A ignorância não tem limites, pelo menos a minha. Serve
este para dar conta de uma espécie de redenção. Em 2013, a propósito de um exercício
levado a cabo pelos críticos literários do Atual (ainda existirá?), dei aqui
conta de uma estupefacção que tinha apenas uma razão de ser: desconhecimento.
Entretanto li praticamente todos os livros de Teresa Veiga. O último que li foi
História da Bela Fria (Cotovia, 1992), adquirido, pela ultrajante quantia de 1
€, numa banca de velharias. Deixo algumas frases soltas respigadas entre os nove
contos do livro, cada um melhor que o
outro:
Os passeios a Milfontes tinham-me convencido de que havia
outras maneiras de viver em que passavam por naturais, ou talvez o fossem,
coisas que para nós eram inconcebíveis. Neste aspecto a exposição ao sol, com
todas as metamorfoses que produz, fez mais pela nossa emancipação que os discursos
das feministas, de que só nos chegavam ecos distorcidos. (do conto História da
Bela Fria, p. 31)
Culpada ou inocente? A verdade é que não consigo chegar a
uma conclusão. Prefiro considerá-los ambos vítimas de uma sucessão de acasos
que os ultrapassaram. Mas vítimas que, de alguma forma, mereciam o que lhes
aconteceu. (do conto O Poeta do Campo, p. 50)
O filho tinha ainda uma particularidade só dele: era
anão, mas um anão alto, um metro e quarenta no bilhete de identidade azul,
embora já andasse pelos dezassete anos. Já o vira anteriormente mas só à
distância e para lhe mostrar que não o confundia com um garoto cumprimentara-o
com um meio sorriso bem feminino. (do conto Consequências do Processo da
Descolonização, p. 54)
Sentia-me abrasada de amor e compaixão pela humanidade e
em especial pelos cegos, os surdos, e os mudos. (do conto O Queridezas, p. 70)
Só uma coisa me espantava: que ao contrário do que era
costume tratando-se de amores ilícitos, estes fossem de vento em popa, de
vitória em vitória, sem encontrar entraves externos ou internos de qualquer
espécie. Era pena, tentava eu explicar-lhe o meu ponto de vista, pois sem uma
certa dimensão trágica, a sua história de amor não passava d euma sucessão de
quadros mais ou menos eróticos ou românticos em que os dois amantes, incansavelmente,
se esgotavam na repetição dos seus papéis para um público reduzido a eles
próprios. (do conto A Amante de Kropotchine, p. 78)
Ah, como é cruel darem-nos uma só vida, colocarem-nos a
todo o momento na iminência de ter de escolher! O ser humano é tão
contraditório! (do conto O Criado, p. 90)
Ninguém chorou no enterro. O bom povo de Vila Formosa só
lamentava que não houvesse um sobrevivente para esclarecer todos os pormenores
de um tão excitante enigma policial. (do conto O Criado, p. 109).
Minha querida, de todos os odores que a natureza criou
para nosso deleite, posso dizer-lhe que o de uma pele curtida pelo sol é o mais
sublime e excelso de todos. (do conto O Homem do Sertão, p. 136)
Nunca acreditei em bruxos e videntes mas verifico amiúde
que acertam em cheio, pelo que convém desmascará-los quanto mais cedo melhor.
(do conto Barbi, p. 139)
Por razões que não me apetece desenvolver, mas que estão
relacionadas com esta renovada tendência para dizer mal da China, apeteceu-me
rever “Broken Blossoms”. Realizado por D. W. Griffith há coisa de um século,
conta a história de um chinês que aporta em Londres com a missão de espalhar
uma mensagem budista de paz e de amor. Rapidamente capitula perante a corrupção
de uma sociedade eficazmente ilustrada na série “Peaky Blinders. É provável que
Cheng Huan se tenha cruzado com o gangue da família Gilbert, acabando viciado
no ópio e perdido de amores por uma jovem abusada pelo pai brutamontes. Acusado
de racismo por causa do filme “The Birth of a Nation”, Griffith procurou
redimir-se com “Broken Blossoms”. A generalidade das pessoas é mais ou menos como
Griffith, mas sem um milímetro do seu talento e genialidade.
Encostou junto ao muro do cemitério, deixando os quatro
piscas ligados e o motor a trabalhar. Saiu pelo lado do condutor, de máscara no
rosto e com luvas descartáveis. Retirou as luvas e guardou-as no bolso de trás
das calças, ajeitou a máscara abaixo do queixo. De frente para o muro do
cemitério, afastou ligeiramente as pernas, abriu o fecho das calças e inclinou
a cerviz para trás enquanto desenhava estalactites com um jacto de urina.
Respirou fundo como que insuflando os pulmões com o ar de uma certa normalidade.
Sacudiu o instrumento antes de o recolher. Voltou a calçar as luvas e a tapar o
rosto com a máscara, regressou ao carro e retomou a marcha. Presumo que tão
satisfeito por aquele pouco de normalidade quão aliviado da bexiga.
Pessoas que estão muito preocupadas com o futuro,
deixem-me lembrar-vos uma coisa: Adão e Eva também estavam. Entretanto, há quem
julgue que os velhinhos e os doentinhos e os fraquinhos não se importam de dar
a vida pela saúde da economia. É a eugenia ao serviço dos mercados. Talvez por
isso alguns países tenham optado por políticas de isolamento selectivas,
protegendo condomínios fechados e deixando os bairros pobres entregues à sua
sorte. Um dos aspectos mais interessantes em alguns discursos que vamos ouvindo
tem precisamente que ver com esta concepção maniqueísta do mundo, a qual tende
a incutir nas pessoas a necessidade de optarem por uma de duas coisas: saúde
pública ou economia? O vírus até pode ser um bem precioso se só matar velhos e
gente estragada, o que aliviaria sistemas de protecção social sangrados por uma
esperança média de via cada vez maior. Há todo um novo mundo de oportunidades à
nossa espera. Só não entendo porque estes dilemas não surgem quando países
decidem invadir outros países, fazendo exacta e meticulosamente o mesmo que o
vírus agora ameaça fazer sem olhar a quem. Não, lamento. Não é a economia que
se pretende salvaguardar, é o nível de vida das classes favorecidas. Só falta
dizerem com todas as letras que isto é um problema de sociedades envelhecidas e
debilitadas no sistema imunitário, pelo consumo excessivo de álcool, tabaco e
benzodiazepinas. Se calhar já disseram e eu não ouvi.
Adenda: este artigo no The New York Times inventaria de
modo cirúrgico as mentiras germinadas na boca suja de Donald Trump. São às
dúzias. Entretanto, segundo os números da Universidade de Medicina Johns Hopkins, os USA são já o país com mais casos de infecção confirmados: 104837. O
número de mortes não pára de crescer: 1711 ao dia de hoje.
Pensei que talvez fosse boa ideia contemplar o Atlântico
depois de tantos dias fechados em casa. Temendo desrespeitar as regras do
estado de emergência, ligámos para a PSP a indagar sobre direitos no usufruto de
miradouros e belvederes. O senhor agente deve ter-nos julgado tontos, rematando
prontamente a conversa com uma nega tonitruante. Somos um ajuntamento. Ainda pensei
fintar a classificação distribuindo o mal por freguesias, que é como quem diz
dois em cada viatura, mas logo a consciência pesou tanto sobre os ombros que a
cervical voltou a resmungar. A quem mais ouvi dizer que este país precisava de
um Salazar em cada esquina ouço agora protestos e divirto-me com as desculpas
ensaiadas para fintar os mandamentos da autoridade. Acabámos a ver passar
navios da varanda cá de casa. Não posso dizer que se esteja mal, apesar de ao
fim de tantos dias confinados o ajuntamento começar a parecer uma multidão.
Cabe a cada um a missão de tornar o espaço amplo respeitando os tempos do outro,
imprimindo ritmos ao dia que não os desvirtuem da normalidade outrora contestada.
«Se tivesse que viver um filme, ao menos que fosse um musical», desabafa a Ana,
antes de eu enfiar os auscultadores nos ouvidos para escutar repetidamente a “Polonesa
Heróica” de Chopin. Arruinada a pouca reputação que me restava com parvoíces nas
redes sociais, socorro-me de um pianista polaco para recuperar alguma consideração.
Leio na Wikipédia, inescrutável fonte de erudição, que o tal de Chopin morreu
rodeado de amigos. Eu também estou rodeado de amigos, uns espalhados ao longo
das paredes de casa, outros nas estantes atoladas de livros, e ainda aqueles
que sem se fazerem notar neste modo material de estar vão dando conta de si
rumorejando o desejo de um reencontro. Quando isto passar, dizem. E dentro de
mim despontam personagens de quando e como isto era antes de ter começado a
ser, o psicólogo de Arnaldo aconselhando-lhe vida própria, que o trabalho não
podia substituir a vida, era preciso espairecer, estirar as pernas sobre a relva
dos parques, desfrutar do convívio numa esplanada em tarde soalheira. E Arnaldo
a olhar para a lista interminável de números no telemóvel sem encontrar um a quem
achasse valer a pena ligar, hesitando, adiando, protelando para épocas de
folguedo um simples “como tens passado?”. E o psicólogo a pensar na falta que
lhe faz Arnaldo. Não se está mal na varanda, a espreitar a roupa dos vizinhos
nos estendais e a contar gaivotas no céu. Há dias pareceu-me ter avistado um
milhafre a pairar nas alturas, enquanto cá em baixo um láparo se ocultava entre
as piteiras. Barrico-me na varanda como um gato a mirar melros, pintassilgos, pardais,
pombos, rolas… Bem queria encontrar lesmas, Rita, mas para tanto basto eu.
Carolina acha o máximo esta coisa da quórentena. Nunca se
sentiu tão livre como agora, a fingir que trabalha de casa, com o consorte por
perto, alapado ao smartphone, e os petizes num vaivém de jogos, partidas e
piadas secas, que é uma graça só de vê-los. Por ela, ficava de quórentena o
resto da vida. Está desejosa que chegue o Verão, o areal da Comporta todo seu.
E nem quer imaginar como será no Natal, poder correr a baixa de alto a baixo
sem ser importunada pelas multidões. O El Corte Inglés deserto é um sonho que
nunca imaginou ver realizado.
— Querido, estava aqui a pensar que este é o momento ideal para levarmos as
crianças à Disneyland. Não concorda?
«Baixas a bola», atira ela ao homem (dele não sabemos se família afastada ou assim, ou alguém a mais neste momento, apenas que tem mais idade que os outros), no intervalo em que pára os braços, os levanta por entre o nevoeiro, interrompendo seu movimento de lavrar a maré. Faz-lhe companhia, e ajuda com outro braço à mão num ancinho, a criança para cá e lá a afastar o lodo no chão, à procura do que andarão eles à procura. A maré, esta, atrasada em ponto até ao bater na espessa cortina presa ao céu.
O homem afasta-se, por sua vez, até ao limite da sua voz; para que dele se continue a ouvir «amanhã digo a ele que já não lhe voltas a falar, amanhã digo a ele», por cima do musgo e das pedras negras, este conjunto embutido na matéria plástica a maior parte do tempo coberta por água.
Aqui os barcos pousados, presos por cordas a cavilhas grossas, cravadas no mesmo que já vimos.
A canção das gaivotas, pontuando os silêncios entre eles, a virem certeiras a romper o tom cinzento no ar; pousando depois nas poças de água deixada para trás pelo rio, caminhando nelas, a mergulharem o bico na sua pouca profundidade.
São estas gaivotas que dão princípio à estória; me alertando com a sua presença à margem do que acontece, me imobilizando, me tirando do caminho onde ia, me levando a escrever por cima da tarde em que estamos todos presentes.
«Cala a boca, caralho!», diz por fim a mulher.
Luís Chacho, in Garrotilho, Companhia das Ilhas, Fevereiro de 2020, p. 44.
Tenho pensado muito nas pessoas a quem emprestei livros,
CDs e DVDs que nunca me foram devolvidos. Confesso, Senhor, que não têm sido
bons pensamentos.
Gina esperou toda a noite que um carro parasse. Não viu
vivalma. Pela alvorada, Arnaldo, o voyeurista, passou montado numa trotineta.
Gina acenou-lhe, mas ele seguiu na mecha. Recolheu-se na varanda a mirar a
lingerie desdobrada nos estendais das vizinhas.
Há dias revimos em família “Os Condenados de Shawshank”,
pareceu-me apropriado para estes tempos de quarentena. Depois sonhei que também
eu atravessava quinhentos metros de esgoto a caminho da liberdade, dando-me
conta de que o vazadouro da minha imolação dá pelo nome de redes sociais. A
diferença está na ausência de cheiro, e nos anéis perdidos que vamos encontrando
pelo caminho. Pergunto-me se não seria preferível uma pneumonia transmissível
por contacto cibernético. Um vírus que, muito simplesmente, nos confinasse ao
silêncio absoluto, um pouco como naquele filme com a Sandra Bullock de olhos
vendados. Exagero, como se perceberá. A ambivalência é o rosto desta crise. No
sábado, por exemplo, apeteceu-me caminhar. Assim que meti os pés na rua
acorreu-me a necessidade de reabastecimento de um bem essencial: vinho. Fui
directo ao supermercado e aproveitei para, além de vinho, trazer peixe e
batatas e gelado para as miúdas. Estranhei com sincero assombro a organização,
o método, o respeito, a observância de um povo tantas vezes acusado de laxismo.
Por outro lado, lembrei-me que aguentámos cinquenta anos de quarentena no
século passado. Nada de novo, portanto. Acontece que agora o respeitinho é para
bem de todos. E isto faz de mim, contra minha vontade, um predador de ternura.
Sempre que saio à rua apetece-me abraçar toda a gente e inundar as pessoas com beijos, até a empregada do supermercado que me vendeu peixe podre. Lá dei o meu
passeio a pé, em isolamento para não contaminar ninguém com a minha
ambivalência. E fui pensando em coisas parvas, como num Index Musicorum
Prohibitorum, enquanto assobiava o “Encosta-te a Mim” do Jorge Palma. Chegado a
casa, desinfectei o corpo com uma ensaboadela geral. O dia da poesia foi o mais
difícil de todos. Não por ter sido da poesia, mas por causa de uma publicação
que as minhas irmãs se lembraram de fazer. Dou com o meu pai e a minha mãe numa
fotografia, rodeados da equipa com que há 37 anos nos governam a partir de uma
loja, na vetusta mas cada vez mais desértica e abandonada rua das montras de
Rio Maior, onde se vendem peúgas, calças, cuecas, camisas, e tudo o que demais
precisamos para cobrir um corpo. Na “República” de Platão eram três as
necessidades básicas: comida, abrigo e roupa. Dois mil e quinhentos anos depois
mantém-se a comida no topo da pirâmide. Farmácias e bancos encarregar-se-ão do
resto. Perdoem-me que discorde. Necessidade mais básica do que os meus pais não
tenho. Desconfio que não seja por outra que agora quedamos fechados em casa,
contribuindo, paradoxalmente, para um céu menos poluído e, talvez, um futuro
mais equilibrado. Apesar da tormenta dos mercados.
(imagens de um mercado chinês ali para os lados da Benedita)
Dou com esta frase num ensaio de George Steiner: «Nenhuma
boa acção fica impune». Trata-se de uma citação de Oscar Wilde, a quem o autor
de “A Poesia do Pensamento” chama «astuto diagnosticador». Confrontados com uma
pandemia, percebemos melhor quão pertinente é tal astúcia. Não é a primeira das
nossas vidas, ao contrário do que por aí se propaga. Aliás, não exagerarei se
considerar a desmemória uma pandemia igualmente nefasta. E aliada a esta uma
total indiferença para com o mal dos outros, como se não fosse também nosso. Dostoiévski
dizia que somos todos culpados de tudo e de todos. Eu não iria tão longe. Não
esqueçamos, porém, a descoberta do HIV na década de 80 do século passado. Já
neste século, o SARS, a febre suína, o MERS, o ébola.
Como sou completamente ignorante em matéria de pandemias,
procuro informar-me. As contingências a isso obrigam. Podia adoptar uma atitude
demagógica e desatar a disparar em todas as direcções, lembrando que em tempos
nos servimos de armas como a varíola para limpar o sarampo aos ameríndios. Ou
sublinhando como, na actualidade, as pandemias da obesidade e do consumismo
desenfreados patrocinam a miséria e a desgraça de milhões de seres humanos
espalhados pelo mundo, dos quais os malogrados náufragos do mediterrâneo são pálida amostra. Não o farei, por respeito aos desafortunados.
À medida que se intensifica a presença do Covid-19 na
pele do mundo civilizado, o tal das culturas ditas superiores, vamos ouvindo também
cada vez mais insistentemente a expressão “vírus chinês”. É uma mania muito
nossa, que vem de tenra idade, esta de apontar aos outros quanto de mau há entre
nós, fazendo como Pilatos fez ou, pior, como o racismo e a xenofobia mandam fazer. A igreja pede que confessemos os pecados, que reconheçamos o mal. É precisamente esse reconhecimento o que nos aproxima de Deus, mas os fiéis e
crentes e devotos da igreja pouco sabem destas coisas. Ao contrário do que Deus lhes ordenou, passam a vida a acusar os outros, apontam o dedo,
seguem o péssimo exemplo de alguns dos seus profetas mais populares (ou
deverei dizer populistas?). Irão todos parar ao inferno, se Deus quiser.
De onde veio, então, a porra do vírus? Não por acaso
citarei um estudo de cientistas norte-americanos divulgado por um jornal
insuspeito de simpatias esquerdistas, o qual é claro em três conclusões: 1. não
se trata de um vírus gerado em laboratório, tipo arma química com a qual os
chineses estão a atacar o mundo; 2. ainda que possamos concluir ter origem no
contacto de seres humanos com animais, não existem certezas quanto a que tipo
de contactos foram esses; 3. a haver um culpado na origem do vírus, esse
culpado encontra-se em comportamentos humanos que não estão confinados a uma
área geográfica: destruição de habitats naturais, aumento do contacto de seres humanos
com animais, grande fluxo de seres humanos a nível global.
Talvez seja conveniente citar uma das cientistas do tal
estudo: «Não é bom transformar uma floresta em agricultura sem entender o
impacto que tem no clima, na captura de carbono, no surgimento de doenças
e no risco de inundações (…). Não se pode fazer isto isoladamente
sem pensar no efeito que terá nos humanos». Eis algo de que nos devemos lembrar
quando voltarmos a discutir a necessidade de proteger as florestas da avidez de
madeireiros e de agricultores, se a pandemia da desmemória ou as premonições da CIA e os vaticínios da pitonisa Sylvia Browne não continuarem a
afectar-nos o bom senso.
Num mundo globalizado é preciso ter em conta, mais do que
nunca, que o bater de asas de uma borboleta num determinado local pode causar
um tornado na parte oposta do mundo. O que está em causa são comportamentos
humanos globais, não exclusivamente locais. Podemos julgar que certos hábitos
alimentares potenciam o aparecimento de certas pestes, mas com que moral
podemos indignar-nos com os mercados de animais na China sem que nos indignemos
igualmente com touradas, corridas de galgos e outros espectáculos de gladiadores
modernos que vão do narcotráfico à pornografia infantil, passando por diversos
níveis de exploração num mercado de trabalho que cheira a sangue? Que virtudes têm as turbovacas alemãs que os morcegos chineses não têm? O massacre das baleias e das focas nos países nórdicos é menos vicioso que o massacre de ursos na China? Quem sabe,
por exemplo, o que se passa com os trabalhadores que no Qatar estão a construir
estádios luxuosíssimos para que possamos entreter-nos com mais um mundial de
futebol em 2022? Isto interessa-nos, enquanto parte integrante do problema, ou
vamos continuar a fingir que não vemos, varrendo mais uma vez para o lado os
males do mundo como se não fossem males de todos nós?
Não, o vírus não é chinês, o vírus não é estrangeiro,
assim como a gripe suína detectada no México em 2009 não era mexicana ou a SIDA
descoberta nos USA em 1981 não era o vírus americano. É também Steiner quem nos
ensina: «A corrupção é o sopro da política, do mercado. O que não está à venda?
A procura do lucro saqueia o que ainda resta das nossas florestas, vandaliza
oceanos, polui a atmosfera. Nas metrópoles do capitalismo urbano, mas também na
misère das favelas, nunca o apelo do dinheiro foi tão descarado». Uma palavra para o ano: açambarcamento.
O que esta pandemia traz de novo é uma dicotomia
alarmante: protegemos vidas ou salvamos a economia? Mais paradoxal, ou até
irónico, é estarmos empenhados em proteger, sobretudo, idosos e pessoas débeis
e vulneráveis pouco depois de termos discutido a eutanásia. E não é tão
estranho que muitos daqueles que mais se opunham/opõem à eutanásia sejam os que
mais preocupações manifestam agora com a economia e os mercados? Pois bem, decidam-se: preferem salvar velhinhos ou a economia? Respondam com todas as letras, por favor: velhos ou mercados? As dúvidas dão azo a todo o
tipo de teorias conspirativas, sendo frequente a de que tudo não passa de um
estratagema chinês para assaltar a economia mundial ou para controlo
demográfico interno. Podemos até supor ter-se tratado de uma arma para encafuar
manifestantes em casa, atenuando protestos e contestações ao regime. Sairá cara
a táctica. A interdependência económica desmente tais teorias. Que
vantagem terá uma economia pujante como a chinesa em se debilitar e, sobretudo, dar cabo das economias dos seus principais clientes? Que interesse terá o regime chinês em
matar velhinhos para, ao mesmo tempo, se empenhar tremendamente na sua
protecção, tratamento, cura? Outra acusação curiosíssima é a de que a China
sabia da epidemia desde Novembro e nada disse. Vejamos: já toda a gente sabia o
que se passava na China e, pelo mundo ocidental, falava-se de invenção dos
media, histeria, medo exagerado. O discurso era de absoluta negação da
gravidade do problema, com Boris a sugerir para Inglaterra que toda a gente
ficasse infectada de modo a atingir-se a imunidade de grupo, Jair a acusar os
jornalistas de manipularem os eleitores com fake news, Trump a garantir que
dava conta do recado:
Face a isto, só faz sentido denunciar um putativo encobrimento
das autoridades chinesas se fizermos acompanhar essa denúncia de uma evidência:
muito depois de não ser possível encobrir mais (a OMS foi informada a 31 de Dezembro, datando de 17 de Novembro o primeiro caso detectado de um novo coronavírus), muitos daqueles que sabiam do que se
estava a passar encolheram os ombros, assobiaram para o lado e disseram que não
era nada com eles. A primeira declaração de Donald Trump acerca do tema data de Janeiro, como se pode comprovar no vídeo acima. Registe-se como foi esse "vírus americano" lidando com o assunto. Entretanto, o rumo noticioso é outro: China oferece milhões
de máscaras e kits de protecção, envia equipas de contenção para Itália
(criticando, aliás, a leveza das restrições impostas); Cuba envia para Itália
médicos que combateram o ébola; Rússia envia 100 médicos militares
especialistas em epidemia e virologia… Deve ser a isto que chamam ofensiva
socialista. Fica claro quem tem contribuído para mitigar o
problema e quem, com irresponsabilidade, negligência, laxismo e leviandade
apenas contribui para o agravar. Mais de 12000 mortos no mundo talvez não sejam
um problema. Como diria Bolsonaro, são velhinhos e pessoas com outras doenças.
O corona foi o último a chegar.
Nota: As referência a George Steiner provêm do livro Fragmentos
(Um Pouco Queimados), tradução de Ana Matoso, Relógio D’Água, Maio de 2016.
Uma pandemia de “mulheres sexy que precisam de sexo”
atacou a página de Facebook de Arnaldo. Não confirmava nem eliminava os
pedidos, mantinha-os pendentes como quem dá milho às ilusões.
Agora nem que me paguem. — dizia de si para si, carregando
no r do advérbio enquanto ruminava um palito encostado ao canto da boa.
Fazia a sua quarentena profiláctica recolhendo-se no WhatsApp,
participando em orgias de gifs e swings de dirty emojis.
O dia amanheceu brumoso, com uma chuva tímida a inspirar sensações de higiene que as páginas dos jornais se encarregam de
desmentir. A incúria de alguns líderes mundiais assume contornos de barbárie. O
mais provável é virem a passar incólumes por entre os pingos, sem que algum dia
sejam julgados pela irresponsabilidade, pela negligência, até pelos gestos
mafiosos. Não me eximirei de os acusar, mesmo
reconhecendo o efeito anódino das minhas acusações. É uma questão de salubridade mental. No
topo da inconsciência encontramos alguém cujo nome se torna difícil de pronunciar
sem que fiquemos com uma sensação de imundície na garganta. Insistindo na ideia
peregrina de um “vírus Chinês”, Donald ziguezagueia como mosca em
torno de um monte de trampa. Tudo podemos esperar deste gangster, desde o
negacionismo inicial ao aliciamento de um laboratório farmacêutico alemão,
passando pela injecção de teorias conspirativas acerca de putativos ataques à
economia norte-americana. Concentro-me na imagem de uma rola que, impávida e serenamente, se mantém quase oculta na ramada de um velho eucalipto. Temos muito a
aprender com os animais, mais ainda com aqueles que conseguem escapar aos
garrotes da domesticação. Invejo a serenidade da rola pousada no ramo, tento
adoptar o mesmo sossego nos meus gestos quotidianos. Não abdico, porém, de
pensar naqueles que no terreno se esforçam para garantir uma certa normalidade e
nos levam a sentir vergonha da raiva com que censuramos a modorra e o tédio dos
dias comuns. Uma distância enorme separa os que mais não têm senão o seu
próprio umbigo daqueles que se mantêm ligados ao mundo por um cordão umbilical
de partilha e de solidariedade. Não sendo os tempos propícios a clivagens, talvez
de algum modo possam favorecer esta ideia: foi num tempo em que nos exigiram distância
que mais próximos uns dos outros estivemos.
Foi um dia do pai atípico. Telefonei ao meu pela manhã, dei
por mim a reconfortá-lo com o mal dos outros. Podia ser pior, se não tivéssemos
um SNS que nos acode e um país que só para cegos de espírito pode ser chamado
de terceiro-mundista. Calhou-nos agora primeiro, a "nós" que nos autoproclamamos
de civilizados e dotados de culturas superiores. Dado a memória ser curta e a
vista alcançar ainda menos, esquecemo-nos de que lá por fora o ébola e a cólera
são ameaças permanentes. Temo pelos sem-abrigo, sem lar onde se recolherem,
pelo viciado, sem carros para arrumar que garantam a dose diária, temo por quem
não consiga permanecer em casa sem ver os pés a enterrarem-se num pântano de
dívidas. Somos um país de gente a viver à jorna, sem pé-de-meia e solas rotas.
Temo por esses para quem o desespero é estar em casa. Nós seremos o persa da vizinha, a saltar de varanda em varanda.
Ou o gato malhado do prédio defronte, estirado no umbral da janela a observar
os pombos que aterram no parque vazio para depenicarem migalhas. Talvez a idade me tenha incutido um optimismo desmesurado, mas de que me vale não sê-lo nestes tempos em que se torna ainda
mais evidente o quão frágeis, débeis e perecíveis somos? Varridas para debaixo
do tapete as guerrinhas inúteis, ridicularizadas as vaidades mesquinhas,
resta-nos irmos valendo uns aos outros na esperança de que alguém nos valha. Concentro-me na mensagem que a Matilde me deixou
no Facebook, na fotografia onde nos abraçamos fortemente com a Nazaré em pano
de fundo. Foco-me no desenho que a Beatriz de nós fez, no cuidado que teve a
pintar uma moldura velha onde surgimos rejuvenescidos pelo carvão do seu traço.
Tento convencer-me de que a vida é simples como um destes gestos permite
apurar. Não preciso tentar muito, estou convencido.
Mantemos os despertadores programados na hora a que é costume
levantarmo-nos, conferindo também desse modo alguma normalidade aos dias. Hoje
tomei o pequeno-almoço na varanda, a observar os funcionários municipais que aparavam
bermas e canteiros. Do lado direito do prédio há um terreno baldio que se
conserva verdejante desde que para aqui viemos viver há vinte anos. Lembro-me
de nos terem anunciado, à época, a construção de uma igreja nas imediações. Felizmente,
nunca abriram os caboucos da malfadada igreja e os eucaliptos puderam crescer
numa convivência anárquica com pinheiros e moitas. Algumas pessoas seguem a
passo estugado com sacos de compras, vigiadas por bandos de rolas dissimuladas
nos troncos das árvores, pombos aparentemente desorientados e o voo ameaçador
das gaivotas. As gaivotas têm vindo a invadir paulatinamente a cidade, alguém
terá que lhes tratar da saúde mais tarde ou mais cedo. Sou surpreendido por uma
criatura arisca a cruzar o parque do bairro. Primeiro parece-me uma ratazana,
depois suponho tratar-se de um gato, concluo por fim ser um coelho. Vejo-o
esgueirar-se por entre os carros estacionados, para depois desaparecer entre as
plantas do único canteiro que por aqui cumpre as funções para as quais foi
concebido. É um canteiro de cactos, rosmaninho, fetos e hortênsias, homenagem involuntária
à multiculturalidade dispersa pelos prédios do bairro. Quedo um bom quarto de
hora a olhar para o canteiro, na esperança de que o coelho salte dentre as plantas
e se escape para o terreno baldio do lado direito. Suponho que ficaria mais
protegido no matagal que medra aos pés dos eucaliptos e dos pinheiros. Não
salta. Cá de cima, na varanda, parecia-me mais pequeno e indefeso do que
porventura será. Talvez lá de baixo ele me tenha julgado maior e mais seguro do
que na realidade sou.
Saí para comprar tabaco. As lojas do bairro estão todas
encerradas, à excepção de dois cafés, da mercearia e do restaurante de kebab. Caldas
cumpre o cenário deprimente a que estamos confinados. Entrei na mercearia do
bairro e abasteci-me de alho francês e pimentos, polpa de tomate, bananas. O
pão estava esgotado. Cruzei-me com uma pessoa conhecida, não nos
cumprimentámos. No café onde compro tabaco estavam três clientes em mesas
consideravelmente afastadas umas das outras, um deles usava máscara. A
empregada tinha luvas. Meti-me no carro para desenferrujar o motor, dei uma
volta pelo quarteirão. Na rádio passava “O Primeiro Dia”, do Sérgio Godinho.
Deve ter sido a primeira vez que não gostei de ouvir aquele refrão. Isto parece
uma cidade fantasma. No E.Lecrec havia fila à entrada, no Pingo Doce também,
mais curta. Estacionei e esperei pela minha vez na fila, o segurança esticava
as luvas, ajeitava a máscara, borrifava o ar com gestos convictos e aparentemente
eficazes. Pareceu-me realizado e com espírito de missão. Ninguém ousou
faltar-lhe ao respeito, subiu alguns degraus no seu estatuto de mero segurança
de hipermercado. Parecia um daqueles polícias que vemos em séries do tipo CSI.
A senhora do pão foi muito simpática, acabei por lhe comprar também brioches e
pampilhos. Os melhores pampilhos são os do meu amigo Paulo, que está em
Curitiba e vai ser pai pela segunda vez. Que lhe corra tudo bem. Regressei ao
carro e devolvi-me ao lar, onde agora estou sentado a escrever enquanto escuto
os meus vizinhos ciganos a jogar à malha. Nunca o som daqueles ferros a baterem
no chão cimentado me soou tão melódico.
Num belíssimo
livro (o adjectivo refere-se também ao objecto em si) intitulado “O Que Vemos Quando Lemos”, o designer norte-americano Peter Mendelsund apoia-se em clássicos
da literatura universal para ensaiar uma fenomenologia da leitura. O modo como
imaginamos as personagens, atribuindo-lhes um corpo físico, um rosto,
materializando-as, ainda que elas não passem de abstracções, constrói-se como
um puzzle a partir dos elementos sugeridos pelo autor. A questão, como tive
oportunidade de referir noutro texto, é: conseguimos gerar na nossa mente elos
de proximidade com uma personagem que tornem possível descrevê-la fisicamente?
Se pedir a alguém que descreva o aspecto físico de Ana Karenina que resultados
obterei? Dois leitores diferentes do romance de Tolstói descreveriam da mesma
maneira a personagem por ele concebida? Sucede que uma mesma personagem pode
assumir diferentes rostos ao longo de uma narrativa, sucede até que ela possa
não ter rosto e se nos apresente como um espectro indefinível. Há uma dimensão monstruosa
na literatura que corresponde, precisamente, a esta volubilidade da discrição, já
que entre a personagem e a palavra estabelece-se uma relação da mesma natureza
daquela que se estabelece entre o objecto físico e a sua sombra. O leitor como
que vive no interior da caverna, assistindo a uma procissão de projecções que
lhe oferecem um retrato sombrio e monstruoso, no sentido abstracto, da
realidade. Interpretar é fazer puzzles, juntar peças, ter a esperança de que
elas encaixem umas nas outras para que no final possamos ficar com uma imagem do
que foi contado.
Rita Taborda
Duarte (n. 1973) refere-se ao livro de Mendelsund no final do seu livro de
poemas “As Orelhas de Karenin seguido de 31 resumos & uma paráfrase”
(Abysmo, Setembro de 2019), mas não era sequer necessário chegarmos aí para
pensarmos logo em “O Que Vemos Quando Lemos”. A epígrafe pedida de empréstimo a
Karenina coloca-nos perante esse desafio maior de toda a literatura, que é o de
tentarmos perceber o que sente uma personagem a partir daquilo que nos é dito
que ela vê. Para o caso, Karenina vê as orelhas do marido quando desce do
comboio em Petersburgo. E o que vê não se resume às cartilagens das orelhas,
devendo acrescentar-se ao pormenor o sentimento de que algo mudou no modo como
ela olha para o marido. O leitor vê os sentimentos da personagem projectados na forma de ela olhar para o marido. No livro de Rita Taborda Duarte estas transmutações de
sentido e de significado operam-se em diferentes campos, dada a
complexidade da relação operada entre os poemas e os desenhos de Pedro Proença.
O diálogo entre o texto poético e a imagem não tem, neste caso, a simplicidade
de um diálogo entre texto e ilustração, pois a relação que aqui encontramos é
de um certo distanciamento, não se perdendo nem esgotando em cada um dos
domínios uma identidade própria com a sua autonomia intrínseca.
Acrescente-se, a
esta relação entre poema e desenho, aquela que os próprios poemas demonstram,
abertamente, com as suas fontes, por assim dizer, ou estímulos, os quais se
declaram nos resumos que acompanham cada uma das seis secções do livro: Eucaristia,
E Fez-se Cabra, E Fez-se Lume, Orbes, Recolectores, As Orelhas de Karenin. Pode-se
resumir um poema como quem resume uma narrativa? Assim parece, embora o tom
provocatório do exercício seja assumido. Nessas fontes de escrita encontramos
vários autores, entre os quais se destaca Herberto Helder, mas também vozes
comuns, quotidianas, misturadas com clássicos da literatura, figuras
mitológicas, bíblicas e até um diálogo proveniente de um western de Sergio
Leone. O rol de referências é de vasto alcance, de algum modo reorganizado,
ou pelo menos sintetizado, no poema-paráfrase final que foi erigido a partir de
todos os poemas precedentes.
A própria
organização deste livro respeita, assim, um lado lúdico e experimental que, em
termos temáticos, não deixa de surpreender pelo lastro de reflexões que vão
deixando acerca da própria natureza do poema. Devemos, não obstante, esclarecer
que parte do conteúdo deste livro surge de uma recolha de textos disseminados por
publicações anteriores, o que de algum modo contribui para a dispersão temática
de “As Orelhas de Karenin”. Não julgo que isso afecte a consistência de um
livro que vive, precisamente, do modo como procura encontrar unidade nos
fragmentos espalhados sobre o tampo da mesa. Livro-puzzle, se assim podemos
dizer, ou jogo de xadrez, como a certa altura se sugere num dos poemas:
RECOLHER 6
Bem vês,
o mundo é este tabuleiro de xadrez
e calhou-me ser rei preto
entre rainhas brancas e peões.
Não é que me preferisse rainha:
bastar-me-ia
a sorte modesta de um peão bastardo
errando adiante
não sabendo sequer como voltar atrás.
Nunca me quiseste
rei preto e acossado
avançando fugidio e recuando.
Deus não joga xadrez,
aborrecem-no os ardis de me armadilhar
com roques, xeques e emboscadas;
prefere jogar aos dardos nos momentos
mortos da eternidade.
Legou o xadrez aos homens e
fê-los todos rainhas, muito poucos peões.
À mulher preferiu-a
frígida e aflita, mulher-rei-preto em casa branca
refém no seu passo ínfimo de cabra,
pequeníssimo mundo entre quadrados
ilha de liberdade a toda a volta:
oito poisos armadilhados
em redor.
Rita Taborda Duarte, in As Orelhas de Karenin, com desenhos
de Pedro Proença, Abysmo, Setembro de 2019, p. 106.
Nos filmes catástrofe, e não só, há sempre aquela
personagem contraproducente que se julga mais esperto do que os restantes,
passa a vida a dizer mal e não contribui positivamente para absolutamente nada.
É uma personagem triste e amedrontada, fecha-se num pânico interior que
sobressai em gestos esbaforidos, frases precipitadas, julgamentos apressados.
Fico sempre na ânsia, quando vejo esses filmes, que o herói pare por um segundo
para dedicar à tal personagem a atenção que merece, com um par de bofetadas na
tromba até que se cale de uma vez por todas.
O meu braço obedece docilmente às minhas ordens. É isto um motivo de surpresa? Nunca o apanhei em falta.
Tudo me responde. E ninguém compreende que é a este absoluto e infalível controlo sobre mim mesma que eu chamo a minha prisão, a minha cadeia de ferro.
Frente à janela, uma vez enxaguados os olhos e a fronte, encaro o mundo, reconheço pela enésima vez que nada daquilo que depende de um movimento voluntário da minha parte me está vedado, e que isso cobre quase tudo. E é isso que me desencoraja. Como é asfixiante, não depender senão de mim! Os pronomes na primeira pessoa sucedem-se como missangas de um colar, e cada um deles golpeia-me na nuca e faz-me suar entre os dedos.
Quanto basta para paralisar um homem.
Como se só a abdicação fosse moralmente viável, e contudo o pé esquerdo ainda cede ao impulso de se colocar à frente do pé direito.
A esta época associarei mais tarde a muito nítida consciência do gesto e do olhar como entidades separadas, mas também aguerridamente solidárias.
Os meus olhos que vêem e o meu braço que se move. Pode-se, afinal, fazer alguma coisa a partir disto?
Alexandre Andrade, in Cinco Contos Sobre Fracasso e Sucesso, Má Criação, 2005, pp. 32-33.
A soberana virtude de transigir incrementa o fugir de mui nobres ideais. Dos outros e, por malvadez da incógnita, também do próprio transigente.
O Joãozinho, por exemplo, era um novelista prometedor. Para atingir rapidamente a celebridade, o Joãozinho aprendeu a transigência sistemática. O Joãozinho era esperto e português.
Um dia o editor disse-lhe:
— Joãozinho, serás um génio se respeitares os eclesiásticos.
O Joãozinho escreveu páginas repletas de respeito pelos eclesiásticos.
— Joãozinho, isto não chega! Serás um génio se respeitares os militares.
O Joãozinho fez ombro-caneta e ritmou a prosa a roque de caixa.
— Joãozinho, os tempos mudaram! Serás um génio se respeitares o eurocomunismo.
O Joãozinho mergulho na bacia do Mediterrâneo e emergiu com algumas ânforas estilísticas atracadas ao membro.
— Agora, Joãozinho, cala a tua concubina.
A concubina do Joãozinho tinha a memória cheia de trapaças políticas.
— Como posso eu calar uma mulher? — perguntou o Joãozinho, transpirando.
— Joãozinho, promove-a a escritora. Enquanto ela escrever, não fala.
Assim se fez. De tanto puxar pela cabeça, a concubina do Joãozinho perdeu a memória. O Joãozinho, contentíssimo, foi nomeado secretário de Estado do ferro velho.
— Joãozinho — disse o Grande Chefe —, vais transigir mais uma vez. Isto é, cala-te!
— Mas, Excelência, eu sou um escritor...
— Eras! — rugiu a Excelência — Eu também fui um homem e agora sou apenas um porco. Todos temos de nos sacrificar pelo nosso povo.
— Mas os comunistas, Excelência, podem falar. Os fascistas, Excelência, podem falar. A anarquia, Excelência, não pára de gritar. A ditadura, Excelência, não pára de ameaçar...
— Por isso mesmo, Joãozinho, tu tens de estar calado. O teu silêncio garante a promoção intelectual da tua concubina, percebes? Ou te calas, ou ficas sem concubina!
O Joãozinho sofria de paixão serôdia. Ela tinha vinte e cinco e o Joãozinho cinquenta, embora aparentasse sessenta e nove.
— Ainda não percebeste, Joãozinho — disse afavelmente a Excelência —, que és um óptimo tubo de ensaio? Não, não é isso que pensas... Não te invejo o tubo; tenho mais grossos entre os meus correligionários.
O Joãozinho deu em andar de maus fígados. Escritor recalcado, a palavra «tubo» rasgava-lhe a consciência artística. Mas cultivava, inabalável, a transigência.
Quando se descobriu tubo sem necessidade de mais ensaios, começou a entreter-se com a digestão. Comia um bocado de carne congelada e sentenciava: «Está no primeiro domínio: o do esófago». Logo a seguir: «Já vai no estômago». Uma hora depois: «Está nas esferas salutares do intestino delgado». E quando ia à retrete: «Ei-lo chegado aos infernos do intestino grosso».
Um dia, por decisão política da Excelência, paralisou-se-lhe a digestão. Teve de apanhar um clister.
Mas, como à porta do ânus desfilava nesse instante uma grandiosa manifestação de apoio ao governo, o clister, para sair, procurou o outro lado do tubo em que se transformara a transigência do Joãozinho.
Morreu de merda na boca, como Cambronne.
José Martins Garcia, in Receitas para Fritar a Humanidade, Companhia das Ilhas, Novembro de 2019, pp. 41-43.
Dizer mal, dizer mal, dizer mal, só sabem dizer mal. Quem
mais perdigotos cospe é quem "mais mal" faz. Há dias queriam acabar
com o SNS, tudo privado e entregue a seguradoras, uma questão de... as pessoas
poderem escolher, a liberdade, o mercado a funcionar. Agora queixam-se de SNS a
menos. Há dias era tudo uma invenção da imprensa e dos comunistas chineses e do
clube não sei das quantas, agora exigem o fecho das fronteiras. Acabei de ouvir
um expert no supermercado: "A nossa sorte são os espanhóis, que estão à
rasca e vão fechar as fronteiras. Depois não passa ninguém para cá. O nosso
governo não faz nada." Dizer mal, só sabem dizer mal, são sábios,
inteligentes, omniscientes e fartam-se de cuspir perdigotos em todas as
direcções. Será que lavam as mãos?
Viagens suspensas, salas vazias, aeroportos às moscas,
escolas encerradas, espectáculos cancelados… O mundo parece ter parado, ficando
a pairar na atmosfera um aroma apocalíptico que já nada tem que ver com o cheiro a
napalm pela manhã. Convenhamos que em trânsito isto tem tudo mais piada, mesmo
quando não tem piada alguma. Pedem-nos que fiquemos em casa, que evitemos
ajuntamentos, que saiamos apenas para o essencial. Nem toda a gente estará em
condições de cumprir, mas que todos metam na cabeça o dever de cumprir talvez ajude a mitigar a
disseminação da ameaça. Um vírus, vejam bem, um ente microscópico, instalou-se
entre nós para nos lembrar quão frágeis somos e quão ténue é a
fronteira que separa a loucura da normalidade. No púlpito da sua sapiência há
quem desvalorize, há quem menospreze, há quem negligencie. Os números não
mentem: 4900 mortos, 136.000 infectados. Números claramente desactualizados,
tal é a velocidade a que o bicho se movimenta, e provavelmente desinflacionados,
tal é o secretismo erguido nalgumas nações em torno do problema. Fotografias
aéreas dão conta de valas no Irão que nos fazem pressupor uma tragédia maior do
que a publicada e conhecida. Por esta altura, minhas filhas, tereis ouvido
falar de “A Peste”, de Albert Camus, e do Ensaio sobre a Cegueira, de José
Saramago, por ter a curiosidade virulenta dos leitores incrementado as vendas
de tais obras. Language is a virus,
cantava a Laurie Anderson citando William S. Burroughs. Tal é a
curiosidade mórbida das pessoas a quem não basta uma realidade com sabor a ficção.
Daí que, por estes dias, seja de outras histórias e de outro autor que eu mais
me tenho lembrado. Franz Kafka (1883-1924) precisou de
meros 40 anos de vida para nos deixar uma obra eterna, maior do que à época da
sua morte era possível julgar — tão à frente do seu tempo se colocou, como é atributo
dos génios. Vítima de tuberculose, Kafka é, também por esse dado biográfico fortuito,
o autor onde melhor encontramos pressentidas e conjecturadas todas as pestes
humanas, não só as de tipo exógeno, que involuntariamente nos ameaçam sem que
consigamos entender porquê, mas também as pestes endógenas, geradas no imo
da mente humana e propagadas com um poder de contaminação altamente
autodestrutivo. Entre estas, podíamos mencionar, desde logo, a burocracia,
embora nos convenha mais falar agora de outra: o medo. Não há mal algum, minhas
filhas, em ter medo. Ele tem uma função defensiva que apela a coisas úteis tais
como a reflexão, a ponderação e o cuidado. Mas como tantas outras coisas no ser
humano, o excesso despeja de qualidades o medo, o excesso retira-lhe as
virtudes transformando-o numa ameaçadora pandemia. Pelo medo se governam nações
e manipulam povos, pelo medo se impõem comportamentos e usurpam liberdades,
pelo medo se molda a realidade de acordo com as conveniências de quem domine o
medo como a uma arma fatal. Num conto intitulado “O Covil”, Kafka mostra-nos a
outra face perniciosa do medo. Quando o medo evolui para o pânico, pouco
faltará para que se transforme em paranóia. E nesta nada vislumbramos
de benéfico ou útil à humanidade. Nesse conto, uma criatura indefinida — como
somos, de certo modo, todos nós, imerge na terra escavando o seu covil —,
entregando-se obsessivamente a cálculos e prolepses cujo efeito é exactamente o
contrário daquele que inicialmente pretendia. A tranquilidade do covil
torna-se inquietação, toldada por sobressaltos de medo onde o desejo de um
sono descansado degenera em insónia permanente. As preocupações desmesuradas, o
alarme, o desassossego, fazem do covil o princípio de uma misantropia que
escancara portas à loucura. Diz-nos Kafka: «Eis o que revela um espírito
inquieto: insegurança na apreciação própria, ambições pouco limpas, traços
negros de carácter, que ainda mais se ensombram se pensarmos que o covil ali
está e que nos pode dar paz, desde que consintamos em abrir-nos totalmente a
ele». Sucede que nenhuma paranóia leva à paz, ela apenas nos afunda no leito
convalescente de uma guerra onde seremos a primeira e a última das vítimas. Em
momentos como aquele que estamos a viver, apetece dar razão à tese de
Aristóteles segundo a qual é no meio que se encontra a virtude. Se a
negligência dos grunhos, burgessos e trogloditas, alguns deles com altas patentes,
é absolutamente imprudente e desaconselhável, também a paranóia colectiva o é.
Sem que desprezemos o ruído, convém não nos deixarmos apanhar na sua rede. A
angústia é tão natural nas nossas vidas como o ar de que precisamos para
sobreviver, mas poluída pelo pânico torna-se irrespirável, sufocante,
asfixiante. Começar por controlar o medo, por aprender a retirar partido dele, parece-me
ser, neste momento, a atitude mais sensata. Como se faz? Ora, minhas queridas,
lavando as mãos, mantendo distância, evitando multidões, saindo de casa só para o essencial.
Têm surgido inúmeras teorias da conspiração, todas muito
sóbrias e altamente prováveis, com um grau de fundamento e cientificidade que
nos inspira esperança quanto aos níveis de racionalidade e bom senso
distribuídos pelo mundo. Já aqui me referi a uma, segundo a qual o vírus tinha
sido gerado pelos chineses para domínio do mundo. Os chineses têm muito a
ganhar com o vírus, está visto. A economia chinesa estava pelas ruas da
amargura, com este vírus vai ter um hipe priápico sem precedentes. Outra teoria
diz que isto é tudo para dizimar velhinhos, o que faz muito sentido tendo em
conta a vulnerabilidade dos mesmos. Só não percebo é por que se gastam tantos
milhões a tentar salvá-los, quer com medidas altamente lesivas da economia,
quer com o reforço dos sistemas de saúde onde eles são tratados até não dar
mais. Há casos de recuperação, mas eu ficaria alerta. Aos velhinhos recuperados
deixo esta mensagem: não saiam de casa, ainda acabam electrocutados por um
drone. Outras teorias são menos proficientes, como aquelas que se ficam pelos vaticínios
e pelas previsões de médiuns e pitonisas. Há delas para todos os gostos, embora
nenhuma seja especialmente útil ou eficaz. Afinal, de que me vale saber que o
mundo vai acabar ou que alguém previu que ele seria atacado por uma peste no
ano corrente? Em que tais teorias contribuem para o bem estar das pessoas, não
entendo. Mas se as fizer ficar em casa mais consoladinhas e esperançosas, por
saberem que há anos tudo quanto estão a viver era previsível, pois então que se
mantenham em casa consoladas e esperançosas com o fim do mundo. O Livro do
Apocalipse é leitura sempre muito esclarecedora. Não obstante, eu próprio tenho
a minha teoria da conspiração. Estarão lembrados do Senhor do Adeus. Tinha um
nome: João Manuel Serra. Sobre ele se escreveram livros. O que nunca ninguém se
deu ao trabalho de fazer foi uma exegese wittgensteiniana que decifrasse a
razão de ser daquele gesto: cumprimento ou despedida? Pois bem, eu fiz esse
trabalho. Depois de ler tudo quanto há para ler sobre o Senhor do Adeus, depois
de observar atentamente os seus gestos, concluí que o Senhor do Adeus era um
alienígena que desceu à Terra para nos deixar um aviso. Nem cumprimento nem
despedida, mas sim um aviso: preparem-se, o fim do mundo está próximo. Ninguém
lhe deu ouvidos, ninguém se preparou, agora aguentem-se. Penso nisto enquanto vejo
ali na varanda três pardais telhado a lutarem desenfreadamente por um grão de
arroz. É um sinal. Entre aqueles pardais telhado e os seres humanos que se
digladiam nos hipermercados por pacotes de papel higiénico não há diferença
alguma. A que havia perdeu-se com a eliminação de bidés nas casas de banho. Se
ainda lavássemos o cu, não estaríamos tão preocupados com papel para o manter
limpo. Lá em baixo, Quitéria anda pelas ruas a dizer às pessoas para se
fecharem em casa. É um gesto simples, ponderado e sábio. Acho que devíamos
todos fazer o mesmo, devíamos todos sair para a rua a mandar as pessoas para
casa. Vou implementar agora mesmo esta medida. A todas as pessoas que se
cruzarem comigo no percurso para a tabacaria direi: vá para casa, é onde se está melhor quando o mundo acaba. Não me levem
a mal que não vos cumprimente.
Maria Anna Acciaioli Tamagnini (n. 1900 - m. 1933). Natural de Torres Vedras, foi casada com o governador de Macau Artur Tamagnini Barbosa. «É autora de uma só obra publicada em vida, Lin-Tchi-Fa (1925), que vários apontam como o primeiro livro de poemas de temática extremo-oriental escrito por uma mulher portuguesa. Ele é, na verdade, uma contínua exotização de uma China antiga, contando assim como uma manifestação intensa desse tipo de investimento estético. Há por vezes, neste âmbito, um registo que é puramente decorativo, em si mesmo interessante, como ressalta no poema em amostra» (Duarte Drumond Braga, in Nau-Sombra - Os Orientes da Poesia Portuguesa do Século XX, com Catarina Nunes de Almeida, Nova Vega, 2013, pp. 83-85).
Percorremos no IMDB a filmografia do actor sueco Max von
Sydow e ficamos estupefactos com a quantidade de filmes que nos são familiares,
de cineastas de vários países e em estilos diversos. O destaque vai para os
trabalhos com Ingmar Bergman: foi Antonius Block, o cavaleiro que jogava xadrez
com a morte em O Sétimo Selo (1957); aparece ainda em Morangos Silvestres
(1957), A Fonte da Virgem (1960), Luz de Inverno (1963). Em 1965, George
Stevens escolheu-o para o papel de Jesus em A Maior História de Todos os
Tempos (1965). Tornou-se um dos rostos icónicos do filme de terror com o papel
de Padre Merrin, em O Exorcista (1973). Fez de nazi no curioso Fuga Para a
Vitória (1981), filme de John Huston que contava com Pelé no elenco. Surge
ainda em vários filmes de aventuras, adaptações de heróis de histórias aos
quadradinhos, filmes de ficção científica. Neste domínio, Duna (1984), de David
Lynch, é talvez o melhor filme em que participou, ainda que num papel secundário.
Foi o narrador de Europa (1991), do polémico Lars von Trier. Estará, para sempre, na História do Cinema.
Recupero este post, iniciado vai para cinco anos. Continuará
em construção. São vozes femininas da poesia portuguesa do século XX. Os nomes estão a vermelho para sinalizarem links. É só clicar.