sexta-feira, 31 de julho de 2009
NECESSIDADE, VONTADE, ACIDENTES
JARL E OS NAVIOS / HERMAN MELVILLE
No fim de cada romance abandonei um navio. E hoje, aqui sentado — com o esquecimento e a indiferença dos homens tolhendo-me o peito — o último navio que vou abandonar é o meu próprio corpo.
Levanto os olhos destas linhas e sussurro:
— Sol, antigo piloto, sê o meu guia nesta derradeira viagem.
A luz frouxa do candeeiro amarelece o papel onde escrevo. Os mares, e a minha vida, também adquiriram essa cor que se derrama agora no fundo da memória.
Recosto-me na cadeira. Largo a caneta, pouso-a sobre a mesa para impedir a mão de continuar o seu ofício.
Deixo os navios dos meus livros zarparem do pensamento, fico a vê-los aportarem, enfim, aos serenos túmulos marinhos.
Sobre o mar abate-se uma sombra sinistra. Envolto nessa sombra flutua o Arcturion. Dele me recordo com veemência.
Um navio não é uma coisa inerte, é um ser vivo. Todo o marinheiro sabe isto. Quando se está ao leme, sente-se a pulsação do seu sangue. Por isso houve navios e homens que amei com a mesma intensidade.
Velho Arcturion, onde flutuarão os teus destroços? Em que tempestade terrível naufragaste?
Nunca mais me chegaram notícias tuas. Ouço somente o grito estridente das gaivotas rodopiando à tua volta, enquanto a planície aquática se fende e te engole.
Vejo-te desaparecer nas profundidades silenciosas de um mar de Verão. Ou terás tido melhor sorte?
No meu pensamento pereces na luta sem tréguas contra a fúria das vagas. As velas enfunadas rompendo-se, o timoneiro agarrado ao leme com unhas e dentes, os marinheiros nos seus postos, atentos à voz do capitão... mas é inútil continuar a pensar em ti.
A quilha pode ter rebentado contra um recife. O teu destino continua a ser um mistério.
Peço a Deus que a alma deste navio perdido, navegando na bruma dos nocturnos furacões, não visite — como um fantasma — as minhas futuras viagens.
Desejo que repouses no fundo do oceano, Arcturion, em sossego eterno, e que a tripulação durma em lugar inacessível aos tubarões e ao tumulto das vagas.
A última vez que pensei em ti avistei-te no meio duma noite sem luar. Havia no ar — como é frequente no Equador — uma névoa violeta que tapava o firmamento. Apareceste-me como um fantasma no meio do sono, e pensei que também eu era já um fantasma.
Acreditar que se está morto é tão desagradável quanto o estar na verdade. Fica-nos o sentimento de que o nosso fantasma habita ilegalmente um cadáver. ..
Jarl visitou-me a meio da tarde. O seu olhar continua a perturbar-me, como outrora me perturbou. Peço-lhe para desviar o seu olhar do meu.
Tínhamos fugido numa baleeira roubada durante a noite. Navegávamos à deriva. Havia dois dias que singrávamos um mar fosforescente. Jarl dizia que era a agitação das sereias, cuja cabeleira dourada, espalhando-se, acendia as águas.
Talvez encontrássemos ilhas a Oeste.
O oceano estendia-se, como se estende agora no meu pensamento, até ao infinito — e Jarl bebia abundantemente, como o fazem os homens dotados duma alma extraordinária.
Embriagado, disse-me:
— O ódio é feio, só se deve odiar o ódio.
E tão cedo, lembro-me, não encontrámos qualquer ilha.
Pus-me a ler-lhe o que acabara de escrever: ...os diários de bordo dos baleeiros estão repletos de desenhos. Quando avistamos uma baleia e não a conseguimos capturar, o desenho representa os contornos da cauda do monstro. Mas quando a baleia foi perseguida e morta, os contornos da cauda são cheios a tinta-da-china — de modo a verem-se imediatamente, assim que alguém os folhear.
Por vezes, vêem-se 3 ou 4 destes desenhos negros na mesma página indicando, assim, que outros tantos monstros pararam, nesse dia, de lançar o seu jacto de água...
Interrompi-me um segundo, para tomar fôlego. Depois, li: naquele dia Tooboi mergulhou nas águas calmas para se refrescar. Foi devorado por um tubarão.
Afastei-me, por fim, cansado, do círculo da luz. Arredei a cadeira para um canto penumbroso da sala. Fechei os olhos e ouvi, longe, a voz de Jarl:
— A verdade encontra-se nas coisas, não nas palavras. A verdade não precisa de palavras.
E, de seguida, senti os seus dedos tocarem-me ao de leve, enchendo de tinta negra os contornos da minha cabeça.
Al Berto, in O Anjo Mudo, 2.ª edição, pp. 116-119, Assírio & Alvim, Outubro 2001 (exemplar trocado com a Ana Salomé).
Levanto os olhos destas linhas e sussurro:
— Sol, antigo piloto, sê o meu guia nesta derradeira viagem.
A luz frouxa do candeeiro amarelece o papel onde escrevo. Os mares, e a minha vida, também adquiriram essa cor que se derrama agora no fundo da memória.
Recosto-me na cadeira. Largo a caneta, pouso-a sobre a mesa para impedir a mão de continuar o seu ofício.
Deixo os navios dos meus livros zarparem do pensamento, fico a vê-los aportarem, enfim, aos serenos túmulos marinhos.
Sobre o mar abate-se uma sombra sinistra. Envolto nessa sombra flutua o Arcturion. Dele me recordo com veemência.
Um navio não é uma coisa inerte, é um ser vivo. Todo o marinheiro sabe isto. Quando se está ao leme, sente-se a pulsação do seu sangue. Por isso houve navios e homens que amei com a mesma intensidade.
Velho Arcturion, onde flutuarão os teus destroços? Em que tempestade terrível naufragaste?
Nunca mais me chegaram notícias tuas. Ouço somente o grito estridente das gaivotas rodopiando à tua volta, enquanto a planície aquática se fende e te engole.
Vejo-te desaparecer nas profundidades silenciosas de um mar de Verão. Ou terás tido melhor sorte?
No meu pensamento pereces na luta sem tréguas contra a fúria das vagas. As velas enfunadas rompendo-se, o timoneiro agarrado ao leme com unhas e dentes, os marinheiros nos seus postos, atentos à voz do capitão... mas é inútil continuar a pensar em ti.
A quilha pode ter rebentado contra um recife. O teu destino continua a ser um mistério.
Peço a Deus que a alma deste navio perdido, navegando na bruma dos nocturnos furacões, não visite — como um fantasma — as minhas futuras viagens.
Desejo que repouses no fundo do oceano, Arcturion, em sossego eterno, e que a tripulação durma em lugar inacessível aos tubarões e ao tumulto das vagas.
A última vez que pensei em ti avistei-te no meio duma noite sem luar. Havia no ar — como é frequente no Equador — uma névoa violeta que tapava o firmamento. Apareceste-me como um fantasma no meio do sono, e pensei que também eu era já um fantasma.
Acreditar que se está morto é tão desagradável quanto o estar na verdade. Fica-nos o sentimento de que o nosso fantasma habita ilegalmente um cadáver. ..
Jarl visitou-me a meio da tarde. O seu olhar continua a perturbar-me, como outrora me perturbou. Peço-lhe para desviar o seu olhar do meu.
Tínhamos fugido numa baleeira roubada durante a noite. Navegávamos à deriva. Havia dois dias que singrávamos um mar fosforescente. Jarl dizia que era a agitação das sereias, cuja cabeleira dourada, espalhando-se, acendia as águas.
Talvez encontrássemos ilhas a Oeste.
O oceano estendia-se, como se estende agora no meu pensamento, até ao infinito — e Jarl bebia abundantemente, como o fazem os homens dotados duma alma extraordinária.
Embriagado, disse-me:
— O ódio é feio, só se deve odiar o ódio.
E tão cedo, lembro-me, não encontrámos qualquer ilha.
Pus-me a ler-lhe o que acabara de escrever: ...os diários de bordo dos baleeiros estão repletos de desenhos. Quando avistamos uma baleia e não a conseguimos capturar, o desenho representa os contornos da cauda do monstro. Mas quando a baleia foi perseguida e morta, os contornos da cauda são cheios a tinta-da-china — de modo a verem-se imediatamente, assim que alguém os folhear.
Por vezes, vêem-se 3 ou 4 destes desenhos negros na mesma página indicando, assim, que outros tantos monstros pararam, nesse dia, de lançar o seu jacto de água...
Interrompi-me um segundo, para tomar fôlego. Depois, li: naquele dia Tooboi mergulhou nas águas calmas para se refrescar. Foi devorado por um tubarão.
Afastei-me, por fim, cansado, do círculo da luz. Arredei a cadeira para um canto penumbroso da sala. Fechei os olhos e ouvi, longe, a voz de Jarl:
— A verdade encontra-se nas coisas, não nas palavras. A verdade não precisa de palavras.
E, de seguida, senti os seus dedos tocarem-me ao de leve, enchendo de tinta negra os contornos da minha cabeça.
Al Berto, in O Anjo Mudo, 2.ª edição, pp. 116-119, Assírio & Alvim, Outubro 2001 (exemplar trocado com a Ana Salomé).
quinta-feira, 30 de julho de 2009
POEMAS DE HERMAN MELVILLE
A primeira colectânea de poemas de Herman Melville (n. 1819 – m. 1891) surgiu em 1866, 20 anos após Typee (1846) - o aclamado romance de estreia. Battle-Pieces and Aspects of the War, assim se intitulava o poemário, apareceu já numa fase de insucessos editoriais consecutivos, dos quais destacamos duas obras-primas que apenas viriam a merecer o devido reconhecimento após a morte do autor: Moby-Dick (1851) e Bartleby, the Scrivener (1853). Para a antologia que a Assírio & Alvim publicou recentemente, Mário Avelar seleccionou e traduziu um apreciável conjunto de poemas a partir da obra supracitada, juntando-lhe outros retirados de John Marr and Other Sailors (1888) e Timoleon, Etc. (1891). Na nota prévia explica-se o intento de «uma perspectiva prismática» sobre a obra poética de Melville, a qual permaneceu esquecida durante muitos anos. De resto, o mesmo se pode dizer de toda a obra do autor de Moby-Dick. Se hoje o lembramos como um dos nomes maiores da literatura universal, isso deve-se apenas à força das suas palavras.
Ora, sem pretender aventurar-me em dispensáveis especulações psicologizantes, e estando ciente de uma longa tradição de poesia de guerra oriunda dos Estados Unidos da América, creio que os poemas de Fragmentos de Batalha e Aspectos da Guerra transcendem as preocupações patrióticas e os conflitos morais que definem grosso modo a elegia de guerra. A guerra pode ser interpretada sob vários prismas, nomeadamente sob o prisma de quem busca a glória através de um acto que deseja ver-se inscrito na história. Ela é o cenário daquele que se aventura para lá das suas forças, daquele que procura ultrapassar-se a si próprio mas acaba paradoxalmente ultrapassado pela vanidade e pelo esquecimento. Melville pôde constatar por si próprio as injustiças da História. Das aventuras ao sucesso, do sucesso ao esquecimento, a sua biografia faz-nos pensar nas expectativas do guerreiro perante os desconhecidos mistérios da batalha – aludo a The March Into Virginia, Ending In The First Manassas, poema que ficou de fora desta selecção.
O sentimento de transitoriedade patente na obra melvilliana coincide com as expectativas e os sentimentos do escritor que se viu relegado para o olvido após breves momentos de fama. Não podemos fugir à tentação de observar uma alegoria onde provavelmente ela nunca existiu, de descobrir um símbolo onde provavelmente ele não foi desenhado, mas existem inegáveis afinidades entre a obra e a vida do autor. Isso nota-se, inclusivamente, na relativização da força quando sobre «o mais poderoso barco da esquadra do Norte» Melville escreve: «Combateu e afundou-se» (p. 15). A fama desse navio há-de sobreviver à desventura, há-de persistir na história para lá do fracasso, «pois assim é devido» (p. 17). A palavra fama, que se repete como uma vaga recorrente, envia-nos para uma máxima do Ismael de Moby-Dick: «Tudo é vaidade». TUDO. O leitor desprevenido tenderá a encontrar aqui ecos de uma ambição desmesurada, mas o mais atento saberá ver para além da ponta do nariz. O que aqui está em causa é a relativa importância dos homens, cuja força é nenhuma ao pé da capacidade de regeneração dos ulmeiros, cuja importância é nenhuma ao pé da palavra que pode imortalizar.
Até o homem mais temido e corajoso acaba enterrado, restando-lhe uma canção que o possa recordar nos dias vindouros. «Sim, o homem é viril» (p. 27). Justiça se faça a quem não caiu em vão, justiça se faça a essa virilidade, que «o hábito do desespero» (Jorge Luís Borges) não enfraqueça a esperança. No entanto: «Pela força da sua própria inércia / O impetuoso barco, perplexo, se afundou» (p. 57) - canta o poeta num belo poema onde perante a impassibilidade de um icebergue nem «um barco de porte marcial» resiste. Numa época em que a fé desmesurada na razão desviou o homem definitivamente da natureza, em que a enfatização das capacidades humanas deslocou o deslumbramento para o poder das máquinas, Herman Melville procurou recolocar o homem no seu devido lugar. E o lugar do homem é o daquela personagem no quadro de Caspar David Friedrich, voltado solitariamente para a imensidão do oceano, posicionando-se respeitosamente perante a agitação das vagas, como que contemplando a sua própria insignificância no poder incomensurável das forças da natureza.
Escrito para o Rascunho.
Ora, sem pretender aventurar-me em dispensáveis especulações psicologizantes, e estando ciente de uma longa tradição de poesia de guerra oriunda dos Estados Unidos da América, creio que os poemas de Fragmentos de Batalha e Aspectos da Guerra transcendem as preocupações patrióticas e os conflitos morais que definem grosso modo a elegia de guerra. A guerra pode ser interpretada sob vários prismas, nomeadamente sob o prisma de quem busca a glória através de um acto que deseja ver-se inscrito na história. Ela é o cenário daquele que se aventura para lá das suas forças, daquele que procura ultrapassar-se a si próprio mas acaba paradoxalmente ultrapassado pela vanidade e pelo esquecimento. Melville pôde constatar por si próprio as injustiças da História. Das aventuras ao sucesso, do sucesso ao esquecimento, a sua biografia faz-nos pensar nas expectativas do guerreiro perante os desconhecidos mistérios da batalha – aludo a The March Into Virginia, Ending In The First Manassas, poema que ficou de fora desta selecção.
O sentimento de transitoriedade patente na obra melvilliana coincide com as expectativas e os sentimentos do escritor que se viu relegado para o olvido após breves momentos de fama. Não podemos fugir à tentação de observar uma alegoria onde provavelmente ela nunca existiu, de descobrir um símbolo onde provavelmente ele não foi desenhado, mas existem inegáveis afinidades entre a obra e a vida do autor. Isso nota-se, inclusivamente, na relativização da força quando sobre «o mais poderoso barco da esquadra do Norte» Melville escreve: «Combateu e afundou-se» (p. 15). A fama desse navio há-de sobreviver à desventura, há-de persistir na história para lá do fracasso, «pois assim é devido» (p. 17). A palavra fama, que se repete como uma vaga recorrente, envia-nos para uma máxima do Ismael de Moby-Dick: «Tudo é vaidade». TUDO. O leitor desprevenido tenderá a encontrar aqui ecos de uma ambição desmesurada, mas o mais atento saberá ver para além da ponta do nariz. O que aqui está em causa é a relativa importância dos homens, cuja força é nenhuma ao pé da capacidade de regeneração dos ulmeiros, cuja importância é nenhuma ao pé da palavra que pode imortalizar.
Até o homem mais temido e corajoso acaba enterrado, restando-lhe uma canção que o possa recordar nos dias vindouros. «Sim, o homem é viril» (p. 27). Justiça se faça a quem não caiu em vão, justiça se faça a essa virilidade, que «o hábito do desespero» (Jorge Luís Borges) não enfraqueça a esperança. No entanto: «Pela força da sua própria inércia / O impetuoso barco, perplexo, se afundou» (p. 57) - canta o poeta num belo poema onde perante a impassibilidade de um icebergue nem «um barco de porte marcial» resiste. Numa época em que a fé desmesurada na razão desviou o homem definitivamente da natureza, em que a enfatização das capacidades humanas deslocou o deslumbramento para o poder das máquinas, Herman Melville procurou recolocar o homem no seu devido lugar. E o lugar do homem é o daquela personagem no quadro de Caspar David Friedrich, voltado solitariamente para a imensidão do oceano, posicionando-se respeitosamente perante a agitação das vagas, como que contemplando a sua própria insignificância no poder incomensurável das forças da natureza.
Escrito para o Rascunho.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
BIG ODE #7
Big Ode n.º 7
Tema: Sublime
Edição e designa: Rodrigo Miragaia
Design de conceito: Rodrigo Miragaia e Sara Rocio
Julho de 2009
Primeira Variação Sobre o Sublime, Segunda Variação Sobre o Sublime, pp. 8-9.
DA CENSURA
domingo, 26 de julho de 2009
GRAN TORINO
A primeira sequência é determinante. Durante o funeral da mulher, Walt Kowalski olha para a sua família e não se reconhece. O comportamento e a imagem despropositados da neta contrastam com a pose conservadora de Walt, reforçada por um esgar de desprezo assim que o padre começa a discursar sobre a morte. O desenvolvimento de Gran Torino é marcado pela mudança de relacionamento entre Kowalski e a vizinhança Hmong. Da distância à aproximação vai o encontro com a diferença, a transposição das barreiras que obstaculizam um difícil processo de integração. E esse processo culmina na descoberta de uma nova família que importa proteger de ameaças externas. O americanismo de Eastwood aceita-se por ser crítico, por conseguir mostrar-nos num pequeno bairro as contradições sociais disseminadas por toda a América. No final, para este veterano de guerra, envelhecer só pode ter um significado: oferecer o peito às balas. O sacrifício pode ser interpretado em paralelo com a via-sacra cristã, mas também pode ser lido à luz de um pragmatismo moral que caracteriza os grandes guerreiros. A diferença é que nos segundos a fé na expiação foi substituída por uma vontade de vingança, no sentido mais puro do termo que é o de fazer justiça. E essa desforra prolonga-se para lá da morte, quando o testamento é lido perante a estupefacção da família. Assim interligadas, as dimensões política e existencial de um homem oferecem-nos uma lição sobre a velhice: nenhuma experiência passada pode justificar tanto um conselho como o exemplo prático da sabedoria adquirida com o passar dos anos. O exemplo prático de Walt Kowalski chegará a todos, da família ao padre, da vizinhança Hmong ao gang que representa as ameaças exteriores, como uma sábia combinação de sageza e coragem.
sábado, 25 de julho de 2009
VIVER COM UM VULCÃO
Malcolm Lowry (28 de Julho de 1909 – 26 de Junho de 1957) está prestes a comemorar 100 anos. Também seguiu viagem no barco ébrio, de Inglaterra para a China, da China para a Alemanha, daqui para os Estados Unidos, passando pela Noruega, França, Espanha, Portugal, México… Um viajante, portanto. Nos momentos de sobriedade, embriagava-se de literatura. Nos outros momentos, casava-se, maltratava as mulheres, embebedava-se com o que estivesse à mão (incluindo aftershave?!!). O primeiro casamento ocorreu em Paris, com Jan Gabrial, pouco antes de um esgotamento nervoso premonitório - provavelmente induzido pelo consumo desmesurado de álcool; depois com Margerie Bonner, no Canadá. Para trás ficaram a aventura mexicana, as primeiras páginas de Debaixo do Vulcão, Jan partindo para regressar postumamente com a intenção de revelar ao mundo o pénis minúsculo do marido. Lowry foi um nómada. Talvez isso explique as escassas publicações em vida. Estava demasiado ocupado a vivê-la. Tratamentos psiquiátricos, desintoxicações, uma morte por misadventure (termo médico belíssimo que pode ser traduzido por “pouca sorte”). A pouca sorte levou Lowry desta para melhor, mas Margerie nunca se livrará da suspeição que sobre ela recaiu. Que papel o destas mulheres na vida do vigoroso marinheiro? Terão sido sorte? Terão sido azar? Vítimas de um pénis minúsculo? Assassinas involuntárias?
terça-feira, 21 de julho de 2009
RUA DO IMAGINÁRIO
Na Rua do Imaginário vivia um homem que passava o tempo todo a engolir sapos. Um dia explodiu e desfez-se em pedacinhos. Uma ninhada de ratazanas deglutiu avidamente a maioria dos pedacinhos. Excepto um, que escapou na berma de um charco onde, de vez em quando, os transeuntes escutam um estranho coaxar.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
TEORIA DA VIAGEM
A série textos breves, que a Quetzal tem vindo a publicar com apreciável regularidade, colocou-nos recentemente à disposição dois pequenos livros de inquestionável interesse: Os Meus Prémios, de Thomas Bernhard, e Teoria da Viagem – Uma Poética da Geografia (Abril de 2009), do filósofo francês Michel Onfray (n. 1959). Foquemo-nos no segundo. Neste breve ensaio, Onfray começa por estabelecer uma dicotomia ontológica entre o nómada e o sedentário - dois “modos de estar no mundo” que podem ser explicados a partir da raiz que determinou a oposição, nomeadamente se recorrermos à tipologia fundada no Génesis com o episódio que tem por intervenientes o pastor Abel (nómada) e o agricultor Caim (sedentário). É este quem mata o primeiro, podendo aí antever-se uma espécie de inquietação ameaçadora que caracteriza o nómada. Curiosamente, a condenação divina de Caim consistirá em passar o resto da vida a errar pelo mundo. «Génese da errância: a maldição» (p. 12) – conclui Michel Onfray.
Descendentes de Caim são todos os ingovernáveis, os viajantes inquietos, as almas perdidas que o poder não logra integrar por ser mais forte o desejo de partir do que o conforto de assentar. Descendentes de Caim são os corpos associais que se movimentam no mundo de sentidos abertos para experiências novas, assimilando lugares com a mesma urgência com que o corpo assimila o alimento que o mantém vivo. Eis a pior das condenações que pode atingir o espírito gregário da alma aquietada: a errância, a ausência de lugar. Caim acaba fundando a sua cidade, Henoc, a qual pode hoje ser vislumbrada em todas as cidades, autênticos cemitérios de maiorias que se reproduzem nos gestos, nas palavras, nas acções. É preciso, pois, matar Caim, libertar o homem do peso da maldição, desamarrá-lo e deixá-lo vogar à vontade sem mapas nem destino. Os mapas, representações ficcionais e ilusórias do espaço, são a ferramenta de que o homem se dota para disfarçar a sua perdição. Entrar num território desconhecido é experimentar a ruína, é lançar voluntariamente o corpo numa queda da qual há-de regressar (ou não) apenas com a certeza de se ter, ainda que por breves momentos, realizado plenamente.
Acontece que para Onfray o desejo de viajar pressupõe um sonho, a vontade de um registo, até um decepcionante mínimo de orientação: «Todos os viajantes relatam as suas peregrinações em cartas, cadernos, relatos. Apenas um pequeno número quinta-essencia as suas deslocações numa antologia de poemas. (…) Depois do Atlas e o Poema, essas duas formas da sensibilidade a posteriori, é a Prosa que toma a dianteira. Esta exprime de uma outra forma, mais ténue, mais diluída, o que o poeta transfigura em esplendores» (p. 33). O poema ocorre, então, como esplendorosa captação da experiência, talvez por no poema a imagem continuar em movimento, a realidade não acabar fixada, o “redactor” do real se confundir com um leitor da realidade que pode abrir e fechar subjectivamente as portas que bem entender durante a sua deriva. Mas deixemos a memória trabalhar, não a perturbemos com um excesso de indícios e sinais que acabem por barrar a verdadeira “exaltação estética”.
Iniciar uma viagem no momento em que deixamos para trás o abrigo de todos os dias é colocarmo-nos «num entre-dois que remete para uma lógica peculiar: já não estamos no lugar abandonado e ainda não estamos no lugar desejado» (p. 37). São estes por excelência os lugares da poesia. E neles é impossível não notar uma equivalência entre o espaço e o presente, dito na forma agostiniana como aquele que ainda e já não é. Porém, o entre-dois (geográfico) de Michel Onfray remete igualmente para outras realidades. Sugere-se a viagem em companhia, a realização de «uma verdadeira comunidade hedonista» a dois. Este a dois, sabe-o quem estiver familiarizado com a obra do autor da Teoria do Corpo Amoroso, não prevê a ideia tradicional e burguesa de casal. Antes propõe uma caminhada amigável: «A amizade, esse amor sem corpo, gera um uso comum do tempo, do espaço e da energia» (p. 48). Este a dois amigável disponibiliza-nos para “o prazer da alteridade”, não nos amarra a obrigações que possam reduzir uma abertura ao outro, à experiência do outro, que permita “inventar uma inocência”, ou seja, coloca-nos perante o diferente como a criança que não questiona, não como aquele que olha o diferente procurando o igual, mas como aquele que se procura na diferença.
Eis a conclusão: «Uma poética da geografia pressupõe esta arte de deixar inebriar-se pela paisagem para em seguida cumprir o desejo de a compreender, avaliar os seus contornos antes de partir para destinos lúdicos em que o poeta persegue o geógrafo e o filósofo, entendido como complemento e não como inimigo» (p. 118). São vários os pontos de encontro com o “nomadismo intelectual” desenhado por Kenneth White, mas a preocupação do filósofo francês é ainda e sempre com o corpo tornado lugar de experiências inebriantes e enriquecedoras, com o corpo como lugar da realização humana a partir de uma busca que começa e termina na vivência. Ao mesmo tempo que reivindica este “corpo solto”, Onfray dispara contra as forças poderosas que teimam em acomodá-lo aos lugares ilusoriamente confortáveis da vida sedentária. As moradas, os endereços, são prisões abertas que reduzem a existência a uma vida facilmente localizável. Não nos pondo a salvo, podem elas mesmas tornar-se o perigo de uma vida passada ao lado do mundo. É certo que todo o nómada carece de um lugar onde regressar. Não há partida sem regresso. Importa estimular a partida.
Escrito para o Rascunho.
Descendentes de Caim são todos os ingovernáveis, os viajantes inquietos, as almas perdidas que o poder não logra integrar por ser mais forte o desejo de partir do que o conforto de assentar. Descendentes de Caim são os corpos associais que se movimentam no mundo de sentidos abertos para experiências novas, assimilando lugares com a mesma urgência com que o corpo assimila o alimento que o mantém vivo. Eis a pior das condenações que pode atingir o espírito gregário da alma aquietada: a errância, a ausência de lugar. Caim acaba fundando a sua cidade, Henoc, a qual pode hoje ser vislumbrada em todas as cidades, autênticos cemitérios de maiorias que se reproduzem nos gestos, nas palavras, nas acções. É preciso, pois, matar Caim, libertar o homem do peso da maldição, desamarrá-lo e deixá-lo vogar à vontade sem mapas nem destino. Os mapas, representações ficcionais e ilusórias do espaço, são a ferramenta de que o homem se dota para disfarçar a sua perdição. Entrar num território desconhecido é experimentar a ruína, é lançar voluntariamente o corpo numa queda da qual há-de regressar (ou não) apenas com a certeza de se ter, ainda que por breves momentos, realizado plenamente.
Acontece que para Onfray o desejo de viajar pressupõe um sonho, a vontade de um registo, até um decepcionante mínimo de orientação: «Todos os viajantes relatam as suas peregrinações em cartas, cadernos, relatos. Apenas um pequeno número quinta-essencia as suas deslocações numa antologia de poemas. (…) Depois do Atlas e o Poema, essas duas formas da sensibilidade a posteriori, é a Prosa que toma a dianteira. Esta exprime de uma outra forma, mais ténue, mais diluída, o que o poeta transfigura em esplendores» (p. 33). O poema ocorre, então, como esplendorosa captação da experiência, talvez por no poema a imagem continuar em movimento, a realidade não acabar fixada, o “redactor” do real se confundir com um leitor da realidade que pode abrir e fechar subjectivamente as portas que bem entender durante a sua deriva. Mas deixemos a memória trabalhar, não a perturbemos com um excesso de indícios e sinais que acabem por barrar a verdadeira “exaltação estética”.
Iniciar uma viagem no momento em que deixamos para trás o abrigo de todos os dias é colocarmo-nos «num entre-dois que remete para uma lógica peculiar: já não estamos no lugar abandonado e ainda não estamos no lugar desejado» (p. 37). São estes por excelência os lugares da poesia. E neles é impossível não notar uma equivalência entre o espaço e o presente, dito na forma agostiniana como aquele que ainda e já não é. Porém, o entre-dois (geográfico) de Michel Onfray remete igualmente para outras realidades. Sugere-se a viagem em companhia, a realização de «uma verdadeira comunidade hedonista» a dois. Este a dois, sabe-o quem estiver familiarizado com a obra do autor da Teoria do Corpo Amoroso, não prevê a ideia tradicional e burguesa de casal. Antes propõe uma caminhada amigável: «A amizade, esse amor sem corpo, gera um uso comum do tempo, do espaço e da energia» (p. 48). Este a dois amigável disponibiliza-nos para “o prazer da alteridade”, não nos amarra a obrigações que possam reduzir uma abertura ao outro, à experiência do outro, que permita “inventar uma inocência”, ou seja, coloca-nos perante o diferente como a criança que não questiona, não como aquele que olha o diferente procurando o igual, mas como aquele que se procura na diferença.
Eis a conclusão: «Uma poética da geografia pressupõe esta arte de deixar inebriar-se pela paisagem para em seguida cumprir o desejo de a compreender, avaliar os seus contornos antes de partir para destinos lúdicos em que o poeta persegue o geógrafo e o filósofo, entendido como complemento e não como inimigo» (p. 118). São vários os pontos de encontro com o “nomadismo intelectual” desenhado por Kenneth White, mas a preocupação do filósofo francês é ainda e sempre com o corpo tornado lugar de experiências inebriantes e enriquecedoras, com o corpo como lugar da realização humana a partir de uma busca que começa e termina na vivência. Ao mesmo tempo que reivindica este “corpo solto”, Onfray dispara contra as forças poderosas que teimam em acomodá-lo aos lugares ilusoriamente confortáveis da vida sedentária. As moradas, os endereços, são prisões abertas que reduzem a existência a uma vida facilmente localizável. Não nos pondo a salvo, podem elas mesmas tornar-se o perigo de uma vida passada ao lado do mundo. É certo que todo o nómada carece de um lugar onde regressar. Não há partida sem regresso. Importa estimular a partida.
Escrito para o Rascunho.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
MANIFESTO DA MULHER FUTURISTA
Valentine de Saint-Point (n. 1875 – m. 1953), pseudónimo de Anna Jeanne Valentine Marianne Desglans de Cessiat-Vercell, foi literalmente uma mulher dos sete instrumentos. Poeta – a primeira colectânea, intitulada Poémes de la Mer et du Soleil, surgiu em 1905 -, romancista, ensaísta, dramaturga, pintora, coreógrafa, entre outras actividades que seria exaustivo enumerar, foi também uma voz inconformada do movimento futurista francês. Em 1912 lançou o Manifesto da mulher futurista, seguindo-se-lhe, um ano depois, o Manifesto futurista da Luxúria. Se o primeiro surge como resposta declarada à misoginia de Filippo Tommaso Marinetti (n. 1876 – m. 1944), militante fascista italiano que ficou para a história como papa do Futurismo, o segundo tem por alvo mais abrangente a moral cristã, à qual devemos, entre outras pesadas heranças, a ideia da mulher como representação bestial da luxúria, um dos sete pecados capitais, que urge domesticar. Com alvos destes, é fácil adivinhar o fim reservado à fundadora dos «dramas ideiistas».
Após três relações falhadas e uma dedicação total à escrita, refugia-se em Espanha, partindo posteriormente para os Estados Unidos. Já em Marrocos, converte-se ao Islamismo. Instala-se no Cairo, onde virá a falecer só e miseravelmente. Em 1947, um jornalista anónimo anunciava prematuramente a morte de Valentine. Fê-lo nestes termos: «Percorrendo o simples trajecto da sua vida sentimental, é muito pouco dizer-se que Valentine de Saint-Point foi uma mulher independente. (…) Numa altura em que as mulheres podiam quando muito aspirar à categoria de poetisas (de Louise Labé a Anna de Noailles, digamos, para resumir alguns séculos de história), Valentine não hesita em praticar todos os géneros literários (poesia, romance, crítica) e até em invadir o domínio artístico: teatro, pintura e gravura (expõe nomeadamente no Salão dos Independentes), e sobretudo a dança (…). Os seus maiores inimigos, embora nem sempre directamente nomeados – mas haveria necessidade? – são a moral (ou a hipocrisia) burguesa e a moral cristã» (pp. 19-22).
Desenterrado pela musculatura sempre atenta da &etc, o Manifesto da Mulher Futurista (Abril de 2009) volta a aparecer, agora acompanhado por uma introdução de Fernando Cabral Martins e vários outros textos de interesse inquestionável, dos quais se destacam o Manifesto Futurista da Luxúria e alguns breves ensaios sobre as intenções da autora no domínio das artes performativas. Interroga-se o introdutor sobre como ler, hoje, estes textos. Mais dados ao amorfismo do que à virilidade, talvez os possíveis leitores deste pequeno grande livro venham a manifestar aquela ambivalência que caracteriza os actuais amantes de uma literatura erigida à margem das convenções. Refiro-me a um certo deslumbramento que experimenta todo aquele que tem a felicidade de encontrar no texto a força que não procura, ou da qual de desvia, em vida. No fundo, a hipocrisia que outrora se pretendia atingida não dista muito da mesma hipocrisia que hoje acaba ferida nos seus recalcamentos mais dolorosos. Educados para a servidão, muito poucos serão aqueles que estão dispostos a hipotecar o seu bem-estar (material e moral) em nome de uma liberdade, de uma autonomia, de uma independência das quais podemos esperar pouco mais do que o desconforto da solidão.
O primeiro parágrafo do Manifesto da Mulher Futurista é bastante claro: «A Humanidade é medíocre. A maioria das mulheres não é nem superior nem inferior à maioria dos homens. Ambos são iguais. Ambos merecem o mesmo desprezo» (p. 27). Alimentemos a esperança de, no final, escaparmos à mediocridade da maioria podendo as nossas acções certificar-nos a superioridade moral dessa minoria que ainda julgamos existir por, aqui e acolá, irmos encontrando focos de resistência que nos levam a tal. Nenhum manifesto escapa, obviamente, a contradições inerentes a toda e qualquer tomada de posição. Tomar posição, optar, é antes de mais assumir uma certa convergência na contradição, a qual não deve ser levada à letra de incoerência. Incoerente é o hipócrita, contraditório é o humano, demasiado humano. Super-homens são tão raros em morte quanto impossíveis em vida.
Os manifestos de Valentine, pretendendo libertar um género específico de amarras historicamente determinadas por modelos civilizacionais sempre erigidos sob a égide de uma suposta palavra divina, não se livram das suas próprias imposições. Impõem uma renovação que transcenda estereótipos políticos - «O Feminismo é um erro político. O Feminismo é um erro cerebral da mulher, erro que o seu instinto reconhecerá» (p. 31) -, impõem uma voz cruel, violenta, viril contra o Sentimentalismo, impõem a energia do Desejo contra os «sinistros trapos românticos»: «A luxúria é uma força porque, finalmente, jamais conduz à sensaboria do definitivo e à segurança que dá o apaziguador sentimentalismo» (p. 40). No fundo, desenterrar estes textos é mais um gesto de luta contra a hipocrisia que ainda hoje refreia quem por confessa ingenuidade tenderíamos a julgar mais livres e menos superficiais. Faz-se a história da humanidade também de excepções, ostracizadas e deixadas na penumbra até que alguém volte a torná-las apaixonadamente vivas, «pois haverá sempre espíritos insubmissos que preferirão às belas estradas os caminhos pitorescos e incertos» (pp. 56-57).
Escrito para o Rascunho.
Após três relações falhadas e uma dedicação total à escrita, refugia-se em Espanha, partindo posteriormente para os Estados Unidos. Já em Marrocos, converte-se ao Islamismo. Instala-se no Cairo, onde virá a falecer só e miseravelmente. Em 1947, um jornalista anónimo anunciava prematuramente a morte de Valentine. Fê-lo nestes termos: «Percorrendo o simples trajecto da sua vida sentimental, é muito pouco dizer-se que Valentine de Saint-Point foi uma mulher independente. (…) Numa altura em que as mulheres podiam quando muito aspirar à categoria de poetisas (de Louise Labé a Anna de Noailles, digamos, para resumir alguns séculos de história), Valentine não hesita em praticar todos os géneros literários (poesia, romance, crítica) e até em invadir o domínio artístico: teatro, pintura e gravura (expõe nomeadamente no Salão dos Independentes), e sobretudo a dança (…). Os seus maiores inimigos, embora nem sempre directamente nomeados – mas haveria necessidade? – são a moral (ou a hipocrisia) burguesa e a moral cristã» (pp. 19-22).
Desenterrado pela musculatura sempre atenta da &etc, o Manifesto da Mulher Futurista (Abril de 2009) volta a aparecer, agora acompanhado por uma introdução de Fernando Cabral Martins e vários outros textos de interesse inquestionável, dos quais se destacam o Manifesto Futurista da Luxúria e alguns breves ensaios sobre as intenções da autora no domínio das artes performativas. Interroga-se o introdutor sobre como ler, hoje, estes textos. Mais dados ao amorfismo do que à virilidade, talvez os possíveis leitores deste pequeno grande livro venham a manifestar aquela ambivalência que caracteriza os actuais amantes de uma literatura erigida à margem das convenções. Refiro-me a um certo deslumbramento que experimenta todo aquele que tem a felicidade de encontrar no texto a força que não procura, ou da qual de desvia, em vida. No fundo, a hipocrisia que outrora se pretendia atingida não dista muito da mesma hipocrisia que hoje acaba ferida nos seus recalcamentos mais dolorosos. Educados para a servidão, muito poucos serão aqueles que estão dispostos a hipotecar o seu bem-estar (material e moral) em nome de uma liberdade, de uma autonomia, de uma independência das quais podemos esperar pouco mais do que o desconforto da solidão.
O primeiro parágrafo do Manifesto da Mulher Futurista é bastante claro: «A Humanidade é medíocre. A maioria das mulheres não é nem superior nem inferior à maioria dos homens. Ambos são iguais. Ambos merecem o mesmo desprezo» (p. 27). Alimentemos a esperança de, no final, escaparmos à mediocridade da maioria podendo as nossas acções certificar-nos a superioridade moral dessa minoria que ainda julgamos existir por, aqui e acolá, irmos encontrando focos de resistência que nos levam a tal. Nenhum manifesto escapa, obviamente, a contradições inerentes a toda e qualquer tomada de posição. Tomar posição, optar, é antes de mais assumir uma certa convergência na contradição, a qual não deve ser levada à letra de incoerência. Incoerente é o hipócrita, contraditório é o humano, demasiado humano. Super-homens são tão raros em morte quanto impossíveis em vida.
Os manifestos de Valentine, pretendendo libertar um género específico de amarras historicamente determinadas por modelos civilizacionais sempre erigidos sob a égide de uma suposta palavra divina, não se livram das suas próprias imposições. Impõem uma renovação que transcenda estereótipos políticos - «O Feminismo é um erro político. O Feminismo é um erro cerebral da mulher, erro que o seu instinto reconhecerá» (p. 31) -, impõem uma voz cruel, violenta, viril contra o Sentimentalismo, impõem a energia do Desejo contra os «sinistros trapos românticos»: «A luxúria é uma força porque, finalmente, jamais conduz à sensaboria do definitivo e à segurança que dá o apaziguador sentimentalismo» (p. 40). No fundo, desenterrar estes textos é mais um gesto de luta contra a hipocrisia que ainda hoje refreia quem por confessa ingenuidade tenderíamos a julgar mais livres e menos superficiais. Faz-se a história da humanidade também de excepções, ostracizadas e deixadas na penumbra até que alguém volte a torná-las apaixonadamente vivas, «pois haverá sempre espíritos insubmissos que preferirão às belas estradas os caminhos pitorescos e incertos» (pp. 56-57).
Escrito para o Rascunho.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
ÉTICA A NICÓMACO
Não é fácil determinar as razões dessa espécie de imortalidade que consolida na História certas ideias, formas de pensar, reflexões e seus respectivos autores. No Ocidente diz-se que a filosofia nasceu na Grécia Antiga. Justa ou injustamente, este lugar comum vai fazendo escola e é difícil desmontá-lo junto de quem se convenceu de que antes de Sócrates o que havia era mito e poesia. Platão (428 a.C. – 347 a.C.), o mestre, quis expulsar da República (ideal) essa terrível contaminação do espírito que era a poesia; Aristóteles (384 a. C. – 322 a. C.), o discípulo, preferiu escrever uma (desprezada) Poética fazendo o que toda a vida fez: sistematizar. Mas o espírito sistematizador do Estagirita só é devidamente compreendido quando nele observamos uma vontade de aplicação prática. Ora, temos precisamente aqui o princípio da grande empresa aristotélica: levar o ideal à acção; ou, pelo menos, encontrar as condições que permitam pôr em prática o dogma. Para nosso mal, a herança aristotélica acabou por servir as estruturas morais ulteriores. Em nenhuma obra do filósofo grego se nota tão bem tal inspiração como na Ética que terá escrito para o seu filho Nicómaco.
Nesta edição da Ética a Nicómaco (Quetzal, Junho de 2009), traduzida, prefaciada e anotada por António de Castro Caeiro, voltamos a ter a oportunidade de sentir um primeiro esforço na formação moral do Humano. Ao longo de dez livros, Aristóteles estabelece aquilo a que chama o Supremo Bem, questionando-se sobre o tipo de vida que pode aproximar o homem desse fim. Rapidamente o supremo bem é identificado com a felicidade, opondo-se esta ao mero prazer por nem sempre os prazeres propiciarem a vida feliz e encontrar-se a felicidade «entre as coisas de valor inestimável e completas». De resto, conclui o filósofo, nunca ninguém escolhe a felicidade em vista da honra e do prazer e todos escolhem o prazer e a honra em vista da felicidade. É fácil notar que o alvo de Aristóteles não é diferente do de Platão: o corpo, esse lugar de devassidão onde os desejos e as paixões afastam o homem da vida contemplativa. Michel Meyer sintetizou com notável perspicácia o tipo de pensamento moral que acabou por predominar no Ocidente a partir destas doutrinas iniciais: «Com o cristianismo, as paixões que, com Aristóteles, podíamos negociar e, com Cícero, curar, tornam-se o signo do mal radical, em suma, o pecado» (in O Filósofo e as Paixões).
Como ler hoje esta tradição moral que desde cedo assentou numa desconfiança do prazer e numa perspectiva negativa das paixões, tanto quanto procurou elogiar o autodomínio e promover a vida contemplativa? Na Ética a Nicómaco encontramos uma economia das paixões, uma topologia do carácter, uma tipificação dos sentimentos e das atitudes que subjazem às acções. Encontramos exemplos de negociação moral que muitas vezes parecem reduzir as relações entre os homens a um comércio de bons sentimentos, a um deve e haver de boas acções. Também é curioso que o intuito pedagógico da obra não evite a recorrência aos exemplos dos poetas e aos mitos, tal como sucedia em Platão, para justificar conclusões formuladas na base do pressentimento e de premissas supostamente de acordo com uma lei divina que jamais poderá ter estado ao alcance dos humanos (mesmo dos sábios, fossem eles Gregos ou Troianos). Só há, pois, uma forma de ler hoje esta e outras obras como esta: procurando entender criticamente o que nelas falhou enquanto modelos.
Parece ter falhado, desde logo, a fé numa possibilidade de matematização do caos que é a vivência humana. Podemos partir do princípio de que os homens são educáveis, mas informa a prática que é pouco aconselhável reduzir as possibilidades do Humano a meia dúzia de supostas virtudes/excelências e de supostos vícios/perversões que se opõem numa lógica nada linear no campo da acção. É verdade que Aristóteles não nega essas possibilidades, mas a obsessão com um «sentido orientador» – «a justiça correctiva é o meio termo entre os extremos perda e ganho» (p. 125) – acaba por descambar numa espécie de «sociedade comercial das relações humanas» cujo resultado serão generalizações ainda hoje bastante discutíveis. Não sabemos, por exemplo, se «praticar adultério está sempre absolutamente errado» (p.57), se «todo aquele que ficou cego por causa de uma bebedeira ou de uma outra qualquer devassidão deve ser repreendido» (p. 77), se «aquele que visa sempre obter prazer e ajudar a criar uma boa disposição sem mais nenhum outro motivo é obsequioso» (p. 111), se «quem se suicida atenta de algum modo contra a própria honra, porque comete uma injustiça contra o Estado» (p. 142), se «ao amarem o amigo, [os homens de bem] amam o seu próprio bem» (p. 205), etc, etc, etc.
Poderão os exemplos ser meramente circunstanciais, datados e apenas legíveis à luz da época em que foram escritos. No entanto, estamos a falar dos pressupostos de uma moral ainda hoje reinante, da pretensão de uma ética definidora das boas acções e legitimadora da censura, dos castigos e das multas que ao longo de séculos violentaram e ainda violentam muitos seres humanos. Estamos a falar de uma ética que instaurou a tão útil noção de perdão e abriu caminho para as ideias da cura moral, vendo um doente em todos aqueles que se desviassem, por excesso ou defeito, das estipuladas excelências da alma humana e de uma ideia de felicidade enquanto forma de contemplação. Estamos a falar dos pilares da nossa civilização, a qual deve repensar os seus fundamentos a partir não somente do que eles aparentam ser mas também do que eles tornaram possível. É preciso aceitar que há muitos preconceitos nestas obras que já não nos deviam merecer a reverência que ainda hoje merecem. E é preciso ler estas obras para entender isso.
Nesta edição da Ética a Nicómaco (Quetzal, Junho de 2009), traduzida, prefaciada e anotada por António de Castro Caeiro, voltamos a ter a oportunidade de sentir um primeiro esforço na formação moral do Humano. Ao longo de dez livros, Aristóteles estabelece aquilo a que chama o Supremo Bem, questionando-se sobre o tipo de vida que pode aproximar o homem desse fim. Rapidamente o supremo bem é identificado com a felicidade, opondo-se esta ao mero prazer por nem sempre os prazeres propiciarem a vida feliz e encontrar-se a felicidade «entre as coisas de valor inestimável e completas». De resto, conclui o filósofo, nunca ninguém escolhe a felicidade em vista da honra e do prazer e todos escolhem o prazer e a honra em vista da felicidade. É fácil notar que o alvo de Aristóteles não é diferente do de Platão: o corpo, esse lugar de devassidão onde os desejos e as paixões afastam o homem da vida contemplativa. Michel Meyer sintetizou com notável perspicácia o tipo de pensamento moral que acabou por predominar no Ocidente a partir destas doutrinas iniciais: «Com o cristianismo, as paixões que, com Aristóteles, podíamos negociar e, com Cícero, curar, tornam-se o signo do mal radical, em suma, o pecado» (in O Filósofo e as Paixões).
Como ler hoje esta tradição moral que desde cedo assentou numa desconfiança do prazer e numa perspectiva negativa das paixões, tanto quanto procurou elogiar o autodomínio e promover a vida contemplativa? Na Ética a Nicómaco encontramos uma economia das paixões, uma topologia do carácter, uma tipificação dos sentimentos e das atitudes que subjazem às acções. Encontramos exemplos de negociação moral que muitas vezes parecem reduzir as relações entre os homens a um comércio de bons sentimentos, a um deve e haver de boas acções. Também é curioso que o intuito pedagógico da obra não evite a recorrência aos exemplos dos poetas e aos mitos, tal como sucedia em Platão, para justificar conclusões formuladas na base do pressentimento e de premissas supostamente de acordo com uma lei divina que jamais poderá ter estado ao alcance dos humanos (mesmo dos sábios, fossem eles Gregos ou Troianos). Só há, pois, uma forma de ler hoje esta e outras obras como esta: procurando entender criticamente o que nelas falhou enquanto modelos.
Parece ter falhado, desde logo, a fé numa possibilidade de matematização do caos que é a vivência humana. Podemos partir do princípio de que os homens são educáveis, mas informa a prática que é pouco aconselhável reduzir as possibilidades do Humano a meia dúzia de supostas virtudes/excelências e de supostos vícios/perversões que se opõem numa lógica nada linear no campo da acção. É verdade que Aristóteles não nega essas possibilidades, mas a obsessão com um «sentido orientador» – «a justiça correctiva é o meio termo entre os extremos perda e ganho» (p. 125) – acaba por descambar numa espécie de «sociedade comercial das relações humanas» cujo resultado serão generalizações ainda hoje bastante discutíveis. Não sabemos, por exemplo, se «praticar adultério está sempre absolutamente errado» (p.57), se «todo aquele que ficou cego por causa de uma bebedeira ou de uma outra qualquer devassidão deve ser repreendido» (p. 77), se «aquele que visa sempre obter prazer e ajudar a criar uma boa disposição sem mais nenhum outro motivo é obsequioso» (p. 111), se «quem se suicida atenta de algum modo contra a própria honra, porque comete uma injustiça contra o Estado» (p. 142), se «ao amarem o amigo, [os homens de bem] amam o seu próprio bem» (p. 205), etc, etc, etc.
Poderão os exemplos ser meramente circunstanciais, datados e apenas legíveis à luz da época em que foram escritos. No entanto, estamos a falar dos pressupostos de uma moral ainda hoje reinante, da pretensão de uma ética definidora das boas acções e legitimadora da censura, dos castigos e das multas que ao longo de séculos violentaram e ainda violentam muitos seres humanos. Estamos a falar de uma ética que instaurou a tão útil noção de perdão e abriu caminho para as ideias da cura moral, vendo um doente em todos aqueles que se desviassem, por excesso ou defeito, das estipuladas excelências da alma humana e de uma ideia de felicidade enquanto forma de contemplação. Estamos a falar dos pilares da nossa civilização, a qual deve repensar os seus fundamentos a partir não somente do que eles aparentam ser mas também do que eles tornaram possível. É preciso aceitar que há muitos preconceitos nestas obras que já não nos deviam merecer a reverência que ainda hoje merecem. E é preciso ler estas obras para entender isso.
Escrito para o Rascunho.
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