Domingo, 22 de Março de 2009
Terça-feira, 17 de Março de 2009
O CARNAVAL DOS ANIMAIS
TOUROS − 4
É aquilo um acto de amor? Perguntarão os mais
Exigentes. Sim, claro, outra coisa não será. Amor entre
homem e besta. Amor entre duas bestas quaisquer
Rui Caeiro, O Carnaval dos Animais, Letra Livre, Outubro de 2008.
Segunda-feira, 16 de Março de 2009
MELODIA AO ANOITECER
Não quero parecer catastrófico, mas parece-me que a comparação começa a fazer sentido. Quando era professor e o problema da ética ecológica se colocava, vinha sempre o estafado exemplo do problema da escassez de água potável. Os gráficos indicavam que de toda a água existente no planeta, apenas 2,5% era doce. Desses 2,5% a grande maioria existia na forma de gelo, uma ínfima parte corria nos rios e cerca de 30% andava pelo subsolo. Isto queria dizer, mais coisa menos coisa, que apenas 1% de toda a água existente no planeta Terra era potável e, portanto, consumível. Com o mundo dos livros passa-se algo semelhante. De todas as pessoas existentes no planeta, apenas 2,5% lêem livros. Destes 2,5% a grande maioria lê aquilo a que é obrigado, uma ínfima parte lê por prazer e cerca de 30% anda pelo subsolo (entendam como quiserem). Isto significa, mais coisa menos coisa, que apenas 1% de todas as pessoas existentes no planeta Terra lêem por gosto. Hoje apareceu-me uma dessas pessoas. A probabilidade de isto acontecer é ínfima. Devo sentir-me feliz e agradecido pela sorte que me calhou. Era uma senhora de meia-idade, com um ar muito humilde e um falar tipicamente campesino. Procurava um livro chamado Melodia ao Anoitecer. Ouvira falar dele na rádio, muito por alto. Infelizmente não dispúnhamos do livro na loja. A senhora mostrou-se cheia de pena e foi-me confessando: «Sabe, gosto muito de ler. Acabei de ler um chamado Os Apanhadores de Conchas. Foi lá na biblioteca. Será que esse há nas bibliotecas? Os livros são a minha companhia, sabe». E com um ar lacrimejante, ela nos olhos, eu por dentro enquanto a escutava, rematou: «Quando eu já não puder ler não sei o que vai ser de mim. Não sei mesmo». Ainda fosse eu professor, e aqui teria uma óptima comparação para os alunos que me diziam não gostar de ler. Tal como a água, gostar de ler é um bem cada vez mais raro. Com o tempo percebemos isso. O tempo ensina-nos a solidão. E os livros são a melhor companhia. Uma questão de sobrevivência.
Domingo, 15 de Março de 2009
VINHO A MARTELO
Reparo que todas as minhas luminárias são prenunciadoras de algo verdadeiramente trágico. Antonin Artaud foi um suicidado da sociedade, Daniil Harms foi expulso do Instituto Electrotécnico de Leninegrado devido a fraca participação nas actividades sociais, Boris Vian foi despedido porque corrigia os erros ortográficos dos seus superiores, Samuel Beckett foi agredido por estranhos, Franz Kafka foi um eterno desistente, Pier Paolo Pasolini foi outro solitário a quem fizeram a folha, Cesare Pavese caiu ao rio com os ombros a pesarem de cansaço, Albert Camus espatifou-se contra uma árvore (não há morte mais trágica!), Friedrich Nietzsche foi dado como tontinho por gostar de cavalos… Um rol de desgraças que nunca mais acaba. Que posso eu esperar da vida com luminárias destas? Que o Lidl mantenha os bons preços e que o senhor Antunes nunca deixe de produzir vinho a martelo. Adenda: Cervantes, Dante, Milton, Goethe, Rousseau, Homero, Stendhal, Tolstói, Dostoiévski, Proust… Até dói.
POLÍTICA DOS TRÊS ERRES
Acabadinho de chegar da labuta, dou comigo a pensar como sou um convertido em permanente estado de renegação. Devo confessar que amo Jesus, amo-o com penas. Os domingos são difíceis, confrontam-nos com as pessoas que passeiam os filhos nos centros comerciais, com a emigrante que pousa para a máquina fotográfica nas escadas rolantes, com o festival de balões a rebentarem de consumismo, com a pobre criança que rejeita os livros do Miguel Sousa Tavares porque a professora lhe «disse que ele era mau, pois diz mal dos professores»… Chegados a este ponto, pergunto-me para que terá ele morrido na cruz. Para qualquer lado que me volte só vejo cretinos, crápulas, gente medíocre, mesquinha, invejosa, uma caravana de arrivistas que há muito usurparam de sentido a palavra cumplicidade. Remoídos, ressentidos, ressabiados. Depois volto-me para mim mesmo e vejo um convertido em permanente estado de renegação. Ele morreu na cruz para nos libertar, para nos expiar. Ou terá sido para melhor nos espiar lá do alto da sua infinita humildade? Não sei. Só sei que não estou mal com o mundo e bem comigo mesmo, pelo menos não tanto como estou mal comigo mesmo por estar bem com o mundo. Só sei que num cenário destes é impossível às boas gentes não passarem de figurantes. E ficam muito bem assim, assanhando os dentes à caravana de caniches.
Sexta-feira, 13 de Março de 2009
DIGITAL
A humidade esborrata o carácter, começa por espalhá-lo pelo lençol até que nada mais reste - uma mancha. As palavras, na forma de manchas, ficam indecifráveis. Vai-se a alma com o tempo. Se viveres cem anos a esgravatar a glória, perderás a única oportunidade que te foi oferecida para não te transformares numa mancha. Como? Não imprimas o carácter segundo processos digitais. Com o tempo, tudo ficará branco, liso, esquecido, abandonado. Em vida pouco mais terás recebido que o destino de um cão: esgravatar procurando o osso outrora escondido, atirando areia para cima da merda que outros pisarão, farejando o cu às cadelas e a mais cães como tu.
Quinta-feira, 12 de Março de 2009
A (EST)ÉTICA POSSÍVEL
Eu sinto sempre o que escrevo.
Posso muita vez não sentir nem pensar o que digo, mas o que escrevo, sinto-o sempre, e sempre o penso.
Posso muita vez não sentir nem pensar o que digo, mas o que escrevo, sinto-o sempre, e sempre o penso.
Ângelo de Lima
Na cena da violação - Irreversível - há alguém que vê e não só cala como consente. Volta para trás, foge. A teoria de que devemos ignorar o que é mau resulta neste tipo de fugas. Enquanto engolimos a nossa raiva num desconfortável silêncio, numa vergonhosa indiferença, as cenas de violação perpetuam-se para lá dos filmes. Já não há cowboys a sério. Restam-nos jardineiros de fato e gravata. O mundo que se lixe, o que importa é a nossa alegria, a nossa e a dos nossos, só isso, mais nada. Amizade e amor: é isto que têm para oferecer contra o egoísmo e contra a brutalidade? Se é para isto, para que foram precisos a Inquisição e a Censura? O Tibete fica longe, Darfur é uma miragem, sobre o mal - o nevoeiro da nossa indiferença, poemas inúteis. Dêmos as mãos e bailemos o tango burguês da nossa literatura. A liberdade que se foda, é mais útil calar do que escrever o que se sente e pensa. Que se foda o útil. Que se fodam Ângelo de Lima e todos os lunáticos como ele.
Quarta-feira, 11 de Março de 2009
MOSCOW, BELGIUM
Uma mulher atravessa uma crise como um velho desamparado atravessa uma rua. Predispõe-se aos acidentes, atravessa sem bengalas, voa sem rede, recorda-nos o equilibrista às portas do céu porque o perigo de uma decisão mal gerida pode apressar o instante da derrocada. Ao contrário do equilibrista, ela não dá passos cuidadosos. Anda para a frente, hesita, volta para trás, chora, limpa as lágrimas, abraça os filhos, cozinha o sangue, mas sem os cuidados extremos de quem não se abalança sem método. A mulher pensa no que poderia ter sido se, a determinada altura, os traços que o marido lhe desenhava não tivessem sido perturbados pela paixão, pelos ecos da juventude perdida, pela vontade que a todos toca quando o fracasso da vida acelera os relógios e as mãos começam a olhar-se imersas em interrogações. Que fiz eu? Valeu a pena? As interrogações perturbam o traço, os contornos do rosto acabam enrugados, a luz de outrora é substituída pela sombra do desalento. Uma mulher atravessa uma crise predispondo-se aos acidentes. Subitamente vê-se adormecida no vazio da almofada, olha para trás e não percebe os saltos do tempo, procura agarrar a vida com as mãos feridas de abandono. Sai-lhe no acidente um viajante, um jovem camionista de sensibilidade rude mas de sentimentos puros. Distinto da sofisticação do artista que deixou a mulher suspensa, este homem de traço rígido transporta o passado entre as grades dos erros cometidos e o sol vacilante dos perigos que o espreitam. Ele tem a marca dos renegados, a marca a que todas as crises se entregam quando atravessam, desamparadas, ruas intransitáveis. A mulher acaba a entregar-se a uma vida nova, ele entrega-se a ela. O futuro é de todos sabido. Não há futuro. E a vida é uma comédia romântica. Que nos escrevam cartas quando morrermos e connosco sejam solidários na morte é tudo o que podemos ambicionar.
Terça-feira, 10 de Março de 2009
A IRRESISTÍVEL VOZ DE IONATOS
26.
para Henrique Manuel Bento Fialho.
para Henrique Manuel Bento Fialho.
Que sei eu do vento que, impetuoso e assertivo, nas suas franjas leva
os frutos apodrecidos, os galhos dos arbustos, os nodosos ramos há muito
espalhados pelo chão? Que sei eu desse furor com que adverte os barcos
e confunde os portos; com que dispersa as nuvens e a tempestade agiganta
no justo sítio onde o lodo se concentra e as algas se entrecruzam, para
a sôfrega destruição das ondas? Que sei eu do vento tão falho que sou
de alento, tão inseguro... privado de instrumentos que das coisas me
limpem seu traiçoeiro parecer? Que sei eu dele, quando à noite, cansado
de ser vento, completamente esgotado pelos trabalhos a que a distracção
dos deuses o votou, se recolhe às furnas desta margem, com seu corpo
de vento, suas mãos de argila, seu olhar a pedir fim? Dantes, quando eu era
menino, escondido na gabardina de meu pai, julguei-o pela frieza que me
deixava no rosto, pelos meus pés enregelados se acaso atravessava as quintas,
o regueirão, o lamaçal que a inépcia da vizinhança insistia em não remover.
Depois, nos meses de sufoco, o vento chegava-me em vergastas de fogo
aos meus pulmões ameaçando já ruína; era uma fogueira a estampar o medo
na face de minha mãe, com a estridência da sirene a devorar as ruas;
as mulheres de branco a correr e um fino tubo a raspar-me o nariz.
O vento era então o que mais tarde li em Thomas Mann: uma dor
na clavícula, outra mais abaixo, a saliva pegajosa na garganta, o sangue.
E vinha então outro vento, mas em altas e esguias garrafas, trazidas
por homens com máscaras esverdeadas, que de mim logo fugiam como de gafo
a quem sobravam dias. Que sei eu do vento se nunca nos encontrámos
verdadeiramente, mas tudo foram acidentes, resquícios de julgar ver,
refracções, imagens distorcidas, intuições à deriva, como à deriva eu
já refeito, pelas veredas abaixo? Mas agora, agora vejo-o de novo
do outro lado da vidraça, a zurzir a falésia, a beijar a praia em frente,
a vir ao varandim para me espreitar, como se nunca me tivesse
visto, porque - e pensando bem - que sabe de mim o vento?
Victor Oliveira Mateus, in A Irresistível Voz de Ionatos, posfácio de Cláudio Neves, Labirinto, Março de 2009.
Segunda-feira, 9 de Março de 2009
MANUSCRITO
Desapareceu-me um moleskine cuja probabilidade de vir a ser encontrado é praticamente nula. Era um caderno escrito à mão, actividade cada vez mais rara nestes dedos que agora mesmo primem um teclado gasto e sujo. Há muito que deixei de escrever à mão. Tenho uma enorme dificuldade em compreender a minha letra. Acontece também que escrevo com caligrafias diferentes conforme os dias, o que revela, segundo me explicaram, uma personalidade perturbada, inquieta e volátil (há-de revelar mais qualquer coisa, mas três qualidades são suficientes para dar algum equilíbrio à frase). Não estou certo de que assim seja. No entanto, se há coisa que invejo é uma caligrafia bonita. Acredito que a caligrafia seja um elemento importante na revelação de uma pessoa. Por vezes, olho algumas caligrafias e sinto cheiros, é como se estivesse a tocar uma pele escondida nas letras, como se ouvisse o tom de uma voz através da forma como a língua é desenhada sobre a página por uma mão mais ou menos firme, por um corpo mais ou menos firme, já que para a mão, quando escrevemos, vai todo o peso do corpo. Estas são sensações reais, nenhuma metafísica há nelas, nenhuma poesia. Talvez possa haver alguma esquizofrenia. Não sei. O que sei é que não consigo compreender a minha caligrafia. Ainda assim, gostava de encontrar o moleskine algures perdido numa eterna incompreensão. Se há algo que aprecio em mim é esta incapacidade de me compreender.
PARÁBOLA
O recato é para ser religiosamente respeitado. Quem desrespeita o recato faz papel de mosca. Acontece que o recato foi, de facto, desrespeitado por uma mosca. Às vezes a realidade é uma metáfora.
Sábado, 7 de Março de 2009
A VERDADE É HISTÓRICA
O Magalhães é o maior assassino da literatura em Portugal. Os weblogs são os maiores assassinos da literatura. A Internet é a maior assassina da literatura mundial. Os audiolivros são os maiores assassinos da leitura. O cd-rom é o maior assassino do livro. A televisão assassinou a literatura. A rádio é a maior assassina dos leitores. A imprensa veio para assassinar a literatura, tal como o riso assassinou o temor a Deus. A impressão e a tipografia deram cabo do saber literário e académico, assassinaram os mestres. O papel assassinou a pedra. Uma pedra matou Golias. Golias foi um gigantesco filisteu. Os filisteus comiam porcos e não eram circuncidados. Segundo a Wikipédia, a palavra filisteu refere-se à pessoa deficiente na cultura das artes liberais, um oponente intolerante do boémio que exibe um código moral restritivo e depreciativo das ideias artísticas. A Wikipédia não é de confiança, assassinou as enciclopédias. Por uma questão de justeza histórica, o Magalhães devia chamar-se Golias. E todos os que o depreciam são filhos de David.
OS PUTOS
Quitéria anda arreliada com os putos do bairro. Cresceram, estão uns matulões, ninguém tem mão meles. Na melhor das hipóteses, partem os retrovisores dos carros. Mas por vezes arrombam os vidros e metem-se em aventuras de ligação directa. Quitéria anda muito arreliada. Não entende por que preferem destruir os carros roubados a vendê-los na candonga.
ZÉ CARTAXO
Zé Cartaxo levantava-se todas as manhãs para levar a mulher a passear. Paravam na mercearia, compravam um litro de vinho e, no regresso, apanhavam alguns cogumelos que serviriam para o guisado ao almoço. Os donos também se levantam todas as manhãs para levarem os cães a passear, mas nunca passam por mercearias com os caniches pela trela nem sequer sabem o que são cogumelos. Resta esclarecer que a mulher do Zé Cartaxo era cega. Ao contrário, os cães têm o faro bastante apurado e vêem tudo muito a preto e branco. Já os donos vão fingindo que não vêem.
Sexta-feira, 6 de Março de 2009
IDIOTAS & IDIOTAS
Este ano, o Grande Prémio da Secção Oficial de Cinema Fantástico do Fantasporto foi atribuído a um filme de animação. Idiots and Angels, de Bill Plympton, é, sem dúvida, um filme fantástico, pelo que o prémio é adequado sob todos os pontos de vista. Reminiscências kafkianas transportam-nos para um cenário negro com personagens maldosas, terrivelmente maldosas, numa cidade obscura e inóspita. Há quem sonhe com impossíveis e há quem faça os possíveis para que os sonhos dos outros não se concretizem. Tudo é muito negro, tudo parece estranhamente real. Digo estranhamente por estarmos a falar de desenhos animados. Mais uma vez, a relação entre a realidade e a ficção, enquanto representação do real, ganha um veio que me leva a crer no desenho como num vocábulo que exprime com mais verosimilhança a carne e o osso do que as representações de carne e osso adulteradas por uma panóplia de efeitos especiais que outra coisa não fazem senão plastificar a matéria orgânica. As personagens de Idiots and Angels adquirem muitas vezes o corpo ruinoso e derradeiro da existência, são, digamos assim, construções naturalistas que exprimem de um modo fotográfico sentimentos, sensações, emoções raramente captadas pela fotografia em movimento. Aí está o desenho a mostrar-nos o que o reflexo omite, aí está o desenho a tornar manifestos, com uma lucidez funesta, os subterrâneos dos homens e das relações que estabelecem entre si. O fumo é denso, os corpos são grotescos, as superfícies rugosas, as personagens grunhem como se fossem animais e as fisionomias não distam muito da dos suínos. Os dias nascem nocturnos, a música adensa a figuração, a voz cavernosa de Tom Waits confere àquela deformação uma forma bem fiel a um imaginário noir povoado de crápulas e de criminosos. Acontece que até o mais porco dos porcos pode ser surpreendido pelo bem, numa metamorfose indesejada que se revelará dificilmente sustentável num cenário de gente arrivista e invejosa. Crescem umas asas nas costas do mal que o impedem de fazer o mal (excepto quando voa e caga para os que rastejam - sinal dos tempos). Paradoxalmente, não só o impedem de fazer o mal como provocam o mal nos outros. Pelas razões mais erradas – fama, poder, sucesso -, aquelas asas, aos olhos de quem as vê, não tem o mesmo significado que têm para quem as carrega. As asas que crescem nas costas do mal estimulam a ambição, não de quem pretende com elas servir o bem, mas de quem as pretende usar para mais mal poder realizar. Aquelas asas surgem acidental e inesperadamente num mundo de gente cobiçosa. Elas podem representar inúmeros instrumentos que acabaram por se revelar sombrios quando era suposto oferecerem luz ao desfocado mundo humano. A dicotomia que o título aparenta acaba por não fazer grande sentido, pois é no idiota que o anjo se revela. E ao revelar-se, torna clara a idiotice alheia. Eu preferiria algo mais sardónico. Talvez um anjo revelando-se um perfeito idiota. Mas aí teríamos uma redundância. Certo?
Quarta-feira, 4 de Março de 2009
DO OLHAR
DA PREGUIÇA
Não é pessimismo nem optimismo, é constatação. Tanta teoria sobre a vida para nenhuma resposta que escape a esta evidência: nascemos já mortos e mortos havemos de mergulhar no esquecimento. Porquê então tanta batalha, tanta competição, tanta corrida? Uma resposta seria a cobiça de um lugar na história e nisso sentir o vago conforto da desejada eternidade. Ainda assim, para quê? Outra resposta poderia ser a fé numa imortalidade sob a forma que cabe a cada teoria, uma espécie de alarme permanente a pairar sobre a cabeça definindo cada gesto, cada atitude, cada acção. Outras respostas haverá que agora não me ocorrem. Mas ocorre-me pensar que para lá das acusações de optimismo ingénuo ou de pessimismo radical, um homem pode relativizar a sua condição afirmando-se nas pequenas vitórias que disfarçam a inevitável derrota: por mais aplausos e elogios que nos cheguem, jamais o corpo escapará à solidão dos dias e ao silêncio da Noite. Pessoalmente, resulta a constatação (muito para lá do tal optimismo ou do tal pessimismo) numa única cobiça: a preguiça.
Terça-feira, 3 de Março de 2009
DISPERSÃO
PALERMO SHOOTING
Ainda antes de ter visto Paris, Texas (1984), um filme ao qual regresso de vez em quando muito por culpa de Sam Shepard (argumento) e de Ry Cooder (banda sonora), o cinema de Wim Wenders prendeu-me por causa de filmes como As Asas do Desejo (1987) e Tão Longe, Tão Perto (1993) - o primeiro que vi nas salas do cinema King. Um ano depois o realizador apaixonou-se pela música dos Madredeus e pela poesia de Fernando Pessoa, resultando a paixão num menos fascinante Lisbon Story (1994). Para Além das Nuvens (1995) juntou-o ao mestre Michelangelo Antonioni, tendo Wenders enveredado posteriormente por uma série de filmes de tendência mais política de que são exemplos The End of Violence (1997), o magnífico documentário Buena Vista Social Club (1999), The Million Dollar Hotel (2000) e Land of Plenty (2004). Don’t Come Knocking (2005) retomou a colaboração com Sam Shepard, um impecável contador de histórias com uma curiosa carreira no campo da representação cinematográfica. A verdade é que apesar de não desgostar do Wenders destes últimos filmes made in Amercia, prefiro-lhe a poesia dos tempos alemães. Palermo Shooting retoma essa poesia, numa clara homenagem aos mestres Antonioni e Ingmar Bergman. Nem era necessário o filme ser-lhes dedicado, informação oferecida no final mas patente em múltiplas evocações das obras dos mestres. Misto de Blowup (Michelangelo Antonioni, 1966) com O Sétimo Selo (Ingmar Bergman, 1957), Palermo Shooting retoma as velhas questões da existência na figura de um fotógrafo (interpretado pelo vocalista da banda Die Toten Hosen) subitamente interpelado pela figura da morte (Dennis Hopper). A música, factor determinante nos filmes de Wenders, vai pontuando o ritmo da narrativa com escolhas acertadas e uma qualidade impar. Sucessivas manipulações do som permitem-nos transitar do íntimo da personagem central para o exterior que o circunda, ficando essa separação suspensa apenas quando mergulhamos num domínio onírico onde tudo se confunde. A bergmaniana questão do tempo, na sua convocação constante da morte e, a partir dela, do sentido que a vida possa fazer, permite ainda questionar a realidade através de uma provocadora síntese da relação entre as artes visuais (pintura, fotografia, cinema) e a realidade. A determinada altura diz-se que o digital roubou a essência à imagem, no que aparenta ser mais um dilema do que uma crítica de tipo conservador. A verdade é que se torna fundamental perceber a essência para saber que a mesma foi roubada. De outro modo, como podemos saber o que é ou deixa de ser a essência? Sendo assim, aquilo que nos rouba é o que mais nos afirma. Tal como a morte, roubando-nos à vida para que a vida se afirme na sua plenitude, o digital usurpa a essência à imagem – o acaso, o acidente - para que a imagem se possa afirmar enquanto expressão da realidade. O duelo que Wenders reproduz neste seu filme é, antes de mais, uma bela homenagem aos mestres porque, homenageando-os, expõe-se com honestidade e mostra-se desabrigado perante as aporias que a tecnologia trouxe à sétima arte.
Segunda-feira, 2 de Março de 2009
A CASA DO ESQUECIMENTO
Subscrever:
Mensagens (Atom)