Sexta-feira, 31 de Julho de 2009

OS TONTINHOS

Há dois tontinhos que são visita regular. O mais assíduo aparece todas as manhãs com ar de quem inspecciona não sei bem o quê. Veste camuflados de caçador, por vezes usa um boné – também já o vi com uma fita à Rambo -, mas calça chinelos de enfermeiro com cor de mostarda. A Ana diz-me que se chamam crocs. Entra e sai rapidamente, depois de dar uma volta à livraria olhando para as paredes. O segundo é mais irregular. Tem um tom de voz estranho, e sotaque “sopinha de massa” bastante acentuado. Puxa a cintura das calças até às covas dos braços, usa muito gel no cabelo e anda geralmente com as mãos nos bolsos. Dirige-se invariavelmente para a área da sexualidade. Pegue num Kama Sutra moderno ou noutro livro qualquer do género e senta-se a folheá-lo. Interrompe a “leitura” apenas para desatar e voltar a atar os atacadores dos sapatos de bowling. Às vezes tosse, arruma o escarro estridentemente e olha-me de lado. Uma colega diz-me que já o viu fazer-me olhinhos. Eu, como sempre fui muito distraído com indivíduos que calçam sapatos de bowling, nunca dei por nada.

NECESSIDADE, VONTADE, ACIDENTES

Herman Melville também está quase a fazer anos. Nasceu a 1 de Agosto de 1819. Olhamos para a sua figura com um espanto primitivo, vimos naquelas longas barbas a sabedoria dos grandes mestres, uma sabedoria arrancada a ferros da enciclopédia da experiência vivida. A vida que vivemos, não é preciso muitos anos para sabê-lo, compõe-se de necessidade, vontade e acidentes. Entre todas as dimensões, há ainda a acomodação do desejo, o deixar-se ir vivendo, o permitir-se ser vivido pelos outros, mesmo quando entre nós e os outros existem fortíssimos elos identitários. Seja como for, Melville não teria sido quem foi se o pai não lhe tivesse morrido tão cedo, vendo-se o filho varão impelido ao trabalho com apenas 14 anos. Um acidente gerou uma necessidade, a necessidade motivou uma série de decisões que acabaram por determinar aquilo que nos leva agora a recordá-lo: romances como Typee (1846) e Moby-Dick (1851). A vida de marinheiro, primeiro num navio de marinha mercante, depois em baleeiros e numa fragata, fornecerá o material para essas obras, experiências vividas radicalmente das quais não mais se libertará a escrita. O primeiro romance narra os tempos de cativeiro numa tribo de canibais, depois de ter desertado para uma das ilhas do Pacífico. Estávamos em 1841. O resgate, cem dias depois, foi seguido de um motim capitaneado pelo poeta. O regresso a Nova Iorque acontece em 1845, um ano antes do aclamado romance de estreia. Sentiu o gozo do sucesso, acompanhado pelo amargo da censura de algumas passagens menos cúmplices da «acção evangelizadora dos missionários». Casa com Elizabeth Shaw. O casamento e o nascimento do primeiro filho, que viria a suicidar-se mais tarde, praticamente coincidem com o declínio. O espírito aventureiro deu lugar à deriva filosófica. Os leitores não estavam preparados. Conhece os primeiros insucessos editoriais, escreve algumas “porcarias” «apenas para comprar tabaco», publica Moby-Dick, «que passou quase inadvertido» (Jorge Luís Borges), publica Bartleby, uma obra-prima que antecipará a narrativa absurda. Viaja pela Europa e Médio Oriente, percorre os Estados Unidos da América proferindo conferências, começa a escrever poesia, publica os últimos escritos em edição de autor. Sobre a poesia, conta Mário Avelar num apontamento cronológico inserido na recente edição dos poemas de Melville pela Assírio & Alvim: Battle-Pieces and Aspects of the War, o primeiro livro de poemas de Melville, foi publicado numa edição de 1260 exemplares. Até 1868, dois anos após a publicação, vender-se-iam apenas 468 exemplares. Ora aí está algo que nos soa bastante familiar. Quando morreu, em 1891, Herman Melville era um estranho no meio literário norte-americano. Ressuscitou no século XX, com as mesmas barbas, as mesmas aventuras, a mesma vida. Necessidade, vontade e acidentes trazem-no hoje à mesa, sendo certo que se o seu pai não tivesse morrido quando ele ainda era tão novo, nada disto teria acontecido tal como aconteceu. Enfim, não há vidas perfeitas.

JARL E OS NAVIOS / HERMAN MELVILLE

No fim de cada romance abandonei um navio. E hoje, aqui sentado — com o esquecimento e a indiferença dos homens tolhendo-me o peito — o último navio que vou abandonar é o meu próprio corpo.
Levanto os olhos destas linhas e sussurro:
— Sol, antigo piloto, sê o meu guia nesta derradeira viagem.
A luz frouxa do candeeiro amarelece o papel onde escrevo. Os mares, e a minha vida, também adquiriram essa cor que se derrama agora no fundo da memória.
Recosto-me na cadeira. Largo a caneta, pouso-a sobre a mesa para impedir a mão de continuar o seu ofício.
Deixo os navios dos meus livros zarparem do pensamento, fico a vê-los aportarem, enfim, aos serenos túmulos marinhos.

Sobre o mar abate-se uma sombra sinistra. Envolto nessa sombra flutua o Arcturion. Dele me recordo com veemência.
Um navio não é uma coisa inerte, é um ser vivo. Todo o marinheiro sabe isto. Quando se está ao leme, sente-se a pulsação do seu sangue. Por isso houve navios e homens que amei com a mesma intensidade.
Velho Arcturion, onde flutuarão os teus destroços? Em que tempestade terrível naufragaste?
Nunca mais me chegaram notícias tuas. Ouço somente o grito estridente das gaivotas rodopiando à tua volta, enquanto a planície aquática se fende e te engole.
Vejo-te desaparecer nas profundidades silenciosas de um mar de Verão. Ou terás tido melhor sorte?
No meu pensamento pereces na luta sem tréguas contra a fúria das vagas. As velas enfunadas rompendo-se, o timoneiro agarrado ao leme com unhas e dentes, os marinheiros nos seus postos, atentos à voz do capitão... mas é inútil continuar a pensar em ti.
A quilha pode ter rebentado contra um recife. O teu destino continua a ser um mistério.
Peço a Deus que a alma deste navio perdido, navegando na bruma dos nocturnos furacões, não visite — como um fantasma — as minhas futuras viagens.
Desejo que repouses no fundo do oceano, Arcturion, em sossego eterno, e que a tripulação durma em lugar inacessível aos tubarões e ao tumulto das vagas.
A última vez que pensei em ti avistei-te no meio duma noite sem luar. Havia no ar — como é frequente no Equador — uma névoa violeta que tapava o firmamento. Apareceste-me como um fantasma no meio do sono, e pensei que também eu era já um fantasma.
Acreditar que se está morto é tão desagradável quanto o estar na verdade. Fica-nos o sentimento de que o nosso fantasma habita ilegalmente um cadáver. ..
Jarl visitou-me a meio da tarde. O seu olhar continua a perturbar-me, como outrora me perturbou. Peço-lhe para desviar o seu olhar do meu.
Tínhamos fugido numa baleeira roubada durante a noite. Navegávamos à deriva. Havia dois dias que singrávamos um mar fosforescente. Jarl dizia que era a agitação das sereias, cuja cabeleira dourada, espalhando-se, acendia as águas.
Talvez encontrássemos ilhas a Oeste.
O oceano estendia-se, como se estende agora no meu pensamento, até ao infinito — e Jarl bebia abundantemente, como o fazem os homens dotados duma alma extraordinária.
Embriagado, disse-me:
— O ódio é feio, só se deve odiar o ódio.
E tão cedo, lembro-me, não encontrámos qualquer ilha.

Pus-me a ler-lhe o que acabara de escrever: ...os diários de bordo dos baleeiros estão repletos de desenhos. Quando avistamos uma baleia e não a conseguimos capturar, o desenho representa os contornos da cauda do monstro. Mas quando a baleia foi perseguida e morta, os contornos da cauda são cheios a tinta-da-china — de modo a verem-se imediatamente, assim que alguém os folhear.
Por vezes, vêem-se 3 ou 4 destes desenhos negros na mesma página indicando, assim, que outros tantos monstros pararam, nesse dia, de lançar o seu jacto de água...
Interrompi-me um segundo, para tomar fôlego. Depois, li: naquele dia Tooboi mergulhou nas águas calmas para se refrescar. Foi devorado por um tubarão.
Afastei-me, por fim, cansado, do círculo da luz. Arredei a cadeira para um canto penumbroso da sala. Fechei os olhos e ouvi, longe, a voz de Jarl:
— A verdade encontra-se nas coisas, não nas palavras. A verdade não precisa de palavras.
E, de seguida, senti os seus dedos tocarem-me ao de leve, enchendo de tinta negra os contornos da minha cabeça.



Al Berto, in O Anjo Mudo, 2.ª edição, pp. 116-119, Assírio & Alvim, Outubro 2001 (exemplar trocado com a Ana Salomé).

Quinta-feira, 30 de Julho de 2009

POEMAS DE HERMAN MELVILLE

A primeira colectânea de poemas de Herman Melville (n. 1819 – m. 1891) surgiu em 1866, 20 anos após Typee (1846) - o aclamado romance de estreia. Battle-Pieces and Aspects of the War, assim se intitulava o poemário, apareceu já numa fase de insucessos editoriais consecutivos, dos quais destacamos duas obras-primas que apenas viriam a merecer o devido reconhecimento após a morte do autor: Moby-Dick (1851) e Bartleby, the Scrivener (1853). Para a antologia que a Assírio & Alvim publicou recentemente, Mário Avelar seleccionou e traduziu um apreciável conjunto de poemas a partir da obra supracitada, juntando-lhe outros retirados de John Marr and Other Sailors (1888) e Timoleon, Etc. (1891). Na nota prévia explica-se o intento de «uma perspectiva prismática» sobre a obra poética de Melville, a qual permaneceu esquecida durante muitos anos. De resto, o mesmo se pode dizer de toda a obra do autor de Moby-Dick. Se hoje o lembramos como um dos nomes maiores da literatura universal, isso deve-se apenas à força das suas palavras.

Ora, sem pretender aventurar-me em dispensáveis especulações psicologizantes, e estando ciente de uma longa tradição de poesia de guerra oriunda dos Estados Unidos da América, creio que os poemas de Fragmentos de Batalha e Aspectos da Guerra transcendem as preocupações patrióticas e os conflitos morais que definem grosso modo a elegia de guerra. A guerra pode ser interpretada sob vários prismas, nomeadamente sob o prisma de quem busca a glória através de um acto que deseja ver-se inscrito na história. Ela é o cenário daquele que se aventura para lá das suas forças, daquele que procura ultrapassar-se a si próprio mas acaba paradoxalmente ultrapassado pela vanidade e pelo esquecimento. Melville pôde constatar por si próprio as injustiças da História. Das aventuras ao sucesso, do sucesso ao esquecimento, a sua biografia faz-nos pensar nas expectativas do guerreiro perante os desconhecidos mistérios da batalha – aludo a The March Into Virginia, Ending In The First Manassas, poema que ficou de fora desta selecção.

O sentimento de transitoriedade patente na obra melvilliana coincide com as expectativas e os sentimentos do escritor que se viu relegado para o olvido após breves momentos de fama. Não podemos fugir à tentação de observar uma alegoria onde provavelmente ela nunca existiu, de descobrir um símbolo onde provavelmente ele não foi desenhado, mas existem inegáveis afinidades entre a obra e a vida do autor. Isso nota-se, inclusivamente, na relativização da força quando sobre «o mais poderoso barco da esquadra do Norte» Melville escreve: «Combateu e afundou-se» (p. 15). A fama desse navio há-de sobreviver à desventura, há-de persistir na história para lá do fracasso, «pois assim é devido» (p. 17). A palavra fama, que se repete como uma vaga recorrente, envia-nos para uma máxima do Ismael de Moby-Dick: «Tudo é vaidade». TUDO. O leitor desprevenido tenderá a encontrar aqui ecos de uma ambição desmesurada, mas o mais atento saberá ver para além da ponta do nariz. O que aqui está em causa é a relativa importância dos homens, cuja força é nenhuma ao pé da capacidade de regeneração dos ulmeiros, cuja importância é nenhuma ao pé da palavra que pode imortalizar.

Até o homem mais temido e corajoso acaba enterrado, restando-lhe uma canção que o possa recordar nos dias vindouros. «Sim, o homem é viril» (p. 27). Justiça se faça a quem não caiu em vão, justiça se faça a essa virilidade, que «o hábito do desespero» (Jorge Luís Borges) não enfraqueça a esperança. No entanto: «Pela força da sua própria inércia / O impetuoso barco, perplexo, se afundou» (p. 57) - canta o poeta num belo poema onde perante a impassibilidade de um icebergue nem «um barco de porte marcial» resiste. Numa época em que a fé desmesurada na razão desviou o homem definitivamente da natureza, em que a enfatização das capacidades humanas deslocou o deslumbramento para o poder das máquinas, Herman Melville procurou recolocar o homem no seu devido lugar. E o lugar do homem é o daquela personagem no quadro de Caspar David Friedrich, voltado solitariamente para a imensidão do oceano, posicionando-se respeitosamente perante a agitação das vagas, como que contemplando a sua própria insignificância no poder incomensurável das forças da natureza.

Escrito para o Rascunho.

O TUBARÃO DAS MALDIVAS

Rodeando do Tubarão, fleumático,
Ébrio pálido do mar das Maldivas,
Os pequenos, insinuantes peixes-piloto, azuis e esguios,
Quão alerta o seguem.
Da sua boca serrilhada, do seu estômago sepulcral
Nada têm a temer
Mas liquidamente deslizam sobre o seu pálido flanco
Ou frente à sua cabeça gorgónea;
Ou abrigam-se no porto de seus dentes serrilhados
Em brancas triplas fileiras de cintilantes cancelas,
E aí encontram protecção quando o perigo espreita,
Um asilo nas fauces das Parcas!
São amigos; e amigáveis conduzem-no à presa,
E porém jamais partilham o festim -
Olhos e cérebro para o rabugento, letárgico e torpe,
Pálido devorador de hórrida carne.

Herman Melville, in Poemas, trad. Mário Avelar, Assírio & Alvim, p. 51, Março de 2009.

A VERDADE

Para o filho do Álvaro, que nasceu hoje com o cu voltado para o mundo.


─ O que queres?
─ Paz no Médio Oriente e um orgasmo de três horas…

In Californication

Quando eu era um teenager inconsciente e pensava que iria morrer aos 27 anos, ficava até altas horas da madrugada a discutir o sexo dos anjos. O Mário acreditava nos astros, eu punha fé nos versos. Em ambos os casos, o que nos fintava as convicções era o problema da hermenêutica. Metemo-nos a interpretar, e o mundo sai torto. Acontece o mesmo com os provadores quando levam o garfo à boca. Ficassem eles pela degustação e os resultados seriam diferentes. Sucede que não conseguem provar sem descobrir neste e naquele palato um ingrediente a mais, uma especiaria a menos. É a hermenêutica o que lhes atrapalha o paladar. Ora, os tempos da juventude são cada vez mais o cais que ficou para trás. Agora sou um adulto inconsequente. Aproveito a experiência adquirida para não me deixar ludibriar pelas interpretações. Já não pretendo mais do mundo do que alguns poucos metros quadrados circundantes que julgo admissível reivindicar como sendo meus, não no sentido de os possuir mas no sentido de me pertencerem. Permitam-me o parêntesis: há uma grande confusão entre pertencer e possuir. Por exemplo, eu pertenço à minha família (pelo menos tanto quanto ela me pertence), mas não a possuo (pelo menos tanto quanto ela me…). É nesse núcleo restrito que a gente pode mudar alguma coisa. E começar a mudar por aí pode significar o começo de um sucessivamente cujas fronteiras não são determináveis. Isto parece conversa de Osho, mas não é. O esquimó da Índia pretendia atingir a verdade, eu espero apenas que a verdade me atinja o mais tarde possível. E, de preferência, de mansinho.

Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

TRÍPTICO DA PRISÃO DE VENTRE

Abriu de pontapé a porta da casinha. Melhor tomar cuidado para não sujar as calças por causa do enterro. Entrou, inclinando a cabeça por sob o lintel baixo. Deixando a porta escancarada, em meio ao fedor da caiação mofada e das teias poeirentas baixou os suspensórios. Antes de assentar-se espiou por uma fresta a janela do vizinho. O rei estava em seu tesouro. Ninguém.
Refastelado no trono desdobrou o jornal virando as páginas sobre os joelhos nus. Algo novo e fácil. Não há grande pressa. Demorar-se um pouco. Nossa novidade premiada.
O golpe-de-mestre de Matcham. Escrito pelo senhor Philip Beaufoy, Clube dos Playgoers, Londres. Pagamento à razão de um guinéu por coluna foi feito ao autor. Três e meia. Três libras e três. Três libras treze e seis.
Calmamente ele lia, dominando-se, a primeira coluna e, cedendo mas resistindo, começou a segunda. A meio, uma última resistência cedendo, permitiu que os seus intestinos se aliviassem de todo enquanto lia, lendo ainda pacientemente, toda ida aquela ligeira prisão de ventre de ontem. Espero não seja demasiado grosso e provocar hemorróidas de novo. Não, está exacto. Assim. Ah! Constipado, uma tablete de cascara sagrada. Vida podia ser assim. Aquilo nem o agitava nem o comovia, mas era algo rápido e limpo. Imprime-se qualquer coisa hoje em dia. Época idiota. Lia adiante sentado calmo sobre o próprio odor montante. Limpo certamente.
Matcham pensa frequentemente no golpe-de-mestre com que ganhou dessa bruxa gargalhante que agora. Começa e termina moralmente. A mão na mão. Sagaz. Remirou o que lera e, no que sentia verter sua água calmamente, invejou com carinho o senhor Beaufoy que escrevera aquilo e recebera de pagamento três libras treze e seis.

James Joyce, in Ulisses, trad. António Houaiss, p. 55, 6.ª edição, Difel, 1994.


Comi e dormi. Outras vezes dormi e comi. Depois a minha tripa apertou e a minha mãe trouxe um saco de clister. A poção resultou. Depois trouxe-me outro, fechei a porta da casa de banho e apliquei-o. Sucesso! Até rugiu ao sair de mim. Do outro lado da porta, a minha mãe aplaudiu.
— Graças a Deus!
Foi como se aquela purga tivesse lavado tudo o que me perturbava, os venenos do corpo, as abominações da alma. De manhã sentia-me limpo e puro. Levei uma mesa de jogo para ao pé da janela e comecei a escrever.


John Fante, in A Confraria do Vinho, trad. Luís Ruivo, p. 102, Teorema, 2007.


Segunda-Feira, 9 de Agosto

Acordo tarde (passa das 10) e cago cedo. Não estava à espera que um cagalhão de cordeiro se avolumasse durante a noite, até ganhar as dimensões de um cagalhão de bode. Difícil e espremida expiação, a deste ciclo digestivo. À laia de último retoque, e para que seja maior o inesperado, deposito uma minúscula caganita no fundo da sanita, após o que dou a tarefa por concluída. Passo de seguida à habitual lavagem do cu, este aliás levemente dorido pelo esforço de o esgarçar.
Começar um dia em que o nosso próprio cu nos dá vontade de rir (e uma vontade de rir ligada à vontade de cagar) é, no mínimo, auspicioso.

João César Monteiro, in Uma Semana Noutra Cidade, p. 20, &etc., Novembro de 1999.

DA CENSURA

Lê-se n'A Intervenção Surrealista (Assírio & Alvim, Agosto 1997) que o escritor Mário Henrique Leiria proibiu o crítico José-Augusto França de «todo e qualquer uso, presente ou futuro, em forma escrita e mesmo oral, do seu nome». Foi nos idos de 1950, aquando da I Exposição dos Surrealistas. É só um exemplo de muitos que poderiam ser mencionados, especialmente eloquente pela ironia que julgo escusado aclarar. Naquele tempo era assim e ninguém se atreve a dizer que era mau. Não resisto a citar uma reveladora nota de rodapé: «Ao voltarem à Casa do Alentejo para uma conclusão da experiência efectuada — exactamente: o surrealismo e o seu público em 1949 — os surrealistas depararam com uma gente tresloucada pelo próprio sistema de percepção e incapaz de ouvir, sem se desencadear o pior, o fundamento da conclusão que se lhe levava. Também dispostos ao pior, os surrealistas declaravam que o gato caçado por P.O. e M. C. nos terrenos do Areeiro fora enviado no dia 20 do 5 à falta, provisória, de um elefante, contribuição de Mário Cesariny; que, quando em 6 do 5 se dissera: merda, era mesmo merda que se lhe quisera dizer, contribuição de Mário Henrique Leiria; que, se ainda havia quem quisesse saber por-que-é-que-é surrealista o surrealismo, comprasse acções do inferno e se metesse em casa pela chaminé da cozinha, contribuição de Henrique Risques Pereira». Ainda nos tempos da ditadura, a primeira edição portuguesa de A Filosofia na Alcova - «um livro pornográfico, protótipo de desmoralização» - deu azo a um processo que tornou arguidos o editor Fernando Ribeiro de Melo, o tradutor António Manuel Calado Trindade, Herberto Helder, Luiz Pacheco e o ilustrador João Rodrigues. Vem tudo escarrapachado na segunda edição da mesma obra. De resto, das edições Afrodite foram honrosamente proibidas de circular no país várias obras, das quais citamos o Manual do Erotismo Hindu e a Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. Outro exemplo memorável de purga moralista foi o que envolveu a primeira edição das Novas Cartas Portuguesas, cujas autoras Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa foram enclausuradas no Portugal claustrofóbico da censura. Já depois do 25 de Abril há a assinalar o episódio que envolveu a edição de O Bispo de Beja, recentemente lembrado por Paulo da Costa Domingos no livro Narrativa. À época o Diário Popular dava conta de uma acção desencadeada pela hierarquia religiosa que culminou com a apreensão dos livros pela Polícia Judiciária. Estávamos em 1980. A mesma hierarquia censurou, já na década de 1990, um sketch humorístico sobre a Última Ceia, e não será abusivo pensar que terá influenciado a decisão do Governo português a não se fazer representar num concurso internacional com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, do Nobel da Literatura português. Mais recentemente, ainda antes do acesso de puritanismo que levou à apreensão do livro Pornocracia, de Catherine Breillat, numa feira do livro em Braga, a crítica literária Dóris Graça Dias acusou o jornal Expresso de lhe censurar uma crítica ao livro Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares, e a Oficina do Livro, juntamente com a escritora Margarida Rebelo Pinto, interpuseram uma providência cautelar com o intuito de impedir a publicação do volume Couves & Alforrecas, Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto, do crítico literário João Pedro George. Temos agora o caso Bonifácio, cujo fim parece ter sido um pedido de desculpas do jornal Público ao clube de futebol Belenenses, tudo por causa de uma crítica a um concerto ocorrido no Estádio do Restelo. Entre pedidos de desculpa, proibições, providências cautelares, apreensões, pesa sempre o velho fantasma da censura. Alimenta-o uma péssima convivência com o espírito crítico numa sociedade cada vez mais automatizada, oligárquica, fundada numa escola tendencialmente tecnocrática, muito pouco interessada na dúvida, na criatividade que não é possível sem essa vontade de pôr em xeque. O moralismo e o puritanismo, o cuidado e o excesso de respeito que ainda nos perseguem são sintomas de que os anticorpos da liberdade estão longe da extinção. Mas são também sintoma de que a provocação ainda merece respeito, põe em sentido as virgens ofendidas. «Beliscando o cu das mulas» (Pedro Oom), a crítica ainda espicaça consciências. A astenia social geralmente apregoada, pelos vistos, não é um dado adquirido. Feridas no essencial – e o essencial português continua a ser Fado, Futebol e Fátima -, as massas ostentam o seu reaccionarismo, as elites patenteiam o onanismo que as estimula, os incendiários do espírito ganham terreno. A única diferença é esta: já não há nada que distinga o surrealismo, enquanto forma de expressão filosófica, da realidade vivida. Em Portugal isso é ainda mais evidente.

PONTO DE EXCLAMAÇÃO


O que nos faz passar por histéricos não é o ponto de exclamação, mas antes esta intolerância desmesurada para com o mais resistente dos sinais de pontuação. Em tempos, usou-se e abusou-se do ponto final entesado. Eram épocas de espanto. Entretanto os escribas deixaram de se espantar com o mundo, procuraram conter-se e perderam a vontade. Não ejaculam, usam espartilhos de metal no pénis, autoflagelam-se sempre que o sentem erecto, masturbam-se pela sombra. A excepção são os espanhóis, que ejaculam por tudo e por nada. Em Portugal as personagens já não exclamam, são assertivas no texto pelo menos tanto quanto são esquivas na vida. Há uma hipocrisia latente neste ódio ao ponto de exclamação: o coração exclama, mas a cabeça ordena alguma prudência. Devíamos antes preocupar-nos com tanta assertividade, com tanta certeza, com tanta ausência de espanto e de dúvidas, com tanto estilo. Um texto sem pontos de final entesados é como a cabeça de um ditador: nunca se engana e raramente tem dúvidas. Ou seja, é um texto seco, é um texto sem vida. Não admira que tenha adeptos. Já alguém pensou nas biografias futuras dos escritores de hoje? Isso acabou. Quem é que poderá interessar-se no futuro por vidas sem aventura, por vidinhas reduzidas à dimensão da vidinha, distribuída por colóquios, conferências, cargos, entrevistas, debates, prémios, adesões e divórcios. O tempo dos grandes aventureiros é finito. Restam-nos alguns surfistas de banheira, e é tudo. Homens que não exclamam. O que fazemos com leitores e críticos tão sensíveis, receosos que a exclamação-em-ponto-de se lhes atormente a boca do cólon do estilo? Damos-lhes o lápis azul do ‘requinte estilístico’? Pois eu aprecio a exclamação, muito mais do que as inúteis minúsculas matriarcais, os travessões llansolianos - que assentavam bem na autora como um travesseiro onde o texto repousava o peso do corpo, mas assemelham-se a burkas nos praticantes ulteriores. Também não sou grande adepto do ponto e vírgula, a pausa dos corredores de meio-fundo. Gosto de grandes parágrafos, com poucas vírgulas e alguns pontos finais, tanto quanto aprecio enormes blocos de pedra. Mas por vezes fazem-me sentir um escravo na construção das pirâmides. Os espaços em branco lembram-me falhas de memória, indícios textuais da doença de Alzheimer. Agora o que não entendo é tanta animosidade contra o ponto de exclamação. Racistas! Situo-me do lado das minorias. Se a Genoveva exclama, não afirma. Tal como o Anastácio só interroga com ponto de interrogação. Não vejo para aí ninguém incomodado com essa ordinária intermitência do estilo que são as reticências... Mas o ponto de exclamação, ai Jesus! Pela tesura no texto, contra a frase ressequida, viva a exclamação. Abaixo a disfunção eréctil!


Nota: A imagem reproduz um Divertimento Com Sinais Ortográficos de Alexandre O’Neill, in Poesias Completas, p. 111, Assírio & Alvim, Novembro de 2000.

Terça-feira, 28 de Julho de 2009

EMIGRANTES

O cliente de Verão é diferente. Passeia o bronze entre as gôndolas, remexe os livros com avidez, traz a família atrás, gasta muito dinheiro, compra de tudo um pouco e por vezes faz perguntas esquisitas. As mais extravagantes chegam-nos pela boca da fauna emigrante. Não é raro perguntarem-nos por livros que viram na França, não sabem o título, nem o autor, mas lembram-se que a capa era vermelha e tinha a cara duma mulher de lado. Outros procuram livros escritos na língua original. Por exemplo, a Stephenie Meyer em canadiano. Como diria o outro, OK.

A CAUSA FOI MODIFICADA



Iam subindo agora, direitos a uma clareira do alto da colina: Yvonne descobriu o céu. Mas não conseguia orientar-se. O céu mexicano adquirira um aspecto estranho e, nessa noite, as estrelas enviavam-lhe uma mensagem de maior desamparo e solidão do que outrora lhe acontecera com o curiango. Porque é que estamos aqui? — eis o que elas pareciam dizer — num sítio que nos não compete e com este aspecto singular, tão distantes, tão longe, tão distantes da nossa pátria? Mas que pátria? Quando é que ela, Yvonne, não tinha andado a demandar a sua pátria? Mas, só com a sua presença, as estrelas consolaram-na um pouco. E, continuando a avançar, sentiu que voltava a sentir-se desprendida. Yvonne e Hugh encontravam-se num sítio suficientemente alto para verem, através das árvores, as estrelas, ainda baixas, no horizonte.
O Escorpião, a pôr-se... O Sagitário, o Capricórnio... lá estavam elas, afinal, nos sítios próprios, com a sua configuração subitamente certa, que ela logo reconheceu, numa pura geometria cintilante e perfeita. E, nessa noite, como há cinco mil anos atrás, haviam de nascer e de desaparecer no horizonte: o Capricórnio, o Aquário e, mais abaixo, a solitária Fomalhaut, os Peixes e o Carneiro; o Touro, com Aldebarã e as Plêiades. «Quando o Escorpião se põe a sudoeste, as Plêiades erguem-se a nordeste». «Quando o Capricórnio se põe a oeste, Orion ergue-se a leste». E a Baleia, com Mira. Esta noite, como há muitas eras atrás, as pessoas hão-de dizer isto mesmo, ou hão-de fechar as portas às estrelas, afastar-se delas, numa desolada agonia, ou contemplá-las com amor, dizendo: «Aquela, além, é a nossa estrela, a tua e a minha». Hão-de orientar-se por elas, acima das nuvens, ou perdidas no mar ou no meio da humidade, no cimo do castelo da proa, hão-de observá-las, virando subitamente de querena; hão-de pôr nelas a sua fé ou a sua falta de fé, quer viajem de comboio, quer se encontrem em milhares de observatórios, assestando sobre elas telescópios, através de cujas lentes nadam misteriosos enxames de estrelas e nuvens de estrelas mortas e negras, catástrofes de sóis em explosão ou Antares gigantescos, correndo para um fim violento — um braseiro lento e contudo quinhentas vezes mais intenso do que o Sol, que ilumina e aquece a terra. E a própria terra, sempre girando no seu eixo e dançando em torno do Sol, e o Sol, revoluteando em torno da roda luminosa desta galáxia, as inumeráveis e imensuráveis rodas consteladas de pedrarias das inumeráveis e imensuráveis galáxias, girando, girando, girando majestosamente no infinito, na eternidade, por entre todas as quais a vida vai correndo — tudo isto, muito tempo depois de ela — Yvonne — ter morrido. Os homens hão-de continuar a ver e considerar no céu nocturno — e conforme a Terra girar no ritmo dessas distantes estações e eles observarem as constelações que continuarão a surgir, a culminar e a pôr-se no céu, para de novo nascerem — o Carneiro, o Touro, os Gémeos, o Caranguejo, o Leão, a Virgem, a Balança e o Escorpião, o Capricórnio, o Sagitário e o Aquário, os Peixes e, de novo, triunfalmente, o Carneiro. Não estariam, afinal, todos esses astros formulando sempre a inútil e eterna pergunta: para quê? Que força arrasta esse sublime maquinismo celeste? O Escorpião, no ocaso... E, renascendo — pensou Yvonne — invisível por detrás dos vulcões, aqueles astros, cuja culminação se verificava, nessa noite, à meia-noite, quando o Aquário se pusesse... E alguns haviam de contemplá-los compenetrados da sua velocidade, sentindo contudo a sua irradiação, em forma de diamante, cintilar-lhes um instante na alma, trazendo-lhes à memória quanto de doce ou de nobre, de corajoso ou de altivo, existe neste mundo, quando, lá no alto, surgissem, voando suavemente como um bando de aves direito a Orion, as Plêiades repousantes...


Malcolm Lowry, in Debaixo do Vulcão, pp. 334-335, trad. Virgínia Motta, Livros do Brasil, s/d.

NO VISIBLE MEANS OF ESCAPE


Depois de 11 horas a vender muita parra e pouca uva, esperamos tudo menos que nos informem da morte. Mas às vezes acontece. Alguém com quem andámos às cavalitas precipita-se nas traseiras de um pesado e lembra-nos, como se precisássemos ser lembrados, que a vida mais não é do que este estar à mercê da morte. «Hoje o meu peito é o muro e os estilhaços são estas palavras desencontradas» (Silvina Rodrigues Lopes). Palavras tardias, palavras cansadas, palavras esfoladas, reviradas, como um corpo esventrado, acabadinho de ser dependurado para a análise anatómica do vazio. Há um imenso vazio dentro das palavras. Nada mais nos resta. As vísceras foram oferecidas aos deuses (os vermes), a barca levar-nos-á pelos sete círculos numa viagem derradeira, e o vazio será atravessado pelo chumbo das balas para que toda a gente se certifique da morte das palavras. Façamos a autópsia deste corpo. Ao congelar o seu próprio sangue, Marc Quinn transformou-se num material manipulável. Todo o corpo é um material manipulável, toda a matéria pode ser esculpida a partir de um nada que aparente ser tudo. Porque o nosso corpo é um nada que aparenta ser tudo. Tudo o que sabemos, tudo o que sentimos, tudo o que fazemos, ocorre no receptáculo da morte. Este receptáculo da morte, poeira adiada, fogueira em combustão envolta numa pele que dissimula os cancros, é tudo o que nos resta. Lá dentro os cancros das palavras mortas crescem como raízes, e quando adoramos as lindas curvas dos frutos outra coisa não amamos: uma resina putrefacta, ressequida, insignificante. Somos um vazio de palavras mortas animado pela ilusão de uma existência. «Esta vida é uma mentira – a outra vida é monstruosa. Desabada a arquitectura aparente, ficamos ignóbeis» (Raul Brandão). A questão que se impõe é como viver a mentira? Disfarçando-a? Ocultando-a? Tentando ultrapassá-la como uma criança que tenta enfiar um cubo numa circunferência? A autópsia está feita, a análise anatómica é reveladora. Sobra-nos investir no gozo do vazio, dizer à morte que está muito bem dentro de nós enquanto nos deixar sentir o horizonte das palavras, enquanto pudermos assobiá-la de mãos nos bolsos levando o gargalo à boca, o fumo aos pulmões, enquanto de vazio contra vazio ainda algum choro acontecer. Uma lágrima de riso, uma lágrima de choro, não moldável, apenas um vazio sentindo-se vazio sem precisar de explicação. Assim revirado, o que se retira do interior do corpo já não é o próprio corpo. Por isso as santinhas vertem lágrimas de sangue, é nas lágrimas que reside a vida. Um corpo que não chora já não é corpo. E até pode dançar que isso não basta. O vento também dança, mas mortamente, pois não chora. Um corpo que não chora é um nado morto.


Na imagem: No Visible Means of Escape, 1996, de Marc Quinn (1964). Copiado do catálogo A Ilha do Tesouro, Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, Fevereiro de 1997.

Segunda-feira, 27 de Julho de 2009

La muy hermosa


Sê como eles. Chegam pela manhã
gastando os poucos trocos, a vida. Sentam-se
nos sombrios recantos da taberna e entretêm-se
a jogar bilhar ou lançando cartas sebentas sobre
mesas de madeira acariciadas pelos anos.

Fingem sorrir, acendem um cigarro sem que lhes
importe a beleza ou demais feridas. Mais relevantes
são os pequenos dramas de rua, intrigas, mortes e
desavenças - ou a ébria bondade dos amigos. Aprende
a humildade desses velhos de boné ensombrando
as súbitas rugas da face. Para tanto abandono
não são precisas palavras. Os mendigos e a grande confraria
do álcool te dirão o mais certo silêncio. Sepulta
a solidão nos mármores gordurosos de balcões tristes
e escuros e esquece o teu próprio nome, preferindo-lhe
a serenidade de um vagaroso declínio.

Bebe com eles, sabe a cor de seus ternos olhares
praguejantes, e diz às mãos que não passam
de mãos, ao corpo que não passa de corpo.


Manuel de Freitas, in Todos contentes e eu também, Campo das Letras, Setembro de 2000.

Nota:

Havia gente a observá-los quando os dois batentes da porta da taverna se abriram de par em par. Esta possuía um bonito nome: Todos contentos y Yo También. O Cônsul disse com ar magnânimo:
— Toda a gente satisfeita e eu também.


Malcolm Lowry, in Debaixo do Vulcão, p. 266, trad. Virgínia Motta, Livros do Brasil, s/d.

OLHAR PELOS PECADOS

Sábado passado houve festa de família. A paciência para as funções sempre foi pouca, mas com o crescimento acabei a meter baptizados, casamentos, aniversários e funerais no mesmo saco. Entediam-me. Fui educado num colo burguês, moralmente rígido e castrador, com o qual nada tenho que ver. Ainda assim gosto muito dos meus pais e das minhas irmãs, nada lhes tenho a cobrar. Eles gostam de mim. É tudo. Mas quando se junta mais do que o hardcore familiar só me apetece é trepar pelas paredes. Fiquei surpreendido por encontrar um primo que não via há pelo menos nove anos. Da última vez que tínhamos estado juntos, se bem me lembro, estávamos os dois perdidos de bêbados. Eu vivia em Rio Maior e leccionava em Almeirim, ele vivia em Manique do Intendente. Fui levá-lo a casa já de madrugada. Está mais gordo e bastante bronzeado, o que se entende por ter largado o cavalo e andar a trabalhar nas obras. Ostenta dois calos enormes na mão direita, que me explicou terem aparecido depois de algumas horas a partir paredes com uma marreta. À conversa no alpendre, surgiu o tema dos livros. Contava-lhe que vou quase todas as semanas a São Martinho do Porto com uma merenda literária às costas, sento-me num café a bebericar e escrevinho uns arabescos sem sentido enquanto observo as vistas. A minha madrinha, que ouvia a conversa, perguntou logo se eu lia muito. Não sei se leio muito, sei que tenho sempre muito por ler. Se pudesse passava a vida nisto. Sou feliz com um livro numa mão e algo que se beba na outra. Um cigarro nas beiças também ajuda. E, já agora, uma esferográfica para ir rabiscando ao mundo os estragos nos pulmões. O John Fante diz que «para escrever bem um escritor tem sempre de ter uma doença fatal». Isto vai ajudar-me a olhar para a asma de um modo mais útil, produtivo, proactivo. A mãe do meu primo também ouvia a conversa. Quis saber o que eu tinha estudado. Na cabeça destas pessoas estudar é sempre passado, uma etapa pela qual se passa como quem passa pela adolescência, uma tarefa a cumprir num determinado período da vida. Faz-se um curso e pronto, mãos ao trabalhinho, à vidinha. Pior ainda se tivermos estudado algo absolutamente inútil. É o meu caso. Sempre que digo que andei durante quatro anos a gastar o dinheiro dos meus pais para ter um curso de Filosofia, sou bombardeado com o míssil da incredulidade: mas para que serve a Filosofia, o que é que se estuda nesse curso, quais é que são as saídas? Para a última dúvida já estou preparado, respondo sempre que as saídas são exactamente as mesmas que as entradas. Num país a transbordar de doutores & engenheiros desempregados, posso dar-me por feliz. Nunca me faltou trabalho. As outras questões é que me deixam com a boca à banda. De facto, como é que pode alguém responder de forma objectiva a questões sobre as quais pesam pelo menos 2500 anos de reflexão filosófica? Troço-me todo quando me colocam perguntas destas. Pura e simplesmente não sei responder. Na cabeça de quem pergunta isto deve ter um efeito semelhante àquele que eu senti quando há não muito tempo fui às urgências para sair de lá com uma receita de Ben-u-ron. Andou um tipo a estudar para nem sequer saber o que andou a estudar. O cenário piora quando a turba começa a dar palpites. Fico a saber que estudei para ser professor, que estudei para ser escritor, que estudei para ser político… Irra! Haverá para aí alguém a estuar para ser homem? Simplesmente homem? Depois, já com todo o balanço da sabedoria parva, é inevitável que surja a matéria predilecta dos opinantes. E Deus, deus existe ou não? Tanta pergunta, tanta dúvida, tanta questão, e querem logo resposta para temas destes. Notem bem do que se livra, por exemplo, um tipo licenciado em medicina. Ninguém quer saber para que serve um curso de medicina, as pessoas partem logo do princípio de que serve para curar doentes. E ninguém pergunta a um médico se o elixir da eterna juventude existe ou não. O elixir da eterna juventude é uma fábula ridícula. Mas Deus é assunto sério, e um tipo que tenha estudado filosofia não pode ser sério se não estiver preparado para responder à mais básica das perguntas: Deus existe ou não? Respondi-lhes como podia, sem agressividade nem aspereza: é-me indiferente, tanto pode existir como não existir que não quero saber dele para nada. A mãe do meu primo, provavelmente ansiosa por uma resposta que confirmasse a sua fé num Deus que não lhe ofereceu outra coisa em vida senão agruras e valentes dores de cabeça, censurou-me logo. No fundo, colocou-me a questão à espera de se ouvir a ela própria. É algo muito frequente neste tipo de discussões, chega até a ser previsível. As pessoas, na generalidade, querem ouvir-se a si próprias no discurso dos outros. O pior que lhes podemos oferecer é a nossa autenticidade. A mãe do meu cunhado pôs-se logo a debitar a pastelaria católica costumeira: que todos nascemos do pecado, etc. e tal. Felizmente as miúdas chegaram nessa altura. Levantei-me, olhei para os interlocutores, e rematei: bem, vou ter de olhar ali pelos meus dois pecados.

CARTAS INÚTEIS / MALCOLM LOWRY


Há dias em que o céu e o mar parecem coalhar um no outro. Tudo o que rodeia o corpo se funde numa espécie de treva acinzentada.
Sinto as horas corroerem a minha imobilidade até ao mais longínquo osso. A memória foge, refugia-se na releitura dalgum livro que nunca mais voltei a folhear. É uma arte muito antiga, esta de me sentar perto da janela com um livro aberto nas mãos da memória.
Esta manhã, caminhando pela floresta, um instante de imensa lucidez; a vereda encharcada, verdadeiro lamaçal, as árvores tristes gotejando, e as folhas mortas amontoadas: tudo estava lá. Não consigo acreditar que um dia nunca mais caminharei por aquela vereda.
Há dias assim, em que me sinto projectado para dentro de imagens duma memória futura, plena de luminosidade, onde certamente já não estarei. Tenho saudades dos lugares onde nunca estive, porque só nesses lugares, dizem, a vida continua.
Envelhece-se mais devagar ao anoitecer. A morte enrosca-se como um gato ao colo do dono, e faz uma trégua até que de novo amanheça.
Sou um homem nocturno, a luz do dia aumenta o conhecimento da minha escassa eternidade.

Contaram-me que existem homens queimando a vida a cuidar de jardins. Regam, transplantam, enxertam, podam, cavam - como se este contínuo trabalho de renovação os prolongasse para além de seus próprios corpos. Parece que a existência destes homens se reduz à lenta e misteriosa aprendizagem de nascer, morrer e renascer.
Na verdade, nenhum ciclo das estações impede aqueles homens de morrer. Perecem mais demoradamente, somente isso, porque os jardins são labirínticas arquitecturas mentais onde podemos resguardar o corpo de qualquer voragem do tempo.
A mim, basta-me o espanto da flor que murcha quando, no mesmo ramo, outra flor expande as pétalas ao sol.
Vivo na ilusão de conseguir enganar, alguma vez, o medo dos dias sem ninguém. Por isso construí jardins de areia e cinza, jardins de água e fogo, jardins de répteis e de ervas aromáticas, jardins de minerais e de pedras - mas todos abandonei à invasão da selva e das alucinações.
Hoje, sobrevivem em mim outros jardins cuja obscuridade e penumbras me apavoram, e têm à entrada advertências como esta:

LE GUSTA ESTE JARDÍN
QUE ES SUYO?
EVITE QUE SUS HIJOS
LO DESTRUYAN!

Eis a única fotografia que conheço de Malcolm Lowry: está sentado, de lado, num rochedo à beira dum lago. Um lago, ou um mar? A montanha, ameaçadora, deixa aparecer uma tira de céu limpo.
O corpo, ligeiramente inclinado para a frente, é um elemento da paisagem e dela parece receber força. Lowry esboça um sorriso. Mas, olhando bem, não sei ao certo se é um sorriso. Subsiste a vaga impressão de que está a sorrir, é tudo.
O corpo prolonga a pedra, ergue-se para o Sol, e a pedra leva-o até ao interior oculto da Terra. Os caminhos da Luz e da Treva são infinitos, indecifráveis. Talvez seja por isso que não posso ter a certeza de que Lowry sorri, e dificilmente saberei que silenciosa paixão se esconde naquele entendimento entre Homem e Terra, Luz e Treva.
Mas, custe o que custar devem aparecer no livro doze capítulos, cada um deles representa uma entidade única; sendo todos eles solidários entre si, por causa da universalidade do número doze. Doze horas no decorrer do único dia do romance, doze meses do ano que decorre entre o fim do décimo segundo capítulo e o início do primeiro.
O inverno chegou. A neve cobriu tudo durante a noite, como se uma gigantesca dor branca escondesse o mundo. Olho pela janela. Levantei-me de madrugada e o tremor das mãos não pára. Onde terei metido a garrafa de Gin?
Enrolo os dedos feridos em ligaduras, para conseguir bater à máquina as páginas escritas ontem. Tenho de beber mais Gin.
Vou pedir a Margerie que passe à máquina estas páginas, doem-me os dedos e as mãos não cessam de tremer.

DEBAIXO DO VULCÃO:

1.ª versão, 1936, escrita no México. 2.ª versão, 1938, escrita em Los Angeles. 3.ª versão, a partir de 1940, em minha casa na Colômbia Britânica. Esta versão foi recusada por doze editores. 4.ª versão, finalmente publicada. Extraviada num bar mexicano, recuperada graças a um jogador de rugby, e terminada em Junho de 1945 numa cervejaria junto ao Lago Ontário.

Olho pela janela. Branco e mais branco, semelhante ao branco da morte. Eu sei, cada homem possui um deserto dentro de si. Nele caminha deixando minúsculos sinais da sua breve passagem, mas o sangue é facilmente bebido pelas areias e nenhum oásis de felicidade irrompe.
Perdi a noção do mundo que me cerca e retém aqui. Tudo abandono a pouco e pouco. O deserto é cada vez mais deserto. Já não vislumbro sequer a minha sombra, nem ouço ruído algum. Nem rastos de outros homens ou animais.
Apenas branco, e um zumbido de estrelas repercutindo-se no interior da solidão.

Não, não se pode viver sem amar. Por isso atravessei oceanos, arquipélagos, mares nocturnos, dei a volta ao mundo à procura do meu corpo.
Queria encontrá-lo, oferecer-lhe estas sementes secas de lótus que provocam o sono e a amnésia. Mas o tempo parou. Construí esta cabana num recanto perdido da floresta, e tenho tempo - tempo para entender o incessante movimento da Grande Roda da Vida.
Talvez eu possa voltar ao trabalho e acabar o meu livro! Mas a porta continuava a ser uma porta. Estava fechada; não, agora via-a aberta.
Resta-me a escrita, o eterno recomeçar sempre o mesmo livro, como se fosse uma condenação, um destino superior a que me sinto incapaz de fugir. Escrever para além do tempo possível, para além da memória que há-de existir do meu corpo. O fulgurante silêncio das palavras.
Longe daqui, tenho a certeza, morre-se aos poucos na imensa desolação dos continentes. O tempo parou, já o disse.
Um vulcão queima-me o sangue, põe a descoberto o conhecimento do meu Inferno - este livro onde o Cônsul Firmín nunca conseguirá escrever o seu...
Meu Deus! preciso de mais Gin, para que a lucidez do coração cesse também. Preciso beber, beber muito, para que a alma se perca, um instante que seja, na serenidade do meu próprio esquecimento.
O Cônsul leu e releu a frase, a mesma carta, todas as cartas inúteis, como as que num porto são entregues no navio com destino a alguém que se perdeu no mar.

Al Berto, in O Anjo Mudo, 2.ª edição, pp. 130-135, Assírio & Alvim, Outubro 2001 (exemplar trocado com a Ana Salomé).

Domingo, 26 de Julho de 2009

GRAN TORINO



A primeira sequência é determinante. Durante o funeral da mulher, Walt Kowalski olha para a sua família e não se reconhece. O comportamento e a imagem despropositados da neta contrastam com a pose conservadora de Walt, reforçada por um esgar de desprezo assim que o padre começa a discursar sobre a morte. O desenvolvimento de Gran Torino é marcado pela mudança de relacionamento entre Kowalski e a vizinhança Hmong. Da distância à aproximação vai o encontro com a diferença, a transposição das barreiras que obstaculizam um difícil processo de integração. E esse processo culmina na descoberta de uma nova família que importa proteger de ameaças externas. O americanismo de Eastwood aceita-se por ser crítico, por conseguir mostrar-nos num pequeno bairro as contradições sociais disseminadas por toda a América. No final, para este veterano de guerra, envelhecer só pode ter um significado: oferecer o peito às balas. O sacrifício pode ser interpretado em paralelo com a via-sacra cristã, mas também pode ser lido à luz de um pragmatismo moral que caracteriza os grandes guerreiros. A diferença é que nos segundos a fé na expiação foi substituída por uma vontade de vingança, no sentido mais puro do termo que é o de fazer justiça. E essa desforra prolonga-se para lá da morte, quando o testamento é lido perante a estupefacção da família. Assim interligadas, as dimensões política e existencial de um homem oferecem-nos uma lição sobre a velhice: nenhuma experiência passada pode justificar tanto um conselho como o exemplo prático da sabedoria adquirida com o passar dos anos. O exemplo prático de Walt Kowalski chegará a todos, da família ao padre, da vizinhança Hmong ao gang que representa as ameaças exteriores, como uma sábia combinação de sageza e coragem.

CRESCER

Ontem disse ao Martim que me transformava em lagarto sempre que as luzes se apagavam. Ele ficou cheio de medo e parou imediatamente de apagar as luzes. Hoje disse à Beatriz que a mãe estava dentro da máquina de lavar louça. Ela ficou muito preocupada e foi logo espreitar. Há uma idade própria para acreditarmos em tudo o que nos dizem. Também há quem nunca cresça. Crescer é perder a inocência da fé, é desconfiar. Não admira que São Tomás tenha preferido acreditar que um burro voava a sequer supor que um cristão pudesse mentir. Criança!

CRIANÇAS

A criança olha para o mundo com olhos de criança, está convencida de que o mundo é aquilo que vê. Cerrada no seu egocentrismo mágico, não entende que para lá da nossa capacidade de percepção há toda uma rede de relações complexas que dão forma aos fenómenos. Perceber o porquê obriga a um mergulho desinteressado nessa rede. Ninguém percebe o porquê olhando a rede à distância, auto-convencido de que o mundo se resume ao que é visível (por cada um) de formas tão diferentes. Podemos formar teorias acerca dos outros. O que não podemos, ou não devemos, é fazer como a criança: convencermo-nos de que entre as nossas teorias acerca dos outros e os outros nada se esconde.

DE COMO A VIDA ERA MELHOR ANTES DE TEREM INVENTADO A FILOSOFIA

Terminada a leitura de “Os Primeiros Filósofos”, Baltazar pousou o volume sobre o abdómen e pensou: a vida devia ser muito melhor antes destes tipos terem inventado a filosofia. Tales de Mileto caiu para dentro de um poço enquanto contemplava os astros, os pitagóricos não comiam carne por recearem a ingestão de um parente reincarnado num animal, Heraclito julgava Pitágoras o rei dos tagarelas, mas, segundo Diógenes Laércio, ter-se-á fechado num estábulo para que o calor do estrume lhe curasse a hidropisia, Empédocles mergulhou na cratera do Etna com o objectivo de se purificar no fogo, Zenão de Cicio estrangulou-se depois de ter visto num dedo partido um indício apocalíptico, Cleanto era tão pobre que escrevia em omoplatas de boi os ditos do mestre, recusou voltar a comer após a contracção de um tumor numa gengiva, Crisipo rebentou de riso ao ver um burro a comer figos… Enfim, uma panóplia de vidas abastardadas pela entrega ao pensamento que encontravam na morte de Séneca o exemplo máximo da desgraça. Conta Tácito que, obrigado a suicidar-se, o vegetariano começou por cortar as artérias dos braços. Porque o sangue não escoava devido à fraqueza do físico, Séneca pediu que lhe ceifassem igualmente as artérias das coxas e dos cotovelos. Tardando o fim, o filósofo resolveu ingerir uma taça de veneno meticulosamente preparada pelo camarada Statius Anneus. Nem com as artérias desfiadas, nem com o veneno, quis o corpo de Séneca algum trato com a morte. Lançou-se então num banho cálido e, seguidamente, fez-se transportar para uma estufa, acabando por esticar o pernil asfixiado pelo vapor. Dizem que teve uma morte digna… de herói. Baltazar pensava nestes heroísmos com alguma circunspecção. Que haveria de heróico em antecipar o inevitável, em crer no inacreditável e entregar a razão aos acidentes? Ociosos em vida, estes homens teriam sido apenas empenhados na precipitação da desgraça. E pese embora as vidas azaradas que nos haviam deixado de herança, o pior estaria por vir sob a forma calamitosa daquilo a que um poeta engenhoso de ombros largos veio a chamar de ideias.

Escrito para O Indesmentível.

Sábado, 25 de Julho de 2009

TODO O MAR


Os pretos também gostam de jogar xadrez, comentou como quem acabara de descobrir uma espécie não catalogada. Não sei por que me recordo agora daquela cara rugosa, dos dentes com cor de peras podres, das lentes grossas, dos olhos mirrados por detrás do vidro a espreitarem novas espécies. Ninguém sabe da vida de ninguém, evidentemente. Improvisamos um adultério enquanto as horas passam, damos corda aos ponteiros, acertamos o relógio, voltamos as costas a quem nos quer, esquecemo-nos de mudar a botija e por isso tomamos banho de água fria. O mundo tem as suas vidas, ninguém sabe. Trazemos para cá o que encontrámos lá, fomos bem vestidos, regressamos descalços, andamos numa agitação permanente, pagando promessas de joelhos, mesmo que nenhuma fé agudize as notas grossas do baixo-ventre. É preciso ter paciência para rasgar os contratos e começar a dançar a dança dos babuínos. A ninguém que tenha escolhido ser vivido pode alguém exigir mais do que um arrastar-se constante pelas ruas da lamentação.

Mas este lamento não tem a rédea de um crucifixo, é um índio sentado no cume da montanha, abanando-se furiosamente contra o vento, esbracejando freneticamente os demónios que lhe possuíram a alma, o desejo, a vontade. Só pára para regressar à cabana e procurar compotas com que adoçar o paladar, o vinho cambaleante das cidades agora erguidas no novo mundo. Cada homem transporta os seus fardos, e ninguém sabe. Talvez os pretos que gostam de jogar xadrez saibam dessas novas fronteiras desenhadas onde nada mais havia que mato e um vento sombrio assobiando por entre árvores altíssimas. Talvez eles saibam de evangelhos, talvez entendam as missões. Eu não assino por baixo.

Limito-me a olhar o limoeiro que continua saudável no jardim da casa dos meus pais. E solo o limoeiro, palhaço a correr para dentro de uma manada de imagens, inofensivo e confuso. O que mais aprecio nestas viagens é a desnecessidade de cobertores, mas ninguém pode fazer a mais pálida ideia do sentido que essa desnecessidade produz nos meus nervos. Basicamente traz-me a língua ao ouvido, sussurra-me a saliva dos índios, o canto indígena das danças algures perdidas onde apenas podemos agora encontrar o olhar turístico de quem lhes procura a música, uma espécie de regra estendida à ruptura, um chão que resvala para debaixo da terra, caindo lentamente numa cratera como se subitamente a terra fosse a cascata que cai do monte, formando um lago imenso de deserto onde mergulhamos a cabeça e procuramos esquecer o lamento índio dos pretos que gostam de jogar xadrez.

Não há duração nas vozes que calam o que consentem, não há duração nestas vozes, não há sequer a mínima razão para haver duração. E quem procura uma explicação tem apenas de se confrontar com a fraqueza de não se apreciar perdido. Aprecio-me perdido entre as vozes à deriva dos nómadas, aprecio-me para lá de ninguém, perdido e inexplicável, abstracto, confuso, concreto, comunicando apenas o necessário, concretamente confuso, aprecio-me, e ninguém pode saber das razões que o mar tem para não se afundar na areia. Das razões que a terra tem para não absorver todo o mar. E no ir e voltar das marés, o novo mundo continuará erguendo os seus edifícios debaixo da chuva, contra o sol.

ESTREIA


LIVROS SMS

— Tem livros com mensagens de amor para telemóveis?

O TRIBUNAL DO MUNDO


Um segundo de pausa para observar o tribunal do mundo: jornalistas de quatro pernas com um sapato em cada pé, um deles de salto alto, claro, homens enrubescidos de raiva convencidos da verdade de uma conspiração, uma grande azáfama com gente a entrar e a sair da sala a toda a hora, um juiz sentado em silêncio contra cada uma das quatro paredes, enquanto os arguidos conversam entre si, trocam informações e a mãe da vítima telefona a saber dos netos, muita opinião, muito trânsito, e o homem sem boca observando o tribunal do mundo num segundo de pausa. 08-07-09: a cobrança coerciva determina que os seus bens e direitos venham a ser objecto de penhora. 17-07-09: o decreto-lei de 5 de Junho determina que o processo de contra-ordenação que lhe foi instaurado seja anulado, devendo ser restituídas as coimas já pagas. E num segundo um homem não ganha o euromilhões porque não pôde registar o boletim, o sistema estava avariado. Nem tudo pode ser mau no tribunal do mundo. As calças estão cada vez mais curtas, ou talvez as pernas tendam a estar mais longas. Por via das sandálias com cunha de cortiça, os alongamentos acabam evidenciados e os olhos procedem à simplificação dos procedimentos. Os tecidos sedosos que se colam à pele, permitindo desconfiar anexos dentais onde as mãos anseiam carnes, instauram a necessidade de cumprimento do regime de contabilidade organizada. Observar cuidadosamente o tribunal do mundo sob pena da vítima se ver subitamente condenada à choldra familiar do ciúme. Alterações hormonais inexplicáveis vêm provocando um forte crescimento nas mamas das raparigas que passam, as blusas não aguentam e os decotes dão de si como um dique que cede à pressão das águas.

Na imagem: pormenor do livro O Mundo num Segundo, de Isabel Minhós Martins & Bernardo Carvalho, Planeta Tangerina, Março de 2008.

VIVER COM UM VULCÃO


Malcolm Lowry (28 de Julho de 1909 – 26 de Junho de 1957) está prestes a comemorar 100 anos. Também seguiu viagem no barco ébrio, de Inglaterra para a China, da China para a Alemanha, daqui para os Estados Unidos, passando pela Noruega, França, Espanha, Portugal, México… Um viajante, portanto. Nos momentos de sobriedade, embriagava-se de literatura. Nos outros momentos, casava-se, maltratava as mulheres, embebedava-se com o que estivesse à mão (incluindo aftershave?!!). O primeiro casamento ocorreu em Paris, com Jan Gabrial, pouco antes de um esgotamento nervoso premonitório - provavelmente induzido pelo consumo desmesurado de álcool; depois com Margerie Bonner, no Canadá. Para trás ficaram a aventura mexicana, as primeiras páginas de Debaixo do Vulcão, Jan partindo para regressar postumamente com a intenção de revelar ao mundo o pénis minúsculo do marido. Lowry foi um nómada. Talvez isso explique as escassas publicações em vida. Estava demasiado ocupado a vivê-la. Tratamentos psiquiátricos, desintoxicações, uma morte por misadventure (termo médico belíssimo que pode ser traduzido por “pouca sorte”). A pouca sorte levou Lowry desta para melhor, mas Margerie nunca se livrará da suspeição que sobre ela recaiu. Que papel o destas mulheres na vida do vigoroso marinheiro? Terão sido sorte? Terão sido azar? Vítimas de um pénis minúsculo? Assassinas involuntárias?

FELICIDADE

Montanhas azuis com neve e água azul, fria e turbulenta —
Um céu selvagem repleto de estrelas que nascem
E Vénus e a lua quase cheia quando o sol nasce.
Gaivotas que seguem um barco a motor contra o vento,
Árvores com ramos e raízes no ar;
Sentado ao sol ao meio-dia
Com o furioso fumo da nuvem que sai da chaminé da cabana,
Águias ao vento como se fossem uma,
Andorinhas do mar que vão e vêm
Uma nova espécie de tabaco às onze,
E o meu amor que regressa no autocarro das quatro —
Meu Deus, por que é que nos deste tudo isto?

Malcolm Lowry, in As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar, selecção e tradução de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, Março 2008.

Sexta-feira, 24 de Julho de 2009

FEIRA DO LIVRO

Ontem começou a feira do livro. Estivemos a prepará-la na noite anterior, até às 3 da manhã. Correu tudo muito bem, se exceptuarmos alguns equívocos justificáveis pela presença da livraria ali mesmo ao lado. Há clientes que não distinguem o atendimento possível numa feira do atendimento prestado na livraria. Seja como for, eis uma excelente oportunidade para adquirir livros ao preço da chuva. Vi pessoas saírem com 10 livros debaixo do braço comprados a €1 cada. Eu próprio fiz o meu montinho. Títulos de Diane de Prima, Raoul Vaneigem, Alberto Pimenta, Herman Melville, Gaston Bachelard, mestre Pessoa, etc., etc., etc. Nenhuma alegria comparável à proporcionada por uma senhora que, aprontando-se para pagar um livro de culinária ao preço de €1,50, ainda rematou com a vetusta e clássica interrogação portuguesa: «Então isto não merece nenhum descontozinho

PERGUNTEM AO PÓ



Se a lenda contasse, diria que o escritor norte-americano de origem italiana John Fante (1909-1983) foi o guia espiritual do escritor norte-americano de origem germânica Charles Bukowski (1920-1994). Para lá da vida de escritor, embrulhada entre romances, contos, argumentos para filmes nunca concretizados, houve um homem tragicamente perseguido por uma infância paupérrima e desenraizada. Herdou do pai pouco mais que uma fiel amizade pelo copo, tão fiel que lhe desenvolveu problemas de diabetes culminados em duas pernas amputadas. Na nota biográfica que acompanha a edição portuguesa de A Confraria do Vinho (Teorema, 2007), Fante é impertinentemente tratado como alguém que desperdiçou o seu talento. Acrescenta-se uma sórdida vida de vagabundagem e ocupações várias como forma de sobrevivência. Sublinho também a referência a um suposto envolvimento «com as mulheres erradas». Tendo em conta o poço de virtudes que o escritor foi, é caso para questionar se terá John Fante sido o homem certo para Joyce Smart - com quem casou em 1937 e de quem nunca mais se separou?

INFORMAÇÕES

Por vezes a livraria transforma-se numa agência de informações. Os aflitos procuram as casas de banho, os consumistas querem saber onde ficam as caixas de Multibanco, os viciados desesperam por uma casa que venda tabacos, os néscios procuram a mesma casa, mas por causa de jornais e de revistas… e hoje apareceu uma senhora que queria saber em que piso era a lavagem ecológica dos carros.

Quinta-feira, 23 de Julho de 2009

MÁQUINAS



«Já andava carente de uma moca», confidenciou-me o Henrique Fialho, ainda a cheirar a Djemaa el Fna, sorrimos, quando tive o cuidado de não fumar a pedra toda para ele subir ao coreto e rasgar a guitarra, de uma forma «musicalmente correcta», como, por certo, diria o Nuno Moura.

Falta-me o lado prático da vida. Assim como não sei ganhar dinheiro, nunca aprendi a enrolar charros. Já li os manuais, tentei a minha sorte, mas, definitivamente, falta-me o talento. Nasci na terra das mocas, alguns anos depois de Ruy Belo e de… Eugénia Lima. A segunda dispensa apresentações, o primeiro foi um poeta português. Sucede que na terra das mocas só me ensinaram coisas inúteis, as mesmas que, de quando em vez, nos tornam carentes de uma moca. Penduro-me nos amigos. Desconhecia, porém, a existência de máquinas que facilitam o serviço. Há máquinas para tudo, a manufactura tem os dias contados. Só falta mesmo inventarem uma máquina que viva por nós a vida que dispensaríamos viver.


Na imagem: “How to roll a joint”, in (wordless diagrams), de Nigel Holmes, Bloomsbury, 2005 (oferecido pelo Rui Almeida).

AVÓ ADELAIDE

A avó Adelaide comia pacotes de margarina à colherada, regava a gordura com litros de vinho bebidos directamente do gargalo, escondia as garrafas vazias na garrafeira (onde toda a gente as julgava cheias), sentava-se num sofá velho cor de Terra a ler brochuras sobre a Virgem Maria, não gostava de tomar banho, a fragrância que largava por onde passava não era tão simpática quanto a sua silhueta em contraluz - eu gostava particularmente de a observar adormecida com os óculos na ponta do nariz, depois de a ter ouvido pedir uma esmolinha no céu a Deus Nosso Senhor. Uma vez informei-a de que o homem já tinha pisado a lua. Ela, cientificamente incrédula e esteticamente exigente, desafiou-me:

− Então por que não foram antes ao Sol, que é muito mais bonito?

Quarta-feira, 22 de Julho de 2009

ELOGIO DA ANEDOTA

A anedota tem um propósito específico: fazer rir. É natural que este género tenha sido rapidamente menosprezado numa civilização educada para o sacrifício, onde a convivência com o riso foi sempre tão desconfortável quão desaconselhável. Assim sendo, a gargalhada foi relegada para os campos do diabólico, do satânico, da ralé que precisa de um corpo educado, amordaçado, vilipendiado, sob pena do mundo se transformar numa ingovernável campanha de depravados. Por sua vez, a lágrima é a expressão radical de um corpo em erupção. Chorar a rir foi sempre de mau tom, porque o choro de quem ri pressupõe esse prazer que se julga inimigo da razoabilidade. Mas chorar a sofrer parece ser aceitável – conquanto o choro não manifeste cobardia e intolerância à dor, sobretudo nos homens -, pois o choro de quem sofre prognostica uma purificação, pode até pressupor arrependimento, situações todas elas caras a quem faz do perdão e da expiação um modo de vida, negócio de almas. Nunca faltou no mundo essa classe de profetas da desgraça cuja acção moral mais manifesta foi sendo aplicada na elevação da tragédia e na condenação da comédia. Ainda hoje há muita gente que se deixa ludibriar pelo discurso desgraçadinho de quem não encontra na vida senão motivos para se queixar da própria vida. Outros há que fazem questão de cultivar o género propondo ao mundo as suas angústias, os seus plásticos estremecimentos, como se nestes pudesse haver algo mais do que uma trágica manipulação de um sentimentalismo óbvio e vazio de conteúdo. O elogio da anedota deve começar precisamente por aqui: ela abala os pilares deste edifício sacrificial erigido respeitosamente e devotadamente na direcção de forças castradoras que outra coisa não têm feito ao longo dos tempos senão impedir os homens de serem homens. Não é de esperar que as academias aceitem passivamente tais abalos, tão arreigadas que estão ao queixume mais postiço, à sentimentalidade mais hipócrita, ao mais pornográfico uso da dor. Nada podemos esperar das academias, depósitos de inteligência parada e conservadora dedicada à perpetuação de velhos e ultrapassados preconceitos. Quando muito, a anedota foi sendo substituída nestes meios pelo dito espirituoso, pelo aforismo de belo efeito, pelo fragmento de boa consciência - anedotas sofisticadas, portanto; mas anedotas. A nouvelle cuisine da anedota pôde assim praticar o riso contraindo os músculos faciais, contendo a gargalhada nesse mesmo lugar onde a bufa escapava sem remédio. É um riso constrangido. Repare-se como muita da criação literária não escapa ao anedótico, procurando porém refugiar-se timidamente no pathos humorístico que anseia ser admitido pelos críticos como sinal de inteligência. A estes cabe chamar ironia à anedota envergonhada de si própria. Não é de admirar que assim seja, pois o que não nos falta é uma literatura envergonhada de ser literatura, levada a cabo por homens envergonhados de serem homens.

Terça-feira, 21 de Julho de 2009

TEASER


RUA DO IMAGINÁRIO

Na Rua do Imaginário vivia um homem que passava o tempo todo a engolir sapos. Um dia explodiu e desfez-se em pedacinhos. Uma ninhada de ratazanas deglutiu avidamente a maioria dos pedacinhos. Excepto um, que escapou na berma de um charco onde, de vez em quando, os transeuntes escutam um estranho coaxar.

FELICIDADE

A felicidade é sentir um sorriso na boca.
Matilde, 6 anos.

Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

TEORIA DA VIAGEM

A série textos breves, que a Quetzal tem vindo a publicar com apreciável regularidade, colocou-nos recentemente à disposição dois pequenos livros de inquestionável interesse: Os Meus Prémios, de Thomas Bernhard, e Teoria da Viagem – Uma Poética da Geografia (Abril de 2009), do filósofo francês Michel Onfray (n. 1959). Foquemo-nos no segundo. Neste breve ensaio, Onfray começa por estabelecer uma dicotomia ontológica entre o nómada e o sedentário - dois “modos de estar no mundo” que podem ser explicados a partir da raiz que determinou a oposição, nomeadamente se recorrermos à tipologia fundada no Génesis com o episódio que tem por intervenientes o pastor Abel (nómada) e o agricultor Caim (sedentário). É este quem mata o primeiro, podendo aí antever-se uma espécie de inquietação ameaçadora que caracteriza o nómada. Curiosamente, a condenação divina de Caim consistirá em passar o resto da vida a errar pelo mundo. «Génese da errância: a maldição» (p. 12) – conclui Michel Onfray.

Descendentes de Caim são todos os ingovernáveis, os viajantes inquietos, as almas perdidas que o poder não logra integrar por ser mais forte o desejo de partir do que o conforto de assentar. Descendentes de Caim são os corpos associais que se movimentam no mundo de sentidos abertos para experiências novas, assimilando lugares com a mesma urgência com que o corpo assimila o alimento que o mantém vivo. Eis a pior das condenações que pode atingir o espírito gregário da alma aquietada: a errância, a ausência de lugar. Caim acaba fundando a sua cidade, Henoc, a qual pode hoje ser vislumbrada em todas as cidades, autênticos cemitérios de maiorias que se reproduzem nos gestos, nas palavras, nas acções. É preciso, pois, matar Caim, libertar o homem do peso da maldição, desamarrá-lo e deixá-lo vogar à vontade sem mapas nem destino. Os mapas, representações ficcionais e ilusórias do espaço, são a ferramenta de que o homem se dota para disfarçar a sua perdição. Entrar num território desconhecido é experimentar a ruína, é lançar voluntariamente o corpo numa queda da qual há-de regressar (ou não) apenas com a certeza de se ter, ainda que por breves momentos, realizado plenamente.

Acontece que para Onfray o desejo de viajar pressupõe um sonho, a vontade de um registo, até um decepcionante mínimo de orientação: «Todos os viajantes relatam as suas peregrinações em cartas, cadernos, relatos. Apenas um pequeno número quinta-essencia as suas deslocações numa antologia de poemas. (…) Depois do Atlas e o Poema, essas duas formas da sensibilidade a posteriori, é a Prosa que toma a dianteira. Esta exprime de uma outra forma, mais ténue, mais diluída, o que o poeta transfigura em esplendores» (p. 33). O poema ocorre, então, como esplendorosa captação da experiência, talvez por no poema a imagem continuar em movimento, a realidade não acabar fixada, o “redactor” do real se confundir com um leitor da realidade que pode abrir e fechar subjectivamente as portas que bem entender durante a sua deriva. Mas deixemos a memória trabalhar, não a perturbemos com um excesso de indícios e sinais que acabem por barrar a verdadeira “exaltação estética”.

Iniciar uma viagem no momento em que deixamos para trás o abrigo de todos os dias é colocarmo-nos «num entre-dois que remete para uma lógica peculiar: já não estamos no lugar abandonado e ainda não estamos no lugar desejado» (p. 37). São estes por excelência os lugares da poesia. E neles é impossível não notar uma equivalência entre o espaço e o presente, dito na forma agostiniana como aquele que ainda e já não é. Porém, o entre-dois (geográfico) de Michel Onfray remete igualmente para outras realidades. Sugere-se a viagem em companhia, a realização de «uma verdadeira comunidade hedonista» a dois. Este a dois, sabe-o quem estiver familiarizado com a obra do autor da Teoria do Corpo Amoroso, não prevê a ideia tradicional e burguesa de casal. Antes propõe uma caminhada amigável: «A amizade, esse amor sem corpo, gera um uso comum do tempo, do espaço e da energia» (p. 48). Este a dois amigável disponibiliza-nos para “o prazer da alteridade”, não nos amarra a obrigações que possam reduzir uma abertura ao outro, à experiência do outro, que permita “inventar uma inocência”, ou seja, coloca-nos perante o diferente como a criança que não questiona, não como aquele que olha o diferente procurando o igual, mas como aquele que se procura na diferença.

Eis a conclusão: «Uma poética da geografia pressupõe esta arte de deixar inebriar-se pela paisagem para em seguida cumprir o desejo de a compreender, avaliar os seus contornos antes de partir para destinos lúdicos em que o poeta persegue o geógrafo e o filósofo, entendido como complemento e não como inimigo» (p. 118). São vários os pontos de encontro com o “nomadismo intelectual” desenhado por Kenneth White, mas a preocupação do filósofo francês é ainda e sempre com o corpo tornado lugar de experiências inebriantes e enriquecedoras, com o corpo como lugar da realização humana a partir de uma busca que começa e termina na vivência. Ao mesmo tempo que reivindica este “corpo solto”, Onfray dispara contra as forças poderosas que teimam em acomodá-lo aos lugares ilusoriamente confortáveis da vida sedentária. As moradas, os endereços, são prisões abertas que reduzem a existência a uma vida facilmente localizável. Não nos pondo a salvo, podem elas mesmas tornar-se o perigo de uma vida passada ao lado do mundo. É certo que todo o nómada carece de um lugar onde regressar. Não há partida sem regresso. Importa estimular a partida.

Escrito para o Rascunho.

Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

MANIFESTO DA MULHER FUTURISTA

Valentine de Saint-Point (n. 1875 – m. 1953), pseudónimo de Anna Jeanne Valentine Marianne Desglans de Cessiat-Vercell, foi literalmente uma mulher dos sete instrumentos. Poeta – a primeira colectânea, intitulada Poémes de la Mer et du Soleil, surgiu em 1905 -, romancista, ensaísta, dramaturga, pintora, coreógrafa, entre outras actividades que seria exaustivo enumerar, foi também uma voz inconformada do movimento futurista francês. Em 1912 lançou o Manifesto da mulher futurista, seguindo-se-lhe, um ano depois, o Manifesto futurista da Luxúria. Se o primeiro surge como resposta declarada à misoginia de Filippo Tommaso Marinetti (n. 1876 – m. 1944), militante fascista italiano que ficou para a história como papa do Futurismo, o segundo tem por alvo mais abrangente a moral cristã, à qual devemos, entre outras pesadas heranças, a ideia da mulher como representação bestial da luxúria, um dos sete pecados capitais, que urge domesticar. Com alvos destes, é fácil adivinhar o fim reservado à fundadora dos «dramas ideiistas».

Após três relações falhadas e uma dedicação total à escrita, refugia-se em Espanha, partindo posteriormente para os Estados Unidos. Já em Marrocos, converte-se ao Islamismo. Instala-se no Cairo, onde virá a falecer só e miseravelmente. Em 1947, um jornalista anónimo anunciava prematuramente a morte de Valentine. Fê-lo nestes termos: «Percorrendo o simples trajecto da sua vida sentimental, é muito pouco dizer-se que Valentine de Saint-Point foi uma mulher independente. (…) Numa altura em que as mulheres podiam quando muito aspirar à categoria de poetisas (de Louise Labé a Anna de Noailles, digamos, para resumir alguns séculos de história), Valentine não hesita em praticar todos os géneros literários (poesia, romance, crítica) e até em invadir o domínio artístico: teatro, pintura e gravura (expõe nomeadamente no Salão dos Independentes), e sobretudo a dança (…). Os seus maiores inimigos, embora nem sempre directamente nomeados – mas haveria necessidade? – são a moral (ou a hipocrisia) burguesa e a moral cristã» (pp. 19-22).

Desenterrado pela musculatura sempre atenta da &etc, o Manifesto da Mulher Futurista (Abril de 2009) volta a aparecer, agora acompanhado por uma introdução de Fernando Cabral Martins e vários outros textos de interesse inquestionável, dos quais se destacam o Manifesto Futurista da Luxúria e alguns breves ensaios sobre as intenções da autora no domínio das artes performativas. Interroga-se o introdutor sobre como ler, hoje, estes textos. Mais dados ao amorfismo do que à virilidade, talvez os possíveis leitores deste pequeno grande livro venham a manifestar aquela ambivalência que caracteriza os actuais amantes de uma literatura erigida à margem das convenções. Refiro-me a um certo deslumbramento que experimenta todo aquele que tem a felicidade de encontrar no texto a força que não procura, ou da qual de desvia, em vida. No fundo, a hipocrisia que outrora se pretendia atingida não dista muito da mesma hipocrisia que hoje acaba ferida nos seus recalcamentos mais dolorosos. Educados para a servidão, muito poucos serão aqueles que estão dispostos a hipotecar o seu bem-estar (material e moral) em nome de uma liberdade, de uma autonomia, de uma independência das quais podemos esperar pouco mais do que o desconforto da solidão.

O primeiro parágrafo do Manifesto da Mulher Futurista é bastante claro: «A Humanidade é medíocre. A maioria das mulheres não é nem superior nem inferior à maioria dos homens. Ambos são iguais. Ambos merecem o mesmo desprezo» (p. 27). Alimentemos a esperança de, no final, escaparmos à mediocridade da maioria podendo as nossas acções certificar-nos a superioridade moral dessa minoria que ainda julgamos existir por, aqui e acolá, irmos encontrando focos de resistência que nos levam a tal. Nenhum manifesto escapa, obviamente, a contradições inerentes a toda e qualquer tomada de posição. Tomar posição, optar, é antes de mais assumir uma certa convergência na contradição, a qual não deve ser levada à letra de incoerência. Incoerente é o hipócrita, contraditório é o humano, demasiado humano. Super-homens são tão raros em morte quanto impossíveis em vida.

Os manifestos de Valentine, pretendendo libertar um género específico de amarras historicamente determinadas por modelos civilizacionais sempre erigidos sob a égide de uma suposta palavra divina, não se livram das suas próprias imposições. Impõem uma renovação que transcenda estereótipos políticos - «O Feminismo é um erro político. O Feminismo é um erro cerebral da mulher, erro que o seu instinto reconhecerá» (p. 31) -, impõem uma voz cruel, violenta, viril contra o Sentimentalismo, impõem a energia do Desejo contra os «sinistros trapos românticos»: «A luxúria é uma força porque, finalmente, jamais conduz à sensaboria do definitivo e à segurança que dá o apaziguador sentimentalismo» (p. 40). No fundo, desenterrar estes textos é mais um gesto de luta contra a hipocrisia que ainda hoje refreia quem por confessa ingenuidade tenderíamos a julgar mais livres e menos superficiais. Faz-se a história da humanidade também de excepções, ostracizadas e deixadas na penumbra até que alguém volte a torná-las apaixonadamente vivas, «pois haverá sempre espíritos insubmissos que preferirão às belas estradas os caminhos pitorescos e incertos» (pp. 56-57).

Escrito para o Rascunho.

Sábado, 11 de Julho de 2009

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

ÉTICA A NICÓMACO

Não é fácil determinar as razões dessa espécie de imortalidade que consolida na História certas ideias, formas de pensar, reflexões e seus respectivos autores. No Ocidente diz-se que a filosofia nasceu na Grécia Antiga. Justa ou injustamente, este lugar comum vai fazendo escola e é difícil desmontá-lo junto de quem se convenceu de que antes de Sócrates o que havia era mito e poesia. Platão (428 a.C. – 347 a.C.), o mestre, quis expulsar da República (ideal) essa terrível contaminação do espírito que era a poesia; Aristóteles (384 a. C. – 322 a. C.), o discípulo, preferiu escrever uma (desprezada) Poética fazendo o que toda a vida fez: sistematizar. Mas o espírito sistematizador do Estagirita só é devidamente compreendido quando nele observamos uma vontade de aplicação prática. Ora, temos precisamente aqui o princípio da grande empresa aristotélica: levar o ideal à acção; ou, pelo menos, encontrar as condições que permitam pôr em prática o dogma. Para nosso mal, a herança aristotélica acabou por servir as estruturas morais ulteriores. Em nenhuma obra do filósofo grego se nota tão bem tal inspiração como na Ética que terá escrito para o seu filho Nicómaco.

Nesta edição da Ética a Nicómaco (Quetzal, Junho de 2009), traduzida, prefaciada e anotada por António de Castro Caeiro, voltamos a ter a oportunidade de sentir um primeiro esforço na formação moral do Humano. Ao longo de dez livros, Aristóteles estabelece aquilo a que chama o Supremo Bem, questionando-se sobre o tipo de vida que pode aproximar o homem desse fim. Rapidamente o supremo bem é identificado com a felicidade, opondo-se esta ao mero prazer por nem sempre os prazeres propiciarem a vida feliz e encontrar-se a felicidade «entre as coisas de valor inestimável e completas». De resto, conclui o filósofo, nunca ninguém escolhe a felicidade em vista da honra e do prazer e todos escolhem o prazer e a honra em vista da felicidade. É fácil notar que o alvo de Aristóteles não é diferente do de Platão: o corpo, esse lugar de devassidão onde os desejos e as paixões afastam o homem da vida contemplativa. Michel Meyer sintetizou com notável perspicácia o tipo de pensamento moral que acabou por predominar no Ocidente a partir destas doutrinas iniciais: «Com o cristianismo, as paixões que, com Aristóteles, podíamos negociar e, com Cícero, curar, tornam-se o signo do mal radical, em suma, o pecado» (in O Filósofo e as Paixões).

Como ler hoje esta tradição moral que desde cedo assentou numa desconfiança do prazer e numa perspectiva negativa das paixões, tanto quanto procurou elogiar o autodomínio e promover a vida contemplativa? Na Ética a Nicómaco encontramos uma economia das paixões, uma topologia do carácter, uma tipificação dos sentimentos e das atitudes que subjazem às acções. Encontramos exemplos de negociação moral que muitas vezes parecem reduzir as relações entre os homens a um comércio de bons sentimentos, a um deve e haver de boas acções. Também é curioso que o intuito pedagógico da obra não evite a recorrência aos exemplos dos poetas e aos mitos, tal como sucedia em Platão, para justificar conclusões formuladas na base do pressentimento e de premissas supostamente de acordo com uma lei divina que jamais poderá ter estado ao alcance dos humanos (mesmo dos sábios, fossem eles Gregos ou Troianos). Só há, pois, uma forma de ler hoje esta e outras obras como esta: procurando entender criticamente o que nelas falhou enquanto modelos.

Parece ter falhado, desde logo, a fé numa possibilidade de matematização do caos que é a vivência humana. Podemos partir do princípio de que os homens são educáveis, mas informa a prática que é pouco aconselhável reduzir as possibilidades do Humano a meia dúzia de supostas virtudes/excelências e de supostos vícios/perversões que se opõem numa lógica nada linear no campo da acção. É verdade que Aristóteles não nega essas possibilidades, mas a obsessão com um «sentido orientador» – «a justiça correctiva é o meio termo entre os extremos perda e ganho» (p. 125) – acaba por descambar numa espécie de «sociedade comercial das relações humanas» cujo resultado serão generalizações ainda hoje bastante discutíveis. Não sabemos, por exemplo, se «praticar adultério está sempre absolutamente errado» (p.57), se «todo aquele que ficou cego por causa de uma bebedeira ou de uma outra qualquer devassidão deve ser repreendido» (p. 77), se «aquele que visa sempre obter prazer e ajudar a criar uma boa disposição sem mais nenhum outro motivo é obsequioso» (p. 111), se «quem se suicida atenta de algum modo contra a própria honra, porque comete uma injustiça contra o Estado» (p. 142), se «ao amarem o amigo, [os homens de bem] amam o seu próprio bem» (p. 205), etc, etc, etc.

Poderão os exemplos ser meramente circunstanciais, datados e apenas legíveis à luz da época em que foram escritos. No entanto, estamos a falar dos pressupostos de uma moral ainda hoje reinante, da pretensão de uma ética definidora das boas acções e legitimadora da censura, dos castigos e das multas que ao longo de séculos violentaram e ainda violentam muitos seres humanos. Estamos a falar de uma ética que instaurou a tão útil noção de perdão e abriu caminho para as ideias da cura moral, vendo um doente em todos aqueles que se desviassem, por excesso ou defeito, das estipuladas excelências da alma humana e de uma ideia de felicidade enquanto forma de contemplação. Estamos a falar dos pilares da nossa civilização, a qual deve repensar os seus fundamentos a partir não somente do que eles aparentam ser mas também do que eles tornaram possível. É preciso aceitar que há muitos preconceitos nestas obras que já não nos deviam merecer a reverência que ainda hoje merecem. E é preciso ler estas obras para entender isso.

Escrito para o Rascunho.