sexta-feira, 27 de março de 2009

EM RESPOSTA A LUÍS CARMELO

1- No mundo tecnológico e instantanista em que vivemos, crê que a literatura, tal como a aprendemos a significar pelo menos desde o Iluminismo, ainda tem sentido?

O livro sólido, com peso de papel manchado de tinta, continuará a ter sentido enquanto usarmos as mãos que ainda temos, e o som do virar da folha do livro que não desistimos de ler continuará a ter sentido - enquanto reconhecermos esse peso e esse som como elementos físicos e simbólicos do acto de ler. Mas o nosso corpo está a mudar, e um dia faremos o download de livros no nosso cérebro em poucos segundos. Nessa altura os livros serão ainda mais virtuais, exactamente como o nosso corpo.

2- Qual foi o último acontecimento literário, independentemente da sua natureza, que mais lhe tocou? Porquê?

Um acontecimento à minha (pequena) escala: as críticas arrasadoras, e em parte merecidas, ao primeiro romance de uma pessoa que conheço e prezo, depois de assistir à felicidade com que recebeu um prémio por esse mesmo livro.

3- Fale-nos resumidamente do seu último livro, como se estivesse a revê-lo em voz alta para um grupo de amigos.

“A Resistência dos Materiais” (Exodus, 2008): Uma alegoria sobre o poder, entre o branco (Maria, a mulher sem sombra) e o negro (Rafaela, a mulher com a sombra mais densa que existe), que eu tentei que fosse um exercício de liberdade de linguagem.

4- Pensa que a literatura e a rede poderão vir a ter, de algum modo, um destino comum?

A literatura e a rede têm um destino comum, que é o destino da linguagem. O universo é um problema de tradução, e o destino do universo é resolver esse problema. A comunicação é possível porque há distância entre mim e ti; porque nós não somos coincidentes. Mas o que a Rede faz é criar ligações entre as unidades de linguagem, entre os pontos do universo. Um dia todos os pontos desse texto estarão completamente linkados; nessa altura, estar aqui ou estar do outro lado do universo será exactamente a mesma coisa, porque ele será homogéneo e imóvel (quem está em todo o lado já não precisa de se mexer). E então, paradoxalmente ou talvez não, deixará de ser possível comunicar - porque estarão resolvidos todos os problemas da tradução. Pode ser que nesse dia uma amigável explosão nos volte a transformar em muitos. Novos materiais, novos problemas, e porventura “nós” menos mesquinhos e com viagens mais baratas até ao Brasil.

5- Refira dois autores e duas obras que o tenham marcado na sua carreira.

Vale por dois: o livro “Einstein para principiantes”, que li quando tinha 10 anos e dizia que espaço e tempo são relativos e dependem do movimento do observador.


Rui Costa nasceu no Porto em 1972. Estudou Direito em Coimbra e foi advogado durante seis anos, em Lisboa e Londres. Concluiu um mestrado em Saúde Pública em Leeds, Inglaterra. Actualmente é professor na Escola Superior de Saúde do Vale do Ave.
Em 2005 publicou “A Nuvem Prateada das Pessoas Graves” (Quasi Edições), livro vencedor do Prémio de Poesia Daniel Faria. Em 2007 recebeu, pelo romance “A Resistência dos Materiais”, o Prémio Albufeira de Literatura.

quarta-feira, 18 de março de 2009

SÓ À NOITE OS GATOS SÃO PARDOS


só à noite os gatos são pardos
textos inéditos de autores contemporâneos
Organização de Jorge Velhote e Patrícia Pereira
Cantinho do Tareco - Associação de Protecção Animal
s/d (2009?)

O gato veneziano, pp. 31-32.

DE LA SAUDADE A LA MAGUA


De la Saudade a la Magua
Antología de relatos luso-canaria
Selecção e organização de Fernando Esteves Pinto e Agustín Díaz Pacheco
Prólogos de Henrique Manuel Bento Fialho e Félix J. Ríos
Ediciones de Baile del Sol
Canarias, Espanha
2009

Prólogo: Abrir Un Libro, Dejarlo Existir, pp. 11-22.

terça-feira, 17 de março de 2009

O CARNAVAL DOS ANIMAIS

Em 1886 Camille Saint-Saëns compôs Le carnaval des animaux, uma peça para dois pianos que acabaria por vir a revelar-se a mais célebre das obras do compositor francês. O poeta Rui Caeiro tomou-lhe o título de empréstimo e organizou um magnífico conjunto de epigramas de inclinação fabulística. Há muito de braço dado com Vítor Silva Tavares nessa poética aventura editorial que dá pelo nome de &etc., Caeiro faz questão de assumir o seu ateísmo militante em livros tais como Sobre Deus, sobre o magno problema da existência de Deus (1988), O Toureiro de Deus (1998) ou Olhar o Nada, Ver a Deus (2003). Nesta recolha mais recente o nado-morto não é esquecido, muito embora o Carnaval dialogue directamente com outros livros do mesmo autor. Pensamos em 49 Espinhas para um Gato (1997) e Gatos e Homens (2002). No excelente prefácio que inaugura as hostilidades, José Manuel de Vasconcelos lembra que: «A literatura portuguesa não é abundante no tratamento específico do tema dos animais. Há principalmente uma linha fabulística, mas, mesmo essa, muito subsidiária dos universos da fábula clássica, em que os animais falam e se comportam em tudo como pessoas, com objectivos de crítica de costumes, de denúncia social e propósitos moralizantes» (pp. 7-8). Neste caso, os objectivos não serão diversos, mas o propósito é claramente outro. Mais do que moralizar, os aforismos de Rui Caeiro testemunham um olhar arguto, atento, irónico, sarcástico quando o tema o exige, sábio - por que não reconhecê-lo? – no modo como perspectiva a realidade. Ao contrário da fábula clássica, eximiamente sintetizada no trecho citado, estes epigramas, ou, se preferirem, estes aforismos, não procuram tanto pôr os animais a falar como conseguem pôr os homens na fala dos animais, não vêem tanto comportamentos humanos nos animais como parecem ver comportamentos animais nas pessoas. De resto, a distinção entre o ser animal e o ser humano aparece recorrentemente, ou então acabam ambos integrados no conjunto das bestas, pelo que é de assinalar o facto de os próprios homens – enquanto classe animal específica - serem integrados neste bestiário carnavalesco onde desfilam suricatas, rolas, melros, pardais, formigas, elefantes, caracóis, baratas, águias, peixinhos de prata, cágados, mosquitos, andorinhas, bois, sapos, garças, tubarões, coelhos, leopardos, esquilos, papagaios, cavalos, hienas, cisnes, bivalves, pirilampos, açores, morcegos, pumas, girafas, grifos, abutres, borboletas, serpentes, bichos de conta, burros, galinhas, pavões (um deles dedicado a Manuel Alegre), porcos, camelos, dromedários, corujas, lesmas, lobos, ursos, zebras, rãs, grilos, aranhas, gatos, otárias, pombos, hipopótamos, rinocerontes, búfalos, cabras, cabrinhas, leões, leoas, golfinhos, iguanas, vermes, salmões, minhocas, castores, cães, medusas, tigres, lontras, leões marinhos, corças, catatuas, pinguins, moscas, crocodilos, chimpanzés, lagartixas, ouriços, toupeiras, abelhas, bichos da seda, baleias, flamingos, cangurus, pulgas, chitas, gazelas, alforrecas, linces, camaleões, lagartos, raposas, corvos, touros, ratos, vírus, bactérias, peixes, peixinhos vermelhos, sereias, avestruzes, aves, feras, monstros, animais de raça… A exaustão do inventário permite tornar explícita a relação entre um imaginário colectivo referente a animais inventados e a natureza adjectivante que muitas das bestas convocadas adquire na língua portuguesa. O boi não é apenas o quadrúpede ruminante e chifrudo que todos reconhecem, é também aquele que olha de um modo muito especial para os palácios; papagaios podem ser tagarelas; burros são os homens que tão maltratam a besta; sobre camelos e porcos muito haveria a dizer. Rui Caeiro, tradutor, entre outros, de Ramón Gómez de la Serna, oferece-nos neste volume algo muito semelhante ao que o escritor espanhol nos ofereceu nas Greguerías: breves composições de cariz essencialmente humorístico mas com efeitos subversivos assaz contundentes. As inversões lógicas, as associações metafóricas, provocam no leitor um riso malicioso e baudelairianamente demoníaco. É o riso de quem não está tão preocupado em moralizar como está em testemunhar, é o riso de quem não teme um gesto de denúncia que transcende a mesquinhez vazia e despropositada do ressentimento. Porque a questão não é pessoal, é humana. Daí as comparações, a intertextualidade, as evocações, esta óbvia cumplicidade essencial:

TOUROS − 4
É aquilo um acto de amor? Perguntarão os mais
Exigentes. Sim, claro, outra coisa não será. Amor entre
homem e besta. Amor entre duas bestas quaisquer


Rui Caeiro, O Carnaval dos Animais, Letra Livre, Outubro de 2008.

quarta-feira, 11 de março de 2009

MOSCOW, BELGIUM


Uma mulher atravessa uma crise como um velho desamparado atravessa uma rua. Predispõe-se aos acidentes, atravessa sem bengalas, voa sem rede, recorda-nos o equilibrista às portas do céu porque o perigo de uma decisão mal gerida pode apressar o instante da derrocada. Ao contrário do equilibrista, ela não dá passos cuidadosos. Anda para a frente, hesita, volta para trás, chora, limpa as lágrimas, abraça os filhos, cozinha o sangue, mas sem os cuidados extremos de quem não se abalança sem método. A mulher pensa no que poderia ter sido se, a determinada altura, os traços que o marido lhe desenhava não tivessem sido perturbados pela paixão, pelos ecos da juventude perdida, pela vontade que a todos toca quando o fracasso da vida acelera os relógios e as mãos começam a olhar-se imersas em interrogações. Que fiz eu? Valeu a pena? As interrogações perturbam o traço, os contornos do rosto acabam enrugados, a luz de outrora é substituída pela sombra do desalento. Uma mulher atravessa uma crise predispondo-se aos acidentes. Subitamente vê-se adormecida no vazio da almofada, olha para trás e não percebe os saltos do tempo, procura agarrar a vida com as mãos feridas de abandono. Sai-lhe no acidente um viajante, um jovem camionista de sensibilidade rude mas de sentimentos puros. Distinto da sofisticação do artista que deixou a mulher suspensa, este homem de traço rígido transporta o passado entre as grades dos erros cometidos e o sol vacilante dos perigos que o espreitam. Ele tem a marca dos renegados, a marca a que todas as crises se entregam quando atravessam, desamparadas, ruas intransitáveis. A mulher acaba a entregar-se a uma vida nova, ele entrega-se a ela. O futuro é de todos sabido. Não há futuro. E a vida é uma comédia romântica. Que nos escrevam cartas quando morrermos e connosco sejam solidários na morte é tudo o que podemos ambicionar.

sexta-feira, 6 de março de 2009

FAMÍLIA


Estou tão bonita que pareço um Carnaval.
Arte: Matilde (5 anos)
Poesia: Beatriz (2 anos)

IDIOTAS & IDIOTAS


Este ano, o Grande Prémio da Secção Oficial de Cinema Fantástico do Fantasporto foi atribuído a um filme de animação. Idiots and Angels, de Bill Plympton, é, sem dúvida, um filme fantástico, pelo que o prémio é adequado sob todos os pontos de vista. Reminiscências kafkianas transportam-nos para um cenário negro com personagens maldosas, terrivelmente maldosas, numa cidade obscura e inóspita. Há quem sonhe com impossíveis e há quem faça os possíveis para que os sonhos dos outros não se concretizem. Tudo é muito negro, tudo parece estranhamente real. Digo estranhamente por estarmos a falar de desenhos animados. Mais uma vez, a relação entre a realidade e a ficção, enquanto representação do real, ganha um veio que me leva a crer no desenho como num vocábulo que exprime com mais verosimilhança a carne e o osso do que as representações de carne e osso adulteradas por uma panóplia de efeitos especiais que outra coisa não fazem senão plastificar a matéria orgânica. As personagens de Idiots and Angels adquirem muitas vezes o corpo ruinoso e derradeiro da existência, são, digamos assim, construções naturalistas que exprimem de um modo fotográfico sentimentos, sensações, emoções raramente captadas pela fotografia em movimento. Aí está o desenho a mostrar-nos o que o reflexo omite, aí está o desenho a tornar manifestos, com uma lucidez funesta, os subterrâneos dos homens e das relações que estabelecem entre si. O fumo é denso, os corpos são grotescos, as superfícies rugosas, as personagens grunhem como se fossem animais e as fisionomias não distam muito da dos suínos. Os dias nascem nocturnos, a música adensa a figuração, a voz cavernosa de Tom Waits confere àquela deformação uma forma bem fiel a um imaginário noir povoado de crápulas e de criminosos. Acontece que até o mais porco dos porcos pode ser surpreendido pelo bem, numa metamorfose indesejada que se revelará dificilmente sustentável num cenário de gente arrivista e invejosa. Crescem umas asas nas costas do mal que o impedem de fazer o mal (excepto quando voa e caga para os que rastejam - sinal dos tempos). Paradoxalmente, não só o impedem de fazer o mal como provocam o mal nos outros. Pelas razões mais erradas – fama, poder, sucesso -, aquelas asas, aos olhos de quem as vê, não tem o mesmo significado que têm para quem as carrega. As asas que crescem nas costas do mal estimulam a ambição, não de quem pretende com elas servir o bem, mas de quem as pretende usar para mais mal poder realizar. Aquelas asas surgem acidental e inesperadamente num mundo de gente cobiçosa. Elas podem representar inúmeros instrumentos que acabaram por se revelar sombrios quando era suposto oferecerem luz ao desfocado mundo humano. A dicotomia que o título aparenta acaba por não fazer grande sentido, pois é no idiota que o anjo se revela. E ao revelar-se, torna clara a idiotice alheia. Eu preferiria algo mais sardónico. Talvez um anjo revelando-se um perfeito idiota. Mas aí teríamos uma redundância. Certo?

quarta-feira, 4 de março de 2009

DO OLHAR

Os problemas aludidos no mais recente filme de Wim Wenders não são exclusivos da poética do olhar ensaiada em Palermo Shooting. Essas mesmas questões já pairavam em obras anteriores do realizador alemão. Em The End of Violence (1997) e Land of Plenty (2004), por exemplo, o registo visual serve para tornar explícita a paranóia que caracteriza hoje o mundo da vigilância. Tendo assistido recentemente a um conjunto diversificado de filmes onde o olhar se apresenta na sua mais paradoxal relação com a realidade, lembrei-me de O olho e o espírito – derradeiro ensaio do filósofo Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). Em Transsiberian (2008), thriller mediano com Woody Harrelson e Ben Kingsley, a verdade fica por apurar devido a um gesto tão simples como é o de apagar uma fotografia. A ser revelada, essa fotografia permitiria desmascarar toda uma situação. Já em Eden Lake (2008) um problemático adolescente serve-se de um telemóvel para manipular os seus camaradas de grupo tornando-os cúmplices dos seus crimes. Também neste caso, a tecla delete assume contornos de poder sobre a realidade captada. Digamos que mais do que uma manipulação da verdade, em ambos os gestos o poder manifesta-se na capacidade de apagar um registo que tornaria real o que se pretende improvável. Isto é: mais do que tornar visível a realidade, o poder está em apagar essa mesma realidade. Esta ilusão só é possível porque a determinada altura nós passámos a confundir o real com o visível, quando sabemos que para lá do visível há toda uma realidade que nenhuma tecnologia logra captar. Merleau-Ponty falava da pintura como o que «confere existência visível ao que a visão profana crê invisível». A pintura, segundo o filósofo francês, «faz com que não necessitemos de um “sentido muscular” para ter a volumetria do mundo». Num outro filme, construído sobre a biografia de El Greco, diz-se várias vezes que o pintor tinha o poder de transformar pessoas comuns em santos. Numa curiosa cena, El Greco pede à amada que feche os olhos e lhe diga o que vê num quadro que ele pintara. Em todos os exemplos aqui enunciados, o que está em evidência é o facto de a realidade não se resumir ao visível. Por vezes é preciso fechar os olhos para ver melhor. O que as tecnologias trouxeram foi o reforço de uma velha ilusão, a de que o real e a verdade acerca do real se restringem ao reflexo do corpo no espelho e se confundem com esse reflexo. O gesto do adolescente problemático não difere muito da falsificação de fotografias na época estalinista, assim como a fotografia apagada em Transsiberian adia a revelação da verdade até que outras provas possam tornar visível o que foi apagado. Apagar as provas de um crime nada tem de inédito, o que há de coincidente em ambos os casos é esta vulgarização de um poder outrora limitado a quem detivesse o domínio sobre a “ciência de apagar”. Tem por isso razão o filósofo quando afirma que «das coisas aos olhos e dos olhos à visão nada ocorre para além do que vai das coisas às mãos do cego e das suas mãos ao pensamento. A visão não é a metamorfose das coisas mesmas na sua visão, a dupla pertença das coisas ao grande mundo e a um pequeno mundo privado. É um pensamento que descodifica estritamente os signos dados no corpo. A semelhança é o resultado da percepção, não a sua mola». Acontece que é ainda no corpo que o visível se nos torna claro quando o olhamos de olhos fechados, quando tentamos ver não o reflexo, não o fantasma, mas o corpo inteiro, absoluto. Fechar os olhos perante um corpo real não é o mesmo que apagá-lo, é procurar vê-lo para lá do que o músculo ocular logra percepcionar. Este ver para lá de nada tem de milagroso, profético ou metafísico. No fundo, talvez resulte apenas de uma concentração mais equilibrada dos sentidos, os quais não estarão já apenas dependentes do olho para verem. Este ver para lá de é ainda do território do sensível, no que nele possa existir de sensibilidade. A questão é que esse território tem sido bombardeado pelos artifícios do olhar, sendo já pouca a sensibilidade para ver além do visível. «Não há visão sem pensamento», pois claro. Não havendo pensamento, que podemos nós esperar da visão? Vejo ali ao lado o Ensaio sobre a cegueira. Por agora fico-me. Já tive sociologia suficiente nos últimos tempos.

terça-feira, 3 de março de 2009

DISPERSÃO

E agora? Todos entretidos a discutir anos 90, heranças e herdeiros; todos muito azafamados na discussão dos futuros, como se houvesse futuro, ainda mais para a poesia; todos muito novíssimos, de rosto eximiamente rapado, já sem passado e só com futuro, tanto futuro que até estonteia. E agora? A mão em espiral interroga-se, vai à procura de exemplos, consegue, aqui e acolá, vislumbrar algo parecido, mas nada que se pareça. António Osório (n. 1933) estreou-se com A Raiz Afectuosa (edição do autor) quase aos 40, Manuel Gusmão (n. 1945), nesciamente arrumado na prateleira dos putativos anos 90, tinha 45 anos quando publicou o primeiro poemário: Dois Sois, A Rosa. A Arquitectura do Mundo. Nuno Dempster (n. 1944) não fez a coisa por menos, e chega para confundir quem gosta de tudo muito arrumadinho. Estreia-se em livro aos 65 anos, ou quase, estreia-se em idade de reforma com a jovialidade de quem vem para reformar velhos preconceitos, estafados estereótipos, estúpidas ideias feitas. Quando assim é, costumam os críticos falar de poetas tardios. Mas tardios são os mortos. E eu tenho lido pouca poesia tão viva quanto esta. Antes de mais, deixemos ao poeta a palavra sobre a arrumação do extenso volume: «a disposição dos poemas não é cronológica (…), preferi organizar a compilação, dividindo-a segundo grandes assuntos» (p. 284). Sublinhemos organizar e compilação. Este é um livro com muitos livros dentro: Caminhos Sobrepostos, Confluências, Osmose, Génese, Em Cinza Quente, Palimpsesto, Inventário. Sete livros. Tantos quantos os dias que Deus demorou a criar o céu e a terra, embora o sétimo tenha sido consagrado ao descanso. Sendo assim, cabe informar que ao primeiro dia o poeta criou um lugar em trânsito, repleto de estradas, caminhos, sítios perfeitamente identificáveis, algures entre a Península Ibérica e os berços de uma Europa em decadência: Grécia e Roma. Fica-nos, desde logo, a marca de uma poesia segura, firme como a voz que a declama, esclarecida, mais que não seja, pelas dúvidas que atormentam o tédio e subitamente o interrompem com pequenos e inesperados momentos a darem azo ao poema. Entre o exílio e o fascínio, importa manter o espanto, deixar que o cansaço pese sobre si próprio enquanto se convocam o canto de uma cotovia ou o voo de uma libelinha ou um mar bonançoso que, não fazendo esquecer os desgostos da vida, permitem ir vivendo um pouco acima da miséria. Ao segundo dia, o amor e suas lembranças. Mesmo nestes poemas o lirismo não resvala numa indecente lamechice, como tantas vezes sucede. Aqui o amor não é um paraíso, nem achado nem perdido, é antes a consciência da inexistência de paraísos ou, se quiserem, a constatação de que paraíso só mesmo o da procura incessante das musas na memória. Que o poeta não me leve a mal partir-lhe o poema: «as musas / andam hoje por bares e cafés», «as musas, alta madrugada, / enchem as discotecas», «as musas eram só ficção», «ficção por ficção mais vale / apelar à memória» (p. 72). Não admira que os poetas mais citados sejam Camões e Jorge de Sena. Entre ambos houve a grandeza de um olhar atento ao mundo, magoado e refeito nessa mágoa que é assistir, talvez porque apenas atento, à desatenção dos outros, e nessa desatenção vislumbrar sinais de decadência. O tom quase elegíaco que timbra os poemas do terceiro dia, o dia da Osmose, relevam a solidão e o exílio em tempos apunhalados pela ausência de espanto. A cidade, assim dita de modo abstracto, é o cenário devastador da degradação, d’«o peso digital da noite urbana» (p. 127), «deste tempo violado / por números, ecrãs e deuses mortos» (p. 133). Restam os poemas, urdindo o manto que nos protege do frio deixado pelo desfile do tédio nos dias. Génese é um longo poema em verso largo, nele se misturam memória, um forte sentido crítico da História, a sabedoria de quem ousa olhar a existência sem subterfúgios: «Sobre ossadas dormimos, sobre ossadas amamos, / sobre ossadas fazemos a guerra eterna e a paz, / e os tanques a galope cavalgam no horizonte, / longe cavalgam sobre as ossadas antigas / e devastam os vivos em combates mortais / travados noutras eras. Onde estão esses corpos?» (p. 197) No lugar onde os tempos se confundem, no poema, essa flor que prevalece para lá da devastação desde o início do mundo, porque é dele toda a lógica, mesmo a que não tem lógica alguma. Ao quinto dia o fim aproxima-se, a morte afirma-se entre tudo o que é dos dias: o telemóvel, as prestações ao banco, os shoppings, as câmaras de vigilância, os algarismos sem nome, um chip essencial, o que resta de deuses antigos sendo vencido por uma agonia insuportável. Palimpsesto não deixa o trabalho pela metade, ainda que ironicamente ouse prever o futuro com a mão pesada e lúcida da constatação: «Onde nos encontrámos, Atxaga! / nesta Lisboa limpa / das escórias do império, / toda europeia, toda ela na rota / das coisas matemáticas, / em direcção do que é / julgado para sempre vivo, / na cave pós-moderna do Picoas, / de linhas claras rectas / sem pensamento, / onde o teu livro em saldo / se vende por dois euros, o futuro» (p. 232). A poesia também se faz tema, mas tudo se faz tema em cada poema deste livro. É essa a sua superior qualidade. O Inventário final apenas o confirma, rememorando vivências antigas, enumerando a experiência que resistiu ao esquecimento, não esquecendo o próprio esquecimento e a sua tirânica manipulação da realidade. Numa palavra: exílio. Do mesmo género, talvez, daquele onde Mário de Sá-Carneiro foi buscar a matéria do seu volume homónimo. Exilado de tudo em mim mesmo, resta-me afirmar: felizes aqueles que encontram quem assim os ampare na ânsia de viver.

PALERMO SHOOTING


Ainda antes de ter visto Paris, Texas (1984), um filme ao qual regresso de vez em quando muito por culpa de Sam Shepard (argumento) e de Ry Cooder (banda sonora), o cinema de Wim Wenders prendeu-me por causa de filmes como As Asas do Desejo (1987) e Tão Longe, Tão Perto (1993) - o primeiro que vi nas salas do cinema King. Um ano depois o realizador apaixonou-se pela música dos Madredeus e pela poesia de Fernando Pessoa, resultando a paixão num menos fascinante Lisbon Story (1994). Para Além das Nuvens (1995) juntou-o ao mestre Michelangelo Antonioni, tendo Wenders enveredado posteriormente por uma série de filmes de tendência mais política de que são exemplos The End of Violence (1997), o magnífico documentário Buena Vista Social Club (1999), The Million Dollar Hotel (2000) e Land of Plenty (2004). Don’t Come Knocking (2005) retomou a colaboração com Sam Shepard, um impecável contador de histórias com uma curiosa carreira no campo da representação cinematográfica. A verdade é que apesar de não desgostar do Wenders destes últimos filmes made in Amercia, prefiro-lhe a poesia dos tempos alemães. Palermo Shooting retoma essa poesia, numa clara homenagem aos mestres Antonioni e Ingmar Bergman. Nem era necessário o filme ser-lhes dedicado, informação oferecida no final mas patente em múltiplas evocações das obras dos mestres. Misto de Blowup (Michelangelo Antonioni, 1966) com O Sétimo Selo (Ingmar Bergman, 1957), Palermo Shooting retoma as velhas questões da existência na figura de um fotógrafo (interpretado pelo vocalista da banda Die Toten Hosen) subitamente interpelado pela figura da morte (Dennis Hopper). A música, factor determinante nos filmes de Wenders, vai pontuando o ritmo da narrativa com escolhas acertadas e uma qualidade impar. Sucessivas manipulações do som permitem-nos transitar do íntimo da personagem central para o exterior que o circunda, ficando essa separação suspensa apenas quando mergulhamos num domínio onírico onde tudo se confunde. A bergmaniana questão do tempo, na sua convocação constante da morte e, a partir dela, do sentido que a vida possa fazer, permite ainda questionar a realidade através de uma provocadora síntese da relação entre as artes visuais (pintura, fotografia, cinema) e a realidade. A determinada altura diz-se que o digital roubou a essência à imagem, no que aparenta ser mais um dilema do que uma crítica de tipo conservador. A verdade é que se torna fundamental perceber a essência para saber que a mesma foi roubada. De outro modo, como podemos saber o que é ou deixa de ser a essência? Sendo assim, aquilo que nos rouba é o que mais nos afirma. Tal como a morte, roubando-nos à vida para que a vida se afirme na sua plenitude, o digital usurpa a essência à imagem – o acaso, o acidente - para que a imagem se possa afirmar enquanto expressão da realidade. O duelo que Wenders reproduz neste seu filme é, antes de mais, uma bela homenagem aos mestres porque, homenageando-os, expõe-se com honestidade e mostra-se desabrigado perante as aporias que a tecnologia trouxe à sétima arte.

segunda-feira, 2 de março de 2009

A CASA DO ESQUECIMENTO

Li o primeiro romance do Fernando Dinis com o natural entusiasmo de o saber seu. Havia dado conta da felicidade que senti ao saber ter ido para ele o prémio que tornou possível esta sua estreia num género maior, talvez o mais exigente de todos os géneros literários. O Fernando foi um fugaz colaborador do Insónia. Simpatizo com ele como pessoa, porque tomo-o por honesto e dócil (qualidades cada vez mais difíceis de conciliar). Ora, isto nada tem que ver com livros. Os livros a gente lê com maior ou menor agrado, os livros a gente lê para falar deles, para os discutir, para com eles aprender alguma coisa nesta vida onde parece haver sempre tanta gente disposta a ensinar e poucos inclinados para a aprendizagem. A Casa do Esquecimento é um bom título. O ponto de partida anunciado na capa é cativante: poderá o Destino esquecer-se de alguém? A questão levantada na contracapa do livro abre-nos o apetite para um belo argumento: o que acontecerá quando um “esquecido” tem oportunidade de se tornar, ele próprio, o destino de muitas outras pessoas? O problema é que o romance do Fernando Dinis não só não responde à última questão como parece querer passar-lhes ao lado. Um romance exige uma maturidade na escrita que, a meu ver, passa por saber escutar os pormenores, ter mão segura nos excessos e perscrutar a linguagem no que ela possa oferecer de novo aos mesmos temas de sempre. Não li muitos romances de autores portugueses mais novos. Geralmente enfastiam-me e fico com a sensação de que me dizem pouco, não tanto quanto me dizem alguns clássicos, os melhores poemas dos melhores poetas, a filosofia, o ensaio. Mas julgo ter lido um número suficiente de livros do género para perceber que um bom romance resulta quase sempre de um processo de aprendizagem que ensina a integrar de um modo equilibrado os saberes oriundos da vida, as reflexões que bebemos nos filósofos, na ciência, nos historiadores, e exploramos à nossa maneira, a poesia onde conflui tudo o que resiste ao determinismo da razão e às certezas da fé. A Casa do Esquecimento não reflecte esse equilíbrio. Antes pelo contrário, e afirmo-o com tristeza, parece não ter grande coisa a oferecer-nos para lá do divertimento natural que a leitura das suas 210 páginas possa fornecer a quem o leia. Mas mesmo esse divertimento é amiúde posto em causa com algumas incongruências, a falta de uma revisão exigente que libertasse o texto de várias gralhas e opções sintácticas questionáveis, assim como de uma mão insegura em várias partes onde a narrativa podia oferecer muito mais do que aquilo que oferece. Só para dar um exemplo, o capítulo 18 é especialmente incomodativo. Trata-se de uma cena de sexo, algo que na prosa portuguesa continua a motivar estranhos embaraços. Note-se: «Sondou-me os lábios e pude sentir a sua respiração quente, o hálito adocicado. Depois avançou como se sentisse por mim uma paixão furiosa e fossemos [sic] os mais antigos e fervorosos amantes» (p. 98). Ou esta outra: «Apenas as aureolas [sic] rosadas dos mamilos, no centro dos fartos seios que se inclinavam ligeiramente para cima, pontiagudos» (p. 99). Mas há ainda o uso de expressões bastante questionáveis: «sondou-me os lábios», «denunciou a sua púbis», «copulando os seus lábios com rigor sábio», etc. O próprio uso da expressão «relações sexuais» no contexto de uma foda momentânea deixa muito a desejar, para não referir o facto dessa única foda ter servido para que a personagem em causa ficasse viciada num mundo para o qual acabara de entrar. E que mundo é esse? Uma misteriosa associação com contornos de seita mas sem grande consistência, quer de um ponto de vista alegórico, quer numa perspectiva naturalista. No fim, ficam-nos duas histórias intercaladas que pretendem mostrar-nos homens com destinos aparentemente diferentes mas com um mesmo fim: o esquecimento. Acontece que uma das histórias, a de Henrique, prolonga-se para lá do desejável, enquanto a outra, a de Artur Poeira, termina antes de poder ter sido devidamente explorada. Os capítulos 29 e 31, por exemplo, são bastante bons. O confronto de Artur Poeira com o seu destino, que se esquecera deste pacato, previsível, resignado e solitário homem de 41 anos, é bastante convincente e levanta questões pertinentes acerca do sentido da vida. O destino esqueceu-se de Artur Poeira porque este, no fundo, esqueceu-se de assumir a sua própria vida. Acontece que apenas a espaços estas questões emergem, não chegando nunca a sair da superfície, acabando o romance por perder-se em duas narrativas paralelas como se o autor tivesse resolvido intercalar dois contos diferentes sobre um mesmo tema. Ficamos, assim, com um primeiro romance manchado por falhas que podem, devem e vão ser superadas por um autor ainda a iniciar-se no mais exigente dos géneros literários.