Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: AFEGANISTÃO

Em memória de Maria Aldina da Costa Neves Forte (1939-2011)

A história de Sayd Bahodine Majrouh merece ser recordada. Ouvimos falar dele em 2005, aquando da edição de A voz secreta das mulheres afegãs – O suicídio e o canto, obra de rara beleza trazida a Portugal pela Cavalo de Ferro. A tradução coube a Ana Harthely. Trata-se de uma recolha de landay (poemas breves, de dois versos livres) realizada entre as mulheres da comunidade pashtun. Sayd serviu-nos de guia entre as montanhas e os vales do Afeganistão, reavivou-nos o espírito inconformado e transfronteiriço da poesia, cantada de boca em boca, longe dos livros, essas prisões de palavras com grades de tinta e paredes de papel. São poemas puros que povoam a atmosfera como um grito de revolta contra o exílio moral, contra a repressão machista, em favor de um amor que mais do que destemido é ele próprio uma declaração de guerra à lei opressora dos homens que formatam os clãs e as tribos daqueles lugares. Trata-se de poesia na mais rupestre das suas formas, porque nela vislumbramos tudo o que podemos exigir a um bom poema: a bravura de confrontar os tabus e ir além da lei estabelecida, uma linguagem de um só código válido: a expressão livre das paixões contra a tirania dos casamentos negociados. No vocabulário das mulheres pashtun não existe a palavra alma, a qual foi substituída pelo vocábulo sa (respiração). A morte não importa à mulher pashtun, «ela canta exclusivamente o destino do corpo e privilegia um elemento dessa realidade física: o coração. Ele é a sede das emoções, da alegria e da tristeza, de esperanças passageiras e de desesperos profundos»:

Um morre de desejo de me ver um instante
Outro atira-me para fora do leito dizendo que tem sono

O primeiro é o amante, o segundo é o «horrível pirralho», ou seja, o marido a quem a mulher deve acudir como se acodem as crianças. Ecoa nestes landay muito do que fere de morte os exílios que no ocidente designamos eufemísticamente de casamento. Sayd Bahodine Majrouh, nascido em Kabul, oriundo de uma família com raízes em Kunar, recolheu estes cantos não sem ter corrido os riscos típicos de quem resolve pisar terreno minado. Ele próprio filho de um escritor pashtun, conseguiu através de notas máximas em Filosofia chegar às melhores universidades europeias. De regresso ao Afeganistão, foi professor, decano da Faculdade de Letras de Kabul, governador da província de Kapiça, presidente da Sociedade de História e chefe do departamento de filosofia e ciências sociais da universidade. Teve ainda trabalho diplomático em Munique. Um acidente de viação deixou-o manco aos 44 anos, impelindo-o para uma vida mais solitária e sedentária, dedicada à poesia e à filosofia. Contingências políticas de todos conhecidas refundiram-no para as bandas do Paquistão, onde acabou por ser assassinado, em tempos de militante resistência, pelos fanáticos que então assaltaram o poder na sua terra Natal. Devemos-lhe, antes de mais, o ter dado voz à poesia de mulheres anónimas que, mais do que qualquer grande autor das métricas ocidentais, representam a verdadeira poesia:

Aperta-me com força em teus braços
Já sofri tempo de mais a prisão das saudades

OBRIGADO...



...por me teres feito sorrir mais que chorar, por me teres trazido à garganta, tantas e tantas vezes, o grito que me falta nas demais situações da vida, por me teres emocionado como só os artistas conseguem. Eu não estava a brincar quando escrevi isto, a minha admiração pelo teu trabalho, pela garra, transcende a reverência clubista. É mesmo amor. És o último rosto de algo que definha, ficarás para sempre na minha memória.

Domingo, 30 de Janeiro de 2011

Ainda duas palavras, meus amigos, antes de terminar: vãs são nossas lutas e nossas discussões, vã a fosforescência das nossas espadas e das nossas palavras. Só o caixão tem razão. A vitória é do cemitério.
Vicente Huidobro

GAIVOTAS




Fim de tarde com Huidobro por companhia: el pájaro pondrá su huevo sobre el porvenir. E a cada pegada arrancamos um pouco de futuro, arrastando pela areia mais algumas horas mortas dos nossos repetidos dias. Já nos bolsos trazemos a lareira ateada, o canto das mulheres afegãs a ecoar à distância, talvez um filme a lembrar-nos de como andamos todos a imitar as nossas próprias vidas. Enfim: se as gaivotas, todas voltadas para a ilha que ao fundo ainda espreita, levantam voo em sintonia, quem somos nós para reclamar da desordem com que a noite chega?

PARTIDA


Quando parti ninguém apareceu à beira da pista.
Quando parti as viagens eram coisa simples e banal,
e não este desejo de procurar um sentido para
a mágoa, uma clareira para a ausência, uma fonte
─ minúscula que fosse ─ para saciar aquilo que
se mantém ininterrupta sede. Quando parti estavam

todos atarefados a viajar; mas de outro modo ─
voracidade de prestamistas, esbugalhados olhos
onde o tempo é tão transaccionável, quanto um futuro
hipotecado ou uma mera jante enferrujada. Quando
parti tiveram logo o cuidado de me avisar que a poesia
nunca salvara ninguém, que a procura das raízes

(bem como o entendimento de um passado não
acontecido) era coisa tão ridícula quanto obsoleta
para o riso alvar de muitos. Quando parti a buganvília
da moradia em frente estava esplendorosa e havia
um gato a furar a rede. Quando parti uma mulher
no prédio ao lado sacudia um pequeno tapete.

Acenou-me. Sorriu. Quando parti imaginei
o escárnio deles, os telefonemas duns para os outros,
as conversas. Quando parti ninguém apareceu
para se despedir; havia apenas: eu, um objectivo
incerto, o teu rosto a reflectir-se ao longe
e o sol a dar de chapa nas vidraças
.


Victor Oliveira Mateus, in Regresso, Labirinto, Outono de 2010, p. 12.

Sábado, 29 de Janeiro de 2011

A VERDADEIRA POESIA



...Em poesia, vale mais sentir um estremecimento a propósito de uma gota de água que cai em terra e comunicar esse estremecimento, do que expor o melhor programa de entreajuda social.
...Essa gota de água provocará no leitor mais espiritualidade do que os maiores estímulos à elevação de sentimentos e mais humanidade do que todas as estrofes humanitárias.
...É isso a transfiguração poética.
...O poeta mostra a sua humanidade por vias próprias, que frequentemente são inumanidade (aparente e momentânea, esta). Mesmo anti-social ou a-social, ele pode ser social.
...Para evitar a contradição relativamente a nomes actuais, prefiro escolher o exemplo de um artista criador, de um género muito menos puro que a Poesia, mas em relação ao qual há unanimidade de simpatia: Charlie Chaplin. Criou um tipo de vagabundo, chamado Charlot, nitidamente imoral. Pontapés, rasteiras aos polícias sempre que os encontra; escarnece de todas as autoridades, não trabalha. Se trabalha, parte tudo, engana o patrão, não respeita a mulher de outrem, é rapinante quando a ocasião se apresenta, é um não-valalor social e, contudo, ele teve uma tal influência, de tal modo reconciliou pessoas com a vida que o podíamos considerar um dos benfeitores da nossa época.
...Não tenhamos pontos de vista professorais sobre arte. Porque é que Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, personagens muito pouco recomendáveis do seu tempo, representam não obstante tantas coisas para nós e são de alguma maneira benfeitores?
...Não seguramente pela sua moral, mas por terem conferido um novo impulso vital, uma nova consciência.
...Por isso, em vez de os comparar a pregadores espalhando a boa ou a má nova, há que compará-los ao primeiro homem que inventou o fogo. Foi um bem, foi um mal? Não sei. Foi um novo começo para a humanidade. Uma sucessão de novos começos faz uma civilização. É isso também o que o poeta mais deseja, um novo começo, uma vitória sobre a inércia, sobre a sua, sobre a da época, sobre o entorpecimento sem fim dos reaccionários.
...Vemos assim que a poesia, mais do que um ensinamento, mais até do que um encantamento, uma sedução, é uma das formas exorcizantes do pensamento. Pelo seu mecanismo de compensação, liberta o homem da atmosfera viciada, deixa respirar aquele que asfixiava. Transforma um estado de alma intolerável noutro satisfatório. É, pois, social, mas de uma forma mais complexa e indirecta do que se diz.
...Sem o parecer, respondo desta maneira à pergunta: «Qual a finalidade da poesia?» ─ A de nos tornar habitável o inabitável, respirável o irrespirável
.


Henri Michaux, in Nós dois ainda, do ensaio A Verdadeira Poesia faz-se contra a Poesia, trad. Rui Caeiro, 2.ª edição, Bonecos Rebeldes, Maio de 2009, pp. 61-62.

A FUNÇÃO SOCIAL

A melhor forma de conferir à literatura uma função social é fazê-la viver à margem das instituições, dos grupos e das sinecuras. O nepotismo é a maior ameaça da literatura.

PROBLEMAS DE GÉNERO

Há quem distinga o real do fantástico sem se aperceber que o que há de mais fantástico no real é a própria realidade, ao passo que, muitas vezes, o que há de mais real na fantasia é a sua aparente anormalidade.

CLASSIFICAR A SINGULARIDADE

É um equívoco recorrente elogiar a voz de um autor, no que ela tem de singular, e depois procurar classificá-la. As vozes não são classificáveis senão na sua inclassificável dispersão.

VEM NO ÍPSILON

O último Verão que Eva Gabrielsson passou com o seu companheiro, o escritor sueco Stieg Larsson, foi diferente dos outros. Finalmente, o casal tinha tempo um para o outro. Stieg assinara o contrato para a publicação de três livros da série "Millennium" e estava feliz. Nessas férias os dois visitaram amigos e alugaram uma cabana no arquipélago de Estocolmo. No final do mês de Agosto, em que Stieg fez 50 anos, o escritor disse timidamente à arquitecta com quem vivia há 32 anos: "E se nos casássemos agora?" Combinaram então que, no Outono, fariam uma festa para comemorarem os 50 anos. Chamariam os amigos e, no final, revelariam que se tratava da festa de casamento. "Desde uma viagem que fizemos a Lisboa, em 2001, guardávamos para a festa dos nossos 50 anos uma garrafa de vinho do Porto 'Quinta Noval 1976'. Contudo não tivemos tempo, nem para o casamento, nem para a festa. Esta garrafa aparece no segundo volume de 'Millennium', no apartamento novo de Lisbeth Salander. A garrafa está agora na minha cozinha. Nunca a irei abrir, escreve Eva Gabrielsson em "Millénium - Stieg et moi"...
Isabel Coutinho

Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011

O CLIENTE MANDA

Após meia hora de discussão com um cliente que exige as sobrecapas de Simon Scarrow 5 anos depois de ter comprado o primeiro exemplar da série da Águia, pensei eu que estava preparado para tudo. Enganei-me. Um outro pegou num exemplar do Aprenda Surf, um daqueles livros com DVD da Civilização, trouxe-o ao balcão e perguntou: posso ouvir o CD?

REPOSTA A VERDADE

Henrique, estive a espreitar o Clube Alice. Deixa-me contar-te o seguinte:
Chamas-te Henrique Manuel porque a avó Elvira assim quis. Qui-lo em homenagem ao irmão que morreu de tuberculose ainda novo (era o pai do primo Artur) e também para prolongar a existência do avô Manuel. A avó Elvira estava, permanentemente, sóbria. A avó Adelaide é que tinha dias
.

Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

A PRAIA DE OJIMA




A praia de Ojima é uma estreita língua de terra que penetra no mar. Ali se conservam as ruínas da ermida do bonzo Ungo e o rochedo sobre o qual meditava. Entrevêem-se alguns devotos que vivem à sombra dos pinheiros, retirados da vida mundana. Habitam aprazivelmente em choupanas de palha, das quais sai, sem cessar, o fumo das fogueiras de pinho e folhas secas. Embora não soubesse realmente que espécie de gente era aquela; senti afecto por eles e entrei numa das choupanas. Entretanto, a lua reflectia-se no mar e a paisagem mudou. Regressei à praia e hospedei-me numa estalagem. O meu quarto estava no segundo piso e tinha grandes janelas. Pareceu-me que sonhava viajando sob as nuvens e no meio do vento. Deliciosa e estranha sensação:

Em Matsushima
pede a plumagem ao grou
oh rouxinol.

Sora

Deitei-me sem compor nenhum poema, mas não pude dormir. Recordei o poema sobre Matsushima que Sora me deu ao abandonar a minha choupana. Procurei no meu saco um poema de Hanteki Hara. Ambos foram companheiros daquela noite. Depois li dois haikus de Sampu e Dakusmi.


Matsuo Bashô, in O Caminho Estreito Para o Longínquo Norte, trad. Jorge de Sousa Braga, Fenda, 2.ª Edição, Julho de 1995, p. 32.

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: JAPÃO


De facto, isto anda tudo ligado. Passeava-me eu pelo México quando o meu amigo Octavio Paz sugeriu uma visita ao Japão. Há por lá um poeta chamado Matsuo Bashô que vale a pena descobrir. Jorge de Sousa Braga, exímio praticante de poemas-gota-de-água e controlador aéreo de méritos reconhecidos, vendeu-me a passagem para O Caminho Estreito Para o Longínquo Norte (Fenda, 2.ª edição, Julho de 1995 – a primeira data de 1987). Por lá se diz, logo no pórtico, que foi seguida na versão portuguesa a versão espanhola de Octavio Paz («Sendas de Oku»). Há muita coisa interessante nisto de traduzir japoneses e chineses e outros que tais com obra em dialectos dificilmente acessíveis: as traduções raramente são más, ainda que possam inspirar desconfiança, já que a ignorância dos originais a tal obriga. Para o caso pouco importa, sendo muito mais interessante acreditar que no Japão de 1644 nasceu um génio viandante, eremita com nome de «bananeira decorativa». Estamos em Ueno, na Província de Iga, que segundo os guias é uma região cercada de montanhas. Aí nasceu Matsuo Kinsaku, filho de um humilde Samurai. Em 1653 foi trabalhar como pajem da família Todo, travando forte amizade com o jovem herdeiro da família: Yoshitada. É este quem o introduz à poesia, começando Matsuo a publicar entre 1662-65. Yoshitada morre em 1666, deixando o amigo inconsolável. «Guarda uma madeixa do seu cabelo e parte para Kioto». São tempos obscuros, de indecisão e sobre os quais muita especulação tem vindo a lume. Sabe-se que em 1671 regressa a Ueno para apresentar a sua primeira antologia de poemas, partindo no ano seguinte para Tóquio. Começou por essa altura a ver reconhecido o seu trabalho poético, publicando em várias antologias. No entanto, perseguido pelo desânimo, sem paz de espírito, acabou por se transformar num solitário com o ímpeto da viagem: «desde há anos, me perseguem pensamentos de vagabundo mal vejo uma nuvem arrastada pelo vento». O ano de 1680 merece a citação: «Sampu, um discípulo, constrói-lhe uma cabana nas margens do rio Sumida. No Inverno deste mesmo ano oferecem-lhe uma bananeira decorativa (bashô, em japonês). Apaixonado pela sua inutilidade, adopta então o seu nome. Esse tempo deve ter sido de grande sofrimento. Conhece o mestre Buccho e dedica-se à prática do zen». Passou, então, a viver em cabanas ou refugiado em casa de familiares e amigos. Sem poder continuar a adiar a partida, em 1684 seguiu para a primeira de muitas e longas viagens. Aos 45 anos partiu para a mais longa de todas, a qual deu origem ao diário de viagem Oku no Hosomichi (O caminho estreito para o longínquo norte). Dois anos e meio on the road, «ziguezagueando pelos caminhos», 2500 quilómetros percorridos e muitas e inolvidáveis experiências: «Poder contemplar os testemunhos do passado é um dos privilégios dos peregrinos. O prazer de viver fez-me esquecer o cansaço da viagem e quase me fez chorar». Matsuo Bashô morreu a 12 de Outubro de 1694, no decorrer de mais uma das suas viagens. Foi sepultado junto ao Lago Biwa, em Otsu, tendo os seus discípulos plantado uma bananeira sobre a sua sepultura.


SOSSEGO NUM TEMPLO DA MONTANHA


Em Yamagata há, na montanha, um templo chamado Ryusyaku. Fundou-o o grande bonzo Jikaku e é um lugar tranquilo. Recomendaram-me que fôssemos vê-lo. Para isso tivemos que regressar a Obanazawa e caminhar perto de sete «ri». O sol não se ocultara ainda e pudemos escolher uma pousada num templo que se encontra na falda da montanha. Depois subimos ao Santuário que está no cume. A montanha é um amontoado de rochas e penhascos, entre as quais crescem pinheiros e carvalhos seculares; as pedras estavam cobertas de musgo suave. O templo foi construído sobre o rochedo. As portas estavam fechadas e não se ouvia nenhum ruído. Dei uma volta por uma escarpa, trepei pelos penhascos e cheguei ao Santuário. Perante a beleza da paisagem, o meu coração serenou:

...................................................Quietude:
...................................................as cigarras escutam
...................................................o canto das rochas.

Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011

INSULTOS À DEMOCRACIA

Acabei de ouvir na RTPN um tipo qualquer dizer que os 4,5% do Coelho são um insulto à democracia portuguesa. Se eu fosse jornalista, perguntava-lhe o seguinte: se os votos legitimamente conseguidos por uma candidatura legítima são um insulto à democracia portuguesa, então o que é a democracia portuguesa? Não é difícil encontrar insultos à democracia portuguesa: do caso BPN ao Face Oculta, dos submarinos ao processo Portucale, da Casa Pia à Universidade Independente, das escutas aos "mantos diáfanos de fantasia" de certos e determinados trafulhas.

Domingo, 23 de Janeiro de 2011

O CU DE MARY DESTI



Em tempos fomos
grandes amigos dos Wagners em Bayreuth
e dei uns passos para
Isadora de forma tão perfeita
que nunca me permitiu dançar de novo
era isso que se passava em Bayreuth

o que se passava em Hackensack
era diferente
lá ninguém fazia nada
e de qualquer forma todos te odiavam
era divertido, era límpido
conhecias o terreno que pisavas

em Boston quase nunca estavas de pé
eu estava habitualmente deitado
era engraçado estar deitado o tempo
todo para todos
era como um exercício

tem um significado exercitar-se
em Norfolk Virginia
significa que se foi para a cama com uma Preta
bom é exercício
a diferença é que é melhor que em Boston

eu caminhava pela rua
em Cincinnati
e encontrei a mãe de Kenneth Kock
acabava de chegar do Hilton de Istambul
ela gostou de mim e eu dela
ambos gostávamos de Istambul

depois em Waukegan encontrei um fabricante de mobílias
e varreram-se-me da cabeça todos os sonhos de amabilidade
foi como ser empurrado com força para baixo
numa cadeira
foi como algo horrível que não se esperava
o que é ainda o mais horrível

e em Singapura apanhei uma doença
terrível foi divertido ter papeira
só que me entrou pelas veias
e irrompeu como o Vesúvio
curar-me foi como aprender a fumar

mas sempre gostei de Baltimore
os alpendres que te magoam o cu
não, eram os degraus
bom seja como for tens o cu molhado
se ao menos deixassem de esfregar

e Frisco onde vi
Toumanova «a menina bailarina» só que
parecia uma vaca
eu não sabia ainda a história do ballet
embora isso pouco me tivesse elucidado

agora se tencionas negociar com
Tóquio
então tens com que te entreter
é como Times Square à meia-noite
não sabes para onde vais
mas sabes

e depois em Harbin descobri
como comportar-me foi glorioso
era o amor a subir para mim pela neve
e senti que era por causa de todos
os postais e os sorrisos e os beijos e os grunhidos
que era o amor mas segui viagem

Frank O'Hara, in Vinte e cinco poemas à hora do almoço, trad. José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, Março de 1995, pp. 81-85.

DEVER CÍVICO

O inevitável aconteceu. Não vale a pena escamotear os resultados, os socialistas descontentes com a governação socrática ficaram em casa. Só se deslocaram às urnas os conservadores e aqueles para quem Cavaco simboliza o que de mais degradante há neste país. A votação do Coelho é impressionante. Os políticos que ao longo dos últimos anos vêm transformando a política numa mera luta de galos esvaziada de ideais e de verdadeiro serviço público devem pensar na votação do Coelho como um sinal da voz popular, ele foi um eco do que todos os dias se escuta pelos cafés. E devem também ponderar a abstenção como um sintoma inequívoco da desacreditação da política em Portugal.
Como é óbvio, ninguém vai pensar nem ponderar nada. A falta de vergonha é tanta e tão declarada que nem o facto de muitos portugueses terem sido impedidos de votar por um sistema de simplificação que espelha bem o que se passa no país a todos os níveis vai estimular a indignação. Eu ia sendo uma vítima desse sistema. Com o Cartão do Cidadão feito há pouco tempo, votei pela primeira vez em Caldas da Rainha. Tive de esperar por um número que após muita insistência lá foi parido por um sistema constipado. Encontraram-me uma mesa 9 onde pude exercer um direito que há muito não exercia. Outros não tiveram a mesma sorte. Desistiram. Se isto tivesse acontecido na Venezuela a conversa seria outra.

ESTÁ FEITO. NÃO CUSTOU NADA.


Imagem respigada aqui.

POESIA INCOMPLETA

A Joana Simões fez-me chegar um e-mail com a seguinte informação:

Actualmente existe, em Lisboa, uma livraria absolutamente única no país: uma livraria integralmente dedicada à poesia. Sucede, contudo, que, apesar de fantástica, ela encontra-se com alguma dificuldade em sobreviver. O que não se compreende: tem à sua frente um jovem livreiro que, além de extremamente eficiente, como verão, possui um total conhecimento do que está a vender: conhece os autores, as edições, tudo.
A livraria de que vos falo chama-se Poesia Incompleta, fica na Rua Cecilio de Sousa nº 11 Príncipe Real) e vai com certeza ser uma revelação para quem a visitar. Abrange todas as épocas e o que não tem, o Mário, o dito livreiro, arranja, normalmente - e com uma brevidade que, no mínimo, surpreende.
Peço-vos - a vos que sois leitores, presumo - que façam uma visitinha a este sitio, que não pode de maneira nenhuma fechar e que, pela sua qualidade, vai-se tornar, mais tarde ou mais cedo, como aliás disse Vasco Graça Moura, num local de culto. Isto, claro, se não fechar, coisa que, passando a palavra e recomendando a amigos este tão singular espaço, podemos evitar
.


A última vez que fui à Poesia Incompleta vim de lá com uma ameaça a pesar-me sobre os ombros: «Sempre que vieres aqui, terás um problema. E esse problema sou eu.» Nunca mais lá fui. Prefiro fazer as encomendas por e-mail, as quais merecem sempre toda a atenção e são expedidas com uma eficácia sem igual. Foi a forma que encontrei de evitar problemas indesejáveis. Raramente vou a Lisboa. Quando vou, é prefeitamente compreensível que não vá à procura de problemas. Vou para me divertir, para descansar. Vou passear. Portanto, prefiro não correr riscos.
Gosto muito da Poesia Incompleta, admiro imenso a capacidade de risco, o trabalho, a dedicação do Changuito. O espaço é bonito, o livreiro é poético. A ser verdade o que o e-mail acima transcrito refere (não me admiraria se fosse boato), convenhamos que não traz nada de surpreendente a um país de cretinos e sonsos para quem a poesia ou é uma espécie em vias de extinção ou serve para alimentar genuflexões do espírito com ar de controvérsia. Está visto que não quero nada com uns nem com os outros. O meu caminho é o da distância, um desejo de ser ignorado por quem não me mereça mais que uma fugaz antipatia. Daí que à distância envie um abraço de solidariedade ao Changuito. E votos de saúde e uma muito boa vida.

Sábado, 22 de Janeiro de 2011

A DANÇA DAS FERIDAS


Após três livros em prosa, achei que estava na altura de regressar aos versos. A Dança das Feridas reúne 68 poemas de amor e morte, na sua maioria sob a forma de cartas, que têm por mote relações amorosas sublinhadas pela história. Há de tudo um pouco, de Adão e Eva a Woody Allen e as suas ex-mulheres, passando por Ulisses e Penélope ou as ossadas de Mantova. Deste livro, com capa de Maria João Lopes Fernandes e composição gráfica de Pedro Serpa, amigos a quem envio um forte abraço de agradecimento, foram feitos 150 exemplares únicos e irrepetíveis. Em nenhuma circunstância estes poemas voltarão a ser editados enquanto eu for vivo. Não estará à venda nas livrarias. O leitor interessado em adquirir um exemplar deverá contactar-me através do e-mail universosdesfeitos@yahoo.com.br.

MAIL DE UMA LEITORA

A respeito do texto sobre o seu ex-amigo matsuo bashô, acho que vc não viu a coisa com objetividade. Se no texto dele as cigarras escutam o canto das rochas, há aí justamente toda uma ironia, brincando com os opostos, ou seja, destacando o absurdo da coisa, (as rochas cantando e as cigarras escutando) e seu comentário é típico de quem leva as coisas ao pé da letra, o que nesse caso não teve cabimento, pois na poesia tudo acontece, principalmente o aburdo. Ele não ia te explicar tim tim por tim tim como entender o que escreveu. Então preferiu calar-se. Você foi muito reativo e isso não é bom para se viver bem. Procura se distanciar um pouco do fato e veja se não foi um pouco agressivo com quem queria apenas fazer um poema...

Desculpe desde já se fui xereta, mas a internet é para isso mesmo: cada um se manifesta como quer e como pode.

Abraços,
Sônia


Estimada Sônia, muito lhe agradeço os bons conselhos. Prometo vir a repensar a minha relação com o Matsuo em particular e a poesia em geral.

Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011

O MEU AMIGO MATSUO BASHÔ

recebi no facebook um pedido de amizade do matsuo bashô. não estranhei. afinal, já o acompanhava há anos. sei-lhe muitos versos de trás para a frente, sou tu-cá-tu-lá com o caminho estreito, achei mais que normal ele pretender consolidar a nossa amizade. por isso, aceitei o seu pedido. os primeiros tempos foram interessantes. trocámos presentes no farmville, eu dei-lhe um porco e ele ofereceu-me uma girafa, curtimo-nos um ao outro, chegámos mesmo a comentar alguns posts. na realidade, fui sempre eu a comentar os posts dele. não é por nada em particular, talvez por ser mais desprendido, sou um tipo que não deve nada a ninguém, gosto de comentar o que os outros dizem, não tenho papas na língua. não quero com isto dizer que o matsuo bashô tenha papas na língua. se ele nunca comentou os meus posts isso deve-se, muito provavelmente, ao seu carácter reservado. sempre o achei algo tímido, um pouco místico, talvez.


quando lia aquelas coisas dele sobre o santuário de tenjin e o pôr do sol punha-me a pensar nas cerejeiras em flor, depois imaginava-me a seu lado a comentar o silêncio das folhas que caem durante o outono e das flores que rebentam pela primavera. o matsuo é um tipo porreiro. pelo menos era o que eu pensava. jamais poderia supor que estava redondamente enganado. nada que nunca me tivesse acontecido. uma natural ingenuidade leva-me a acreditar nas pessoas, a esperar delas o melhor, não sou capaz de ver defeitos num ser humano que faz do orvalho um chapéu, embora desconfie do orvalho. constipo-me com facilidade.


comecei a mudar de opinião acerca do matsuo bashô quando lhe comentei um status com uma simples interrogação. ele dizia: quietude / as cigarras escutam / o canto das rochas. eu comentei que no rogil era diferente, as cigarras por lá são tão estridentes que não deixam um tipo adormecer. e depois perguntei como era no japão? admito que no japão não seja assim, admito que por lá as rochas cantem e as cigarras escutem, nem sequer pretendia pôr isso em causa. nunca fui ao japão. mas porra, no rogil, que é a terra onde eu ouvi mais cigarras, as coisas não são bem assim. para já, as rochas não cantam. limitam-se a levar com as ondas nos costados e baixam a bolinha, são escravas dos mexilhões, levam porrada de meia noite e nunca alguém lhes escutou um protesto que fosse. quanto mais um canto. já as cigarras, está para chegar o dia em que acabem com a peixeirada. passam a vida na tagarelice, chega a ser insuportável o ruído que provocam. sobretudo pela noite. são um pouco como os ciganos aqui do bairro, nunca se calam.


mas o bashô não deve ter percebido este meu raciocínio, ou então fez-se despercebido - o que, para mim, é ainda pior. detesto que as pessoas gozem comigo, mas não suporto quando me ignoram. e foi isso que o matsuo bashô fez. não estava nada à espera daquela atitude, afinal éramos amigos no facebook, a iniciativa para esta relação de amizade até partira dele, não entendo e não aceito que agora se cale aos meus comentários. um amigo não é só mais um número numa espécie de depósito de amizades, não é um crédito na popularidade, é alguém com quem partilhamos a vida, com quem podemos discordar ou concordar mas a quem nunca calamos um comentário. os amigos não se ignoram uns aos outros. e foi isso que o matsuo bashô me fez. por isso bloqueei-lhe o acesso ao meu facebook. já não somos amigos. cabrão.

POESIA

- Tem livros de poesia?
- O que quer dizer com isso?

VOTE NO POETA, VOTE COELHO




Por regra, não voto. Desagrada-me o sistema. Mas como todas as regras, também esta merece as suas excepções. Votei no referendo pela IVG. Foi a última vez. Voltarei agora à urnas, em bairro diferente, contra a HIPOCRISIA. Vai assim mesmo, em maiúsculas, que o país não está para menos. Os argumentos de Cavaco contra uma hipotética 2.ª volta são argumentos à Cavaco. Não há nada a fazer, o homem mete-me nojo. Um fdp que governou este circo durante 10 anos e nos levou à degradação actual, andou a alimentar Duartes Limas, Dias Loureiros e quejandos, promoveu um asno da estirpe de Santana a Secretário de Estado da Cultura, e agora lamenta-se da reforma de 800€ que a pobre mulher recebe todos os meses enquanto limpa o pó ao Palácio de Belém. Enrolou-se com os ladrões do BPN, não explica as trapalhadas com as escutas e Fernando Lima, preocupa-se com as taxas de juro perante a possibilidade de uma 2.ª volta. Foda-se, crápula mais crápula não pode haver. É por estas e por outras, como estas, que no Domingo lá estarei a botar voto no Coelho. Podia votar no Lopes ou no Nobre, quiçá no Alegre, mas vou votar Coelho por razões que me abstenho de justificar. Talvez baste isto: o Coelho diverte-me, merece a minha simpatia, estou com ele na acusação desinteressada da bandalheira em que a política deste país se transformou.

SOMOS CADA VEZ MAIS COELHINHOS

José Manuel Coelho é o único candidato anti-sistémico nas eleições presidenciais que terão lugar no próximo Domingo. É o único que denuncia o actual sistema político, a farsa democrática em que vivemos (ao contrário, por exemplo, de Francisco Lopes). É o único que não se candidatou na tentativa de ser eleito, ou para obter votos: candidatou-se para denunciar a autocracia e os poderes que hajem a seu bel-prazer. José Manuel Coelho pode não ter uma mensagem articulada de mudança, pode não ter respostas, pode não ter um sistema político e económico-social alternativo, pronto-a-servir, mas não duvidem que uma grande votação em José Manuel Coelho será sentida como um pontapé-nos-ditos pelo sistema e pela oligarquia que o domina. Muito mais do que uma elevada abstenção, ou votos em branco. Alguém imagina os poderosos preocupados com algo tão passivo como ficar em casa (se calhar foram passear...), ou tão inócuo como votar em branco (sabe-se lá, até podem ser alguns católicos fundamentalistas descontentes com o Cavaco...)? Mas não vão ficar indiferentes a uma votação significativa em alguém tão desbragadamente populista e anti-sistema como José Manuel Coelho...

Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

DESCOBRIR A FORÇA


Quantas vezes não é através dos actos aparentemente mais inúteis ou supérfluos que o homem descobre a sua força? ─ pergunta Ana Hatherly numa tisana. Actos aparentemente mais inúteis. Quem leia, julgará perceber, provavelmente porque a leitura não nos detém sobre as palavras; a leitura, toda ela, limita-se a usufruir das palavras. Um homem detém-se sobre as palavras quando pára e pensa, quando fica por ali à espera do comboio que não chega, para depois errar na carruagem, apear-se na estação incorrecta, retomar a marcha a caminho dos infindáveis desenganos que a vida nos guarda. O crítico das palavras não pensa, limita-se a ler. Falta-lhe tempo. Como pode alguém convencer-nos de que é capaz de pensar as palavras de toda uma vida numa leitura que lhe dura uma semana? Não interessa. O nosso assunto é outro: o que é um acto aparentemente mais inútil? Haverá actos mais inúteis que outros? Um acto aparentemente inútil é um acto que, ainda que pareça, não é inútil. Se não é, porque sentimos necessidade de sublinhar a sua aparência? Será assim tão importante para nós a aparência dos actos? O que é a aparência de um acto?

A aparência dos actos tem um valor indeterminável na organização mental que compomos do mundo. Um acto deve ser julgado em função dos motivos que o legitimam ou não, e esses serão sempre aparentes. Ninguém pode estar certo da sombra que subjaz às consequências. Se nos detivermos na ideia de “acto aparentemente mais inútil” podemos pensar em actos dos quais não dependa nada que seja indiscutivelmente essencial. Respirar não é um acto aparentemente mais inútil, na medida em que se revela indiscutivelmente essencial (sobretudo para quem sinta dificuldades respiratórias). É como comer. Não obstante, torna-se igualmente válido pensar que aquilo que contribua para uma respiração saudável também não pode advir de actos aparentemente mais ou menos inúteis. Entre produzir alimento e comer não existe nenhuma escala que discrimine a utilidade de ambos os actos. Dir-me-ão que actos não são acções e que acções não são actividades, falar-me-ão de acções inatas e outras, ditas adquiridas, em relação directa ou indirecta com as primeiras. Sugiro que atalhemos a dificuldade do raciocínio.

Se, aparentemente, respirar não é inútil, pode aquilo que nos ajuda a respirar melhor ser considerado de inútil? Ora pensemos na música. A música ajuda-nos a respirar melhor, até o tonto do Platão percebeu a importância dos fabricantes de flautas e dos flautistas na organização da sua enfadonha cidade ideal. Que tenha pensado em expulsar os poetas, mantendo por lá os mestres do ritmo e da harmonia, deve fazer-nos lembrar o que o próprio procurou resolver: «a fealdade, a arritmia, a desarmonia, são irmãs da linguagem perversa e do mau carácter». A solução parece estar em «procurar aqueles dentre os artistas cuja boa natureza habilitou a seguir os vestígios da natureza do belo e do perfeito», ou seja, aqueles cuja existência se resume aos sonhos húmidos de Platão. A única saída parece ser a das traseiras: A República diverte-nos e essa diversão faz da sua leitura um acto aparentemente mais inútil. Porém, sendo um acto aparentemente mais inútil ele ajuda-nos, de facto, como dizia Ana Hatherly, a descobrir a nossa força.

A nossa força transcende a aparência dos actos, ela enraíza-se numa necessidade: respirar melhor, trazer ao pulmão o ar que o distende e agiliza, propagar pelas células o deleite de se estar vivo, esse mesmo gozo que nos traz por pinças sobre a terra. Porque, dizemos, não está fácil suportar os espinhos, no pântano das obrigações enterram-se os sonhos, ficamos pelo pescoço, com um braço de fora suplicando socorro e, de quando em vez, o socorro lá calha, chega-nos de um poema, de uma canção, de uma imagem que incendeia a retina e nos rasura toda a teoria. A única teoria razoável, nestes casos, é a teoria da comoção: se causa calafrios, se arrepia, se incomoda, se te eleva os sentidos à condição da alma, é porque é bom, mesmo que te provoque sofrimento e dor e daquele desprazer que a gente sente prazer em sentir, porque é um desprazer que nos anuncia o que de mais precisamos ser lembrados: estamos vivos. Talvez a força venha do que é aparentemente mais inútil, conquanto o aparentemente mais inútil não seja, evidentemente, inútil. Ou como dizia o Sérgio Godinho na canção: Na vida real as aparências estão do outro lado do espelho, na vida real não me assemelho à simulação das evidências

Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: MÉXICO


Nunca fui ao México, mas gostava. Talvez não tanto quanto José Agostinho Baptista, que para lá viu partirem barcos em viagens mitológicas. Sempre que me dizem México penso numa garrafa de Tequila repousando debaixo de um sombrero, penso naqueles pistoleiros empoeirados, suados, feios, porcos e maus que o western hollywoodesco imortalizou, e vem-me à memória Zapata, assim como o ódio que Gerónimo nutria pelos mexicanos, índios amestrados, castrados, vendidos à força da verdascada colonialista. Frida Kahlo, a mais bela das índias, e Diego Rivera, o amor cão de Alejandro González Iñárritu e o amor doentio de Luis Buñuel, territórios que Malcolm Lowry imortalizou e Roberto Bolaño retratou com incomparável violência. Lembro-me de Cantinflas, um humorista a quem nunca achei piada mas que sempre me fez rir. Contradições ininteligíveis.

Podia dar uma volta pela poesia mexicana. Podia. No entanto, dificilmente me livraria da sombra de Octavio Paz, Prémio Nobel da Literatura em 1990, que me chegou através das traduções de Luís Pignatelli quando eu ainda pensava que o México se perdera nas vísceras dos maias e dos astecas desaparecidos numa barca a caminho do Egipto. São fontanários civilizacionais, estas terras. Octavio Paz captou-lhes o espírito, batendo as asas do verso sobre os campos da Índia, raízes improváveis ainda que possíveis. Se estivermos dispostos a abrir o peito à especulação, da Pirâmide de Kukulcán às Pirâmides de Gizé vai a mesma diferença que nos distingue a todos para logo nos tornar iguaizinhos ao litro. Nunca tendo ido ao México, garanto-vos que vi nos egípcios do Cairo muito do que me foi dado ver nos mexicanos do cinema. E entre esses e os monhés das cobras pouco há a declarar.

Sobre Octavio Paz não me adiantarei. Fiz o discurso aqui. Quero apenas relembrar um poema que é dos que mais me marcou quando eu ainda pensava que o México se perdera nas vísceras dos maias e dos astecas desaparecidos numa barca a caminho do Egipto:

ATRAVÉS

Dobro a página do dia,
escrevo o que me dita
o movimento de tuas pestanas.

Entro em ti,
veracidade da treva.
Quero as evidências do obscuro,
beber o vinho negro:
toma meus olhos e rebenta-os.

Uma gota de noite
sobre a ponta de teus seios:
enigmas do cravo.

Ao fechar os olhos
abro-os dentro dos teus.

Em seu leito carmesim
está sempre desperta
e húmida tua língua.

Há fontes
no jardim de tuas artérias.

Com uma máscara de sangue
atravesso em branco teu pensamento:
o esquecimento conduz-me
ao outro lado da vida.

Octavio Paz, in Antologia Poética [1935-1987], trad. Luís Pignatelli, Círculo de Leitores, Março de 1991, p. 64.

SER RICO

Filha: eu queria ser rica para poder comprar vestidos maravilhosos.
Mãe: eu queria ser rica para poder andar sempre de chinelos.

Domingo, 16 de Janeiro de 2011

ADEUS E NÃO VOLTES

Se bem sei, foi o primeiro com salário. Curiosamente, foi o pior de todos. Do triste episódio Paulo Bento forever à contratação de Paulo Sérgio, claramente inferior a Carvalhal, da patacoada da maçã podre às trapalhadas com o director desportivo (Costinha sucedeu a Sá Pinto que havia sido interinamente substituído por um inefável Miguel Salema Garção), foi tudo mau no reinado Bettencourt. O meu amigo RFF parece o Fernando Nobre a falar. Eu estou aqui com o Filipe Moura, livrámo-nos de um competentíssimo à portuguesa. Portanto, já posso voltar a ser do Sporting.

Sábado, 15 de Janeiro de 2011

ALUCINAÇÕES

Após a defumação de 1500 poemas, Baltazar começou a sentir comichosas alucinações. Seu pombo Benjamim aparecia-lhe em pedaços da existência que ele não conseguia definir se eram bocados de sonho ou cibos de realidade. A princípio julgou que aquelas aparições eram o efeito natural de um «sono equívoco», depois ponderou a possibilidade de serem projecções “hologramáticas” dos seus desejos mais recalcados, até que, por fim, se lhe tornou evidente a morte do animal e que aquelas aparições não mais eram do que o Senhor Bom Deus a castigá-lo pela sua desmesurada imprevidência. Baltazar sentiu-se profundamente arrependido durante pelo menos 5 segundos, passado o que o arrependimento deu lugar a uma espécie de pena, que vinha muito a calhar mas foi tão efémera quanto o arrependimento havia sido: 5 segundos. A pena enrolou-se-lhe com a raiva (primeiro de si próprio – 2 segundos; depois ao mundo em geral – 4 segundos). Foram, mais coisa menos coisa, seis segundos de raiva. Então a raiva transformou-se-lhe num ódio vindo não se sabe de onde: 15 segundos. O ódio deu em rancor. 10 segundos. O rancor metamorfoseou-se-lhe em desejo de vingança. E nesse momento, como um camião de emoções embatendo contra uma muralha de aço, melhor dizendo, como um caudal de emoções sendo barrado pela pedra, melhor ainda, como uma torrente de emoções desmoronando sobre o seu peito e travando-se-lhe nas vísceras, foi o pensamento de Baltazar. Impunha-se saber como se vingaria Baltazar da perda de seu pombo predilecto. Baltazar desconhecia os factos por trás do desaparecimento de Benjamim. Desconfiava apenas das razões: a sua intratável ausência. Não sejamos hipócritas: o nosso herói pensou em suicidar-se. Afinal, que outro destino para os poetas? Só assim vingaria com justiça, ou seja, no culpado, a morte do seu pombo. Fora de questão. Impunha-se o esclarecimento dos factos. Só então, esclarecidas as dúvidas, Baltazar se decidiria sobre o destino a dar à história. Chegado a esta conclusão, Baltazar enrolou mais um charro e refastelou-se em frente ao televisor a ver um episódio de McGyver. Adormeceu. Quando acordou, fez um esforço danado para se lembrar das conclusões a que havia chegado antes de adormecer. Como não conseguiu repor os raciocínios, muito menos a lógica das emoções que o havia impelido a uma conclusão que era agora apenas uma vaga ideia, resolveu a única coisa que em toda a sua vida foi exímio em resolver: deixar os dias passar e passar pelos dias como se tudo fosse esse nada que um dia se resolverá a si mesmo.
Escrito para O Indesmentível.

Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

VOTO COELHO

Na falta do eterno candidato a candidato Vieira, José Manuel Coelho trouxe um agradável colorido às presidenciais. Ainda que algo previsível, é o único candidato interessante. Cavaco é um mistério, um indivíduo cinzento que a gente nunca há-de perceber como é que chegou onde chegou. O povo que temos gosta daquela coisa porque é o povo que temos. Andou a servir trafulhas durante dez anos, prepara-se para continuar a servir-se a si próprio durante mais cinco. 20 anos de Cavaco é mesmo deprimente. Pronto, certo, a Maria Cabrita precisa dele, afinal só tem 800€ de reforma. Uma pechincha.

Defensor de Moura… quem é Defensor de Moura?

Nobre é a Madre Teresa de Calcutá das presidenciais. Está na campanha para não ser como os outros fazendo exactamente o mesmo que os outros fazem: discursos insignificantes, comícios sem conteúdo, foguetes retóricos no vazio. Diz que quer marcar a diferença e a única diferença que tem para marcar é o facto de não ser apoiado por nenhum partido. E daí? A sociedade civil que temos não me merece assim tanto respeito que me leve a votar num candidato que se auto-proclama o seu.

Chico Lopes é fixe. Sacrilégio! Tenho uma teoria sobre estes tipos do Partido Comunista, é a mesma que o meu pai tem sobre os tipos do PCTP/MRPP. Só têm um problema: o serem comunistas. Tudo o que afirmam é de uma afinação diapasiana, são incapazes de proferir uma mentira, têm uma capacidade de resistência inacreditável, foram electricistas, mecânicos, agricultores mas parecem saídos das melhores universidades norte-americanas. São tipos mesmo bacanos. Mas são comunistas. E a verdade é esta: o comunismo não me inspira senão desconfiança.

Alegre é alguém que tem a mania que é. Meteu-se-lhe na cabeça que havia de ser Presidente da República. Aquilo é paranóia de poeta. Não há nenhuma consistência política nos seus discursos, o embaraço é indisfarçável tendo em conta o historial oportunista. Alegre é uma espécie de Postiga, desmarca-se bem mas a bola vai-lhe sempre ao poste. Sempre que o vejo não consigo afastar da cabeça a ideia de que se trata de alguém com meras aspirações literárias. Não tem quaisquer aspirações políticas. Aquilo é tudo sonho, como uma criança que se perde na ilusão de vir a ser: o Poeta Presidente. E por isso ficar na história. Que triste!

Resta Coelho. O Coelho tem pinta. Aposto que era o malandro da turma. Os media acham-lhe graça e não é razão para menos. O tipo é um stand-up comedian nato com um currículo que parece saído de uma obra de humor surrealista. Topem bem: Inscrito no PCP, é deputado regional pelo PND… Continua a declarar-se comunista, apesar de representar um partido de direita. Ardina do Garajau, o jornal satírico de que é director, se for eleito Presidente continuará a ter um terço do vencimento penhorado para pagar indemnizações a que foi condenado. A República precisa de um homem destes.

NATAL DOS SANATÓRIOS

O momento mediático mais patético do ano está visto: o regresso de Júlia Pinheiro à SIC. Foi filmado. Muitos abraços embalados por sorrisos amarelos, uma fotogenia lisa, insípida, indisfarçavelmente snob e dissimulada, declarações lodosas de tanta lamechice, uma hipocrisia indisfarçável, sapos atravessados nas gargantas trémulas, comoção de plástico, pose e espectáculo. Notícia de telejornal. Já não via uma coisa assim desde o último Natal dos Hospitais.

É CRÍPTICO

Nunca fui de me entusiasmar com promoções, oportunidades de última hora, campanhas, saldos. E desconfio sempre de homens de bigode na companhia de mulheres com madeixas louras no cabelo.

É CRÍTICO

O dinheiro que a televisão pública gasta com programas de merda como aquele que está agora mesmo a ser transmitido na RTP1. Um gordo alto na companhia de um gordo baixo recebem um magote de gente aos berros, gente daquela que aparece nas capas das revistas, a fingirem que estão a jogar a uma coisa qualquer. Aquilo tem audiência? Vale a pena o investimento? Acabei de reconhecer uma das bezerras de serviço, fumámos um charro juntos em São Martinho lá para os idos da década de 1990. Vejam bem no que deu a moca.

Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011

Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

FOME


Ainda que sob a ressalva de a ter lido sob tradução portuguesa, confesso que a prosa da norte-americana Elise Blackwell (Austin, n. 1964) não me entusiasmou particularmente. Tudo muito certinho, no devido lugar, como um exercício académico em busca da melhor avaliação. Fome vale pela história que tem para contar e pelo registo confessional que caracteriza a narrativa. Esta novela publicada em 2003 oferece-nos o relato de um homem em estado de exame de consciência. Os factos relatados remetem-nos para os tempos da II Grande Guerra, misturam história com ficção, transportam-nos da Nova Iorque actual, onde o narrador se encontra, à São Petersburgo (ou Leninegrado) da década de 1940.

É um erro acusar-se a situação confortável do narrador. O homem é um sobrevivente com a consciência em xeque, está a sós com as suas memórias, rodeado de conservas, e procura afastar os seus fantasmas com comportamentos que não podem deixar de ser julgados em função das experiências traumáticas anteriormente vividas. No epicentro das suas recordações, ergue-se como uma luz impagável a imagem de Alena, a mulher, vítima da fome que as bombas de Hitler trouxeram. É-nos fácil julgá-lo a partir das suas confissões, nomeadamente as traições amorosas, as vacilações de carácter, a menor capacidade de resistência. Mas tudo isso nos é apresentado num momento de confissão e, ainda que não nos mova a fé cristã, é de todo admirável sentir na personagem o reconhecimento da sua verdadeira tragédia.

Durante a guerra, as privações tomaram conta da cidade. Homens e mulheres vendiam-se a troco de terem o que comer. A fome corroía o corpo, a alma, a decência, relativizava a moral, impelia as pessoas para uma angustiante inumanidade. No Instituto de Pesquisa da Indústria de Plantas foi acordado entre todos que, por mais que fosse o apelo da necessidade, ninguém se alimentaria/serviria das colecções de sementes recolhidas com tanto sacrifício. «Iremos protegê-las a todo o custo» (p. 17); protegê-las, neste caso, não apenas dos predadores habituais (ratos e quejandos), mas dos seus próprios zeladores. O carácter dúbio do narrador começa a revelar-se a páginas 20:

«Jamais vacilei ou incorri em pensamentos de fuga. Jamais abandonei uma viagem cedo, nem recusei a inscrever-me em primeiro na lista para a próxima viagem. Em todo o instituto as pessoas comentavam a minha coragem.
Por isso talvez seja um cobarde e talvez não seja. Corajoso de corpo e fraco de mente, talvez, carecendo da moral determinada e duradoura da minha Alena ou da coragem intelectual do grande director».

O tom é de autocrítica e desesperada redenção. Percebemos que entre este homem e a sua falecida mulher há uma relação de profunda admiração cuja vida não soube brindar com a pureza de um amor eventual e provavelmente feérico. A realidade é dura e, assim como as plantas que precisavam de ser protegidas dos homens, também os homens precisam ser protegidos de si próprios. Fome alerta-nos para este pormaior tantas vezes desatendido: o homem é presa de si próprio, prefere o rumor das ilusões ao desconforto da verdade, quando a fome aperta alimenta-se do que tem à mão e, assim como é capaz de morrer à fome por um ideal ou por convicção, também é capaz de sucumbir à fome por direito à vida.

Entendamos o paradoxo a partir da cruel constatação de um sobrevivente: «Onze mil passaram fome em Novembro. Mais de cinquenta mil morreram em Dezembro, quando a madeira para os caixões há muito se esgotara» (p. 47). Ter escapado a este destino, porventura por amor à vida, só foi possível em circunstâncias que agora classificamos de traiçoeiras. Mas em certos casos, em casos limite, a deslealdade não provém senão da fome mais justificável: a fome de vida. Este homem confessa a sua fraqueza, comeu sementes que devia ter protegido, traiu a sua heróica mulher em todos os planos imagináveis, só não conseguiu trair a sua vontade de viver. Pode isso ser censurado?

A MORTE DOS FAMOSOS

Carlos : Olha que eu sou como o vinho do Porto.
Renato: Então espera aí que vou buscar o saca-rolhas.


Digamos que nesta piada, independentemente do seu bom gosto ou da sua inconveniência (mau será quando pedirmos às piadas que sejam convenientes), está o que de melhor o povo tem. E foi da boca inocente desse mesmo povo que hoje também ouvi, sem que tal tivesse sido dito para ter piada:

Parece que as irmãs do Carlos Castro já chegaram à América. Vão-lhe fazer a queima das fitas.

PROFETAS DA CATÁSTROFE

Regresso inesperado a Mausoléu – A história do progresso em trinta e sete baladas, livro de Hans Magnus Enzensberger (n. 1929) originalmente publicado em 1975. A versão portuguesa é de João Barrento e apareceu com o selo das Edições Cotovia em Fevereiro de 2004. O tradutor chama-lhes poemas-retrato e poemas-relatório, mas podem simplesmente ser entendidos como poemas biográficos, se pensarmos na biografia como uma reconstrução subjectiva dos factos que marcaram a vida de alguém. Enzensberger escolheu um conjunto diversificado de personalidades históricas e resolveu retratá-las, não de um modo laudatório, mas de um modo crítico, como que interpelando os feitos que esses homens outorgaram à história. A questão pode ser colocada em dois planos: o que houve nas vidas privadas destas personalidades que acabou por condicionar a sua actuação pública e até que ponto a sua actuação pública pode ser considerada um degrau na dúbia escadaria do progresso. João Barrento afirma que «vistas no seu conjunto, estas luminárias lançam sobre os tempos modernos um brilho ambivalente que muitas vezes suscita a pergunta: valeu a pena? O desencanto está lá, embora não seja ingrediente único» (p. 16). Mas é, indubitavelmente, aquele que mais sobressai. Sobre Niccolò Macchiavelli: «A história, o teu auto-retrato, senhor das ratazanas / e de pilhagens, falsos juramentos e labirínticas intrigas» (p. 39). Sobre Gottfried Wilhelm Leibniz: «Vida privada: nenhuma. Interesses sexuais: inexistentes. Emocionalmente / L. é um cretino. A sua relação com os outros é a do discurso, / e mais nada» (p. 67). Inesquecíveis são os poemas dedicados a Charles Fourier, Charles Robert Darwin, Michail Aleksandrovic Bakunin ou Ernesto Guevara de la Serna. Mas de todos, o meu preferido é aquele que tem por motivo Thomas Robert Malthus. Vem a propósito:

T. R. M. (1766-1834)

Quem passou muito tempo sem comer está fraco de mais para falar,
esgaravata no lixo, não faz poesia. O que sabemos da fome
vem da boca dos que estão saciados; grande saber não será.

Grande folgazão: no verão, um pouco de remo, no inverno,
patinagem no gelo no lago da aldeia.
Durante cinquenta anos
nem uma vez o vi perder as estribeiras.

Bochechudo, molengão, contradizia a felicidade com voz firme.
A sua felicidade? A felicidade. Não havia na época qualquer ideia nova
na Europa: não haverá mais guerras, nem crimes,
nem sentenças, não haverá governos; nem doença ou sofrimento,
nem preocupações ou ódios. Resposta: Nunca consegui ter sobre as
[minhas faculdades
racionais aquele domínio que me permitisse acreditar sem meios de prova
naquilo que queria. (Ensaio Sobre o Princípio Demográfico
e sua influência em todas as futuras melhorias da sociedade
seguido de algumas notas sobre as especulações dos senhores Godwin e
[Condorcet.)

Homem simpático, bom coração. O génio e a loucura não lhe diziam nada.
Alimentava-se, honestamente, da sua sinecura, mas a obra de Süßmilch
A Ordem Divina nas Transformações do Género Humano
não o tranquilizou. Pôs-se a estudar anuários estatísticos,
abandonou a paróquia, fez viagens à Rússia e a outros lugares.
A Europa inteira ficou assustada com os resultados. Exorcismos monótonos:
este cortejo de doenças comuns e epidemias,
de carestia, pestilência, sublevações e crises de fome.

O pastor de almas da boa gente de Walesbury exalta-se
com
os prazeres mundanos, os artifícios indecorosos,
as paixões desnaturadas; mas o seu grande volume calcula pela primeira vez
as forças da natureza contidas em úteros e testículos, tal como o físico
mede a velocidade e o alcance de um projéctil
em ambientes de diferentes densidades: tudo isto
é necessariamente tal como é, e assim será sempre.

Acusador descarado da classe dominante, homem vulgar,
doutrina infame, cinismo, detestável blasfémia: falar é fácil,
mas o tempo de duplicação continua a ser
de cerca de trinta anos, e continua a valer a fórmula: P(t)=P(o)e(rt).*

É verdade que os seus cálculos não eram muito exactos. Mas uma coisa ele
[sabia:
há qualquer coisa que cresce e se multiplica sempre mais. Também o
[crescimento cresce,
também a fome cresce, o medo cresce. De faces rosadas, sentava-se,
esfregando as mãos, a tomar chá, esperava que uma mulher rosada lhe
[trouxesse
os seus muffins, sempre a mesma, com a qual ele, discreto e pudico,
dormia uma vez por mês: um intrépido cagarola,
um simulador que toda a vida se fez passar por saudável,
o grande folgazão entre os profetas da catástrofe
.


*A fórmula não é exactamente esta. Não consegui transcrevê-la correctamente para o motor de publicação do Blogger.

Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011


Jovem, quando te disserem que este país precisa de 20 salazares, podes sempre perguntar se não seria melhor 10 mourinhos.

DO NOJO

sociedade dominada por valores corrompidos e pervertidos, que em lugar de promoverem a dignidade humana em todas as suas dimensões e fazerem do esforço, capacidade, trabalho, honestidade, integridade moral, orientações e práticas de vida, alavancam a futilidade, a superficialidade, o consumismo, o ter em vez do ser, a confusão entre 'ser-se conhecido' e 'ser-se alguém'.

sem-se-ver, AQUI.

MERGULHO

No outro dia perdi a cabeça, levantei a voz à altura do peito, que em dias normais anda-me pelos calcanhares, e decretei feriado nacional no nicho familiar: vamos passear. Aonde, inquiriram de imediato as crianças. A Ana olhou-me de esguelha, pensou que dali, isto é, de mim, não sairia coisa decente, e pensou avisadamente, como uma fêmea digna de ser fêmea. Vamos ver o mar, esclareci as crianças, esfuziante de entusiasmo e sem borras debaixo da língua. Ver o mar? ─ protestaram com a decepção tomando-as pelas rédeas ─ Mas nós vivemos a 100 passos do mar, é só descer as escadas, atravessar a rua e ali está o mar a beijar-nos os dedos dos pés. Tu és pescador, pai, vês o mar todos os dias, e nós vemos o mar porque todos os dias olhamos para ele a ver se voltas, e voltas sempre, o que nos deixa num estado de paradoxalidade emotiva porque já não sabemos se é melhor que regresses ou que fiques para lá do horizonte… Bem, isto as crianças já não disseram. É a minha imaginação a divagar sobre o gelo das retinas que me fixaram com indubitável decepção.

Há que compreender as crianças, estão no seu direito, protestar, reclamar, faz parte da natureza infantil, cabe-nos entender isso e aceitá-lo sem discussão. Por isso mesmo, voltei a dizer: muito bem, têm toda a razão, mas vamos ver o mar e não se fala mais no assunto, discutir para quê, já sabemos que vocês têm toda a razão, mas ver o mar é o que nos resta de conforto e paz e alegria, é o bálsamo que as nossas almas inquietas aspiram, o perfume pelo que o nosso espírito atormentado anseia, o mar torna-nos pequenos fazendo-nos sentir grandes, afunda-nos numa misericórdia sem sacrifício, ajuda-nos a perceber a real dimensão das coisas, é um mestre, transporta-nos para o devido lugar, o lugar das rolhas de cortiça à deriva nas águas agitadas da insatisfação, sobre o mar andaram todos os grandes aventureiros, foi o mar que nos levou aos outros, à diferença, pelo mar chegámos a povos inimagináveis com hábitos impensáveis, culturas ancestrais que julgávamos apenas possíveis na imaginação dos mais loucos de entre nós, o mar dá-nos e deu-nos tudo, por isso, agora que nada temos, vamos ver o mar, a ver se dele chegam garrafas com mensagens de esperança e alegria. Assim foi.

Descemos as escadas, atravessámos a avenida principal, entrámos na praia, puxámos o fecho dos anoraques até ao queixo, protegemos o gelo interior do frio externo, como se estivéssemos a tentar extinguir um fogo de frio com mais frio, andámos uns metros e parámos a pensar na vida. Até que a minha mais velha perguntou: ó pai, como é que viemos aqui parar? A distracção manteve-me em silêncio durante alguns segundos, até que a Ana, como uma fêmea digna de ser fêmea, acotovelou-me os sonhos chamando-me à realidade: a tua filha fez-te uma pergunta. Lá muito do fundo do que lhe havia escutado, perdido que andava por sonhos sem enredo, tentei explicar-lhe que chegámos aqui vindos do nada,

há 50 anos, nem isso, os nossos avós ainda erguiam as próprias casas com estuque, os filhos andavam descalços, comiam do que a terra dava, não havia torneiras nem água quente, ninguém pagava gás, luz, saneamento básico, porque isso era coisa que não havia, ia-se ao poço, aquecia-se a água no forno a lenha, era preciso amealhar lenha para o fogo, comia-se do que a terra dava, batatas, amassava-se o pão de milho, apanhavam-se azeitonas, vergastavam-se as árvores, quando alguém adoecia matava-se uma galinha e improvisava-se uma canja, compravam-se trapos para o corpo uma vez por ano, o dinherio para os trapos vinha do vinho, isto há 50 anos, ia-se para a guerra porque era preciso haver quem nos defendesse dos terroristas, os terroristas eram pretos, lutavam pelo direito à sua terra, a terra que nós ocupáramos para aí podermos comer camarão e beber cerveja gelada numa esplanada com vista para o mar, isto há 50 anos, os maridos partiam para África e as mulheres ficavam sozinhas com os filhos, com sorte recebendo alguns tostões vindos da guerra, que serviam para amanhar o tempo e fazer esquecer amarguras entretanto recalcadas, porque os dias custavam a passar, 12, 24, às vezes mais meses de angústia, isto há 50 anos,

não era como agora, temos computadores, fixos, portáteis, frigorífico, fogão a gás e microondas, televisão na sala e na cozinha, leitores de tudo e mais alguma coisa, trazem-nos a água à torneira, o gás ao esquentador, para tal basta pagarmos e com a simplicidade de quem carrega num botão transformamos as noites em dias, de há 50 anos para cá crescemos muito, e rapidamente, como viemos aqui parar?, dando a todos um pouco do que apenas alguns tinham, esses alguns que tinham tudo e, numa espécie de nostalgia mórbida, sonham em apenas eles voltar a ter, porque não suportam, não se conformam, não aceitam que tenhamos vindo aqui parar, daí que sentenciem com tão dramático entusiasmo o fim do mundo, o começo de uma nova era de austeridade, novidade essa que mais não é do que um regresso ao tempo de onde viemos e ao qual não queremos regressar, porque agora estamos aqui e temos o mar por perto, e ainda que isso não nos baste, conforta-nos pensar que estando ele por perto sempre poderemos, se for caso disso, afogar o desespero com um mergulho sem regresso.

SONHOS




Ontem, ao passar os olhos mais uma vez pel'As Pontes de Madison County, voltei a ouvir Clint Eastwood dizer que não concretizou nenhum dos sonhos que teve, mas ainda bem que os teve. Disse aquilo com um sorriso no rosto, um sorriso algo embaraçado, sem saber onde meter as palavras como um homem que não sabe onde colocar as mãos.

Temo vir a sentir algo parecido quando, daqui a uns anos, vier a afirmar com o mesmo constrangimento que não concretizei nenhum dos sonhos que não tive. E jamais saberei se teria sido preferível passar pela vida perseguindo sonhos irrealizáveis.

Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: ÁUSTRIA


Em boa verdade, que de más está o Inferno cheio, Thomas Bernhard nasceu ilegitimamente em Heerlen, na Holanda. Nascer ilegitimamente, neste caso, significa ter tido por progenitor um carpinteiro desapegado que acabou a suicidar-se em Berlim pouco depois de ter sido obrigado a reconhecer os seus deveres paternais. Isto é importante, se tivermos em conta dois aspectos fulcrais na vida do escritor austríaco: a perseguição da ideia de suicídio e a péssima relação mantida com a pátria, não sendo de desprezar uma interligação psicanalítica entre ambas. Dizê-lo austríaco só não é um sacrilégio por se tratar de uma convenção, talvez um ligeiro desrespeito às últimas vontades do autor ou, quiçá, uma forma de facilitar o enquadramento social e geográfico da sua contínua inquietude.

Foi por mero acaso que no dia 9 de Fevereiro de 1931 Hertha Bernhard, filha do escritor Johannes Freumbichler, pariu na Holanda o pequeno Thomas. Ainda o manteve consigo durante alguns meses, tendo posteriormente passado o bebé aos cuidados dos avós, residentes em Viena. Hertha acabou por casar com um cabeleireiro chamado Emil Fabjan. Foram viver para Traunstein, na Alemanha. Portanto, a infância de Thomas foi passada neste clima familiar instável, entre Heerlen e Traunstein, passando por Viena, ora ao cuidado dos avós, ora na companhia da mãe e do padrasto.

Depois de ter frequentado instituições vocacionadas para crianças difíceis, lá descobriu algum sossego como interno num colégio católico de Salzburgo. Foi o avô quem acabou por exercer sobre o jovem a maior influência cultural. Queria que o neto se tornasse músico ou cantor, mas a música acabou por ser outra. Em 1947 abandonou o liceu e começou a trabalhar numa mercearia, tendo aí contraído uma doença pulmonar que nunca mais o abandonou. Podemos afirmar que Thomas Bernhard faz parte daquele grupo de escritores para quem o pulmão doente é a origem do génio. Não são poucos, afianço-vos.

Em 1949 perdeu o avô. Estavam ambos internados num hospital de Salzburgo. Tentou ganhar a vida como jornalista no Socialist Demokratisches Volksblatt, jornal que abandonou depois de ter sido aliciado a aderir ao Partido Socialista. Começou então a escrever contos e poesia. Os primeiros escritos apareceram publicados em jornais e revistas e o primeiro livro foi uma colectânea de poemas, Na Terra e no Inferno, dada à estampa em 1957. Nesse mesmo ano conseguiu um diploma na Academia Mozarteum, onde estudou música e teatro. Contudo, foi o romance de 1963, Frost, que lhe ofereceu um reconhecimento mais sólido.

Considerado polémico e difamador da pátria, alimentou um ódio à sociedade vienense que nunca procurou esconder. Escapava-lhe com viagens pelo Sul da Europa. Sem nunca ter casado, manteve uma relação muito íntima com Hedwig Stavianicek, mulher mais velha com quem se cruzou pela primeira vez no sanatório de Grafenhof. Depois do avô, foi Stavianicek quem exerceu maior influência sobre a inclinação de Thomas Bernhard para a escrita. Thomas Bernhard faleceu a 12 de Fvereiro de 1989, deixando em testamento que nenhuma obra sua pudesse ser publicada, representada ou recitada em público na Áustria enquanto estivesse sujeita aos direitos de autor. Portanto, aqui estamos nós, no Portugal de Pessoa a lembrar a Áustria renegada de Bernhard:

TENHO DE VOLTAR À ALDEIA

Tenho de voltar à aldeia em que cresci,
ao rio que banha as minhas sepulturas,
à alma da casa em que o meu pai cultivava
a vinha e a vida dos seus filhos,
onde está gravado em tufo: «Atira-te ao mosto e ao presunto dos mortos.»
Tenho de voltar à aldeia em que me conspurcaram com os seus ditos,
à noite que sabe ao feno da fome,
à sombra que devora a colina,
à escuridão dos blocos de pensamento, nos quais se encontra o meu nome,
[o nome do mortal.
Tenho de voltar à aldeia que abusou da minha saudade,
em que bateram o leite para o tornar água,
em que destruíram as estrelas com as suas risadas.
Tenho de voltar à aldeia em que
se apagaram as marcas das botas do meu pai,
em que a minha mãe morreu de fome no último ano da guerra,
em que os peixes fulgem como o único céu!
Tenho de voltar à aldeia onde a aveia se ergue como o sol,
onde andam as vacas,
onde os regatos anunciam como é esplêndido ter medo das cidades,
onde o jarro se enche de orvalho e ciúmes.
Tenho de voltar a essa aldeia,
antes de estar morto
e corroído pelo vento que leva o meu signo.


Thomas Bernhard, in Na Terra e no Inferno, trad. José A. Palma Caetano, Outubro de 2000, p. 213.

Domingo, 9 de Janeiro de 2011

ÂNIMO

O grande desafio neste início de ano será a busca de ânimo. Não espero sequer encontrá-lo, basta-me inventar motivos para buscá-lo.

VIOLÊNCIA CONTRA ANIMAIS

Domesticar, reproduzir, amestrar, consumir. Contra a culinária assassina, como alfaces. E não vejas o Anthony Bourdain. Se passarem os 101 Dalmatas na TV, desliga o aparelho. Sempre que ouvires música, certifica-te de que não há por ali peles animais. Se fores atacado por um peru em fúria, ajoelha-te e lembra-te: o peru tem toda a razão, a sua fúria justifica-se.

Sábado, 8 de Janeiro de 2011

NA MINHA CAPITAL

É um poema de Thomas Bernhard (1931-1989) e termina assim:

Mas que encontrei eu na minha capital?
A morte com a sua boca de cinzas, aniquiladora, sede e fome,
que repugnava, porém, à minha própria fome, porque era
uma fome de carne e de pão, de rostos e retretes,
uma fome que balbucia o opróbio desta cidade,
uma fome de mesquinhez,
brilhando de janela a janela, gerando primavera e glória pútrida
sob as escadas do céu.
Eu estava preso e de podridão cansado,
longe das florestas e longe dos anseios da morte de anos em ruínas.
As pedras cinzentas e inconsistentes deste vigamento clamavam em fúria,
mas eu mesmo não era mais que risadas, risadas do Inferno,
que me fizeram esquecer a cilada dos homens em que eu tinha caído,
uma hora negra do mundo
no vento de Novembro da minha existência...


Thomas Bernhard, in Na Terra e no Inferno, trad. José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Outubro de 2000, p. 89.
Que crítico digno da sua profissão se acriança a dar estrelas? Que gente é essa que produz listas de leituras em que a presunção tresanda? Para que o fazem? Que julgam provar?
J. Rentes de Carvalho, aqui.

COMO SE NADA FOSSE TUDO


Para o Amadeu Baptista.

Já deu para perceber que vivemos numa capoeira. Não somos propriamente frangos de aviário, vivemos numa capoeira. Perante esta constatação, resta-nos uma de duas hipóteses: levantar a crista e seguir caminho como se nada fosse, baixar a crista e deixar que dos ovos nasçam frangos já assados como se nada fosse. O segredo é sempre olhar para o mundo, para nós próprios, como se nada fosse. Esta postura tem, pelo menos, a virtude de nos dispensar daquela miserável atitude de quem se leva muito a sério, que é esquecer-se ou forçar ao esquecimento o facto claro e evidente de que estamos de passagem. Portanto, como se nada fosse, passamos um cheque sem cobertura à vida, pelos serviços prestados preenchemos o recibo verde não declarado, permitimos que a aflição nos acuda em tempos de morte, recordamos febrilmente as provações do passado e as presentes como se nada fosse, como se o futuro fosse já uma relíquia de trazer pelas feiras de velharias onde, ao fim de semana, passeamos os olhos.

Recordo-me agora de Omar, o senegalês que me apaziguou as mágoas durante os últimos meses que passaram. 13 horas por dia a vender estatuária proveniente das mãos dos artífices que, no seu país natal, desconhecem outra vida que não seja a de dar à madeira formas eventualmente apelativas aos olhos cultos do ocidente. Chegam-nos essas formas em contentores posteriormente distribuídos por feiras de artesanato, bancas improvisadas à beira mar, refúgios de um certo ar exótico que pretendemos imprimir à nossa pálida paisagem. Durante os últimos meses ouvia-o cantar, fui guardando esse canto num lugar da memória que é o mesmo onde guardo todos os bálsamos da alma. E certo dia paguei-lhe um café, meti conversa, falámos do lá e do cá, do Ramadão, do Natal, do cristianismo e do islamismo, da mãe de água, da menina que transporta ramos de lenha em fogo à cabeça, do leão, da tartaruga que dá sorte, do tempo que passa à semelhança dos rios que correm. Agora vai-se embora, provavelmente nunca mais o verei. Comprei-lhe um quadro, para poder olhá-lo sempre que o tal canto se esbater sob as trovoadas do esquecimento.

O Omar com a sua vida, nós com a nossa, somos todos, e os poetas mais que ninguém, como esses chindōgu de que falava a revista. Chindōgu: a arte japonesa de inventar utensílios sem qualquer utilidade. Ferramentas embaraçosas que o homem desembaraçou das amarras sociais da conveniência, da vantagem, do lucro, enfim dessa estúpida clonagem do sucesso que é o lucro que podemos espremer da utilidade. Note-se o paradoxo: ao associarmos o progresso ao desenvolvimento de gadgets que nos rentabilizem o tempo, esse eterno ditador ao qual temos vindo a tentar fazer frente desde tempos imemoriais, tornámo-nos escravos da produção desses mesmos gadgets. É simples: podemos ter 500 canais informativos disponíveis, mas o tempo de que dispomos para usufruir desses canais, porque eles precisam de ser pagos e nós precisamos de ganhar dinheiro para os pagar, permite-nos apenas usufruir de um ou dois. Temos as casas repletas de porcarias que raramente utilizamos. Tê-las ou não tê-las, seria igual ao litro. Mas já não nos chega um telemóvel que dê para comunicar, precisamos de um que dê para jogar. Um carro já não se limita a transportar-nos, é todo um veículo de ilusões sociais.

Perante este cenário, o poeta transformou-se num chindōgu, isto é, uma invenção cuja utilidade é não ter utilidade alguma. Italo Calvino, numa das suas cidades, dizia-nos que «tudo é inútil, se o último local de desembarque tiver de ser a cidade infernal…» E a cidade infernal é, hoje em dia, a de toda uma geração que vai ter de medrar no estrume do arrependimento. Ou, como diria Polo, restam-nos duas opções: aceitar o inferno ou tentar reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar. Porque o inferno é crescermos na direcção de um lugar sacrificado em nome de tudo o que deploramos, é crescermos para a velhice a pensar no que poderíamos ter sido se à nossa volta as circunstâncias tivessem sido outras, é chegarmos a velhos e olharmos para trás como quem olha uma miragem, pensando que aos nosso filhos pouco mais restará do que habituarem-se a esta ideia de que por eles descurámos grande parte da nossa inutilidade. A não-utilidade não deveria ser graça e humor, deveria tornar-se a política essencial das sociedades desenvolvidas. Nela reside, adormecida, a salvação, ao passo que fora dela vamos sendo vigiados pela perdição do lucro, do sucesso e de um progresso que nos usurpa a vida em troco de nada. Um nada que é tudo, como se nada fosse.

CAEM. DIREITAS À TERRA, CRIANÇAS...


Caem. Direitas à terra, crianças
que se dependuram nas varandas
a secar. Prumos de sangue,
suicidadas pelos pais. Entre o povo
é assim: sempre sobram
mais filhos para deixar cair
no esquecimento. É o que acontece
por maternidades indesejadas
de noivas de pechisbeque.


Paulo da Costa Domingos, in O Homem Quase Novo, Frenesi, Novembro de 2010, s/p.

CRIME, DISSE ELA


Esta notícia, logo pela manhã de um Sábado de descanso, deixa-nos perplexos. Não lhe cortaram a língua, foram-lhe às partes. Mas o mais incrível de tudo, mesmo tendo em conta a brutalidade do crime, o mais incrível de tudo é o tipo de comentários que se podem ler no facebook do jovem modelo acusado do crime. É inacreditável. E ainda chamam ao ocidente mundo civilizado?

DEPÓSITO LEGAL



O ano já tem depósito legal: uma tempestade de pássaros mortos. Só me ocorre pensar na forte possibilidade de estarmos a sofrer neste momento uma inexplicável metamorfose. Acredito que o ser humano está a transformar-se num desumidificador, ou seja, num espremedor do ar. E é isso que anda a provocar a tempestade de pássaros mortos que vai caindo do céu.

Terça-feira, 4 de Janeiro de 2011

A GUERRA

Só participarei na revolução se for em horário pós-laboral.

PAPEL HIGIÉNICO






Como se saísse duma máquina
de gelados, aquela baunilha
vai saindo serpenteada
até ao cone de louça.
Leva em si carnes com excesso
de hormonas, cascas, farinhas à pressão
e líquidos a martelo,
gases e conservantes,
que protegem a sua chegada
até à praia
onde uma batedeira de ondas
prepara um batido, sempre
à sua espera.

Entretanto rasga uma tira de papel
não para limpar a sua criatividade
tecnológica, mas pró cu.


Jorge Aguiar Oliveira, de Quanta Maldição, in Homens Sem Soutien, Edição do Autor, 27 de Julho de 2002, p. 147.

PORTO SEM ABRIGO


Olho para o meu cão e penso o quão bem representa o povo português. Também podia pensar que já tenho o NIB para pagar à Trama a última compra de 2010: As Anotações de Malte Laurids Brigge e Die Aufzeichnungen Des Malte Laurids Brigge. Ah, pois é, isto agora vai ser um vê se te avias de citações em alemão. Porém, não nos distraiamos. Voltemos ao cão. Anda mal da próstata, não contém o pingo, precisa urgentemente de passar a usar fralda, tem os dentes podres, provavelmente está diabético, ainda não cegou mas confunde amiúde pantufas com cadelas. Assim anda o povo português, o mesmo que trouxe pelos suspensórios, durante 50 anos, uma ditadura ensimesmada e tristemente enfadonha (há delas que são uma alegria), o mesmo que ofereceu 10 anos de governo a um queixo calçadeira cuja maior virtude é não ler jornais, um indivíduo que raramente se engana e tem dúvidas excepto quando as dúvidas que tem são os desenganos que não assume, aprestando-se agora a consolidar no poleiro o seu cacarejo seco de galo sem crista. Presidente mais anti-tusa seria difícil de imaginar. Esteve à frente de governos executados por gente que só não está, não esteve e não estará na choldra porque este não é um país Independente. É um país caniche que não contém o pingo, confunde pantufas com gajas, tem os dentes podres e está provavelmente diabético. Ainda assim é o lado para que durmo melhor, deixando-me muito mais amargurado do espírito aquele episódio de amor e desamor na Rua de Santa Catarina. Não sei se ouviram falar. Pelo que sei e me deram a ver, dois carochos enrolados à moda cínica em plena baixa portuense. Vai daí o povo, representado por uma loura oxigenada com o rêgo à mostra e por um troglodita similar aos que pululam nas claques de futebol, não gostou. O povo tripa com apalpões à vista desarmada, marmelanço de ver ao perto, o povo gosta de passar olhando para o lado, reparando e fazendo reparos ou fingindo que não vê, incomoda-se com a desvergonha a céu aberto das gerações perdidas de sem-abrigo. Fodido, fodido, é não ter telha nem colchão para executar o acto à moda burguesa. Mas isso ‘tá quieto. Casa é para os chulos. Quem não tem casa não acasala e não se fala mais no assunto. E o povo, colado ao monitor, vota no ditador para grande figura do século, no Zé Maria para grande amigo e num pastor de Baião ex-proprietário de um bordel para grande vencedor de uma merda qualquer. Os carochos do século XXI, provavelmente sem nunca terem ouvido falar de Crates nem de Diógenes, resolveram dar corda à bebedeira com amor sobre a calçada. Uma cidadã mais indignada que as outras achou que era assunto para resolver à chapada, acudida por um herói que se atirou de punho cerrado sobre o Casanova cambaleante. Foi amor KO. Isto indigna-me, isto amargura-me, isto incomoda-me, isto chateia-me, isto polui-me a alma. Sou pelo amor a céu aberto. Por isso, desejo todo o bem do mundo aos carochos da Rua de Santa Catarina, faço deles os meus guias espirituais para 2011, e desejo todo o mal da Rua de Santa Catarina aos pategos que os agrediram. Acho que é justo, tendo em conta as circunstâncias.

Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011

Uma dança de zagaias como jamais se viu e dez mil bandeiras de vitória roubadas aos cetáceos eis o que a terra agita.
Aimé Césaire

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: MARTINICA


O ano “blogístico” que passou correu-me mal. Percebi hoje porquê: a culpa foi do Sr. Pitta, que não tinha nada que mencionar o meu weblog na LER como um dos melhores da década ainda a década não tinha terminado. A menção intimidou-me e eu fiquei a modos que aparvalhado, tentei levar-me a sério, deixei de beber em horário laboral, comprei uma Wii, fui ao barbeiro, fiz massagens nos pés. Quero libertar-me de tudo o que me aprisionou durante o ano transacto, quero voltar a ser quem era, um tipo respeitável, uma referência, o autor de um weblog de culto que será a voz da maioria silenciada pela maioria instalada, o messias dos escribas oprimidos e humilhados. Para tal, não vou voltar a beber em horário laboral. Isso está fora de questão. Mas prometo, desde já, voltar a levar-me menos a sério e acabar com as massagens nos pés, ainda que, para quem me conheça, tudo isto possa parecer um tanto ou quanto escamoteador. Eu só me levo a sério quando digo que não me levo a sério a pensar que me levo a sério, ou seja, tenho aquela tendência cínica insuportável de pensar sempre o contrário do que digo e dizer sempre o oposto do que penso, embora o que pense coincida invariavelmente com o que sinto, pois digo sempre que penso o contrário do que sinto e sinto sempre que penso assim mesmo embora o contrário não seja falso. Retórico, redondo, forçado, ilógico? É, mas tem a sua lógica. Portanto, a primeira mudança de princípios ocorrerá ao nível da volta ao mundo em poesia. Desta feita atiro as culpas para cima das costas da bluesy traveler, a quem devo não só a estapafúrdica ideia de me pôr a viajar em verso, isto é, de marcha atrás, como passo a dever igualmente, mal sabe ela porquê e eu idem, a decisão de optar por viagens mais ajustadas ao pormenor. A decisão acarreta efeitos imediatos. Em vez de ir às Antilhas Francesas, meto os pés directamente na Martinica. Porquê? Porque me apetece botar aqui um poema de Aimé Césaire. E o resto é conversa. Ponto 1: Césaire é preto, o que só lhe fica bem. Ponto 2 e subsequentes: nasceu em Basse-Pointe no ano de 1913, filho de gente pobre com aspirações de gente pobre. Os pais mudaram-se para Fort-de-France com a intenção de proporcionarem ao filho uma boa educação, o que, à época, significava uma educação humanística de tipo ocidental (as coisas tendem a ser algo diferentes e uma boa educação é uma educação para a escravatura capitalista). Na Sorbonne (de quem sempre ouvimos maravilhas), Aimé Césaire estudou literatura francesa, grega e latina, partindo posteriormente para a Jugoslávia. Na sua biografia não oficial diz-se que durante os tempos de Paris escreveu um longo poema que ficou sem editor durante cerca de dez anos. Não sabemos se o poema era bom ou mau. A deriva francesa permitiu-lhe entrar em contacto com gente como Léopold Senghor, também poeta e futuro presidente do Senegal. Em 1937 Césaire casou com Suzanne Roussi, de quem teve 4 rapazolas e duas senhoritas. Regressou à Martinica, para aí fazer carreira enquanto professor. Fundou a revista Tropiques, escreveu a primeira de muitas peças e, já no decorrer da II Grande Guerra, aproximou-se de Breton e de um certo surrealismo com inclinações políticas mais manifestas. Basicamente, o surrealismo de Breton. Daí que não sejam de admirar a adesão ao PC, a posterior eleição como deputado na Martinica, a participação nos processos de descolonização em África e, hélas, a demissão do PC em 1956, seguida da fundação do Partido Progressista da Martinica. Contudo, as decepções afastaram-no da política, assim como da poesia, que começara a publicar na Tropiques. Críticas ao racismo colonialista e à civilização europeia fizeram da sua obra um dos marcos da luta anticolonialista. In 2005 he refused to meet with Nicolas Sarkozy, the minister of the interior at that time. Boa. Césaire died on April 17, 2008, in Fort-de-France. Deus o tenha em boa cama:

FOI A CORAGEM DOS HOMENS QUE SE DEMITIU

A extraordinária telefonia do fogo central das nebulosas instalada num segundo e com que ordens! A chuva, é a forma colérica de aqui e agora se riscar tudo o que existe, tudo o que foi criado, gritado, dito, mentido, conspurcado. Quem foi que disse que a chuva cai?
Foi a coragem dos homens que se demitiu. A chuva é sempre devotada. A chuva exulta. É uma vaga em força da inspiração, um sobressalto de sons tropicais; um avançar de linfas; um frenesim de lagartas e de fáculas; um assalto tumultuoso contra tudo o que se enterra nas tapadas; o impulso contrário às gravitações de mil granadas loucas e de boomerangs que avançam aos saltos ─ hipocampos na direcção dos enfim e dos subúrbios.
Enfim! A árvore cheira a granada. A rocha explode. Ternura: de longe em longe este enorme repouso. Ternura: de longe em longe esta orquestra que toca e entrelaça os passos como quem faz um cesto.
Ternura, mas a das torturas adoráveis: o pegar de um incêndio de berbequins que brocam e forçam o vazio a explodir estrelas. É esta a raça. Além disso custa a entender como isso basta para alimentar a fantástica devolução de cavalos que de crista em crista correm a contrapelo o impulso das ravinas.
A realeza acabou. E a invenção perpetuou-se em cânticos de êxtase, em orações breves, em cerimoniais minuciosos de aranhas, em serras que sussurram, em cabeleiras desatadas, em lâmpadas de mesquita de vidro esmaltado entrechocando-se, em mares que correm e se contraem, em alambiques, em serpentinas que a todo o vapor vibram em condensações inesquecíveis.
Por certo inesquecíveis. Uma dança de zagaias como jamais se viu e dez mil bandeiras de vitória roubadas aos cetáceos eis o que a terra agita.
A vinha da ira lançou ao céu o álcool do seu repouso, da sua salvação.


Aimé Césaire, in Antologia Poética – Cadernos de Poesia 16, trad. Armando da Silva Carvalho, Dom Quixote, Dezembro de 1970, pp. 73-75.


*Senhor, peço perdão pelo uso da palavra acarreta. Prometo que não volta a acontecer.