Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES # 29





Tenho para mim que o inglês Robert Wyatt é um génio. Baterista dos Soft Machine, emigrou do rock psicadélico para a escrita de canções em nome individual ainda na década de 1970. Marcado inicialmente por um timbre de voz sui generis, tão sofrido quão persuasor, viu-se numa cadeira de rodas, paralisado da cintura para baixo, após uma queda. Shleep (1997) é um dos seus melhores álbuns. O minimalismo electrónico de Brian Eno nota-se no tema inicial, resvalando, ao segundo tema, para um ambiente jazzy, em regime free, que marcará a alternância de discursos neste álbum até ao fim. De resto, se há coisa que caracteriza as canções de Wyatt é uma inexcedível capacidade para experimentar novas texturas. Maryan, com o seu violino quase tradicionalista, a lembrar alguns dos melhores momentos da Penguin Cafe Orchestra, é das canções mais vanguardistas vindas a lume na última década do século passado. Há nesta canção uma envolvência entre o ritmo introduzido pelas palavras do poema e a melodia que a torna rara. Em Portugal só conheço um caso onde tal sucede, numa canção de José Afonso chamada Era um redondo vocábulo. Não coloco a fasquia tão alto por acaso. Reparem, a título de exemplo, na primeira quadra de Free Will and Testament:

Given free will but within certain limitations,
I cannot will myself to limitless mutations,
I cannot know what I would be if I were not me,
I can only guess me
.

De resto, todo o tema merece ser escutado com a maior das atenções. Uma nota: neste disco a panóplia de colaborações diz bem da musicalidade caleidoscópica onde caminham os intervenientes. Paul Weller e Brian Eno serão os mais conhecidos, mas há também Evan Parker no saxofone e Phil Manzanera nas guitarras. Quem não conhece não sabe o que perde.

Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

BOA NOITE

Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011

TEXTOS DE SOMBRA





Apenas procurava um lugar mais ou menos habitável, quero dizer: um pequeno sítio onde às vezes pudesse cantar e chorar tranquilamente. Na realidade não queria uma casa; Sombra queria um jardim.
− Vim apenas ver o jardim − disse.
Mas cada vez que visitava um jardim percebia que não era o que procurava, o que queria. Era como falar ou escrever. Depois de falar ou de escrever tinha sempre que explicar:
− Não, não é isso o que eu queria dizer.
E o pior é que também o silêncio a traía.
− É porque o silêncio não existe − disse.
O jardim, as vozes, a escrita, o silêncio.
− Nada mais faço senão procurar e não encontrar. Assim perco as noites.
Sentiu-se culpada de algo grave.
− Creio nas noites − disse.
Até que não soube responder-se: sentiu que lhe cravavam uma flor azul no pensamento para que não aprofundasse o curso do seu raciocínio.
− É porque o fundo não existe − disse.
A flor azul abriu-se na sua mente. Viu palavras como pequenas pedras disseminadas no espaço negro da noite. Então, passou um cisne com rodas com um grande penacho no pescoço interrogativo. Uma gaiata parecida com ela montava o cisne.
− Eu fui essa gaiata − disse Sombra.

Sombra está desconcertada. Diz-se que, na verdade, trabalha de mais desde que Sombra morreu. Tudo é pretexto para ser um pretexto, pensou Sombra assombrada
.


1-V-1972


Alejandra Pizarnik, in Textos de Sombra.


Versão de HMBF

PARANÓIA ORTOGRÁFICA

Uma grande excitação em torno do acordo ortográfico. Um dos best-sellers actuais é, precisamente, um pequeno guia para caminharmos no terreno sinuoso do acordo. Estranho as preocupações, a emergência quase histérica das dúvidas, o respeitinho doentio ao acordo, o ataque incessante a tudo o que é gramáticas, dicionários e congéneres, numa ânsia que desconhecia pelo português bem escrito. Nunca ninguém se queixou com as calinadas repetidas à exaustão, socorrendo-se invariavelmente de desculpas óbvias como o que importa é entendermo-nos. Tanta gente a escrever incorrectamente vai agora apoquentar-se com erros e lacunas gramaticais? Afinal, nunca ninguém se importou com os erros que dava. Vai agora preocupar-se com os erros que pode dar?

ESFOLIAR LIVROS

Temos muitos leitores que desfolheiam livros, mas faltava uma que os esfoliasse. Apareceu hoje.

Terça-feira, 27 de Setembro de 2011

Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

PARA QUE SERVE A POESIA HOJE?

A Deriva tem dado à estampa, numa colecção intitulada Pulsar, dirigida e coordenada por Ana Luísa Amaral, Pedro Eiras e Rosa Maria Martelo, alguns pequenos textos que visam reflectir o lugar e a função da palavra escrita no mundo actual. Assim, depois de Para que serve a Literatura? (Julho de 2010), de Antoine Compagnon (n. 1950), saiu Para que serve a Poesia Hoje? ( Junho de 2011), de Jean-Claude Pinson (n. 1947). Pinson nasceu em Nantes, estudou Letras na Sorbonne, acabando por formar-se em Filosofia sem nunca ter abandonado a inclinação literária, nomeadamente através da prática dos versos. O pequeno livro que agora nos chega com tradução de José Domingues de Almeida está dividido em duas partes. Uma primeira parte mais teórica, composta pelo texto de uma conferência proferida a 12 de Janeiro de 1999, e uma segunda parte mais dialogante, com uma síntese do debate suscitado pela dita conferência. As teses de Pinson, erigidas sobre o terreno fértil da obra de Henri Michaux, enfermam de um vício ao qual raramente escapam obras do género, o de começarem por reflectir um assunto pressupondo a necessidade dessa reflexão. À pergunta Para Que Serve a Poesia Hoje? Nós podemos, desde logo, juntar uma outra: para que servem hoje conferências e debates sobre a utilidade da poesia? E mais esta: servirá hoje a poesia para alguma coisa que não tenha já servido no passado? Estes problemas são tão mais urgentes quanto se torna necessário entender se, de facto, a poesia alguma vez serviu para alguma coisa ou se tem mesmo de servir para alguma coisa. Um pouco à semelhança da presunção de um sentido para a vida, buscado, cavado, semeado, colhido no absurdo da existência, também a utilidade de toda e qualquer actividade humana deverá ser pensada em função do paradoxo suscitado pela prática do impraticável. Na realidade, nada na vida pede sentido senão a própria perdição dos homens. Assim como a vida não tem que ter sentido algum, também a poesia não tem que servir para o que quer que seja. Não se trata de pretender fugir a uma questão entusiasmante de um ponto de vista meramente académico e teórico, até porque o texto de Pinson é assaz objectivo e procura sempre focar-se no essencial. No entanto, resvala com frequência nos tiques academistas com que estas questões são geralmente abordadas. Presume-se que a poesia não esteja na moda, algo que a realidade actual desmente ao constatarmos a proliferação de sítios dedicados ou atafulhados de poesia. Em certos circuitos de afirmação intelectual a poesia chega a dar cartas, até porque, como Pinson sugere, é uma arte aparentemente fácil e acessível. As limitações do público da poesia também já não são um dado adquirido. Convém esclarecer quem é esse dito público, até porque poesia há de vários tipos, modos e géneros, alguns tão populares e correntes que deixariam os académicos de gabinete estupefactos. Recentemente, em Portugal, um grande grupo editorial passou a distribuir uma das mais emblemáticas editoras de poesia portuguesas. Isto aconteceu pouco depois do principal responsável por esse grande grupo editorial ter decretado em entrevista pública a morte da edição de poesia. Ora, não me parece que um homem de negócios pretenda pegar num defunto só para ter o gozo de ser ele a enterrá-lo. Como é óbvio, a suposta utilidade de uma arte não se afirma pelo interesse que suscita nas massas. Há artes que nasceram para serem mediáticas, outras há que nunca almejaram senão aquilo a que hoje se chamam fidelíssimos nichos de mercado. É verdade que há mais poetas do que leitores de poesia, mas tenho alguma dificuldade em lamentar essa realidade. A poesia terá uma dimensão terapêutica que não esgota as suas funções, mas que de algum modo sublinha o carácter utilitário da sua não-utilidade. Duvido que cure ou dê prazer, pelo menos não tanto quanto um bom vinho ou a masturbação. Muitos dos melhores poetas suicidaram-se, levaram vidas errantes, foram indigentes e execráveis, o que deixa dúvidas quanto às dimensões curativas e saudáveis da poesia. Sem dúvida que desincha poderes, alarga horizontes na exacta medida em que amplifica a linguagem, proporciona um mundo melhor ou pior a quem com ela conviva no desleixo de si próprio e do mundo. Não obstante, parece-me que ainda está para chegar o intelectual que diga, sem parangonas, que a grande utilidade da poesia não diverge, no essencial, da utilidade da Playstation, ou seja, ajuda a passar o tempo proporcionando bons fogachos de tempo. Que também Pinson insista na balela castradora e exclusivista da verdadeira poesia, como se a falsa pudesse sê-lo, só peca a favor de um texto estimulante que nos agrada, sobretudo, pela sua intrínseca inutilidade.

Domingo, 25 de Setembro de 2011

49 ANOS

Os meus pais fizeram hoje 49 anos de casados. Fomos à Atalaia, ali para os lados da Lourinhã, comer uma mariscada. A minha mãe continua a ter duas tristezas na vida, nenhum filho casou e nenhum dos netos é baptizado. O meu pai é mais selectivo nos balanços. Preza a família, o Sporting e o socialismo acima de tudo. Porém, quanto ao Sporting, deixou cair uma revelação que foi, para mim, um trágico oráculo: «Já não consigo ver os jogos do Sporting. Sempre que vejo, passo a noite a ir à casa de banho». É assim a vida. Mais marisco, menos marisco, é assim a vida.

Sábado, 24 de Setembro de 2011

ESTRADA INNISKEEN: NOITE DE JULHO








As bicicletas passam aos pares e trios −
Esta noite há baile no celeiro do Billy Brennan,
Onde os mistérios semi-conversarão por códigos
E o prazer falará pelos cotovelos sem pestanejar.
São oito e meia, e não há vivalma
Num quilómetro de estrada, nenhuma sombra
Que possa pôr na rua um homem ou uma mulher,
Nem um passo pontapeando segredos de pedra.

Tenho o que qualquer poeta odeia apesar de
Toda a conversa solene da contemplação.
Ó, Alexander Selkirk conhecia a condição
De ser rei e governo e nação.
Uma estrada, um quilómetro de reino, eu sou rei
Das margens e das pedras e de todas as coisas florescentes.




Patrick Kavanagh (1904-1967)




Nota: Alexander Selkirk (1676 – 1721) foi um marinheiro escocês que passou quatro anos como náufrago após ser abandonado numa ilha deserta. Supõe-se tenha inspirado Daniel Defoe a compor Robinson Crusoe (aqui).


Versão de HMBF

Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011

JOSÉ NIZA (1938-2011)





Há coisa de três anos fui convidado a integrar o júri da primeira (e que eu saiba, até à data, única) edição do Prémio Nacional Poeta Ruy Belo. José Niza era igualmente um dos elementos do júri. Estive com ele, salvo erro, duas vezes. Numa reunião para decidirmos a atribuição do prémio e na cerimónia de entrega do dito. Depois da cerimónia, fomos almoçar. Calhou que ficássemos sentados ao lado um do outro durante o almoço. Ouvi-lhe várias histórias com a atenção de um aprendiz. Era um homem afável. Era inevitável que falássemos de E Depois do Adeus, versos que Niza escreveu e Paulo de Carvalho imortalizou no Festival de 1974. A revolução contribuiu para a popularidade. Niza, autor da letra, chamou-lhe «canção vulgar». Discordou do meu entusiasmo e pareceu-me algo aborrecido com a colagem ao tema. Tomara muitos fazerem algo que os vindouros possam identificar como seu. Em Abril de 2008 O Mirante publicou um livro de poemas de José Niza. Fica um, em jeito de homenagem, porque nem tudo são canções:

VELÓRIO

Estavam todos tristes
muito tristes
com gravatas pretas de tristeza
contando anedotas

o defunto levantou a cabeça do caixão
e perguntou

amigos
a que horas é o funeral?

às nove da manhã!
disseram cheios de medo

então boa noite
que amanhã
vou levantar-me cedo


12 de Março de 1971



José Niza, in Poemas de Guerra – Angola 1969-1971, O Mirante, Abril de 2008, p. 57.

Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011

NESTA NOITE, NESTE MUNDO


nesta noite neste mundo
as palavras do sonho da infância da morte
nunca é isso o que alguém quer dizer
a língua natal castra
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo o poema
castrado pela sua própria língua
que é o órgão da re-criação
do re-conhecimento
mas não da ressurreição
de algo ao jeito de negação
do meu horizonte de maldoror com seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(tudo o que pode ser dito é mentira)
o resto é silêncio
embora o silêncio não exista

não
as palavras
não fazem amor
fazem ausência
acaso beberei se digo água?
acaso comerei se digo pão?

nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio o desta noite
o que se passa com a alma é que não se vê
o que se passa com a mente é que não se vê
o que se passa com o espírito é que não se vê
de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura
corredores negros
percorri-os todos
oh! fica um pouco mais entre nós!

a minha pessoa está ferida
a minha primeira pessoa do singular

escrevo como alguém alçando uma faca na obscuridade
escrevo como estou a dizer
a sinceridade absoluta continuaria a ser
o impossível

oh! fica um pouco mais entre nós!

os detritos das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
que fizeste do dom do sexo?
oh meus mortos
comi-os engasguei-me
não mais posso não poder mais

palavras embuçadas
tudo desliza
até à negra liquefacção

e o cão de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
excepto
o poema

falo
sabendo que não se trata disso
nunca se trata disso
oh ajuda-me a escrever o poema mais prescindível
o que não sirva nem para
ser inútil
ajuda-me a escrever palavras
nesta noite neste mundo




Alejandra Pizarnik, in La Gaceta del Fondo de Cultura Económica, México, Nueva Época, n.º 19, Julho de 1972.


Versão de HMBF

Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

MAIORIA





Mas a experiência de Henry David Thoreau nos bosques próximos do lago Walden não deve iludir-nos. Afinal, o homem apenas aguentou dois anos e dois meses de «uma vida mais elevada e espiritual». Depois regressou à civilização, deixando para trás o canto da cotovia e o rasto das cobras, abandonando as marmotas, os molotros e os cucos, para de novo se instalar entre os pobres de espírito. Sobre Thoreau apetece por vezes dizer o que o próprio afirmou acerca de certa personagem “incógnita”: «O desperdício da melhor época da vida, sacrificando-se uma pessoa para ganhar dinheiro com o fito de usufruir de uma duvidosa liberdade na velhice, faz-me lembrar o inglês que partiu para a Índia a fim de fazer fortuna e voltar depois a Inglaterra para viver uma vida de poeta. Deveria ter-se recolhido no sótão de uma vez!» (Walden, p. 70) Esta pretensiosa implacabilidade não reconhece o mérito das chamadas vidas banais. É um problema comum, a incapacidade de distinguir o valor de uma vida em função das ambições de cada qual.

O problema reside num autocentrismo assoberbado sem razão de ser. Muita gente está convencida de ter tido uma vida repleta de percalços e histórias incríveis, não lhe passando sequer pela cabeça que ao pé desses percalços e experiências incríveis a vida, vá lá, de uma criança soldado na Serra Leoa não é um mero facto desmistificador. Um homem que teve muitas mulheres pode morrer sem nunca ter tido verdadeiramente uma única mulher. Um homem que toda a vida teve a mesma mulher pode ter tido toda as mulheres do mundo. Só um tonto pode duvidar de que uma vida linear, sóbria, metódica e indiferente possa ser tão útil quanto uma vida inquieta, desassossegada, anárquica, extravagante, até porque a utilidade de ambas as “formas de vida” reside na razão intrínseca da existência dos seres humanos: virem um dia a servir de estrume. Daí que o interesse não esteja tanto na vida levada como parece estar na vida que se leva.

Pouco me importa que certo tipo passado dois anos e dois meses em regime de auto-suficiência no meio de um bosque ou que outro indivíduo qualquer tenha passado toda a sua vida caminhando de casa para o trabalho e do trabalho para casa, cumprindo escrupulosamente horários que lhe são impostos. O que me importa é a possibilidade de cada um destes seres se negar a si próprio, interrompendo, fintando, baralhando o curso da sua existência quando bem entender. A vida que cada um de nós leva é inexoravelmente condicionada por fenómenos exógenos e incontroláveis, sempre na direcção absoluta, certa, axiomática de um inevitável esquecimento. Tomá-la nas próprias mãos significa aprender a interpretar o seu curso. A palavra que nos cabe pode não ser determinante, nem mesmo decisiva, mas é, sem dúvida, actuante.

As conclusões são inspiradoras: «Com a minha experiência aprendi pelo menos isto: se uma pessoa avançar confiantemente na direcção dos seus sonhos, se se esforçar por viver a vida que imaginou, há-de deparar com um êxito inesperado nas horas rotineiras» (idem, p. 351). Prossiga quem estiver interessado. Importa, pois, desiludir a rotina, combater a sua fatalidade. Podemo-nos sentir tentados a considerar que Thoreau jamais poderia viver como um índio não tendo nascido índio, assim como um terrorista jamais poderá sê-lo se não tiver nascido terrorista, ou um pirata, ou um parvalhão qualquer, um cigano, um judeu, um palhaço, mas estes julgamentos pressupõem um destino ignorante do caos e da aleatoriedade em que a própria vida se exerce. As pessoas que se convencem de um papel histórico que a História jamais recordará vivem na ilusão de uma importância que a maioria desmente. A maioria é tramada, tem uma força tremenda.

Terça-feira, 20 de Setembro de 2011

POEMA PARA O PAI

E foi então
que com a língua morta e fria na boca
cantou a canção que não o deixaram cantar
neste mundo de jardins obscenos e de sombras
........................que tardiamente vieram a lembrar-lhe
........................cantos do seu tempo de rapaz
nele que não podia cantar a canção que queria cantar
a canção que o não deixaram cantar
senão através dos seus olhos azuis ausentes
da sua boca ausente
da sua voz ausente.
Então, da mais alta torre da ausência
seu canto ecoou na opacidade do velado
na silenciosa extensão
cheia de movediços vazios como as palavras que escrevo
.



Alejandra Pizarnik, in Árbol de Fuego, n.º 46, Janeiro de 1972


Versão de HMBF

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #28





Julian Cope foi durante vários anos o irrequieto líder dos The Teardrop Explodes, uma banda da qual não guardo nem boas nem más recordações. Em 1984 encetou uma carreira a solo cujo pico de popularidade ocorreu três anos depois, com o álbum Saint Julian e o êxito World Shut Your Mouth. Jehovahkill foi publicado em 1992, remetendo para um canto o imediatismo pop do passado. Ainda que tenha havido sempre nas composições de Cope um gosto assumido pela excentricidade, Jehovahkill sublinha-o com 16 temas divididos em três conjuntos de irrepreensível solidez. É aquilo que à época se chamava de álbum conceptual, atravessado por uma inclinação pagã com preocupações ecológicas implícitas. Violas acústicas, temas calmos, por vezes épicos, ou até o instrumentalismo psicadélico de Necropolis, com ritmos saídos de uma ancestralidade evocativa de batalhas divinas, arranjos e acompanhamentos tribais, criam um ambiente ritualista irresistível. Poet is Priest…, por exemplo, envia-nos na sua deriva electrónica para as experiências alucinatórias de uns Primal Scream. A paleta é variada. Alguns rasgos explosivos, como no excelente Up-Wards at 45’, são especialmente reveladores: Loving is the face of Jesus / Smiling is the Mona Lisa / To penetrate the diamond / the pituatary gland gets torn off its access and frees / Earth is a cannon of love, shame beyond Socrates / Who's to blame but the man like any man? / Who's to blame but the man who leads? Este disco inscreve-se numa trilogia de registos elaborados sobre um suposto colapso das religiões universais, celebrando-o e desbravando caminho para um reencontro com as forças da natureza. No interior, poemas místicos na linha de Blake fazem-se acompanhar por imagens de templos megalíticos. Deserto, vulcões, oceanos, tempestades, sismos, sol, lua… os quatro elementos em constante agitação, e no interior do estômago buliçoso da terra um vírus chamado homem. Este universo é a raiz a partir da qual as canções de Jehovahkill florescem, formando uma paisagem enigmática mas atraente. Pertinente.

Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011

IMPLANTES E EXTENSÕES




Sejam bem vindos. É aqui.

Domingo, 18 de Setembro de 2011

A NOITE, O POEMA


Alguém encontrou a sua verdadeira voz e testa-a no meio-dia dos mortos. Amigo da cor das cinzas. Nada mais intenso do que o terror de perder a identidade. Este recinto cheio dos meus poemas prova que a menina abandonada numa casa em ruínas sou eu.

Escrevo com a cegueira cruel com que as crianças atiram pedras a uma louca como se fosse um melro. Na realidade não escrevo: abro uma brecha para que até mim chegue, ao crepúsculo, a mensagem de um morto.

E este ofício de escrever. Vejo por espelho, na obscuridade. Pressinto um lugar que ninguém além de mim conhece. Canto das distâncias, escuto vozes de pássaros pintados sobre árvores adornadas como igrejas.

A minha nudez iluminava-te como uma lâmpada. Apertavas o meu corpo para que não fizesse o grande frio da noite, o negro.

As minhas palavras exigem silêncio e espaços abandonados.

Há palavras com mãos; apenas escritas, tomam-me o coração. Há palavras condenadas como lilases na tormenta. Há palavras parecidas com certos mortos, se bem que prefira, entre todas, aquelas que evocam a boneca de uma menina desafortunada
.

Alejandra Pizarnik, 23 de Novembro de 1969


Versão de HMBF

UNIVERSIDADE

Entrei para a Universidade Católica em 1992, onde me licenciei em Filosofia. Saí em 1997 e nunca mais lá meti os pés. Não guardo saudades senão de meia dúzia de docentes e outra meia dúzia de colegas de curso. O resto foi arrumado no esquecimento. Ironia do destino, em 2000 comecei a trabalhar para a extensão caldense da Associação para a Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica. Foram dez anos a recibos verdes, cumprindo horários, marcando presença em reuniões não pagas, dando aulas de apoio a alunos do Externato Ramalho Ortigão, que funcionava nas mesmas instalações da AESBUC, sem qualquer compensação financeira. Este “elo irrevogável” à instituição Universidade Católica não me deixa qualquer espanto ao tomar conhecimento do badalado post assinado por Porfírio Silva, mas, já agora, permitam-me lembrar um weblog que deveria ser lido por todos aqueles que são tão ligeiros a criticar a gestão da coisa pública como cautelosos quando toca a criticar a gestão da coisa privada (ou deverei dizer semiprivada?).

UM SONHO

Camarada Van Zeller, hoje tive um sonho, sonhei com a República ideal. Nesse sonho aparecia um bodegão em vestes estranhas. Julguei que fosse Sócrates ou talvez Platão, mas o primeiro fora para França e o segundo andava desaparecido. O seboso era Alberto João. Na República ideal dos meus sonhos não havia governos a extinguir organismos públicos, eram os organismos quem extinguia os governos. A Assembleia da República transferira-se para a Cinemateca, e a legislatura dos deputados consistia em visualizar as obras completas do Manoel de Oliveira. Camarada, na República ideal do meu sonho nenhum candidato a docente na Universidade da Opus Dei era impedido de aí leccionar. Papas, só de serrabulho. E Universidade Católica não existia, por ninguém lá querer doutrinar. Revisitei os corredores da instituição onde o Tolentino era capelão. Agora poeta, estrela das Paulinas e autoridade máxima do Santo Ofício assírico, mais se parecia a um galo capão. Neste meu sonho o Bundesbank ficava na Amieira. Era uma casa de putas de primeira. Ali satisfaziam ânsias vários ministros e alguns investidores, sem que entre eles se notassem quaisquer diferenças. Acabou este sonho quando sentado num banco de madeira avistei um Coelho a cobrir um Jardim, e do alto de um montículo certo caçador António José, com um ar muito inseguro, apontou a caçadeira e disparou. Saiu-lhe o tiro pela culatra, acertou-lhe o chumbo em cheio no pé. 30 anos é muito tempo, demasiado para que não se tivesse já percebido não ser a Madeira o Jardim do Éden, mas sim o Paraíso do Jardim. Adões e Evas há muito foram expulsos, ficaram-nos as serpentes com suas maçãs envenenadas. Quem quiser que as coma.

DIÁLOGO INTER-CONFESSIONAL

Pai: acreditas em Deus?
Filha (4 anos): porquê, ele alguma vez te mentiu?

Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011

MÁQUINA DE LAVAR SOLIDÕES

Em 2003 discutiam-se posições, ideias, perspectivas, reivindicações. Fazia-se isso de um modo aberto, quase invariavelmente com as portas dos comentários escancaradas. Depois veio a fase dos boatos e houve quem quisesse discutir uma eventual regulamentação do insulto. Constatada a dimensão peregrina do intento, começou então a discutir-se quem era quem por detrás deste e daquele heteropseudónimo. Foi um ver se te avias de insinuações e caça às bruxas, uma idade média da qual ainda não nos libertámos totalmente. Entretanto, alguns escribas começaram a ser publicados sob a tradicional forma de livro. Isso também foi discutido. A chamada elite (há delas, inclusive, entre os ratos de esgoto) apareceu mais assiduamente na imprensa, fizeram-se programas, os jornais transformaram-se numa espécie de reproduções colectivas do Novo Mundo sem lugar que se note para um jornalismo decente. Quem era conhecido por estas bandas começou a ser mais reconhecido fora das suas fronteiras naturais e quem já aparecia do outro lado da barricada para aqui emigrou sonhando com um ego mais mediatizado. Há hoje uma comunidade que se desdobra em aparições televisivas, radiofónicas, nos jornais, nas revistas. Surgiram termos para designar os opinadores omnipresentes, arranjaram-se empregos, distribuíram-se oportunidades ajuizadas em simpatias e elos afectivos. Entretanto passámos à fase das relações promíscuas. Esta fase apenas decalca uma velha e paradoxal realidade: a da relação entre o mundo da política e o mundo dos media. Porque os media são cada vez mais isto e isto é cada vez mais uma plataforma alternativa aos media. É por isso que os políticos e os jornalistas, de dente afiado e fio de sangue a escorrer dos cantos da boca, não hesitaram em vampirizar o Novo Mundo da opinião. Território outrora fértil em pancadaria ideológica, agora convertido em galhofaria semiprivada. Ando por cá há 8 anos, ainda não sei bem a fazer o quê. E todos os dias sonho com o meu momento catástrofe, um vírus inexorável que arrasasse com a rede, que corroesse os circuitos, transformasse estes simulacros de palavras, imagens e sons num imenso e silencioso vazio. Imaginem tudo apagado, subitamente desaparecida do mundo a rede que ampara a solidão, as ambições, os desejos de milhões de pessoas em todo o mundo. Para onde se voltaria então toda essa gente? Para a rua? Para o desespero?
P.S.: obrigado Sílvia.

PEQUENOS POEMAS EM PROSA



O sol fechou-se, fechou-se o sentido do sol, ilumina-se o sentido de fechar-se.

*

Chega um dia em que a poesia se faz sem linguagem, dia em que se convocam os grandes e os pequenos desejos disseminados nos versos, reunidos subitamente em dois olhos, os mesmos que tanto louvava na frenética ausência da página em branco.

*

Apaixonada pelas palavras que criam noites curtas no incriado do dia e no seu vazio feroz
.



Alejandra Pizarnik, in La Nación, Buenos Aires, 21-Março-1965


Versão de HMBF

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

SEGURANÇA

Nunca fui de discotecas, engates, noitadas de caça. Tenho amigos que embarcam frequentemente em aventuras dessas. Alguns, em tempos de robusta figadeira, chegavam a fazê-lo noite sim, noite não. Apanhei boleia com eles em ocasiões menos ponderadas. Como a música nas discotecas raramente me agrada e o ambiente quase sempre me deprime, colava-me ao balcão a beber copos de vodka uns atrás dos outros. Quando me sentia suficientemente confiante, dirigia-me para a pista e punha-me a dançar. Sem que alguma vez tenha percebido porquê, o meu jeito para a dança atraía invariavelmente os seguranças de plantão. Não era esse o objectivo, mas já dizia a avozinha que de boas intenções está o inferno cheio. Provavelmente também terá por lá uns tantos seguranças.

Ora, a prova de que a minha vida deu uma volta de 360º nos últimos anos está em que passei a conviver com seguranças sem me meter em sarilhos. Dantes não era assim. Estranho esta nova situação, sobretudo porque os seguranças que me rodeiam inspiram pouca segurança. Um deles parece saído de um filme de Ettore Scola. Ligeiramente corcunda, anda com os pés para fora, de pernas bastante afastadas, e fala sempre de boca cheia. Não é raro vê-lo a coçar a tomatada sem discrição. Nem os dentes todos tem, mas não consegue falar senão de boca cheia. Em vão me esforço para entender o que diz. E embora só a custo lhe consiga decifrar uma ou outra palavra, gosto de o ouvir. Faz-me sentir nos primórdios dos tempos, quando essa massa execrável hoje classificada de humanidade comunicava por grunhidos e gestos. É uma injustiça chamar-lhe grunho. Trata-se de alguém bastante competente no exercício das suas funções. E é bom que ninguém o perceba. Assim como assim, ninguém pode reclamar daquilo que diz.

O chefe dos seguranças é substancialmente diferente. Exibe um caminhar aprumado, firme, intimidador. Verdade que o bigode milimétrico lhe confere um aspecto porventura mais recomendável a um proxeneta, mas não deixa de lhe dar certa graça na postura geralmente rígida. Quem o observe desatentamente, julgará que o olhar de falcão com que se passeia está empenhado nos recantos do espaço vigiado. Mas a suposta vigilância das retinas é-lhe amiudadamente denunciada por um esgar preso aos cus das damas, um mirar esquivado para o decote ou para as pernas esguias de uma madame que passa. De vez em quando, reparo no empenho que coloca em estimular os seus subordinados com uma observação partilhada pelos intercomunicadores. Olha-me aquele avião, diz. Nunca percebi esta tendência para chamar aviões às mulheres atraentes. Poucas coisas conheço menos atraentes do que um avião, veículo que, de resto, é suficientemente fálico para não me seduzir minimamente.

Há também o segurança filósofo. Quem o mire jamais desconfiará da inclinação filosófica. Braços grossos, tatuados, pescoço curto, ombros largos. De todos, é ele quem melhor respeita o padrão físico normalmente atribuído aos seguranças. Note-se que quando me refiro à sua inclinação filosófica não é por gozo. No outro dia, trocámos algumas impressões sobre Deleuze, Derrida, Žižek, Sloterdijk… Achei piada que me tivesse contado alguns pormenores da sua vida. Teve que deixar de estudar muito novo. Se pudesse ter estudado, tinha estudado filosofia (muito provavelmente para terminar como segurança). Continua a alentar um gosto pela leitura filosófica que destoa da maioria das pessoas, quanto mais das pessoas que são seguranças. Diz que a filosofia lhe traz ao pensamento a insegurança que se vê obrigado a negar na vida. Achei este pensamento tão profundo que não resisti a partilhá-lo. No outro dia convidou-me para uma tertúlia. Diz que tem um amigo padre também dado às questões do pensamento. Senti-me tentado a ir, mas algo me demoveu quando o olhei filosoficamente nos olhos. É que eu nunca fui de discotecas, engates, noitadas de caça.

Terça-feira, 13 de Setembro de 2011

PRIMEIROS CAPÍTULOS




Chega a morte com a sua manada de ossos
sorrio forçadamente a uma menina idiota
que suplica em meu nome
juntas (a morte, a menina e eu)
não encontramos outro ofício além de execrar
No final todos se casam:
o mar com as ondas,
a noite com a treva,
a taça com o vinho,
o anel com o dedo,
a morte com o cadáver
.


Alejandra Pizarnik


Versão de HMBF

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #27



Não aprecio antologias. Vocês conseguem imaginar um DVD com excertos dos filmes do vosso realizador preferido? Eu não. É por essa razão que não gosto de antologias, nem das “poéticas” nem das “musicais”. Há num livro ou num disco uma integridade que a antologia desrespeita. Fragmentar a obra significa quebrar o corpo, perde-se solidez. Em muitos casos esse trabalho de recolha chega a ser criminoso. Mas há também aqueles casos em que a recolha resulta, quer pelo excesso de obra, quer pela coerência criativa mantida ao longo dos anos. Esta antologia comemorativa dos 25 anos dos Can é um exemplo paradigmático do que não deve ser feito, mais ainda tratando-se de uma banda tipicamente conceptual, mas que, ao ser feito, funciona. Até porque aos Can reconhecemos apenas 1 “êxito” comercial. Coisa rara em best-offs. Os Can surgiram na Alemanha quando a década de 1960 queimava os últimos cartuchos. Autores de uma música multifacetada, souberam sempre fugir a rótulos e catalogações. Há quem lhe chame rock vanguardista ou experimental, mas nenhum desses chavões é correcto quando nos referimos ao ecletismo desta música. Outside My Door − do álbum Monster Movie (1969) − antecipa o punk, She Brings The Rain − de Soundtracks (1970) − é jazzy quanto baste, já Mushroom − do imprescindível Tago Mago (1971) − transporta a banda para o universo que a imortalizou, com uma secção ritmíca inspiradora de metade das bandas de post-rock vindas a lume vinte anos depois. Não é simples fazer boa música do ruído, metendo constantemente o pé em pântanos inexplorados. O espírito de aventura alicerça a digressão. Uma atitude rara, sobretudo quando aos estilhaços a maioria dos projectos musicais da actualidade vai preferindo uma integração e aceitabilidade consentâneas com a mais entediante das banalidades.

OS LIMITES DA PACIÊNCIA

Passados três anos, posso afirmar que o que mais me assusta na actividade livreira é a triste constatação de uma realidade social que não precisava de ser constatada. Repetem-se diariamente as situações em que somos confrontados com a necessidade de tomar decisões por quem não quer acarretar com o ónus da decisão. Já conhecia esta faceta humana de outras circunstâncias, mas desconhecia-a no contexto comercial. Há dias, tive que aguentar a exaltação de uma cliente que queria encomendar livros escolares sem sequer saber qual a escola que a filha ia frequentar. Não me choca a ignorância, para a qual tenho sempre uma paciência infinita. Nem sequer me choca um indício de desinteresse que não me é novo. Choca-me, continua-me a chocar e dificilmente deixará de chocar a incapacidade de decidir, a tentativa desesperada de colocar sobre os outros a gravidade de uma decisão. Aquela cliente, como tantas vezes sucede, queria que eu decidisse por ela para que, na eventualidade de algo correr mal, ela não ter que ser responsabilizada. Esta massa que foge da responsabilização aflige-me, sempre me afligiu, não tenho como lidar com gente assim. Daí que me sinta cada vez mais misantropo. Ao pé disto, a jovem que me entrega um currículo com a actividade profissional reduzida a «manuseamento de vários utensílios como escadotes e baldes na apanha da maçã reineta», o patusco que me pede máquinas tradutoras de bolso ou o indivíduo que procura o livro do rapaz só com cabeça são meras anedotas. Reais, mas anedotas.

Domingo, 11 de Setembro de 2011

POESIA





Poesia começa com o suicídio de uma jovem rapariga que salta de uma ponte. Esta ponte terá uma carga simbólica bastante forte durante todo o filme. É uma ponte que liga duas margens, o passado e o presente, mas também a ponte de onde alguém pode antecipar o futuro. O passado está representado por uma mulher que resolve ir aprender poesia depois de lhe diagnosticarem Alzheimer. O presente vive no corpo do neto dessa mulher, um jovem desinteressado que adormece embalado por uma música intragável e passa a vida a ver televisão. São duas presenças muito fortes e deveras contrastantes. Lee Chang-dong, realizador de Poesia, parece pretender interrogar-nos sobre a possibilidade da poesia no mundo actual. A sua postura perante o poético é desesperançada, mas também algo redutora. A certa altura, o professor de poesia da classe onde a protagonista está inscrita afirma que a poesia está a morrer. A seu lado, um jovem poeta algo perturbado reforça que a poesia merece morrer. Mas ainda que seja difícil a Mija encontrar dentro de si a voz dos versos, é nessa busca que ela vai encontrando suporte para a vida. E a poesia tanto pode estar nas flores como nos alperces que se precipitam sobre a terra para aí serem esmagados, no sabor adocicado de um fruto maduro ou no chilreio dos pássaros, no som do vento a afagar as estepes ou numa simples maçã. Encontrá-la exige um olhar diferente do olhar ameaçado pelos gumes tortuosos da vida. Um dos gumes que Mija terá de enfrentar é a notícia de um crime cometido pelo neto. Haverá lugar para a poesia após o anúncio e a experiência da catástrofe? A pergunta não é nova, chega a ser redundante e quase sempre esquece o essencial. Para lá da questão sobre a possibilidade ou o lugar da poesia, resiste a evidência da poesia enquanto afirmação disseminada do acto criativo. O próprio filme de Lee Chang-dong é poético. É um exemplo das possibilidades da poesia. Pelo que, sendo assim, estamos perante uma petição de princípio. A poesia não transcende a realidade, não chega sequer a desvelá-la, pois a realidade só está velada quando os olhos de quem a olha se deixam embaciar. A poesia é parte integrante da vida. No deprimente caos de desventuras, frustrações, medos e ansiedades que nos envolve, ela brota no coração de quem para ela se volta. Exige um olhar solto e desprendido, mas não requer nenhum paraíso onde possa ser afirmada. Antes pelo contrário. Quanto mais insuportável o mundo, mais clara e translúcida se faz notar a poesia. Não como lugar alternativo, mas como ponte de onde se salta para o futuro. Daí que cada poema seja sempre uma breve e pequena morte, uma breve e pequena antecipação do futuro.

Sábado, 10 de Setembro de 2011

SAI PARA A RUA

O POVO NA RUA, O CÃO NA CASOTA

Camarada Van Zeller, fiquei atiçado depois de ouvi-lo falar. Segurem-me que eu não aguento. Já calcei as botas da tropa, já vesti a t-shirt encarnada, vou enrolar o turbante ao pescoço antes que me enrolem o pescoço ao turbante. Armadilhei-me com um cocktail incendiário e uma tumultuosa moca de Rio Maior. As montras, quando me vêem passar, encolhem-se todas. As ruas preparam-se para o meu sangue. Tomei pastilhas para a garganta, de modo a que os gritos se façam escutar para cima do mais inatingível decibel. Estou em pulgas. Melhor, estou em carraças. Vosselência é uma inspiração, as suas palavras uma forte motivação revolucionária: «não podemos evitar que haja manifestações na rua. Já viu o ridículo que era este povo aceitar os sacrifícios e não ir para a rua, não fazer um desfile? Parecíamos parvos ou mortos». Aqui estou eu, camarada, pronto para o desfile em pose de passarela. A dúvida é: quando este povo for para a rua, onde irá vosselência se meter?

Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011

AVERBAMENTO





Sob a capa de caderno de apontamentos, as páginas desenvolvem-se a duas colunas. Do lado direito, um breve texto em prosa como que enraíza o desabrochar dos versos. A sustentá-los, então, uma perspectiva reflectida com apuro aforístico, no sentido filosófico do termo, que não é alheio à restante obra de Paulo da Costa Domingos. Se noutros livros esse sustento filosófico não era tão evidente, aqui expõe-se ombreando com a poesia. No fundo, duas formas de expressão para uma mesma raiva. O que se regista à margem não procura evidenciar, explicar, aclarar ou sequer justificar o poema-grito partido em estrofes de quatro versos. É um mesmo grito na génese da voz. A crítica da razão, não propriamente racional, envia-nos para as teorias de Paul Karl Feyerabend, o filósofo (epistemólogo) anarquista que um dia se despediu da razão num diálogo imaginário. É do Diálogo Sobre o Método que lembramos a seguinte passagem: «Alguns anos atrás, dirigia-me na direcção d euma parede, quando vi um tipo pouco recomendável avançar na minha direcção. «Quem será aquele vagabundo?» interroguei-me − depois descobri que a parede era na realidade um espelho e que eu me estava a olhar a mim próprio. Imediatamente o vagabundo se transformou num tipo de aspecto elegante e inteligente» (trad. António Guerreiro). Ora, na poesia de Paulo da Costa Domingos a parede não é necessariamente um espelho que nos relativiza o olhar. A parede é o muro contra o qual o olhar se despenha. E nesse muro projectam-se sombras que urge decifrar. Esta relação com o mundo gera um desconforto essencial à construção do poema, porque o poema não surge para embalar o desconforto ou para dormir mais aconchegadamente no regaço de um mundo hostil. Não, o poema surge como uma marreta pronta a estilhaçar o muro do homem actual, a quem o poeta chama homem-suicídio (na linha de Artaud) ou homem-sonífero. A segunda designação é especialmente interessante, pois releva a dimensão excitante desta poesia. Em vez de adormecer - arrebitar, acordar, despertar os sonâmbulos emparedados da urbe assassina. Trata-se, deste modo, de uma poesia imbuída de intenção, intenção essa que recusa estigmas num mundo pós-ideias, pós-ideais, imerso na ditadura cosumista onde o efémero impera e o humor aligeira a cultura a ponto de uma a absoluta e inconsequente insignificância. Talvez exista aqui uma nostalgia do significado, ou seja, uma espécie de vazio instaurado pela superficialidade que se procura combater indo às entranhas do problema. Mas o problema escava sobre si próprio, a “nostalgia do significado” (considerem as aspas) não reclama importância. O’Neill fez o bastante para que a importância fosse (de uma vez por todas e para sempre) erradicada da poesia, embora o bastante nunca seja suficiente. Está visto. O que a “nostalgia do significado” reclama é uma atitude perdida, esvaecida, submersa no e pelo oceano das dívidas pessoais, do sucesso, da fama, da eficácia. A “nostalgia do significado” reclama a utilidade do inútil, a liberdade acima de uma putrefacta escravidão dissimulada pelo culto do superficial. O mal-estar social é evidente, o retrato pintado evita equívocos: «Hordas despojadas da privacidade / a troco do holograma do acesso / a um nirvana de crédito, órfãos / em permanente estado de fome // à espera de acolhimento / num patrão. Inquisitorial, / qual mediador de seguros / comissionista: o jornalixo» (s/p). À tentação de classificar de política, ou mesmo de social, esta poesia, eu prefiro a deriva epistemológica de Feyerabend. É uma poesia de partir muros. Como é óbvio, não existe muita gente interessada neste tipo de averbamentos. Mas seja reconhecido, em abono da verdade, que ao averbamento sempre coube o lugar da des-ilusão. E como vociferava certo amigo do passado: antes desiludido com tesão do que iludido com moleza. Ficam os versos finais, à guisa de resumo: «Coragem. Simulacro por / simulacro, qualquer um pode / ter um brinquedo destes / para sair ao domingo. Só que // com menos motor, menos ideias. / Talvez por decreto d’óbito e / acordo da cristandade e dos outros / ela morra: a economia de mercado» (idem). Assim seja.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES # 26





Perdi alguns minutos a tentar averiguar quando vi Bill Callahan, o indivíduo por detrás do Smog, em Leiria. A tarefa não me mereceu mais do que alguns breves minutos. Ingratos minutos. Foi há tanto tão pouco . Lembro-me que à época fiquei impressionado com o jogo de cintura (em sentido literal) do singer/songwriter norte-americano. Wild Love (1995) é um dos mais desequilibrados dos seus álbuns. Mas é igualmente um dos melhores, porque nesse desequilíbrio reflecte a volatilidade dos humores. Muitos temas não chegam sequer a cumprir dois minutos. No entanto, são de uma intensidade lírica e de uma ousadia conceptual dificilmente equiparáveis. O registo é geralmente melancólico, mesmo quando somos empurrados para um carrossel que rodopia debaixo de uma chuva de fogo de artifício miudinho. Os acordes distorcidos dão consistência a letras sobre sonhos esvaecidos e esperanças desfeitas, embora o porém que se intromete nos silêncios coloque esta música a milhas do monocromatismo da maioria dos projectos congéneres. Lá para o fim há, inclusive, um épico rompendo das entranhas da solidão. Já se adivinhava, sobretudo por culpa de umas cordas emprestadas por Jim O’Rourke que vão aparecendo amiudadamente. Wild Love é um disco setembrino, tem a cor das folhas em queda e o cheiro das queimadas que antecipam Outubro, um sol sombreado por nuvens ameaçadoras, a depressão das alergias. Das alegrias. Interrompe-nos as ilusões sem nos desiludir, diz-nos que aos sonhos são preferíveis as acções possíveis, mesmo quando na clausura das suas ínfimas possibilidades se encerra a efemeridade das estações.

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011






cuidado com as palavra
...........................................(disse)
têm gume
.................cortar-te-ão a língua
cuidado
..............não despertar as palavras
deita-te nas areias negras
e que o mar te enterre
e que os corvos se suicidem nos teus olhos fechados
cuida-te
.............não tentes os anjos das vogais
não atraias frases
...............................poemas
............................................versos
nada tens que dizer
nada que defender
sonha sonha que não estás aqui
que já te foste
que tudo acabou



Alejandra Pizarnik


Versão de HMBF

A VIDA QUE NÃO VIVI

Quando, à minha volta, as pessoas se envolvem em discussões mais ou menos inflamadas sobre quem é quem, quem foi o quê, lembro-me sempre de Jesus Cristo na cruz e de Lenine na tumba. Mortos, nada mais que mortos, vamos todos tentando justificar a vida com altercações inconsequentes. Daqui a nada estamos enterrados. E depois ninguém poderá queixar-se da vida que não viveu.

Terça-feira, 6 de Setembro de 2011

AVANTE



Mote: este magnífico pato foi fotografado na última edição da Festa do Avante. É um pato candeeiro que não se limita a dar luz, embala-a com a leitura de cassetes.









Temo ter deixado a grande oportunidade da minha vida na tenda dos artigos em segunda mão.

A ILHA DE SUKKWAN

Não vale a pena aprofundar muito. A Ilha de Sukkwan (Edições Ahab, Junho de 2011), de David Vann (n. 1966), tem merecido justos elogios na imprensa especializada. O autor foi entrevistado e explicou a relação que a história do livro mantém com a sua experiência pessoal. Lê-se como foi escrito, de jorro. Comecei-o a caminhar, entre milheirais e silvedo, na direcção do Rogil. Só descansei quando cheguei à última palavra da derradeira página, no próprio dia, já no termo de uma tarde de praia. Peguei na Sebenta das férias, passei cola por uma folha e deixei cair alguma areia sobre o papel, de modo que a areia ali ficasse colada. Por baixo escrevi: sobre esta areia foi lido, num nublado dia de Verão, A Ilha de Sukkwan. Assim é esta história, um dia de Verão nublado. Aos treze anos, Roy vai viver com o pai para uma cabana numa ilha do Alasca. Esta deslocação para um espaço isolado conduz-nos na direcção de uma intimidade que está longe de ser pacífica. Como as ilhas, as pessoas guardam segredos, medos, frustrações, problemas mal resolvidos. À sua volta, apenas o zumbido dos mosquitos e o gotejar da água interrompem o silêncio atroz. E a respiração, a respiração de um pai e de um filho separados por contingências existenciais às quais costumamos dar o nome de equívocos. Porém, se há coisa que esta história nos ensina, é a inexistência do equívoco no curso da vida. O choro contido e disfarçado do pai, enquanto Roy tenta adormecer, atesta-o, sugere-nos uma tormenta interior impossível de dissimular. Cabe a David Vann socorrer-se de alguns truques para nos ir mantendo alerta: «Os dias claros que tinham tido eram a excepção. Esta chuva densa, e o mundo fechado que formava, era o que teriam pela frente. Seria essa a morada deles» (p. 51). A simplicidade das palavras é proporcional à sua força, abre-nos o apetite, aumenta a curiosidade. Logo de seguida o pai de Roy reconhece que há algo nele que não está bem, resta saber o quê. Como é óbvio, a tentação de elaborar juízos de carácter sobre aquele homem flagelado por uma dor privada pode precipitar-nos. Um fraco, um débil que se sabe à beira de cair num precipício mas que se agarra a frágeis pretextos para não cair de vez. O homem sente-se só, profundamente só, não só de estar isolado numa ilha, mas só de estar isolado dentro de si próprio, rodeado de sombras, frustrações, problemas, cansaços, decepções, teorias sem sentido e inconsequentes. É então que o inesperado acontece. A segunda parte do livro como que rasga o ventre das tormentas e põe a claro as contradições humanas. Não vale a pena aprofundar muito. A escrita é de uma eficácia terrível, deixa-nos a cambalear entre o ódio e uma inaceitável indulgência para com a personagem central da narrativa. Como nunca nada é aquilo que aparenta, surge-nos uma dúvida: poderá este livro ser um gesto misericordioso? Ou é antes uma tentativa, quase terapêutica, de compreender o que leva alguém a embrenhar-se nas suas contradições? Página 124: «Era uma família desengraçada. Tinham uma filha com cara de papagaio e um filho com umas orelhas enormes e os olhos demasiado juntos e uma boca torcida de maneira bizarra. Os pais também não eram nenhumas belezas, o homem corpulento e com pinta de pateta e a mulher tentando olhar surpreendida para a objectiva. Tinham ido de férias para toda a parte, aparentemente. Camelos e peixes tropicais e o Big Bem. Jim detestou-os e sentiu-se muito bem por estar a comer a comida deles. Vão-se foder, disse ele para as fotografias enquanto lhes devorava os ravioli. Mas isto não durou muito e depois deu por si ali sentado à mesa à luz do candeeiro, com anda que o distraísse. Pausa, disse ele» (p. 124). O contexto em que esta acção e estes pensamentos nos são descritos leva-nos a supor a loucura de um homem. Só pode haver loucura onde tudo é tão racional, mesmo quando Jim, o pai de Roy, incapaz de adormecer, se mete a olhar para as estrelas, «mesmo não havendo nenhumas visíveis» (p. 133). O desfecho, ainda que, em certa medida talvez moral, nos aproxime de um famoso filme de Frank Capra, não iliba o homem. Até porque, neste caso, nenhuma estrela caiu do céu. Talvez a intenção nem seja essa, talvez a intenção seja mesmo expurgar a incapacidade do perdão quando só o perdão nos parece apaziguador. Porque há situações assim, exigem-nos um perdão que não reabilita quem nos fere. Antes nos reabilita a nós próprios, a nós que perdoamos.

Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

GATA BORRALHEIRA

Sou bastante complacente com a imaturidade, sobretudo ao nível dos sentimentos, mas não tolero sonsices.

O DESEJO DA PALAVRA




A noite, de novo a noite, a magistral sapiência do obscuro, o cálido atrito da morte, um instante de êxtase pessoal, herdeira absoluta do jardim proibido.

Passos e vozes do lado sombrio do jardim. Risos no interior das paredes. Não creias que estão vivos. Não creias que não estão vivos. A qualquer momento a fissura na parede e a debandada súbita das meninas que fui.

Caem meninas de papel de várias cores. As cores falam? As imagens de papel falam? Apenas as douradas falam e não há nenhuma dessas por aqui.

Sigo entre muros que se aproximam, que se juntam. Salmodiava toda a noite até à aurora:
Se não veio é porque não veio. Pergunto. A quem? Disse que pergunta, quer saber a quem pergunta. Tu já não falas com ninguém. Estrangeira, a morte está a morrer-se. Outra é a língua dos moribundos.

Esbanjei o dom de transfigurar os proscritos (sinto-os a respirar dentro das paredes). Impossível narrar o meu dia, a minha via. Porém contempla absolutamente só a nudez destes muros. Nenhuma flor cresce ou crescerá do milagre. Toda a vida a pão e água.

Acerca de uma música jamais ouvida declarei-me no cume da alegria. E daí? Oxalá pudesse viver somente em êxtase, fazendo do meu corpo o corpo do poema, resgatando cada frase com os meus dias e as minhas semanas, infundindo o meu sopro no poema à medida que cada letra de cada palavra fosse sacrificada nas cerimónias do viver
.


Alejandra Pizarnik, El Infierno Musical, 1971.


Versão de HMBF.

Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

WHO'S NEXT?




Camarada Van Zeller, suponho que terá ouvido falar do acordo. Agora, entre nós e o Império, teremos um «ponto de contacto» com a stasica missão de nos catalogar. Ou somos bons ou somos maus, sendo que não podemos ser ambas as coisas ao mesmo tempo, nem às vezes bons, nem às vezes maus. Pão, pão, queijo, queijo, preto ou branco, nada de confusões. Há tempos, a notícia era esta: O Governo desenterrou o acordo para troca de dados pessoais entre Portugal e os EUA e, ao contrário do que o PSD admitia na oposição, vai avançar para a sua ratificação. (…) O documento que permite a partilha de perfis de ADN e de impressões digitais tem data de Junho de 2009, mas não chegou a sair da gaveta com os socialistas. Agora, a notícia é esta: Este acordo tem gerado alguma polémica, desde logo pela não existência de um parecer prévio da Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD), que quando o elaborou considerou o compromisso inconstitucional. Paulo Portas discorda da CNPD e sublinhou que a transmissão de dados de cidadãos portugueses aos EUA será sempre feita «de acordo com o Direito português». Portanto, prevêem-se mais condecorações. Desde já, camarada Van Zeller, proponho-me para a simplificação do processo contribuindo com algumas informações acerca da minha pessoa que deverão passar a constar no banco de dados pessoais do Império. Sou um homem perigoso. Já estive no Egipto e em Marrocos, o que faz de mim um admirador da cultura árabe, condescendente com o fanatismo religioso islâmico. Nunca fui a Cuba, mas os meus pais já. Em termos de ADN, o radicalismo de esquerda circula-me, portanto, no sangue. Ainda que não faça parte de nenhum partido político, não seja sócio de nenhum clube nem tenha aderido a nenhuma associação esotérica, mantive vários contactos com gente de índole duvidosa. Fui avistado em casas de má fama e regressarei à Festa do Avante no próximo fim-de-semana. Sou um ávido devorador de literatura relacionada com culturas indígenas, cheguei-me à frente nas manifestações contra a PGA e chamei fascista a um agente de autoridade. Em tempos, andei metido em sarilhos. Detido para averiguações pela GNR local, o mais que se pôde provar foi que soprei a chama que acabou por devorar um cartaz da candidatura de Cavaco Silva a primeiro-ministro de Portugal. Estas tendências piromaníacas são, reconheço-o, uma grave nódoa no curriculum, pelo que não levarei a mal se algum dia me interditarem a entrada em Nova Iorque. Acho bem que os norte-americanos se preocupem com a índole dos portugueses, e muito me agrada saber ter governantes à altura de tais preocupações. Afinal, em cada português há um potencial assassino nato. Já em cada americano, há apenas um beato em emergência. Isso fica explícito quando olhamos os índices de criminalidade de ambas as partes.

COMOÇÃO

Nunca a beleza foi o que mais me comoveu. O que mais me comove é a justiça.