Ou então foi só uma coisa que lhe saiu, um dito espontâneo e imprevisto. Também de acasos se faz a história, sobretudo a que fica por contar.

Quem diria que por mero acaso estamos vivos? Quem ousaria dizer que por mero acaso estaremos mortos? Quem poderá algum dia garantir não ser esta vida a penitência a que a Natureza nos condenou? Interpretemos a fatalidade com um certo espírito de missão. O homem é a besta que se carrega a si própria. Contra isto, nada a fazer. Nada a censurar-lhe porque ninguém pode censurar à besta a sua natural condição de besta. Nasceu assim, assim há-de morrer.

Termos suposto em nós próprios a douta capacidade de nos metamorfosearmos em algo que transcenda a bestialidade foi, na mesma medida, uma necessidade e um encontro da consciência com as suas fragilidades. No fundo, o que distingue a selvajaria humana da savana é o cimento.

Ao longo dos séculos, alguns dos nossos, imbuídos de erudição e de boas intenções, foram impondo lenta e insistentemente a força da razão. Mas o que observamos é que a força da razão nunca deixou de estar subjugada à força coerciva da cupidez.

Ninguém pode negar que o mundo podia ser um lugar bem mais aprazível. Porque não o é? Porque nos veios da razão corre o sangue da bestialidade que nos determina ─ extinga-se o homem da terra e, com ele, a moralidade que o açaima.

Olhando para o globo de um modo lato, não restam dúvidas sobre a eloquência da moralidade: impor uma visão do homem ao mundo. É um erro de princípio. O mundo é que se nos impõe sem dó nem piedade.

Quem pode deixar de supor que as recentes revelações do WikiLeaks são apenas uma gota num vasto oceano de interesses poderosos com consequências devastadoras na vida das pessoas comuns? O que ali está em evidência é a inutilidade da moral nos corredores do poder. Mais do que isso, o que ali se torna evidente é que tudo o que é humano só é censurável por nos ser possível, a nós, humanos, censurar o que quer que seja; tudo o que é humano é discutível.

E nos corredores do poder, sobre um manto ilusório de democracia participativa, quem manda vai continuar a exercer o seu domínio sem qualquer tipo de preconceito moral. Porque o poder é, no limite, absolutamente amoral.

Vêm-me à memória as palavras de Alexandre O’Neill quando lhe perguntavam porque escrevia como escrevia: «Não sei… Talvez para tornar as coisas menos importantes. Nada tem importância. Tudo é humano…» A importância da importância é não ter importância alguma. Assim o homem e as suas opções: viver o que tem a viver rápida e intensamente ou prolongar a agonia.

Conclusão: afastar os medos, os fantasmas, exorcizar o corpo expurgando-o de tudo o que não seja puro e bom, desprezar o desespero. Não negar a besta que há em nós, aprender a sobreviver-lhe, desprezar o desespero. A mensagem de Jesus era boa, amar o próximo. Vê no que deu:

CENTENÁRIO



Antes de mais, uma pequena explicação:
chegado a este ponto, o sujeito poético declara-se
republicano, até para evitar mal-entendidos;
só não encontra é razões para festejá-lo.

Está na hora de sair de fininho. O país
caído no tapete, para a contagem final
(um galo na cabeça e talvez um pulso aberto).
Sabeis como é difícil explicar-lhe coisas técnicas.

Vítor Nogueira, in Quem diremos nós que viva?, 5 de Outubro de 2010, Averno, p. 43.

Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

RESISTÊNCIA

As pessoas temem a violência nas ruas. No outro dia falava com o dono de um restaurante que me dizia: quando a violência chegar às ruas, o simples facto de você ter uma casa e um carro há-de ser insultuoso para quem não tiver nada do que você tem. Quando nada há a perder, todas as soluções parecem legítimas, possíveis, boas, lucrativas. A geração dos meus pais nada tinha a perder. Como nada tinha, tudo o que viesse à rede era lucro. Eu olho para o que foi a vida de algumas dessas pessoas, daquelas que melhor conheço e com quem mais convivo, e penso no quão frustrante deve ser a consciência de que passaram por cima da juventude sem sequer terem a oportunidade de sentir o cheiro do espírito adolescente. Vidas de trabalho. Os sonhos resumiam-se a coisas tão concretas como ver os filhos formados, com escola, doutores, engenheiros... Dar-lhes o que não pudemos ter. Um curso. Hoje sentem-se decepcionados e traídos. Apercebem-se de que “os donos de Portugal” são exactamente os mesmos que lhes roubaram a vida, sabem que destino diferente não pode ser prometido aos netos. Os filhos, os da minha geração, tremem perante a evidência: temos tudo a perder, tudo o que nos foi dado de mão beijada. Perante um cenário destes, torna-se-me difícil desperdiçar esforços e energias com questões minguantes. Às minhas filhas só posso garantir luta, seja lá por onde e como for. Como dizia ontem o Garcia Pereira, onde há violência há resistência. Não temo nenhuma das duas. Procuro meter ambas no que escrevo.

RESILIÊNCIA

Foi-se apercebendo dos tiques comportamentais que caracterizavam as pessoas conforme o estatuto que ocupavam na hierarquia empresarial. Cada qual com os seus. Aquela pergunta ─ sabe o que significa? ─ evocou dentro dele um velho desprezo pelos jogos psicológicos, pelos testes, pelas provas de aptidão. Resiliência é o que pedem ao homem dos trapos, não sem o questionarem sobre o significado do termo. Seria embaraçoso ficar sem palavras. Um pouco mais abaixo conheceu quem funcionasse por meras provocações. Imagine-se uma situação em que alguém usa de um ar soberbo e, sem dizer água vai, coloca nas mãos do homem dos trapos um simples papelinho dobrado para meter no lixo. É como se lhe estivessem a chamar homem do lixo, coisa que não o afectava particularmente. O crápula não pediu: podes pôr-me isto no lixo? O cretino não perguntou: onde é o lixo? Se o tivesse feito, o homem dos trapos seria o primeiro a pegar no papelinho dobrado e, atenciosamente, colocá-lo-ia no lixo. Não. O que o afectou foi o ar soberbo, uma indisfarçável falta de educação vestida de fato e gravata. Apeteceu-lhe atirar o papelinho dobrado às trombas do cretino, mas foi resiliente. Era o que lhe pediam, para isso lhe pagavam. O povo chama-lhe engolir sapos.

DESTERRO



─ para o Gil de Carvalho ─


Dizem que viajamos muito.
embora nunca nos tenham visto juntos
na Turquia (em Campolide, admito,
a coisa torna-se bastante mais plausível).

É o país que sobra, este de puetas,
escarros, rolhas de sólida cortiça,
«enrabadores de crianças», carteiristas.

Não esquecendo, claro.
os autocarros que vão para o Desterro
e umas lágrimas de merda, ao virar da esquina.


Manuel de Freitas, in A Nova Poesia Portuguesa, Poesia Incompleta, Setembro de 2010, p. 25.

Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

POEMA

No dia 5 de Março de 1872, Petr Hynek Preisner escreveu um poema em checo. 50 anos depois o famoso tradutor Thomas Roderick descobriu o poema de Preisner numa antologia alemã de poetas checos. O tradutor alemão do poema de Preisner foi Wilhelm Gottlieb von Bodenstedt. Roderick pegou na tradução alemã do poema de Preisner e verteu-o para a língua de Shakespeare. No dia 7 de Abril de 1924 o poeta espanhol Rafael Gonzalez incluiu o poema numa antologia de poemas de intervenção que então organizava. 70 anos passados, um jovem português, estudante de línguas, pegou num exemplar dessa antologia que se encontrava à venda na Feira da Ladra. Comprou a antologia e levou-a para casa. Leu o poema atribuído a Petr Hynek Preisner e verificou que se tratava de uma tradução espanhola de uma versão inglesa feita a partir de uma tradução alemã do original checo. Procurou o original por todo o lado, mas os seus esforços saíram gorados. Entrou em contacto com colegas checos, mas na República Checa ninguém conhecia Petr Hynek Preisner. Nunca tal nome circulara entre os académicos de Praga. O jovem estudante português fez a sua própria versão do poema, a partir da versão espanhola, mas resolveu tomar algumas liberdades e meteu-o a circular na Internet, anonimamente, sem qualquer referência a autor, origem ou proveniência. Nada de nada. Nem sequer referiu tratar-se de uma tradução. E há quem diga que foi o melhor que podia ter feito. Aquele poema já nada tinha que ver com o poema escrito a 5 de Março de 1872 por Petr Hynek Preisner.

INVIÁVEL

Questionam-me, por mail, se me sentiria à vontade num estúdio, frente a uma câmara, a ler textos meus. Percebo a intenção e a simpatia do convite, mas neste momento nem com a cabeça enfiada na lama - gesto que sempre me deu muito gozo - eu me sinto à vontade. Julgo mesmo que nem a invisibilidade me confortaria. Ia escrever inviabilidade, mas essa é já um dado adquirido.

SAPATOS COM SOLAS

O meu pai começou a trabalhar com 10 anos. O meu sogro também. Foi logo depois de terem terminado a 4.ª classe. O meu pai vivia numa aldeia do concelho de Rio Maior chamada Arrouquelas. Arranjou trabalho numa taberna do Cartaxo e partiu. Varria, limpava os tampos das mesas com vinagre, lavava louça e atendia clientes, sobretudo bêbados. Vinha à terra visitar os pais uma vez por ano. Com dez anos.

Aos doze, quando conseguiu comprar uma bicicleta, acabava o trabalho e pedalava na direcção da terra. A minha mãe diz que ele se esfalfava todo para fazer aqueles intermináveis 18km. Imaginem, 18km separavam-no da casa dos meus avós. A casa que ele, durante dois anos, só pôde visitar duas vezes. Confessou-me que não se importava com isso. O meu avô metia-lhe logo a enxada ao ombro e obrigava-o a trabalhos que ele desprezava.

Naquele tempo, trabalhar ao balcão era o mais que se podia ambicionar para quem não quisesse seguir para padre ou fazer a carreira militar. Nas visitas à terra, quando havia bailarico, foi crescendo dentro dele uma certa decepção. Outrora líder entre os seus, pela inteligência, capacidade de trabalho e, segundo consta, agilidade de anca, via agora a sua popularidade relegada pelo cobiçado Valentim.

O Valentim não era melhor nem pior do que os outros. Era tão andrajoso como os restantes, mas distinguia-se dos demais por ter uns sapatos com solas. São pormenores que, em certas circunstâncias, fazem toda a diferença.

Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

O homem que tinha dois corações



Era um homem que a natureza dotara com dois corações. Ou seja, em cujo peito pulsavam dois corações. Ou seja, que viera a este mundo com dois desses maravilhosos órgãos. Tudo muito bem.
Certo dia, porém, um dos corações parou. Nada de grave, uma vez que o homem dispunha ainda do segundo. O problema é que a história não é assim tão simples. Esqueci-me de referir* que os dois corações dedicavam um ao outro uma paixão antiga, profunda e avassaladora. Como se costuma dizer, no coração daqueles corações ardia a chama do mais puro amor. Assim, quando o primeiro parou, o segundo derreteu-se em lágrimas e deixou de bater por causa do desgosto.
Concluindo, o homem não resistiu e morreu. Seja como for, a morte não resultou destes sobressaltos cardíacos, digamos assim. O homem faleceu na Arcádia em virtude de uma mordedura de serpente. E agora que está morto, a vida também não lhe tem sido fácil.


* Não é verdade. Estava assaz ansioso por escrever isto. Mas procuro ser um narrador competente e, por isso, esperei pela altura certa para fazer esta significativa revelação.


Rui Manuel Amaral, in Doutor Avalanche, Angelus Novus, Setembro de 201º, pp. 101-102.

DOUTOR AVALANCHE

Doutor Avalanche (Setembro de 2010) é o segundo volume de contos de Rui Manuel Amaral (n. 1973). O primeiro foi Caravana (Janeiro de 2008). Ambos editados pela Angelus Novus, numa colecção intitulada Microcosmos, representam o que de melhor se vai produzindo em Portugal nesse território ambíguo do microconto. Sabemos não ser do agrado do autor este género de classificação. Tinha bom remédio, varria-a por completo dos seus livros. A confusão repete-se, involuntariamente, não só pela inclusão da obra numa colecção que se afirma especialmente vocacionada para a micronarrativa, como também por, mais uma vez, vir no final do livro um desafio editorial bastante peculiar: «seja também um microcontista». Sem pretender decalcar a toada absurda que envolve os contos de Rui Manuel Amaral, imagine-se o que seria se no final dos livros de Lobo Antunes a Dom Quixote começasse a desafiar os leitores do eterno candidato ao Nobel a tornarem-se romancistas. O pormenor não é despiciendo, induz a ilusão de um facilitismo que está longe de ser um dado adquirido.

A leitura dos contos de Rui Manuel Amaral prova-nos nada haver de fácil e gratuito na prática do conto brevíssimo. Os contos de Doutor Avalanche pressupõem um domínio de algumas técnicas narrativas que não são nada fáceis de apurar. Os mestres estão mais que identificados. É inevitável pensarmos em Nikolai Gógol quando lemos a história de um homem que, no encalço de uma orelha que lhe fugiu, deixou a língua sozinha em casa. O espírito de Franz Kafka mostra-se em situações como a do homem que «atraía todas as atenções e provocava nos outros um riso» descontrolado. Há várias fábulas que nos lembram os poemas em prosa de Russell Edson, embora o nome mais frequentemente invocado seja, sem dúvida, o de Daniil Harms. De resto, esta inevitável associação é o que menos contribui para a emancipação da prosa de Rui Manuel Amaral, a qual incorre com frequência nesse risco de um déjà vu menos apelativo. Por outro lado, haverá quem chame maturidade, ou homogeneidade discursiva, a esta repetição de processos. Seja como for, trata-se de um volume anormal no contexto literário português.

Doutor Avalanche é percorrido, ao longo dos seus quarenta e tal contos, pelo aparecimento inusitado de estrofes, grafadas em itálico, provenientes de um poema de autor italiano anónimo do século XVII. De alguma forma, o conteúdo desse poema ─ Quando gli ucceli portaranno i zoccoli ─ permite inferir a lógica que subjaz às short stories compiladas neste volume. Trata-se de uma lógica ilógica, de uma inversão de sentido que lembra Lewis Carroll. As situações insólitas vivenciadas pelas personagens de Doutor Avalanche têm a característica peculiar de refutarem a organização do mundo. Homens aparentemente banais, com profissões mais ou menos monótonas (actor, escritor, fabricante de olhos de vidro, pescador, obscuro funcionário de uma repartição ministerial…), vêem-se envolvidos em casos excepcionais: Dietrich Dhal evapora-se, Markus Grob trinca a canela da amada, certo homem «de cada vez que se via num espelho descobria em si um rosto novo e desconhecido…» (p. 45). Muitos destes casos, que recolhem manias, ironizam hábitos, representam estranhas metamorfoses, colocam o leitor numa situação de expectativa cujo desenlace raramente justifica.

Rui Manuel Amaral é exímio na arte do malogro. Usa de notas de rodapé que acrescentam vazio ao vazio das estórias, recorre ao humor e ao absurdo, por vezes ao puro nonsense leariano para desmontar chavões literários, frases feitas, clichés. Note-se o recurso desmesurado a expressões coloquiais já de si algo dúbias: «meu dito, meu feito», «o caso muda de figura», «sem tirar nem pôr», «dei de caras», «raios me partam», «força de expressão», etc. Os horríveis incidentes que povoam o seu imaginário permitem-lhe desconstruir a precisão narrativa que se impõe como definidora da suposta boa literatura. Há frases simples que definem um estilo: «Não me perguntem como é isto possível porque não saberei responder e isso não é bom para o meu prestígio de narrador omnisciente» (p. 63); «De repente, acontece uma coisa que pode parecer anormal e, de facto, é» (p. 73); «No entanto, Gerard Geldenhyus sentia-se, digamos, um pouco coiso» (p. 87). Daí que a moral a retirar destes contos não seja apenas a sugerida no remate do conto que termina a páginas 26 ─ «nem tudo no mundo tem que ter lógica ou obedecer a uma sintaxe perfeita» ─, mas também a de que as coisas têm a sua lógica e sintaxe internas (estejam estas ou não em sintonia com o resto do mundo).
Escrito para o Rascunho.

É A VIDA

Henrique, o que achas do último livro do Peixoto? Não li. E o do Tordo? Também não li. Leste o do valter? Não. Deves ter lido o Gonçalo M. Tavares. Não, não li. Qual é que foi o último livro que leste? O Índio do Packard, do William Saroyan. Não conheço. Foi um presente do Almeida. E português? O do Rui Manuel Amaral. O que é que achaste? Digo-te amanhã.

Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010

O JOGO DAS FRUTAS

Mãe: nasce nas árvores ou vem da terra?
Matilde: nasce nas árvores.
Mãe: de que cor é?
Matilde: castanha.
Mãe: é fruto seco?
Matilde: sim.
Mãe: é a noz.
Matilde: boa, acertaste. Agora é a Beatriz.
Mãe: de que cor é?
Beatriz: vermelha.
Mãe: nasce nas árvores ou vem da terra?
Beatriz: nasce nas árvores com um papelinho colado.

DE ANTOLOGIA

Qual é, a seu ver, a maior dificuldade da crítica no Brasil?
A falta de livros a criticar.

Respigado aqui.

WIKILEAKS


Aquela cena esquisita do Wikileaks anda a causar transtornos vários, polémicas muitas, esperanças vãs. Fala-se no fim de um império, mas o império ainda só sente uma leve comichão na virilha esquerda. Mais uma vez, vêm à tona teorias da conspiração, tramas dignas de uma telenovela de espionagem. Impressiona-me o tom das mensagens, a forma como este e aquele fala daqueloutro num meio diplomático que a gente, na nossa néscia civilidade, julga sempre mais formal do que na realidade é. São comadres pagas a preço de ouro, gente mexeriqueira e mesquinha na qual o povo deposita democraticamente a sua confiança. Estúpido povo. Isto devia merecer uma ruptura total. Para onde? Para quê? Não sei.

A malta tem fome, teme o desemprego, vê-se refém de um vencimento miserável que, ainda assim, consegue sustentar uma casa. Propõem-nos prémios de ouro: 75€ em troca de 12 horas de trabalho diárias. Uau! Uma alegria. Roubaram-nos a água, temos de pagá-la, vendem-nos luz e aquecedores, os electrodomésticos estão pela hora da morte, regressar a uma vida de cabana está fora de questão. Açambarcam-nos os filhos se os não mandarmos à escola. A vida das cavernas está fora de questão, está, está fora de questão. O Estado não deixa e faz frio nas cavernas. O ESTADO acabou com a escravatura para nos escravizar, digna e respeitosamente, sob o jugo de deveres e obrigações impostas à força de uma coerção psicológica até ver. Viva a Declaração Universal dos Deveres do Homem.

Um telhado e uma jaula de cimento, vista para a cidade, janelas e portas devidamente calafetadas. Se a canalização pinga, apela-se às sobras do condomínio. Vivemos condoída e serenamente submissos da ordem pública. Se a gente se liberta psicologicamente, logo vem a coerção física: a bastonada, grades férreas, etc & tal. Vale a pena possuir um cartão do cidadão? Para isto? Para ser governado por gentalha mexeriqueira que se banqueteia faustosamente enquanto autoriza torturas cegas, surdas e mudas? O regime que nos impõe este mundo é: espremer ao máximo, exigir o máximo em troca do mínimo. Vamos pingando o suco misericordioso do trabalho, movidos a chibatas anímicas.

O trabalho salva, diziam os nazis aos judeus em campo de concentração. O trabalho salva, repetem os governos aos seus escravos de trazer por casa em campo de centralização. E as vozes fazem-se ouvir da sua cavernosa dívida, têm um compromisso com a saúde dos mercados, não necessariamente com as pessoas, porque isso de viver e de se estar vivo é secundário, o que importa é manter os mercados saudáveis, evitar rupturas sistémicas, garantir os stocks. As vozes fazem-se escutar no seu modo cavernoso de falar, um modo cavernoso atapetado de vivenda, empalado de apartamento, uma coisa meio estranha, condomínio fechado em sociedade aberta: corte-se nas pessoas, salve-se o Estado, salve-se o Wikileaks e as embaixadas espalhadas pelo mundo, salvem-se as mexeriqueiras, atire-se para a fogueira o bode expiatório, o calão revoltado, o calão mole, o calão submisso e o outro também, em nome da boa diplomacia e da governança, em nome, como direi, da espiolhagem.

Salve-se o homem talentoso, o contorcionista, exímio no jogo de anca, na dança do vira. Salve-se o cata-vento, o hipócrita, o regimental, o porco e a pocilga, salvem-se o esquema e o sistema. Contra a indignação dos povos, marchar, marchar. «Toda a mais canalha vil, mercadores, vendilhões, que estão ganhando milhões com empregar um ceitil, têm toda a graça gentil para poderem roubar, podendo-se isto emendar com uns açoutes ou galés, porque assim em que lhe pês tenham menos cabedal.» Estou para aqui numa de remendar os joelhos, tão desesperadamente farto de andar contorcido. É preciso fazer qualquer coisa, há-de haver forma de minar a axiomática do poder, há-de haver forma de sabotar o sistema. Deixar os bancos em branco? Desistir? Passar-lhes um cheque careca? Partir? Mandas as urnas às furnas? Desistir?