domingo, 30 de outubro de 2011

THE TREE OF LIFE




As obras de Terrence Malick atiram-me para o vazio. É assim desde Badlands (1973), um filme que tenho gravado numa cassete VHS e que me ajudou a perceber, pela primeira vez, a cobardia subjacente a todas as minhas acções. The Tree of Life (2001) transporta-me para um território místico onde não me sinto nada confortável. A justaposição das relações pai-filho e deus-homem inspira-me mais dúvidas do que convicções. Malick é inteligente, parece querer resolver, ou pelo menos evitar, a separação entre Deus e a Natureza, colocando ambos num só corpo reflectido na mais contemplativa das aventuras visuais que me foram dadas a ver nos últimos anos. Se pelo meio aparece o universo nas suas contínuas metamorfoses, com explosões de magma, dinossauros em queda e estrelas em expansão, apontando-nos o sentido de uma vida mutável e errática, isso quer dizer que Deus não encaixa nas vetustas caracterizações de perfeição e imutabilidade. Essa força que nos transcende e tudo cria, como também tudo destrói, gera no interior dos indivíduos um conflito porventura insanável. O fim do mundo é apenas o princípio do mundo. A questão já não está , pois, em reduzir a existência a uma mera passagem pela Terra determinada pela experiência da morte, mas antes em tentar compreender o mistério da existência a partir da única certeza que a lógica do pensamento nos permite: a vida continua, como sempre continuou, para lá de todas as catástrofes. Vale a pena o sofrimento? É certo que nascemos, vivemos e morremos, mas assim como nós nascemos, vivemos e morremos outros, antes de nós, nasceram, viveram e morreram e outros, depois de nós, nascerão, viverão e morrerão. O vazio está em que a percepção desta realidade interpela-nos sem direito a resposta. Tudo o que possamos pensar, julgar, não passará de uma desinteressante vacuidade perante a força das evidências: somos ínfimos, mais vale cumprirmos essa infimidade na luz pacificadora da única grande lei que está ao nosso alcance, ou seja, a lei do amor. Há ainda a esperança e a fé, mais forte nuns corações do que noutros, sempre sujeitas à gravidade dos conflitos que barram as emoções. Através dos tempos, por entre paisagens ora inóspitas, ora consoladoras, é nestas areias que os homens vão construindo os seus castelos. O pai e o filho que aparecem à sombra desta Árvore são o resumo de um conflito inerente à própria condição humana, esse conflito que a determinada altura da vida nos obriga a optar entre os castelos de areia com que explicamos a vida e definimos a existência ou a enigmática e inexplicável força das emoções que guiam a vontade e o desejo. Não deve ser por acaso que Malick escolheu para pai um músico frustrado convertido em ambicioso homem de negócios. Talvez Deus não seja diferente, viu a sua carreira de músico interrompida pelas necessidades práticas da criação. Eis a explicação para o desconcerto do mundo, somos governados por um pai severo, sem piedade nem misericórdia, que olha para os filhos temendo que eles se transformem naquilo que ele não pôde ser.

CAMPAINHAS PARA O AMOR




Crescerão campainhas sob as grandes árvores
E tu e eu estaremos lá em Maio;
Por algum motivo ambos teremos de adiar
A noite em Dunshaughlin –para agradar
Uma qualquer imaginária relação,
E então ambos iremos caminhar naquela plantação.

Estaremos interessados na erva,
Num velho balde de nora, na hera que tece
Uma incongruente verdura entre folhas mortas,
Deixaremos em espanto as carroças que passarem –
Olhando por vezes de soslaio as campainhas na plantação
Evitando assustá-las com bravia exclamação.

Seremos prudentes, não deixaremos perceberem
Que estamos a observá-las ou farão uma pose
De mera fachada como rapazes
Apanhados na naturalidade da virtude.
Não vamos impor às campainhas na plantação
Muita da nossa desejosa adulação.

Teremos outros amores – ou isso irão pensar;
Os narcisos ou os fetos ou as sarças,
Ou mesmo os desmaiados arames enferrujados,
Ou as violetas no bronzeado talude de azedas-bravas.
Além de todos, só as campainhas na plantação
Terão significado para a nossa negra contemplação.

Aprenderemos o amor a pouco e pouco, olhar a olhar.
Ah, o barro debaixo destas raízes é tão castanho!
Roubaremos o Paraíso enquanto Deus estiver na cidade –
Apanhei um anjo a sorrir fortuitamente
À espreita através dos troncos das árvores na plantação
Enquanto tu e eu caminhávamos lentamente para a estação
.


Patrick Kavanagh

Versão de HMBF

domingo, 23 de outubro de 2011

PÉGASO




A minha alma foi um velho cavalo
Oferecido para venda em vinte feiras.
Ofereci-o à Igreja – os compradores
Eram homenzinhos tementes da sua aura invulgar.
Um disse: “Deixe-o estar naturalmente
Ao vento e à chuva e à fome
Do pecado que nós ficaremos com ele −
Com as palas aplicadas – a troco de nada”.

Então o homem do Estado viu
O que eu tinha trazido para venda.
Um ministro, pretendendo saber se
Um outro corpo de cavalo ajustar-se-ia à cauda
Que ele reservara por sentimento –
A relíquia da sua própria alma –
Disse: “Vou apascentá-lo no lugar do trabalho”.
Emprestei-o por uma semana ou duas
E ele regressou com problemas nos ossos,
Faminto, esgotado, em desespero.
Alimentei-o na erva à beira da estrada
Tentando pô-lo em forma para mais uma feira.

Baixei o preço. Mantive-o ao pé dos atacados
Pela pulmoeira, esparavonado ficou
E comerciantes desonestos disseram que ele
Talvez aguentasse uma temporada na terra –
Mas não para trabalhos bem pagos nas cidades.
Faria a vez de um trolha, possivelmente.
Supliquei: “Ó, fazei agora uma oferta,
Uma alma é a tragédia de um homem pobre.
Ele puxará a carroça do estrume”, disse,
“Mostra-vos atalhos para a Missa,
Ensina o saber do tempo, à noite recolhe
Dívidas perdidas da erva dos homens pobres”.
.........................................................E eles nada.

............................Onde os
Trolhas porfiam desci eu
Com o meu cavalo, a minha alma.
Gritei: “Quem me oferece meia coroa?”
Daquele regateio ruidoso
Ninguém respondeu. “Alma”, orei,
“Eu tenho-te apregoado através do mundo
Da Igreja e do Estado e dos negócios mais mesquinhos.
Mas esta noite, cabresto retirado,
Não mais continuarei a apregoar-te.
No lado sul das valas
Há o pastoreio do sol.
Não mais discutirei com o mundo…”

No momento em que eu dizia estas palavras cresceram-lhe
Asas no dorso. Agora posso montá-lo
Por todas as terras que a minha imaginação conheça
.


Patrick Kavanagh
Versão de HMBF

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

ORÁCULO

Camarada Van Zeller, mesmo não o tendo ouvido, devo dizer que gostei muito de escutá-lo. Vem vossa excelência alvitrar que os privados sigam as boas práticas do público e suspendam também eles os subsídios de Natal e de férias. Se calhar disse mal, vossa excelência não alvitrou. Na verdade, limitou-se a oraculizar. Cito: “As empresas, ao preferirem não despedir, podem cortar nos subsídios ou noutras regalias para evitar despedimentos. Não se sabe como é que isto pode ser feito legalmente, mas em 1983 fez-se".

Camarada, sem pretender beliscar a sua sempre sábia perspicácia, proponho alternativas. Como compreenderá, estas alternativas limitam-se apenas a seguir a sua boa axiomática. Por exemplo, as empresas, ao preferirem não despedir, podem optar por uma redistribuição equitativa da riqueza gerada. Não se sabe quando é que isto foi feito, mas estou certo de que a lei o permite.

Realmente, devemos ter em conta que um empregado que aufira o “salário médio nacional”, que é sempre o mínimo ou pouco mais, deve regalar-se todo com os belos dos subsídios de férias e de Natal. Pode, pelo menos, respirar dois meses por ano. Nos 10 restantes resfolega para que administradores, directores e quejandos aufiram não uma, não duas, não três, mas, por vezes, 10 vezes mais do que ele, 14 vezes ao ano.

Não esqueçamos que vivemos num país onde os «20 por cento mais ricos ganham 6,1 vezes mais do que os 20 por cento mais pobres». É bom não perder de vista o sentido da equidade na economia portuguesa. Daí que em vez de andarmos enrolados em algodão de rama, a ver se saramos cicatrizes com água oxigenada e um pouco de pó de talco, talvez não fosse má ideia optarmos por outro tipo de soluções.

Porque é que em vez de cortarmos nos subsídios de Natal e de Férias, não evitamos despedimentos generalizando a toda a gente (incluindo patrões, gestores, directores, administradores) o “salário médio nacional”, ou seja, o mínimo? Era uma medida de canhão! Imaginemos, camarada Van Zeller, vossa excelência e a sua senhora a viverem com 500€ por mês a bem do sacrifício nacional.

São tempos de austeridade aqueles que vivemos, exigem sacrifícios, medidas radicais, extraordinárias. Pois bem, eu ando a sacrificar-me desde que comecei a trabalhar. Para mim sempre foram tempos difíceis. Há anos que a minha vida sofre as consequências das medidas extraordinárias. Se pela economia tudo vale, eu sugiro que valha mesmo tudo. Portanto: 500€ para si e para todos os patrões, para todos os administradores, para todos os gestores, para todos os directores, para todos os ministros, para todos os secretários e sub-secretários e sub-sub-secretários de Estado, para os generais e para os capitães, toda a gente a auferir 500€ por mês até a Moodys e o FMI ficarem satisfeitos e os mercados deixarem de andar perturbadíssimos. Excepto o Américo Amorim, esse é cá dos nossos.

Vale?

domingo, 16 de outubro de 2011

CARLOS



Estreado em Cannes na edição de 2010, Carlos recria parte da vida de Ilich Ramírez Sánchez, o famigerado terrorista venezuelano que a imprensa baptizou de Chacal. Filho de um fervoroso marxista, Ilich veio estudar para a Europa após a separação dos pais. Em 1968 ingressou na universidade Patrice Lumumba, em Moscovo, mas acabou por ser expulso. De resto, se há marca de personalidade que o filme sublinha é a extrema indisciplina do visado. A obra de Olivier Assayas escapa aos aspectos convencionais do filme biográfico precisamente por se centrar nos traços psicológicos da sua personagem central, na mesma medida em que procura contrabalançar essa dimensão com as manigâncias sustentadas pelo terrorismo internacional. Daí que o Carlos do filme só interesse a partir de 1973, ano em que se junta à Frente Popular para a Libertação da Palestina. Os contornos que definem a personagem mostram-nos uma figura misteriosa, enigmática, complexa, perdida algures entre um egocentrismo extremo e a mais patológica das convicções políticas. Mulherengo, exibicionista, activista militante. As discussões ideológicas mantidas ao longo do filme apontam precisamente no sentido da construção de um homem que, na base de pretensas convicções, se transforma num perigoso mitómano e num ambicioso mercenário. O romantismo que se espera neste tipo de indivíduos é aqui ultrapassado por uma fria análise dos factos. Na raiz de tudo, o dinheiro, o interesse, a fama, impelem à acção e determinam as consequências. Paralelamente, o mundo político sofre das mesmíssimas patologias. Em nome de bandeiras mais ou menos utópicas, estaqueadas no lamacento e sinistro terreno dos interesses económicos internacionais, cometem-se actos cruéis, alimentam-se intrigas e justificam-se traições. É de admitir, porém, que dentro do próprio Ilich Ramírez Sánchez tivessem existido dúvidas sobre os méritos das “tarefas” perpetradas por Carlos, entre as quais o sequestro dos membros da OPEP em Viena foi apenas um exemplo. São essas dúvidas que oferecem interesse ao filme: terá sido Carlos uma mera peça no intrincado jogo da conspiração universal ou, por outro lado, foi ele mesmo um jogador com causa própria? Terá sido um mero mercenário a troco de interesses pessoais ou um guerreiro com fortes motivos ideológicos? Não nos cabe responder a tais dúvidas, como é óbvio. Cabe-nos apenas desconfiar.

sábado, 15 de outubro de 2011

ESQUECI-ME COMO SE CHAMA





Se há domínio da edição livreira portuguesa onde podemos falar de mercado com substância, esse domínio é o do livro infantil. Felizmente estamos bem servidos, com propostas bastante diversificadas. Dentro das alternativas, cabe-nos sublinhar o excelente trabalho desenvolvido por projectos editoriais como a Orfeu Negro (vide colecção Orfeu Mini), a Planeta Tangerina ou a Bruaá Editora. Neste último caso, esse trabalho é de tal modo excepcional que será um “crime de lesa bom gosto” passar ao lado de objectos artísticos tais como Lágrimas de Crocodilo, Eu Espero…, O Arenque Fumado ou o mais recente Esqueci-me como se Chama, volume que recupera algumas histórias infantis do russo Daniil Harms, mudadas para português pela dupla de tradutores Nina Guerra e Filipe Guerra, com ilustrações bonitas, inteligentes e adequadas de Gonçalo Viana.

Trata-se de uma opção arriscada, mas distintiva. O universo literário de Daniil Harms, mesmo no território infanto-juvenil, não é de fácil penetração. Aparentemente caótico na sua espiral de acidentes, envia o leitor para uma arena onde se propõe um conflito com a lógica que determina a nossa forma de olhar, ver e organizar o mundo. O desafio consiste não apenas em superar essa lógica, mas em admitir no seio da mesma a existência de hipóteses invisíveis, cúmulos absurdos, novelos de associações infinitas que a linguagem permite ao pensamento. A tendência para ler estas histórias como quem lê meras anedotas, trocadilhos engraçados ou chalaças, desvirtua a raiz dos problemas sugeridos pelas mesmas. E esses problemas têm uma função didáctica imprescindível, a de tornar possível à imaginação uma liberdade que a transporte para lá dos constrangimentos impostos pelas leis científicas com que vamos compondo a realidade.

Não é de espantar, por isso, que o autor tenha merecido a censura do regime soviético, onde a regra era olhar para o mundo através de um padrão estritamente definido. Harms acabou por morrer de fome, ostracizado pelo regime de então, sem qualquer reconhecimento que extravasasse as fronteiras de um ínfimo círculo de amigos. Que mereça agora a sorte que não teve em vida:





ÓLEO DE PEIXE



Uma vez perguntaram a um rapaz:
− Ouve lá, Vova, como é que tu aguentas engolir óleo de peixe? Olha que o sabor não é nada agradável.
− É que a minha mãe, quando tomo uma colher de óleo de peixe, dá-me uma moedinha − disse o Vova.
− E o que é que tu fazes com essa moedinha? − perguntaram ao Vova.
− Meto-a no mealheiro − disse o Vova.
− E depois o que acontece? − perguntaram ao Vova.
− Depois, quando no meu mealheiro se acumulam dois rublos − disse o Vova −, a minha mãe tira-os e compra-me outro frasco de óleo de peixe
.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

FLOGGING A DEAD HORSE

Camarada Van Zeller, finalmente este país voga no rumo certo. Pedro Passos Coelho é o homem do leme por quem todos ansiavam. Pelo menos aqueles que votaram nele. Os portugueses merecem um homem destes, tal como merecem um Jardim, um Isaltino, um Valentim, uma Felgueiras, um Ascensor Simões… Só não percebo porque é que depois das medidas anunciadas ontem não se legaliza a eutanásia. Afinal, não é isso o que estão a propor, tratar o doente assistindo-lhe a morte? Também não percebo porque é que ainda precisamos de um Ministério da Economia. Podíamos começar por cortar aí, extinguindo o Ministério da Economia. Não vai servir para nada nos próximos anos e o autor de Portugal na Hora da Verdade bem podia recolher-se no gabinete a escrever mais bestsellers com soluções para o país. Sugiro-lhe que desenvolva alguns temas. Por exemplo, de onde vem o dinheiro do FMI? O dinheiro planta-se, rega-se e colhe-se ou é fruto do trabalho? Quem produz para que o FMI tenha dinheiro? Quem sua as estopinhas para que o Fundo exista? Diagnosticada a doença, e tomando sempre por dado adquirido que os tratamentos jamais serão consensuais, cabe também questionar qual a origem da doença? Não me parece que algum vírus possa ser combatido sem que se torne clara a sua origem. Sendo assim, não há responsáveis nem culpados cujos rostos devam ficar associados ao estado a que chegámos? Quem são? Onde estão? O que fazem? Em 37 anos de democracia política não me lembro de ter visto o meu país governado senão por gente que atira para detrás das costas, varre para debaixo do tapete ou põe nos outros a responsabilidade e a culpa dos vírus gerados pela complacência generalizada. Complacência para com a corrupção (BPN), complacência para com a soberba (Madeira), complacência para com a ostentação (UEFA Euro 2004), complacência para com a gestão negligente, incompetente, interesseira e pretensiosa dos dinheiros públicos. E quantas vezes, demasiadas vezes, esta complacência não se converteu em cumplicidade? Exemplos não hão-de faltar ao economista, jornalista e romancista português Álvaro dos Santos Pereira. A culpa é dos extraordinários privilégios dos funcionários públicos? O sucateiro é funcionário público? E o Américo Amorim?

sábado, 8 de outubro de 2011

EM BUSCA DE UM IDEAL






Novembro está a chegar e eu ainda espero por ti
Ó lesta ninfa que me escapaste quando
Te avistei entre alguns homens tolos
E com a força do meu desejo te ataquei.
Precipitadamente o fiz, gerei uma morte apaixonada,
Muito fácil, demasiado fácil, chorei então,
Não merecias uma gota pela minha caneta derramada.
Ó flor da luz comum, a emoção
Das coisas vulgares elevada à angélica condição
Saltou das tuas sedutoras pernas, segui-te
De Abril a Maio e de Junho até Setembro,
E tu mantiveste o comando até o alimento da paixão
Ficar bolorento dentro do meu alforge. Agora galanteio
As pegadas por ti deixadas através de Novembro
.



Patrick Kavanagh


Versão de HMBF

UM HOMEM ADMIRÁVEL

Camarada Van Zeller, há duas pessoas que admiro imenso em Portugal. Uma é o Zé Pedro dos Xutos & Pontapés, a outra é Luís Campos e Cunha. Este menestrel da economia nacional, que esteve num Governo de Sócrates durante 4 meses, mas abandonou o cargo porque lhe queriam mexer na carteira, veio defender recentemente que «em vez de se baixar a TSU, se devia aumentar o horário de trabalho ou reduzir o número de dias de férias e feriados de forma temporária». Isto faz de Campos e Cunha um dos ministros mais fugazes da história da política portuguesa com mais propostas para a política portuguesa. Não sei quantas horas por dia trabalha o ex-ministro, mas por mim falo: trabalho tantas que quando chego a casa não me resta tsu nem para jogar ténis na Wee. Hoje, por exemplo, estou de folga. Que tenha trabalhado entre as 10:00 e as 15:00 sem receber mais um cêntimo pelos serviços prestados é igual ao litro, o que importa é aumentar o horário de trabalho e contribuir para a saúde da Economia nacional. Aumentando o horário de trabalho as pessoas podem passar menos tempo em casa, desperdiçar menos horas com os filhos, pensar menos na vida. Evitam-se deste modo vários transtornos que estão na origem dos mais diversos problemas económicos. Primeiro, ao pensarem menos na vida as pessoas cometem menos erros. Prevê-se uma diminuição drástica na taxa de suicídios, até porque não haverá tempo para os preparativos. Os maridos não terão tanta disponibilidade para açoitar as mulheres, as mulheres não terão tanta disponibilidade para fazerem o jantar aos maridos, os filhos poderão andar na boa-vai-ela sem terem que ouvir as reclamações dos pais. Sublinhe-se também a pertinência da redução do número de dias de férias. Para que querem férias as pessoas que não têm dinheiro para gozar férias? A mim sempre me pareceu um pouco decadente dar férias a quem resta apenas uma de três soluções: ficar em casa a ver a programação de férias das televisões nacionais, colar o cu ao banco do café a folhear revistas com férias de sonho, encher a banheira e cortar os pulsos. Portanto, mais uma vez, Campos e Cunha prova que era o homem certo para o lugar errado. Infelizmente, só por lá ficou durante 4 meses. O suficiente, por certo, para tirar umas boas férias.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

PAZ




E por vezes lamento que quando a erva
Cresce sobre as pedras em vales tranquilos
E o panasco se inclina ao longo dos sulcos da carroça
Eu não seja a voz dos camaradas do campo
Que estão agora de pé nalgum promontório a falar
Sobre nabos e batatas ou milho novo
Ou rampas de relva debulhadas para a vitória.
Aqui a Paz ainda vende pelas ruas
Os seus pentes coloridos e cachecóis e contas de corno.

No alto de um promontório junto a uma sebe chorosa
Uma lebre senta-se a observar um regaço de folhas lavradas,
Há uma velha charrua num cume coberto de ervas daninhas
E alguém carrega aos ombros para casa a sela do arado.
Fora desta terra da infância quem são os loucos que sobem
Para lutar com os tiranos Amor e Vida e Tempo?



Patrick Kavanagh

Versão de HMBF

terça-feira, 4 de outubro de 2011

SHANCODUFF






As minhas negras colinas nunca viram o nascer do sol,
Olham eternamente para norte na direcção de Armagh.
A mulher de Ló não teria salinado se tivesse sido
Indiferente como as minhas negras colinas, felizes
Quando a aurora coroa a capela de Glassdrummond.

As minhas colinas guardam os luminosos xelins de Março
Enquanto o sol inspecciona todos os bolsos.
São os meus Alpes e eu escalei o Monte Cervino
Com um molho de feno para três bezerros agónicos
No cambo abaixo do Big Forth de Rocksavage.

Os ventos glaciais afagam as juncosas barbas de Shancoduff
Enquanto os boieiros, abrigados no Bosque de Featherna,
Olham para cima e dizem: “Quem detém as colinas famintas
Que a galinha-d’água e a narceja terão abandonado?
Um poeta? Por deus, ele deve ser pobre.”
Pode o meu coração não ser abalado por estas palavras?




Patrick Kavanagh

Versão de HMBF

Sobre o título do poema, remeto o leitor interessado para esta nota: Shancoduff is an anglicised spelling of the Irish Shanco Dubh (possibly coming from "sean" - pronounced shan - meaning old in Irish and "dubh" - pronounced dove, like the bird - meaning black). The name refers to Kavanagh's north-facing farm in County Monaghan that he inherited. The title is very relevant as it conveys the poet's personal use of placenames and his remarkable sense of ownership, which serve to make the poem more accessible to the reader.

NÃO HÁ DUAS SEM TRÊS



Abraço ao Changuito.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

AO HOMEM ATRÁS DO ARADO






Deixa as gamarras no descanso,
Hoje a semente voa distante −
Assemelha-se às estrelas contra a negra
Eternidade das terras de Abril.

Esta semente é forte como a semente
Do conhecimento no Livro Hebraico,
Portanto conduz os teus cavalos como
Um fardo no credo de Deus Pai.

Esquece os homens na colina de Brady.
Esquece o que o filho de Brady possa dizer.
Pois o destino não se cumprirá
Se não deixares o arado folgar.

Esquece igualmente a opinião do verme
Sobre cascos e pontiagudas cavilhas de arado,
Pois tu estás a conduzir os teus cavalos através
Da neblina onde o Génesis começa
.



Patrick Kavanagh

Versão de HMBF

sábado, 1 de outubro de 2011

MARIAS PARDAS





Marias Pardas (& etc, Março de 2011) oscila entre o denominado poema em prosa e aquilo a que agora se chama micronarrativa. São textos breves, agrupados em sequências, com uma componente diegética onde a poesia se instala já não apenas como metáfora mas, sobretudo, enquanto espaço de libertação da língua. A primeira sequência, intitulada Maria Parda, revela uma terceira pessoa em ruptura com todo o género de convenções. As imagens são sugestivas de um espaço degradante («sujidade das ruas», «a podridão dos sonhos», «ruas pardas»…) onde a sobrevivência se mantém pendurada por molas. Álcool disparado contra a solidão, blasfémias e impropérios proferidos como quem deixa escapar um pouco da cólera contida. Um universo de clochards que interroga a poesia sem grande efeito: «Ainda ouviu dizer que uma porrada de palavras a que chamavam poema era uma droga imparável, moto-contínuo de urina contra a parede, como qualquer roda rolando montanha abaixo, uma enxurrada de sinais gráficos a alienar-lhe os cornos e a mancha azul das olheiras. / Mas nada disso lhe interessava nem sequer sabia cagar efeitos» (p. 20).

Também Jesus e Goethe preferiam a companhia das putas. O papel do poeta, nestes casos, é excessivamente metódico. Ele observa e anota, não se furtando aos diagnósticos e, por vezes, avançando com teorias sobre os problemas. Já libertos do círculo lírico de um Eu ensimesmado, os olhos voltam-se para fora e deixam-se tomar pela paisagem. Agreste, sem dúvida, mas apelativa pelo lado libertário das personagens. Há uma certa intelectualidade que aprecia deveras o género, fazendo bandeira no poema da erosão sentimental e de uma linguagem desassombrada, ordinária, que a vida geralmente impede. A segunda sequência tem nome próprio: Marlene. Aqui é já o Eu quem fala, dirigindo-se a terceira pessoa como quem confessa uma desintegração ou, se quisermos, uma inadequação ao mundo: «Marlene, doem-me os pulsos, e já pouco mais me existe além do verde dos teus olhos, nesta cidade que nos mastiga diariamente» (p. 31). O mal-estar quotidiano toma conta da situação, a luz ao fundo do túnel é a luz parda de uns olhos longínquos, provavelmente também eles carentes de sentido.

Marlene é fonte de desejo, mas é também, e provavelmente mais que tudo, tubo de escape. É figura ao mesmo tempo mitológica e vivificante. É lugar de fuga e de restituição de uma ansiada paz interior, é o abrigo dos corações desavindos e das almas saturadas. Mas nem tudo se pode contar a Marlene. Esta impossibilidade de comunicação absoluta institui os limites da própria poesia, atira para a sarjeta a parangona da “poesia-verdade-absoluta”, da “poesia-revelação”, cedendo ao fingimento, ainda que travestido de castiça linhagem, imposto pelas circunstâncias: «Hei-de amar-te sempre, enquanto não tiver a luminosidade dos teus olhos a abafar-me aquela erecção que levarei até ao teu regaço, para que o acolhimento sem mácula desfaça o teu comércio dos enganos, a exploração dos operários das fábricas insolventes de caralhos de silicone, com um gestor de genitais ridículos, / e humidades fora do tempo e do lugar, / ah, Marlene, se te pudesse contar tudo! / Sinto a língua tão presa para te dizer que nasci numa aldeia da Beira-Baixa e tomei banho num rio inocente, só porque isso te poderia ofender, amo-te, toca-me aqui que eu gosto imenso, era só» (p. 41).

O volume termina com uma sequência intitulada Sem Nada. Nestes textos finais, reveladores, estamos no centro de onde, afinal, nunca chegámos a sair, esse Eu absoluto, castrador, inverosímil que toda a arte, incluindo a poesia, devia tentar aniquilar de uma vez por todas, mesmo que isso implique a morte própria. Missão impossível, por certo, mas que não deve impedir esforços. O vazio instala-se, assim como uma nostalgia estafada e impaciente. Tudo se perdeu, tudo nos roubaram, o mundo de hoje é tão insuportavelmente desapiedado. O tempo dita as regras, o vento tudo leva, mas de algo não nos livramos mesmo quando nos passam pelas mãos textos destes, o de sentirmos que tudo mudou para que tudo, afinal, ficasse na mesma. Não me lembro de que tenha sido diferente. Já Sócrates, e outros antes dele, se queixavam do mesmo. A pilhagem continuará, e nós a escrevermos desabafos. O livro é dedicado à actriz Maria do Céu Guerra.

RECORDAÇÕES DA PEQUENA CASA DO CANTO



...Era azul como a sua mão à hora da morte. Era a sua mão crispada, era o último orgasmo. Era a sua picha parada como um pássaro por cair, parada para a receber, a morte, a amante (ou não)
...Já não sei falar. Com quem?
...Nunca encontrei uma alma gémea. Ninguém foi um sonho. Deixaram-me com os sonhos abertos, com a minha ferida central aberta, com a minha ruína. Lamento; tenho esse direito. Assim mesmo, desprezo quem não se interessa por mim. O meu único desejo foi
...Não o direi. Até eu, sobretudo eu, me atraiçoo. Calei a minha alma como um bebé. Já não sei falar. Já não posso falar. Desperdicei o que não me deram, tudo o que tinha. E novamente a morte. Ameaça-me, é o meu único horizonte. Ninguém se parece com o meu sonho. Senti amor e maltrataram-no, sim, a mim que nunca quis. O amor mais profundo desaparecerá para sempre. Que poderemos nós amar a não ser uma sombra? Morreram já os sonhos sagrados da infância e também a natureza, a que me amava



Alejandra Pizarnik,, Abril, 1972



Versão de HMBF