sexta-feira, 29 de agosto de 2014

ESCREVER UM LIVRO, CRIAR UM FILHO, PLANTAR UMA ÁRVORE


Escrevi um livro.
Quantos anos a sonhá-lo,
a rascunhá-lo nas mesas dos cafés,
a escrevê-lo nos intervalos do emprego,
a vivê-lo,
a sofrê-lo,
na província, nas cidades...!

Criei um filho.
Tanta alegria no meu coração!

Só ainda não plantei uma árvore.
O frágil caule como protegê-lo?
Como não deixar que os bichos
maculem as pequeninas folhas?
E como dialogar com uma árvore-menina?

Agora vai sendo tempo.
Os anos pesam.
Amanhã vou plantar uma árvore.

Saúl Dias (n. 1902 - m. 1983), in Líricas Portuguesas. «A poesia de Saúl Dias, uma das mais notáveis de entre as que apareceram sob a égide daquele grupo [presença], caracteriza-se por uma delicadeza e uma pureza de expressão que levam a uma depuração excepcional uma linha poética que vem directamente de Camilo Pessanha. Sobretudo os seus desenhos reflectem esta mais relevante característica da obra poética; mas uns e outra contêm uma subterrânea crueza que às vezes explode numa brutalidade de traço, que é inseparável, e como que o suporte, de uma quase complacência cínica, de uma melancólica e sonhadora malícia sarcástica, patentes na subtileza de uma personalidade rara pela contenção discreta, pela suspensa alusividade dos seus veros» (Jorge de Sena, idem).

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

CARTA A D.

«O filósofo André Gorz e a sua mulher suicidaram-se hoje na residência de ambos, em Vosnon, França, avança o jornal Le Monde citando fontes próximas do casal». A notícia, do Público, data de 24 de Setembro de 2007, mas permanece viva como se tivesse sido ontem. Certos acontecimentos têm essa característica, tornam-se presença assídua no decorrer dos dias. Embora saibamos da sua inscrição no passado, teimam em não desaparecer da memória, resistem ao esquecimento como o mais resistente dos potes. Não quebram, não se dispersam em fragmentos. Por vezes, esta persistência leva-nos a sentir uma espécie de dependência. Há coisa de dez anos, perguntaram-me o que eu achava da inclinação da História para a tragédia em detrimento da comédia. É verdade que mais facilmente recordamos um acontecimento trágico do que um acontecimento cómico, talvez por sermos viciados na tristeza. A nostalgia e a melancolia contaminaram uma parte tão grande da produção artística que a criação humana tornou-se quase obediente a essas emoções negras que seduzem o público. Em aparência, o suicídio é uma decisão trágica que provoca tristeza nos que resistem ao apelo da morte. Tristeza e, porventura, revolta, tais as contradições que o tema inspira. Não fomos educados, por assim dizer, para a desistência - a família quer-nos robustos, a escola quer-nos preparados, o mundo do trabalho quer-nos eficientes. Há delicadezas, porém, que ninguém constata até se tornarem tão evidentes que não é mais possível fazer por ignorar. Ou então há um desapego fundador de ordens valorativas diversas das vigentes, diversas das hierarquias de valores que alimentam homens vigorosos em sociedades brutais. Quer queiramos quer não, somos todos vítimas da militarização da vontade, da exorcização do desejo, da domesticação do amor. Excepcional quando no percurso de uma vida nos deparamos com histórias onde essa violência exercida sobre os indivíduos é superada por uma entrega ao outro que nega tanto o isolamento como o esvaziamento do Ser no pântano da norma. Gorz, vienense de origem judia fugido dos nazis, encontrou Doreen, a inglesa com quem veio a casar em 1949 e com quem decidiu morrer em 2007. Neste caso, nem a morte os separou. Carta a D. – História de um Amor (Pianola, 2ª edição, Maio de 2014) surgiu em 2006, quando Doreen já estava bastante debilitada pela doença (cancro). «Sinto necessidade de reconstituir a história do nosso amor para lhe apreender todo o sentido» (p. 7), diz Andé Gorz (1923-2007), descontente com o papel atribuído ao seu amor na obra que foi construindo, que foram construindo, ao longo da vida. É a expiação de um homem, por certo, mas também o testemunho de um amor para além da vida. Daí a confissão: «Contigo compreendi que o prazer não é algo que se toma ou que se dá. É a maneira de se dar e de chamar o dom de si do outro. Demo-nos um ao outro por inteiro» (pp- 10-11). Não é, pois, a carta de um suicida que lemos, é antes a carta de um amor que recusa despedir-se contra a lógica do mundo em que vivemos. Porque o mundo em que vivemos é de constantes despedidas e de lutos mais ou menos extensos, incapaz de aceitar um amor assim, para lá da hora da morte, um amor que aceita no meio da prosa o seu mais belo verso, a sua mais eloquente definição: «Contigo eu podia pôr de férias a minha realidade» (p. 24). Ora, é isto que poucos estão aptos a compreender. E é isto que torna o tom pragmático da notícia reproduzida ao alto bastante inadequado, pois André Gorz e a mulher, cujo nome se omite por razões inexplicáveis, não se suicidaram, simplesmente resolveram pôr de férias, para sempre, um perante o outro, as suas realidades, realidades transformadas numa única realidade, tão única que parece irreal. José Cutileiro, num belo necrológico então publicado no Expresso, escrevia: «Depois de 58 anos de vida em comum, contrariaram o destino e não sobreviveram à morte um do outro». Talvez sobrevivam agora à vida um do outro, mais que não seja a partir destas palavras inesquecíveis: «Acabas agora de fazer oitenta e dois anos. És ainda bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca. Recentemente reenamorei-me de ti uma vez mais e trago de novo em mim um vazio devorador que só o teu corpo apertado contra o meu apazigua. À noite vejo por vezes a silhueta de um homem que segue um carro funerário, numa estrada vazia e numa paisagem deserta. Esse homem sou eu. O enterro é o teu . Não quero assistir à tua cremação; não quero receber um frasco com as tuas cinzas» (p. 86). Sei não ser momento para ironia, mas reparem na fragilidade deste homem que recusa assistir ao afastamento do seu amor. A perda é-lhe penosa, seria cruz insuportável porque quer manter o abraço que lhe apazigua o vazio. Portanto, a opção foi seguir abraçado ao seu amor na derradeira viagem, logrando aos leitores o mais notável dos testamentos: a história de como um amor pode resistir à morte, mesmo que tal implique uma renúncia da vida.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O AMOR FAZ-ME FOME


Tropecei numa ementa de vendas de comida ready-made
E por uma dessas fatalidades que vêm encadernadas
em vouchers de correio ou publicidade não endereçada
Fui reparar que agora tu e a tua miúda fazem
cafés da manhã para entregar ao domicílio
Perdão queria dizer pequenos-almoços
deixemos o café e as manhãs para outras dinastias
No meu tempo eu era o príncipe e tu a imagem
mais pura do menino Jean-Nicolas-Arthur Rimbuad
Dois saltimbancos cruzando a cidade e os dias
Também cruzávamos os dedos mas isso agora não importa
dois rapazolas roubando meio croissant e três goles de suco
às mesas impecavelmente postas dos hotéis mais bonitos da cidade
A comida não era de todo o que mais nos interessava
se pensarmos que a paixão alucinante era rastilho suficiente
para rebentar-nos o estômago até ao nível da alegria
Havia sempre alguém disposto a pagar-nos refeições
assim como nós estávamos sempre prontos a pular o fogo mágico
Acostumámo-nos desde muito cedo a sair das celebrações
de joelhos chamuscados e com as roupas mais ou menos rasgadas
Isso era motivo suficiente para que um de nós pegasse a moto
e então os dois acelerávamos até à praia mais deserta do país
Nem por isso deixámos de nos escapar aos acontecimentos
mas aqueles foram indubitavelmente os mergulhos de ouro
Agora as fogueiras levantam-se muito mais altas do que as magias
às quais dedicámos quase toda a nossa juventude igualitária
Hoje temos mais de trinta anos e da minha janela dá para ver
os disparos dos incontáveis snipers das barricadas de Kiev
Desta varanda podem ouvir-se  os gritos das ruas venezuelanas
se sobrepondo ao viejo papá que só quer dizer pásame el pan
Daqui dá para cheirar a ameaça de pólvora semi-invisível saindo
do documento que declara o estado de exceção no sul da Bahia
Parece que a primavera do mundo é um trabalho em progresso
mas o caminho até lá está sendo todo feito entre as veredas
e entre os galhos de fogo de um gigante inverno
No nosso tempo eu acreditava muito nas notícias e na televisão
Hoje eu acredito tudo nas experiências que me contam os homens
Ontem éramos os filhos dos netos da revolução
E explicaram-nos que a tabuada e a paixão alucinante eram tudo
o que precisávamos e precisaríamos para o exercício da construção
Hoje somos pais de algumas crianças e pais de nós mesmos
e já vamos sabendo algumas coisas sobre a palavra desconstrução
O amor ainda é o estandarte onde vamos pendurando as bandeiras
A coragem ainda é o ferro onde vamos pendurando as roupas
Sim ainda rasgamos nossas roupas Sim ainda esfolamos os joelhos
Mas agora é tudo em nome de uma certa mudança universal
Onde andarás tu e teu sonho nesta manhã eu já não sei
Muito menos que espécie de alimentos entregas ao domicílio
Seja como for o amor ainda me faz bastante fome
e o relento ainda me parece o asfalto justo para toda a revolução
Portanto (apesar dos vouchers) hoje meu miúdo e eu escolhemos
tomar um café da manhã na rua e deixar para lá o domicílio.


Matilde Campilho (n. 1982), in Jóquei (2014). Recebido com inusitado estrondo, Jóquei (Tinta-da-China, Abril de 2014) revela a poesia de Matilde Campilho. Conjunto extravagante de poemas onde se nota demasiado a influência da coloquialidade beat, assim como certo apego à denominada poesia marginal brasileira. A autora, que escreve num registo polissémico e multilingue parece ter lido atentamente autores tais como Ana Cristina Cesar ou Paulo Leminski. Aparenta estar, por isso, mais ligada à tradição poética brasileira do que à portuguesa (embora se pressintam ecos do modernismo de Orpheu e do surrealismo tardio dos movimentos lisboetas). Infelizmente, muitas vezes os seus exercícios criativos resvalam para um barroquismo desmesurado e gratuitamente exibicionista. Uma pueril ética da ternura, politicamente desatenta, transforma o poema em objecto decorativo. As referências explodem e disseminam-se pelo texto em estilhaços, como fragmentos de vivências onde encontramos inúmeros lugares, autores, situações que se misturam gerando momentos de estranheza e anomalias várias. Os textos em prosa apresentam uma desenvoltura que nos poemas em verso redunda em excesso. Ressalve-se, porém, a argúcia expressiva, uma inquestionável intuição prosódica, a riqueza semântica que, mormente a partir da montagem de palavras e de acumulações imagéticas, alcança uma plasticidade notável.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

RICHARD ATTENBOROUGH (1923-2014)



Habituei-me a associar o nome de Richard Attenborough mais à realização do que à representação, talvez por culpa de um filme que me marcou imenso quando o vi pela primeira vez. Gandhi (1982) é uma referência do filme biográfico, género nem sempre devidamente apreciado e com raras manifestações de génio. Reconhecido enquanto actor, foi seduzido para o cinema por Noel Coward. O tema da guerra foi uma das suas predilecções, ora num tom sarcástico, ora num registo mais realista. Enquanto actor, recordo-lhe o excelente desempenho em The Great Escape (1963), de John Sturges, ao lado de Steve McQueen, Charles Bronson, James Coburn, entre outros. Fica o trailer de Gandhi:
 

domingo, 24 de agosto de 2014

BURROCRATAS

Descobri a palavra num poema de Herberto Helder publicado em Servidões (Maio de 2013):

esquivar-se à sintaxe e abusar do mundo,
oh como em pedra trançada ficou dito,
ígnea pedra até ao fim de tudo e mais que tudo isso infundido,
lá onde fresca e unânime a terra que respira:
ferida funda
— e sem nada a ver com tudo,
os burrocratas indizíveis

Na minha ignorância, julguei nova a palavra. Mas redescubro-a num poema de Fabiano Calixto publicado em 2006. Deixo um excerto:

os tijolos vermelhos lodosos
as casas pela metade
andaimes, latas de tinta vazias,
pedras, cimento, cal

enquanto os burrocratas
do pensamento
discutem mais-valia & idolatria
mercancia & democracia
lucracia & poesia
na sala de justiça
dos bem-nascidos
& rebocam sua vaidade & idiotia
na cara da geral,
outra poesia é feita
neste mundo
na universidade desconhecida
na vida sem fim
de quem chegou até aqui
derrubando, aos murros, o muro
moldando o mundo a muque

Entretanto a palavra tornou-se conceito que muita coisa abarca. Burrocratas: definição de um tempo sob o toldo da revolução tecnológica.

POEMA RASURADO


Além da página em branco, há um outro recurso que se vai tornando mais recorrente. O poema rasurado expressa uma intenção distinta do poema vazio. No poema vazio (ou quase) a ausência de palavras induz no leitor sensações contraditórias, ao passo que o poema rasurado é muito mais objectivo quanto à vontade do autor. Neste caso, há como que uma suspensão do conteúdo. Geralmente, apagamos o que não interessa. Talvez queiramos com o poema rasurado mostrar o que não interessa. Veja-se este exemplo encontrado no livro Compositores do Período Barroco (Deriva, 2013), de José Ricardo Nunes:


Optar por não suprimir literalmente o texto acaba por atribuir-lhe um estatuto dúbio, conferindo-lhe uma autonomia e exclusividade que os outros poemas do conjunto não merecem. O poema rasurado é e não é. Repare-se que não se trata de algo que foi deitado para o lixo, mas sim de um texto que se isola do conjunto por haver nele uma especificidade que o ostraciza. Um outro exemplo aparece-nos no livro Equatorial, excelente antologia do poeta brasileiro Fabiano Calixto sobre a qual deixarei um post em breve:


Neste exemplo, o título do poema escapou à rasura. Lido o que se esconde por detrás dos riscos, percebemos existir na atitude um gesto lúdico típico da poesia concreta. Ou seja, transforma-se em expressão o aspecto gráfico. Tanto num caso como no outro devemos ressalvar a coragem dos autores em ultrapassar as fronteiras de um dicção convencional. A pergunta que se impõe é: como ler em voz alta estes textos? Coloco-me a mesma questão sobre as páginas em branco ali partilhadas. Há nestes textos algo que escapa à recitação. Nos poemas em branco escapa a capacidade do leitor para imaginar sobre o branco da página, nos poemas rasurados escapa o efeito da rasura. E o mesmo poderíamos questionar acerca do título de um livro como este de Miguel-Manso, que no interior se explica com poema epigramático deixado ao alto:


EDUARDO WHITE (1963-2014)


Nada reconheço, nada. Os escombros, o ódio arrumado nas gavetas, o tijolo do ciúme nos guarda-fatos, a trepadeira da escuridão, as aves caídas e amarrotadas na sua plumagem, as canções fúnebres, os canos rotos, as portas caídas da demolição.

Não posso crer que aqui estive, que abri cartas e cantei e disse versos, não posso perceber que o brilho se desgastou, a vida se deteve como um espólio velho e sem interesse. Não posso crer que ambos tenhamos aqui vivido, ou que eu, ou tu, ou ambos tivéssemos fingido o contrário que é o contrário na nitidez destes testemunhos.

Teremos amado ou combatido, indago-me, teremos vivido ou morrido pelas escamas presentes, pela humidade apodrecida, pelos objectos distorcidos, pelo feno triste em que se tornou a cama. De tudo me dou conta e sem notícias de ti, apenas um vazio com uma máscara irreconhecível, uma trémula e evasiva realidade.

Levanto-me, a custo, e percorro este simulacro de algum Sudão, de alguma Guernica, de qualquer uma Uganda tão evidente ainda hoje, predestinado à fome e à violência, à dor, à barulheira das armas, ao genocídio cínico, ao peso das armas e das catanas, vou entontecido, costeiro a este lugar que agora me repugna veementemente e atravesso os gemidos terminais da morte devagar, devagar para que me não reconheçam.


Eduardo White, in Dos limões amarelos do falo às laranjas vermelhas da vulva, Campo das Letras, Junho de 2008, p. 49. A imagem ao alto foi respigada aqui.

sábado, 23 de agosto de 2014

VULCANO


Há tantas casas abandonadas, leitor.
Ângulos secretos,
Escuros,
Difusos, por onde a luz não encontra ninguém.
E sabes, 
Antes de mais,
As casas são organismos que ardem por dentro
Ou somos nós que as julgamos arder na combustão dos corpos;
Na louça disposta em desalinho;
No lume intenso das mãos que bailavam entre cigarros,
Quando a noite descia na Granja e se sentava à nossa mesa.
Era um projecto simples — queimar retratos,
Genealogias
E outras misérias de quem aposta, em terceira fila, no jogo de perder.

Falhámos e
Talvez por isso, a casa grande da Granja
Arda por diferentes razões
Por motivos que o fogo não entende, não justifica.
Mas denuncia.

Rui Pedro Gonçalves (n. 1973), in Noites na Granja (2006). «Poemas de menor extensão intercalam outros de maior número de versos, demonstrando uma cuidadosa atenção construtiva e uma perspicaz medida dos cambiantes em que autor e possível leitor têm de gerir um acordo.Todos eles, todavia, trazem história: familiar, de espaço vivido, de tempo dilatado no seu decorrer, de emoções calidamente afloradas. Os espaços interiores das casas, o desenlace do corpo onde tudo principia e finda, o lugar humano das histórias de que nasce a sua (...) A delicadeza que atravessa a força imaginística e a pulsão vital que anima estes versos devem obrigar-nos a estar muito atentos» (Joaquim Manuel Magalhães, Expresso, 4 Março 2006).

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O EMPAREDADO



Já ninguém semeia, lamenta-se o homem no adro da igreja. A sombra plantou-o ali e ali ele cresce para a colheita que todos ceifa. As mondadeiras trabalham agora nos departamentos sombrios das câmaras municipais, o lírio roxo adolesce distante de olhares contemplativos.


 
Do outro lado da margem o gado apascenta livremente, deste lado é um role de dificuldades, decretos, impedimentos. O país teme o estrume das vacas, ao mesmo tempo que se permite enterrar no estrume da política. Somos de uma terra emparedada, continua. E eu escuto-o no intervalo que medeia dois dedos de conversa, um dedo de esperança.



Escuta-se o cante nas ruas desertas, na paisagem estendida para lá dos sonhos, a paisagem transformada que tudo absorve. Varanda do Alqueva, diz o poema. Por vezes, convém entrar no jogo da beleza. Sobrevivemos desta cedência de amarguras que tece lentamente o tapete da paisagem. Tanto céu para um só milhafre, tanto tempo para uma única história.



E o homem prossegue sua história, esquecido do vento que fustiga as pedras do cromeleque. Há quantos anos ali fossilizados os sonhos da humanidade? Assim dispostas, as pedras curvam-nos à terra enquanto oram pelos astros. Indiferentes a fronteiras e ao desemprego dos homens, mantêm-se de pé protegidas pelo espanto.



Ora, aqui chegados, que mais podemos desejar do que adiafas de pão e vinho? Neste pátio, a desoras, os objectos vazios não fazem justiça à gratidão dos elementos. Alguém teve que semear este bem receber, não vem do nada o acolhimento. A simpatia rega-se todos os dias, haja quem a semeie. Podem os garrafões de vidro vazios ser os menires desta nossa pré-história.
Entre Monsaraz e Redondo, Julho de 2014.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

ZEITGEIST


Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.

Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.

Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.

Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
plo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pla madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa — ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação save
e assim alcançarem a eternidade. 

Fernando Pinto do Amaral (n. 1960), in Às Cegas (1997). «Entre a prolongada introspecção, de preferência depressiva, e o dobramento subjectivista (mas procurando jogar com uma suposta capacidade da mimesis: a de fazer do poema um bom «condutor», apto a libertar nas palavras o afecto dos objectos e do vivido), somos aqui confrontados com reelaborações de estados de alma e de um vocabulário correspondente. Em relação aos estados de alma, notemos que eles se referem quer a uma esfera psicológica quer ao sentido acústico-musical das tonalidades afectivas; quanto ao vocabulário, veja-se a importância que adquirem palavras como «alma» e «coração» (António Guerreiro, sobre Pena Suspensa, in Expresso, 22 de Janeiro de 2005).

PROJECÇÃO



Entro no largo da Câmara Municipal pela Rua de São Tiago. Avisto-o de costas, estático, como se fosse uma estátua ali colocada. Os longos cabelos brancos caem sobre as costas, manto que o protege das intempéries. Certifico-me de que se trata de quem penso. Dou uma volta ao largo, sento-me do lado oposto ao que se encontra e observo-o. Intento a palavra certa, não vá cortar a boca no arame farpado. Ele não pestaneja, está recostado no banco do largo remodelado. A coluna curvada. Uma barba farta que se mistura com a cabeleira estende-se sobre o peito. Descobrimos-lhe o olhar só quando nos aproximamos. De quando em vez, esboça um cumprimento. Acena com a cabeça, levanta uma mão. Parece calmo. Mas tem nos olhos a cor grisalha dos cabelos, uma paz combalida. Há pouco, as gaivotas sobrevoavam o aterro sanitário em busca de alimento.



Aproximo-me, meto conversa. A poesia gera pontes, mas são todas de ferro velho enferrujado. A palavra certa é a mais simples. O homem dos cabelos brancos mantém o discurso que já lhe ouvira. Uma coerência desarmante. Pressinto-lhe as mazelas de um acidente vascular recente. Explica-me o que os médicos não admitem, que o achaque afinal foi uma projecção. Quando se preparava para descansar da missão que o trouxe à cidade, aconteceu-lhe aquilo. Agora não pode descansar, não pode voltar a ser quem era. Ninguém volta, penso. Mas este homem, tão certo e convencido de ser quem é, entala-me entre os benefícios da loucura e os estragos da normalidade. Não sei se chame liberdade ao seu abandono, não tem o sentido de abnegação da esfinge hindu.  Talvez o seu mundo cresça do avesso, jogo de espelhos onde as horas são preenchidas tentando perceber o que há de real no reflexo. 
Évora, Julho, 2014.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

DOLORES DURAN

Sobre Dolores Duran, um documentário da TV Globo:
1ª parte: aqui; 2ª parte: aqui; 3ª parte: aqui; 4ª parte: aqui; 5ª parte: aqui.

UBI SUNT



A opção por uma expressão latina para título de um livro oferece ao objecto uma certa solenidade. Não é caso único no conjunto da obra de Manuel de Freitas (n. 1972), desta feita devidamente inventariada ao longo de cinco páginas posteriores ao índice. Perturbadora, porém, esta opção no menos solene dos poetas portugueses contemporâneos, assim como impressionante a produtividade de um autor estreado apenas há catorze anos mas que conta já com cerca de quatro dezenas de títulos publicados em nome individual. Ubi Sunt (Averno, Junho de 2014) é aquilo que anuncia: um livro evocativo de pessoas e de lugares ausentes. Sendo a morte, na sua íntima relação com a pesada mecânica do tempo, um tema recorrente nesta obra, ela aparece agora directamente associada à perda. O volume é dedicado à memória de Maria de Lourdes de Almeida Pereira de Freitas, embora diversos dos textos que preenchem as três partes (Hic, Et Nunc, Et Semper) sejam objecto de dedicatórias a personalidades facilmente identificáveis (geralmente escritores que se presumem do círculo de amizades do autor). Esta vertente intimista é fortalecida pela omnipresença da companheira de Manuel de Freitas ao longo dos três conjuntos, convocada múltiplas vezes a partir de referências mais ou menos directas. Trata-se de um registo pessoalíssimo que, curiosamente, parece pretender anunciar um certo distanciamento. Desde sempre encontramos também nesta poesia evocações da infância, dos lugares onde a mesma se concretizou, assim como daqueles por onde se foi perdendo. A poesia de Manuel de Freitas apela a uma viagem no tempo, com recuos onde a memória vai encontrar os elementos que explicam a tristeza, a melancolia e a nostalgia enquanto sentimentos fundadores de uma poética marcada pela saudade nesse sentido muito próprio que a poesia portuguesa lhe confere (mas que nada tem que ver com cultos messiânicos ou bandeiras identitárias). «O maior andarilho e boémio / da minha aldeia» (p. 12), «um grande bêbedo / e um fumador diligente» (p. 13) não são meros recursos literários, conectam o poema a lugares e tempos povoados por figuras de uma memória que aqui se constitui enquanto imaginário possível da experiência de vida sobre a qual o texto se constrói. Os poemas em prosa, em maior número, desenvolvem este processo com especial acidez, chamando a atenção para sítios onde o poeta conheceu os melhores e os piores espíritos da sua geração, ou se atira aos «evangelistas da eternidade» (p. 17) depois de uma consulta médica, ou lamenta ter-se esquecido dos nomes de praticamente todos os professores de Português. A constatação da decadência propulsionada pela passagem do tempo — «o desgaste do tempo» (p. 41) — resulta numa nostalgia desapiedada, sem concessões líricas nem encantamentos fugazes. O ambiente cultural e social do país encontram nesta poesia um retrato desencantado, centrado, é certo, na expressão de um Eu que se afasta do que agride mas admite aproximar-se pela linha afectiva: «a amizade é uma ponte incalculável» (p. 38). Sem pretender parecer nostálgico ou ser confessional, Manuel de Freitas acaba por ser ambas as coisas: «Com ou sem talento, fui ou sou tudo o que vagamente desejei: poeta, crítico, editor, barman, livreiro e tradutor. De um modo quase sempre bastante heterodoxo, é certo. E tive amigos, conheci de perto o amor. Também houve falsos amigos, traições, os piores enganos» (p. 46). A literalidade do discurso, que por vezes insinua uma enervante autocomiseração, agita a leitura. Não é usual, mas, por isso mesmo, recentra na autenticidade da voz a sua maior força. Dúvidas sobre a utilidade da poesia («aproximar pessoas» e «diluir falsas fronteiras» na p. 35, «serve para nos sentirmos um pouco mais tristes, solitários e deslocados» na p. 54), o desconsolo das dores intoleráveis (o tédio dos dias, a perda…), indícios de uma saturação aparentemente fatal, são instantes que denunciam uma poética feita de despedidas, uma poética exclusivamente ligada à existência (que é, para todos os efeitos, uma despedida constante). O poema que, quanto a mim, melhor sintetiza tudo isto é este:



FIM DE CASO

Foi num dos muitos táxis que me conduziram à ausência da minha mãe, cada vez mais óbvia, que ouvi «Fim de Caso». O nome de Dolores Duran era-me totalmente desconhecido, mas logo fiquei preso àquela gravidade simples, em sentido musical. Nem só de Bach e de Billie se pode viver, embora por vezes apeteça. Cheguei a casa e apenas me interessava saber que gravações havia dessa mulher que viveu 29 anos e decidiu dormir até morrer. Compreendo-a muito bem.

*

A quase integral chegou no dia seguinte à cremação da minha mãe (obrigado, Inês). Dolores impressiona, sobretudo, pela sua convincente mudança de persona, o tom canalha nas canções francesas ou nos temas nordestinos, a sensualidade dos boleros, a inesquecível versão de «My Funny Valentine» (que Ella Fitzgerald terá considerado a melhor que já ouvira). E devemos-lhe, além de «Fim de Caso», composições como «A Noite do Meu Bem». «Quero a alegria de um barco voltando» é dos melhores versos que conheço. Corrijam-me, se estiver errado.


Manuel de Freitas, in Ubi Sunt, Averno, Junho de 2014, p. 60.

domingo, 17 de agosto de 2014

SILÊNCIOS QUE FALAM

À angústia da página em branco, alguns autores vão contrapondo a inspiração do branco da página. Processa-se, nesta arte, uma inversão dos papéis. Algo que poderia ser interpretado como falta de estro, acaba por sugerir o poder do vazio - deixando assim ao leitor a missão de encontrar palavras onde porventura não farão falta alguma. Lembro-me do Poema Branco de Rui Costa, incluído no premiado, mas ignominiosamente inacessível, A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (2005):


Outro exemplo, num poeta que se presta bastante a este tipo de experiências metalinguísticas, surge-nos com o poema A parte pelo todo, de João Luís Barreto Guimarães, que ofereceu o título a todo um conjunto compreensivelmente mais palavroso:


Mas não se julgue que estamos num território exclusivo da poesia. Recentemente, Bruno Vieira Amaral almejou um dos mais intensos graus da expressividade narrativa com a seguinte página no seu romance de estreia As Primeiras Coisas:


Talvez a nota de rodapé fosse escusada, encargo que deixo aos críticos profissionais. O que me interessa nestes três exemplos, e mais poderiam ser dados, é a capacidade que cada um dos autores teve de superar com engenho e risco uma limitação expressiva. Poderão chamar-lhe truque ou falta de originalidade, poderão acusar os autores de nada terem a dizer e de se acomodarem por detrás de um vazio experimental que nem sequer é inovador. Por mim, o que estas páginas praticamente em branco acrescentam, no contexto específico em que aparecem, é uma enorme capacidade de síntese que muito nos agradaria verificar na maioria dos autores mas que, para mal dos nossos pecados, nem todos estão dispostos a trabalhar.

HAMMAM COM LETRAS

Num passeio por Évora, subo a Rua 5 de Outubro. Precisava de comprar cola e fui informado, por uma comerciante local encalhada entre a revolta e o conformismo, que era provável que os chineses vendessem o que eu precisava porque as lojas dos chineses vendem tudo indiscriminadamente. Estava certa na descrição. Já com a cola no bolso, deixo os chineses, subo uns metros na 5 de Outubro e deparo-me com uma montra de livros expostos, por assim dizer, indiscriminadamente. Entrei. Do lado esquerdo, dois bancos baixos suportavam pequenos montes de livros. Um deles, totalmente preenchido com edições do autor Carlos Mota de Oliveira. No outro, livros da Eucleia, Casa do Sul, Licorne. Ao centro, colocados em caixas aparentemente expostas de um modo informal, reparei em livros da Averno, Mariposa Azual, Douda Correria, Pianola, &etc… É a secção da “literatura de alterne”, alguém me disse com um sorriso contagiante. Adquiri dois livros. Não digo que comprei porque o ambiente não se presta a compras. Algo diferente se presta naquele espaço, onde não ouvi falar em cartões, em promoções, em campanhas, nas trafulhices comerciais que nos poluem os dias. E a venda acrescentada surge naturalmente, quando a conversa se estende pelos livros sem compromisso nem ansiedade. Trouxe dois. Um deles é o que ilustra a prosa, com a capa a remeter para os saudosos Cadernos de Poesia. Os Poetas Adoram Massagens, a livraria Fonte de Letras é um Hammam bastante recomendável. Longa vida a espaços destes de onde saímos com a respiração mais leve. Resta o poema:

OS POETAS ADORAM MASSAGENS

Os poetas adoram massagens
ficam de papo para o ar
ficam a ver passar os navios
ficam à mercê de Deus
ficam em paz
e o resto da Obra
fica por fazer.
Também eu hoje
me fico por aqui
com a “Massagem”
do Fernando Pessoa.



Carlos Mota de Oliveira, in Os Poetas Adoram Massagens, Edição do autor, s/d, p. 16. 

sábado, 16 de agosto de 2014

POEMA


Eu não sabia então —
nem sei se mesmo hoje saberei —
que a poesia era para isto
falar das coisas miseráveis
— a memória do que é miúdo, o que é rasteiro —
o sono escombros que o mar devolve à terra.

Ou então lembrar meu Pai
suas mãos secas tisnadas do sol
sua vasta alma camponesa rosto de terra
coração de menino olhos ingénuos
um chapéu protegendo-lhe a cabeça
caminhando entre folhas de videira
suavemente falando aos que trabalhavam na colheita se acercassem de um outro campo mais acima
para colher sob sol braseiro
uvas que eu ia devorando
até do sumo doce fartar minha boca.

Ou lembrar meu avô
que conduzia mal
levando o carro pelo meio da estrada de província
a buzinar longamente em cada curva
afugentando galinhas ovelhas
crianças ranhosas
filhas do álcool.

Lembrá-lo agora como quem evoca um sabor cheiro da infância
não chegando para me humedecer os olhos
(não sou especialmente dado à comoção)
leva-me a um outro tempo:
um tempo de girassóis e de pão farto e doce
a encher-me a boca miúda
momentos coincidentes com o agora:
a guerra na Palestina as eleições em França
a notícia de um óbito no jornal do dia
a graça do pivô a fechar outro telejornal
ou tão-somente essa presença intensa
teu perfil recortado no ecrã dos meus olhos.

Tudo acontecendo ao mesmo tempo numa linha horizontal
em simultâneo como se de fora
como se fosse um outro
desconhecendo sempre
o lugar exacto a que pertenço.

Bernardo Pinto de Almeida (n. 1954), in Hotel Spleen (2003). «Partindo de um certo surrealismo (movimento a que, no seu romantismo tardio, Bernardo Pinto de Almeida está profundamente ligado), o lado datado de uma escrita foi-se lentamente apagando para dar lugar a uma poesia liberta de espartilhos doutrinais, que se pode ler sem pressupostos acentuados. Hoje, encontramos um poeta que vai além dos temas tradicionais (não se trata apenas do amor, da morte, da infância, do quotidiano) e que cria uma temática que tem o imenso mérito de não ser designável por qualquer palavra conhecida, sem no entanto convocar os deuses para preencher esse vazio. (…) Anotemos alguns traços essenciais: o uso das maiúsculas, mas a mesma palavra pode surgir com maiúsculas ou com minúsculas; a capacidade da repetição das palavras promovendo uma música própria: o uso metafísico das maiúsculas; o sentido intensificado das interrogações; o sentido do pormenor concreto, a capacidade de mudar de patamar (daí a utilização do travessão)» (Eduardo Prado Coelho, Público, 1 de Abril de 2006). «Estamos perante uma poesia da voz, onde há uma dimensão declamatória e, quase sempre, o endereço a um “tu”, seja o da invocação lírica, seja o da poesia como diálogo. (…) Esta poesia não renega o pathos romântico e a sua inspiração nocturna, com os seus motivos recorrentes da luz e das trevas. Ela vai, aliás, mais longe: aproxima-se de um panteísmo místico, fusional, até um estado de apoteose que Baudelaire identificou com o universo lírico. Nalguns momentos, ela permite-nos convocar o conceito rilkiano de “Weltinnenraum”, de espaço interior do mundo onde se abole a distinção entre sujeito e objecto. Estamos nos antípodas de uma poesia referencial» (António Guerreiro, Expresso, 18 de Março de 2006).  

DÓRIS GRAÇA-DIAS (1963-2014)


Há pessoas sobre cujo desaparecimento se abate um silêncio incomodativo. Este ano vão dois, e por isso o incómodo faz-se sentir ao quadrado. É possível que me tenha escapado a referência breve, mas nada desculpa que Jorge Fallorca tenha desaparecido sem que tenha sido oferecido aos leitores a oportunidade de saberem quem foi e o que deixou feito. Sucede algo semelhante, entretanto, com Dóris Graça Dias, que em tempos gerou vagas enormes de indignação por causa de uma acusação de censura (relembrei-me disto). Censurados em vida e na morte, certos autores parecem impor-se pela sua excepcional capacidade de incomodar. Não precisam de muito, basta-lhes escrever ou calarem-se para sempre. Os órgãos de comunicação social não têm que ser enciclopédias de obituários, mas pelo menos à hora da morte podiam exercitar alguma pedagogia. A imagem ao alto foi respigada aqui

ROBIN WILLIAMS (1951-2014)


E um dia, o homem que rasgava sorrisos resolveu cortar os pulsos. Pôs termo à vida de várias formas, mas ficará para sempre como Popeye (1980) — uma das minhas primeiras visitas, se não a primeira, a uma sala de cinema —, o DJ de Good Morning, Vietnam (1987), o professor de Dead Poets Society (1989), o psicólogo de Good Will Hunting (1997)… Há dias, revi Jacob the Liar (1999) e comovi-me (um filme que nos comove tem que ter algo de bom). Mrs. Doubtfire (1993) ofereceu-lhe um desempenho extraordinário. Mas nisto era praticamente imbatível.

PEDRO COSTA


…algo está mal num país que tem personalidades de excepção como Pedro Costa a marcar presença em lugares emblemáticos como Locarno, ao mesmo tempo que o espectador comum — a quem nunca falaram de Pedro Costa, Locarno e tantas outras coisas... — é todos os dias bombardeado pela indigência narrativa dos nossos horários nobres…
João Lopes, aqui.

Em tempos, escrevi sobre um filme de Pedro Costa (aqui). E não foi por acaso que, instigado a sugerir, me lembrei de Cem Mil Cigarros (aqui). Parabéns Pedro Costa.

A QUATRO MÃOS


A Quatro Mãos
Edição de manuel a. domingos
(fora do circuito comercial)
Julho de 2014


O meu amor por ti é igual ao teu amor por mim.
O resto, batatas fritas!
Ruy Cinatti