segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
ODES
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
TOM
Tinha saltos altos e só isso justificava que falasse lá do alto com uma voz tonitruante a tentar dobrar as esquinas do medo de quem, cá em baixo, arrasado, a ouvia. Porque há quem pense serem a verdade e a razão resultado do tom de voz com que se proferem as maiores barbaridades. E cá em baixo, arrasados, os pequenos insectos ouviam-na trovejar as suas razões, tão incoerentes aos olhos de quem não tem costas largas, tão sitiadas dum sono angelical, uma canção tristemente pobre cantada no palco hipócrita das angariações de fundos. Contem-te escritor, não deixes a pena fugir para o automatismo. Tem tento nos dedos, comanda a mão, regula os acidentes como quem regula o som de uma voz firmemente colada à verdade de uma razão justificável pelo volume. Ela estava bem vestida, composta. As pessoas bem vestidas, compostas, são geralmente as mais feias. Porque o facto de estarem compostas torna-as facilmente expostas à descompostura. E logo hoje, quando ainda ecoava em mim a imagem do provocador de acidentes e da criação como uma consequência desses mesmos acidentes provocados por capricho, vontade, desrazão divina. E logo hoje.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
BALUERNA - CUADERNOS DEL VIAJERO
POEMA DE NATAL
No Natal não te esqueças de limpar as
ramelas
e de escavar pelos olhos adentro a pulsação do mundo.
Limpa os canos das caçadeiras
para que depois não percas tempo no disparo.
Respira. Marca uma limpeza de pele, espreme
todos os pontos negros e apronta-te para a ceia.
Dá uma sopa aos pobres, atira pedras às latas,
afaga o pêlo do cão, mesmo que tenha pulgas.
No Natal até as pulgas são bem-vindas. Respira.
No Natal dá corda às bonecas, programa as
cordas
vocais para o playback hospitalar e prisional.
Distribui canapés pelos desabrigados, pelos foragidos,
pelos ditadores acossados. Predispõe-te para um (a)balanço.
Respira. No Natal alegra-te com a conta a zeros,
com o patrão de saco azul ao ombro, com os espantalhos
quotidianos, com as greves à greve,
com a mensalidade vestibular num pontapé de misericórdia.
No Natal sic. Porque no Natal todos os demónios são bons.
Pelo menos um dia por ano: esquece-te do
mundo
que se estende para lá das fronteiras.
Deixa-te ficar numa viagem parada, deixa-te ficar:
Parado – como um som que balança dentro do corpo,
como uma pedra que sangra a pele de um corpo calado.
Que esse dia seja o dia de Natal. Ainda que estejas obrigado
a pagar a portagem de mais um suicida que não acredita
na expiação universal dos pecados particulares,
no Natal dá cá um abraço e não digas que foste daqui.
e de escavar pelos olhos adentro a pulsação do mundo.
Limpa os canos das caçadeiras
para que depois não percas tempo no disparo.
Respira. Marca uma limpeza de pele, espreme
todos os pontos negros e apronta-te para a ceia.
Dá uma sopa aos pobres, atira pedras às latas,
afaga o pêlo do cão, mesmo que tenha pulgas.
No Natal até as pulgas são bem-vindas. Respira.
vocais para o playback hospitalar e prisional.
Distribui canapés pelos desabrigados, pelos foragidos,
pelos ditadores acossados. Predispõe-te para um (a)balanço.
Respira. No Natal alegra-te com a conta a zeros,
com o patrão de saco azul ao ombro, com os espantalhos
quotidianos, com as greves à greve,
com a mensalidade vestibular num pontapé de misericórdia.
No Natal sic. Porque no Natal todos os demónios são bons.
que se estende para lá das fronteiras.
Deixa-te ficar numa viagem parada, deixa-te ficar:
Parado – como um som que balança dentro do corpo,
como uma pedra que sangra a pele de um corpo calado.
Que esse dia seja o dia de Natal. Ainda que estejas obrigado
a pagar a portagem de mais um suicida que não acredita
na expiação universal dos pecados particulares,
no Natal dá cá um abraço e não digas que foste daqui.
*
VISITA DE ESTUDO
Quando por Badajoz entrámos num mundo que
nunca víramos, estudando a paisagem nova em olhos arcaicos de criança, desses
olhos que não julgam mais do que vêem, que não vêem mais do que imaginam,
chorámos por ter graça a cara que fazem as pessoas que choram por tudo e por
nada.
De lá trouxemos a lembrança de um homem
chegando-se à pele do volante, arrancando desse mundo a aventura de quem sai do
ventre onde toda a vida se fez vida, apra então regressar a saber, pelo menos,
que há um lado nas fronteiras sem rosto nem face, um lado liso, o lado de quem
regressa.
Quando por Badajoz reentrámos no mundo que
era nosso, reconhecemos finalmente esse lado sem rosto nem face das fronteiras,
o lado de quem regressa, e tornámos a chorar pelas mesmíssimas razões, embora
mais doce fosse agora o choro de quem chora por tudo e por nada.
Baluerna - cuadernos del viajero, n.º 29, Coordinación de Eduardo Hernández, traducción de Antonio Sáez Delgado, Estación de Autobuses de Cáceres, 2008.
CONTOS, FÁBULAS & OUTRAS FICÇÕES
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
ANTÍGONA
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
HISTÓRIAS DE AMOR
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
PERSPECTIVA
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