domingo, 29 de maio de 2011

BIUTIFUL




Toda a gente conhece o mistério das baleias mortas: dão à costa, em grande número, sem razão aparente. Há quem garanta tratar-se de uma inexplicável forma de suicídio colectivo. Talvez pretendam morrer em terra, fazer da terra o seu cemitério, como os elefantes regressados, no termo da vida, ao ponto onde todas as manadas se encontram. Da última vez que estive em Barcelona vi por lá alguns desses elefantes. Vendiam produtos contrafeitos em sacos-rede estrategicamente preparados para a fuga. Com os olhos agitados na paisagem ameaçadora, puxavam rapidamente os sacos às costas e desatavam a correr na direcção contrária à da polícia. Quando for para morrer, se houver tempo, regressarão ao cemitério onde nasceram. E o cemitério tanto pode ser o Senegal como a China, terreno fértil em mortos. Por vezes não há tempo para o regresso, arrasta-se o mistério da morte pela vida até que a hora chegue. Se fosses informado de que te restam dois a três meses, o que farias nesses dias de sobra? Provavelmente procurarias evitar os açaimes da existência, tratarias de arrumar a vida para que o corpo pudesse seguir em paz. Não há imagem mais cómica, dizia Lowry, do que a de alguém a fazer a barba a um morto. Não deve haver imagem mais trágica do que a de um morto a tentar arrumar a sua própria vida.

UM PREFÁCIO PARA ONTEM


Amadeu Baptista
Outros Domínios
(Clamor por Florbela Espanca)
Prémio Literário Florbela Espanca, 2007
2.ª edição
Temas Originais
2011


Prefácio: Um Prefácio Para Ontem

sexta-feira, 27 de maio de 2011

OBRA DE ARTE

A história de um romance tornado obra de uma vida, um intrincado processo de montagem sujeito a múltiplas versões, a busca da perfeição nos interstícios de um inferno pessoal marcado por separações, crises psicológicas, vício alcoólico, amores impossíveis, tragédias domésticas, penúria e alucinação. No termo da sanidade, a forma como Malcolm Lowry se entrega à defesa da sua obra, em carta dirigida ao editor, é pungente. Lá do México, onde vivia em 1946, encarrega-se de explicar, capítulo a capítulo, o inexplicável. Admite cortes, falhas, aceita críticas, mas não verga a uma leitura que parece pretender exigir-lhe o que ele jamais pretendeu escrever. Todos os capítulos submetidos à prova de uma leitura em alta voz, assim como à prova de uma releitura íntima e distanciada, com as personagens a serem reduzidas à dimensão de um pormenor. Porque ali está algo mais, está a vida balanceada entre o paraíso e o inferno. O mais é isto:

O romance pode ser lido apenas como uma história que nos permite saltar páginas, se quisermos. Pode ser considerado uma espécie de sinfonia ou, sob outro ponto de vista, uma espécie de ópera − ou mesmo ópera de aventuras. É jazz, um poema, uma canção, uma tragédia, uma comédia, uma farsa, e por aí fora. É superficial, profundo, empolgante e chato à vontade de cada qual. É uma profecia, uma advertência política, um criptograma, um filme absurdo e uma frase escrita numa parede. Pode mesmo ser considerado uma espécie de máquina que também trabalha, acredite, como vim a verificar. No caso de achar que faço dele tudo menos um romance, melhor será dizer-lhe que não só pretende, ao fim e ao cabo, ser um romance, como um romance − seja embora eu próprio a dizê-lo − profundamente sério. Mas também exijo que seja obra de arte um tanto diferente daquela que o senhor suspeitaria que fosse, e também mais lograda, ainda que em função das suas próprias leis.

Quem é que ainda espera isto de um romance?

O SOM A CASA

O desafio que se nos coloca quando não gostamos de um livro é tentar percebê-lo, ao livro e ao que falhou na comunicação entre o objecto e nós que com ele perdemos algum do nosso tempo. Há inúmeras razões para que essa relação falhe, umas por incompetência do sujeito, outras por defeito do objecto. Podemos partir do princípio que aquilo a que chamamos “defeito do objecto” resulta já de uma construção do sujeito e da sua incapacidade para vislumbrar nesse objecto em particular as virtudes por outros vislumbradas. Admitamos que assim seja. Nesse caso, e porque falamos da relação entre um livro e um leitor, os livros serão sempre o que são, os seus atributos dependerão da capacidade dos leitores. Em última análise, não existem maus livros; existem maus leitores. Isto faz sentido, mesmo quando falamos dessa arte literária onde tudo é possível e nada é inadmissível? Não me parece justo que se coloque o ónus desta relação apenas sobre o sujeito/leitor. Se é verdade que um livro não pode ser comparável a um instrumento cuja qualidade é avaliável em função da sua utilidade prática, também não deixa de ser verdade que facilmente reconhecemos a certos livros méritos que, por mais que nos esforcemos, não conseguimos encontrar noutros. o som a casa (Artefacto, Dezembro de 2010), de Luís Felício (n. 1982), tem a priori o mérito de haver vencido o Concurso Literário Artefacto − Poesia (2010). Portanto, alguém reconheceu a esta obra méritos que, certamente por incompetência pessoal, eu não consigo reconhecer. Organizado em sete secções (número cabalístico), às quais correspondem um poema subdividido em partes diversas, o som a casa está escrito naquele estilo enigmático que Herberto Helder consagrou e umas largas centenas de poetas depois dele banalizaram. Como muitas vezes acontece, a poesia é aqui o centro das atenções. Não a poesia enquanto matéria analisável, mas a poesia enquanto território cuja fonte se pretende decifrar. A poética da primeira secção procura distanciar-se dos ismos em vigor na actualidade, optando por uma reafirmação da metáfora e por um discurso imagético capaz de atribuir ao pó a natureza de uma flor e efervescência às elipses. A figura do anjo que logo ali aparece, e se prolonga esparsamente, parece-me algo débil para tão custoso intento. E se quase sempre os versos nos soam pretensiosos − «poema: escarlate e pétrea geografia do tumulto, / vertical ascese lunar da sombra e da água negra…» (p. 15) −, não podemos negar que quando a água se aclara tudo toma um outro sentido: «apenas posso cantar as imagens, apenas posso cantar / imagens de imagens; tão-só posso cantar o invisível movimento das imagens» (p. 18). No entanto, a preocupação desta poesia não está no sentido. Está em libertar a escrita do corpo e deixá-la fluir sem amarras de sentido. Ou, pelo menos, está em tentar perceber se isso é possível. Esta demanda de uma poesia fiel à mais mental das suas condições, aquela onde som e imagem se fundem para lá do significado, leva o poeta a questionar-se sobre um tempo anterior aos nomes, sobre uma infância posterior ao som, sobre uma pureza que coincide com o acto de respirar e que, de algum modo, reflecte a linguagem enquanto fonte de poesia. O som, no sentido de vibração, será a casa. Pois bem: terá casa o som? Portanto, o que aqui temos é uma poesia a investigar-se a si própria, a procurar entender-se nos limites da sua imaterialidade, é uma poesia enrolada na força da linguagem. Que o faça resvalando num recital que raramente resiste à tentação de uma maçadora impermeabilidade, oferecendo aos versos uma música composta por assonâncias e ressonâncias gastas e previsíveis, só é revelador de uma dificuldade existente na moderna poesia portuguesa: a de ser reflexiva sem se fechar ao leitor, a de ser mental sem ser ensimesmada, a de ser vertiginosa sem sofrer de vertigens.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

LA COCA

Publicado inicialmente na Holanda, em 1994, La Coca mereceu uma primeira edição portuguesa, com o título castelhano vertido para a língua de Camões − A Coca −, seis anos depois. Coube a atenção à Editorial Escritor. Os dados estão disponíveis no sítio do autor. Mais recentemente, a Quetzal redescobriu a prosa de J. Rentes de Carvalho (n. 1930) e deu início a um processo de reedição das suas obras. La Coca reaparece agora (Março de 2011) como se nem um grama de tempo tivesse passado sobre ele. Nunca é demais referir este percurso, singular no caso português, até para que o mesmo possa vir a ser pensado e ponderado no futuro. Durante várias décadas, este autor esteve praticamente ausente do convívio com os leitores do seu país de origem. Desatenção? Sonolência? Desleixo? Talvez o tempo se encarregue de clarear os trilhos desta obra, a qual, curiosamente, mantém com esse mesmo tempo uma relação complexa. Ressalvando a subjectiva importância dos factos, a verdade é que La Coca desafia, pela sua estrutura e conteúdo, a classificação de romance que lhe aparece estampada na capa. É certo que na contracapa fala-se de uma «investigação literária», designação talvez mais apropriada à narrativa em causa. Sendo impossível determinar o que neste livro existe de ficcional, é muito mais fácil reconhecer ao longo das suas 187 páginas factos, nomes, dados históricos que colocam o texto num lugar flutuante. De resto, não só parece ser do agrado do autor a confusão instaurada pelo cruzamento de realidades, como facilmente o leitor é levado a acreditar ser essa a própria intenção do narrador. Realidade ou ficção, escolha o leitor o que mais lhe aprouver. De um ponto de vista estritamente pessoal, o que me importa sublinhar é antes a capacidade de a partir de um pretexto tipicamente jornalístico (investigar os meandros do contrabando e do narcotráfico na região de Trás-os-Montes) o autor se deixar enredar nos labirintos das recordações pessoais e nos transportar, mais uma vez, aos tempos das suas infância e adolescência reflectindo, de um modo tão claro quão descomprometido, a natureza da memória. Este é, também e por isso, um ensaio sobre a memória e a relação que esta mantém com a actividade literária. As palavras finais isso declaram: «Julguei viver. Tive aventuras e medos, conheci alegrias, conheci paixões. Tudo fugidio, curto demais. Fundindo o ontem no hoje o tempo negou-me o espaço onde eu me pudesse reencontrar, tornou hostil o que pelo hábito dos anos me deveria ser querido, levou-me a olhar com indiferença o que foi familiar. E agora, constrangido dou-me agora conta de que na minha vida nunca realmente houve partidas nem chegadas, nem pessoas, lugares ou eventos. / O que nela existiu e se prolonga ainda são cenários e personagens, sombras, as imagens desordenadas da memória que, presas na narrativa, se tornam uma dupla ficção» (p. 187). La Coca tem diversos destes momentos reflexivos, sugerindo na sua malha de recordações, vivências, viagens (interior, pessoal, íntima e física), ressonâncias, tempos entrecruzados, cenários pícaros e personagens pitorescas, uma necessidade de exame da própria consciência (a evocação de Somerset Maugham não há-de ser ingénua) e, talvez mais ainda, da existência enquanto campo minado de acasos e contingências imponderáveis. Se é verdade que neste livro encontramos um retrato de um espaço e de uma época, menos verdade não será que esse retrato pode ser considerado acessório quando nele vislumbramos algo que extravasa as fronteiras do espaço e do tempo, isto é, a necessidade de um homem se encontrar consigo próprio para lá das personagens e das histórias que o habitam. E no final fica a sensação de que, no vazio ilógico das associações, um homem não é feito de outra matéria senão das histórias que tem para contar sobre as personagens que o povoam. E J. Rentes de Carvalho tem muitas. Pela parte que me toca, só tenho a agradecer que as conte.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

NÃO POSSO

Bem vistas e ponderadas as coisas, eu próprio vivo acima das minhas possibilidades. Afinal, vivo em Portugal.

terça-feira, 24 de maio de 2011

E SE FOSSE ASSIM?

Assaltado por uma espécie de utopia surrealista, dei por mim a fazer contas imponderáveis. Li algures que, em 2010, a Sonae lucrou 192 milhões de euros. Não sei quanta gente emprega a Sonae, mas façamos as contas a 50000 indivíduos. Aqueles lucros divididos por 50000 perfazem a módica quantia de 3840€. Estes 3840€ davam jeitinho, não? Mas suponhamos que os podíamos distribuir pelos 12 meses anuais. Eram mais 320€ de salário por mês. Isto, para quem ganha o ordenado mínimo nacional, faz toda a diferença. 480 + 320 = 800. Nada mau. Mas a economia não é assim, o mundo não é assim e eu não sei fazer contas. Porque as empresas precisam de crescer, e para crescerem é preciso investir, e para investir é preciso lucro. Não se pode desperdiçar o lucro com quem trabalha. Isso é que era bom.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

ETC, ETC...



Há muitos portugueses que gostam de ouvir Paulo Portas criticar o Rendimento Social de Inserção. Babam-se de contentamento quando o intocável brada contra a injustiça que é uns terem que trabalhar para outros poderem viver em casa à custa do Estado. Para Paulo Portas, os desempregados são um cancro e os apoios sociais são o vício que provoca o cancro. Este discurso é muito apelativo, esta retórica rende, e não restam dúvidas de que o Dr. Portas é doutorado em capitalizar a demagogia. Aqueles que discordam do Dr. Portas deviam aplicar-se em explicar às pessoas, de um modo claro e evidente, a demagogia do Dr. Portas. Não o fazendo, permitem que essa mesma demagogia ganhe adeptos e alastre como uma praga inquisitória. Não sei se é verdade, se é mentira, mas notícias recentes referem que o RSI, com todos os seus vícios e eventuais virtudes, custou ao Estado 520 milhões de euros no ano passado. Ora, a mesmíssima alma que está tão preocupada e indignada com este valor não hesitou em pagar 832,9 milhões de euros (sem juros, porque com juros esse valor supera os mil milhões de euros) por dois submarinos comprados quando era Ministro da Defesa. Para o Dr. Portas os submarinos podem ser prioritários relativamente aos apoios às famílias carenciadas. Só isso explica o investimento final de 1,35 mil milhões de euros no Tridente e no Arpão. Mesmo tendo em conta os defeitos de um sistema permeável a falhas e à típica chico-espertice lusitana, que nunca será tão onerosa como a demagogia do Dr. Portas, prefiro o investimento no apoio às famílias carenciadas.

domingo, 22 de maio de 2011

UMA NOVA OPORTUNIDADE

Camarada Van Zeller, no próximo dia 5 irei votar. Isto não está para ficar em casa a fazer contas. Irei votar com o Rui Pedro Soares, o Soares Carneiro e o Armando Vara na memória. Levarei no bolso esquerdo o processo Face Oculta para não me esquecer de nada. Num outro bolso, conto levar o caso Freeport. E como me restam vários bolsos, levarei também as três centenas de despachos assinados numa madrugada pelo ex-ministro Telmo Correia, o Casino de Lisboa e os submarinos do doutor Protas. Nos meus bolsos, que são largos, cabem ainda Abel Pinheiro, o processo dos sobreiros, os 20 génios que ocupam 50 cargos na administração de 1000 empresas diferentes. Cabe o caso Portucale e a ex-ministra Celeste Cardona, cabem o caso Moderna e a super fotocopiadora do Paulo das feiras. Vou votar com o Duarte Lima, o Ferreira do Amaral, o Jorge Coelho, o Diogo Vaz Guedes, o Santana Lopes, o Dias Loureiro e o José de Oliveira e Costa na cabeça. Levo o BPN numa mão para não me esquecer de, com a outra, fazer o que me resta: botar a cruz em quem possa morder as canelas a estes ladrões de colarinho branco. É fácil: basta pensar nesta gente toda e no que têm andado a roubar passando incólumes, sobre tudo e sobre todos, como se nada tivessem feito, como se nada tivesse acontecido, como se nada fosse grave. Isto precisa de uma purga, rápida e geral. Camarada Van Zeller, dia 5 irei votar contra esta gentalha toda, formada, eventualmente, em universidades sérias, modernas e independentes que nada têm que ver com essa obra criminosa das Novas Oportunidades. Pum!

sábado, 21 de maio de 2011

PERFIL

Leio isto no Facebook: «Confirmasse o k sempre disse. Isto das novas oportunidades é uma palhaçada». No perfil, o visionário revela que estudou Engenharia Zootécnica na Universidade de Évora. Dêem-lhe uma nova oportunidade a língua portuguesa.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

MAR INTERIOR

Há entre a pele e o papel a coincidência de ambos alojarem manchas que o tempo traz à superfície. No caso dos homens, as manchas não valorizam o que quer que seja. A velhice tanto lhes pode acrescentar sabedoria como rancor. São assim os homens. Mas o papel ganha, com o tempo, um timbre admirável. É o caso deste panfleto, que apenas me chegou às mãos pelos bons cuidados do Rui Almeida. Pelo panfleto passaram praticamente 70 anos. Escrevia-se de uma outra maneira à época, não só no estilo como na própria língua. Coube à Editorial Império dar a conhecer os versos de Merícia de Lemos, poeta nascida em 1913 na Beira (Moçambique) e emigrada para Paris ainda decorria a década de 1940. Se bem apurei, Mar Interior (1942) foi a sua estreia literária. Ecos modernistas escutam-se no interior dos versos, uma linguagem clara mas paradoxal que torna complexa a própria palavra simplicidade: «Quero ser simples e fazer versos ingénuos.» (Desejando a Simplicidade) O Rui diz que se lembrou de Adília ao ler estes poemas, o que é inevitável perante A História do Meu Tricot. Eu lembrei-me de Ângelo de Lima ao ler Às Três Horas de Um Dia de Janeiro: «Desejo imenso ser má e tenho uma natural bondade. / Há quem nos meus poemas queira ver-me. / É verdade que quando os escrevo sou sincera, / Mas também é verdade que quando os escrevo sou imaginativa. / E porque sinto aquilo que imaginei e digo aquilo que sinto / Acontece-me ficar sem saber se escrevo o que senti ou se sinto o que escrevi.» E se alguns versos vêm corrigidos pela própria mão da poeta, conferindo à palavra desejo uma intencionalidade que não passa despercebida, mentira não será que o próprio tempo se encarregou de corrigir o que torna hoje esta poesia muito mais convincente do que à época terá sido:

DESCRENÇA

Não creio em mim, não creio em ti,
Não creio no Bem, não creio no Mal,
Não creio na Vida, não creio na Morte,
Não creio em nada.

Encontro para tudo controvérsia.

Afundo-me na minha descrença.

E eu que nada invejo
Invejo os homens que sobem até Deus só pela Fé.

E desde o Sol ao próprio chão pregunto se tudo não é apenas ilusão.
E pregunto
..................Se não é ainda uma ilusão que em nada eu creia!





Mantive a grafia original. Lá fora troveja.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

UMA PROPOSTA MODESTA

Jonathan Swift (1667-1745), que ficou para a história da literatura como autor d’As Viagens de Gulliver, foi um inigualável praticante da sátira. Meses antes de ter nascido, o seu pai morreu e deixou a mulher sem condições de criar um filho. Swift foi levado para Inglaterra pela sua ama, mas regressaria à Irlanda, já com quatro anos feitos, para aí ficar aos cuidados de um tio. Este pormenor biográfico é importante, na medida em que nos permite compreender a sua notória ambivalência, enquanto irlandês, relativamente às revoluções anti-católicas que então grassavam na sua terra natal. Se por um lado sempre sentiu o peso da educação inglesa, por outro lado via-se na obrigação de defender a Irlanda que, ao mesmo tempo, tanto criticava. De facto, foi como protegido de Sir William Temple, historiador e político inglês, que Jonathan Swift conquistou alguma posição social, ao doutorar-se em Teologia e ao assumir, posteriormente, posições de relevância eclesiástica. Em 1708, data de Um Argumento contra a Abolição do Cristianismo, encontramo-lo como emissário do clero irlandês em Londres. Neste brevíssimo ensaio, vislumbra-se já a veia irónica do autor que André Breton não enjeitou para a abertura da sua famigerada Antologia do Humor Negro. É o segundo texto desta belíssima edição da Alfabeto (Fevereiro de 2011), com tradução de Pedro Ventura e ilustrações de Frederico Penteado. O Argumento, como qualquer texto desta índole, não tem por alvo uma entidade concreta, permitindo-se antes atacar, por via retórica, uma situação entendida em sentido lato. Neste caso, a intenção parece ser a necessidade de rebater os argumentos daqueles que têm por projecto a abolição do Cristianismo. Jonathan Swift enuncia os argumentos dos seus adversários, e rebate-os sem necessariamente os contradizer. À semelhança do que Erasmo (1466-1536) fez com o Elogio da Loucura, os contra-argumentos utilizados pesam sobre o objecto de defesa. Repare-se como à suposta vantagem de, ao abolir o Cristianismo, ficarmos com mais um dia de produção, Swift enuncia sob a forma de interrogação as características de um "domingo" passado na Igreja: «Como se pode pretender que as igrejas são mal usadas? Onde são marcados mais compromissos e encontros de galantearia? Onde se aparece nos melhores preceitos e com mais cuidado no vestir? Onde são conduzidos mais negócios? Onde se encontram as melhores pechinchas? Onde é mais conveniente e convidador dormir?» (p. 54) Quem assim se interrogava, sabia do que falava. Praticamente vinte anos depois, já como decano da St. Patrick's Cathedral, a sua pena atinge o extremo da erosão literária com o texto Uma Proposta Modesta. Nessa prosa de insofismável actualidade, a técnica já não é a do rebate retórico. Agora, o autor avança com uma proposta e enumera as suas vantagens. O propósito seria sanear, de uma vez por todas, as ruas de Dublin, acabando com a mendigagem que pululava sem fim aparente. As ferroadas no desprezo inglês são evidentes, assim como na própria postura do clero perante a miséria do povo. O sistema proposto por aquele que é hoje em dia, e para ironia do destino, um dos mais celebrados autores de “literatura juvenil”, consistia em converter as crianças mendigas do país naquilo que, para bom entendedor, elas já eram: gado. A comparação com «ovelhas, gado bovino ou suínos», convertendo as mães dos pedintes em éguas, vacas ou porcas parideiras, dá um ar do retrato social que a época merecia. As vantagens de passarem as crianças do reino a ser tratadas como leitões prontos a assar seriam óbvias: diminuição do número de papistas, melhorias de vida nos rendeiros mais pobres, incrementação das reservas nacionais, desanuviamento económico das famílias, mais freguesia nas tabernas (consta que a carne de criança é deveras tenrinha), incentivo ao casamento… Impossível saber se o comunismo, essa doutrina política que consiste, essencialmente, em devorar criancinhas ao pequeno-almoço, não terá tido nos textos de Jonathan Swift uma fundamentação literal. A verdade é que o decano da St. Patrick's Cathedral estava cheio de razão. As ruas, como hoje, não deixavam mentir nem davam lugar a ilusões. Para os explorados só havia uma solução: devorarem-se a si próprios. Foi assim no passado, é assim hoje e duvido que mude no futuro. A ver vamos.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O LEITOR





Ontem os olhos pararam n’O Leitor. O filme de Stephen Daldry, que também realizou As Horas e Billy Elliot, tem todos os ingredientes de um bom filme. De resto, nestes três filmes encontramos boas histórias, actores que garantem interpretações convincentes, argumentos cativantes, uma fotografia escrupulosa, ritmo adequado. No entanto, O Leitor sofre de uma inverosimilhança fatal. É tudo demasiado bonito para ser verdadeiro e é tudo demasiado verdadeiro para ser bonito. Nada de novo na história de um jovem que desperta para a vida através da relação com uma mulher mais velha. Que Hanna Schmitz lhe peça leituras em voz alta apenas confere uma dimensão poética ao encontro, mas o pormenor não pode deixar de ser interpretado como um subterfúgio narrativo algo inconsistente. É provável que Bernhard Schlink, professor de Filosofia do Direito e autor do livro que está na origem do filme, não tenha pretendido tanto sublinhar a relação entre Michael Berg e Hanna Schmitz como parece ter concentrado os seus esforços numa dimensão moral que acaba por escapar à película. O que temos ali, então, é um case study, um de milhares de exemplos possíveis sobre as fragilidades da Justiça. Mas quem um dia se recordar de O Leitor, não vai lembrar um estudante de Direito perseguido por conflitos morais ao descobrir que a sua primeira foda foi com uma ex-guarda do campo de concentração de Auschwitz que gostava que os meninos lhe lessem livros em voz alta. Vai lembrar um rapaz e uma mulher que se amaram para lá das contingências da vida, presentes um no outro por sinais de fumo e memórias privadas e inconfessáveis. O julgamento de Hanna Schmitz era escusado, fica a pesar sobre o amor como uma tragédia já vista. A sua condenação começa no seu analfabetismo. E a maior das penas é esse isolamento que a separa de Michael Berg, um jovem que pode pedalar sobre a palavra como o poeta montado na sua bicicleta.

A MINHOCA







Quem venera a minhoca lavradora
que fende os torrões debaixo das ervas
em sua ocupação de transformar a terra?
A terra de quem se cobre enquanto trabalha
muda e cega de tanta terra.

Lá bem no fundo, onde os campos se vestem
para a colheita, ela é a mais humilde
lavradora. Quem venera o seu lavrar
de campesina cinzenta e paciente
nas profundezas da terra?

Harry Martinson, in 21 Poetas Suecos, trad. Casimiro de Brito, Vega, s/d, p. 94.



Harry Martinson tem todo um currículo que merece ser do conhecimento público. Perdeu o pai aos seis anos de idade e a mãe logo a seguir. Após a morte do marido, a senhora entregou os filhos a uma instituição pública e partiu para a América. Harry cresceu a aprender os mandamentos da sobrevivência: fugas, trabalhos vários, biscates, vagabundagem. Aos 16 anos fez-se homem do mar, e pelos oceanos andou até 1927, ano em que a tuberculose obrigou a que encalhasse novamente na Suécia. Dois anos depois casou com uma escritora 14 anos mais velha, publicou o primeiro livro de poemas e deu início a uma carreira literária que culminaria com o Nobel da Literatura em 1974. Os últimos anos fizeram dele um saco de boxe da juventude impaciente, a qual lhe exigia um comprometimento político que não era, nem deixava de ser, a sua principal preocupação. A depressão levou-o novamente às salas dos hospitais. O Nobel não foi remédio, pois adensou as críticas e Martinson tentou suicidar-se com uma tesoura. Eis um cheirinho de vidas literárias que já não há. Agora é tudo escritório, academia, festival e cama lavada.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O DIREITO À PREGUIÇA

Por mais curta que seja, esta história carece de um certo enquadramento biográfico. Paul Lafargue (1842-1911) nasceu em Santiago de Cuba no seio de uma família onde se misturavam judeus com mulatos e índios com franceses republicanos. Inicialmente simpatizante de Proudhon, inclinou-se para as teorias marxistas. De resto, inclinou-se de tal modo que veio a casar com Laura Marx. Suicidaram-se ambos após uma vida de luta dedicada ao activismo político, deixando nas notas finais loas ao comunismo e votos de glória. O ímpeto panfletário de Lafargue ficou nobremente registado no best-seller intitulado O Direito à Preguiça. Esta edição da Teorema, com tradução de António José Massano, é a décima primeira (Março de 2011). À partida, este panfleto datado de 1880 pode passar por uma divagação utopista inspirada no hedonismo clássico. Mas à partida as coisas são sempre muito diferentes do que se constata serem à chegada. Escrito numa época em que os movimentos de protesto contra a exploração da classe operária ganhavam força e começavam a assumir formas de combate bastante violentas, este texto tem como principal alvo «a moral capitalista» entendida como «lastimável paródia da moral cristã». Portanto, trata-se de um panfleto com um propósito muito prático e actual: abrir a pestana dos assalariados, novo género de escravos alimentado pela sociedade capitalista e os seus dogmas do trabalho. O L’Égalité foi o primeiro albergue desta sátira escrita ao jeito de um manifesto e com uma lógica argumentativa imbatível. Primeiro desmascara-se o dogma desastroso da sociedade capitalista, estabelecendo uma cisão entre o culto do ócio na antiguidade e a degenerescência da “vida feliz”, como a entendiam Séneca ou Epicuro, incutida pelo cristianismo e pelo seu ódio à natureza selvagem. A censura dos prazeres, ditada pela religião da produtividade, devota do deus Progresso, transforma o homem num ser doente e desapaixonado. Lafargue cita como exemplo de um povo saudável os índios das tribos guerreiras do Brasil, que matam os doentes e os velhos por entenderem não valer a pena continuar vivo sem poder retirar prazer da vida. Esta dimensão hedonista, de matriz cínica, subentende uma dúvida fundamental: de que vale viver sem liberdade, escravo do trabalho, nem réstia de esperança numa vida feliz? Entenda-se que neste contexto a vida feliz não estabelece qualquer dicotomia entre os prazeres do corpo e os prazeres do espírito, patacoada introduzida pelo idealismo platónico e propagada pelo cristianismo. Estamos no domínio de um materialismo puro. Sem o corpo satisfeito, não há prazer do espírito que nos valha. E para estar satisfeito o corpo necessita de descanso, ócio, preguiça. As 12 horas de trabalho fabril a que estavam obrigados os operários de então impossibilitavam esse estado de graça, usurpando à vida o seu sentido e fazendo dos homens meras peças de uma mecânica aniquiladora. Como tal, Paul Lafargue defende que ninguém deveria trabalhar mais que três horas por dia. E desbrava o caminho: «Estas misérias individuais e sociais, por grandes e inumeráveis que sejam, por eternas que pareçam, desvanecer-se-ão como as hienas e os chacais à aproximação do leão, quando o proletariado disser: «Quero!» Mas para que tome consciência da sua força o proletariado tem de calcar aos pés os preconceitos da moral cristã, económica e livre-pensadora; tem de regressar aos seus instintos naturais, de proclamar os Direitos da Preguiça, mil e mil vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem, cozinhados pelos advogados metafísicos da revolução burguesa; que se constranja a trabalhar apenas três horas por dia, a nada fazer e a andar em patuscadas o resto do dia e da noite» (p. 29). Mentes reaccionárias insurgir-se-ão contra tão nobres intentos questionando a sua exequibilidade. Afinal, como garantir o serviço da patuscada? Como garantir a produção do vinho a quem deseja deleitar-se bebendo-o? O problema reside na superprodução, na ganância desmesurada daqueles que ganham com o hipnotismo laboral a troco de uma capacidade de consumo que nos permite adquirir praticamente tudo privando-nos do mais precioso dos bens: tempo para usufruir daquilo que venhamos a adquirir. Com preocupações humanistas evidentes, estes argumentos mantêm na actualidade a pertinência indiscutível de um diagnóstico justo sobre as injustiças do mundo laboral. À luz dos conceitos hoje em vigor, poderão apenas valer como fonte de inspiração para uma luta pelo mais básico de todos os direitos: a preguiça, terrível pecado contra o qual temos vindo a assistir a uma recorrente e exacerbada condenação da vida. A única que temos, até prova em contrário.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

PARADEIRO

Espanto-me com a proliferação de teorias sobre o que terá acontecido a Osama bin Laden, um indivíduo que não deixará saudades e a quem só desejo um milhão de virgens horrorosas a sugarem-no até à última pinga de ânimo. Já se sabe que nestas alturas todas as teorias, conspirativas ou politiqueiras, vêm à superfície, mas não pode deixar de causar espanto a quantidade de gente tão bem informada e sabichona que pulula neste país. Pelo que sabem ou julgam saber, pelas certezas disfarçadas de dúvidas que levantam ou insinuam, devem ser todos agentes secretos da CIA, ter ligações à Mossad ou ex-KGBs com o bichinho atrás da orelha. Desconfio inclusive que o meu amigo Chuinga também faça parte do regimento. Ainda hoje me garantiu que “O Ben Laden ‘tá vivo e mora em Trás-os-Montes". Atire a primeira pedra quem nunca tiver pecado.