quarta-feira, 30 de julho de 2008

O PROBLEMA DE SER NORTE

Há uma nova geração de vozes poéticas portuguesas no feminino à qual é preciso dar outra atenção. Penso em autoras como Filipa Leal (1979), Joana Serrado (1979) e Catarina Nunes de Almeida (1982), todas elas com livros que denotam passos seguros no resvaladiço território da poesia. Contra mim falo, apanhado de surpresa que fui recentemente com o terceiro volume de poemas da primeira das supracitadas. Não li os anteriores Talvez os Lírios Compreendam (2004) e A Cidade Líquida e Outras Texturas (2006), mas o mais recente O Problema de Ser Norte (2008) deixou-me com vontade de partir em busca dessas colectâneas. Trata-se de um volume breve, com menos de trinta poemas, alguns dos quais em registo epigramático. Está dividido em três partes, iniciando cada uma delas com uma arte poética a traçar as linhas condutoras de uma poesia que ecoa alguns aspectos de outras vozes assumidas pela autora como influentes na sua escrita: as mais óbvias, até por terem sido estudadas num mestrado em Estudos Portugueses e Brasileiros, serão Adília Lopes, Jorge de Sousa Braga e Alexandre O’Neill. Mas há algo nestes poemas que os afirma na sua singularidade. Também aqui vislumbramos uma inclinação para o informalismo, uma vontade de olhar os lugares do quotidiano com os olhos indomesticáveis de quem logra encontrar motivo de reflexão e de poesia onde outros não encontram senão a vulgar banalidade de todos os dias. Na primeira parte, o poema que dá título ao livro revela-nos uma linguagem a pender entre o narrativo e o reflexivo. Praticamente todos os poemas aparecem marcados por este balanço, tornando-se isso manifesto no uso recorrente do verbo ser conjugado no pretérito imperfeito do modo indicativo: «Era um verso com árvores à volta» (p. 11); «Era uma árvore que dava todos os frutos» (p. 20); «Era uma linha fonética no vidro» (p. 21); «Era uma ideia emotiva» (p. 27); «Era uma aldeia sem luz» (p. 32); etc.. Não se julgue, no entanto, serem estes poemas narrativas breves disfarçadas de poesia. Não contam propriamente histórias, indicam-nos antes o motivo das reflexões que desenvolvem. De certa forma, desnudam os processos do pensamento, restituem-nos os objectos poéticos, mesmo quando a poesia se torna objecto de si mesma, lançando-nos no caos divagante de quem pensa à flor da página. Temos a problemática relação entre a poesia e a natureza numa espécie de incompatibilidade que a própria natureza da linguagem instaura: as árvores são a paisagem, a poeta o meio através do qual a paisagem chega à página, o verso é já uma adulteração da paisagem, ainda que a paisagem esteja, de alguma forma, dentro do verso. Haverá fronteira entre a natureza da linguagem e a natureza ela mesma? Tocam-se talvez no silêncio, num «hálito branco», nunca num olhar subjectivo que é sempre e tão-somente uma entre muitas formas de entender o mundo. Para lá desse olhar subjectivo, o mundo permanece inacessível. Mas o que há de mais belo nesta poesia é a ideia do poema como um lugar de afectos, e a forma delicada como esse lugar aparece por vezes disfarçado numa ironia que coincide com uma tentativa de organizar o mundo a partir da representação das suas carências. Não resisto a citar na íntegra o excelente poema Teve Nessa Tarde Uma Criança: «Teve nessa tarde uma criança / desconhecida a segurar-lhe na mão. / Uma criança agarrada com força, uma criança / que apanhou em flagrante a sua mão vazia / e a ocupou como território de criança. / O dia começara assim: primeiro o rio, depois o verde / no terreno da família, agora o mar. / Foi na terceira tentativa que encontrou a criança, / criança a encontrá-la de repente, quando ia caindo / o sol. Criança possessiva agarrada à apatia desse dia / rimado: criança rima com esperança, criança rima. / E ela tão sem linguagem, tão sem versos possíveis, / tão sem a criança anterior. Foi na terceira caminhada, / quando a incerteza parecia cada vez maior, quando / o pensamento não acompanhava o passo decidido / junto à marginal, quando o pai da criança lhe falou / no perigo de dar a mão a estranhos, sem entender que / o verdadeiro perigo / era a mão outra vez vazia de criança» (p. 16). Há neste poema um gesto afectivo que suspende o pensamento, suspende a linguagem, um gesto afectivo que transcende o lugar da natureza nos domínios da comoção. O poema regista o gesto, não é o gesto, pode apenas ambicionar a representação efémera de um gesto marcante. A maior parte das vezes, os poemas de Filipa Leal parecem recomposições da fragilidade dos afectos no mundo de todos os dias. Bem pode afirmar que «a melancolia é uma questão de falta / de tempo» (p. 19). Ficaremos sempre sem saber, enquanto actores melancólicos de um mundo sem tempo, se ela não será antes uma emoção que denota a consciência do medo que ainda temos de sentir, esse medo que expressa invariavelmente a terrível presunção de uma solução, mesmo que ela seja, fosse isso possível, «o fim do pensamento».

segunda-feira, 28 de julho de 2008

NO VALE DE ELAH

O Primeiro Livro de Samuel é comummente apresentado como “uma reflexão histórico-religiosa sobre os sinais dos tempos (…) e sobre a realidade de misérias, pecados e grandezas, à luz da aliança de Deus com os homens e vice-versa”. Nele encontramos a célebre narrativa de David e Golias. O primeiro era o mais pequeno dos filhos de Jessé, guardava o rebanho, tocava harpa e fora escolhido por Deus para rei de Israel. Certo dia, os filisteus desafiaram o exército israelita. Os israelitas acamparam num monte do vale de Elah e prepararam-se para a batalha. Do lado dos filisteus, um gigante de três metros de altura chamado Golias incitou os israelitas a escolherem alguém que pudesse lutar contra ele. A provocação durou 40 dias, até que David, o mais pequeno dos filhos de Jessé, ofereceu-se para combater o gigante. Impregnado de fé, venceu o medo, pegou em cinco pedras e avançou na direcção de Golias com uma funda na mão. Golias não o tomou a sério, mas David arremessou-lhe uma pedra que ficou cravada bem no meio da testa do gigante. Golias caiu e David, com a espada do próprio, cortou-lhe a cabeça. Nisto, os israelitas perseguiram os filisteus e foram deixando os seus cadáveres a juncar os caminhos que levavam a Charaim, Gat e Ecron. Verdadeira ou ficcional, pouco importa. É uma história que se conta para adormecer crianças. Assim o faz Hank Deerfield (Tommy Lee Jones), personagem central de No vale de Elah, o magnífico filme de Paul Haggis, realizador de um não tão estimulante Colisão (2004). São muitas as batalhas travadas neste vale. Tommy Lee Jones, sempre impecável, é mais uma vez recrutado para fazer papel de investigador. Polícia militar reformado, procura o filho desaparecido depois do regresso do Iraque. Diversas questões de índole política fazem sombra ao filme, nomeadamente os traumas consequentes da participação na carnificina que ainda hoje perdura naquele inferno na Terra. As mazelas psicológicas que assolam os soldados regressados, os traumas de guerra, a completa perversão de valores que anula as fronteiras entre o bem e o mal, a indiferença com que aqueles homens passam a olhar o horror e a total banalização da violência, a ponto de se tornar aceitável nas cabeças de quem vive dentro dela, são algumas das questões que emergem no vale de Elah. Mas, como disse, muitas são as batalhas travadas naquele vale. Mais que todas as outras, toca-me especialmente a batalha travada entre o personagem interpretado por Tommy Lee Jones e as suas próprias convicções. Pareceu-me que o que ali estava em causa era o problema da verdade, a verdade de uma história, por exemplo, como a de David e Golias, a qual está dependente da nossa fé. Talvez a verdade esteja sempre dependente da fé. Talvez não. Talvez esteja antes dependente da experiência marcante que é sentir, como um punhal a atravessar-nos o peito, a nossa própria verdade romper-se perante o gume afiado da realidade. O homem acredita na pátria, acredita no exército, acredita que há um fosso a separar os bons dos maus, mas tudo aquilo em que acredita é posto em causa quando se confronta com o corpo despedaçado e carbonizado do filho, um corpo que escapou às pedras dos iraquianos mas não escapou à perversão dos soldados americanos que regressaram da guerra transformados em autênticas máquinas de matar. A realidade abala todas as convicções, subverte os ideais, transforma em pó, em barro, em terra o que antes era a brisa metafísica das supostas verdades absolutas. Quem sente este confronto com as suas próprias verdades jamais poderá meter fé nos absolutos. É esta a mais importante batalha travada no vale de Elah. Golias está dentro de David, é a sua verdade absoluta desafiando a fé, o medo, a coragem, tudo o que se mistura no coração de um homem que julga que o mundo pode ter a configuração de um sonho maniqueísta. Nunca o dia precisou de excluir a noite para ser dia, sempre o crepúsculo foi, ainda que na sua natural efemeridade, a mais eloquente manifestação da verdade, a tal verdade que estará sempre para lá das convicções de quem acredita em mundos a preto e branco. Porque os homens, definitivamente, não são ostras. Embora alguns se assemelhem ao molusco, a ponto de quase não se distinguirem uns dos outros.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

TOCAR

Estou a tocar no vento.
Matilde (5 anos)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

MAPA

Mapa é o segundo livro de poemas de manuel a. domingos (n. 1977), estreado em 2002 com Entre o Silêncio e o Fogo. Nota-se uma inflexão da primeira colectânea para a segunda que passa, essencialmente, por uma maior transparência, um certo desapego metafórico ou, talvez seja mais correcto dizê-lo assim, uma tendência para a abnegação discursiva que pode ser explicada sob dois ângulos complementares. O primeiro é o de uma postura humilde perante a impetuosidade imagética que contamina muita da poesia contemporânea, uma postura que se revela algo crítica ao preferir o risco da simplicidade ao uso de “imagens gastas”: «acordas de manhã / e escreves alguns versos / sobre o peso dos dias, / mas logo concluis / que é imagem gasta» (p. 17); o segundo ângulo de explicação desta renúncia metafórica – veja-se, por exemplo, o poema da página 26 – é o da adopção de uma arte poética que se constrói de fora para dentro, ou seja, na observação das coisas quotidianas, banais e comuns, aquelas que afirmam a poesia na própria negação da poesia: «não há poesia // só nomes / verbos / um ou outro / adjectivo // tudo o resto / que possa haver // são mentiras» (p. 9). É curioso que muitos destes poemas partam de um jogo onde a poesia se afirma pela ausência do poético, onde o poema parece não pretender assumir-se enquanto tal, preferindo antes concretizar-se numa espécie de registo lúdico de uma viagem que é a viagem da vida. Um belo exemplo desse jogo são os dois primeiros versos do poema Budapeste - «um dia escrevo um poema sobre como / deixámos o tempo passar naquela esplanada» (p. 22). Há outros, que o leitor mais atento vislumbrará sem qualquer dificuldade. Mas praticamente todos estes poemas estão infectados por essa vontade de jogar com o poético, com aquilo que possa ser ou não ser poético, com as supostas coordenadas da própria poesia. O carácter epigramático da maioria dos poemas revela, deste modo, um gosto pelo essencial e pela clareza, embora essa clareza corra o risco de ser confundida com superficialidade. O facto dos poemas aparentarem uma desinteressante compreensibilidade, ou uma ligeireza poética pouco mais que lúdica e até humorística, não lhes nega um conteúdo que, mais ou menos circunstancial, está repleto de subtilezas irónicas sobre as tendências e os comportamentos na actualidade. Os Seis Poemas ao Homem Moderno que encerram o livro, iniciados com uma epígrafe pedida emprestada a um artigo publicado na revista Men’s Health, são um excelente apontamento social sobre a nova relação dos homens com o corpo e, consecutivamente, com os modelos de beleza propagados por quem faz disso negócio e modo de vida. De certa maneira, podemos mesmo afirmar que são poemas políticos, eivados de um cinismo sobre o qual haveria muito a dizer. Há nestes poemas uma relação muito espontânea com os jogos de sedução, por vezes parecem transformar-se em elementos de um jogo de sedução literário. Para tal, somos encaminhados numa viagem sem chegada nem retorno. Note-se que as partes que dividem este volume - Partida, Largada, Fugida - são sempre "arranques", termos com conexões subtis com outros termos tais como brincadeira, piada, etc. É este cinismo moderno que marca o passo na viagem traçada em Mapa, uma viagem onde a passagem do tempo vai sendo pautada pelos lugares – Viena, Budapeste, Silves, Londres, Guarda, Praga -, numa relação tempo-espaço que transforma esta numa poesia não apenas “consequência do lugar” mas também “consequência do tempo”. E é nesse espaço e nesse tempo específicos que encontramos as lembranças, o amor, a memória da juventude enquanto memória dos sonhos perdidos, os amigos deixados para trás e as conversas sumidas com esses amigos, uma caminhada para dentro de um silêncio microcósmico, o silêncio da poesia das coisas mínimas, talvez banais, mas sumamente belas, porque sempre a tempo de serem escutadas na voz de um anjo que se aproxima: «a vida que escolheste / é de pedras pelo caminho / nada de bom virá dela / e todas as recompensas / serão adiadas // por isso pensa melhor: / ainda estás a tempo / de desistir» (p. 41).

domingo, 20 de julho de 2008

PORTO


De guarida no estúdio da Tulipa, com vista para o Douro e para uma escola de strippers, regressei à invicta das gaivotas em transe, dos gatos vadios, das varandas curvadas, das ruelas obscuras. Regressei devoluto ao Porto moderno, aportei moderno no Porto devoluto. Arrancada: sopa de feijão verde, cenoura e courgette, acompanhada de broa de Avintes e vinho verde gelado. No Centro Português de Fotografia, Virgílio Ferreira expõe peregrinos desfocados numa urbe iluminada por lâmpadas fluorescentes. Onde outrora o sol nascia, encontramos agora uma noite de perfis anónimos e nublados. Um passeio por Banguecoque, Macau, Hong Kong, Pequim, Xangai e Tóquio a lembrar o estranho lugar do amor filmado por Sofia Coppola. Do Curso Superior de Fotografia do Instituto Politécnico de Tomar, uma mostra excepcional de trabalhos realizados pelos alunos do 1.º ao 3.º anos do curso. Artistas em construção, edifícios novos, encenados ou espontâneos, ainda com muito decoro na técnica mas a revelarem uma prometedora audácia. Igualmente audaz é o negócio da Utopia. Aguenta-se, ali escondida junto ao quartel da Praça da República. Aproveito para comprar Lacrimae Rerum, de Slavoj Zizek, que começo a ler com alguma desconfiança depois de ter visto uma dúzia de putos a praticarem pesca submarina em plena Avenida dos Aliados: «a ficção é mais real do que a realidade social de representar papéis»? Dúvidas que voltam a assolar-me quando ouço Janis Joplin na Ribeira ou o poema preferido da Marlene Dietrich num festival a decorrer no outro lado do rio. Deito-me com o gato Narciso a fazer-me cócegas nos pés e uma melodia na cabeça: «A strange kind of love / A strange kind of feeling / Swims through your eyes».



A peregrinação continua. Feijoada de legumes com camarões, vinho branco. Gosto daquela mistura de cogumelos, brócolos, feijão preto e malaguetas a sacar um ardor que apenas com mais ardor se mata. Passeio de eléctrico da Ribeira à Foz, ou quase, seguido de caminhada até Serralves. Pelo caminho, mendigos, muitos edifícios devolutos e barcos abandonados, contrastam com espaços comerciais desenhados como mandam as leis do design. Dou, por mero acaso, com a Fundação Eugénio de Andrade. Que o poeta tenha passado os seus últimos dias no Passeio Alegre deixa-me consolado. Um passeio alegre é sempre um belo lugar para um poeta passar os seus últimos dias. Olho a inactividade daquele edifício como quem olha uma paisagem existente apenas na forma como cada um olha as coisas, uma paisagem subjectiva, inerente ao próprio olhar. Sigo assim caminho, embora ainda antes de chegar a Serralves um monumento ao esforço colonial português me tenha desdobrado as vistas. Ficção, realidade, documentário, cinema? Deixa-me cá explorar essa tal «tensão dialéctica entre realidade documental e ficção» na poesia de Manoel de Oliveira. Paro os olhos em Douro, Fauna Fluvial, embora com o pensamento estancado nos cínicos. Nem de propósito, acabo a rever aquela cena inesquecível de A Caça: um homem afunda-se lentamente num pântano, forma-se um cordão humano com a intenção de o salvar; os elementos desse cordão começam a discutir uns com os outros, dividem-se, esquecem-se do homem a afundar-se no pântano; excepto um maneta, que o acode enquanto grita por uma mão solidária. As árvores do jardim de Serralves são como aquele maneta. Só delas podemos esperar alguma atenção enquanto nos afundamos no pântano da realidade. Já desprotegido das sombras, segue o peregrino na direcção da noite. Francesinha no Taipas e Feijões, muito vinho, Smack My Bitch Up.



Quero dizer-te que fiquei durante alguns minutos só a olhar para a salada. Na companhia dos gatos, fiquei durante alguns minutos a escutar os diálogos, a observar as relações entre o tomate e a melancia, o ovo cozido e o ananás, a alface e o resto do mundo. Fiquei ali durante alguns minutos a pensar como tudo poderia ser mais belo se fosse mais simples, como tudo poderia ser mais simples se fosse mais belo. E foi assim que me pus a andar sem destino algum, simplesmente por andar a caminho de qualquer coisa, o que fosse, que pudesse ser simples. Dei alguns passos decadentes, visitei sinagogas desaparecidas, subi à Sé, desci à Ribeira, entrei em tascas imundas, visitei mercearias e profissões em vias de extinção, outras cada vez mais recorrentes, fui sempre junto ao rio até poder voltar a subir para lá das margens. Como se o meu corpo fosse a duna que se levanta para lá das margens. Quando nos predispomos a não querer, encontramos sempre o que nunca procurámos. Mais correcto será dizer que somos achados por quem nunca nos procurou: quando queremos andar só por andar, a observar não quem pretendemos que nos observe, mas a observar os nossos próprios movimentos na direcção de um nada que, súbita e inesperadamente, se transforma em tudo o que verdadeiramente importa. E tudo o que verdadeiramente importa é a dor que se desembaraça do corpo com outra dor ainda maior. O nosso corpo, assim aliviado dos relógios e dos mapas que o guiam quotidianamente, pressente nos acasos um diálogo simples e belo entre a liberdade que dá forma ao caos e o desejo que o contamina de uma ordem sempre muito pessoal. Descanso na Gato Vadio como um vadio sem pêlo, desnudado para fora da t-shirt suada, para dentro de duas cervejas pretas e das 535 Máximas 535, de Eastwood da Silva: «anda o mais possível a pé». E come farturas, e bebe cerveja, e fuma cigarros, e grita pelo Jim Morrison, e canta aquela velha canção: «sometimes, when I look deep in your eyes, I swear I can see your soul».

quinta-feira, 10 de julho de 2008

BIG ODE #5


 Big Ode n.º 5
Tema: Pesadelo
Edição e Design: Rodrigo Miragaia
Design de conceito: Rodrigo Miragaia e Sara Rocio
Coordenação editorial: Maria João Lopes Fernandes
Julho de 2008

Vogais Mudas, Courgette, Pesadelo na Rua José Tanganho (s/pp).

quarta-feira, 9 de julho de 2008

DESNASCER

A filha mais pequena pede-me que ligue as janelas. Entre ligar e abrir há apenas alguns meses de introdução ao erotismo elegíaco dos tiranos. Um dia dir-lhe-ei: não é ligar, é abrir. A irmã já lhe diz. Eu não posso, tenho as mãos esgotadas de espera.


Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe. Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viagem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

José Mário Branco

O DISCURSO DO MÉTODO

No século XVII, o filósofo René Descartes (1596-1650) tentou conceber um método que o ajudasse a resolver todos os problemas levantados pelo espírito humano. Toda a gente terá ouvido falar na obra onde esse método apareceu delineado nos seus preceitos essenciais. «Chama-se método à ordem que o pensamento deve seguir para chegar à sabedoria e em conformidade com a qual ele pensa, uma vez que aí chegou» - informa-nos Étienne Gilson, na introdução a uma das melhores edições do Discurso do Método, de René Descartes. À obra do filósofo francês, o poeta Nuno Rebocho (n. 1945) pediu emprestado o título para a sua mais recente colectânea de poemas. O gesto pode ser tomado como uma mera provocação, vazia de sentido e sem qualquer intencionalidade. Mas não é. Percebemos isso ao lermos os poemas coligidos neste volume, nomeadamente o último. Devo dizer que só por este poema, um poema-sequência, como muitos outros neste livro, já valeria a pena a leitura deste O Discurso do Método. Não resisto a citar a primeira parte na íntegra: «e recomeçamos. sempre recomeçamos porque há / um método dentro das sensações ou talvez devesse / haver e haver um método para descobrir esse método. e / descobrindo nos descobríssemos e seríamos ordenados / razoáveis ou como diria a minha amiga – pegaríamos / o touro pelos cornos. mas falta o método para abrir / a lata de todos os métodos e para dormirmos descansados / sem o risco de desgastar o corpo na água dos rios / que vão correndo e desgastar a alma dentro do corpo: / dizem que é assim que oxigenamos o sangue. então que / seja. por isso sempre recomeçamos em busca de um método» (p. 66). Entre Descartes e Rebocho muita água correu nos rios do tempo. A filosofia do conhecimento foi evoluindo na direcção de um caos ametódico, ou de uma metodologia caótica que fez as graças de alguns epistemólogos menos amigos da razão. Nem por isso deixaram de ser filósofos e de pensar com o pensamento que os permite pensar coisas tão ametódicas como, por exemplo, a poesia. Rebocho diz que falta o método para abrir a lata de todos os métodos e, dessa forma, podermos dormir descansados. Talvez haja neste livro essa tentativa, uma tentativa humilde, de abrir a lata de todos os métodos. A pergunta impõe-se e lança-nos numa raciocínio tautológico sem solução: qual o método para descobrir o método que nos ajude a abrir a lata de todos os métodos? Métodos há muitos. E há um, ao qual é costume dar-se o nome de poesia, que ousa colocar-nos no epicentro de uma guerra, de uma batalha, que é a guerra da linguagem. O poema é sempre uma cifra, mas está na sua constituição paradoxal ser uma cifra que decifra. As palavras que compõem o poema, organizadas na sua sintaxe muito particular, oferecem-nos ao mesmo tempo a realidade cifrada num ritmo e em imagens que, de algum modo, nos ajudam a decifrar a nossa própria natureza. O que é o método aplicado à poesia? O que é a poesia aplicada enquanto método? Talvez a “fala das emoções”, uma dissertação ferida, mas ferida como algo que vive, por uma ruptura. Talvez uma certa forma de conhecimento. Ou, pleo menos, de reconhecimento. Na poesia, pela poesia, o pensamento (re)conhece de uma outra forma, de uma forma livre, desembaraça das premissas lógicas e racionais com que olhamos o mundo. Com que lógica podemos olhar o amor? Com que lógica podemos olhar as cerejas, as aves, a montanha e a planície, as borboletas, as papoilas, os eucaliptos, o mar? A natureza aparece aqui como o corpo admirável de uma linguagem muito própria e secreta, talvez inacessível através dos métodos da razão, mas decifrável pelos métodos da emoção. Daí que o poeta conclua: «como fazemos para penetrar nos segredos? abrimos / as portas dos sentidos pelas quais chegam as novas / dos desertos. companheiros: se a palmeira nasce / dancemos a alegria porque cada tâmara é um segredo / bem guardado para nos bater à porta dos sentidos» (p. 73). Contra a lucidez, bebamos então as palavras do poeta, entremos destemidamente no bateau ivre sem outro método que não seja o de uma respiração sorridente e renovadamente espantada com o «mar para lá dos limites».

segunda-feira, 7 de julho de 2008

JULIAN SCHNABEL E OS NÁUFRAGOS

O artista plástico Julian Schnabel (1951) estreou-se no cinema em 1996, com um filme sobre Jean-Michel Basquiat (1960-1988). Seguiu-se Before Night Falls (2000), tendo como pretexto a vida do escritor cubano Reinaldo Arenas (1943-1990). A opção por histórias verídicas manteve-se em Le Scaphandre et le papillon (2007), desta feita centrado na tragédia de Jean-Dominique Bauby. Bauby era editor da revista Elle antes de ter sofrido um AVC. Com uma paralisia praticamente geral, sobrou-lhe um olho, o olho esquerdo, para comunicar com o mundo. Servindo-se simplesmente desse olho, conseguiu ditar um livro onde descreveu o seu mundo: «Doem-me os calcanhares, a cabeça pesa-me toneladas, todo o meu corpo está metido numa espécie de escafandro. A minha tarefa agora é redigir notas de viagens imóveis de um náufrago encalhado nas praias da solidão». É esta ideia do “náufrago encalhado nas praias da solidão” que me interessa particularmente no filme de Schnabel, até porque me parece que ela é extensível aos personagens dos seus filmes anteriores: o escritor homossexual e proscrito, o artista desassossegado. Cada um destes personagens foi, à sua maneira, um náufrago encalhado nas praias da solidão. Basquiat morreu muito novo, viciado em heroína. Arenas conseguiu fugir à ditadura cubana, vindo a suicidar-se nos EUA depois de saber que tinha SIDA. Bauby morreu condenado a comunicar com o mundo através de um olho, um único olho que, pestanejando, conseguia responder sim ou não às perguntas mais simples. Mas também conseguiu ditar todo um livro, o seu livro, o livro interior de uma situação-limite. Karl Jaspers chamava às situações-limite situações «que não podemos transpor nem alterar», são situações que delimitam a nossa condição humana, impondo-nos fronteiras das quais não escapamos, são situações que transcendem o domínio da nossa liberdade. «Tenho que morrer, tenho que sofrer, tenho que lutar, estou sujeito ao acaso e incorro inelutavelmente em culpa», dizia Jaspers. Mas acrescentava que o espanto provocado por estas situações era a origem mais profunda da filosofia. Perante uma situação-limite o homem tem duas hipóteses: ignorar ou questionar-se. «As situações-limite – morte, acaso, culpa e insegurança – mostram o fracasso. Que farei eu perante este fracasso absoluto a cuja intuição me não posso furtar se honestamente o apreendo?» Cada uma das personagens dos três filmes de Julian Schnabel terá respondido a esta questão de um modo diferente. A personalidade autodestrutiva de Jean-Michel Basquiat não é comparável à obstinação de Reinaldo Arenas, nem nenhum destes dois pode ser pensado à luz das privações extremas experimentadas por Jean-Dominique Bauby. Mas todos eles se cruzam num aspecto essencial: são náufragos encalhados nas praias da solidão. O náufrago não é aquele que está perdido, nem mesmo aquele que se sente perdido, não está em queda nem em ascensão, não vive num limbo, é apenas humano, mas é um humano que toma consciência da situação-limite em que vive, não a ignora. Julgo que todas as pessoas terão tal consciência, nesta ou naquela experiência de vida, embora viver permanentemente com a consciência da situação-limite em que se vive seja algo completamente diferente. Se entendermos o naufrágio como um acidente, o náufrago será aquele que participa do acidente. Nascer é o primeiro acidente do qual o náufrago participa. Morrer, o último. Entre o nascimento e a morte há todo um novelo de acidentes que se desenrola. A isso chamamos vida. Muita gente vive sentindo-se ancorada, não tendo consciência do naufrágio em que vive, disfarçando esse naufrágio com um sonambulismo ingénuo que até pode ser consolador. No entanto, a vida assemelha-se a um novelo de acidentes sobre os quais, enquanto participante, o náufrago pode assumir diversas posturas. Dependerá dos acidentes e da forma como cada indivíduo se coloca perante a vida. A pior postura de todas será, julgo eu, querer arrastar os outros para os nossos próprios acidentes, sobretudo se isso acontecer por manifesta incapacidade de enfrentar as tempestades que nos colhem, desassossegam e inquietam. Se pensarmos na solidão como uma situação-limite, uma dessas situações que Jaspers definia como sendo inultrapassáveis mas impulsionadoras de espanto e de questionamento, se pensarmos na solidão dessa forma, então o náufrago que encalha nas praias da solidão é aquele ao qual apenas resta uma de duas hipóteses: acomodar-se à praia onde encalhou ou enfrentar a agitação das marés tentando superar a sua condição. Pode fazê-lo de várias formas: droga-se, luta teimosamente pela sua liberdade, mata-se, cria, etc. Nos filmes de Schnabel nenhum deles optou pela acomodação, e isso é verdadeiramente espantoso tendo em conta o destino desgraçado dos três. Dizia hoje ao almoço que o que há de verdadeiramente espantoso na vida não é o inexplicável. O milagre não é o inexplicável. Milagre é encontrarmos explicação para alguma coisa, isso sim é milagroso, excepcional, raro e único. Ora, é absolutamente milagroso um homem encontrar uma explicação para os seus naufrágios. Seja qual for a opção na sequência dessa descoberta, ele nunca deixará de ser um náufrago, ou seja, alguém que participa dos acidentes da vida. Mas poderá sê-lo suspirando à hora da tempestade ou estrebuchando, no limite das suas energias, na senda de uma nova situação.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

POESIA BRITÂNICA

Gosto de antologias. Com uma boa antologia podemos aprender muita coisa. Por exemplo: com a Antologia da Poesia Soviética (Futura, 1973) aprendemos que houve um tempo e um lugar onde os estádios enchiam para ouvir recitais de poesia; com a Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana (Futura, 1973) aprendemos que as vidas podem ser usadas poeticamente e que é possível reunir poetas dentro de casas sem tecto; com a Antologia da Poesia Britânica Contemporânea (Livros Horizonte, 1982) aprendemos que há países com gente altamente condecorada por serviços prestados à poesia. Quer dizer, ninguém precisa de ler estas antologias para tomar conhecimento destes fenómenos. Nem uma antologia serve para isso. Mas também serve para isso. Uma boa antologia é assim como uma espécie de saca-rolhas da alma, predispõe-nos para a diversidade, alarga-nos as vistas e oferece-nos vastíssimas paisagens de horizontes indefiníveis. É verdadeiramente amargurante verificar que não se aprende nada, absolutamente nada, com as antologias vindas a lume, nos últimos anos, dedicadas ao que de produção poética vai acontecendo neste infeliz país de poetas. A gente degusta os poemas e por aí se fica. Na sua grande maioria, falamos de antologias temáticas (quase sempre dedicadas ao amor ou à liberdade ou à mulher ou ao que seja). Não vejo mal algum nisso, e até aprecio muito algumas dessas reuniões amenas. Refiro-me à ausência de uma boa antologia da poesia portuguesa moderna/contemporânea, algo ao género do que era feito com as Líricas Portuguesas ou do tipo da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, organizada por M. Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro. Como leitor de poesia, dá-me imenso gozo folhear esses livros e descobrir sempre coisas novas ou redescobrir outras já esquecidas acerca deste ou daquele autor. O que temos hoje é pouco mais que nada, umas coisas feitas à pressa, desinformadas, sem contextualização, sacos de poemas. Esta Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, como, de resto, as outras duas mencionadas no início deste texto, foi organizada por Manuel de Seabra. Abre com um pequeno prefácio, não só bem informado, como bem escrito, onde o essencial é introduzido: estamos já no território da poesia mais informal, onde, à excepção do efémero movimento Apocalípticos e da tendência conhecida por The Movement, o que conta é a voz individual: «não há uma grande uniformidade na poesia britânica contemporânea. Não há tendências dominantes, linhas concentrantes. Cada poeta é ele próprio» (p. 9). Dos poetas mais conhecidos do público português, temos Charles Tomlinson (1927), com recolhas publicadas na Cotovia e na Relógio D’Água, o excelente Thom Gunn (1929) – ver, por exemplo, o livrinho A Destruição do Nada e Outros Poemas, publicado na Relógio D’Água -, Ted Hughes (1930) e a grande Sylvia Plath (1932), assim como Ian Hamilton (1938), com um volume editado na Cotovia. Além destes, há pelo menos mais quarenta autores antologiados. Seria fastidioso citá-los todos, até porque serão de interesse muito subjectivo. Importa referir que são autores nascidos entre 1924 e 1948, o que nos garante uma vista considerável da poesia britânica em pelo menos metade do século XX. A reter, entre outros: o surrealismo de John Digby (1938), a “aparente quotidianidade” de Harry Guest (1932), a tonalidade “pop” de Barry MacSweeney (1948) e de Roger McGough (1937), a “poesia de protesto” de Adrian Mitchell (1932), o “neo-realismo” de Alan Sillitoe (1928) e o experimentalismo de um tal de W. G. Shepherd (1935), do qual deixo este curioso poema:

PORCO CUPIDO

A minha miúda
é um bife que respira,
dois bocados de acompanhamento bordado.
Um prato que sorri provocou um homem faminto,
agora vou alimentar-me.

Meu talher é um bastão
disciplinário de sangue.
Meu fito
é um buraco castanho,
a campa do amor.

O filho da minha miúda
é este ursinho
sentado na almofada em assustado silêncio.
Lindo.

O meu cérebro é concreto.
Meu apelo é culpado.
Meu sangue dói.