Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

O SOL NA TERRA


Havendo tempo, suspende-se a pressa na berma do caminho e olha-se pasmado a nudez do inverno. Até nestes momentos me censuro. Queria saber o nome daquele amarelo distinto, perceber por que entre os troncos frios das companheiras ele se mantém tão quente e belo e vivo. Mas pensando melhor, o caminho que vai dar não sei onde compraz-me na incerteza. A verdade é que não preciso de saber o nome das coisas para delas reter o esplendor.


Ainda assim, obrigo-me a olhar mais de perto esta explosão de alegria que nasce entre silvados e canaviais. E mais de perto concentro os olhos na cor, deixo-me levar pela cor até ao silêncio, fico ali parado orando nos meus modos muito íntimos de orar, dando graças à cor por este magnífico silêncio. Para trás ficaram os motores em marcha de um previsível e repetitivo quotidiano. Para trás ficaram os ruídos, a azáfama de fomes adversas a uma solidão de estar só. Nesta companhia silenciosa e resplandecente, nada nem ninguém para me lembrar as dores da solidão.



Que estar só é apenas estar em má companhia. Aqui mergulhado, os olhos entram pelo corpo adentro e não se sentem incomodados. Aqui, podemos olhar concentradamente a beleza sem instigar a dúvida. Podemos olhar fixamente o silêncio sem recear a censura de quem é olhado. Podemos tão compenetradamente penetrar no âmago da cor, que dela um sol vem à nossa pele dizer que está na terra, entre canaviais e silvados, para que as desnudadas companheiras não morram de frio no inverno.

UM MACACO, UM BARCO, UMA PONTE, UM PAÍS

O Tolan é um dos meus mitos de infância. Sempre que ia a Lisboa com os meus pais, olhava com espanto aquele navio encalhado no Tejo, de cu para o ar, a servir de pouso às gaivotas. Era o Tolan e a ponte 25 de Abril. Pessoalmente, o tempo transformou-me a ponte num símbolo das ambições perdidas. Explico-me. Quando eu era puto e por ali passava para a outra margem, dizia sempre que quando fosse Tarzan saltava da ponte. Cresci, e o Tarzan deu num primata com medo das alturas. Já o Tolan, o Tolan é o meu D. Sebastião. Ele já não está lá, mas é como se estivesse. Encalhado, de cu para o ar, a servir de pouso às gaivotas.

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

ENTRE O VIVO O NÃO-VIVO E O MORTO, 2

Nota-se bem a diferença. O número 2 da revista Entre o Vivo o Não-Vivo e o Morto, editada pelo CEPiA (Centro de Estudos Performativos i Artísticos), sedeado em Évora, está muito mais apelativo do que o primeiro. Graficamente, a evolução é inegável. Apesar de se definir, em editorial, como uma «revista filosófica não-académica», a Entre o Vivo o Não-Vivo e o Morto extravasa os domínios vulgarmente reconhecidos da reflexão. É uma revista de pensamento criativo, de estimulação das ideias e de provocação de sensações. Quando envereda pela reflexão, resvala numa espécie de saturação que transforma o ensaio em literatura e a literatura em exercício do pensamento. Os textos aparecem equilibradamente ilustrados por Isotta Dardilli, reservando-se as páginas centrais à arte de Tamara Alves. Invadido pela curiosidade, fiquei a saber que Tamara estudou na ESAD (Escola Superior de Artes e Design), em Caldas da Rainha, e realizou um mestrado na cidade do Porto, onde reside actualmente. Os trabalhos não me são estranhos, assim como o nome, pelo que não enjeito a possibilidade de já me ter cruzado anteriormente com estas personagens numa qualquer rua de uma qualquer cidade. Agradou-me especialmente a primeira reprodução, intitulada urban jungle II, com o preto do vestido e da cabeleira de uma mulher fatal fundindo-se nas listas de um tigre de Bengala. O fundo, preenchido por uma parede cor de tijolo grafitada anarquicamente, salienta a altivez da fusão estabelecida entre as duas figuras. Juntos, o estilo afro da mulher e o tigre branco inspiram-me várias sensações, todas elas convergindo para o domínio da resistência e da invulgaridade. Também cada vez menos vulgar é o riso proporcionado por uma boa ideia. Vítor Moreira é o autor de A Verdade, a verdade é que no tempo do mudo era assim…, argumento do qual se extraiu uma pequena cena para amostra nesta edição da revista em causa. O tom é de comédia. No termo de uma sessão de trabalho, um investigador policial pede a um técnico em leitura de lábios que decifre os diálogos mantidos entre os actores do filme The Poor Little Rich Girl, mudo realizado por Maurice Tourneur em 1917. As conversas mantidas entre Mary Pickford e seus comparsas revelam-se delirantes. Há ainda um texto de Marta Bernardes a lembrar-nos o carácter ambíguo das varandas enquanto lugares que estendem o espaço interior das casas ao exterior das ruas. São um interno que está fora, um externo que está dentro. Belo lugar, o das varandas. José Manuel Martins deixa-se fascinar pelo velho problema da origem, enquanto Rui Cancela discorre sobre a índole sedutora do Diário de um Sedutor. Narrativas de inclinação poética assinadas por Fernando Machado Silva e Sílvia Ramalho, assim como a persecução da farsa biográfica de António Matos Silvestre, suposto precursor do modernismo português, antecedem a excelente entrevista final a JP Simões. Fala-se de Edgar Pêra e de André Carrilho, cinema, ilustração, música, fala-se de amores e de aventuras, viagens entre Portugal e o Brasil, fala-se de partir e de ficar, de Coimbra, dos Pop Dell’Arte e dos Belle Chase Hotel, fala-se de canções, fala-se de Zeca Afonso: «O que ouvia mais em Coimbra eram dois José Afonsos: era o Dr. José Afonso, que esganava doutamente aquele falso lirismo académico, aquelas coisas galináceas que se cantam em Coimbra, de gajos que têm uma postura chorona, são muito condescendentes com o povo e se comovem, mas que são como as gaivotas em terra que não lhes interessa quem está cá em baixo quando resolvem fazer as necessidades. E, por outro lado, o outro José Afonso também símbolo de um ‘grupismo’ comunista primário que também me dava uma tremenda seca. Acabei por rejeitar esses dois lados dele e aquele que encontrei recentemente é o terceiro: o músico, compositor e poeta intenso e genial» (p. 36). Comentários para quê? As respostas de JP Simões são um exemplo permanente de problematização e de dúvida. É nelas que reside o mais filosófico que encontramos neste número de Entre o Vivo o Não-Vivo e o Morto, o tal tom filosófico não-académico que se anuncia no editorial e nestas respostas se materializa sob a forma de ironia, honestidade, agilidade intelectual e experiência de vida. A ler.

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

PORTUGAL

Quase a terminar a primeira parte, Helton deixa entrar um cocorocó alto e sonante. De pronto os colegas o confortaram. Jesualdo, o treinador, ergueu-lhe os punhos de mão cerrada como que clamando: força, não esmoreças. Já na segunda parte, Helton volta a ser abraçado pelos colegas mais próximos. No outro lado do campo o Porto empatava a partida, atenuando o erro clamoroso do seu guarda-redes. É a comoção vivida nestes momentos que me aproxima do futebol. O resto interessa-me pouco. Gostaria de ver uma sociedade assim solidária para com o erro, concentrada na vitória, lançada na ambição de um resultado melhor, capaz de passar por cima da depressão, pelo menos, com a mesma força com que a depressão passa por cima de nós. Nada disso vejo. O clima é de bufaria generalizada, denúncia e intriga, o clima é exactamente o mesmo que Eça já denunciava, e Fialho de Almeida cuspia em crónicas azedas de gato assanhado, e Tomás Pinto Brandão satirizava sem dó nem piedade. O clima é o nosso. Tão aprazível nos céus quão desprezível na Terra. Este nosso clima, do qual jamais nos libertaremos, vai sofrendo ligeiras transformações. É fácil reconhecê-las. Mas de um modo geral o ambiente mantém-se de acordo com as mudanças de temperatura. Em Portugal, Hoje: o Medo de Existir, José Gil mais não fez que gritar o clima. O livro foi um sucesso. Pudera! Ao contrário do Helton reconfortado, a generalidade do povo português gosta de se ver espelhado. Gil disse-nos, não deixando que ninguém assobiasse para o lado esse dizer. É verdade que se trata de um livro cheio de defeitos, tal como nós, de um compêndio de análise social sensacionalista sem futuro, inconsequente e completamente inútil para o tempo que resta de jogo. Os portugueses que gostam de bola, entre os quais me inscrevo, compraram o livro, ofereceram-no no Natal, ter-lhe-ão lido as primeiras páginas, adoraram, adoraram, adoraram. Os outros fizeram o que sempre fazem: passearam os penteados nos colóquios, nas conferências, nos debates, escreveram croniquetas sem miolo e outras para mais tarde recordar, deram corda aos relógios e seguiram vidinha pela ala tardia do tenho mais que fazer. Os outros fizeram o que sempre fazem: sublinharam a raiva ao mesmo tempo que espezinhavam o colega do lado, bateram palmas deixando entre as mãos as cabeças dos ofendidos, abriram as bolsas aos encómios, desceram as avenidas de bandeirola na mão, saracotearam-se marcando presença na ausência de sempre. Gil gritou-nos o letargo, a passividade, a resignação, a apatia, a anestesia, a inércia, o autismo, a situação geral de não-inscrição. E entre muito tiro a fazer ricochete, um capítulo que vale a pena sublinhar. Na íntegra. Afinal de que é que se tem medo neste país? A pálida transfiguração do clima que se vive, com buscas, atentados, desrespeitos, suspensões, queixas-crime, telefonemas, apreensões, proibições, sem justificação aparente que não seja a de uma eterna saudade de tempos cabisbaixos (é preciso reler O’Neill), faz de nós, sem dúvida, «os chineses do Ocidente». O povo é sereno, triste lema de uma democracia que transportou para o seu âmago os piores vícios herdados da ditadura. Os portugueses são de brandos costumes, triste lema outro que reforçou em democracia os piores vícios herdados da ditadura. Aí têm, meus caros, o resultado: «brandura, doçura, amenidade». E enquanto tal, o poder a encabar-nos à tripa forra. Quem diz o poder, diz os pequenos poderes, diz todas as formas de poder legitimadas pelas hierarquias sociais com que vamos assegurando a obediência e a submissão da maioria. «A prudência é a lei do bom senso português». Daí que critiquemos em surdina, recorramos ao anonimato, façamos como a avestruz, olhemos por cima do cancro, como se nada fosse connosco. Numa sociedade pobre, de carteira e de espírito, dependente dos pequenos confortos, iludida com as parangonas do sucesso, perder um pouco é perder tudo. Ser despromovido no trabalho, perder o emprego, ver-se renegado, de portas fechadas para o elogio das boas famílias, ver-se, digamos assim, relegado para os planos da inconveniência, e por isso ostracizado, desapiedado, silenciado, ver-se assim abandonado à mercê dos «pequenos déspotas», sejam eles ignorantes agentes da autoridade ou directoras quasi analfabetas, é uma ameaça com a qual dificilmente aprenderemos a viver. Deste medo não nos libertaremos tão depressa. Falta quem nos erga os punhos de mão cerrada como que clamando: força, não esmoreças.

Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

UMA PIANOLA


A mulher do escritor comprou um saco de avelãs para lhe fazer um docinho. Queria surpreendê-lo antes que ele chegasse da caminhada, o mesmo que noutras famílias seria chegar do trabalho. O trabalho do escritor começa na caminhada. Estamos a falar de um escritor rural. Quanto a escritores urbanos, sabemos que o trabalho deles começa no banho. Nada mais sabemos acerca de escritores urbanos. O escritor rural começa sempre a alinhavar as primeiras frases dos seus mais ou menos longos textos durante as caminhadas, enquanto encara os enredos da chamada inspiração no fôlego das concertinas, enquanto lava o rosto na brisa infinita dos vales e abre os braços à largura dos extremos para que neles pousem pássaros imaginários com pêlos no lugar das penas. As penas do escritor rural reservam-se à família, ao cão com pulgas enxotado para lá do carinho que se vai mastigando diariamente como uma mágoa espirrada contra o vento. Pela manhã, o escritor rural observa as lebres saltitantes à mercê dos balázios, concentra-se no canto dos melros com aquele fervor típico de quem só tem ouvidos para melodias inesperadas. Guitarras havaianas, bandolins, o som das botas levantando o pó da terra, ervas amassadas pelo peso do corpo, banjos tocados na berma de um fresco desvario, todos esses sons pousando sobre os braços abertos do escritor rural como se fossem pássaros com pêlos no lugar das penas. É preciso sacudir o escritor rural, descobrir-lhe os amigos imaginários. São frequentemente convocados com a permissão das musas. Ele abre os braços à largura dos vales, os amigos pousam nos braços, porque voam por cima dos passeios, e pousam desprevenidos na rasura épica das pianolas. Na cabeça do escritor faz todo o sentido falar destas rasuras. Quem nunca viu uma pianola arreigada à terra, com erva daninha disseminando o seu verde sacudido pela distância, quem nunca viu esse tronco da pianola coberto de musgo, expulsando dos veios cogumelos de cordas, violinos, violoncelos, cordas de nylon tocadas à moda mexicana, quem nunca viu essas coisas na superfície das pianolas não pode sequer imaginar os amigos convocados na cabeça do escritor rural. Esta melodia acompanha-o regularmente pelos carreiros não sinalizados das terras incógnitas, persegue-o como uma sombra num dia de Sol, lê-lhe os desejos tímidos, insatisfeitos, da assumida cobardia. Então ele chega a casa e a mulher brinda-o com avelãs doces, femininas, o sorriso sentado de uma companhia à espera, toda a realidade naquele sorriso depois da caminhada, ela brinda-o com o mais que pode fazer para manter os instrumentos activos e a música liberta de palavras inúteis, a mulher brinda-o com docinhos de avelãs. Mas ele tem o coração preso aos amigos imaginários, mas ele mas, mas, mas, ele mastiga os amigos imaginários por um pequeno momento antes de se entregar todo ao trabalho que ainda agora começou. Ele traz para casa os primeiros trechos de uma longa caminhada, ele traz os primeiros passos para dentro de casa, ele traz a caminhada para dentro de casa, enrola-a bem enrolada na cabeça e a cabeça enche-se de pianolas cobertas de musgo, pássaros com pêlos no lugar de penas pousando nos seus braços abertos à largura dos extremos, valsas de melros rodopiando-lhe a cabeça, lebres saltitando boleros, tangos, melodias mexicanas saídas de filmes de cowboys arrastando-se por dentro dos duelos, ele traz tudo isso para dentro de casa e a mulher não percebe como tudo isso pode sobrepor-se à doçura das avelãs, ele traz a cabeça cheia de caminhadas, ele traz o corpo extravasando caminhadas e precisa de parar tudo isso no silêncio descoberto das páginas, precisa de estender a caminhada pelos corredores da casa. Ele precisa de regressar à tempestade para que a tempestade, partilhada, possa ser ouvida como o teclado de uma pianola algures perdida no mato solitário das terras incógnitas.

A REPÚBLICA

Sujeito passivo:
— Tem A República de Sócrates?
Sujeito activo:
— A das bananas…

Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

PINHEIRO BRAVO



Não acredito em deus para lá desta luz, nem em nenhuma santidade que transcenda os pecados do meu corpo. Resume-se-me a fé a este desejo de ver o crescimento dos pinheiros, de esperar que a sorte os previna de incêndios funestos, sofrendo o seu crescimento na resina dos meus dias tanto quanto um dia a semente se fará pinha e dela extrairemos o primeiro alimento das nossas fogueiras domésticas. Pouco mais espero da vida. Que a chuva vá caindo e sobre ela o sol aqueça nossas dores, que as nuvens prossigam em viagem para o silêncio dos céus limpos, que as estações vão passando umas pelas outras como por nós vai passando a sabedoria dos dias. E sempre que explico às crianças esse passar, assombrado elas mantenham o espanto da dúvida, perguntando-me com pertinência se primeiro vem o Inverno ou a Primavera.

Sábado, 21 de Fevereiro de 2009

DANÇAR

Estou a dançar com os livros.
Beatriz (2 anos)

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

MAL ME QUER


Nem sempre a morte se revela com a evidência do que nasce. Se cego os olhos na luz que atravessa os eucaliptais, se vejo ali disseminadas as sementes desse mundo que não pede cuidados humanos, então penso na vida para lá da morte como um aqui e agora, neste preciso instante, que guardo para sempre. Nem sempre para sempre quer dizer eternamente.


Os pinheiros ainda jovens não podem sequer supor o fim que lhes está destinado. Em torno deles irrompem selvaticamente da terra os perfumes com que a morte se despede. Porque debaixo da terra tudo é uma estranha decomposição fazendo-se de novo vida, trazendo à superfície outra luz que nos cega e desmente, ainda que momentaneamente, os pesares da tristeza.




Mal me quer quem assim não veja para lá das turvas corolas com que adorna seu discurso, presumindo, talvez, decadência no chilreio dos pássaros e miséria neste mar desabrochado entre cepas desnudadas. Mal me quer quem assim não veja a cegueira desta luz, chamando-nos para dentro do que já somos e não sabemos: a terra revolvida de uma misteriosa colheita.

Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

CONFISSÕES

O meu amor é o meu peso.
S. Agostinho

Para quem não esteja familiarizado com a estrutura da obra, convém esclarecer que Santo Agostinho organizou as suas Confissões em treze livros coligidos em duas partes (Primeira Parte: A Infância, Os Pecados da Adolescência, Os Estudos, O Professor, Em Roma e em Milão, Entre Amigos, A Caminho de Deus, A Conversão, O Baptismo; Segunda Parte: O Encontro de Deus, O Homem e o Tempo, A Criação, A Paz). Para simplificar, diremos que a primeira parte é de carácter mais biográfico, tendo sido reservado para a segunda parte o grosso do pensamento metafísico e filosófico constante na obra. No seu todo, as Confissões são um belo testemunho de conversão. Agostinho confessa-se pecador e explica o que o chamou para Deus, para a vida recta e virtuosa ao serviço do Senhor. Para trás ficaram os episódios perversos e ignominiosos da infância e da adolescência. Este santo foi corrupto, invejoso, mentiroso, frívolo, larápio, fraudulento, deixou-se contaminar pelos tenebrosos prazeres da carne, pela concupiscência, pelos vícios de uma vida luxuriante, e confessa-se: «Se tivesse vivido eunuco por amor do reino dos céus esperaria agora, mais feliz, os Vossos abraços» (p. 55). É óbvio que nem todos nascem para santos – durante muito tempo o próprio Agostinho não se terá distinguido, em acto e pensamento, do mais vulgar dos pecadores -, mas este elogio da castração sempre me comoveu. No fundo, ele pressupõe uma contradição que está na origem do discurso eclesiástico: santo é aquele que não procria, embora a mensagem de Deus tenha sido exactamente a contrária. Quer dizer, como entender o famigerado amor à vida, essa obsessão pela continuidade da espécie, ao mesmo tempo que se reclama a abstinência sexual como via para a santidade? Afinal, as delícias da casa Divina, na cidade de Deus, não podem ser comparáveis com os prazeres perversos da ejaculação. Há que conter o esperma, chicotear a tesão, martelá-la até que o grito da dor nos aproxime dos céus. E enquanto se entretinha a roubar frutos, não por necessidade ou para se banquetear, mas apenas para os lançar aos porcos, este malandro amava desavergonhadamente alguns dos seus comparsas. Esse amor está declarado no célebre episódio da perda de um amigo. Um amigo muito querido, íntimo, de uma amizade tão doce que a alma do santo já não podia passar sem o amiguinho. Mas teve que aprender a passar, pois Deus roubou-lho. Que mania esta a dos Deuses apreciarem jovens e belos amigos! Entretanto, as desgraças do santo foram sendo apaziguadas com a libertação do amor às coisas mortais. Também nunca entendi muito bem que outras coisas podemos nós amar senão as mortais. Mas não quero perder-me por aí. Prefiro saltar directamente para o Livro Onze e lembrar-vos o Tempo segundo Santo Agostinho. É a ele que devemos a mais eloquente concepção do Tempo. O problema é complexo se o abordarmos como deve ser, partindo do problema da criação do mundo até chegarmos à questão da eternidade. As conclusões de Santo Agostinho são muito convincentes, até porque deixam em aberto algumas aporias que seria inútil procurar resolver. Nestas como noutras coisas, a fé armadilha-nos sempre o pensamento. Mas há uma questão que não pode ser escamoteada: «Quem pode medir os tempos passados que já não existem ou os futuros que ainda não chegaram? (…) Quando está decorrendo o tempo, pode percebê-lo e medi-lo. Quando, porém, já tiver decorrido, não o pode perceber nem medir, porque esse tempo já não existe» (pp. 306-307). Esta concepção metafísica do tempo é muito interessante. Faz-nos pensar no grande ditador (O Tempo) como um contínuo, o que pode ajudar-nos a compreender algumas questões. Nomeadamente o facto de algumas pessoas da Igreja parecerem não ser deste tempo. De facto, não são. Elas são do tempo sem passado nem futuro, são do tempo que sempre foram, de um tempo lá delas que é um tempo sem tempo, sem História, sem as lições que a História pode e deve oferecer, são do «presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras» (p. 309). Elas são hoje o que foram ontem e o que serão amanhã, sem esperança na mudança, com os mesmos preconceitos de sempre, apenas menos concretizáveis, dominadoras e inquisidoras porque, a seu tempo, encontraram a resistência do laicismo e da secularização.

Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

A VIDA NUM SOPRO

Ontem tirei o dia para atender professores. Começo pela senhora professora que pretendia livros de poesia para oferecer aos felizes contemplados de um concurso realizado na escola onde leccionava. Queria livros em conta que pudessem ser do agrado dos jovens. Feitas as sugestões, ponderados todos os prós e todos os contras, acabou a senhora professora a levar duas edições de bolso (uma dos Sonetos de Florbela e outra do de António Nobre) mais dois livrinhos de Sophia. Também levou um exemplar d’Os Dias do Amor para oferecer a si própria. Enquanto eu desenrascava os embrulhos, as lamentações do costume. Que os meninos agora não lêem nada, não escrevem, estão viciados no hi5, nos sms e msn, que só querem playstations e livros à distância de planetas inalcançáveis. Queixumes não muito diferentes de um outro professor que procurava os kamassutras da Alicia Gallotti, talvez igualmente para oferta em concursos de carácter pedagógico. Mas este amigo juntava à “cambada de burros” (expressão dele) dos alunos de agora o laissez-faire dos encarregados de educação. Uma até desculpou a falta de trabalhos de casa com o cansaço do catraio - contava. Como é possível um puto de 11 anos andar cansado? E depois há as mamãs que levam umas meninas muito gordinhas para o ballet à espera que elas emagreçam ou venham a dar em bailarinas. A verdade é que, não fossem as questões motivadas pela terceira personagem desta mesma história, estes dois ex-colegas não mereceriam a honra de constar neste meu inventário pessoal. A terceira personagem é uma senhora que entra esbaforida pela loja adentro à procura do último livro do Salazar. Assim mesmo: do Salazar. A memória do livreiro até não é má, mas saber qual o último livro de Salazar não é pêra doce. Percorridos os arquivos, encontra-se vária literatura recomendável. Estaria a senhora a referir-se a Como se Levanta um Estado? Ou, quem sabe, a Não Discutimos a Pátria? Eis senão quando a cliente encontra o livro desejado, ergue-o ao alto como quem levanta um ceptro e grita para toda a gente ouvir: está aqui. Eureka, pensa o livreiro que, com o queixo caído de estupefacção, olha o livro e não quer acreditar no que vê: A Vida Num Sopro, de José Rodrigues dos Santos. Ora, tendo em conta as duas primeiras personagens desta história torna-se legítimo perguntar em que escola terá andado a última delas, que professores terá merecido, em que época terá a sua exímia educação sido administrada. Não posso responder a tais questões, ainda que não me seja difícil imaginar-lhes as respostas. Como as coisas andam, nem descuro a possibilidade da terceira personagem ser professora de profissão.

Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

A MÃE DE TODAS AS HISTÓRIAS

A Mãe de Todas as Histórias era a história de Adão e Eva, contada pela mãe ao filho pequeno como princípio de uma educação moral que, entre outras funções, tem a de formatar a sexualidade. Entretanto a criança fez-se homem e descobriu outros mitos, entre os quais o do príncipe Ganímedes, raptado por um Zeus que o possuiu em pleno voo. Freud preferiu Édipo a Ganímedes, respeitando assim a moral d’A Mãe de Todas as Histórias. Nem mesmo o pai da psicanálise ousou desfazer os enigmas, preferindo embrenhar-se noutras histórias que vão servindo apenas as convenções que restringem o desejo, a paixão, o corpo, a sexualidade, a uma das suas vertentes. Sirva-nos então a poesia uma visão mais alargada, uma visão mais livre deste mundo dos afectos repetidamente refém de preconceitos dificílimos de superar. Veja-se como tem sido tratada na actualidade a questão do casamento homossexual. Pega-se no assunto com pinças, não vá o vírus contaminar a casta sociedade do bom costume e da tradição. Fala-se em decadência moral e em degenerescência espiritual, fala-se na corrupção do conceito de família, fala-se em perversidade com uma histeria do tipo daquela que a História registou noutras épocas. Em matéria de liberdade evoluímos muito pouco, continuamos herdeiros do ódio de Hera e ignorantemente tementes à normalidade que nos foi servida como às feras se vão servindo as chibatadas da domesticação. Sirva-nos então a poesia uma visão menos limitada, mantenha ela a bestialidade resistente dos poetas que ousam mais do que ousaram os psicanalistas. Outra força não se pode reconhecer na poesia de José António Almeida (n. 1959). A mesma força que havíamos experimentado em O rei de sodoma e algumas palavras em sua homenagem (Presença, 1993), voltamos a experimentar em A Mãe de Todas as Histórias (Averno, 2008). Mesmo quando os poemas optam por uma irónica formalidade, aproximando-se de formas canónicas de versificação – cantatas, canções, cantilenas, salmos, fados, etc. – ou submetendo à rima de feição tradicional a respiração dos versos, eles logram distorcer a aparência das convenções através de um processo de subversão que consiste em trazer a si temáticas muito raramente tratadas. O efeito é o de uma ironia tão desconcertante quão certeira que por vezes se aproxima da sátira social. Sirva de exemplo o poema que dá pelo título de Estranheza: «Os jovens machos usam brinco, faixa / no cabelo, pulseiras e colares, // roupa apertada para sublinhar // essas formas outrora ditas íntimas: // subversão que na minha juventude / era punida com palavras feias. // Estranho é que eles sejam os modernos / guardiães implacáveis e cruéis // porta-vozes dos mesmos palavrões» (p. 79). Estes contrastes avolumam-se numa recorrente evocação de santos - nomeadamente o mártir São Sebastião, padroeiro dos homossexuais -, recordações de aventuras amorosas, «do circo da sedução» e das suas inerentes «ratoeiras» e traições, convocações aparentemente contraditórias de locais de peregrinação (Cova de Iria, Andaluzia - a cidade de Sevilha é referida várias vezes) e prestidigitação (a província ostracista), memórias familiares em tom elegiaco e despudoradas confissões: «Quem veterinário for / que te cure, que eu de santo // não tenho assim tanto estofo» (p. 51). Por vezes muito breves, outras vezes mais longos, os poemas de A Mãe de Todas as Histórias apresentam-se como que sob a forma de orações livres e solitárias de quem sente o peso do mundo a partir de instantes marcados pela ferradura da des-ilusão, amarga e dolorosa ferida sem cura definitiva. As proibições, o secretismo, a hipocrisia, o fingimento, mesmo o amor sonhado, são tratados com sarcasmo porque outra coisa não pode o poeta declarar senão as lições de uma espinhosa aprendizagem: «A pele, se com o tempo ganhou / uma boa textura de crocodilo, / não sofre. Nem há leite derramado / que valha a sério com pena chorar / lágrimas, a não ser de crocodilo / velho, cansado e sentimentalão» (pp. 21-22).

Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

RESSALVANDO O PARADOXO

Escrevem-me frequentemente a dizer que gostam muito do que "eu" escrevo, embora não concordem com tudo o que “eu” escrevo. É como as pessoas que em tudo o que escrevem sentem necessidade de declarar que aquela é a sua opinião. Pois, em minha opinião, em opinião de quem mais poderia eu escrever, estas ressalvas são redundantes. Ninguém pode concordar com tudo o que alguém escreve. Nem eu próprio concordo com tudo o que escrevo.

SOMOS ARTISTAS

Somos artistas porque vestimos roupas negras, despenteamo-nos com arte e gel em proporcionais medidas, passamos o corpo a ferro com tatuagens desenhadas a unha, compramos livros de que ouvimos falar mas jamais leremos, admitindo porém que possam vir a servir-nos para fundamento de teses levadas a cabo em trabalhos académicos. Amamos a natureza e todos os animais, nomeadamente amamo-nos a nós próprios, embora não nos façamos arrastar como fazemos aos cães vadios adoptados com trelas de cordel asfixiante. Nem reparamos na guita que nos prende os pulsos e marioneta a alma, de tão distraídos que vamos com as coisas inusitadas que produzimos, tais como falar extrovertidamente acerca de tímidos assuntos e manifestar uma avassaladora timidez nas temáticas mais extrovertidas. Somos artistas porque deixámos a arte adormecida em casa, enquanto nos passeamos artisticamente pelos cafés da cidade.

UM LIVRO

− Vocês no Natal tinham aqui um livro que a capa era o livro que se metia lá dentro e depois o livro lia sozinho. Ainda têm algum?

*

− Tem aquele livro que é escrito por um ratinho?

DIA DOS NAMORADOS

Como pode alguém expor a intimidade toda na internet? Mais do que compreender a intimidade, interessa-me perceber o acto de exposição. Como pode alguém se expor na internet? Penso nisto depois de outra noite mal dormida a ouvir os roncos da amada. A imagem não é muito romântica, eu sei, mas creio que em intimidade tudo se revela pela ausência de romantismo. O romantismo, mesmo na sua versão emotivamente tempestuosa, resulta já de uma adulteração artística do íntimo. Sem sair do campo da criação humana, parece-me que o íntimo convém muito mais ao abjeccionismo. Entre dois amantes a intimidade pode afirmar-se em gestos tão abjectos como a consciência da inutilidade da retenção dos gases. De resto, o gás é o verdadeiro perfume da intimidade. Privados da intimidade, retemos o peido e contemos a flatulência (o que, todos concordarão, pode em certas circunstâncias tornar-se bastante incomodativo e até mesmo doloroso). Em intimidade, os incómodos e a dor são ultrapassados pela espontaneidade do prazer. Por isso arrotamos quando nos apetece e peidamo-nos quando nos convém, sem cerimónias nem decoro. A intimidade transpõe a vergonha e revolve a compostura. Ora, nada disso se expõe na internet. A internet consegue ser apenas um meio de pálida exposição da intimidade, mas de uma intimidade envergonhada (por isso tantas vezes anónima) e composta (por isso tantas vezes adornada com vídeos, fotografias, belas, cínicas e hipócritas versificações). Ninguém consegue expor os cheiros, os gestos, a higiene ou a sua ausência, o paladar da intimidade através de um meio que “fantasmagoriza” as relações a ponto de nos fazer crer que o mesmo perfume pode exalar sempre o mesmo aroma em peles completamente diferentes. Eis o culto do falso e do artifício no seu mais actual esplendor, a convicção de que os outros podem resumir-se à expressão alinhada dos caracteres mais ou menos bem articulados. Fora deste mundo virtual (sublinhem virtual), o mesmo perfume em peles diferentes exala aromas diversos. Essas fragrâncias não são passíveis de exposição na internet. Elas são a intimidade. Um peido.

Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

A VIDA TODA


Eu explico: no farol em ruínas, o primeiro beijo. As línguas afagando-se sofregamente, as bocas coladas, os lábios húmidos. Por cima de nós, um sol vigilante. Por trás, a vontade permanente de uma salto. Um passo para o abismo, o mar ali tão perto querendo entrar pela rocha adentro. Eu explico: no primeiro beijo, uma rocha cheia de mar. O termos percebido que o mar é o sangue que circula dentro das rochas, o termos entendido a matéria final das horas que voam, o termos caído em nós como se fôssemos uma pedra a mergulhar no abismo. Não há certezas no absurdo com que sentimos as coisas, há apenas a voz resistente e sólida como a rocha do primeiro beijo.


E agora andamos para trás no tempo, agarrarmos algumas memórias perdidas para que o pensamento não esmoreça e a vida prossiga. Porque a vida prossegue com o pensamento a andar para trás no tempo, um novo farol a assinalar o velho farol. E eu ouço as novas sirenes mas só o silêncio das ruínas me chama, e eu ouço o mar e só o silêncio do fogo me chama. Nenhum Ícaro sobre as águas poderá algum dia perceber o Sol estendido sobre o corpo, nenhum corpo poderá entender o fogo que para lá dos ossos, da carne, da pele se deita sobre as águas formando a passadeira das nossas delirantes recordações.



Agora tão longe dos tempos idos, regresso à nuvem de todos os dias com o reconforto da caminhada. Sabe-me bem andar por onde nunca fui, pensar não no que poderia ter sido, mas no que consegui ser sem ter podido. Por isso alguém me questiona, como a gaivota defendendo os ninhos, sobre toda a vida. E eu não tenho outra resposta disponível senão aquela que semeio com as mãos: o meu cansaço é tudo o que ficou dentro da preguiça com que olho para o mundo, vendo fios de sangue escorrendo nas rochas, passadeiras de luz estendidas sobre as ondas, a minha sombra caminhando sobre a espuma para não mais voltar de onde nunca esteve.

Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

AGRADECER


Agradecemos a Brian Wilson a idade do sol numa manhã de Inverno, o podermos ficar na cama a pensar em histórias densas de equívocos, o desemprego das carteiras vazias, atrasos nos pagamentos devidos, a poesia pungente duma coisa chamada esquecimento a arder como um sol imensamente brilhante. Agradecemos a Bob Dylan a fé desviada das sete vidas, gatos simbolistas nos dedos de uma corda acústica, o último nó, os manuscritos imperceptíveis que o tempo intitulou num confronto de idades nunca resolvido, as vezes que ficámos melodramaticamente pensativos. Agradecemos a Joni Mitchell & Neil Young o poder simbólico da língua, cada um de nós no seu canto submerso, meramente reservados aos refrães solarengos do estilo, separados por uma falsa distância, a alegria das flores desabrochando aos primeiros sinais da primavera. Agradecemos a Gilberto Gil a alegria profunda da Terra, o cântico dos índios como um lamento no alto das colinas, a voz profética das pedras, as quais só não têm voz porque nos esquecemos de inventar ouvidos para elas, o não podermos fazer nada, absolutamente nada, contra o passar das estações. Agradecemos a Charles Mingus o som grave do contrabaixo, a morte testemunhada num livro com representações à medida dos dedos, as curvas assaltadas de dionisíacas vinganças, o agnosticismo das mulheres que um dia rezaram por nós e agora, perante a evidência do destino, se limitam a orar possuídos pizzicatos. Agradecemos a Stravinsky & Ravel & Debussy a poesia cimeira de cada momento, os caminhos repetidos diariamente, modulados pela luz que nos liga à poesia, uma virulenta fermentação metafórica, ups, as palavras a caírem pelo penhasco do absurdo, do sem sentido e, mais uma vez, o refrão puxando-nos para cima da felicidade, relembrando melodias antigas, clássicas, experimentando a angústia breve de um bacanal sem proibições. Agradecemos a Steve Reich a percussão do diabo, um branco inverno, a força política de uma linguagem inesperada, cavalgaduras de tambores índios meteoricamente rebentados no coração dos nossos pulsos, agradecemos-lhe a medida das pulsações e toda esta estranha alegria. Acordarias por mim? Esperarias por mim? Agradecemos a Rita Lee a raiz das fábulas, o amor em extermínio, o sexo dramático dos versos curtos, agradecemos-lhe a estrofe onde um dia nos sentámos a observar as nossas próprias vidas, uma ida ao cinema, as filhas a amarem-nos até às estrelas, os amigos à espera, o termos uma família ferozmente abraçada. Agradecemos a Damien Jurado esta crença de nos levantarmos todas as manhãs a custo e sabermos no custo o sabor de um beijo, nenhuma redoma, todo o esquecimento, o termos sido lembrados de quanto amamos quem nos ama e disso havermos estado esquecidos. Agradecemos a Paul Simon & John Lennon a extravagância dos rapazes e das raparigas brincando em parques de diversão, os lagos nos jardins, as altas árvores das florestas, o assobio dos tordos, o desamparo das estratégias que tanto odiamos, agradecemos aos dois a suavidade de um murmúrio sussurrado aos tímpanos do sono. Agradecemos a Van Morrison a guitarra acústica reparando a familiaridade com que um dia proferimos a palavra irmão, agradecemos-lhe o sentido da palavra irmão e essa melodia agora viajando pela nossa memória como um pássaro sobre a sombra do vento. Amo-te, amo-te, amo-te, amo-te de um modo soberbo, espontâneo, amo-te dentro dos segredos da floresta intacta, sem filosofia, cheio de verde. Agradecemos a Fleet Foxes o sentimento ambíguo, elíptico, da chuva que despoleta em nós um poema atravessado de sol, da luz que despoleta em nós um poema atravessado de chuva, as cinzas azuis de uma claridade não mais precisada, esta caminhada lado a lado até ao fundo da imaginação, até ao fundo de nós mesmos, sem glória nem orgulho, apenas verbo. Dois verbos de mão dada caminhando emotivamente, agradecemos.

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

DOS MORTOS

Não me recordo do nome do filme. Vi-o há dias mas perdi-lhe o nome e não me apetece procurá-lo. Sei apenas que juntava dois grandes actores, Jack Nicholson e Morgan Freeman, interpretando personagens ameaçados pelo cancro. Com poucos dias de futuro, lançaram-se numa auspiciosa reconquista do passado. Elaboraram uma lista com os desejos que a vida lhes havia roubado e procuraram cumprir o programa à risca. Numa das cenas, encontramo-los sentados com vista para as Pirâmides de Gizé. Freeman conta que os antigos egípcios acreditavam ser necessário responder a duas questões para entrarem no paraíso: foste feliz em vida? Fizeste os outros felizes? Esta cena transportou-me para o local. Voltei a abrir O Livro dos Mortos do Antigo Egipto e fiz a minha viagem até às pirâmides. Quem já esteve naquele lugar não pode deixar de sentir uma grande ambivalência de sentimentos. Entre o caos de uma cidade gigantesca e o silêncio ameaçador do deserto, as Pirâmides de Gizé são um espanto de beleza e grandiosidade. Mas são também a consciência do sofrimento associado à edificação da obra. É impossível olhá-las sem ver ali a exploração escrava de impérios tirânicos, assim como é impossível estar dentro do coliseu romano sem ouvir os gritos dos cristãos lançados à voracidade de leões famintos. Experimento as mesmas sensações contraditórias ao folhear o livro dos mortos. Maria Helena Trindade Lopes apresenta-o como «o mais antigo livro ilustrado do mundo», o que já de si lhe confere um carácter monumental. As quatro partes do livro (excluamos os capítulos adicionais) relatam-nos a viagem de um morto, do cortejo fúnebre até ao mundo subterrâneo, passando pelas fases da regeneração e da transfiguração. O hermetismo dos textos, assim como o ecletismo inerente à sua filosofia, obriga-nos a evitar considerações sempre aquém da complexidade das imagens, dos detalhes, dos pormenores contidos em cada alusão, em cada metáfora, em cada passagem. Prefiro enumerar algumas ideias que o livro estimula. Por exemplo, a ideia da morte enquanto viagem a caminho da libertação. Não se trata aqui da libertação do corpo. Quem visite a sala das múmias no Museu do Cairo percebe facilmente a valorização do corpo que os antigos egípcios cultivavam. De resto, a regeneração (na forma solar) e a transfiguração (na forma da eternidade) não dispensam os tratamentos da carne. O Morto que viaja e fala n’O Livro dos Mortos do Antigo Egipto aponta várias vezes a sua virilidade, é um Morto ainda por morrer, é um Morto em viagem, é um Morto ao qual será devolvido o coração no reino dos mortos. No fundo, é qualquer um de nós neste preciso momento. Alumiado por archotes e perfumado por fumigações de incenso, em Heliópolis ele reencontrará os ritmos da eternidade e da perenidade. Libertaram-no das vísceras excrementícias, tudo o que ele abomina por tão próximas da putrefacção. Há uma moralidade neste livro que me agrada sobremaneira. Há uma afirmação da vida. As fórmulas para vingar na morte não diferem das fórmulas para vingar na vida. Descer aos subterrâneos do Vale dos Reis e do Vale das Rainhas lembra-nos de como o bem se revelava, à época, pela não-prática do mal. O julgamento final, se assim podemos dizer, não mais é do que um inventariar dos males que não se praticaram. Mais que procurar ser bom, importa não ser mau. Como? Não o fazendo, não cometendo a iniquidade contra os homens, não procurando conhecer aquilo que não é para conhecer, não sendo pederasta (sic), não fornicando nos lugares santos do deus da cidade, não apagando um fogo no seu ardor, etc… E por fim, fica a poesia dos hinos, dos cantos, das fórmulas como testemunho sábio sobre o sentido final da existência:

Ora, todo o ser humano é assim, que ele morra como não importa que quadrúpede, como não importa que pássaro, como não importa que peixe, como não importa que verme e como não importa que serpente: aqueles que vivem, morrem.

MAPAS

− Tem mapas de Angola?
− Sim, temos estes da Michelin.
− Esses são muito pequeninos.
− Mas olhe que depois crescem.

*

− Tem a biografia do Beckham?
− Penso que não, mas vou verificar.
− Era mesmo só para saber a idade dele. Não pode ver no Google?

*

− Só tem estes livros do Stilton?
− Temos mais no backoffice. São cerca de 30. Procura algum em especial?
− Tem o primeiro?
− Sim.
− E o segundo?
− Sim.
− Tem o terceiro?
− O terceiro não.
− Ah! Era mesmo esse que eu queria.
− Podemos encomendar.
− Deixe lá, levo os dois últimos.
− São para oferta?
− Sim, em separado e com laços diferentes.
− Só temos balões.
− Então pode ser um de cada cor.
− Este pode ser roxo?
− Não tem antes vermelho?
− Sim. E o outro pode ser azul?
− Não tem cor-de-rosa?
− Com certeza.
− Já agora meta-me os livros em sacos diferentes, por favor.
− Muito bem.
− Toma, filha. São para ti. Este é a tia que oferece. E este é a prima.

Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

PEQUENOS DELITOS


Cometo pequenos delitos para desabitar o tédio. Pode parecer ridículo, mas roubar uma maçã, pisar o contínuo ou desrespeitar o ponto, liberta-me do fastio. Os meus heróis são todos grotescos, viveram supersticiosamente as suas vidas agora transformadas em poeira. Com eles aprendi a vibrante musicalidade das grades sempre que nelas martelamos nossos pequenos delitos, como, por exemplo, arredando a miséria dos cabelos brancos com um sorriso mesmo que forçado. Chamem-me louco, desdenhem da minha presunção, mas há mais expressão no canto das grades quando contra elas martelamos nossos pequenos delitos do que na moleza coitadinha das crianças bem agasalhadas. E ele há tantas crianças adultas.
A actriz Lillian Gish na imagem.

CÊNTIMOS

Há muitas maneiras de olhar para um país. Uma delas é observando as pessoas. À minha frente, está uma mulher a falar ao telemóvel. Fala alto. Diz que agora não, querido, estou na livraria. Atrás da mulher uma fila com três pessoas à espera que ela pare de falar e digite o código do Multibanco para pagar dois livros. O país também é esta pessoa. Esta pessoa é muito do que o pais é. Outro exemplo. Um colega contou-me de um indivíduo que se lhe dirigiu com a seguinte conversa: você tem aqui este livro, mas ele é tão caro, eu só preciso de duas frases do livro. O meu colega sugeriu que o senhor se sentasse a copiar as duas frases, o que ele acabou por fazer depois de lhe terem passado para as mãos uma folha e uma esferográfica. À saída, num aprimorado gesto de gratidão, gratificou o meu colega. Tome lá pela maçada, disse. E deu-lhe 5 cêntimos.

Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

POEMAS DE SAUDADE E DE AMOR

Depois de se ter apresentado com ainda aqui este lugar, de Pedro Afonso (Faro, 1979), a 4 Águas Editora volta a apostar em poetas algarvios. Doze Poemas de Saudade, de Fernando Cabrita (Olhão, 1954), e 69 Poemas de Amor, de Casimiro de Brito (Loulé, 1938), seguem-se ao livro do estreante Pedro Afonso. Não sei se esta opção regionalista é para manter, mas deve ser sublinhada enquanto esforço de divulgação de uma actividade poética que se pretende afirmar para lá do tradicional e conservador centro poético nacional. Diz-se que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. Porto e Coimbra tendem a ser a paisagem que olha para as elites da capital com uma perspectiva comummente bipolar. Nestas coisas amor e ódio misturam-se com espantosa facilidade. Lá do fim da nação, surge-nos agora a investida mourisca. O escritor Fernando Esteves Pinto é, com Vítor Cardeira, o director editorial desta 4 Águas Editora. Se tivermos em conta as actividades desenvolvidas no âmbito do Sulscrito – Círculo Literário do Algarve, facilmente percebemos esse salutar desejo de afirmação de uma actividade tantas vezes esquecida por aqueles para quem o país é ainda mais pequeno e medíocre do que a sua natural condição geográfica já impõe. Não se estranhe, por isso mesmo, que após um jovem autor a aposta seja em dois livros de autores com obra feita e reconhecida. Fernando Cabrita tem amealhado vários prémios literários, colaborou com diversos jornais e revistas, viu poemas seus musicados por projectos de música popular. Casimiro de Brito tem vasta obra publicada e premiada, está representado em inúmeras antologias, tem tido uma actividade poética intensa, é há vários anos presidente do PEN Clube Português. Outros pormenores ligam os dois livros agora dados à estampa: a opção por temas clássicos (a saudade no caso de Cabrita, o amor no caso de Casimiro), assim como a luminosidade que percorre os poemas de ambos os volumes. Em Doze Poemas de Saudade encontramos uma escrita simples, resvalando por vezes para um naïf de rimas óbvias e ideias triviais, cuja nostalgia aparece recorrentemente sugerida no tom plangente da interrogação: «Que nome tínhamos?» (p. 7), «Junho pode ser o que outrora fora?» (p. 9), «Onde o Templo que tanto venerais, onde a Rocha, onde a paz que tão prometida foi aos de boa vontade?» (p. 11), «Quando regressaremos à casa que foi nossa um dia?» (p. 22), «Onde, agora, esses tempos que sabemos que existiram?» (p. 24). Evocam-se Argos, o cão de Ulisses, e, de forma menos evidente, poetas como Ricardo Reis e Juan Ramón Jiménez, desenhando a saudade com os contornos do lamento e da dúvida. O tempo que passou sobre as coisas, arrastando consigo o que elas eram e já não são, impõe a pergunta: «Quanto de outrora a minha poesia agora tem?» (p. 36) Mas há nesta lamentação um inquestionável canto solar. De resto, o sol aparece logo no primeiro poema. É sob a sua luz que a Terra se transforma, que o mundo se vai perdendo. «E tudo está certo, apesar de tudo, / Tudo está certo como o vento e o sol» (p. 8). O mesmo sol aparece nos 69 poemas de amor que Casimiro de Brito coligiu nesta breve e temática antologia da sua vastíssima obra. O primeiro poema do livro, recolhido em Poemas da Solidão Imperfeita, data de 1957. Entre esse e os seis poemas de Arte de bem morrer (2007), passaram 50 anos. Acrescentam-se um conjunto considerável de inéditos retirados de dois títulos diferentes: Amar a Vida Inteira e Eros Mínimo. A fonte poética é facilmente reconhecível. Os poetas orientais, o haiku, a filosofia Zen são a nascente que há muito alimenta a torrente poética deste autor. A Via é a da transparência, da claridade, da tal estética solar que há pouco denunciava, é o caminho da luz e da «voz limpa dos frutos» (p. 12). Ainda assim, num dos melhores poemas do autor do Livro das Quedas, a dúvida aparece. Mas a possibilidade apenas surge para logo ser negada: «Talvez a vida não seja luminosa / Mas tem momentos: o lago da cama, o sol / Na lombada dos livros, o joelho / Amável / Da mulher deitada. Como vai ser a manhã / Não sei, ergo a minha taça» (p. 23). Poeta dos quatro elementos, Casimiro de Brito transfere para a língua portuguesa a luminosidade das paisagens orientais. É, à sua maneira, um poeta clássico sem o ser necessariamente. No entanto, o tu feminino que surge nos seus quadros poéticos iniciais vai dando lugar a uma ausência posterior. Também aqui o envelhecimento, a perda, a distância e a separação impõem uma outra luz: «Se o teu ouvido se fechou à minha boca / poderei escrever ainda poemas de amor? / A arte de amar não me serve para nada» (p. 49). Destas contradições se faz o amor, do sofrimento casado com o desejo e o prazer, da solidão avassaladora depois de perdido o objecto amado. Curiosamente, a filosofia acaba por ser bastante semelhante à dos poemas de saudade de Fernando Cabrita. Os homens erram, mudam, transformam-se na sua instabilidade inerente, muito aquém do que na natureza parece ser uma estabilidade dificilmente sustentável, reconheça-se, para lá do mero efeito poético: «Bebo-te, embriago-me, / enquanto as montanhas fazem o que sempre / fizeram: curvam-se, complacentes, / sobre quem vai correndo por vales silenciosos» (p. 78).

Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

LER

Uma cliente aponta para o mais recente número da revista LER e pergunta se pode levar. Respondo-lhe que sim, ao que ela pega num exemplar e guarda-o dentro da mala. São 5 euros, lembro-lhe. Ela pede-me desculpa, retira a revista e volta a colocá-la no expositor de onde a havia retirado. Julgava que era para oferta, diz-me. Depois fala, fala, fala, fala pelos cotovelos, pelos braços, pelos dedos, fala. É mais uma sócia da bela fauna de reformados que nos vão visitando todos os dias sem grandes objectivos comerciais. Querem conversa e borlas. Lembro-me de uma que levou uma mão cheia de marcadores. Fazia colecção. É o mais especial dos públicos, a fauna dos reformados. Alguns comovem-me, como o avô que comprou um manual para aprender francês em 30 minutos porque não consegue comunicar com as netas nascidas e crescidas na França. Outros irritam-me, como a velhota que estanca sempre defronte ao balcão a ler minilivros sobre a amizade, o amor, a saudade, entre outros respeitáveis sentimentos. Há também o velho castiço, de boina descaída sobre a testa. Pega num livro, dirige-se ao balcão e coloca invariavelmente o mesmo problema. Os livros que ele quer têm sempre um pequeno defeito que ele lá encontra mas mais ninguém vê. Uma mancha, uma dobra, um vinco, uma badana maior do que a outra, eu sei lá. E há ainda aqueles que nos visitam como se fossem a uma biblioteca. Perguntam-nos por livros inimagináveis, colam-nos ao portal fazendo pesquisas impossíveis, vão-se chegando para dentro do balcão e, às tantas, já estão eles de rato na mão, dando pulinhos de alegria, fazendo as suas próprias buscas.

Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

LUX INTERIOR


As pessoas dançam dentro de casas obscuras, fixam-se em lugares sombrios, vivem à sombra de si próprias e do que de si próprias pareça aceitável pelos próximos. Atiram-se umas contra as outras - algumas parecem muros, outras parecem apenas outras pessoas que se atiram contra muros abertos por grafitos com declarações de ódio ao mundo. Budapeste. Descemos à cave porque procurávamos as noites dos Mão Morta. Encontrámos um organista esvaído em suor, uma cantora pintada de nódoas negras e um guitarrista esfacelado. Sacámos do panfleto, ardemos umas miligramas na prata, entregámos o sono às feras. Eram caveiras que serviam de castiçais, caveiras de onde provinha toda a luz que iluminava os corpos das pessoas que dançavam dentro da casa obscura. A certa altura, desceram pelos degraus um par de pernas detidas no meu olhar, uma guitarra em eco, uma praia ali emprenhada de desejos e aventuras. Aquele par de pernas era um grito misterioso a torcer-me os tempos, um grito misericordioso a chutar pensamentos anónimos no ar. E eu, de punhal na mão, a defender-me do fumo enquanto cortava a pedra onde esperava camuflar a solidão de um sono há muito perdido. Lux Interior morreu, disseste, Lux Interior. Estava nu, deitado ao canto de uma sombra enquanto sobre os seus ossos a cera derretida formava fios de lágrimas solidificadas. Não estamos numa cave, disse-te. Estamos numa garagem com paredes de osso, numa garagem completa de gente estacionada no tempo, estamos a meio de um confronto emocional que nos amplifica a apatia até aos tímpanos, que nos fere os coletes protectores enquanto nos engessa as fracturas, estamos perdidos num impulso ascensional. Voamos, voamos para lá do que é possível imaginar, voamos para lá do voo, nenhuma corrente nos poderá deter o voo, somos felizes nesta liberdade que renega o conforto das gentes calculistas, mesquinhas, dissimuladas. Estamos num voo regenerador, disse-te. Só os parvos nos tomarão por parvos. Porque os parvos são como peças de dominó baralhadas pelas suas próprias hesitações. Um vento imenso, um temporal fantástico, arrastará a lama por cima das pegadas dos parvos. Nada mais sobrará deles. Toca-me Lonesome Town, pedi-te. Dançaremos juntos a solidão das cidades perdidas no tempo, as ruas que apenas conhecemos de as vermos em filmes americanos antigos. Aí por fins de hoje, o teu último choro inventado, o teu último e derradeiro fingimento poético. Quem nunca dançou em garagens iluminadas por velhas velas não pode saber de direcções abandonadas, de pássaros surfando as ondas do vento, das emergências dos adolescentes que rosnam como tigres até caírem estatelados sobre os palcos das suas próprias pedradas. Quem nunca provou o excesso jamais saberá de si próprio, viverá para sempre aprisionado aos votos dos outros, tão naturalmente como uma chaga ressequida à espera da morte. É preciso um certo estilo para perceber o prémio da liberdade, é preciso requerer às musas desprevenidas o consolo da espontaneidade. Só isso nos libertará definitivamente das paranóias obsessivas que geram os medos das pessoas precavidas, calculistas, obtusas, prudentes até à medula do vazio. Porque não basta dizer-te lindo, maravilhoso, fantástico, magnífico. É preciso apanhar o comboio do vício, o autocarro da porrada, salvar a consciência do filho da puta do conforto, dar um pontapé nas rimas, hostilizar as métricas, responder com cuspo à paz adúltera daqueles que por tanto lamberem ficam com a língua manchada de alcatrão. Budapeste. Bem podes agora fazer-te santinho, pedir desculpa, procurar remédios para o teu veneno, bem podes agora procurar mercúrio e algodão doce para as feridas insidiosas da ambição, bem podes agora vitimar-te. Lembra-te: Budapeste, eu desci à cave porque procurava as noites dos Mão Morta. Fui parar a uma garagem cheia de corpos estacionados. Regressei com os ombros negros de tanta resistência, regressei em osso, maculado pelas chagas abertas, escoriado. Mas vivido. Contra esse facto nenhuma morte me levará de vencida. Lux Interior? Que sabe a morte de vidas assim?

PRUDENTES

Insidiosos, medíocres, hipócritas, invejosos, cobardes, dissimulados, obsessivos e paranóicos. São todos boas pessoas, do mais bondoso que há, escorrem-lhes lágrimas de poesia no rosto, assobiam para o lado o cântico dos rouxinóis, correspondem-se com espírito, eloquência e uma ternura tão pegajosa que dava para estampilhar um milhão de envelopes, não cabem dentro de si próprios de tão cheios que estão dos outros, mesquinhos às vezes, quase sempre sub-reptícios. São todos boas pessoas que só se dão com boas pessoas. Excepto pelas costas.

Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

ÉDIPO

Regresso à tragédia, ao primeiro volume dos Clássicos Inquérito. Édipo Rei, de Sófocles, traduzido e prefaciado por Agostinho da Silva. Elogiam-se a harmonia e o equilíbrio, eleva-se Sófocles ao patamar de «génio grego». Com toda a certeza, o «génio grego» previu na tragédia o itinerário da catástrofe, a condição dos homens amarrados à foice do destino. Toda a gente sabe a triste história de Édipo. Freud apropriou-se dela para desenhar complexos de difícil decifração. Arrumo Freud na prateleira do inconsciente, mergulho na poesia da personagem grega. Chamam-me o destino e os enganos. Édipo não sabe quem é, crê nas revelações do oráculo com a cegueira dos crentes, supõe-se filho de quem é adoptado. O oráculo não oferece ao homem Édipo a sua história, o seu passado, fornece-lhe apenas as pistas impressionantes do futuro. O oráculo anuncia, prediz, escarra o destino, sugere. Ninguém está livre de se desencontrar sabendo o futuro, as pessoas encontram-se consigo próprias descobrindo o seu passado. Qual é a tua História? ― esta é a pergunta fundamental que qualquer homem deve fazer a si próprio, mais do que preocupar-se com o futuro. De novo ecoa Confúcio, por que querem os discípulos saber o que é a morte (futuro) se ainda nem perceberam o que é a vida (passado). O futuro é a anunciação ininterrupta do que o passado acondicionou, é uma afirmação que não carece de consultas. Só o passado merece a nossa preocupação. Sábio é o velho que perante a ausência de futuro faz o balanço do passado, sábio é aquele que se descobre a si próprio reflectindo-se, pensando-se pelo que foi e não pelo que será. O futuro é sempre uma promessa por cumprir, o passado é uma inscrição a pedir compreensão e testemunho. Édipo estava enganado acerca de si próprio, por isso dificilmente escaparia à predestinação: matou o pai, casou com a mãe. Toda a sua vida foi um engano fundamentado no desconhecimento de si próprio, das suas origens, da sua verdadeira natureza. Este “modelo de humanidade”, como lhe chama Agostinho da Silva, é um lamento primitivo. Faz-nos pensar “nos males que a vida traz” contíguos ao desconhecimento; a precipitação no futuro, quando para trás ficou todo um caminho que urge conhecer, compreender, governar. Nenhum futuro poderá ser governado com o desgoverno do passado, nenhum remédio para a catástrofe anunciada, impõe-se uma busca ao encontro dos factos, nenhuma indiferença nos ajudará a enfrentar os tempos vindouros. O futuro será sempre uma casa em chamas. «Eu esclarecerei a origem de tudo», afirma Édipo, aquele cuja própria origem nunca foi esclarecida por si próprio. Ironia das ironias, veja-se no que deu a ambição de Édipo, aquele que viveu mais preocupado em pôr a ciência ao serviço dos outros do que de si próprio. Conhece-te a ti mesmo, Édipo, «as almas como a tua castigam-se a si próprias». Fala Jocasta: «Que pode temer o homem quando o destino tudo governa e toda a previsão é incerta? O melhor que há a fazer é viver ao acaso.» Tivesses escutado as sábias palavras de quem te gerou, não terias acabado com os olhos perfurados por alfinetes de oiro. Ver não é crer, é compreender; ver não é predizer o futuro, é salvar o passado da incompreensão. A encruzilhada da vida, a tragédia, é tão raramente nos lembrarmos disso.

Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

PARIS

Nascido em Paris, filho de pais americanos, Julien Green (1900-1998) manteve sempre a cidadania americana. Serviu no exército francês, viveu praticamente toda a sua vida na cidade luz. As excepções aconteceram entre 1919-22, anos de estudo na Universidade de Virgínia, e durante a Segunda Grande Guerra. Paris foi publicado em 1991 e mostra-nos a importância da capital francesa na vida e na obra do autor de As terras Distantes (1987). Foi agora integrado pela Tinta-da-china numa colecção coordenada por Carlos Vaz Marques, que aqui acumulou a função de tradutor. Tratando-se de uma colecção especialmente inclinada para a chamada literatura de viagens, cabe dizer que Paris não encaixa ortodoxamente no conceito. De resto, a figura do viajante não é cara a Julien Green: «O viajante, por mais que fale, parece, quando termina, não ter dito nada» (p. 51). Neste livro encontramos antes um conjunto de prosas diversas, breves ensaios, narrativas curtas, que testemunham o amor de um homem por uma cidade, ao mesmo tempo que especulam sobre um conjunto vasto de questões acerca da relação homem-cidade. O viajante dá lugar ao passeante, ao flâneur que deambula pelas ruas como se deambulasse dentro de si próprio, pois entre ele e a cidade há apenas a confusão de duas dimensões unidas numa mesma realidade. A distância forçada entre ambos obriga ao discurso hiperbólico: «Durante os longos anos de guerra em que vivi longe de Paris, frequentemente me interroguei como é que num pequeno compartimento do cérebro humano podia caber tão grande cidade» (p. 19). Repete-se: «Quando eu era criança, interrogava-me como poderia o simples nome de Paris designar coisas tão diversas, tantas ruas e praças, tantos jardins, tantas casas, tantos telhados, chaminés e, para além de tudo isso, o céu inconstante e leve que coroa a nossa cidade; e quanto mais pensava nisso mais me parecia espantoso que uma cidade tão grande pudesse caber num nome tão curto» (p. 41-42). Os excertos são reveladores de duas vias de pensamento que acompanharão todos os textos: as memórias da Paris de infância e os tempos de afastamento. De resto, ambas as questões se interligam quando o discurso pende para uma desconfiança bastante crítica relativamente ao futuro da cidade. O sentimento é de perda, é de degradação, as digressões pelas ruas, pelos bairros, pelas praças parisienses são acompanhadas de retratos impressionistas que evocam frequentemente a infância perdida, a infância do homem e a infância da cidade, pois ambas se confundem numa só existência: «quando me passeio por Passy parece-me que deambulo por dentro de mim mesmo» (p. 25). A impossibilidade de revelar a alma de Paris, a insistência no indizível, em tudo o que as palavras não conseguem exprimir, não impedem o testemunho das catástrofes anunciadas por um progresso mais voltado para a praga turística do que para os habitantes da cidade. A Torre Eiffel, monumento que o autor desejaria ver submerso, aparece como o exemplo máximo dessa corrupção da beleza, das «transformações infelizes» que mancharam a paisagem, atentando contra o encanto de uma atmosfera que já só se encontra nos caminhos da memória: «se quero rever Paris é em mim mesmo que a encontro» (p. 42). O tom do reencontro é tão melancólico quão nostálgico, o olhar volta-se para as árvores, para os castanheiros do Trocadéro, divaga «através da trágica alternância entre esperança e desespero e através dos terríveis langores da ausência» (p. 47), busca o incompreensível e o inexplicável nas velhas escadarias, logra alguma ironia, passeia os sonhos lentamente por entre Museus, Ruas, Rostos e Estações do Ano, dá forma ao “espírito do passeante” deixando o Sena falar, lamenta a ausência de poesia, caminha dentro de inúmeras imagens que a todo o momento denunciam a perda e o desaparecimento: «Cá fora, na praça Vosges, estavam a ser derrubados ulmeiros. Era um pouco como se se estivessem a apagar milhares de encontros, ternos e terríveis, já que as pessoas podiam exprimir-se aqui recorrendo tanto a armas como a madrigais…» (p. 90). Mais do que inventariar uma cidade, Paris oferece-nos retratos inextinguíveis de um tempo que foi o tempo do passeante solitário e aventuroso Julien Green. Elogio, declaração de amor, exercício sobre o indefinível, este livro é, antes de mais, um testemunho da inevitável destruição que acompanha o passar do tempo. O que nele perdurará, perdurará apenas e tão-só nele.

Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

WONG KAR-WAI


Tenho um segredo para te contar: a chuva que surge das frestas e escorre pelas paredes vem de um tempo longínquo. Não é de agora, este aguaceiro que nos afunda. Todos nós o sabemos, embora nunca nenhum de nós tenha chegado à fonte. Mas se ofereceres à chuva as mãos em concha para depois levares à boca o gosto da água, poderás provar pelos teus próprios lábios o que atravessa o tempo. O amor é uma questão de oportunidade. De nada vale encontrar a pessoa certa antes ou depois da hora certa. Ninguém sabe a hora certa. Ninguém sabe parar as águas. Pensa nos cafés que amanhecem todas as noites com gente lá dentro, sentada ao balcão, à mesa, circulando entre o ruído, desonrando a melancolia. Nos cafés deambula o espírito das cidades, as pessoas com suas histórias pessoais a deslizarem para dentro de um copo, fechando-se no interior dos pormenores que marcam a diferença. Podemos entrar em mil cafés, poucos serão aqueles onde nos apetecerá regressar. Regressamos por causa dos pormenores. Regressamos aos cafés que nos integram nas páginas de um romance que vai sendo escrito todas as noites, sempre que amanhece mais um capítulo na vida que colocamos acima do deslumbramento. Regressamos à banalidade das coisas belas. Algumas passam-nos ao lado, despercebidas, outras revelam-se a meio de conversas inesperadas. Há um tratado acerca do inesperado nos cafés. Ao contrário do que acontece na maioria dos filmes, aqui é a película que entra dentro de nós. Nem vale a pena procurar reconstruir a nossa memória dos lugares comuns: um homem a contas com o passado, a contas com o insucesso no amor, procura esquecer (verbo absoluto) recriando-se, repensando-se, chamando-nos ao lugar mais inexorável dos sentimentos: o lugar do amor; ou então a síntese de um tratado numa tarte que ninguém quer, numa jarra cheia de chaves que simbolizam relações desfeitas, no alcoólico que não suporta a separação da mulher, no vício do jogo, numa rua espreitada através de uma cortina, numa câmara de vigilância que regista tudo o que escapa a quem, por servir atrás de um balcão, promove a câmara à condição de diário. Mas este tratado é transposto. Para lá dos pormenores, as portas que se abrem e que se fecham. Talvez Wong Kar-Wai queira transportar-nos até à fonte do amor. Disponível Para Amar, 2046, My Blueberry Nights, etc., remetem-nos ininterruptamente para os fantasmas do amor, roubando-nos o tempo necessário para uma construção de sentido. Dão-nos tempo para respirar e pouco mais. Imagens e diálogos intrometem-se no pensamento como se fossem, e são, uma aventurosa vida. Em My Blueberry Nights o balcão marca uma espécie de fronteira facilmente transponível entre a catástrofe e a revelação. Alguém a quem a vida parece fugir para a catástrofe pode simplesmente resolver-se pelas portas abertas da revelação. É assim a vida aventurosa. Seguir caminho na direcção do esquecimento, buscar a revelação que tinge todas as mudanças. No caso, essa busca não implica o abandono. Deixa-se para trás uma espécie de poiso, como que um elo que não nos separe em absoluto daquilo que pretendemos esquecer. São assim as aves migratórias. Regressam porque precisam de ver se ainda se lembram de como eram as coisas quando partiram, regressam curadas das feridas que as fizeram partir, regressam porque têm à sua espera quem resolveu permanecer, regressam para poderem voltar a partir, regressam para saberem se chegaram algum dia a partir ou se tudo não passou de uma mera ilusão. E há quem esteja sempre a partir sem nunca sair do mesmo lugar. E há quem espere como se fosse um poiso, o encanto daqueles que retornam numa carta, em corpo, por um cigarro ou, por que não?, por uma mera fatia de tarte de mirtilo. Para trás ficam as histórias vividas, deixadas ao abandono da memória, porque outras não podem ficar para trás. Só mesmo as que foram vividas. Eis a bênção do reencontro, o perfume e a alegria do regresso, descobrir que algo permanece imutável, à nossa espera, enquanto nós mudamos os ângulos à visão, enquanto mudamos as cores ao mundo, enquanto nos fazemos mais nós. Perdoe-se-me o destempero, mas vou citar-me: «Tudo acaba no começo de um novo dia / como um travo que move o crepúsculo do mundo, / como um amargor que nos devora / na sombra do esquecimento. / Como este pérfido canto / que sofre por não ser distante, / por ser daqui, por ser de agora». Tudo acaba, excepto a dor que fica. A dor do amor que não se esquece. Porque o amor não tem tempo, é deste agora sucessivo, deste agora não estático, deste agora em movimento. Um comboio rumo a um futuro imprevisível. Interrogo-me: poderá o amor ser uma hora certa? Será o amor eterno essa eternidade que fica numa hora certa que não se destrói, que é impossível destruir? Sendo assim, talvez se nos torne mais fácil entender o amor: é aquilo que não se esquece. Mesmo quando na sua configuração mnemónica se assemelha ao ódio, o amor é aquilo que não se esquece. É o que nos perdura no sangue, o que se nos impõe na memória. Os filmes de Wong Kar-Wai são belos poemas ao amor (não de amor), poemas em movimento. Águas passadas, dizem. Mas a gente olha-os nos olhos e vemos que são águas de sempre, essas águas que surgem das frestas e escorrem pelo rosto abaixo. Não é de agora, este aguaceiro que nos afunda. Todos nós o sabemos, embora nunca nenhum de nós tenha chegado à fonte. Mas se ofereceres à chuva as mãos em concha, para depois levares à boca o gosto da água, poderás provar pelos teus próprios lábios o que atravessa o tempo. Lágrimas de amor. Ou, dito de outra forma: «Fechas os olhos, /vertes uma lágrima: / um corte infortunado / com o paladar das manhãs. / Libertas a terra dos sonhos que a alimentam, / domas o corpo vespertino. / Estás pronta para acordar de uma velha recordação».

UMA VISÃO


Padecemos todos de uma visão para o vento. Aproveitamos a esperança que atravessa as nuvens como se fosse uma flecha a trespassar um corpo, mas nenhuma visão para o vento nos agita e faz dançar como a esta hora dançam os canaviais. Cá do alto das íntimas glórias, não nos chega a semente aos pés. Por isso descemos, ansiosos, até à boca de um mar poderoso e sábio, onde supomos estar a força que jamais teremos.


Descidos à boca do monstro, deparamos com seus restos mortais. Cospe contra nós a matéria de que somos feitos, não encobre, não oculta, não procura sequer dissimular o nosso tronco ali vomitado. Não mais somos do que aquele pobre tributo. Por isso lançamos os olhos no horizonte como nas águas agitadas lança o pescador seu chumbo. Se nalguma hora fomos excessivos, neste minuto amansamos.


Ao largo, pegadas, restos, sombras, as asas do vento, se assim posso dizer, batendo contra as dunas. E a chama inalcançável trespassando o corpo, amarrando os olhos a uma ideia peregrina: podiam as nuvens ser as barbas do oceano, podia o oceano ser a boca do mundo, a boca de onde chega a voz mais distante a entrar por nós adentro como um gélido punhal.

Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

MISERY

− O que sugere a alguém que não gosta de ler?
− O Misery, por exemplo.
− É sobre quê?
− É sobre um escritor de bestsellers que é raptado por uma leitora fanática que o enclausura num quarto, droga-o, tortura-o, parte-lhe as pernas e dá-lhe porrada de meia-noite.
− Parece-me bem.
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Tem alguma enciclopédia das enciclopédias?