A história de Sayd Bahodine Majrouh merece ser recordada. Ouvimos falar dele em 2005, aquando da edição de A voz secreta das mulheres afegãs – O suicídio e o canto, obra de rara beleza trazida a Portugal pela Cavalo de Ferro. A tradução coube a Ana Harthely. Trata-se de uma recolha de landay (poemas breves, de dois versos livres) realizada entre as mulheres da comunidade pashtun. Sayd serviu-nos de guia entre as montanhas e os vales do Afeganistão, reavivou-nos o espírito inconformado e transfronteiriço da poesia, cantada de boca em boca, longe dos livros, essas prisões de palavras com grades de tinta e paredes de papel. São poemas puros que povoam a atmosfera como um grito de revolta contra o exílio moral, contra a repressão machista, em favor de um amor que mais do que destemido é ele próprio uma declaração de guerra à lei opressora dos homens que formatam os clãs e as tribos daqueles lugares. Trata-se de poesia na mais rupestre das suas formas, porque nela vislumbramos tudo o que podemos exigir a um bom poema: a bravura de confrontar os tabus e ir além da lei estabelecida, uma linguagem de um só código válido: a expressão livre das paixões contra a tirania dos casamentos negociados. No vocabulário das mulheres pashtun não existe a palavra alma, a qual foi substituída pelo vocábulo sa (respiração). A morte não importa à mulher pashtun, «ela canta exclusivamente o destino do corpo e privilegia um elemento dessa realidade física: o coração. Ele é a sede das emoções, da alegria e da tristeza, de esperanças passageiras e de desesperos profundos»:
Um morre de desejo de me ver um instante
Outro atira-me para fora do leito dizendo que tem sono
O primeiro é o amante, o segundo é o «horrível pirralho», ou seja, o marido a quem a mulher deve acudir como se acodem as crianças. Ecoa nestes landay muito do que fere de morte os exílios que no ocidente designamos eufemísticamente de casamento. Sayd Bahodine Majrouh, nascido em Kabul, oriundo de uma família com raízes em Kunar, recolheu estes cantos não sem ter corrido os riscos típicos de quem resolve pisar terreno minado. Ele próprio filho de um escritor pashtun, conseguiu através de notas máximas em Filosofia chegar às melhores universidades europeias. De regresso ao Afeganistão, foi professor, decano da Faculdade de Letras de Kabul, governador da província de Kapiça, presidente da Sociedade de História e chefe do departamento de filosofia e ciências sociais da universidade. Teve ainda trabalho diplomático em Munique. Um acidente de viação deixou-o manco aos 44 anos, impelindo-o para uma vida mais solitária e sedentária, dedicada à poesia e à filosofia. Contingências políticas de todos conhecidas refundiram-no para as bandas do Paquistão, onde acabou por ser assassinado, em tempos de militante resistência, pelos fanáticos que então assaltaram o poder na sua terra Natal. Devemos-lhe, antes de mais, o ter dado voz à poesia de mulheres anónimas que, mais do que qualquer grande autor das métricas ocidentais, representam a verdadeira poesia:
Aperta-me com força em teus braços
Já sofri tempo de mais a prisão das saudades






