Toda a gente conhece o mistério das baleias mortas: dão à costa, em grande número, sem razão aparente. Há quem garanta tratar-se de uma inexplicável forma de suicídio colectivo. Talvez pretendam morrer em terra, fazer da terra o seu cemitério, como os elefantes regressados, no termo da vida, ao ponto onde todas as manadas se encontram. Da última vez que estive em Barcelona vi por lá alguns desses elefantes. Vendiam produtos contrafeitos em sacos-rede estrategicamente preparados para a fuga. Com os olhos agitados na paisagem ameaçadora, puxavam rapidamente os sacos às costas e desatavam a correr na direcção contrária à da polícia. Quando for para morrer, se houver tempo, regressarão ao cemitério onde nasceram. E o cemitério tanto pode ser o Senegal como a China, terreno fértil em mortos. Por vezes não há tempo para o regresso, arrasta-se o mistério da morte pela vida até que a hora chegue. Se fosses informado de que te restam dois a três meses, o que farias nesses dias de sobra? Provavelmente procurarias evitar os açaimes da existência, tratarias de arrumar a vida para que o corpo pudesse seguir em paz. Não há imagem mais cómica, dizia Lowry, do que a de alguém a fazer a barba a um morto. Não deve haver imagem mais trágica do que a de um morto a tentar arrumar a sua própria vida.
domingo, 29 de maio de 2011
BIUTIFUL
Toda a gente conhece o mistério das baleias mortas: dão à costa, em grande número, sem razão aparente. Há quem garanta tratar-se de uma inexplicável forma de suicídio colectivo. Talvez pretendam morrer em terra, fazer da terra o seu cemitério, como os elefantes regressados, no termo da vida, ao ponto onde todas as manadas se encontram. Da última vez que estive em Barcelona vi por lá alguns desses elefantes. Vendiam produtos contrafeitos em sacos-rede estrategicamente preparados para a fuga. Com os olhos agitados na paisagem ameaçadora, puxavam rapidamente os sacos às costas e desatavam a correr na direcção contrária à da polícia. Quando for para morrer, se houver tempo, regressarão ao cemitério onde nasceram. E o cemitério tanto pode ser o Senegal como a China, terreno fértil em mortos. Por vezes não há tempo para o regresso, arrasta-se o mistério da morte pela vida até que a hora chegue. Se fosses informado de que te restam dois a três meses, o que farias nesses dias de sobra? Provavelmente procurarias evitar os açaimes da existência, tratarias de arrumar a vida para que o corpo pudesse seguir em paz. Não há imagem mais cómica, dizia Lowry, do que a de alguém a fazer a barba a um morto. Não deve haver imagem mais trágica do que a de um morto a tentar arrumar a sua própria vida.
UM PREFÁCIO PARA ONTEM
Amadeu Baptista
Outros Domínios
(Clamor por Florbela Espanca)
Prémio Literário Florbela Espanca, 2007
2.ª edição
Temas Originais
2011
Prefácio: Um Prefácio Para Ontem
sexta-feira, 27 de maio de 2011
OBRA DE ARTE
O romance pode ser lido apenas como uma história que nos permite saltar páginas, se quisermos. Pode ser considerado uma espécie de sinfonia ou, sob outro ponto de vista, uma espécie de ópera − ou mesmo ópera de aventuras. É jazz, um poema, uma canção, uma tragédia, uma comédia, uma farsa, e por aí fora. É superficial, profundo, empolgante e chato à vontade de cada qual. É uma profecia, uma advertência política, um criptograma, um filme absurdo e uma frase escrita numa parede. Pode mesmo ser considerado uma espécie de máquina que também trabalha, acredite, como vim a verificar. No caso de achar que faço dele tudo menos um romance, melhor será dizer-lhe que não só pretende, ao fim e ao cabo, ser um romance, como um romance − seja embora eu próprio a dizê-lo − profundamente sério. Mas também exijo que seja obra de arte um tanto diferente daquela que o senhor suspeitaria que fosse, e também mais lograda, ainda que em função das suas próprias leis.
Quem é que ainda espera isto de um romance?
O SOM A CASA
quinta-feira, 26 de maio de 2011
LA COCA
quarta-feira, 25 de maio de 2011
NÃO POSSO
Bem vistas e ponderadas as coisas, eu próprio vivo acima das minhas possibilidades. Afinal, vivo em Portugal.
terça-feira, 24 de maio de 2011
E SE FOSSE ASSIM?
Assaltado por uma espécie de utopia surrealista, dei por mim a fazer contas imponderáveis. Li algures que, em 2010, a Sonae lucrou 192 milhões de euros. Não sei quanta gente emprega a Sonae, mas façamos as contas a 50000 indivíduos. Aqueles lucros divididos por 50000 perfazem a módica quantia de 3840€. Estes 3840€ davam jeitinho, não? Mas suponhamos que os podíamos distribuir pelos 12 meses anuais. Eram mais 320€ de salário por mês. Isto, para quem ganha o ordenado mínimo nacional, faz toda a diferença. 480 + 320 = 800. Nada mau. Mas a economia não é assim, o mundo não é assim e eu não sei fazer contas. Porque as empresas precisam de crescer, e para crescerem é preciso investir, e para investir é preciso lucro. Não se pode desperdiçar o lucro com quem trabalha. Isso é que era bom.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
ETC, ETC...
Há muitos portugueses que gostam de ouvir Paulo Portas criticar o Rendimento Social de Inserção. Babam-se de contentamento quando o intocável brada contra a injustiça que é uns terem que trabalhar para outros poderem viver em casa à custa do Estado. Para Paulo Portas, os desempregados são um cancro e os apoios sociais são o vício que provoca o cancro. Este discurso é muito apelativo, esta retórica rende, e não restam dúvidas de que o Dr. Portas é doutorado em capitalizar a demagogia. Aqueles que discordam do Dr. Portas deviam aplicar-se em explicar às pessoas, de um modo claro e evidente, a demagogia do Dr. Portas. Não o fazendo, permitem que essa mesma demagogia ganhe adeptos e alastre como uma praga inquisitória. Não sei se é verdade, se é mentira, mas notícias recentes referem que o RSI, com todos os seus vícios e eventuais virtudes, custou ao Estado 520 milhões de euros no ano passado. Ora, a mesmíssima alma que está tão preocupada e indignada com este valor não hesitou em pagar 832,9 milhões de euros (sem juros, porque com juros esse valor supera os mil milhões de euros) por dois submarinos comprados quando era Ministro da Defesa. Para o Dr. Portas os submarinos podem ser prioritários relativamente aos apoios às famílias carenciadas. Só isso explica o investimento final de 1,35 mil milhões de euros no Tridente e no Arpão. Mesmo tendo em conta os defeitos de um sistema permeável a falhas e à típica chico-espertice lusitana, que nunca será tão onerosa como a demagogia do Dr. Portas, prefiro o investimento no apoio às famílias carenciadas.
domingo, 22 de maio de 2011
UMA NOVA OPORTUNIDADE
Camarada Van Zeller, no próximo dia 5 irei votar. Isto não está para ficar em casa a fazer contas. Irei votar com o Rui Pedro Soares, o Soares Carneiro e o Armando Vara na memória. Levarei no bolso esquerdo o processo Face Oculta para não me esquecer de nada. Num outro bolso, conto levar o caso Freeport. E como me restam vários bolsos, levarei também as três centenas de despachos assinados numa madrugada pelo ex-ministro Telmo Correia, o Casino de Lisboa e os submarinos do doutor Protas. Nos meus bolsos, que são largos, cabem ainda Abel Pinheiro, o processo dos sobreiros, os 20 génios que ocupam 50 cargos na administração de 1000 empresas diferentes. Cabe o caso Portucale e a ex-ministra Celeste Cardona, cabem o caso Moderna e a super fotocopiadora do Paulo das feiras. Vou votar com o Duarte Lima, o Ferreira do Amaral, o Jorge Coelho, o Diogo Vaz Guedes, o Santana Lopes, o Dias Loureiro e o José de Oliveira e Costa na cabeça. Levo o BPN numa mão para não me esquecer de, com a outra, fazer o que me resta: botar a cruz em quem possa morder as canelas a estes ladrões de colarinho branco. É fácil: basta pensar nesta gente toda e no que têm andado a roubar passando incólumes, sobre tudo e sobre todos, como se nada tivessem feito, como se nada tivesse acontecido, como se nada fosse grave. Isto precisa de uma purga, rápida e geral. Camarada Van Zeller, dia 5 irei votar contra esta gentalha toda, formada, eventualmente, em universidades sérias, modernas e independentes que nada têm que ver com essa obra criminosa das Novas Oportunidades. Pum!
segunda-feira, 16 de maio de 2011
MAR INTERIOR
DESCRENÇA
Não creio em mim, não creio em ti,
Não creio no Bem, não creio no Mal,
Não creio na Vida, não creio na Morte,
Não creio em nada.
Encontro para tudo controvérsia.
Afundo-me na minha descrença.
E eu que nada invejo
Invejo os homens que sobem até Deus só pela Fé.
E desde o Sol ao próprio chão pregunto se tudo não é apenas ilusão.
E pregunto
..................Se não é ainda uma ilusão que em nada eu creia!
Mantive a grafia original. Lá fora troveja.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
UMA PROPOSTA MODESTA
segunda-feira, 9 de maio de 2011
O LEITOR
Ontem os olhos pararam n’O Leitor. O filme de Stephen Daldry, que também realizou As Horas e Billy Elliot, tem todos os ingredientes de um bom filme. De resto, nestes três filmes encontramos boas histórias, actores que garantem interpretações convincentes, argumentos cativantes, uma fotografia escrupulosa, ritmo adequado. No entanto, O Leitor sofre de uma inverosimilhança fatal. É tudo demasiado bonito para ser verdadeiro e é tudo demasiado verdadeiro para ser bonito. Nada de novo na história de um jovem que desperta para a vida através da relação com uma mulher mais velha. Que Hanna Schmitz lhe peça leituras em voz alta apenas confere uma dimensão poética ao encontro, mas o pormenor não pode deixar de ser interpretado como um subterfúgio narrativo algo inconsistente. É provável que Bernhard Schlink, professor de Filosofia do Direito e autor do livro que está na origem do filme, não tenha pretendido tanto sublinhar a relação entre Michael Berg e Hanna Schmitz como parece ter concentrado os seus esforços numa dimensão moral que acaba por escapar à película. O que temos ali, então, é um case study, um de milhares de exemplos possíveis sobre as fragilidades da Justiça. Mas quem um dia se recordar de O Leitor, não vai lembrar um estudante de Direito perseguido por conflitos morais ao descobrir que a sua primeira foda foi com uma ex-guarda do campo de concentração de Auschwitz que gostava que os meninos lhe lessem livros em voz alta. Vai lembrar um rapaz e uma mulher que se amaram para lá das contingências da vida, presentes um no outro por sinais de fumo e memórias privadas e inconfessáveis. O julgamento de Hanna Schmitz era escusado, fica a pesar sobre o amor como uma tragédia já vista. A sua condenação começa no seu analfabetismo. E a maior das penas é esse isolamento que a separa de Michael Berg, um jovem que pode pedalar sobre a palavra como o poeta montado na sua bicicleta.
A MINHOCA
Quem venera a minhoca lavradora
que fende os torrões debaixo das ervas
em sua ocupação de transformar a terra?
A terra de quem se cobre enquanto trabalha
muda e cega de tanta terra.
Lá bem no fundo, onde os campos se vestem
para a colheita, ela é a mais humilde
lavradora. Quem venera o seu lavrar
de campesina cinzenta e paciente
nas profundezas da terra?
Harry Martinson, in 21 Poetas Suecos, trad. Casimiro de Brito, Vega, s/d, p. 94.
Harry Martinson tem todo um currículo que merece ser do conhecimento público. Perdeu o pai aos seis anos de idade e a mãe logo a seguir. Após a morte do marido, a senhora entregou os filhos a uma instituição pública e partiu para a América. Harry cresceu a aprender os mandamentos da sobrevivência: fugas, trabalhos vários, biscates, vagabundagem. Aos 16 anos fez-se homem do mar, e pelos oceanos andou até 1927, ano em que a tuberculose obrigou a que encalhasse novamente na Suécia. Dois anos depois casou com uma escritora 14 anos mais velha, publicou o primeiro livro de poemas e deu início a uma carreira literária que culminaria com o Nobel da Literatura em 1974. Os últimos anos fizeram dele um saco de boxe da juventude impaciente, a qual lhe exigia um comprometimento político que não era, nem deixava de ser, a sua principal preocupação. A depressão levou-o novamente às salas dos hospitais. O Nobel não foi remédio, pois adensou as críticas e Martinson tentou suicidar-se com uma tesoura. Eis um cheirinho de vidas literárias que já não há. Agora é tudo escritório, academia, festival e cama lavada.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
O DIREITO À PREGUIÇA
Por mais curta que seja, esta história carece de um certo enquadramento biográfico. Paul Lafargue (1842-1911) nasceu em Santiago de Cuba no seio de uma família onde se misturavam judeus com mulatos e índios com franceses republicanos. Inicialmente simpatizante de Proudhon, inclinou-se para as teorias marxistas. De resto, inclinou-se de tal modo que veio a casar com Laura Marx. Suicidaram-se ambos após uma vida de luta dedicada ao activismo político, deixando nas notas finais loas ao comunismo e votos de glória. O ímpeto panfletário de Lafargue ficou nobremente registado no best-seller intitulado O Direito à Preguiça. Esta edição da Teorema, com tradução de António José Massano, é a décima primeira (Março de 2011). À partida, este panfleto datado de 1880 pode passar por uma divagação utopista inspirada no hedonismo clássico. Mas à partida as coisas são sempre muito diferentes do que se constata serem à chegada. Escrito numa época em que os movimentos de protesto contra a exploração da classe operária ganhavam força e começavam a assumir formas de combate bastante violentas, este texto tem como principal alvo «a moral capitalista» entendida como «lastimável paródia da moral cristã». Portanto, trata-se de um panfleto com um propósito muito prático e actual: abrir a pestana dos assalariados, novo género de escravos alimentado pela sociedade capitalista e os seus dogmas do trabalho. O L’Égalité foi o primeiro albergue desta sátira escrita ao jeito de um manifesto e com uma lógica argumentativa imbatível. Primeiro desmascara-se o dogma desastroso da sociedade capitalista, estabelecendo uma cisão entre o culto do ócio na antiguidade e a degenerescência da “vida feliz”, como a entendiam Séneca ou Epicuro, incutida pelo cristianismo e pelo seu ódio à natureza selvagem. A censura dos prazeres, ditada pela religião da produtividade, devota do deus Progresso, transforma o homem num ser doente e desapaixonado. Lafargue cita como exemplo de um povo saudável os índios das tribos guerreiras do Brasil, que matam os doentes e os velhos por entenderem não valer a pena continuar vivo sem poder retirar prazer da vida. Esta dimensão hedonista, de matriz cínica, subentende uma dúvida fundamental: de que vale viver sem liberdade, escravo do trabalho, nem réstia de esperança numa vida feliz? Entenda-se que neste contexto a vida feliz não estabelece qualquer dicotomia entre os prazeres do corpo e os prazeres do espírito, patacoada introduzida pelo idealismo platónico e propagada pelo cristianismo. Estamos no domínio de um materialismo puro. Sem o corpo satisfeito, não há prazer do espírito que nos valha. E para estar satisfeito o corpo necessita de descanso, ócio, preguiça. As 12 horas de trabalho fabril a que estavam obrigados os operários de então impossibilitavam esse estado de graça, usurpando à vida o seu sentido e fazendo dos homens meras peças de uma mecânica aniquiladora. Como tal, Paul Lafargue defende que ninguém deveria trabalhar mais que três horas por dia. E desbrava o caminho: «Estas misérias individuais e sociais, por grandes e inumeráveis que sejam, por eternas que pareçam, desvanecer-se-ão como as hienas e os chacais à aproximação do leão, quando o proletariado disser: «Quero!» Mas para que tome consciência da sua força o proletariado tem de calcar aos pés os preconceitos da moral cristã, económica e livre-pensadora; tem de regressar aos seus instintos naturais, de proclamar os Direitos da Preguiça, mil e mil vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem, cozinhados pelos advogados metafísicos da revolução burguesa; que se constranja a trabalhar apenas três horas por dia, a nada fazer e a andar em patuscadas o resto do dia e da noite» (p. 29). Mentes reaccionárias insurgir-se-ão contra tão nobres intentos questionando a sua exequibilidade. Afinal, como garantir o serviço da patuscada? Como garantir a produção do vinho a quem deseja deleitar-se bebendo-o? O problema reside na superprodução, na ganância desmesurada daqueles que ganham com o hipnotismo laboral a troco de uma capacidade de consumo que nos permite adquirir praticamente tudo privando-nos do mais precioso dos bens: tempo para usufruir daquilo que venhamos a adquirir. Com preocupações humanistas evidentes, estes argumentos mantêm na actualidade a pertinência indiscutível de um diagnóstico justo sobre as injustiças do mundo laboral. À luz dos conceitos hoje em vigor, poderão apenas valer como fonte de inspiração para uma luta pelo mais básico de todos os direitos: a preguiça, terrível pecado contra o qual temos vindo a assistir a uma recorrente e exacerbada condenação da vida. A única que temos, até prova em contrário.quarta-feira, 4 de maio de 2011
PARADEIRO
Espanto-me com a proliferação de teorias sobre o que terá acontecido a Osama bin Laden, um indivíduo que não deixará saudades e a quem só desejo um milhão de virgens horrorosas a sugarem-no até à última pinga de ânimo. Já se sabe que nestas alturas todas as teorias, conspirativas ou politiqueiras, vêm à superfície, mas não pode deixar de causar espanto a quantidade de gente tão bem informada e sabichona que pulula neste país. Pelo que sabem ou julgam saber, pelas certezas disfarçadas de dúvidas que levantam ou insinuam, devem ser todos agentes secretos da CIA, ter ligações à Mossad ou ex-KGBs com o bichinho atrás da orelha. Desconfio inclusive que o meu amigo Chuinga também faça parte do regimento. Ainda hoje me garantiu que “O Ben Laden ‘tá vivo e mora em Trás-os-Montes". Atire a primeira pedra quem nunca tiver pecado.
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