Na passada sexta-feira, dia 25, fui ler um conto à turma da Matilde. Levei Afonso e o Livro, uma história escrita pelo Luís Filipe Cristóvão que conta a aventura de um rapaz viciado na leitura de um livro inexistente. O mote serve para contar duas histórias numa só: a história do nascimento de um livro e a história do nascimento de um leitor. Na realidade são ambas uma e a mesma coisa. Isso percebeu-se naquela turma. O sucesso repetiu-se, depois de no ano passado lhes ter apresentado O Incrível Rapaz que Comia Livros. Notei nas crianças um interesse inabitual. No fim, muitos fizeram questão de me colocar ao corrente das suas aventuras enquanto… escritores. Uns andam com poemas nos bolsos, outros escrevem contos, produzem os seus próprios livros nas escolas, em casa, escrevem, ilustram, recortam folhas, agrafam-nas, inventam, criam, aprendem a gostar dos livros. A Matilde foi, como sempre, clara e objectiva: para o caso de ainda não teres dado por isso, devo dizer-te que já vou no terceiro capítulo da minha história. Toma e embrulha. Como se costuma dizer: em casa de ferreiro, espeto de pau. Eu sabia que ela andava a escreve uma história, mas desconhecia o estado avançado da produção. Isto tudo para dizer o seguinte: o PNL foi uma excelente iniciativa governamental, gerou uma óptima dinâmica escolar em torno do livro e é hoje uma marca da qual muitas editoras se socorrem para fazerem valer as suas obras num hiper-agressivo mercado concorrencial. O PNL é uma coisa positiva, hoje só me apetece falar de coisas positivas.
quinta-feira, 31 de março de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
BIG ODE #8
Big Ode n.º 8
Tema: Decadência
Edição e design: Rodrigo Miragaia
Design de conceito: Rodrigo Miragaia e Sara Rocio
Março de 2011
A Decadência da Paixão #1, A Decadência da Paixão #2, A Decadência da Paixão #3, A Decadência da Paixão #4, pp. 16-19.
segunda-feira, 28 de março de 2011
MANICÓMIO
O enquadramento, o sotaque, a postura desajeitada, fizeram da conferência de Paulo Futre um dos momentos mais hilariantes da recente história portuguesa. Lembro-me de outros similares, mas de todo mais degradantes: Sócrates a tentar vender a pochete Magalhães ou Cavaco fascinado com as tetas de uma vaca. A diferença está em que Futre não nos governa. Ainda.
domingo, 27 de março de 2011
LINHAS DE HARTMANN
terça-feira, 22 de março de 2011
domingo, 20 de março de 2011
A MORTE QUE ALGUÉM ESPERA
A morte que alguém espera
A morte que alguém evita
A morte que vai pelo caminho
A morte que vem taciturna
A morte que acende os castiçais
A morte que se senta na montanha
A morte que abre a janela
A morte que apaga as luzes
A morte que aperta a garganta
A morte que fecha os rins
A morte que parte a cabeça
A morte que morde as entranhas
A morte que não sabe se deve cantar
A morte que alguém entreabre
A morte que alguém faz sorrir
A morte que alguém faz chorar
A morte que não pode viver sem nós
A morte que vem a galope no cavalo
A morte que chove em grandes estampidos
Vicente Huidobro, do livro Últimos poemas (1948), in Poesía y Poética (1911-1948), antología comentada por René de Costa, Alianza Editorial, Madrid, 1996, p. 308..
Versão de HMBF
INDIGNAI-VOS
Quem nos fala é um homem de 93 anos, com um currículo existencial suficientemente experiente para que a sua voz, como a de um bom professor, nos mereça toda a atenção. Nascido em Berlim, no seio de uma família de origem judaica com ligações às altas esferas culturais, Stéphane Hessel (n. 1917) naturalizou-se francês em 1937. As razões da deslocação são por demais evidentes. O início da Segunda Guerra Mundial levou-o a juntar-se ao general de Gaulle em Londres, integrando o Bureau de contre-espionnage, de renseignement et d’action. Em Março de 1944 desembarcou clandestinamente em França, foi capturado pela Gestapo, foi torturado e enviado para o campo de Buchenwald. Conseguiu escapar à forca trocando de identidade com um francês que morrera de tifo nesse mesmo campo. Transferido para o campo de Rottlebrode, de onde conseguiu escapulir-se, foi novamente capturado e colocado no campo de Dora, tendo conseguido evadir-se mais uma vez. Finda a guerra, iniciou uma longa carreira diplomática em França. Neste âmbito, uma das suas missões mais importantes terá sido a de integrar a comissão que redigiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Indignai-vos é um opúsculo escrito em contexto de exame final. A consciência do fim leva Hessel a dirigir-se aos jovens e a apelar à indignação, mas uma indignação pacífica. Entende-se este sublinhado se tivermos em conta o caos que invadiu muitas das cidades europeias nos últimos anos. Os confrontos de Paris em 2005 terão sido um primeiro mas eloquente sinal. Para Hessel, este apelo à indignação deve ter por base a defesa dos valores e dos princípios do Conselho Nacional da Resistência francesa, hoje fortemente ameaçados por um poder dificilmente identificável. Torna-se urgente zelar pelas conquistas sociais da Resistência contra a «actual ditadura internacional dos mercados financeiros que ameaça a paz e a democracia». Stéphane Hessel não o afirma com tanta clareza, mas é evidente que o principal inimigo dessas conquistas sociais esconde-se por detrás dos bancos e dos interesses privados dos seus administradores:
Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos destas medidas sociais. Mas como é possível que actualmente não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada? Apenas porque o poder do capital, tão combatido pela Resistência, nunca foi tão grande, insolente, egoísta, com servidores próprios até nas mais altas esferas do estado. Os bancos, agora privatizados, preocupam-se principalmente com os seus dividendos e com os elevadíssimos salários dos seus administradores, e não com o interesse geral. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão grande; e a corrida ao capital e a competição nunca foram tão incentivadas. (p. 21)
Impossível não concordar com o diagnóstico, nomeadamente se tivermos em conta o agravamento das assimetrias sociais num plano internacional. As razões para a indignação são, portanto, mais que muitas. Mas este opúsculo não se restringe a uma fundamentação política da indignação na actualidade. Com os seus exemplos do passado, ele reflecte uma relação nem sempre pacífica, do ponto de vista filosófico, entre desejo de envolvimento, indignação e resistência. Hessel recorda Sartre e o seu polémico apoio a algumas acções violentas. A oposição entre a via pacífica, mas activa e militante, e a via violenta não é de agora. Teve uma curiosa expressão nos tempos da Revolução Industrial com a emergência do Movimento Ludista. No caso do presente opúsculo, a doutrina pode resumir-se em três premissas: «a pior das atitudes é a indiferença» (p. 26), «o terrorismo não é eficaz» (p. 35), na medida em que se afirma pelo exaspero e, nesse sentido, pela recusa da esperança, «é preciso preferir a esperança, a esperança da não-violência» (p. 36).
Este apelo a uma indignação pacífica, mas não pacifista, contrasta com muitos dos desenvolvimentos recentes. A «ruptura radical» com a ditadura produtivista instalada no Ocidente não se compadece com cantorias inconsequentes e manifestações esvaziadas de conteúdo, por muito participadas que possam ser. Ela deve assumir os seus alvos, nomeadamente os bancos enquanto rosto mais visível do espírito imaterial dos mercados financeiros. Uma insurreição pacífica parece já não ser suficiente, nomeadamente quando a esperança de que fala Stéphane Hessel se encontra seriamente ameaçada pela ausência de horizontes. O Estado, essa identidade a quem confiamos a defesa dos nossos interesses, responde apenas à irritação dos mercados, fazendo orelhas moucas do desespero dos cidadãos. Está mais preocupado com a saúde dos mercados do que com a saúde, propriamente dita, das pessoas. Quando assim é, este “indignai-vos, mas com juizinho”, é simpático, mas manifestamente insuficiente. Uma nota final: o prefácio de Mário Soares, na edição portuguesa, era escusado e chega a ser indigno. Não por culpa do autor, mas da editora, a Objectiva, que aí encontrou um pretexto para rentabilizar um texto cuja função primordial não é contribuir para as finanças dos editores. A tradução é de Paula Centeno.
Indignai-vos é um opúsculo escrito em contexto de exame final. A consciência do fim leva Hessel a dirigir-se aos jovens e a apelar à indignação, mas uma indignação pacífica. Entende-se este sublinhado se tivermos em conta o caos que invadiu muitas das cidades europeias nos últimos anos. Os confrontos de Paris em 2005 terão sido um primeiro mas eloquente sinal. Para Hessel, este apelo à indignação deve ter por base a defesa dos valores e dos princípios do Conselho Nacional da Resistência francesa, hoje fortemente ameaçados por um poder dificilmente identificável. Torna-se urgente zelar pelas conquistas sociais da Resistência contra a «actual ditadura internacional dos mercados financeiros que ameaça a paz e a democracia». Stéphane Hessel não o afirma com tanta clareza, mas é evidente que o principal inimigo dessas conquistas sociais esconde-se por detrás dos bancos e dos interesses privados dos seus administradores:
Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos destas medidas sociais. Mas como é possível que actualmente não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada? Apenas porque o poder do capital, tão combatido pela Resistência, nunca foi tão grande, insolente, egoísta, com servidores próprios até nas mais altas esferas do estado. Os bancos, agora privatizados, preocupam-se principalmente com os seus dividendos e com os elevadíssimos salários dos seus administradores, e não com o interesse geral. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão grande; e a corrida ao capital e a competição nunca foram tão incentivadas. (p. 21)
Impossível não concordar com o diagnóstico, nomeadamente se tivermos em conta o agravamento das assimetrias sociais num plano internacional. As razões para a indignação são, portanto, mais que muitas. Mas este opúsculo não se restringe a uma fundamentação política da indignação na actualidade. Com os seus exemplos do passado, ele reflecte uma relação nem sempre pacífica, do ponto de vista filosófico, entre desejo de envolvimento, indignação e resistência. Hessel recorda Sartre e o seu polémico apoio a algumas acções violentas. A oposição entre a via pacífica, mas activa e militante, e a via violenta não é de agora. Teve uma curiosa expressão nos tempos da Revolução Industrial com a emergência do Movimento Ludista. No caso do presente opúsculo, a doutrina pode resumir-se em três premissas: «a pior das atitudes é a indiferença» (p. 26), «o terrorismo não é eficaz» (p. 35), na medida em que se afirma pelo exaspero e, nesse sentido, pela recusa da esperança, «é preciso preferir a esperança, a esperança da não-violência» (p. 36).
Este apelo a uma indignação pacífica, mas não pacifista, contrasta com muitos dos desenvolvimentos recentes. A «ruptura radical» com a ditadura produtivista instalada no Ocidente não se compadece com cantorias inconsequentes e manifestações esvaziadas de conteúdo, por muito participadas que possam ser. Ela deve assumir os seus alvos, nomeadamente os bancos enquanto rosto mais visível do espírito imaterial dos mercados financeiros. Uma insurreição pacífica parece já não ser suficiente, nomeadamente quando a esperança de que fala Stéphane Hessel se encontra seriamente ameaçada pela ausência de horizontes. O Estado, essa identidade a quem confiamos a defesa dos nossos interesses, responde apenas à irritação dos mercados, fazendo orelhas moucas do desespero dos cidadãos. Está mais preocupado com a saúde dos mercados do que com a saúde, propriamente dita, das pessoas. Quando assim é, este “indignai-vos, mas com juizinho”, é simpático, mas manifestamente insuficiente. Uma nota final: o prefácio de Mário Soares, na edição portuguesa, era escusado e chega a ser indigno. Não por culpa do autor, mas da editora, a Objectiva, que aí encontrou um pretexto para rentabilizar um texto cuja função primordial não é contribuir para as finanças dos editores. A tradução é de Paula Centeno.
ÉRAMOS OS ELEITOS DO SOL
Éramos os eleitos do sol
E não nos demos conta
Fomos os eleitos da mais alta estrela
E não soubemos responder à sua dádiva
Angústia de impotência
A água amava-nos
A terra amava-nos
As selvas eram nossas
O êxtase era o nosso próprio espaço
O teu olhar era o universo frente a frente
A tua beleza era o som do amanhecer
A primavera amada pelas árvores
Agora somos uma tristeza contagiosa
Uma morte ant4es do tempo
A alma que não sabe em que lugar se encontra
O Inverno nos ossos sem qualquer relâmpago
E tudo isto porque não soubeste o que é a eternidade
Nem compreendeste a alma da minha alma no seu barco de trevas
No seu trono de águia ferida de infinito
Vicente Huidobro
Versão de HMBF
E não nos demos conta
Fomos os eleitos da mais alta estrela
E não soubemos responder à sua dádiva
Angústia de impotência
A água amava-nos
A terra amava-nos
As selvas eram nossas
O êxtase era o nosso próprio espaço
O teu olhar era o universo frente a frente
A tua beleza era o som do amanhecer
A primavera amada pelas árvores
Agora somos uma tristeza contagiosa
Uma morte ant4es do tempo
A alma que não sabe em que lugar se encontra
O Inverno nos ossos sem qualquer relâmpago
E tudo isto porque não soubeste o que é a eternidade
Nem compreendeste a alma da minha alma no seu barco de trevas
No seu trono de águia ferida de infinito
Vicente Huidobro
Versão de HMBF
sábado, 19 de março de 2011
O MEU PAI E EU
1.
Pai, és uma flor que brilha,
canta, fala e dança!
És um super-herói que me salva
até quando não podes arriscar!
És muito engraçado e feliz!
Hoje, neste dia, estou contigo
cheia de alegria para que fiques feliz!
2.
És um coração
que dança, fala e canta.
Sabes fazer muita coisa
e sabes muita coisa...
Hoje estou contigo
para que fiques feliz,
cheio de alegria e tão consolado.
Ilustração: Beatriz
Poema: Matilde
segunda-feira, 14 de março de 2011
A RESPOSTA AO PAULO TAVARES
No passado dia 8 deixei aqui um texto sobre o primeiro número da revista Agio. Dois dias depois, o Paulo Tavares e a Sara M. Felício, editores dessa mesma revista, deixaram o seguinte comentário ao meu texto: «Henrique, saindo um pouco da nossa postura quanto a comentar este tipo de crítica, gostaríamos de deixar aqui registado que consideramos este texto relativo à Agio superficial, redutor e repleto de anti-corpos que nada têm que ver com aquilo que, supostamente, deveria ser a análise da revista em si.» Concordei com a apreciação de superficialidade por ser um feroz militante da mesma, o que, de resto, me levou a simpatizar com o artigo de Jorge Martins Rosa, publicado nessa mesma revista, onde se cita Susan Sontag e o seu memorável Against Interpretation. É um defeito que vem de longe, culpa da formação filosófica, este de resistir à presunção de essências, númenos, verdades ocultas e reflexões sobre reflexões que não servem senão para exercitar o espírito dos homens. Prefiro uma lamentação dos índios da América do Norte a Que é Uma Coisa?, de Martin Heidegger - 230 páginas para nos dizer que uma coisa é uma coisa. Portanto, se me acusam de superficialidade recebo a acusação como um elogio. Nas profundezas da terra só conto parar quando estiver morto.
Quanto à questão de o texto revelar uma leitura redutora, já não posso estar de acordo. As leituras são o que são. Neste caso, a minha leitura, assumidamente superficial, não foi redutora, apenas e tão só procurou debruçar-se sobre um objecto onde não encontrou mais que pudesse ser dito do que aquilo que foi afirmado. Que mais haveria a dizer? Que gostei muito do poema do Miguel-Manso que já conhecia do livro Santo Súbito mas achei o original oferecido à revista absolutamente frívolo? Que os poemas do Nuno Dempster são excelentes e que eu espero daqui a dias não ser por ele envenenado numa refeição prometida? Que o ensaio do António Carlos Cortez é uma seca e o do Ricardo Marques está francamente mal escrito? Que os poemas da Soledade Santos estão para o espírito como as compotas que ela confecciona estão para o paladar? Que a entrevista ao Luís Lucas é papel desperdiçado? Enfim, tudo isto são opiniões que a gente pode ou não fundamentar. Num post é difícil sem ser fastidioso. E eu não quis ser fastidioso, quis ser prático. Por isso mesmo avanço para a acusação que não percebi, a acusação de o meu texto estar repleto de anti-corpos, a mesma que foi, entretanto, desenvolvida pelo Paulo Tavares no e-mail aqui reproduzido.
Se bem li o e-mail do Paulo, os anti-corpos explicam-se a partir da leitura que eu fiz da introdução dele ao primeiro número da Agio. Ora, deixem-me recordar o que eu disse a esse propósito:
Tratando-se de uma revista de literatura especialmente inclinada para um género literário, a poesia, subentende-se nas palavras de Paulo Tavares, senão a ambição, pelo menos o desejo de alargar o público da criação poética. Nada a contrapor. No entanto, na nota introdutória deste primeiro número, o mesmo Paulo Tavares afirma que «na génese da Agio não há uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo». Talvez fosse muito pedir tais custos, mas nunca é demais esperar de uma revista nova a ousadia de, pelo menos, propor algo de novo. E, nesse sentido, apenas nesse sentido, a Agio mostra-se, para já, algo débil e até previsível.
O que eu quero dizer com isto? Talvez mais ou menos o mesmo que Vicente Huidobro dizia quando afirmava o seguinte: Si no se ha de decir algo nuevo, no hay derecho para hacer perder tiempo al prójimo. O que tem a Agio que outras revistas não têm? Do meu ponto de vista, muito pouco. Repete a estrutura, não inova senão na divulgação de nomes menos divulgados, alguns dos quais das minhas afinidades electivas. Esse esforço é meritório, mas não é suficiente para a afirmação de uma publicação colectiva. O leitor exigente, e eu não me considero outra coisa, deve dizê-lo desassombradamente e pedir mais e melhor. O tom não é crítico, muito menos malicioso, como o Paulo sugere, é, antes pelo contrário, exigente. Toda a gente sabe, e eu sei-o por experiência própria e sinto-o todos os dias profissionalmente, que o mercado livreiro português fede de esterco publicado e até promovido na base exclusiva da boa camaradagem. Também toda a gente sabe que os critérios de exigência a nível nacional, neste como noutros domínios, são muito inferiores ao desejável. Menos gente saberá, porque também menos gente se interessará pelo assunto, que a poesia é um género particularmente ameaçado por essa situação. Portanto, todos os investimentos na sua divulgação, promoção, dilatação deverão merecer a nossa simpatia, mas jamais o nosso conformismo. Isso seria o pior de tudo. Cabe-nos um discurso exigente. E esse discurso, do meu ponto de vista, é o da ruptura, é o da desconstrução, tal como o entendo e não como, aqui e acolá, uns por ignorância, outros por implicação, outros por mera e incorrigível estupidez, ele vem sendo treslido.
Quem tenha lido O Meu Cinzeiro Azul saberá o que penso sobre todos estes assuntos. O intróito das Estórias Domésticas também afirma alguma coisa sobre o tema e as Estranhas Criaturas são (des)construções poéticas em prosa do que aqui estamos a falar. Quem não tenha perdido tempo com esses livros, tem a hipótese de percorrer centenas de posts aqui antologiados (este weblog tem cerca de 3250 entradas) onde, ao contrário do que o Paulo afirma, eu não me limito a valorizar o que ele considerará de dúbio mérito literário, mas ouso na afirmação de um homem com frio, esse homem que procura algo mais do que o conforto imediato da aceitação dos seus pares, os quais adoptam recorrentemente o discurso vazio da inutilidade da poesia, ainda que a escrevam, a publiquem e até se arroguem em criticar a dos outros, tanto quanto vão sublinhando a inutilidade da vida, a deles, sem que se dêem ao simples denodo de espetarem um tiro nos cornos. Para mim é uma questão de coerência, escolhi a via solitária e burguesa e nela hei-de caminhar folgazão até ao fim da vida. Desprezo as academias, evito as congregações e sinto-me como peixe na água na minha própria asma.
Não havendo na Agio uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo, há algo que, está visto, nos liga. E talvez por nos ligar me decepcionou neste primeiro número. Quem tenha lido Revistas Literárias do Século XX em Portugal saberá que uma revista não é só um esforço de divulgação da poesia, perceberá que Orpheu, Presença, entre outras publicações, foram muito mais do que esse simpático esforço. Foram publicações que geraram tensões, contribuíram para uma dinâmica que é a dinâmica da ruptura dos paradigmas, não com o pressuposto de se instalarem enquanto novo paradigma, mas com a vontade de fazerem a produção poética caminhar, pelo risco das ideias, dos manifestos, da afirmação estética, na direcção de um futuro que não se pode resumir a esta modorra entediante do toma lá uns poemas, uns ensaios e umas entrevistas. A afirmação do novo começa, precisamente, na renúnica à novidade, esse triste corolário de um capitalismo que tudo perverte e conspurca com os seus interesses mais ou menos objectivos. Felizmente, não resvala a Agio para os trilhos pantanosos da auto-promoção, como acontece com outras publicações. Ainda assim, o remate parece-me paradigmático:
A Agio surge assim, finalmente, como uma publicação situada nas margens, mas com o propósito de contribuir, à sua medida, que será sempre definida pelos seus leitores, para a dilatação dessas margens.
Nas margens andamos todos, meu caro Paulo Tavares. Uns descalços, outros de chinelos, outros de sapatos Prada.
Quanto à questão de o texto revelar uma leitura redutora, já não posso estar de acordo. As leituras são o que são. Neste caso, a minha leitura, assumidamente superficial, não foi redutora, apenas e tão só procurou debruçar-se sobre um objecto onde não encontrou mais que pudesse ser dito do que aquilo que foi afirmado. Que mais haveria a dizer? Que gostei muito do poema do Miguel-Manso que já conhecia do livro Santo Súbito mas achei o original oferecido à revista absolutamente frívolo? Que os poemas do Nuno Dempster são excelentes e que eu espero daqui a dias não ser por ele envenenado numa refeição prometida? Que o ensaio do António Carlos Cortez é uma seca e o do Ricardo Marques está francamente mal escrito? Que os poemas da Soledade Santos estão para o espírito como as compotas que ela confecciona estão para o paladar? Que a entrevista ao Luís Lucas é papel desperdiçado? Enfim, tudo isto são opiniões que a gente pode ou não fundamentar. Num post é difícil sem ser fastidioso. E eu não quis ser fastidioso, quis ser prático. Por isso mesmo avanço para a acusação que não percebi, a acusação de o meu texto estar repleto de anti-corpos, a mesma que foi, entretanto, desenvolvida pelo Paulo Tavares no e-mail aqui reproduzido.
Se bem li o e-mail do Paulo, os anti-corpos explicam-se a partir da leitura que eu fiz da introdução dele ao primeiro número da Agio. Ora, deixem-me recordar o que eu disse a esse propósito:
Tratando-se de uma revista de literatura especialmente inclinada para um género literário, a poesia, subentende-se nas palavras de Paulo Tavares, senão a ambição, pelo menos o desejo de alargar o público da criação poética. Nada a contrapor. No entanto, na nota introdutória deste primeiro número, o mesmo Paulo Tavares afirma que «na génese da Agio não há uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo». Talvez fosse muito pedir tais custos, mas nunca é demais esperar de uma revista nova a ousadia de, pelo menos, propor algo de novo. E, nesse sentido, apenas nesse sentido, a Agio mostra-se, para já, algo débil e até previsível.
O que eu quero dizer com isto? Talvez mais ou menos o mesmo que Vicente Huidobro dizia quando afirmava o seguinte: Si no se ha de decir algo nuevo, no hay derecho para hacer perder tiempo al prójimo. O que tem a Agio que outras revistas não têm? Do meu ponto de vista, muito pouco. Repete a estrutura, não inova senão na divulgação de nomes menos divulgados, alguns dos quais das minhas afinidades electivas. Esse esforço é meritório, mas não é suficiente para a afirmação de uma publicação colectiva. O leitor exigente, e eu não me considero outra coisa, deve dizê-lo desassombradamente e pedir mais e melhor. O tom não é crítico, muito menos malicioso, como o Paulo sugere, é, antes pelo contrário, exigente. Toda a gente sabe, e eu sei-o por experiência própria e sinto-o todos os dias profissionalmente, que o mercado livreiro português fede de esterco publicado e até promovido na base exclusiva da boa camaradagem. Também toda a gente sabe que os critérios de exigência a nível nacional, neste como noutros domínios, são muito inferiores ao desejável. Menos gente saberá, porque também menos gente se interessará pelo assunto, que a poesia é um género particularmente ameaçado por essa situação. Portanto, todos os investimentos na sua divulgação, promoção, dilatação deverão merecer a nossa simpatia, mas jamais o nosso conformismo. Isso seria o pior de tudo. Cabe-nos um discurso exigente. E esse discurso, do meu ponto de vista, é o da ruptura, é o da desconstrução, tal como o entendo e não como, aqui e acolá, uns por ignorância, outros por implicação, outros por mera e incorrigível estupidez, ele vem sendo treslido.
Quem tenha lido O Meu Cinzeiro Azul saberá o que penso sobre todos estes assuntos. O intróito das Estórias Domésticas também afirma alguma coisa sobre o tema e as Estranhas Criaturas são (des)construções poéticas em prosa do que aqui estamos a falar. Quem não tenha perdido tempo com esses livros, tem a hipótese de percorrer centenas de posts aqui antologiados (este weblog tem cerca de 3250 entradas) onde, ao contrário do que o Paulo afirma, eu não me limito a valorizar o que ele considerará de dúbio mérito literário, mas ouso na afirmação de um homem com frio, esse homem que procura algo mais do que o conforto imediato da aceitação dos seus pares, os quais adoptam recorrentemente o discurso vazio da inutilidade da poesia, ainda que a escrevam, a publiquem e até se arroguem em criticar a dos outros, tanto quanto vão sublinhando a inutilidade da vida, a deles, sem que se dêem ao simples denodo de espetarem um tiro nos cornos. Para mim é uma questão de coerência, escolhi a via solitária e burguesa e nela hei-de caminhar folgazão até ao fim da vida. Desprezo as academias, evito as congregações e sinto-me como peixe na água na minha própria asma.
Não havendo na Agio uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo, há algo que, está visto, nos liga. E talvez por nos ligar me decepcionou neste primeiro número. Quem tenha lido Revistas Literárias do Século XX em Portugal saberá que uma revista não é só um esforço de divulgação da poesia, perceberá que Orpheu, Presença, entre outras publicações, foram muito mais do que esse simpático esforço. Foram publicações que geraram tensões, contribuíram para uma dinâmica que é a dinâmica da ruptura dos paradigmas, não com o pressuposto de se instalarem enquanto novo paradigma, mas com a vontade de fazerem a produção poética caminhar, pelo risco das ideias, dos manifestos, da afirmação estética, na direcção de um futuro que não se pode resumir a esta modorra entediante do toma lá uns poemas, uns ensaios e umas entrevistas. A afirmação do novo começa, precisamente, na renúnica à novidade, esse triste corolário de um capitalismo que tudo perverte e conspurca com os seus interesses mais ou menos objectivos. Felizmente, não resvala a Agio para os trilhos pantanosos da auto-promoção, como acontece com outras publicações. Ainda assim, o remate parece-me paradigmático:
A Agio surge assim, finalmente, como uma publicação situada nas margens, mas com o propósito de contribuir, à sua medida, que será sempre definida pelos seus leitores, para a dilatação dessas margens.
Nas margens andamos todos, meu caro Paulo Tavares. Uns descalços, outros de chinelos, outros de sapatos Prada.
A RESPOSTA DO PAULO TAVARES
O Paulo Tavares, co-editor da revista Agio, fez o favor de responder por e-mail a este meu post. Porque considero o texto honesto e inteligente, deixo-o aqui em jeito de direito de resposta. Conto replicá-lo lá mais para o final do dia. Penso que pode estar aqui um bom contributo para um debate que, a meu ver, não só está por realizar como me parece estimulante. A poesia merece tudo menos a letargia dos consensos e esta irritante fuga à discussão a que se vem assistindo, cujo efeito mais eloquente é uma completa falta de sintonia com os tempos que estamos a viver.
Bom dia, Henrique.
Os anti-corpos que referimos são os de alguém que, no seu blogue e nos seus textos, tem vindo a deixar vincada a necessidade do “novo”, do “alternativo” e da “ruptura”, mas que, detendo-se regularmente apenas na superfície de tais noções/configurações, não tem ido (porque não consegue ou porque não quer) mais além dessa superficialidade, valorizando muitas vezes livros/publicações que apenas aparentam tal diferença, mas de dúbios méritos literários, e criticando outras que não declaram ou não apresentam abertamente essa pose do “alternativo dentro do alternativo”, ou, por outras palavras, do movimento histórico de anti-literatura e de anti-academismo.
Dou um exemplo relativamente a essa acusação dos anti-corpos:
Na citação que fazes do editorial, “Na génese da Agio não há uma ideia de ruptura a todo o custo”, o “a todo o custo” serviu-te apenas para que reduzisses o editorial a uma coisa patética, “Talvez fosse muito pedir tais custos,…” (é muito ver aqui inclusive uma ponta de malícia?), sem sequer considerares que talvez no final desta frase, articulando-a com o que se diz no resto do editorial, reside efectivamente uma ideia contrária a essa busca contemporânea do novo pelo novo e à necessidade da “estrela única, do salvador de uma geração, da voz que a congrega” . Não sei que outro tipo de ousadia é mais consequente do que esta, que apresenta uma perspectiva contrária (sem ser pomposa) e que remete para aquilo que realmente interessa: os textos que compõem a revista.
É claro, por isso, que não nos revejo num dos teus comentários em que falas também de “falta de espírito crítico”.
Gostava que soubesses, ainda, que os “custos” relativos a tornar possível esta publicação são efectivamente muitos e elevados (e não me centro no factor financeiro).
Quanto à tua posterior resposta de que o teu texto “é um post, não pretende analisar nada nem procura ser crítico”, julgo que, para quem é tão mordaz quando lhe apresentam argumentação deste tipo falacioso, deveria haver da tua parte um pouco mais de reflexão antes de fazeres o mesmo. Para todos os efeitos, apresentas a formulação de um juízo, povoado de expressões como “débil”, “previsível”, “convencional”, “monótona”, etc. Tudo muito bem, é a tua opinião (contra a qual não tenho, por regra, a tentação de me manifestar), mas, neste caso, e por tudo aquilo que disse anteriormente, sentimos que deveria ser resposta alguma justiça (penso que a palavra não é exagerada) nessa entrada do teu blogue.
Paulo
PS: É apenas um pormenor no meio disto, mas peço-te que alteres uma imprecisão inicial no teu texto: A Artefacto não é patrocinada pela SI Guilherme Cossoul, é a vertente editorial da SI Guilherme Cossoul (e conta - talvez daí a confusão - com um pequeno apoio da Fundação C. Gulbenkian).
Bom dia, Henrique.
Os anti-corpos que referimos são os de alguém que, no seu blogue e nos seus textos, tem vindo a deixar vincada a necessidade do “novo”, do “alternativo” e da “ruptura”, mas que, detendo-se regularmente apenas na superfície de tais noções/configurações, não tem ido (porque não consegue ou porque não quer) mais além dessa superficialidade, valorizando muitas vezes livros/publicações que apenas aparentam tal diferença, mas de dúbios méritos literários, e criticando outras que não declaram ou não apresentam abertamente essa pose do “alternativo dentro do alternativo”, ou, por outras palavras, do movimento histórico de anti-literatura e de anti-academismo.
Dou um exemplo relativamente a essa acusação dos anti-corpos:
Na citação que fazes do editorial, “Na génese da Agio não há uma ideia de ruptura a todo o custo”, o “a todo o custo” serviu-te apenas para que reduzisses o editorial a uma coisa patética, “Talvez fosse muito pedir tais custos,…” (é muito ver aqui inclusive uma ponta de malícia?), sem sequer considerares que talvez no final desta frase, articulando-a com o que se diz no resto do editorial, reside efectivamente uma ideia contrária a essa busca contemporânea do novo pelo novo e à necessidade da “estrela única, do salvador de uma geração, da voz que a congrega” . Não sei que outro tipo de ousadia é mais consequente do que esta, que apresenta uma perspectiva contrária (sem ser pomposa) e que remete para aquilo que realmente interessa: os textos que compõem a revista.
É claro, por isso, que não nos revejo num dos teus comentários em que falas também de “falta de espírito crítico”.
Gostava que soubesses, ainda, que os “custos” relativos a tornar possível esta publicação são efectivamente muitos e elevados (e não me centro no factor financeiro).
Quanto à tua posterior resposta de que o teu texto “é um post, não pretende analisar nada nem procura ser crítico”, julgo que, para quem é tão mordaz quando lhe apresentam argumentação deste tipo falacioso, deveria haver da tua parte um pouco mais de reflexão antes de fazeres o mesmo. Para todos os efeitos, apresentas a formulação de um juízo, povoado de expressões como “débil”, “previsível”, “convencional”, “monótona”, etc. Tudo muito bem, é a tua opinião (contra a qual não tenho, por regra, a tentação de me manifestar), mas, neste caso, e por tudo aquilo que disse anteriormente, sentimos que deveria ser resposta alguma justiça (penso que a palavra não é exagerada) nessa entrada do teu blogue.
Paulo
PS: É apenas um pormenor no meio disto, mas peço-te que alteres uma imprecisão inicial no teu texto: A Artefacto não é patrocinada pela SI Guilherme Cossoul, é a vertente editorial da SI Guilherme Cossoul (e conta - talvez daí a confusão - com um pequeno apoio da Fundação C. Gulbenkian).
sábado, 12 de março de 2011
VICENTE HUIDOBRO
A POESIA É UM ATENTADO CELESTE
Eu estou ausente mas no fundo desta ausência
Está a espera de mim mesmo
E esta espera é outra forma de presença
A espera do meu regresso
Eu estou noutros objectos
Ando em viagem dando um pouco da minha vida
A certas árvores e a certas pedras
Que por mim esperaram muitos anos
Cansaram-se de me esperar e sentaram-se
Eu não estou e estou
Estou ausente e estou presente em estado de espera
Eles queriam a minha linguagem para se expressar
E eu queria a deles para expressá-los
Eis aqui o equívoco o atroz equívoco
Angustiante lamentável
Vou penetrando estas plantas
Vou largando as minhas roupas
Vão-me caindo as carnes
E o meu esqueleto vai revestindo-se de cascas
Estou a transformar-me numa árvore Quantas vezes dei por mim convertendo-me noutras coisas
É doloroso e cheio de ternura
Poderia dar um grito mas espantaria a transubstanciação
Há que guardar silêncio Esperar em silêncio
De Últimos Poemas (1948)
IMPOSSÍVEL
Impossível saber quando adormeceu esse recanto da minha alma
E quando voltará a tomar partido nas minhas festas íntimas
Ou se esse troço partiu para sempre
Ou sequer se foi roubado e se se encontra integrado num outro
Impossível saber se dentro do teu ser a árvore primitiva ainda sente o vento milenário
Se tu recordas o canto da mãe quaternária
E os grandes gritos do teu espanto
E a voz soluçante do oceano que acabava de abrir os olhos
E agitava as mãos e chorava no berço
Não precisamos de tantos horizontes para viver
As cabeças de papoila que devorámos sofrem por nós
A minha amendoeira fala por uma parte de mim mesmo
Eu estou perto e estou longe
Tenho épocas centenárias na minha breve idade
Tenho milhares de léguas no meu ser profundo
Cataclismos da terra acidentes planetários
E algumas estrelas de luto
Lembras-te quando eras um som entre as árvores
E quando eras um pequeno raio vertiginoso?
Agora temos a memória demasiado carregada
As flores das nossas orelhas empalidecem
Às vezes vejo reflexos de penas no meu peito
Não me olhes com tantos fantasmas
Quero dormir quero ouvir novamente as vozes perdidas
Como os cometas que passaram para outros sistemas
Onde estávamos? Em que luz em que silêncio?
Aonde estaremos?
Tantas coisas tantas coisas tantas coisas
Eu sopro para apagar os teus olhos
Lembras-te quando eras um suspiro entre dois ramos?
Vicente Huidobro
La Nación, Buenos Aires, 1932
Versão de HMBF
O MEU CORAÇÃO NÃO CHEGA PARA TANTO
Estimado Van Zeller, tenho apreciado as múltiplas intervenções do Jel. Ontem ouvi-o citar Milton,Voltaire e mais uns quantos no não-censurado programa do Mário Crespo. Também o ouvi dizer que, embora tivesse vestido a camisola da manifestação dos parvos, não era parvo nenhum, que até estudava umas coisas e sabia outras tantas. A mensagem era: vamos para a rua, deixemos o ódio e o ressentimento em casa, vamos fazer da luta uma alegria e vamos disseminar o amor pelas esquinas da cidade e vamos mudar isto de baixo para cima, vamos partir para um novo paradigma. Pelos vistos, a mensagem colheu. Um grupo de skinheads juntou-se à marcha envergando bandeiras negras. Cito o Público: Questionados pelos jornalistas sobre que movimento representavam, limitaram-se a dizer: "somos nacionalistas”. Este grupo acabou por entrar na coluna da manifestação sem problemas. Ora, o meu coração e a minha capacidade de amar não chega para tanto. É por isso que confesso um problema insanável com os paradigmas apregoados pelo Jel e por outros que usam e abusam do termo. Sempre que ouço a malta dizer paradigma fico arrepiado, penso em Thomas Kuhn, que também não sou parvo nenhum, e convenço-me de que, afinal, estamos em tensão, os paradigmas não passam de meros momentos de descanso na contínua revolução do mundo. Que o novo paradigma seja um protesto pacífico onde ao lado de nacionalistas marcham comunistas e ao lado de comunistas marcham anarquistas e ao lado de anarquistas marcham libertários e ao lado de libertários marcham liberais e ao lado de liberais marcham democratas é coisa bonita de se ver, chega até a ser comovente, mas não me demove de um cepticismo incurável para com as putativas virtudes da humanidade. A mensagem do Jel é positiva, é alegre, vem nos livros de auto-ajuda, não propõe nada que possa vir a sustentar uma sociedade inteira. A vida na cidade é mais complexa do que as legítimas aspirações de cada um dos cidadãos permite prever. Veja-se o estado em que estamos neste preciso momento: um Governo ameaçado pela susceptível e abstracta figura dos mercados toma medidas que toda a gente diz há muito deviam ter sido tomadas. Toda a gente excepto os afectados, que ainda há pouco haviam transformado Medina Carreira num bestseller e estrela de TV, alguém que defende o triplo da austeridade que o Governo está disposto a implementar. Viram-se para onde? Para a ilegitimidade de uma austeridade monocórdica e unilateral. Afinal, são sempre os mesmos a pagar a crise. E são mesmo. O problema é que são esses mesmos que há 36 anos de democracia distribuem responsabilidades de governação por dois partidos de nefelibatas, arrivistas e nepotistas, com homens como Cavaco na cabeça do poder. Portanto, tudo isto mais não é do que a expressão da vergonha que os portugueses deviam sentir sobre si próprios. Contra isto, não há rua, amor, alegria ou luta que valha. Só mesmo uma vaga de gente enraivecida. De preferência sem racistas pelo meio.
quarta-feira, 9 de março de 2011
FAMÍLIA
O que se passa cá dentro não deve passar lá para fora. E assim se defendem as maiores vigarices.
CARNAVAL
Camarada Van Zeller, hoje dirijo-me-lhe na qualidade de elemento pertencente a essa terrível geração que ficou classificada de rasca para a história recente do meu país. Quem for melhor que atire a primeira pedra. Talvez o Vicente, a barata tonta que assim nos rotulou para mais tarde vir declarar que entre as várias asneiras na vida que cometeu a de ser deputado pelo PS foi a maior de todas. Eu andei nas primeiras fileiras das barricadas contra a PGA, levei com um cacete nas trombas, fiz a Prova e aprendi o significado da palavra misantropo. Depois entrei no mercado de trabalho. Devo dizer que foi o pior erro que cometi na vida e estou mesmo convencido de que ser deputado do PS não teria sido pior. Trabalhei durante 10 anos a recibos verdes, cumprindo horários, marcando presença em reuniões obrigatórias, planificando acções de formação e aulas. Fi-lo na plena consciência de que estava a ser explorado, mas carregar com baldes de cimento às seis da manhã nunca me pareceu solução vantajosa. Ademais, acrescente-se que o fiz para uma instituição de caridade sem fins lucrativos. A Igreja Católica Apostólica Romana não é outra coisa. Se trabalhei para eles, ou para uma escola deles, nessas possíveis condições, foi porque eles mais não podiam proporcionar-me. E muito preocupados estavam com o meu futuro, a minha família e a estabilidade social das pessoas em geral (quando me propuseram fazer o mesmo nas instalações da CGTP as condições não eram diferentes, mas as salas eram mais frias). Pelo que sei, com o passar dos anos, a péssima gestão de um indivíduo sem escrúpulos levou a escola à falência. A ICAR, preocupada com a família da nobre criatura, encarregou-se de lhe arranjar novo pousio. Não me consta que alguma vez tenha sido incompetente a recibos verdes. Agora uma geração depois da minha, dita à rasca, o que denota progresso e evolução, pois de simplesmente rasca para comovidamente à rasca vai uma considerável melhoria, vem manifestar-se por ter licenciaturas que para nada servem, por ser precária e flexível, por andar com o pescoço pendurado à verdura dos recibos. Estou solidário com todos eles e acho que fazem muito bem em manifestar-se. Só peço que o façam longe da Rua José Tanganho, que eu ando muito sensível ao ruído e com os sonos perturbados. O mais é o que vossa excelência sabe, hoje esteve um belo feriado de trabalho. A ordenado mínimo e prestigiosa licenciatura. Valha-nos isso.
terça-feira, 8 de março de 2011
AGIO
A organização dos conteúdos é claramente convencional. Um primeiro conjunto com poemas de autores da casa (Sara M. Felício, Soledade Santos, Hugo Milhanas Machado, Daniel Francoy, Luís Felício) em ameno convívio com poetas de algum modo reconhecíveis (Miguel-Manso, Nuno Dempster, Margarida Ferra) e outros não tão badalados (João Silveira, Gabriel Machado, Luís Norte Lucas, Adair Carvalhais Júnior e Joel Henriques). Segue-se um conjunto de ensaios (talvez fosse mais adequado chamar artigo ao texto de Jorge Martins Rosa) e, a finalizar, duas entrevistas: a primeira a um dezedor, a segunda a um poeta. Mesmo deixando de lado a estrutura monótona, torna-se evidente que para não ser mais do mesmo a Agio terá de evoluir numa outra direcção, porventura mais destemida e afirmativa. Já vai sendo tempo de aparecer algo com o propósito da novidade e da ruptura.
Havendo diferentes pontos de interesse em cada uma das secções, cabe-nos chamar a atenção para os poemas de Sara M. Felício, dos quais Aos Poucos a Vida é um excelente exemplo de uma poesia ponderada sem o fastio da prostração reflexiva nem o contorcionismo de pueris efeitos irónicos tão em voga na actualidade. De Soledade Santos, Still Life With Cat e Não Sou Paciente são surpreendentes rasgões na sobriedade que caracteriza o tom geral do primeiro livro, Sob os teus pés a terra. Vale a pena citar o primeiro:
STILL LIFE WITH CAT
Passa uma musiquinha triste
na rádio. A gata dorme — o aconchego
da melodia casa vazia
uma cesta e o girassol amarelo
é quanto lhe basta para ser feliz.
Eu não me contento com tão pouco,
um girassol amarelo a musiquinha
uma cesta, tem mais do que eu
a gata, não espera nada e tem
me a mim também.
No campo do ensaio pouco há a reter. O texto de Ricardo Marques, intitulado Realidade, Linguagem e O(u)tras Sentimentalidades, limita-se a revisitar alguma da poesia espanhola do séc. XX sem verdadeiramente fazer aquilo a que se propõe: perceber as ideias, as diferenças e as semelhanças que Espanha e Portugal apresentaram no decorrer do século passado. António Carlos Cortez oferece-nos uma conferência proferida no âmbito do Ciclo Imagem e Pensamento II — Pierre Klossowski e os Poderes da Imagem (29 de Maio de 2010), onde a poesia de Césario Verde é lida à luz da obra pictórica do artista francês. Exercício exegético algo fastidioso, apoiado nos estudos de Helder Macedo, que mais facilmente espanta o público da poesia do que o cativa. Bem diferente é o artigo de Jorge Martins Rosa, chegando inclusive a contrastar com a prosa anterior na sua defesa de uma literatura menosprezada e dita não-erudita, ou escapista, por ainda não ter tido tempo para cair nas graças da academia.
A fechar, as entrevistas. Luís Lucas e Luís Quintais falam dos seus percursos. Um como leitor de poesia, o outro como poeta. A entrevista a Luís Quintais é um momento interessante de argúcia na análise sumária que o poeta faz sobre a actualidade - «Os mais novos parecem-me quase todos iguais» -, assim como uma rara demonstração de sentido autocrítico - «A Imprecisa melancolia, o meu livro de estreia, é um belo livro». E mais não se pode concluir: «A poesia é inútil, como se sabe. Isso agrada-me». Palavra do poeta.
POLÍTICA DE SUCESSO
Terminado o debate, pressentidas as consequências, rapidamente se concluiu que, por estes tempos, a única licenciatura em que valia a pena investir para uma carreira profissional de sucesso era a Licenciatura em Conquistar Simpatias. É sucesso garantido.
SÓ
Só só entre a noite e a morte
Andando no meio da eternidade
Comendo fruta no meio do vazio
A noite A morte
O morto recém-plantado no infinito
A terra vai a terra volta
Só com uma estrela pela frente
Só com um grande canto dentro e nenhuma estrela pela frente
A noite e a morte
A noite da morte
A morte da noite rondando pela morte
Tão longe tão longe
O mundo é levado pelo vento
E um cão uiva do infinito em busca da terra perdida
Vicente Huidobro
La Nación, Buenos Aires, 1932
Versão de HMBF
Andando no meio da eternidade
Comendo fruta no meio do vazio
A noite A morte
O morto recém-plantado no infinito
A terra vai a terra volta
Só com uma estrela pela frente
Só com um grande canto dentro e nenhuma estrela pela frente
A noite e a morte
A noite da morte
A morte da noite rondando pela morte
Tão longe tão longe
O mundo é levado pelo vento
E um cão uiva do infinito em busca da terra perdida
Vicente Huidobro
La Nación, Buenos Aires, 1932
Versão de HMBF
segunda-feira, 7 de março de 2011
HOMENS DA LUTA
Os homens da luta têm piada. Tinham mais, no início; como tudo o que se repete, o que é demais enjoa. Não há que fazer ciência acerca do fenómeno. Corremos o risco de cair no mesmo erro gerado por meteoritos humorísticos anteriores, do Herman da Última Ceia aos Gato Fedorento do Marcelo pró-vida. Não esperem milagres de quem só busca o seu pilim. Quanto a votações em concursos de TV estamos falados, o povo tanto vota no Salazar para figura portuguesa de sempre como nos Homens da Luta para palhaços do circo actual. Ainda há dias o povo podia ter dado expressão à luta votando massivamente em branco ou nulo ou no Coelho... O povo preferiu ficar em casa. É sempre assim quando o assunto é sério.
sábado, 5 de março de 2011
ERA DE FAMÍLIA
Pierre Klossowski (August 9, 1905—August 12, 2001) was a French writer, translator and artist. He was the eldest son of the artists Erich Klossowski and Baladine Klossowska, and his younger brother was the painter Balthus.
terça-feira, 1 de março de 2011
PUBLICIDADE
Recebo na solicitação publicitária a seguinte consideração: «o blogue "Antologia do Esquecimento" é uma referência a nível nacional». Outros terão recebido o mesmo que eu. Sucede que eu fico deprimido com tais considerações. Ainda ontem, passando os olhos pelo Prós & Contras, eu só pensava por que me castigou deus nosso senhor fazendo-me cidadão português. Referência a nível nacional? Preferia apanhar gonorreia.
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