Domingo, 22 de Março de 2009

PRINCÍPIO




Terça-feira, 17 de Março de 2009

O CARNAVAL DOS ANIMAIS

Em 1886 Camille Saint-Saëns compôs Le carnaval des animaux, uma peça para dois pianos que acabaria por vir a revelar-se a mais célebre das obras do compositor francês. O poeta Rui Caeiro tomou-lhe o título de empréstimo e organizou um magnífico conjunto de epigramas de inclinação fabulística. Há muito de braço dado com Vítor Silva Tavares nessa poética aventura editorial que dá pelo nome de &etc., Caeiro faz questão de assumir o seu ateísmo militante em livros tais como Sobre Deus, sobre o magno problema da existência de Deus (1988), O Toureiro de Deus (1998) ou Olhar o Nada, Ver a Deus (2003). Nesta recolha mais recente o nado-morto não é esquecido, muito embora o Carnaval dialogue directamente com outros livros do mesmo autor. Pensamos em 49 Espinhas para um Gato (1997) e Gatos e Homens (2002). No excelente prefácio que inaugura as hostilidades, José Manuel de Vasconcelos lembra que: «A literatura portuguesa não é abundante no tratamento específico do tema dos animais. Há principalmente uma linha fabulística, mas, mesmo essa, muito subsidiária dos universos da fábula clássica, em que os animais falam e se comportam em tudo como pessoas, com objectivos de crítica de costumes, de denúncia social e propósitos moralizantes» (pp. 7-8). Neste caso, os objectivos não serão diversos, mas o propósito é claramente outro. Mais do que moralizar, os aforismos de Rui Caeiro testemunham um olhar arguto, atento, irónico, sarcástico quando o tema o exige, sábio - por que não reconhecê-lo? – no modo como perspectiva a realidade. Ao contrário da fábula clássica, eximiamente sintetizada no trecho citado, estes epigramas, ou, se preferirem, estes aforismos, não procuram tanto pôr os animais a falar como conseguem pôr os homens na fala dos animais, não vêem tanto comportamentos humanos nos animais como parecem ver comportamentos animais nas pessoas. De resto, a distinção entre o ser animal e o ser humano aparece recorrentemente, ou então acabam ambos integrados no conjunto das bestas, pelo que é de assinalar o facto de os próprios homens – enquanto classe animal específica - serem integrados neste bestiário carnavalesco onde desfilam suricatas, rolas, melros, pardais, formigas, elefantes, caracóis, baratas, águias, peixinhos de prata, cágados, mosquitos, andorinhas, bois, sapos, garças, tubarões, coelhos, leopardos, esquilos, papagaios, cavalos, hienas, cisnes, bivalves, pirilampos, açores, morcegos, pumas, girafas, grifos, abutres, borboletas, serpentes, bichos de conta, burros, galinhas, pavões (um deles dedicado a Manuel Alegre), porcos, camelos, dromedários, corujas, lesmas, lobos, ursos, zebras, rãs, grilos, aranhas, gatos, otárias, pombos, hipopótamos, rinocerontes, búfalos, cabras, cabrinhas, leões, leoas, golfinhos, iguanas, vermes, salmões, minhocas, castores, cães, medusas, tigres, lontras, leões marinhos, corças, catatuas, pinguins, moscas, crocodilos, chimpanzés, lagartixas, ouriços, toupeiras, abelhas, bichos da seda, baleias, flamingos, cangurus, pulgas, chitas, gazelas, alforrecas, linces, camaleões, lagartos, raposas, corvos, touros, ratos, vírus, bactérias, peixes, peixinhos vermelhos, sereias, avestruzes, aves, feras, monstros, animais de raça… A exaustão do inventário permite tornar explícita a relação entre um imaginário colectivo referente a animais inventados e a natureza adjectivante que muitas das bestas convocadas adquire na língua portuguesa. O boi não é apenas o quadrúpede ruminante e chifrudo que todos reconhecem, é também aquele que olha de um modo muito especial para os palácios; papagaios podem ser tagarelas; burros são os homens que tão maltratam a besta; sobre camelos e porcos muito haveria a dizer. Rui Caeiro, tradutor, entre outros, de Ramón Gómez de la Serna, oferece-nos neste volume algo muito semelhante ao que o escritor espanhol nos ofereceu nas Greguerías: breves composições de cariz essencialmente humorístico mas com efeitos subversivos assaz contundentes. As inversões lógicas, as associações metafóricas, provocam no leitor um riso malicioso e baudelairianamente demoníaco. É o riso de quem não está tão preocupado em moralizar como está em testemunhar, é o riso de quem não teme um gesto de denúncia que transcende a mesquinhez vazia e despropositada do ressentimento. Porque a questão não é pessoal, é humana. Daí as comparações, a intertextualidade, as evocações, esta óbvia cumplicidade essencial:

TOUROS − 4

É aquilo um acto de amor? Perguntarão os mais
Exigentes. Sim, claro, outra coisa não será. Amor entre
homem e besta. Amor entre duas bestas quaisquer


Rui Caeiro, O Carnaval dos Animais, Letra Livre, Outubro de 2008.

Segunda-feira, 16 de Março de 2009

MELODIA AO ANOITECER

Não quero parecer catastrófico, mas parece-me que a comparação começa a fazer sentido. Quando era professor e o problema da ética ecológica se colocava, vinha sempre o estafado exemplo do problema da escassez de água potável. Os gráficos indicavam que de toda a água existente no planeta, apenas 2,5% era doce. Desses 2,5% a grande maioria existia na forma de gelo, uma ínfima parte corria nos rios e cerca de 30% andava pelo subsolo. Isto queria dizer, mais coisa menos coisa, que apenas 1% de toda a água existente no planeta Terra era potável e, portanto, consumível. Com o mundo dos livros passa-se algo semelhante. De todas as pessoas existentes no planeta, apenas 2,5% lêem livros. Destes 2,5% a grande maioria lê aquilo a que é obrigado, uma ínfima parte lê por prazer e cerca de 30% anda pelo subsolo (entendam como quiserem). Isto significa, mais coisa menos coisa, que apenas 1% de todas as pessoas existentes no planeta Terra lêem por gosto. Hoje apareceu-me uma dessas pessoas. A probabilidade de isto acontecer é ínfima. Devo sentir-me feliz e agradecido pela sorte que me calhou. Era uma senhora de meia-idade, com um ar muito humilde e um falar tipicamente campesino. Procurava um livro chamado Melodia ao Anoitecer. Ouvira falar dele na rádio, muito por alto. Infelizmente não dispúnhamos do livro na loja. A senhora mostrou-se cheia de pena e foi-me confessando: «Sabe, gosto muito de ler. Acabei de ler um chamado Os Apanhadores de Conchas. Foi lá na biblioteca. Será que esse há nas bibliotecas? Os livros são a minha companhia, sabe». E com um ar lacrimejante, ela nos olhos, eu por dentro enquanto a escutava, rematou: «Quando eu já não puder ler não sei o que vai ser de mim. Não sei mesmo». Ainda fosse eu professor, e aqui teria uma óptima comparação para os alunos que me diziam não gostar de ler. Tal como a água, gostar de ler é um bem cada vez mais raro. Com o tempo percebemos isso. O tempo ensina-nos a solidão. E os livros são a melhor companhia. Uma questão de sobrevivência.

Domingo, 15 de Março de 2009

VINHO A MARTELO

Reparo que todas as minhas luminárias são prenunciadoras de algo verdadeiramente trágico. Antonin Artaud foi um suicidado da sociedade, Daniil Harms foi expulso do Instituto Electrotécnico de Leninegrado devido a fraca participação nas actividades sociais, Boris Vian foi despedido porque corrigia os erros ortográficos dos seus superiores, Samuel Beckett foi agredido por estranhos, Franz Kafka foi um eterno desistente, Pier Paolo Pasolini foi outro solitário a quem fizeram a folha, Cesare Pavese caiu ao rio com os ombros a pesarem de cansaço, Albert Camus espatifou-se contra uma árvore (não há morte mais trágica!), Friedrich Nietzsche foi dado como tontinho por gostar de cavalos… Um rol de desgraças que nunca mais acaba. Que posso eu esperar da vida com luminárias destas? Que o Lidl mantenha os bons preços e que o senhor Antunes nunca deixe de produzir vinho a martelo. Adenda: Cervantes, Dante, Milton, Goethe, Rousseau, Homero, Stendhal, Tolstói, Dostoiévski, Proust… Até dói.

POLÍTICA DOS TRÊS ERRES

Acabadinho de chegar da labuta, dou comigo a pensar como sou um convertido em permanente estado de renegação. Devo confessar que amo Jesus, amo-o com penas. Os domingos são difíceis, confrontam-nos com as pessoas que passeiam os filhos nos centros comerciais, com a emigrante que pousa para a máquina fotográfica nas escadas rolantes, com o festival de balões a rebentarem de consumismo, com a pobre criança que rejeita os livros do Miguel Sousa Tavares porque a professora lhe «disse que ele era mau, pois diz mal dos professores»… Chegados a este ponto, pergunto-me para que terá ele morrido na cruz. Para qualquer lado que me volte só vejo cretinos, crápulas, gente medíocre, mesquinha, invejosa, uma caravana de arrivistas que há muito usurparam de sentido a palavra cumplicidade. Remoídos, ressentidos, ressabiados. Depois volto-me para mim mesmo e vejo um convertido em permanente estado de renegação. Ele morreu na cruz para nos libertar, para nos expiar. Ou terá sido para melhor nos espiar lá do alto da sua infinita humildade? Não sei. Só sei que não estou mal com o mundo e bem comigo mesmo, pelo menos não tanto como estou mal comigo mesmo por estar bem com o mundo. Só sei que num cenário destes é impossível às boas gentes não passarem de figurantes. E ficam muito bem assim, assanhando os dentes à caravana de caniches.

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

DIGITAL


A humidade esborrata o carácter, começa por espalhá-lo pelo lençol até que nada mais reste - uma mancha. As palavras, na forma de manchas, ficam indecifráveis. Vai-se a alma com o tempo. Se viveres cem anos a esgravatar a glória, perderás a única oportunidade que te foi oferecida para não te transformares numa mancha. Como? Não imprimas o carácter segundo processos digitais. Com o tempo, tudo ficará branco, liso, esquecido, abandonado. Em vida pouco mais terás recebido que o destino de um cão: esgravatar procurando o osso outrora escondido, atirando areia para cima da merda que outros pisarão, farejando o cu às cadelas e a mais cães como tu.

Quinta-feira, 12 de Março de 2009

A (EST)ÉTICA POSSÍVEL

Eu sinto sempre o que escrevo.
Posso muita vez não sentir nem pensar o que digo, mas o que escrevo, sinto-o sempre, e sempre o penso.
Ângelo de Lima


Na cena da violação - Irreversível - há alguém que vê e não só cala como consente. Volta para trás, foge. A teoria de que devemos ignorar o que é mau resulta neste tipo de fugas. Enquanto engolimos a nossa raiva num desconfortável silêncio, numa vergonhosa indiferença, as cenas de violação perpetuam-se para lá dos filmes. Já não há cowboys a sério. Restam-nos jardineiros de fato e gravata. O mundo que se lixe, o que importa é a nossa alegria, a nossa e a dos nossos, só isso, mais nada. Amizade e amor: é isto que têm para oferecer contra o egoísmo e contra a brutalidade? Se é para isto, para que foram precisos a Inquisição e a Censura? O Tibete fica longe, Darfur é uma miragem, sobre o mal - o nevoeiro da nossa indiferença, poemas inúteis. Dêmos as mãos e bailemos o tango burguês da nossa literatura. A liberdade que se foda, é mais útil calar do que escrever o que se sente e pensa. Que se foda o útil. Que se fodam Ângelo de Lima e todos os lunáticos como ele.

Quarta-feira, 11 de Março de 2009

MOSCOW, BELGIUM


Uma mulher atravessa uma crise como um velho desamparado atravessa uma rua. Predispõe-se aos acidentes, atravessa sem bengalas, voa sem rede, recorda-nos o equilibrista às portas do céu porque o perigo de uma decisão mal gerida pode apressar o instante da derrocada. Ao contrário do equilibrista, ela não dá passos cuidadosos. Anda para a frente, hesita, volta para trás, chora, limpa as lágrimas, abraça os filhos, cozinha o sangue, mas sem os cuidados extremos de quem não se abalança sem método. A mulher pensa no que poderia ter sido se, a determinada altura, os traços que o marido lhe desenhava não tivessem sido perturbados pela paixão, pelos ecos da juventude perdida, pela vontade que a todos toca quando o fracasso da vida acelera os relógios e as mãos começam a olhar-se imersas em interrogações. Que fiz eu? Valeu a pena? As interrogações perturbam o traço, os contornos do rosto acabam enrugados, a luz de outrora é substituída pela sombra do desalento. Uma mulher atravessa uma crise predispondo-se aos acidentes. Subitamente vê-se adormecida no vazio da almofada, olha para trás e não percebe os saltos do tempo, procura agarrar a vida com as mãos feridas de abandono. Sai-lhe no acidente um viajante, um jovem camionista de sensibilidade rude mas de sentimentos puros. Distinto da sofisticação do artista que deixou a mulher suspensa, este homem de traço rígido transporta o passado entre as grades dos erros cometidos e o sol vacilante dos perigos que o espreitam. Ele tem a marca dos renegados, a marca a que todas as crises se entregam quando atravessam, desamparadas, ruas intransitáveis. A mulher acaba a entregar-se a uma vida nova, ele entrega-se a ela. O futuro é de todos sabido. Não há futuro. E a vida é uma comédia romântica. Que nos escrevam cartas quando morrermos e connosco sejam solidários na morte é tudo o que podemos ambicionar.

Terça-feira, 10 de Março de 2009

A IRRESISTÍVEL VOZ DE IONATOS


26.

para Henrique Manuel Bento Fialho.

Que sei eu do vento que, impetuoso e assertivo, nas suas franjas leva
os frutos apodrecidos, os galhos dos arbustos, os nodosos ramos há muito
espalhados pelo chão? Que sei eu desse furor com que adverte os barcos
e confunde os portos; com que dispersa as nuvens e a tempestade agiganta
no justo sítio onde o lodo se concentra e as algas se entrecruzam, para
a sôfrega destruição das ondas? Que sei eu do vento tão falho que sou

de alento, tão inseguro... privado de instrumentos que das coisas me
limpem seu traiçoeiro parecer? Que sei eu dele, quando à noite, cansado
de ser vento, completamente esgotado pelos trabalhos a que a distracção
dos deuses o votou, se recolhe às furnas desta margem, com seu corpo
de vento, suas mãos de argila, seu olhar a pedir fim? Dantes, quando eu era
menino, escondido na gabardina de meu pai, julguei-o pela frieza que me

deixava no rosto, pelos meus pés enregelados se acaso atravessava as quintas,
o regueirão, o lamaçal que a inépcia da vizinhança insistia em não remover.
Depois, nos meses de sufoco, o vento chegava-me em vergastas de fogo
aos meus pulmões ameaçando já ruína; era uma fogueira a estampar o medo
na face de minha mãe, com a estridência da sirene a devorar as ruas;
as mulheres de branco a correr e um fino tubo a raspar-me o nariz.

O vento era então o que mais tarde li em Thomas Mann: uma dor
na clavícula, outra mais abaixo, a saliva pegajosa na garganta, o sangue.
E vinha então outro vento, mas em altas e esguias garrafas, trazidas
por homens com máscaras esverdeadas, que de mim logo fugiam como de gafo
a quem sobravam dias. Que sei eu do vento se nunca nos encontrámos
verdadeiramente, mas tudo foram acidentes, resquícios de julgar ver,

refracções, imagens distorcidas, intuições à deriva, como à deriva eu
já refeito, pelas veredas abaixo? Mas agora, agora vejo-o de novo
do outro lado da vidraça, a zurzir a falésia, a beijar a praia em frente,
a vir ao varandim para me espreitar, como se nunca me tivesse
visto, porque - e pensando bem - que sabe de mim o vento?

Victor Oliveira Mateus, in A Irresistível Voz de Ionatos, posfácio de Cláudio Neves, Labirinto, Março de 2009.

Segunda-feira, 9 de Março de 2009

MANUSCRITO

Desapareceu-me um moleskine cuja probabilidade de vir a ser encontrado é praticamente nula. Era um caderno escrito à mão, actividade cada vez mais rara nestes dedos que agora mesmo primem um teclado gasto e sujo. Há muito que deixei de escrever à mão. Tenho uma enorme dificuldade em compreender a minha letra. Acontece também que escrevo com caligrafias diferentes conforme os dias, o que revela, segundo me explicaram, uma personalidade perturbada, inquieta e volátil (há-de revelar mais qualquer coisa, mas três qualidades são suficientes para dar algum equilíbrio à frase). Não estou certo de que assim seja. No entanto, se há coisa que invejo é uma caligrafia bonita. Acredito que a caligrafia seja um elemento importante na revelação de uma pessoa. Por vezes, olho algumas caligrafias e sinto cheiros, é como se estivesse a tocar uma pele escondida nas letras, como se ouvisse o tom de uma voz através da forma como a língua é desenhada sobre a página por uma mão mais ou menos firme, por um corpo mais ou menos firme, já que para a mão, quando escrevemos, vai todo o peso do corpo. Estas são sensações reais, nenhuma metafísica há nelas, nenhuma poesia. Talvez possa haver alguma esquizofrenia. Não sei. O que sei é que não consigo compreender a minha caligrafia. Ainda assim, gostava de encontrar o moleskine algures perdido numa eterna incompreensão. Se há algo que aprecio em mim é esta incapacidade de me compreender.

PARÁBOLA

O recato é para ser religiosamente respeitado. Quem desrespeita o recato faz papel de mosca. Acontece que o recato foi, de facto, desrespeitado por uma mosca. Às vezes a realidade é uma metáfora.

Sábado, 7 de Março de 2009

A VERDADE É HISTÓRICA

O Magalhães é o maior assassino da literatura em Portugal. Os weblogs são os maiores assassinos da literatura. A Internet é a maior assassina da literatura mundial. Os audiolivros são os maiores assassinos da leitura. O cd-rom é o maior assassino do livro. A televisão assassinou a literatura. A rádio é a maior assassina dos leitores. A imprensa veio para assassinar a literatura, tal como o riso assassinou o temor a Deus. A impressão e a tipografia deram cabo do saber literário e académico, assassinaram os mestres. O papel assassinou a pedra. Uma pedra matou Golias. Golias foi um gigantesco filisteu. Os filisteus comiam porcos e não eram circuncidados. Segundo a Wikipédia, a palavra filisteu refere-se à pessoa deficiente na cultura das artes liberais, um oponente intolerante do boémio que exibe um código moral restritivo e depreciativo das ideias artísticas. A Wikipédia não é de confiança, assassinou as enciclopédias. Por uma questão de justeza histórica, o Magalhães devia chamar-se Golias. E todos os que o depreciam são filhos de David.

OS PUTOS

Quitéria anda arreliada com os putos do bairro. Cresceram, estão uns matulões, ninguém tem mão meles. Na melhor das hipóteses, partem os retrovisores dos carros. Mas por vezes arrombam os vidros e metem-se em aventuras de ligação directa. Quitéria anda muito arreliada. Não entende por que preferem destruir os carros roubados a vendê-los na candonga.

ZÉ CARTAXO

Zé Cartaxo levantava-se todas as manhãs para levar a mulher a passear. Paravam na mercearia, compravam um litro de vinho e, no regresso, apanhavam alguns cogumelos que serviriam para o guisado ao almoço. Os donos também se levantam todas as manhãs para levarem os cães a passear, mas nunca passam por mercearias com os caniches pela trela nem sequer sabem o que são cogumelos. Resta esclarecer que a mulher do Zé Cartaxo era cega. Ao contrário, os cães têm o faro bastante apurado e vêem tudo muito a preto e branco. Já os donos vão fingindo que não vêem.

Sexta-feira, 6 de Março de 2009

FAMÍLIA


Estou tão bonita que pareço um Carnaval.
Arte: Matilde (5 anos)
Poesia: Beatriz (2 anos)

IDIOTAS & IDIOTAS


Este ano, o Grande Prémio da Secção Oficial de Cinema Fantástico do Fantasporto foi atribuído a um filme de animação. Idiots and Angels, de Bill Plympton, é, sem dúvida, um filme fantástico, pelo que o prémio é adequado sob todos os pontos de vista. Reminiscências kafkianas transportam-nos para um cenário negro com personagens maldosas, terrivelmente maldosas, numa cidade obscura e inóspita. Há quem sonhe com impossíveis e há quem faça os possíveis para que os sonhos dos outros não se concretizem. Tudo é muito negro, tudo parece estranhamente real. Digo estranhamente por estarmos a falar de desenhos animados. Mais uma vez, a relação entre a realidade e a ficção, enquanto representação do real, ganha um veio que me leva a crer no desenho como num vocábulo que exprime com mais verosimilhança a carne e o osso do que as representações de carne e osso adulteradas por uma panóplia de efeitos especiais que outra coisa não fazem senão plastificar a matéria orgânica. As personagens de Idiots and Angels adquirem muitas vezes o corpo ruinoso e derradeiro da existência, são, digamos assim, construções naturalistas que exprimem de um modo fotográfico sentimentos, sensações, emoções raramente captadas pela fotografia em movimento. Aí está o desenho a mostrar-nos o que o reflexo omite, aí está o desenho a tornar manifestos, com uma lucidez funesta, os subterrâneos dos homens e das relações que estabelecem entre si. O fumo é denso, os corpos são grotescos, as superfícies rugosas, as personagens grunhem como se fossem animais e as fisionomias não distam muito da dos suínos. Os dias nascem nocturnos, a música adensa a figuração, a voz cavernosa de Tom Waits confere àquela deformação uma forma bem fiel a um imaginário noir povoado de crápulas e de criminosos. Acontece que até o mais porco dos porcos pode ser surpreendido pelo bem, numa metamorfose indesejada que se revelará dificilmente sustentável num cenário de gente arrivista e invejosa. Crescem umas asas nas costas do mal que o impedem de fazer o mal (excepto quando voa e caga para os que rastejam - sinal dos tempos). Paradoxalmente, não só o impedem de fazer o mal como provocam o mal nos outros. Pelas razões mais erradas – fama, poder, sucesso -, aquelas asas, aos olhos de quem as vê, não tem o mesmo significado que têm para quem as carrega. As asas que crescem nas costas do mal estimulam a ambição, não de quem pretende com elas servir o bem, mas de quem as pretende usar para mais mal poder realizar. Aquelas asas surgem acidental e inesperadamente num mundo de gente cobiçosa. Elas podem representar inúmeros instrumentos que acabaram por se revelar sombrios quando era suposto oferecerem luz ao desfocado mundo humano. A dicotomia que o título aparenta acaba por não fazer grande sentido, pois é no idiota que o anjo se revela. E ao revelar-se, torna clara a idiotice alheia. Eu preferiria algo mais sardónico. Talvez um anjo revelando-se um perfeito idiota. Mas aí teríamos uma redundância. Certo?

Quarta-feira, 4 de Março de 2009

DO OLHAR

Os problemas aludidos no mais recente filme de Wim Wenders não são exclusivos da poética do olhar ensaiada em Palermo Shooting. Essas mesmas questões já pairavam em obras anteriores do realizador alemão. Em The End of Violence (1997) e Land of Plenty (2004), por exemplo, o registo visual serve para tornar explícita a paranóia que caracteriza hoje o mundo da vigilância. Tendo assistido recentemente a um conjunto diversificado de filmes onde o olhar se apresenta na sua mais paradoxal relação com a realidade, lembrei-me de O olho e o espírito – derradeiro ensaio do filósofo Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). Em Transsiberian (2008), thriller mediano com Woody Harrelson e Ben Kingsley, a verdade fica por apurar devido a um gesto tão simples como é o de apagar uma fotografia. A ser revelada, essa fotografia permitiria desmascarar toda uma situação. Já em Eden Lake (2008) um problemático adolescente serve-se de um telemóvel para manipular os seus camaradas de grupo tornando-os cúmplices dos seus crimes. Também neste caso, a tecla delete assume contornos de poder sobre a realidade captada. Digamos que mais do que uma manipulação da verdade, em ambos os gestos o poder manifesta-se na capacidade de apagar um registo que tornaria real o que se pretende improvável. Isto é: mais do que tornar visível a realidade, o poder está em apagar essa mesma realidade. Esta ilusão só é possível porque a determinada altura nós passámos a confundir o real com o visível, quando sabemos que para lá do visível há toda uma realidade que nenhuma tecnologia logra captar. Merleau-Ponty falava da pintura como o que «confere existência visível ao que a visão profana crê invisível». A pintura, segundo o filósofo francês, «faz com que não necessitemos de um “sentido muscular” para ter a volumetria do mundo». Num outro filme, construído sobre a biografia de El Greco, diz-se várias vezes que o pintor tinha o poder de transformar pessoas comuns em santos. Numa curiosa cena, El Greco pede à amada que feche os olhos e lhe diga o que vê num quadro que ele pintara. Em todos os exemplos aqui enunciados, o que está em evidência é o facto de a realidade não se resumir ao visível. Por vezes é preciso fechar os olhos para ver melhor. O que as tecnologias trouxeram foi o reforço de uma velha ilusão, a de que o real e a verdade acerca do real se restringem ao reflexo do corpo no espelho e se confundem com esse reflexo. O gesto do adolescente problemático não difere muito da falsificação de fotografias na época estalinista, assim como a fotografia apagada em Transsiberian adia a revelação da verdade até que outras provas possam tornar visível o que foi apagado. Apagar as provas de um crime nada tem de inédito, o que há de coincidente em ambos os casos é esta vulgarização de um poder outrora limitado a quem detivesse o domínio sobre a “ciência de apagar”. Tem por isso razão o filósofo quando afirma que «das coisas aos olhos e dos olhos à visão nada ocorre para além do que vai das coisas às mãos do cego e das suas mãos ao pensamento. A visão não é a metamorfose das coisas mesmas na sua visão, a dupla pertença das coisas ao grande mundo e a um pequeno mundo privado. É um pensamento que descodifica estritamente os signos dados no corpo. A semelhança é o resultado da percepção, não a sua mola». Acontece que é ainda no corpo que o visível se nos torna claro quando o olhamos de olhos fechados, quando tentamos ver não o reflexo, não o fantasma, mas o corpo inteiro, absoluto. Fechar os olhos perante um corpo real não é o mesmo que apagá-lo, é procurar vê-lo para lá do que o músculo ocular logra percepcionar. Este ver para lá de nada tem de milagroso, profético ou metafísico. No fundo, talvez resulte apenas de uma concentração mais equilibrada dos sentidos, os quais não estarão já apenas dependentes do olho para verem. Este ver para lá de é ainda do território do sensível, no que nele possa existir de sensibilidade. A questão é que esse território tem sido bombardeado pelos artifícios do olhar, sendo já pouca a sensibilidade para ver além do visível. «Não há visão sem pensamento», pois claro. Não havendo pensamento, que podemos nós esperar da visão? Vejo ali ao lado o Ensaio sobre a cegueira. Por agora fico-me. Já tive sociologia suficiente nos últimos tempos.

DA PREGUIÇA

Não é pessimismo nem optimismo, é constatação. Tanta teoria sobre a vida para nenhuma resposta que escape a esta evidência: nascemos já mortos e mortos havemos de mergulhar no esquecimento. Porquê então tanta batalha, tanta competição, tanta corrida? Uma resposta seria a cobiça de um lugar na história e nisso sentir o vago conforto da desejada eternidade. Ainda assim, para quê? Outra resposta poderia ser a fé numa imortalidade sob a forma que cabe a cada teoria, uma espécie de alarme permanente a pairar sobre a cabeça definindo cada gesto, cada atitude, cada acção. Outras respostas haverá que agora não me ocorrem. Mas ocorre-me pensar que para lá das acusações de optimismo ingénuo ou de pessimismo radical, um homem pode relativizar a sua condição afirmando-se nas pequenas vitórias que disfarçam a inevitável derrota: por mais aplausos e elogios que nos cheguem, jamais o corpo escapará à solidão dos dias e ao silêncio da Noite. Pessoalmente, resulta a constatação (muito para lá do tal optimismo ou do tal pessimismo) numa única cobiça: a preguiça.

Terça-feira, 3 de Março de 2009

DISPERSÃO

E agora? Todos entretidos a discutir anos 90, heranças e herdeiros; todos muito azafamados na discussão dos futuros, como se houvesse futuro, ainda mais para a poesia; todos muito novíssimos, de rosto eximiamente rapado, já sem passado e só com futuro, tanto futuro que até estonteia. E agora? A mão em espiral interroga-se, vai à procura de exemplos, consegue, aqui e acolá, vislumbrar algo parecido, mas nada que se pareça. António Osório (n. 1933) estreou-se com A Raiz Afectuosa (edição do autor) quase aos 40, Manuel Gusmão (n. 1945), nesciamente arrumado na prateleira dos putativos anos 90, tinha 45 anos quando publicou o primeiro poemário: Dois Sois, A Rosa. A Arquitectura do Mundo. Nuno Dempster (n. 1944) não fez a coisa por menos, e chega para confundir quem gosta de tudo muito arrumadinho. Estreia-se em livro aos 65 anos, ou quase, estreia-se em idade de reforma com a jovialidade de quem vem para reformar velhos preconceitos, estafados estereótipos, estúpidas ideias feitas. Quando assim é, costumam os críticos falar de poetas tardios. Mas tardios são os mortos. E eu tenho lido pouca poesia tão viva quanto esta. Antes de mais, deixemos ao poeta a palavra sobre a arrumação do extenso volume: «a disposição dos poemas não é cronológica (…), preferi organizar a compilação, dividindo-a segundo grandes assuntos» (p. 284). Sublinhemos organizar e compilação. Este é um livro com muitos livros dentro: Caminhos Sobrepostos, Confluências, Osmose, Génese, Em Cinza Quente, Palimpsesto, Inventário. Sete livros. Tantos quantos os dias que Deus demorou a criar o céu e a terra, embora o sétimo tenha sido consagrado ao descanso. Sendo assim, cabe informar que ao primeiro dia o poeta criou um lugar em trânsito, repleto de estradas, caminhos, sítios perfeitamente identificáveis, algures entre a Península Ibérica e os berços de uma Europa em decadência: Grécia e Roma. Fica-nos, desde logo, a marca de uma poesia segura, firme como a voz que a declama, esclarecida, mais que não seja, pelas dúvidas que atormentam o tédio e subitamente o interrompem com pequenos e inesperados momentos a darem azo ao poema. Entre o exílio e o fascínio, importa manter o espanto, deixar que o cansaço pese sobre si próprio enquanto se convocam o canto de uma cotovia ou o voo de uma libelinha ou um mar bonançoso que, não fazendo esquecer os desgostos da vida, permitem ir vivendo um pouco acima da miséria. Ao segundo dia, o amor e suas lembranças. Mesmo nestes poemas o lirismo não resvala numa indecente lamechice, como tantas vezes sucede. Aqui o amor não é um paraíso, nem achado nem perdido, é antes a consciência da inexistência de paraísos ou, se quiserem, a constatação de que paraíso só mesmo o da procura incessante das musas na memória. Que o poeta não me leve a mal partir-lhe o poema: «as musas / andam hoje por bares e cafés», «as musas, alta madrugada, / enchem as discotecas», «as musas eram só ficção», «ficção por ficção mais vale / apelar à memória» (p. 72). Não admira que os poetas mais citados sejam Camões e Jorge de Sena. Entre ambos houve a grandeza de um olhar atento ao mundo, magoado e refeito nessa mágoa que é assistir, talvez porque apenas atento, à desatenção dos outros, e nessa desatenção vislumbrar sinais de decadência. O tom quase elegíaco que timbra os poemas do terceiro dia, o dia da Osmose, relevam a solidão e o exílio em tempos apunhalados pela ausência de espanto. A cidade, assim dita de modo abstracto, é o cenário devastador da degradação, d’«o peso digital da noite urbana» (p. 127), «deste tempo violado / por números, ecrãs e deuses mortos» (p. 133). Restam os poemas, urdindo o manto que nos protege do frio deixado pelo desfile do tédio nos dias. Génese é um longo poema em verso largo, nele se misturam memória, um forte sentido crítico da História, a sabedoria de quem ousa olhar a existência sem subterfúgios: «Sobre ossadas dormimos, sobre ossadas amamos, / sobre ossadas fazemos a guerra eterna e a paz, / e os tanques a galope cavalgam no horizonte, / longe cavalgam sobre as ossadas antigas / e devastam os vivos em combates mortais / travados noutras eras. Onde estão esses corpos?» (p. 197) No lugar onde os tempos se confundem, no poema, essa flor que prevalece para lá da devastação desde o início do mundo, porque é dele toda a lógica, mesmo a que não tem lógica alguma. Ao quinto dia o fim aproxima-se, a morte afirma-se entre tudo o que é dos dias: o telemóvel, as prestações ao banco, os shoppings, as câmaras de vigilância, os algarismos sem nome, um chip essencial, o que resta de deuses antigos sendo vencido por uma agonia insuportável. Palimpsesto não deixa o trabalho pela metade, ainda que ironicamente ouse prever o futuro com a mão pesada e lúcida da constatação: «Onde nos encontrámos, Atxaga! / nesta Lisboa limpa / das escórias do império, / toda europeia, toda ela na rota / das coisas matemáticas, / em direcção do que é / julgado para sempre vivo, / na cave pós-moderna do Picoas, / de linhas claras rectas / sem pensamento, / onde o teu livro em saldo / se vende por dois euros, o futuro» (p. 232). A poesia também se faz tema, mas tudo se faz tema em cada poema deste livro. É essa a sua superior qualidade. O Inventário final apenas o confirma, rememorando vivências antigas, enumerando a experiência que resistiu ao esquecimento, não esquecendo o próprio esquecimento e a sua tirânica manipulação da realidade. Numa palavra: exílio. Do mesmo género, talvez, daquele onde Mário de Sá-Carneiro foi buscar a matéria do seu volume homónimo. Exilado de tudo em mim mesmo, resta-me afirmar: felizes aqueles que encontram quem assim os ampare na ânsia de viver.

PALERMO SHOOTING


Ainda antes de ter visto Paris, Texas (1984), um filme ao qual regresso de vez em quando muito por culpa de Sam Shepard (argumento) e de Ry Cooder (banda sonora), o cinema de Wim Wenders prendeu-me por causa de filmes como As Asas do Desejo (1987) e Tão Longe, Tão Perto (1993) - o primeiro que vi nas salas do cinema King. Um ano depois o realizador apaixonou-se pela música dos Madredeus e pela poesia de Fernando Pessoa, resultando a paixão num menos fascinante Lisbon Story (1994). Para Além das Nuvens (1995) juntou-o ao mestre Michelangelo Antonioni, tendo Wenders enveredado posteriormente por uma série de filmes de tendência mais política de que são exemplos The End of Violence (1997), o magnífico documentário Buena Vista Social Club (1999), The Million Dollar Hotel (2000) e Land of Plenty (2004). Don’t Come Knocking (2005) retomou a colaboração com Sam Shepard, um impecável contador de histórias com uma curiosa carreira no campo da representação cinematográfica. A verdade é que apesar de não desgostar do Wenders destes últimos filmes made in Amercia, prefiro-lhe a poesia dos tempos alemães. Palermo Shooting retoma essa poesia, numa clara homenagem aos mestres Antonioni e Ingmar Bergman. Nem era necessário o filme ser-lhes dedicado, informação oferecida no final mas patente em múltiplas evocações das obras dos mestres. Misto de Blowup (Michelangelo Antonioni, 1966) com O Sétimo Selo (Ingmar Bergman, 1957), Palermo Shooting retoma as velhas questões da existência na figura de um fotógrafo (interpretado pelo vocalista da banda Die Toten Hosen) subitamente interpelado pela figura da morte (Dennis Hopper). A música, factor determinante nos filmes de Wenders, vai pontuando o ritmo da narrativa com escolhas acertadas e uma qualidade impar. Sucessivas manipulações do som permitem-nos transitar do íntimo da personagem central para o exterior que o circunda, ficando essa separação suspensa apenas quando mergulhamos num domínio onírico onde tudo se confunde. A bergmaniana questão do tempo, na sua convocação constante da morte e, a partir dela, do sentido que a vida possa fazer, permite ainda questionar a realidade através de uma provocadora síntese da relação entre as artes visuais (pintura, fotografia, cinema) e a realidade. A determinada altura diz-se que o digital roubou a essência à imagem, no que aparenta ser mais um dilema do que uma crítica de tipo conservador. A verdade é que se torna fundamental perceber a essência para saber que a mesma foi roubada. De outro modo, como podemos saber o que é ou deixa de ser a essência? Sendo assim, aquilo que nos rouba é o que mais nos afirma. Tal como a morte, roubando-nos à vida para que a vida se afirme na sua plenitude, o digital usurpa a essência à imagem – o acaso, o acidente - para que a imagem se possa afirmar enquanto expressão da realidade. O duelo que Wenders reproduz neste seu filme é, antes de mais, uma bela homenagem aos mestres porque, homenageando-os, expõe-se com honestidade e mostra-se desabrigado perante as aporias que a tecnologia trouxe à sétima arte.

Segunda-feira, 2 de Março de 2009

A CASA DO ESQUECIMENTO

Li o primeiro romance do Fernando Dinis com o natural entusiasmo de o saber seu. Havia dado conta da felicidade que senti ao saber ter ido para ele o prémio que tornou possível esta sua estreia num género maior, talvez o mais exigente de todos os géneros literários. O Fernando foi um fugaz colaborador do Insónia. Simpatizo com ele como pessoa, porque tomo-o por honesto e dócil (qualidades cada vez mais difíceis de conciliar). Ora, isto nada tem que ver com livros. Os livros a gente lê com maior ou menor agrado, os livros a gente lê para falar deles, para os discutir, para com eles aprender alguma coisa nesta vida onde parece haver sempre tanta gente disposta a ensinar e poucos inclinados para a aprendizagem. A Casa do Esquecimento é um bom título. O ponto de partida anunciado na capa é cativante: poderá o Destino esquecer-se de alguém? A questão levantada na contracapa do livro abre-nos o apetite para um belo argumento: o que acontecerá quando um “esquecido” tem oportunidade de se tornar, ele próprio, o destino de muitas outras pessoas? O problema é que o romance do Fernando Dinis não só não responde à última questão como parece querer passar-lhes ao lado. Um romance exige uma maturidade na escrita que, a meu ver, passa por saber escutar os pormenores, ter mão segura nos excessos e perscrutar a linguagem no que ela possa oferecer de novo aos mesmos temas de sempre. Não li muitos romances de autores portugueses mais novos. Geralmente enfastiam-me e fico com a sensação de que me dizem pouco, não tanto quanto me dizem alguns clássicos, os melhores poemas dos melhores poetas, a filosofia, o ensaio. Mas julgo ter lido um número suficiente de livros do género para perceber que um bom romance resulta quase sempre de um processo de aprendizagem que ensina a integrar de um modo equilibrado os saberes oriundos da vida, as reflexões que bebemos nos filósofos, na ciência, nos historiadores, e exploramos à nossa maneira, a poesia onde conflui tudo o que resiste ao determinismo da razão e às certezas da fé. A Casa do Esquecimento não reflecte esse equilíbrio. Antes pelo contrário, e afirmo-o com tristeza, parece não ter grande coisa a oferecer-nos para lá do divertimento natural que a leitura das suas 210 páginas possa fornecer a quem o leia. Mas mesmo esse divertimento é amiúde posto em causa com algumas incongruências, a falta de uma revisão exigente que libertasse o texto de várias gralhas e opções sintácticas questionáveis, assim como de uma mão insegura em várias partes onde a narrativa podia oferecer muito mais do que aquilo que oferece. Só para dar um exemplo, o capítulo 18 é especialmente incomodativo. Trata-se de uma cena de sexo, algo que na prosa portuguesa continua a motivar estranhos embaraços. Note-se: «Sondou-me os lábios e pude sentir a sua respiração quente, o hálito adocicado. Depois avançou como se sentisse por mim uma paixão furiosa e fossemos [sic] os mais antigos e fervorosos amantes» (p. 98). Ou esta outra: «Apenas as aureolas [sic] rosadas dos mamilos, no centro dos fartos seios que se inclinavam ligeiramente para cima, pontiagudos» (p. 99). Mas há ainda o uso de expressões bastante questionáveis: «sondou-me os lábios», «denunciou a sua púbis», «copulando os seus lábios com rigor sábio», etc. O próprio uso da expressão «relações sexuais» no contexto de uma foda momentânea deixa muito a desejar, para não referir o facto dessa única foda ter servido para que a personagem em causa ficasse viciada num mundo para o qual acabara de entrar. E que mundo é esse? Uma misteriosa associação com contornos de seita mas sem grande consistência, quer de um ponto de vista alegórico, quer numa perspectiva naturalista. No fim, ficam-nos duas histórias intercaladas que pretendem mostrar-nos homens com destinos aparentemente diferentes mas com um mesmo fim: o esquecimento. Acontece que uma das histórias, a de Henrique, prolonga-se para lá do desejável, enquanto a outra, a de Artur Poeira, termina antes de poder ter sido devidamente explorada. Os capítulos 29 e 31, por exemplo, são bastante bons. O confronto de Artur Poeira com o seu destino, que se esquecera deste pacato, previsível, resignado e solitário homem de 41 anos, é bastante convincente e levanta questões pertinentes acerca do sentido da vida. O destino esqueceu-se de Artur Poeira porque este, no fundo, esqueceu-se de assumir a sua própria vida. Acontece que apenas a espaços estas questões emergem, não chegando nunca a sair da superfície, acabando o romance por perder-se em duas narrativas paralelas como se o autor tivesse resolvido intercalar dois contos diferentes sobre um mesmo tema. Ficamos, assim, com um primeiro romance manchado por falhas que podem, devem e vão ser superadas por um autor ainda a iniciar-se no mais exigente dos géneros literários.