domingo, 31 de maio de 2015

sexta-feira, 29 de maio de 2015

CORDA DE SEGURANÇA

   A edição da revista Colóquio Artes (n.º 83 Dezembro de 1989), publicada após as exposições retrospectivas de Paula Rego, em 1988, na Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa), na Casa de Serralves (Porto), e na  Serpentine Gallery (Londres), é especialmente dedicada à artista e reúne dois ensaios cruciais para o contexto que aqui estamos a analisar. Um desses ensaios intitula-se simplesmente "Paula Rego" e é da autoria de John McEwen, que, como ficou já claro, é uma figura fundamental no cerne desta rede luso-britânica de relações profissionais e afectivas e que, significativamente, foi apresentado à artista por Alberto de Lacerda.
   No texto acima mencionado, McEwen comenta a pintura de Rego "A Dança" (1988), referindo que foi o último tema sugerido pelo marido Vic Willing (que morreu nesse mesmo ano), uma "pintura elegíaca", como diz McEwen, evocativa do seu Portugal nativo, evidenciando alegoricamente todo o processo de crescimento e maturidade da própria artista - através das figuras da menina, da jovem mulher e da mulher idosa a dançarem juntas - e da sua estreita relação com Vic Willing, representada através do idílico casal a dançar:

   Numa pista de dança iluminada, com vista para um mar iluminado pela lua, os casais dançam ao som da música. Esta costa marítima tem a fúria da costa perto da Ericeira. (...) O tom é esmagadoramente elegíaco; e, no entanto, o reconhecimento do fim das coisas é temperado pela gratidão da aceitação e pela esperança do amor. No tema das relações misteriosas e muitas vezes antagónicas entre homens e mulheres, abordadas tão profundamente por Paula Rego em toda a sua arte, (...) aqui fica o testemunho do persistente poder do amor.

   Num tom próximo, a composição "Partida", também de 1988, foi dedicada pela artista a Vic Willing como um carinhoso gesto de despedida. A pintura mostra uma jovem, de avental branco, entregue à tarefa de pentear (amorosamente) o cabelo de um homem jovem, num terraço à beira-mar, salientando-se em primeiro plano um grande baú, pousado no chão, como se pronto para uma viagem iminente.
   Tragicamente, esta foi uma das pinturas que ficou destruída no incêndio de um dos armazéns da Galeria Saatchi, em Londres, em Maio de 2004; uma das perdas que Rego mais profundamente lamenta.

Ana Gabriela Macedo, in Paula Rego e o Poder da Visão, Edições Cotovia, Outubro de 2010, pp. 157-158.

   Partida e A Dança foram pintadas quase em conjunto, a primeira mesmo antes da exposição da Serpentine e a última imediatamente depois. Na primeira obra, uma rapariga cuida da toilete de um homem que a vai deixar. Embora vestida como criada, a atitude que toma em relação ao homem não é de subserviência. Lembra-nos isso sim uma das meninas de Paula Rego com o seu cão; o homem é o seu animal de estimação, o seu bebé e o seu amante. Uma corrente eléctrica parece passar através do pente que os liga e é também o símbolo da sua iminente separação. A energia e atenção da rapariga estão centradas no homem, enquanto que ele olha para além do quadro, pronto para sair. A partida dele, imaginamos, deixá-la-á sem nada para fazer.

Fiona Bradley, in Paula Rego, Quetzal Editores, s/t, s/d, pp. 38-40.


A Dança foi concebida durante um longo período de tempo e existe uma sequência completa de desenhos, muitos dos quais a artista doou à Tate Gallery quando a pintura foi adquirida para a colecção da Galeria.

   Estes desenhos foram feitos quando andava à procura da última obra para a exposição da Serpentine. Era para ter sido a obra que ligaria tudo, pendurada por cima de tudo o resto. Mas não a acabei a tempo e ainda bem, na verdade, pois acabou por ser demasiado grande para caber na galeria. O Vic tinha dito para fazer pessoas a dançar, por isso foi daí que surgiu o tema, mas depois ficou tudo baralhado quando ele morreu e os desenhos para a obra ajudaram-me a aguentar um período de sofrimento e privação intensos. O desenho consegue isso - ajudar-nos a aguentar as coisas. É como numa antiga anedota portuguesa em que um homem está em cima de uma escada, a pintar uma parede com um grande pincel. Aparece outro homem que quer a escada, por isso diz para o primeiro «Segura-te bem ao pincel, vou só levar a escada...» É isto que o desenho é - agarra-nos, liga-nos tão intensamente ao papel, através do lápis ou da pena ou do que quer que seja que utilizemos, que é como se fosse uma corda de segurança quanto tudo o resto desaparece. As cosias podem correr mal, mas se nos agarrarmos com força ao papel e à caneta, tudo ficará bem.

Fiona Bradley, in Paula Rego, Quetzal Editores, s/t, s/d, p. 42. Sublinhados meus.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

ALJUBE, 1938


Inerte e vã, cai a penumbra,
indiferentemente,
por sobre os movimentos nítidos, ou indecisos,
as palavras
com segurança proferidas,
ou hesitantes, de timidez ou espanto,
os risos arejados e salubres,
ou as lágrimas sem remédio
das grandes desolações,
ou dos grandes dramas.
Inerte e vã, cai a penumbra,
impassível e inelutável,
ao mesmo tempo que, por isso mesmo, justiceira,
pois tudo, afinal, se equivale e se anula,
na sucessão voraz
dos sentimentos e das circunstâncias.
Inerte e vã, cai a penumbra.
Mas eu, decidido, fito-a,
ou, antes, fito o que ela envolve e adoça,
em lugar de também me abandonar a ela,
com a sua sedução de imponderável sono.
Inerte e vã, cai a penumbra.
É o fim da tarde no horizonte manso,
que no rio acende um último lampejo,
que só adivinho,
e em mim reata uma pungente saudade,
nem percebo de quê,
nem percebo de quando,
à força de ser com certeza de mim,
de antes de eu ter saudades de nada.
Inerte e vã, cai a penumbra.
Este ruído que oiço é o de um cão a ladrar,
ou o de portas fechando-se,
ou, mais simplesmente,
o do meu coração a querer evadir-se?
Agora, os cais devem estar apinhados,
o rio magoado lentamente desliza,
e a brisa que sopra as arestas morde
dos edifícios em monte
que as colinas cavalgam.
Há incêndios finais de dolorosas chagas
nalgumas vidraças que os derradeiros raios
do sol tange ainda.
Um surdo clamor cresce das ruas cheias
de uma gente agitada, que à pressa caminha,
e em tropel assalta os carros eléctricos
que telintam aflitos.
É a hora do enorme desafio
da alegria do cansaço vencido,
da proximidade do jantar fumegante,
da preguiça, do ócio, da intimidade.
Os automóveis cruzam-se,
ultrapassam-se, velozes,
de buzinas febris ferindo os ouvidos.
Nos parapeitos das janelas amargas,
com grades e redes poeirentas e vis,
alguns pombos descuidados debicam
as migalhas de pão que nós lhes deitamos
com os dedos crispados de amor e de angústia.
Inerte e vã, cai a penumbra.
E em cada um de nós, que um pudor emudece,
chora, mais negro, mais cruel, mais duro,
mais um dia inútil, perdido para a vida. 


Armindo Rodrigues (n. 1904 - m. 1993), de O Tempo Suspenso, in Obra Poética XIII (1978). Médico de profissão, é autor de uma extensa Obra Poética reunida em 16 volumes entre 1970 e 1980. Voz Arremessada ao Caminho, livro de estreia, data de 1943. Ligado desde a primeira hora ao movimento neo-realista, é autor de uma poesia «directa, afirmativa, «arremessada ao caminho», particularmente nua e crua» (Cabral do Nascimento). Por vezes panfletário, ecoam nos seus versos as concepções marxistas que alimentaram muita da poesia portuguesa com inclinações sociais. Foi colaborador da revista Seara Nova e dirigiu a colecção Cancioneiro Geral, ganhando notoriedade como «actualizador de velhas tradições, sobretudo lírico-epigramáticas e sentenciárias» (A.J. Saraiva, Óscar Lopes).

segunda-feira, 25 de maio de 2015

MENEZ

 
Menez (1926-1995) começou a pintar com 26 anos de idade. A sua primeira exposição realizou-se na Galeria de Março, em 1954, então dirigida por José Augusto França. As suas primeiras pinturas são influenciadas pelo Impressionismo: Goya, Klee, Kandinsky, Matisse, Bonnard, Pissarro, Vieira da Silva e De Chirico são os seus mestres. Após um período de abstracionismo, entra numa fase figurativa e retratista. A figura feminina começa a dominar a sua obra a partir dos anos 70. Ruth Rosengarten escreveu sobre ela: "Um dia ela disse-me que tinha passado da abstracção para o figurativismo porque a felicidade é abstracta, mas a tristeza tem uma fisionomia específica". De 1965 a 1969 a pintora viveu em Londres, passando a fazer parte do grupo de artistas entre os quais se encontravam já Alberto de Lacerda, Paula Rego, Vic Willing, Mário Cesariny, Helder Macedo e João Vieira. Entre 1976 e 1977 a tragédia abate-se sobre a sua vida - dois dos seus filhos morrem. Durante a década de 80, viveu em Lisboa, trabalhando num atelier com vista para o rio Tejo, cuja beleza Paula Rego dizia invejar. Em 1990, Menez teve uma grande exposição retrospectiva na Fundação Calouste Gulbenkian, que lhe trouxe finalmente o pleno reconhecimento do seu valor; nesse mesmo ano é-lhe atribuído o Prémio Pessoa. Porém, pouco tempo depois, a tragédia atinge-a novamente com a morte do seu terceiro filho. Tinha sido entretanto convidada para pintar a estação de metro do Marquês de Pombal, em Lisboa, para a qual elaborou um estudo pormenorizado da vida portuguesa do século XVIII e seus eventos históricos (o terramoto de 1755, a figura do Marquês de Pombal, etc.). Menez morre em Abril de 1995. No artigo da secção Obituário do jornal londrino The Guardian que lhe foi dedicado, pode ler-se o seguinte: "[Menez] foi uma percursora da nova vaga portuguesa de pintores modernos que regressaram ao seu país após a revolução de 1974. Uma das maiores influências de Paula Rego - e também a mais conhecida -, Menez fazia parte de uma tradição de mulheres artistas que remonta à artista barroca do século XVII Josefa de Óbidos. (...) A sua obra intensa e intuitiva teve uma influência óbvia sobre Paula Rego. Ambas viveram em Portugal no crepúsculo da ditadura portuguesa, mas enquanto as explorações psicológicas de Paula Rego muitas vezes refulgem de humor e inteligência, a obra de Menez possui um sentido de presságio trágico, que provinha da sua própria vida".
 
Ana Gabriela Macedo, in Os afectos portugueses na obra de Paula Rego. Os casos de Alberto de Lacerda e Menez, Maio de 2008, incluído em Paula Rego e o poder da visão - "A minha pintura é como uma história interior", Edições Cotovia, Outubro de 2010, pp. 148-150. Sublinhado meu.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

EPIFANIAS #11

11

                                            [Dublin: na casa dos Sheehy, Belvedere
                                            Place]
Joyce — Eu sabia que você tinha interesse nele. Mas está enganada
                quanto à sua idade.
Maggie Sheehy — (inclina-se para falar a sério). Porquê,
                que idade tem ele?
Joyce — Setenta e dois.
Maggie Sheehy — A sério?

James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

EU AINDA SOU DO TEMPO

Eu ainda sou do tempo em que o Presidente da República enchia a boca com a palavra frugalidade enquanto, no dia da raça, erguia a bandeira nacional do avesso. Sou do tempo em que os governos recrutavam na blogosfera, Francisco José Viegas era secretário de estado da cultura e tinha dívidas ao fisco desvalorizadas por São Bento. Sou do tempo em que Eduardo Catroga era amigo de Passos Coelho, os portugueses aguentavam aguentavam e divertiam-se com pentelhos, a Celeste Cardona estava bem empregada e os jornalistas comiam nas fuças sem dizer água vai. Eu ainda sou do tempo em que o bom Governo de Portugal se preocupava mais com os fumadores passivos do que com os doentes nos hospitais, o Grupo Espírito Santo era fiável, a República tinha na Assembleia uma presidente reformada aos 42 anos (só bons exemplos). Sou do tempo em que isto era possível com a maior das naturalidades:  «o homem mais rico de Portugal, Américo Amorim, foi eleito na terça-feira presidente do Conselho de Administração da Galp, e leva consigo a sua filha, Paula Ramos Amorim, que ocupará o cargo de administradora não-executiva, com direito a um salário anual superior aos 45 mil euros. Recorde-se que, em 2008, a filha de Américo Amorim foi notícia pela acusação de fraude fiscal, quando vendeu um palacete, no Porto, a Filomena Pinto da Costa». Sou do tempo em que o Pingo Doce comemorava o 1º de Maio reduzindo trabalhadores e clientes ao estatuto de animais, do tempo em que as soluções para a economia passavam por exportar mais partéis de nata, o ministro da tutela dizia “coiso”, Miguel Relvas não podia sair à rua sem que o mandassem estudar. Sou do tempo em que o mesmo Miguel Relvas pedia desculpa por ameaçar jornalistas com a divulgação de dados sobre as suas vidas privadas, sou do tempo das grandoladas ao bom governo de Portugal. Sou do tempo em que o empreendedorismo era Bíblia, sugeria-se aos portugueses que emigrassem para posteriormente lhes pedirem que regressassem a troco de esmolas, do tempo em que os deputados faltosos do PSD queriam combater a parca assiduidade dos alunos com multas e trabalhos a favor da comunidade. Eu ainda sou do tempo em que o Primeiro-ministro impunha um confisco aos portugueses sem se lembrar de pagar as dívidas que o próprio tinha à Segurança Social, por ter trabalhado para uma empresa fantasma que lhe pagava com ajudas de custo (bons exemplos, por certo, aprendidos com esse exemplo de homem chamado Dias Loureiro). Sou do tempo em que os amigos eram todos muito amigos do seu amigo, Arnaut chegava a administrador da REN, Dias Loureiro gastava fortunas com os vestidos da mulher, os condenados do BPN eram contratados como directores de fundos criados pelo Estado, Passos Coelho dizia que acabar com o 13.º mês era um disparate, o ex-ministro Gaspar dirigia-se aos portugueses, do alto da sua sabedoria, para explicar as virtudes da austeridade e como tínhamos andado a viver acima das nossas possibilidades, pretendendo reduzir as gorduras do estado sem melindrar os bons amigos de seu amigo. Sou do tempo em que os portugueses saíam para a rua aos milhares, aos milhões, em Março, Setembro, etc., para que tudo continuasse na mesma. Sou do tempo em que a Helena Matos e a Isabel Jonet eram um must, o Dono Disto Tudo não era bem a formiga que Miguel Macedo desejava, Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz prometia acabar com a impunidade apoiando-se num CITIUS que mais parecia um coitos interruptus (também pediu desculpa). Sou do tempo em que o Primeiro-ministro se estava a lixar para as eleições, chamava piegas aos portugueses, Marques Mendes chamava assalto à mão armada ao gulag fiscal do governo e Bagão Félix apelidava-o de napalm fiscal, enquanto os portugueses, assaltados, agredidos, massacrados, se comoviam com um ministro das finanças que tentava devolver ao país o custo que este teve com a sua educação. Eu ainda sou do tempo em que Miguel Relvas norteava a sua vida pela simplicidade da procura do conhecimento permanente, Nuno Santos estava na RTP, um co-autor de relatórios do FMI laborava sobre pseudónimo para poder pagar-se a si próprio pela excelência dos seus relatórios, Ricardo Salgado esquecia-se de declarar 8,5 milhões ao fisco, o impulso jovem tinha muito punho, a ministra da Agricultura rezava para que chovesse, Paulo Portas demitia-se irrevogavelmente, Paulo Portas afinal não se demitia, um rapaz era esfaqueado por causa de um fio de ouro, outro era espancado por causa de uns óculos de sol, outro era assassinado sabe-se lá porquê, outro era esbofeteado, do tempo, do tempo, sou do tempo em que o Ministro da Educação também pedia desculpa. Este tempo, sou deste tempo, eu ainda sou. E há tempos perguntava o que agora volto a perguntar: querem apostar comigo que este será o tempo do mesmo povo que, depois de suportar Salazar durante 50 anos e Cavaco durante 20, irá masoquistamente voltar a legitimar no poder esta companhia de ignóbeis actores?

quarta-feira, 20 de maio de 2015

[crispado como o mar deste inverno]


crispado como o mar deste inverno
lembro-me de coisas ferrugentas
anzóis algures na infância uma noção
de cansaço alegre que a maré põe no corpo
o que as ondas murmuram de poente em junho
o despontar do verde a ria calma o primeiro calor
a fertilidade anunciada na cor atmosférica que muda
o cheiro doce da lama numa manhã incendiada de sol
quando a primeira proa faz rumo a terra correr
correr pelas dunas a chamar a gente de casa em casa
levar o sebo e de joelhos na areia untar parais
pô-los todos de feição e olhar
olhar o gesto afoito de coisas que sempre foram
durante dias a excitação de barcos que avaram à praia
de ser pequeno e querer fazer tudo como um homem
o sangue do peixe espesso como água na seda
o impacto fulgurante das cores escamudas um bailado
escolher mesmo ali o que a ajuda leva e o que se vende
se assim for a fortuna do dia caminho para a lota
peixe e mais peixe e mais peixe ainda
conversas de homens fumando cigarros ao canto da venda
setenta e nove setenta e oito setenta e sete chui!
uma sandes e um sumol logo ali ao lado e depressa
safar a arte apanhar carnada ver a mãe a arranjar o peixe
tudo outra vez tudo um dia seguinte sempre fiel ao olho do tempo
amanhã à sêma depois à lula amanhã à ferreira e à bica
descansar na amêijoa ter fé na lua da corvina
que para um ano bem ganho basta ao bom pescar três vezes
e a fome mesmo que nos toque nunca será muita
e tudo será na graça do senhor ou dum par de cornos
e tudo será forrado na mesma medida do que foi ganho
e tudo um oceano imenso de sal desfazendo-se na boca
face à impossibilidade de proferir um rosto à saudade
quando tudo se esgota nas palavras e o que fica
o que fica é uma sensação de lágrimas a romper o peito
que é só tudo quanto me cometeu a juventude
aquela inocência perdida que é uma fonte do mar
que eu queria viver aqui hoje sem mais nada
só areia peixes pássaros e a luz do teu amor


João Bentes (n. 1981?), in Odes (2012). É dos poucos poetas da sua geração onde se nota uma declarada vontade intervencionista, distante dos palcos onde a poesia facilmente se transforma em espectáculo e dos corredores académicos onde os poemas são avaliados ao peso das citações. As odes anti-triunfais de João Bentes andam pelas ruas, frequentam bairros de pescadores, vão ao mar, capturam a actualidade social numa linguagem atingida pelos ritmos do hip-hop, são derisórias, embora assumam nos seus interstícios o sufoco nostálgico daquele que assiste à atroz transformação de uma certa paisagem de raízes algarvias. Encontramos nesta poesia uma despreocupação estética, diria mesmo um voluntário desleixo formal, que reforça o cunho politizante dos conteúdos, focados na denúncia de um tempo problemático na mesma medida em que testemunham a experiência subjectiva da avitaminose revolucionária. Desconfio que não viva em Lisboa nem frequente a Faculdade de Letras, mas tem aqui mais que se leia.

terça-feira, 19 de maio de 2015

UMA IMAGEM


EPIFANIAS #10

10

                     [Dublin: no Stag’s Head,
                      Dame Lane]
O’Mahony —Você não tem aquele padreco que
escreve poesia lá — Pe. Russell?
Joyce — Ah, sim. . . Ouvi dizer que escreveu versos.
O’Mahony — (a sorrir de lado). . . Versos, sim. . . é
o nome certo para o que ele escreve. . . .


James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF. 

QUEM É ESTA GENTE?

Quem é o casal filmado a tentar fechar uma mala de viagem cheia de chuteiras roubadas no estádio do Vitória de Guimarães? Quem são aqueles adeptos que pilharam tudo quanto puderam? E os que incendiaram as casas de banho do estádio? Quem é o polícia que agrediu um velho à frente dos netos? E agrediu um pai à frente dos filhos? Quem é aquela gente que no Marquês de Pombal atirava pedras e garrafas à polícia? Quem são os treinadores que se agridem em campo? E os comentadores de futebol que se insultam semanalmente em directo na televisão? Quem é o jovem que matou outro jovem em Salvaterra de Magos? Quem são as jovens que dão bofetadas num rapaz em plena praça pública? Quem são os alunos que há tempos agrediram violentamente um colega no Colégio Militar? Quem são os juízes que desculpam as agressões? Quem partilha estas coisas nas redes sociais e as comenta e sobre elas faz piadas? Quem são os menores que há anos mataram à pedrada um travesti no Porto? Quem são os opinion-makers que repetidamente concluem que isto sempre foi assim? Quem pilha? Quem agride? Quem fere? Quem mata? Quem passa incólume sob a chuva de pedras? Quem foge de barco? Quem fica? Quem vai a pé a Fátima?

segunda-feira, 18 de maio de 2015

POEMA DO MAR

Recupero a nota biográfica por Cabral do Nascimento na 2.ª série das Líricas Portuguesas (Portugália Editora, 3.ª edição, Setembro de 1967): «António de Albuquerque Labatt de Soutomaior Navarro de Andrade nasceu em 1902, em Vilar Seco, concelho de Nelas. Em Viseu frequentou o curso secundário até ao 5.º ano, terminando-o, porém, em Coimbra. Nesta cidade matriculou-se na Faculdade de Direito, cuja formatura não concluiu por haver ingressado na Escola Superior Colonial, em que se diplomou. Esteve em Lourenço Marques de 1939 a 1940, como funcionário da Junta de Exportação do Algodão Colonial, regressando à metrópole por motivo de doença. Colaborou com assiduidade na Presença e outras revistas e jornais (Ultramar, O Diabo, Variante, Cadernos de Poesia)». Da experiência africana resultou, em grande parte, o livro de estreia: Poemas de África (1941) — na carta prefácio a Poema do Mar (1957), Jorge de Sena refere-se-lhe como um volume de poemas belíssimos. Já da experiência coimbrã, temos a reter a fundação da revista Presença ao lado de José Régio, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Edmundo de Bettencourt e Fausto José.
Por razões sempre difíceis de compreender, o nome de António de Navarro foi praticamente apagado da História da Literatura portuguesa. Devedores dos princípios modernistas lançados pela revista Orpheu, os autores da Presença pagaram caro um esteticismo apolítico que os praticantes do neo-realismo classificavam anódino e os críticos adeptos do surrealismo português consideravam conservador. Correntes e contra-correntes sucedem-se no caudal dos equívocos, cabendo a quem hoje olhe para o passado deslumbrar-se única e exclusivamente com o que de poético sobrevive a uma guerrilha tantas vezes mais política do que estética. Ora, pegando num livro como Poema do Mar não podemos deixar de nos perturbar com a constatação de quão repleto de pérolas está o caixote do lixo da poesia portuguesa. Como podemos dar-nos ao luxo de manter esquecido um livro de tal forma intenso? É, de facto, um mistério acerca do qual não temos a dizer senão o óbvio: sempre atreitos à promoção de porcarias, os portugueses primam pelo dom da negligência. Sendo assim em tudo, não seria de supor que também o fossem com a sua poesia?
Antes de mais, convém referir que se trata de um livro extenso. Cerca de 200 páginas, divididas em três partes, cada qual com um número desigual de poemas: Mar em Carne Viva (76 poemas), O Alar das Redes (58 poemas), Um Barco Demanda o Porto (57 poemas). Ao todo, são 191 poemas de extensão diversa unidos por uma liberdade formal típica do modernismo e uma musicalidade completamente descontraída. Na primeira parte do livro vislumbramos um olhar voltado para fora, enleado e embevecido com a paisagem marítima. Conquanto este olhar se concentre na paisagem, ele desagua num mar de interrogações sobre o ser e as suas fragilidades. O mar é aqui uma força universal de carácter divino, porventura o único Deus que o poeta reconhece nos seus versos, uma força que impele o ser à interrogação, à dúvida, à manifestação de angústias e temores a partir da qual surge um sentimento de pequenez e de vulgaridade definidor da condição humana. A relação da consciência humana com o mundo natural o é o grande tema desta poesia.
Nada disto é novo em termos temáticos, embora a configuração cative o leitor também pela sugestão de um mar onde o sagrado se manifesta física e morfologicamente. Este “mar em carne viva” sofre e sangra, cisma, tem dores violentas, tem uma alma, confessa-se, «Desfaz o que ama, / Às vezes, e destrói» (p. 35). Neste sentido, ele assemelha-se a Deus: o criador que destrói a criatura. Mas é um Deus físico, telúrico, um Deus presente e visível, um Deus ante o qual o homem se interroga:

Que sou eu em frente a este mar,
Cheio de amor e cheio de ódios, cheio
De convulsões e de calma, meio
Homem, meio lenda, a treva, o luar,
E os sexos que se lavam no rolar da onda
Depois de terem dado um filho ao mar?

Esta é a primeira estrofe do poema XXIII, a qual percutirá um eco revelador no poema LXVIII:

Que sou eu em verdade ante mim mesmo,
Que filosofia ou sonho pode eternizar-me?
Tombam as folhas das árvores,
E vejo que elas tombam e murcham e vão no vento…

A dúvida não é, portanto, de natureza identitária (quem sou eu?), mas antes de carácter ontológico (que sou eu?). Este “o que sou” exprime igualmente uma dúvida sobre a condição do poeta, a qual aparecerá contemplada no poema XLV:

Ser é duvidar.
Se se acreditasse na vida, podíamos matá-la.
Assim, vamos esperando que a revelação surja.

Sou poeta porque duvido da poesia
E creio na vida
E no teu sexo, e na garra lasciva que lhe sabes abrir,
Sem querer.

E porque duvido e não quero a poesia,
Ela persegue-me, insinua-me a sua harmonia,
Até nos momentos mais torvos em que a esconjuro.

E vem ter comigo; através do meu destino
Diz-me que abrirá o escuro
Que há nas manhãs da minha alma
E depois foge… E eu lá vou, peregrino,
Estranha ironia,
A ver se a procuro
E encontro a calma
Em tudo isso em que não acredito — a Poesia,
A condenação de tentar o escuro
Com a luz sombria que nos irradia para além.

Poeta dos paradoxos, António de Navarro mergulhou neste livro num mar de dúvidas clássicas e essenciais: «O tempo vai fazendo estátuas invisíveis dentro do homem» (p. 71) Um sentimento de vazio atravessa a obra, deixando à passagem um rastro de perdição que é o do poeta em busca de si próprio: «Ah, mar dum raio, que me roubaste sei lá quê / E cantas com a minha voz perdida!...» (p. 75) No decorrer da busca a gente encontra uma ânsia de grandeza, a tal grandeza perdida no tempo que a poesia moderna expressou com rasgos de desencanto e de desesperança, porque tal como as folhas das árvores que tombam também o homem tomba, e sobre tudo o que tomba fica o mar, encarnação do tempo, encarnação de Deus, o mar poderoso que engole a terra enquanto o homem caminha para a morte: «E como passatempo / Façamos ao menos a poesia do que não fomos / E assim consigamos trazer até ao peito a distância que nos queimou em que não ardemos» (p. 86).
Ora, na segunda parte do livro intensifica-se a ideia do poeta como um «vagabundo perdido» de «destino errante». É também a figura do náufrago, do pescador à deriva, que emerge em versos onde o problema da morte adquire especial relevância. Num tom geralmente elegíaco, António de Navarro evita uma poesia inutilmente melancólica com momentos de introspecção onde cabem mendigos, prostitutas, pedintes, gente em conflito permanente dom a ideia de Deus, devaneio por excelência das mentes atropeladas pela percepção da morte:

O meu enterro
Deveria ser uma cousa fatigante,
Para mim, hoje,
Que creio na minha agonia
Vagamente e como cousa longínqua.

E é nesse momento que a saudade
Minha é não só maior que eu
Mas do que a eternidade.

Por isso o meu enterro me aborrece.
Era bem melhor ter nascido
Uma indefinível harmonia,
Vagueante, vaga, indefinida…

Eu sei, eu sei que a minha alma ficará na vida
Mas eu habituei-me a ter corpo,
A ter ânsias, a cuidar do fim com cuidados infinitos,
A beber e a embriagar-me, copo a copo,
— E a procurar mesmo a embriaguez no sonho dos mitos.

De modo que o meu enterro
Vai maçar-me horrorosamente,
E então se eu chegar a poeta célebre
Vão embalsamar-me com ditirambos
E necrológios catitas e, ao fim,
Morremos ambos
(Eu e eles) — e, se dessem calor, enfim!...

Este poema, evocativo de uma ironia algo negra que o autor parece ter ido colher a Mário de Sá-Carneiro, mostra quão central é o problema da morte nesta poesia. Ele coloca-se a partir de uma reflexão sobre as contradições que opõem a ideia de eternidade à brevidade da vida. O poeta é aquele que olha para a eternidade (o mar) e pressente a sua finitude, sabendo porém que ao mergulhar nessa eternidade emergirá com a experiência de uma aventura meramente ideal. É no conjunto final do livro, dedicado a Edmundo de Bettencourt, Vasco Miranda, José Régio, João Gaspar Simões e Afonso Duarte, que esta aventura se abrirá a imagens por vezes grotescas, voluntariamente patéticas, de timbre decadente, capazes de dramatizar sob aspectos invulgares a relação da poesia com o mundo. No poema Friso dos mendigos:

Pode ser que a tua teta flácida,
Por milagre da natureza,
Dê um homem
E assim estruture em carne uma verdadeira reza,
E alguma cousa se compense…

Ou:

Trazem o longe em farrapos,
E, nas guitarras,
Uma luz feita de trapos,
Que range, se esganiça e geme…

Outros fazem música com o puz
Das feridas
Como se abertas pelas garras
Da noite — e porque não das nossas vidas?...

Já no poema Fala o poeta enfim, este acusa a fraqueza e a ignomínia do homem tecendo uma espécie de programa:

E, depois, o que em mim é pureza
E canto, escarra na tua agonia
E ergue um cântico à vida
Que nasceu da cinza onde o incêndio
Incinerou todo o pobre,
E deixou a alma balouçando-se e criando harmonias
No seu fio de luz.

Parece-me errado supor a ausência de conteúdo político numa poesia assim. Ele está latente na forma mais nobre que a política pode assumir em contexto estético, ou seja, a partir de evocações que sugerem uma ética humanista que canta a vida, o corpo, a carne: «Há que meter o caminho nas veias; / Sigamos pois, cantando, para que ela / Colham da cor da flor das olaias / A cor que embriague as suas falas» (p. 140). E ao cantar a vida, aproxima-se daqueles que, perseguidos pela angústia, mergulham num mar de dúvidas acerca da sua própria condição, colocando-se, desse modo, ao lado de todos quantos mendigam e erram pelo mundo em busca de beleza. Altamente emotiva, esta poesia de um pessimismo renegado reflecte o desespero lírico do solitário assombrado pela Natureza que, a braços com Deus, se volta para dentro e tenta compreender-se porque sabe ser essa a condição essencial sem a qual o mundo não se aceita. Fala-se de psicologismo a respeito de poetas como António de Navarro, como se o psicologismo fosse, por si só, defeito. As “descontinuidades” que pontuam os seus versos desmentem o preconceito, na medida em que nos garantem estarmos mais perante a manifestação sentida de um tormento interior do que perante uma encenação artificiosa, mais ou menos filosófica, dos grandes temas trágicos. A título de exemplo, e para fechar a prosa, o poema XXX da última parte do Poema do Mar:

SOLILÓQUIO

No meu fundo não há a imensidão do nada
Mas o embalo que pede eternidade a uma sombra.
E pois, dou-me inteiro, vida, e, conturbada,
Que tu a dés a todos os clarões donde a madrugada suba…

Mesmo que eu não queira,
Que a minha covardia me negue,
Que a luz do meu íntimo se tolde de cegueira,
Dá-me plenamente ao caminho que segue
Direito ao coração do futuro.

Dá-la-ás aos vadios, aos mendigos,
À prostituta, ao criminoso,
Ao plutocrata, aos meus inimigos,
Para que eles sintam o amor e o gozo
Duma confidência humana, dum beijo,
Dum cicio, do perfume duma ideia,
Duma folha no vento, dum cântico d’água,
E até do travo doce que há na dor
Quando a vida vence o amargor da mágoa,
E se pode olhar o horizonte como a um Deus.

Esse horizonte que se firma dentro de nós
E, assim, é caminho correndo nas veias,
É, de certo modo, sol, e o sortilégio da nossa voz
Não a perder-se, mas a erguer as ideias
Até à sua essência, que é a dádiva de luz
Aos corações e às almas que a precisam,
Que precisam pão, que precisam caminho,
Que desejam trilhar os passos de Jesus,
Mas cantando, cantando a humanização do etéreo,
Cantando a sua própria alma como um ermo
Onde cada qual pôs a sua cruz
Em que o espírito veio revelar-se em tudo quanto, então,
Serviria a amplidão da consciência humana.



António de Navarro, Poema do Mar, com retrato do pintor João Hogan e carta prefácio de Jorge de Sena, Portugália Editora, Novembro de 1957.

UM POEMA DE ANTÓNIO DE NAVARRO

DÍSTICO

O mundo para mim
Na sua expressão que vale
É só poesia…

Eu já fui a raiz
Das árvores, das flores e dos sonhos,
Dos rios e dos seus silêncios;
Eu já fui o adorador dos pássaros,
Amante autêntico dos pássaros todos,
Porque fui nos seus voos delirantes e amorosos,
E me possuí no espaço
E me feri no tempo,
Me feri porque desferi voos que saíram da minha angústia
Quando fui a rosácea das chagas e das pústulas,
Ferindo-se, porque sinta em mim próprio a humanidade inteira.

Eu já fui e sou,
E sou, podeis crer,
O ébrio de todos os mares,
Bem simplesmente, porque me mendigo
Em todas as emoções e as vivo com coragem

E calo
Porque também sou o amante de todos os mendigos que levam a alma,
E a comem, e a dilaceram e a desfazem,
Mas, ai!, a justificam também
Porque, sem ela, a sua fome seria uma alcateia de lobos
Devorando-se a si próprios…

Eu sou, vida, o místico da tua poesia,
O amante que se desvenda e canta
Cheio de pena de ser tão pequeno
Que não seja a natureza inteira,
O inteiro mistério,
A inteira luz,
O sonho todo que há para sonhar enquanto houver mundo;
A harmonia impossível que, delirando,
Às vezes torno possível num lampejo
E o beijo que a vida inteira dá no inteiro homem.

Mas o que eu sou é apenas
O nada absoluto que canta para salvar-se;
O que constrói avenas
Das tíbias dum próprio sonho que anda,
Por força da sua febre e dos seus desânimos,
A crucificar-se na ânsia…

Beleza, vem beijar-me
Que me faz bem à alma,
E dá-me ao menos à natureza,
À natureza sem teorias nem dogmas,
A pensar em pássaros
E a pensar em águas que cantam…

E, se tu puderes, aprende, homem,
Alguma cousa,
Aprende com uma flor
A não ferir nada
E a aceitar tudo com resignação e grandeza
Para que tudo seja maior.

E sei que as flores não têm sentidos
Ou têm outros…

Deixa-me, deixai-me (mas quem, mas o quê?...)
Ser o litânico da terra, da terra mesmo,
Que há-de ser o meu espasmo e vir possuir-me
E que ela (poderá?) possa ter os meus sentidos
E eu possua a humanidade inteira
Desfeito e desfazendo para erguer e fazer tudo,
Humilde, apagado, silencioso,
Sentindo, todavia, os passos de todos os tempos,
Caminhando para o futuro
Sobre o meu corpo aberto como o da mãe.

Podes ter a certeza, alma minha,
Em ti, eu sou apenas o teu amante,
Um amante fadista e de naifa
Que te ama e te golpeia,
E te morde e com loucura te enlaça,
E te desfaz e te pulveriza
Para que, ao menos, do seu sortilégio
Caia uma poalha sobre as cousas…

Mais fino, eu sei,
Que a cinza mais calcinada
Que fique num forno crematório
Ou o pólen criador que fica no nectário duma flor.

Que enfim
Me abençoe e me esconjure para ser exactamente como é,
E eu, quando não altere o ritmo das cousas,
Faço-as dentro de mim…
Sobre o meu peito, nascerá uma flor e passará um homem…
Vai, alma, vai, liberto-te da tua prisão
Porque quero e desejo que contes tudo ao teu coração.
(A minha estética é feita de coração,

É feita à base de coração
O coração de todas as pombas de que se esqueceram aqui,
Tempestuoso, e surdo e sombrio,
Mas possesso de luz,
E, depois, esse embrulho,
Cosido a cordas de qualquer instrumento.
Que ele todavia, saiba
Que um dia irá parar ao entulho,
Como o tempo, e afinal os astros, as estrelas e as teorias.


António de Navarro, in Poema do Mar, Portugália, Novembro de 1957, pp. 191-194.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

SEMPRE A DESCER

Mais dia, menos dia, passou um mês sobre estas palavras:
 
Há dias, no shopping onde trabalho, um jovem deixou a namorada a sangrar depois de lhe partir o nariz com uma cabeçada. Na manhã seguinte, estavam os dois entre a trupe que todos os dias, todos os dias sem excepção, ali se reúne a beber álcool que compram no supermercado e a cravar cigarros aos lojistas em momento de pausa. Passam os dias naquilo, têm telemóveis, não sei se têm pais, não sei sequer se têm país, a vida deles é aquela rotina.
 
Subitamente, um vídeo viral (adoro a expressão) despertou as consciências adormecidas. Cambada de hipócritas. Se não são hipócritas, então são voluntariamente estúpidos. Só não vê quem não quer. Ficaram espantados com o vídeo? Foram apanhados de surpresa? Precisam da porra do vídeo para perceberem o mundo que têm à vossa volta? Mas vivem em que mundo?! Estamos a falar de situações vulgaríssimas. Alguém duvida? É preciso meter o dedo na ferida, é preciso abrir a ferida e obrigar as pessoas a olhar lá para dentro. Estamos a alimentar animais, ponto final, com a cumplicidade de todos quantos julgam tratar-se este caso de uma excepção. Não é excepção nem é regra, é vulgar. E a sua vulgaridade é medonha, porque se deve ela própria a uma sociedade que tem vindo a ser, nos seus pilares fundamentais, alvo de bullying reiterado por um Estado que se demitiu das suas principais funções. E, já agora, por quem se está nas tintas para quem manda. Esperavam o quê de uma sociedade onde as famílias são quase forçadas a desestruturarem-se, com pais e mães que praticamente não falam com os filhos, distribuídos de segunda a domingo por empregos precários, cumprindo horários rotativos com turnos que parecem saídos do séc. XIX? Esperavam o quê de uma sociedade onde os pais foram forçados a legar o seu papel de educadores numa escola esmifrada, reduzida aos mínimos, pressionada por objectivos puramente mercantilistas que olha para os alunos como numa tipografia se olha para a pasta de papel? Esperavam o quê? Esperavam talvez que de uma sociedade onde os professores foram massacrados, perdendo todo o seu estatuto social, reduzidos profissionalmente a uma cambada de imbecis que devem ser sujeitos a provas de aferição, anos a fio de tenda às costas, esperavam talvez que miúdos cuja educação se exerce sob a influência de vídeos virais fossem solidários, tolerantes, cooperativos, fraternos. Cambada de cretinos. Andam há anos a fazer como os macacos, tapam os olhos, os ouvidos, não querem ver, nem ouvir, não falam, não querem saber, mas esperam que o mundo não seja o esterco que cresce a esmo em torno desta indiferença, desta indolência, desta alienação. Pais que não falam com os filhos, pais que se fazem substituir pela oferta de gadgets, pais que não têm sequer tempo para desfrutar com os filhos (eu tenho um fim-de-semana por mês para estar com as minhas e, confesso, quando ele chega tantas e tantas vezes só me apetece estar comigo próprio!), professores feridos na sua dignidade, psicólogos no desemprego a concorrerem para caixas de supermercado e livreiros de shopping, um sistema nacional de ensino trucidado pela raiz, meticulosamente destruído nas últimas décadas em função de um mercado de trabalho onde se pretende mão de obra barata, matéria bruta para servir grandes grupos empresariais que não podem ser competitivos, eh lá, sem exercerem bullying diário sobre os seus trabalhadores, pagando pelos mínimos, exigindo os máximos, impondo objectivos com os quais ameaçam, pressionam, levam à loucura, à depressão, a estados extremos de ansiedade gente que espera levar para casa ao fim do mês o suficiente para pagar gás, água, luz, gasolina, latas de atum e o MEO que cale os filhos. Envergonhem-se da obscenidade do vosso espanto, da vossa admiração. Tão preocupados com o bullying quanto fãs do Ídolos ou do Big Brother ou de outra merda qualquer que exibe televisivamente, em directo, com a complacência de todos e a maior das impunidades, em regime light, esse bullying que tanto vos indigna. A vossa indignação é torpe, é esterco, devia envergonhar-vos a todos. É o princípio desta sociedade pantanosa em que os vossos filhos estão a crescer sem que deis sequer por isso, tão empenhados que estais em partilhar vídeos virais, em tecer comentário inconsequente, em fazer gosto no link disparatado. Esta é a sociedade que têm vindo a alimentar, e será sempre a descer, sempre a descer, sempre a descer, até que o estrondo da queda vos acorde quando for tarde demais. Sejam exigentes, porra. Acordem.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

SHOCK IMAGES

Os maços de tabaco vão passar a trazer imagens chocantes. Há anos, bati-me como pude contra a propaganda anti-IVG que fazia uso das chamadas shock images. Agora vou simplesmente continuar a fumar, mas não posso deixar de sublinhar o estado absolutamente degradante a que chegámos em termos de material preventivo. A utilização deste tipo de propaganda diz mais sobre quem a defende do que sobre o alvo a que se dirige, é rasteira, mesquinha, cede ao sensacionalismo mais ignóbil, é de uma sobranceria insuportável porque olha para o seu público alvo como uma cambada de asnos que precisam de ver a morte a entrar pelos olhos para tomarem decisões saudáveis. Devo dizer que a decisão mais saudável que até hoje tomei na vida foi não querer morrer saudável. Quando era puto, só queria viver até aos 27. Tenho 40. O que vier à rede é peixe. Sou asmático e fumo, bebo muito, gosto de Compay Segundo. Os imbecis por detrás destas campanhas não querem um mundo mais saudável. Se o quisessem, investiam na educação, no ensino, na cultura, investiam numa informação que não reduzisse o cidadão à condição de besta. Pois bem, eu sei que o fumo dos meus cigarros prejudica o mundo inteiro. O fumo dos meus cigarros mata o mundo à minha volta e obriga-me a assistir. Só espero que, em conformidade, obriguem as gasolineiras a expor fotografias sobre o mal que a exploração petrolífera traz ao mundo. E nas lojas de jóias metam imagens do trabalho nas minas e mostrem a gente rica as condições em que são extraídos os diamantes angolanos.  Não se esqueçam também de ir a todas os espaços de fast-food alertar os consumidores para os malefícios desse tipo de dietas, estampando fotografias de gente obesa aos balcões do McDonald’s e quejandos. E, já gora, em todas as garrafas de vinho metam a imagem de um bêbado a bater na mulher, nos filhos, a atropelar peregrinos. Teríamos um mundo muito mais saudável e equilibrado.

NÃO PRATICO


ANDA AQUI UM POETA ESTRANHO

Os últimos dias foram especialmente difíceis de suportar, o diário encheu-se de frases que seria incapaz de partilhar aqui. Frases pesadas como calhaus que os visitantes deste weblog não merecem ler. Sobrou-me tempo, pouco, para continuar a trabalhar num livro novo. Li na badana de um livro de Jean Meckert que era no fim de dias de trabalho extenuante que se dedicava à escrita. Nota biográfica simples, de certa maneira reconfortante. Também eu me dedico à escrita nos intervalos da precariedade, aproveitando, tanto quanto posso, para registar ideias vagas que morrerão, muito provavelmente, onde nasceram, sublinhar livros que vou lendo ou relendo, sacar vida do que resta para lá das horas de trabalho.
É num poeta que ando a redescobrir que encontro este verso: «Vida e vida e vida! — a eterna palavra que não diz nada!» E na primeira estrofe de um outro poema, estes últimos quatro versos: «é que eu acho a vida uma coisa estranha, / Alheia, uma coisa que não é minha / E me pede angústia, sonho, sangue, / E até silêncio, silêncio em carne viva». Ninguém lê hoje António de Navarro (n. 1902 – m. 1980), julgo mesmo que se contarão pelos dedos os leitores que o conhecem ou dele ouviram falar. Nem o entusiasmo de Jorge de Sena lhe valeu. Pretendo, por isso, dedicar algumas notas posteriores a este poeta. Faz parte da Antologia do Esquecimento resgatar do estômago do olvido as vozes aí digeridas. Por ora, quero apenas dar conta deste reencontro comigo próprio através de versos publicados na primeira metade do séc. XX.
Os poetas sempre escreveram muito sobre a vida, tanto quanto escrevem sobre a morte. A verdade é que a morte eles nunca a viveram senão em ideia, a morte é uma abstracção que o corpo assimila à passagem do tempo, com a perda, com a observação mais ou menos atenta da ruína, do abandono, do declínio. Mas a vida não, a vida a gente vive-a mesmo que a sintamos alheia. Também sinto muitas vezes que a minha vida não é minha, é das circunstâncias que me determinam. Noutras ocasiões arrogo-me no direito de julgá-la e digo: puta de vida. Censuro-me por não vivê-la como queria, engulo sapos, arrependo-me, vou ao encontro da tristeza com as costas pesadas de frustração. Ter consciência disto talvez me livre de uma estupidez insuportável, não me livra de um sentimento que António de Navarro exprimiu muito bem num outro poema. Cito-o na íntegra:

Anda aqui um poeta estranho
a escrever versos com o vento
na lauda duma folha, e com
uma folha nas páginas do vento…

Com o silêncio todavia
escreve a sua melhor poesia
num infinito verso
que rodopia e canta.

É ele também
que faz aquela mãe,
lívida como um círio,
embalar o seu berço
como se fizesse um verso
branquíssimo (…e hermético!)
e transforma a sua fome
em leite e amoroso delírio
poético.

A expressão delírio poético é-me especialmente cara, escrevi sobre ela num dos meus livros. Livros que vão para lado nenhum e me levam com eles a caminho desse lugar onde hei-de encontrar tantos outros como António de Navarro, cientes de que o silêncio é a melhor poesia e todo o ruído que em torno dela se levanta não passa disso mesmo: ruído. Um ruído que nos distrai das palavras e remete para o baú das relíquias termos como lauda ou círio, só para lembrar dois exemplos.
Metal Translúcido (Signo, 1967) é a antologia que li ontem. Antes dela, este poeta tinha publicado Poemas de África (1941), obra marcada pela passagem por Moçambique que levou Jorge de Sena a considerar o autor «um dos poetas mais originais da poesia contemporânea», Ave de Silêncio (1942), o extenso Poema do Mar (1957), ao qual dedicarei, em breve, outra atenção, e Águia Doída (1961), retorno aos ambientes africanos. Metal Translúcido abre com uma Ode à Manhã excepcional, um daqueles poemas que merecem, sem dúvida, aquele cuidado que costumamos ter com os melhores, mas que, neste caso, redundou numa incompreensível negligência. Deixo os primeiros versos, para espanto de quem ainda se espante com estas coisas:

Nas grandes manhãs em que as mulheres penteiam os cabelos
com gestos longínquos e de bailado…

Nas grandes manhãs
em que uma força vulcânica destrói as metafísicas
e a vida se abre em galgos que correm à desfilada…

Nas grandes manhãs
abrindo nos cravos feitos do nosso sangue…

Nas grandes manhãs
de lirismo e profecia em que um calor misterioso
e um leite igual amamentam os recém-nascidos
a cantarem já a luz que rebenta nos seus olhos
cheios de espanto e de certeza,
os galgos trarão a estepe nos olhos ávidos e longínquos…

Rebentará a manhã
nos cornos duma rena, floridos de pássaros…

E a voz ansiosa e tímida,
violenta e suave
dirá à minha alma cousas vagas mas sibilinas…

E eu cantarei
procurando meus gestos, minhas ansiedades,
minhas dúvidas, no ar e na alma dos que vêm cantando…

(…)

António de Navarro, Metal Translúcido – Antologia, Signo, Gráf. Santa Clara — Vila do Conde, 1967.