segunda-feira, 26 de setembro de 2011

PARA QUE SERVE A POESIA HOJE?

A Deriva tem dado à estampa, numa colecção intitulada Pulsar, dirigida e coordenada por Ana Luísa Amaral, Pedro Eiras e Rosa Maria Martelo, alguns pequenos textos que visam reflectir o lugar e a função da palavra escrita no mundo actual. Assim, depois de Para que serve a Literatura? (Julho de 2010), de Antoine Compagnon (n. 1950), saiu Para que serve a Poesia Hoje? ( Junho de 2011), de Jean-Claude Pinson (n. 1947). Pinson nasceu em Nantes, estudou Letras na Sorbonne, acabando por formar-se em Filosofia sem nunca ter abandonado a inclinação literária, nomeadamente através da prática dos versos. O pequeno livro que agora nos chega com tradução de José Domingues de Almeida está dividido em duas partes. Uma primeira parte mais teórica, composta pelo texto de uma conferência proferida a 12 de Janeiro de 1999, e uma segunda parte mais dialogante, com uma síntese do debate suscitado pela dita conferência. As teses de Pinson, erigidas sobre o terreno fértil da obra de Henri Michaux, enfermam de um vício ao qual raramente escapam obras do género, o de começarem por reflectir um assunto pressupondo a necessidade dessa reflexão. À pergunta Para Que Serve a Poesia Hoje? Nós podemos, desde logo, juntar uma outra: para que servem hoje conferências e debates sobre a utilidade da poesia? E mais esta: servirá hoje a poesia para alguma coisa que não tenha já servido no passado? Estes problemas são tão mais urgentes quanto se torna necessário entender se, de facto, a poesia alguma vez serviu para alguma coisa ou se tem mesmo de servir para alguma coisa. Um pouco à semelhança da presunção de um sentido para a vida, buscado, cavado, semeado, colhido no absurdo da existência, também a utilidade de toda e qualquer actividade humana deverá ser pensada em função do paradoxo suscitado pela prática do impraticável. Na realidade, nada na vida pede sentido senão a própria perdição dos homens. Assim como a vida não tem que ter sentido algum, também a poesia não tem que servir para o que quer que seja. Não se trata de pretender fugir a uma questão entusiasmante de um ponto de vista meramente académico e teórico, até porque o texto de Pinson é assaz objectivo e procura sempre focar-se no essencial. No entanto, resvala com frequência nos tiques academistas com que estas questões são geralmente abordadas. Presume-se que a poesia não esteja na moda, algo que a realidade actual desmente ao constatarmos a proliferação de sítios dedicados ou atafulhados de poesia. Em certos circuitos de afirmação intelectual a poesia chega a dar cartas, até porque, como Pinson sugere, é uma arte aparentemente fácil e acessível. As limitações do público da poesia também já não são um dado adquirido. Convém esclarecer quem é esse dito público, até porque poesia há de vários tipos, modos e géneros, alguns tão populares e correntes que deixariam os académicos de gabinete estupefactos. Recentemente, em Portugal, um grande grupo editorial passou a distribuir uma das mais emblemáticas editoras de poesia portuguesas. Isto aconteceu pouco depois do principal responsável por esse grande grupo editorial ter decretado em entrevista pública a morte da edição de poesia. Ora, não me parece que um homem de negócios pretenda pegar num defunto só para ter o gozo de ser ele a enterrá-lo. Como é óbvio, a suposta utilidade de uma arte não se afirma pelo interesse que suscita nas massas. Há artes que nasceram para serem mediáticas, outras há que nunca almejaram senão aquilo a que hoje se chamam fidelíssimos nichos de mercado. É verdade que há mais poetas do que leitores de poesia, mas tenho alguma dificuldade em lamentar essa realidade. A poesia terá uma dimensão terapêutica que não esgota as suas funções, mas que de algum modo sublinha o carácter utilitário da sua não-utilidade. Duvido que cure ou dê prazer, pelo menos não tanto quanto um bom vinho ou a masturbação. Muitos dos melhores poetas suicidaram-se, levaram vidas errantes, foram indigentes e execráveis, o que deixa dúvidas quanto às dimensões curativas e saudáveis da poesia. Sem dúvida que desincha poderes, alarga horizontes na exacta medida em que amplifica a linguagem, proporciona um mundo melhor ou pior a quem com ela conviva no desleixo de si próprio e do mundo. Não obstante, parece-me que ainda está para chegar o intelectual que diga, sem parangonas, que a grande utilidade da poesia não diverge, no essencial, da utilidade da Playstation, ou seja, ajuda a passar o tempo proporcionando bons fogachos de tempo. Que também Pinson insista na balela castradora e exclusivista da verdadeira poesia, como se a falsa pudesse sê-lo, só peca a favor de um texto estimulante que nos agrada, sobretudo, pela sua intrínseca inutilidade.

sábado, 24 de setembro de 2011

ESTRADA INNISKEEN: NOITE DE JULHO








As bicicletas passam aos pares e trios −
Esta noite há baile no celeiro do Billy Brennan,
Onde os mistérios semi-conversarão por códigos
E o prazer falará pelos cotovelos sem pestanejar.
São oito e meia, e não há vivalma
Num quilómetro de estrada, nenhuma sombra
Que possa pôr na rua um homem ou uma mulher,
Nem um passo pontapeando segredos de pedra.

Tenho o que qualquer poeta odeia apesar de
Toda a conversa solene da contemplação.
Ó, Alexander Selkirk conhecia a condição
De ser rei e governo e nação.
Uma estrada, um quilómetro de reino, eu sou rei
Das margens e das pedras e de todas as coisas florescentes.




Patrick Kavanagh (1904-1967)




Nota: Alexander Selkirk (1676 – 1721) foi um marinheiro escocês que passou quatro anos como náufrago após ser abandonado numa ilha deserta. Supõe-se tenha inspirado Daniel Defoe a compor Robinson Crusoe (aqui).


Versão de HMBF

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

JOSÉ NIZA (1938-2011)





Há coisa de três anos fui convidado a integrar o júri da primeira (e que eu saiba, até à data, única) edição do Prémio Nacional Poeta Ruy Belo. José Niza era igualmente um dos elementos do júri. Estive com ele, salvo erro, duas vezes. Numa reunião para decidirmos a atribuição do prémio e na cerimónia de entrega do dito. Depois da cerimónia, fomos almoçar. Calhou que ficássemos sentados ao lado um do outro durante o almoço. Ouvi-lhe várias histórias com a atenção de um aprendiz. Era um homem afável. Era inevitável que falássemos de E Depois do Adeus, versos que Niza escreveu e Paulo de Carvalho imortalizou no Festival de 1974. A revolução contribuiu para a popularidade. Niza, autor da letra, chamou-lhe «canção vulgar». Discordou do meu entusiasmo e pareceu-me algo aborrecido com a colagem ao tema. Tomara muitos fazerem algo que os vindouros possam identificar como seu. Em Abril de 2008 O Mirante publicou um livro de poemas de José Niza. Fica um, em jeito de homenagem, porque nem tudo são canções:

VELÓRIO

Estavam todos tristes
muito tristes
com gravatas pretas de tristeza
contando anedotas

o defunto levantou a cabeça do caixão
e perguntou

amigos
a que horas é o funeral?

às nove da manhã!
disseram cheios de medo

então boa noite
que amanhã
vou levantar-me cedo


12 de Março de 1971



José Niza, in Poemas de Guerra – Angola 1969-1971, O Mirante, Abril de 2008, p. 57.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

NESTA NOITE, NESTE MUNDO


nesta noite neste mundo
as palavras do sonho da infância da morte
nunca é isso o que alguém quer dizer
a língua natal castra
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo o poema
castrado pela sua própria língua
que é o órgão da re-criação
do re-conhecimento
mas não da ressurreição
de algo ao jeito de negação
do meu horizonte de maldoror com seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(tudo o que pode ser dito é mentira)
o resto é silêncio
embora o silêncio não exista

não
as palavras
não fazem amor
fazem ausência
acaso beberei se digo água?
acaso comerei se digo pão?

nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio o desta noite
o que se passa com a alma é que não se vê
o que se passa com a mente é que não se vê
o que se passa com o espírito é que não se vê
de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura
corredores negros
percorri-os todos
oh! fica um pouco mais entre nós!

a minha pessoa está ferida
a minha primeira pessoa do singular

escrevo como alguém alçando uma faca na obscuridade
escrevo como estou a dizer
a sinceridade absoluta continuaria a ser
o impossível

oh! fica um pouco mais entre nós!

os detritos das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
que fizeste do dom do sexo?
oh meus mortos
comi-os engasguei-me
não mais posso não poder mais

palavras embuçadas
tudo desliza
até à negra liquefacção

e o cão de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
excepto
o poema

falo
sabendo que não se trata disso
nunca se trata disso
oh ajuda-me a escrever o poema mais prescindível
o que não sirva nem para
ser inútil
ajuda-me a escrever palavras
nesta noite neste mundo




Alejandra Pizarnik, in La Gaceta del Fondo de Cultura Económica, México, Nueva Época, n.º 19, Julho de 1972.

Versão de HMBF

domingo, 18 de setembro de 2011

A NOITE, O POEMA


Alguém encontrou a sua verdadeira voz e testa-a no meio-dia dos mortos. Amigo da cor das cinzas. Nada mais intenso do que o terror de perder a identidade. Este recinto cheio dos meus poemas prova que a menina abandonada numa casa em ruínas sou eu.

Escrevo com a cegueira cruel com que as crianças atiram pedras a uma louca como se fosse um melro. Na realidade não escrevo: abro uma brecha para que até mim chegue, ao crepúsculo, a mensagem de um morto.

E este ofício de escrever. Vejo por espelho, na obscuridade. Pressinto um lugar que ninguém além de mim conhece. Canto das distâncias, escuto vozes de pássaros pintados sobre árvores adornadas como igrejas.

A minha nudez iluminava-te como uma lâmpada. Apertavas o meu corpo para que não fizesse o grande frio da noite, o negro.

As minhas palavras exigem silêncio e espaços abandonados.

Há palavras com mãos; apenas escritas, tomam-me o coração. Há palavras condenadas como lilases na tormenta. Há palavras parecidas com certos mortos, se bem que prefira, entre todas, aquelas que evocam a boneca de uma menina desafortunada
.

Alejandra Pizarnik, 23 de Novembro de 1969


Versão de HMBF

UM SONHO

Camarada Van Zeller, hoje tive um sonho, sonhei com a República ideal. Nesse sonho aparecia um bodegão em vestes estranhas. Julguei que fosse Sócrates ou talvez Platão, mas o primeiro fora para França e o segundo andava desaparecido. O seboso era Alberto João. Na República ideal dos meus sonhos não havia governos a extinguir organismos públicos, eram os organismos quem extinguia os governos. A Assembleia da República transferira-se para a Cinemateca, e a legislatura dos deputados consistia em visualizar as obras completas do Manoel de Oliveira. Camarada, na República ideal do meu sonho nenhum candidato a docente na Universidade da Opus Dei era impedido de aí leccionar. Papas, só de serrabulho. E Universidade Católica não existia, por ninguém lá querer doutrinar. Revisitei os corredores da instituição onde o Tolentino era capelão. Agora poeta, estrela das Paulinas e autoridade máxima do Santo Ofício assírico, mais se parecia a um galo capão. Neste meu sonho o Bundesbank ficava na Amieira. Era uma casa de putas de primeira. Ali satisfaziam ânsias vários ministros e alguns investidores, sem que entre eles se notassem quaisquer diferenças. Acabou este sonho quando sentado num banco de madeira avistei um Coelho a cobrir um Jardim, e do alto de um montículo certo caçador António José, com um ar muito inseguro, apontou a caçadeira e disparou. Saiu-lhe o tiro pela culatra, acertou-lhe o chumbo em cheio no pé. 30 anos é muito tempo, demasiado para que não se tivesse já percebido não ser a Madeira o Jardim do Éden, mas sim o Paraíso do Jardim. Adões e Evas há muito foram expulsos, ficaram-nos as serpentes com suas maçãs envenenadas. Quem quiser que as coma.

DIÁLOGO INTER-CONFESSIONAL

Pai: acreditas em Deus?
Filha (4 anos): porquê, ele alguma vez te mentiu?

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

PEQUENOS POEMAS EM PROSA



O sol fechou-se, fechou-se o sentido do sol, ilumina-se o sentido de fechar-se.

*

Chega um dia em que a poesia se faz sem linguagem, dia em que se convocam os grandes e os pequenos desejos disseminados nos versos, reunidos subitamente em dois olhos, os mesmos que tanto louvava na frenética ausência da página em branco.

*

Apaixonada pelas palavras que criam noites curtas no incriado do dia e no seu vazio feroz
.



Alejandra Pizarnik, in La Nación, Buenos Aires, 21-Março-1965


Versão de HMBF

terça-feira, 13 de setembro de 2011

PRIMEIROS CAPÍTULOS




Chega a morte com a sua manada de ossos
sorrio forçadamente a uma menina idiota
que suplica em meu nome
juntas (a morte, a menina e eu)
não encontramos outro ofício além de execrar
No final todos se casam:
o mar com as ondas,
a noite com a treva,
a taça com o vinho,
o anel com o dedo,
a morte com o cadáver
.


Alejandra Pizarnik


Versão de HMBF

domingo, 11 de setembro de 2011

POESIA





Poesia começa com o suicídio de uma jovem rapariga que salta de uma ponte. Esta ponte terá uma carga simbólica bastante forte durante todo o filme. É uma ponte que liga duas margens, o passado e o presente, mas também a ponte de onde alguém pode antecipar o futuro. O passado está representado por uma mulher que resolve ir aprender poesia depois de lhe diagnosticarem Alzheimer. O presente vive no corpo do neto dessa mulher, um jovem desinteressado que adormece embalado por uma música intragável e passa a vida a ver televisão. São duas presenças muito fortes e deveras contrastantes. Lee Chang-dong, realizador de Poesia, parece pretender interrogar-nos sobre a possibilidade da poesia no mundo actual. A sua postura perante o poético é desesperançada, mas também algo redutora. A certa altura, o professor de poesia da classe onde a protagonista está inscrita afirma que a poesia está a morrer. A seu lado, um jovem poeta algo perturbado reforça que a poesia merece morrer. Mas ainda que seja difícil a Mija encontrar dentro de si a voz dos versos, é nessa busca que ela vai encontrando suporte para a vida. E a poesia tanto pode estar nas flores como nos alperces que se precipitam sobre a terra para aí serem esmagados, no sabor adocicado de um fruto maduro ou no chilreio dos pássaros, no som do vento a afagar as estepes ou numa simples maçã. Encontrá-la exige um olhar diferente do olhar ameaçado pelos gumes tortuosos da vida. Um dos gumes que Mija terá de enfrentar é a notícia de um crime cometido pelo neto. Haverá lugar para a poesia após o anúncio e a experiência da catástrofe? A pergunta não é nova, chega a ser redundante e quase sempre esquece o essencial. Para lá da questão sobre a possibilidade ou o lugar da poesia, resiste a evidência da poesia enquanto afirmação disseminada do acto criativo. O próprio filme de Lee Chang-dong é poético. É um exemplo das possibilidades da poesia. Pelo que, sendo assim, estamos perante uma petição de princípio. A poesia não transcende a realidade, não chega sequer a desvelá-la, pois a realidade só está velada quando os olhos de quem a olha se deixam embaciar. A poesia é parte integrante da vida. No deprimente caos de desventuras, frustrações, medos e ansiedades que nos envolve, ela brota no coração de quem para ela se volta. Exige um olhar solto e desprendido, mas não requer nenhum paraíso onde possa ser afirmada. Antes pelo contrário. Quanto mais insuportável o mundo, mais clara e translúcida se faz notar a poesia. Não como lugar alternativo, mas como ponte de onde se salta para o futuro. Daí que cada poema seja sempre uma breve e pequena morte, uma breve e pequena antecipação do futuro.

sábado, 10 de setembro de 2011

O POVO NA RUA, O CÃO NA CASOTA

Camarada Van Zeller, fiquei atiçado depois de ouvi-lo falar. Segurem-me que eu não aguento. Já calcei as botas da tropa, já vesti a t-shirt encarnada, vou enrolar o turbante ao pescoço antes que me enrolem o pescoço ao turbante. Armadilhei-me com um cocktail incendiário e uma tumultuosa moca de Rio Maior. As montras, quando me vêem passar, encolhem-se todas. As ruas preparam-se para o meu sangue. Tomei pastilhas para a garganta, de modo a que os gritos se façam escutar para cima do mais inatingível decibel. Estou em pulgas. Melhor, estou em carraças. Vosselência é uma inspiração, as suas palavras uma forte motivação revolucionária: «não podemos evitar que haja manifestações na rua. Já viu o ridículo que era este povo aceitar os sacrifícios e não ir para a rua, não fazer um desfile? Parecíamos parvos ou mortos». Aqui estou eu, camarada, pronto para o desfile em pose de passarela. A dúvida é: quando este povo for para a rua, onde irá vosselência se meter?

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

AVERBAMENTO





Sob a capa de caderno de apontamentos, as páginas desenvolvem-se a duas colunas. Do lado direito, um breve texto em prosa como que enraíza o desabrochar dos versos. A sustentá-los, então, uma perspectiva reflectida com apuro aforístico, no sentido filosófico do termo, que não é alheio à restante obra de Paulo da Costa Domingos. Se noutros livros esse sustento filosófico não era tão evidente, aqui expõe-se ombreando com a poesia. No fundo, duas formas de expressão para uma mesma raiva. O que se regista à margem não procura evidenciar, explicar, aclarar ou sequer justificar o poema-grito partido em estrofes de quatro versos. É um mesmo grito na génese da voz. A crítica da razão, não propriamente racional, envia-nos para as teorias de Paul Karl Feyerabend, o filósofo (epistemólogo) anarquista que um dia se despediu da razão num diálogo imaginário. É do Diálogo Sobre o Método que lembramos a seguinte passagem: «Alguns anos atrás, dirigia-me na direcção d euma parede, quando vi um tipo pouco recomendável avançar na minha direcção. «Quem será aquele vagabundo?» interroguei-me − depois descobri que a parede era na realidade um espelho e que eu me estava a olhar a mim próprio. Imediatamente o vagabundo se transformou num tipo de aspecto elegante e inteligente» (trad. António Guerreiro). Ora, na poesia de Paulo da Costa Domingos a parede não é necessariamente um espelho que nos relativiza o olhar. A parede é o muro contra o qual o olhar se despenha. E nesse muro projectam-se sombras que urge decifrar. Esta relação com o mundo gera um desconforto essencial à construção do poema, porque o poema não surge para embalar o desconforto ou para dormir mais aconchegadamente no regaço de um mundo hostil. Não, o poema surge como uma marreta pronta a estilhaçar o muro do homem actual, a quem o poeta chama homem-suicídio (na linha de Artaud) ou homem-sonífero. A segunda designação é especialmente interessante, pois releva a dimensão excitante desta poesia. Em vez de adormecer - arrebitar, acordar, despertar os sonâmbulos emparedados da urbe assassina. Trata-se, deste modo, de uma poesia imbuída de intenção, intenção essa que recusa estigmas num mundo pós-ideias, pós-ideais, imerso na ditadura cosumista onde o efémero impera e o humor aligeira a cultura a ponto de uma a absoluta e inconsequente insignificância. Talvez exista aqui uma nostalgia do significado, ou seja, uma espécie de vazio instaurado pela superficialidade que se procura combater indo às entranhas do problema. Mas o problema escava sobre si próprio, a “nostalgia do significado” (considerem as aspas) não reclama importância. O’Neill fez o bastante para que a importância fosse (de uma vez por todas e para sempre) erradicada da poesia, embora o bastante nunca seja suficiente. Está visto. O que a “nostalgia do significado” reclama é uma atitude perdida, esvaecida, submersa no e pelo oceano das dívidas pessoais, do sucesso, da fama, da eficácia. A “nostalgia do significado” reclama a utilidade do inútil, a liberdade acima de uma putrefacta escravidão dissimulada pelo culto do superficial. O mal-estar social é evidente, o retrato pintado evita equívocos: «Hordas despojadas da privacidade / a troco do holograma do acesso / a um nirvana de crédito, órfãos / em permanente estado de fome // à espera de acolhimento / num patrão. Inquisitorial, / qual mediador de seguros / comissionista: o jornalixo» (s/p). À tentação de classificar de política, ou mesmo de social, esta poesia, eu prefiro a deriva epistemológica de Feyerabend. É uma poesia de partir muros. Como é óbvio, não existe muita gente interessada neste tipo de averbamentos. Mas seja reconhecido, em abono da verdade, que ao averbamento sempre coube o lugar da des-ilusão. E como vociferava certo amigo do passado: antes desiludido com tesão do que iludido com moleza. Ficam os versos finais, à guisa de resumo: «Coragem. Simulacro por / simulacro, qualquer um pode / ter um brinquedo destes / para sair ao domingo. Só que // com menos motor, menos ideias. / Talvez por decreto d’óbito e / acordo da cristandade e dos outros / ela morra: a economia de mercado» (idem). Assim seja.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011






cuidado com as palavra
...........................................(disse)
têm gume
.................cortar-te-ão a língua
cuidado
..............não despertar as palavras
deita-te nas areias negras
e que o mar te enterre
e que os corvos se suicidem nos teus olhos fechados
cuida-te
.............não tentes os anjos das vogais
não atraias frases
...............................poemas
............................................versos
nada tens que dizer
nada que defender
sonha sonha que não estás aqui
que já te foste
que tudo acabou



Alejandra Pizarnik


Versão de HMBF

terça-feira, 6 de setembro de 2011

AVANTE



Mote: este magnífico pato foi fotografado na última edição da Festa do Avante. É um pato candeeiro que não se limita a dar luz, embala-a com a leitura de cassetes.









Temo ter deixado a grande oportunidade da minha vida na tenda dos artigos em segunda mão.

A ILHA DE SUKKWAN

Não vale a pena aprofundar muito. A Ilha de Sukkwan (Edições Ahab, Junho de 2011), de David Vann (n. 1966), tem merecido justos elogios na imprensa especializada. O autor foi entrevistado e explicou a relação que a história do livro mantém com a sua experiência pessoal. Lê-se como foi escrito, de jorro. Comecei-o a caminhar, entre milheirais e silvedo, na direcção do Rogil. Só descansei quando cheguei à última palavra da derradeira página, no próprio dia, já no termo de uma tarde de praia. Peguei na Sebenta das férias, passei cola por uma folha e deixei cair alguma areia sobre o papel, de modo que a areia ali ficasse colada. Por baixo escrevi: sobre esta areia foi lido, num nublado dia de Verão, A Ilha de Sukkwan. Assim é esta história, um dia de Verão nublado. Aos treze anos, Roy vai viver com o pai para uma cabana numa ilha do Alasca. Esta deslocação para um espaço isolado conduz-nos na direcção de uma intimidade que está longe de ser pacífica. Como as ilhas, as pessoas guardam segredos, medos, frustrações, problemas mal resolvidos. À sua volta, apenas o zumbido dos mosquitos e o gotejar da água interrompem o silêncio atroz. E a respiração, a respiração de um pai e de um filho separados por contingências existenciais às quais costumamos dar o nome de equívocos. Porém, se há coisa que esta história nos ensina, é a inexistência do equívoco no curso da vida. O choro contido e disfarçado do pai, enquanto Roy tenta adormecer, atesta-o, sugere-nos uma tormenta interior impossível de dissimular. Cabe a David Vann socorrer-se de alguns truques para nos ir mantendo alerta: «Os dias claros que tinham tido eram a excepção. Esta chuva densa, e o mundo fechado que formava, era o que teriam pela frente. Seria essa a morada deles» (p. 51). A simplicidade das palavras é proporcional à sua força, abre-nos o apetite, aumenta a curiosidade. Logo de seguida o pai de Roy reconhece que há algo nele que não está bem, resta saber o quê. Como é óbvio, a tentação de elaborar juízos de carácter sobre aquele homem flagelado por uma dor privada pode precipitar-nos. Um fraco, um débil que se sabe à beira de cair num precipício mas que se agarra a frágeis pretextos para não cair de vez. O homem sente-se só, profundamente só, não só de estar isolado numa ilha, mas só de estar isolado dentro de si próprio, rodeado de sombras, frustrações, problemas, cansaços, decepções, teorias sem sentido e inconsequentes. É então que o inesperado acontece. A segunda parte do livro como que rasga o ventre das tormentas e põe a claro as contradições humanas. Não vale a pena aprofundar muito. A escrita é de uma eficácia terrível, deixa-nos a cambalear entre o ódio e uma inaceitável indulgência para com a personagem central da narrativa. Como nunca nada é aquilo que aparenta, surge-nos uma dúvida: poderá este livro ser um gesto misericordioso? Ou é antes uma tentativa, quase terapêutica, de compreender o que leva alguém a embrenhar-se nas suas contradições? Página 124: «Era uma família desengraçada. Tinham uma filha com cara de papagaio e um filho com umas orelhas enormes e os olhos demasiado juntos e uma boca torcida de maneira bizarra. Os pais também não eram nenhumas belezas, o homem corpulento e com pinta de pateta e a mulher tentando olhar surpreendida para a objectiva. Tinham ido de férias para toda a parte, aparentemente. Camelos e peixes tropicais e o Big Bem. Jim detestou-os e sentiu-se muito bem por estar a comer a comida deles. Vão-se foder, disse ele para as fotografias enquanto lhes devorava os ravioli. Mas isto não durou muito e depois deu por si ali sentado à mesa à luz do candeeiro, com anda que o distraísse. Pausa, disse ele» (p. 124). O contexto em que esta acção e estes pensamentos nos são descritos leva-nos a supor a loucura de um homem. Só pode haver loucura onde tudo é tão racional, mesmo quando Jim, o pai de Roy, incapaz de adormecer, se mete a olhar para as estrelas, «mesmo não havendo nenhumas visíveis» (p. 133). O desfecho, ainda que, em certa medida talvez moral, nos aproxime de um famoso filme de Frank Capra, não iliba o homem. Até porque, neste caso, nenhuma estrela caiu do céu. Talvez a intenção nem seja essa, talvez a intenção seja mesmo expurgar a incapacidade do perdão quando só o perdão nos parece apaziguador. Porque há situações assim, exigem-nos um perdão que não reabilita quem nos fere. Antes nos reabilita a nós próprios, a nós que perdoamos.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O DESEJO DA PALAVRA




A noite, de novo a noite, a magistral sapiência do obscuro, o cálido atrito da morte, um instante de êxtase pessoal, herdeira absoluta do jardim proibido.

Passos e vozes do lado sombrio do jardim. Risos no interior das paredes. Não creias que estão vivos. Não creias que não estão vivos. A qualquer momento a fissura na parede e a debandada súbita das meninas que fui.

Caem meninas de papel de várias cores. As cores falam? As imagens de papel falam? Apenas as douradas falam e não há nenhuma dessas por aqui.

Sigo entre muros que se aproximam, que se juntam. Salmodiava toda a noite até à aurora:
Se não veio é porque não veio. Pergunto. A quem? Disse que pergunta, quer saber a quem pergunta. Tu já não falas com ninguém. Estrangeira, a morte está a morrer-se. Outra é a língua dos moribundos.

Esbanjei o dom de transfigurar os proscritos (sinto-os a respirar dentro das paredes). Impossível narrar o meu dia, a minha via. Porém contempla absolutamente só a nudez destes muros. Nenhuma flor cresce ou crescerá do milagre. Toda a vida a pão e água.

Acerca de uma música jamais ouvida declarei-me no cume da alegria. E daí? Oxalá pudesse viver somente em êxtase, fazendo do meu corpo o corpo do poema, resgatando cada frase com os meus dias e as minhas semanas, infundindo o meu sopro no poema à medida que cada letra de cada palavra fosse sacrificada nas cerimónias do viver
.


Alejandra Pizarnik, El Infierno Musical, 1971.


Versão de HMBF.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

WHO'S NEXT?




Camarada Van Zeller, suponho que terá ouvido falar do acordo. Agora, entre nós e o Império, teremos um «ponto de contacto» com a stasica missão de nos catalogar. Ou somos bons ou somos maus, sendo que não podemos ser ambas as coisas ao mesmo tempo, nem às vezes bons, nem às vezes maus. Pão, pão, queijo, queijo, preto ou branco, nada de confusões. Há tempos, a notícia era esta: O Governo desenterrou o acordo para troca de dados pessoais entre Portugal e os EUA e, ao contrário do que o PSD admitia na oposição, vai avançar para a sua ratificação. (…) O documento que permite a partilha de perfis de ADN e de impressões digitais tem data de Junho de 2009, mas não chegou a sair da gaveta com os socialistas. Agora, a notícia é esta: Este acordo tem gerado alguma polémica, desde logo pela não existência de um parecer prévio da Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD), que quando o elaborou considerou o compromisso inconstitucional. Paulo Portas discorda da CNPD e sublinhou que a transmissão de dados de cidadãos portugueses aos EUA será sempre feita «de acordo com o Direito português». Portanto, prevêem-se mais condecorações. Desde já, camarada Van Zeller, proponho-me para a simplificação do processo contribuindo com algumas informações acerca da minha pessoa que deverão passar a constar no banco de dados pessoais do Império. Sou um homem perigoso. Já estive no Egipto e em Marrocos, o que faz de mim um admirador da cultura árabe, condescendente com o fanatismo religioso islâmico. Nunca fui a Cuba, mas os meus pais já. Em termos de ADN, o radicalismo de esquerda circula-me, portanto, no sangue. Ainda que não faça parte de nenhum partido político, não seja sócio de nenhum clube nem tenha aderido a nenhuma associação esotérica, mantive vários contactos com gente de índole duvidosa. Fui avistado em casas de má fama e regressarei à Festa do Avante no próximo fim-de-semana. Sou um ávido devorador de literatura relacionada com culturas indígenas, cheguei-me à frente nas manifestações contra a PGA e chamei fascista a um agente de autoridade. Em tempos, andei metido em sarilhos. Detido para averiguações pela GNR local, o mais que se pôde provar foi que soprei a chama que acabou por devorar um cartaz da candidatura de Cavaco Silva a primeiro-ministro de Portugal. Estas tendências piromaníacas são, reconheço-o, uma grave nódoa no curriculum, pelo que não levarei a mal se algum dia me interditarem a entrada em Nova Iorque. Acho bem que os norte-americanos se preocupem com a índole dos portugueses, e muito me agrada saber ter governantes à altura de tais preocupações. Afinal, em cada português há um potencial assassino nato. Já em cada americano, há apenas um beato em emergência. Isso fica explícito quando olhamos os índices de criminalidade de ambas as partes.