Quinta-feira, 31 de Março de 2011

A VIDA É ISTO

Tão simples quanto isto: dezenas de excelentes pessoas podem atravessar-se no teu caminho, pessoas simpáticas, prestáveis, disponíveis, das que dizem bom dia e te sorriem com olhos cheios de luz. Um crápula atravessa-se à tua frente e no final do dia não te lembrarás senão do crápula. Atendes imensos clientes fáceis, acessíveis, com os quais trocas bons minutos de conversa, gente serena, compreensiva, boa gente. Calha-te um arrogante na rifa e no final do dia só te lembrarás do arrogante. Escreves positivamente sobre mil e uma coisas, confessas inclinações, gostos, tendências, dizes o melhor possível daquilo que te agrada. Ninguém liga. Manifestas o teu desagrado, ainda que fútil e subjectivamente, e toda a gente te cai em cima. A vida é isto, nada há a fazer contra isto. Isto tem imensa força.

O PNL

Na passada sexta-feira, dia 25, fui ler um conto à turma da Matilde. Levei Afonso e o Livro, uma história escrita pelo Luís Filipe Cristóvão que conta a aventura de um rapaz viciado na leitura de um livro inexistente. O mote serve para contar duas histórias numa só: a história do nascimento de um livro e a história do nascimento de um leitor. Na realidade são ambas uma e a mesma coisa. Isso percebeu-se naquela turma. O sucesso repetiu-se, depois de no ano passado lhes ter apresentado O Incrível Rapaz que Comia Livros. Notei nas crianças um interesse inabitual. No fim, muitos fizeram questão de me colocar ao corrente das suas aventuras enquanto… escritores. Uns andam com poemas nos bolsos, outros escrevem contos, produzem os seus próprios livros nas escolas, em casa, escrevem, ilustram, recortam folhas, agrafam-nas, inventam, criam, aprendem a gostar dos livros. A Matilde foi, como sempre, clara e objectiva: para o caso de ainda não teres dado por isso, devo dizer-te que já vou no terceiro capítulo da minha história. Toma e embrulha. Como se costuma dizer: em casa de ferreiro, espeto de pau. Eu sabia que ela andava a escreve uma história, mas desconhecia o estado avançado da produção. Isto tudo para dizer o seguinte: o PNL foi uma excelente iniciativa governamental, gerou uma óptima dinâmica escolar em torno do livro e é hoje uma marca da qual muitas editoras se socorrem para fazerem valer as suas obras num hiper-agressivo mercado concorrencial. O PNL é uma coisa positiva, hoje só me apetece falar de coisas positivas.

PARA GRAÚDOS COM MIÚDOS


Segunda-feira, 28 de Março de 2011

MANICÓMIO

O enquadramento, o sotaque, a postura desajeitada, fizeram da conferência de Paulo Futre um dos momentos mais hilariantes da recente história portuguesa. Lembro-me de outros similares, mas de todo mais degradantes: Sócrates a tentar vender a pochete Magalhães ou Cavaco fascinado com as tetas de uma vaca. A diferença está em que Futre não nos governa. Ainda.

SINA

A Joana queria que lhe lessem a sina. A quiromante pediu-lhe 8 euros. Por linha. A Joana não tem saldo para saber quanto a vida custa.

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: ÍNDIA

Mais ainda que os poemas, o que me encanta em Rabindranath Tagore é o perfil. O tsunami capilar, a barba farta, os olhos postos no infinito sob um nariz que aponta para a Terra tudo o que o resto aponta para o Céu. Julgar-me-ão ensandecido, fútil, por pensar que no alto pescoço de Tagore reside o tronco da sua poesia. Mas é precisamente o que penso, e não me envergonho de o dizer. Há entre alguns escritores e a sua escrita uma perfeita identificação anatómica. O mesmo sucede com Walt Whitman. Lê-se o que escreveram e facilmente encaixamos nos textos a imagem que guardamos dos homens. Tagore nasceu em Calcutá, no ano de 1861. Era o que hoje se poderia dizer um menino de boas famílias. A mãe morreu-lhe aos 17 anos, em plena juventude. Tagore beneficiou de uma mentalidade familiar pragmática. Procurando combinar a tradição hindu com a cultura ocidental, começou a escrever poemas muito novo, fazendo-os publicar no jornal da família. Estudou Direito em Londres, mas deu-se ao luxo de abandonar os estudos porque não apreciava o clima londrino. Em 1883 casou-se com Mrinalini Devi Raichaudhuri, de quem teve dois rapazes e três raparigas. A primeira de muitas tragédias familiares, se descontarmos a morte prematura da mãe, dá-se quando a cunhada se suicida. Vai viver para a zona do Bangladesh onde se ocupa a recolher lendas e contos do folclore local. Escreve muito, contos e poemas, numa linguagem comum que granjeia rapidamente a admiração dos seus pares. Em 1902, um ano após a inauguração da Escola Santiniketan, perde a mulher. Rani, uma das suas filhas, morre no ano seguinte. Logo de seguida perde o seu principal assistente na Escola Santiniketan, o pai (em 1905) e Samindra, o filho mais novo (em 1907). São anos dolorosos do ponto de vista familiar que em nada beneficiam com a agitação política então vivida na Índia. Seguem-se novas visitas à Inglaterra e à América, a edição inglesa de Gitanjali (com introdução de William Butler Yeats), elogios de Ezra Pound, o Prémio Nobel da Literatura em 1913. Dois anos após a consagração mundial, dá-se o encontro com Gandhi. Rabindranath Tagore transforma-se no rosto da cultura indiana no estrangeiro, proferindo conferências no Japão, nos EUA, lendo poemas no Congresso Nacional Indiano, recebendo várias condecorações. Em 1918 perde a filha mais velha. Divergências relativas ao curso que a política indiana tomava levam-no a afastar-se do meio, viaja frequentemente pelo mundo inteiro propondo uma poética união entre os mundos Ocidental e Oriental. Cada vez mais afastado da política, dedica-se à pintura. Em 1932 nova tragédia familiar, a perda do seu único neto. Nesse mesmo ano Gandhi faz greve de fome na prisão em Poona, interropendo-a mais tarde com Tagore junto à sua cama. Rabindranath Tagore morreu em Calcutá no ano de 1941, nove anos antes da Índia ser declarada República:

JULGAMENTO

Não julgues…
Habitas num recanto mínimo desta terra.
Os teus olhos chegam
Até onde alcançam muito pouco…
Ao pouco que ouves
Acrescentas a tua própria voz.
Mantém o bem e o mal, o branco e o negro,
Cuidadosamente separados.
Em vão traças uma linha
Para estabelecer um limite.


Se houver uma melodia no teu interior,
Desperta-a quando percorreres o caminho.
Na canção não há argumento,
Nem o apelo do trabalho…
A quem lhe agradar responderá,
A quem lhe agradar não ficará impassível.
Que importa que uns homens sejam bons
E outros não o sejam?
São viajantes do mesmo caminho.
Não julgues,
Ah, o tempo voa
E toda a discussão é inútil.

Olha, as flores florescem à beira do bosque,
Trazendo uma mensagem do céu,
Porque é um amigo da terra;
Com as chuvas de Julho
A erva inunda a terra de verde,
E enche a sua taça até à borda.
Esquecendo a identidade,
Enche o teu coração de simples alegria.
Viajante,
Disperso ao longo do caminho,
O tesouro amontoa-se à medida que caminhas.


Rabindranath Tagore, in Poesia, trad. José Agostinho Baptista, Junho de 2004, pp. 204-205.

Domingo, 27 de Março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #13

Os dois primeiros versos de Shahid 1, o tema que abre Spears Into Hooks (1999), são sintomáticos dos tormentos que atravessam todo o trabalho de Meira Asher: «another religious boy again, does another act of a saint / bus, bike, boat or by feet, shahid drives a holy dead beat». Israelita, Asher não poupa nas palavras nem nas imagens. Nas suas canções encontramos excertos de textos hebraicos tradicionais misturados com discursos nazis; relatos de crianças palestinianas, sobre os efeitos na carne das balas disparadas pelo exército israelita, ao lado de testemunhos de sobreviventes ao holocausto; evocações de Primo Levi (“se questo é un uomo”) e a voz de Eichmann... A pergunta já não é sobre a possibilidade da poesia após o holocausto, mas sim como ainda foi/é possível Sarajevo, Ruanda, Palestina após o holocausto? Parece haver na natureza humana uma insanável e insuperável tendência para a violência, manifestada em exercícios coercivos de soberania, guerras, invasões, com objectivos políticos sempre obscuros e, de certa forma, incompreensíveis aos olhos de quem tenha uma perspectiva humanitária do ser humano. Esta música sublinha a natureza vampírica dos homens, tão bem filmada por Abel Ferrara no filme The Addiction (1995). A religião já não é solução, tendo-se tornado parte substancial do problema. Meira Asher socorre-se de variadíssimas combinações sonoras para exprimir de forma expressiva esta dimensão alienante do real. A referência mais incontestável será Galás, mas o satanismo da grega não encontra abrigo nas dúvidas metafísicas que tingem a musicalidade da autora de Vio Smear. Em vez de crucifixos invertidos, o álbum de Meira Asher ostenta na contracapa uma andorinha crucificada. As vozes que ressoam e gritam sob ruídos e programações minimalistas são ecos que anunciam a continuidade do crime. Estejam atentos. Não sugiro a audição/visão deste vídeo a pessoas mais susceptíveis.

SOBREVIVER

«A sobrevivência faz-nos esquecer do que é realmente importante». Gosto muito desta afirmação da Maria João, é como se o realmente importante não fosse sobreviver. Se sobreviver não é realmente importante, então o que é realmente importante? Viver? E que outra coisa pode ser viver senão sobreviver? Talvez a sobrevivência não nos faça esquecer do que é realmente importante pois a própria sobrevivência é realmente importante e, assim sendo, seria ilógico ela fazer-nos esquecer de si própria. Talvez seja realmente importante não atribuir importância alguma a estes dilemas, mas sobreviver é o que nos permite afirmar a existência de algo realmente importante. Seja lá isso o que for. Talvez tudo na vida se resuma a este básico dilema.

SOBRE UMA CAPA

Ler a Maria João aqui: Neste rosto, sou assim responsável por pintar um banco de jardim, algo que tendemos a não ver no dia-a-dia desenfreado da cidade; vivo ao lado do jardim Campo Pequeno e por vezes nem o vejo, a sobrevivência faz-nos esquecer do que é realmente importante. Vi no poema do Paulo Tavares, um banco de jardim surgir como uma pausa, um local que permitia também poder prosseguir. Agora, sempre que olhar para um, vou lembrar-me deste livro; o poema do Paulo acrescentou algo à minha realidade, um novo olhar sobre os bancos de jardim. A poesia, assim como a pintura, têm essa a capacidade de acrescentar um quase-nada à nossa existência, ao serem pausa para poder prosseguir, quase-silêncio, um espaço-tempo para ver, ouvir, ler e reflectir. Foi assim que a minha mão ouviu, foi assim que a minha mão viu, foi assim que a minha mão pensou “Linhas de Hartmann”.

LINHAS DE HARTMANN

Que fazem um filósofo alemão do Inconsciente e um escritor austríaco de apurada veia satírica à entrada de um poema? O filósofo é Eduard von Hartmann (1842-1906), para quem a realidade não pode ser explicada sem a admissão de um Inconsciente que gera e mantém muitos dos fenómenos do mundo. O escritor é Karl Kraus, nascido na parte checa do Império Austro-Húngaro, incorrigível polemista que considerava a “psicanálise uma doença que se propunha enquanto cura”. Os dois princípios parecem opor-se. Porém, um poema tudo torna possível. Paulo Tavares (n. 1977) trouxe do primeiro o título do seu mais recente livro, Linhas de Hartmann (&, etc., Fevereiro de 2011), e pediu de empréstimo ao segundo a epígrafe para o seu poema: «Não se pode amedrontar com o absurdo um mundo que é capaz de suportar o seu fim, desde que lhe não neguem a sua apresentação cinematográfica». O conhecimento das obras destes autores não é imprescindível para a compreensão do que se segue, mas ajuda a perspectivar a natureza de “um texto” onde a palavra absurdo, enquanto síntese da realidade, parece ter um papel preponderante. Linhas de Hartmann é um longo poema, dividido em duas partes genéricas (Meio Caminho e Fim de Década) que, por sua vez, se subdividem em fragmentos de extensão diversa. Uma nota final aponta para o ano de 2004 como aquele em que o poema começou a ser delineado, o que não será estranho ao leitor atento à produção poética disseminada pela Internet na última década. Entre 2004 e a actualidade, este poema sofreu naturais modificações. Se isto revela, por um lado, preocupações ao nível da organização, por outro lado acentua a importância que o autor atribui à forma na construção do seu trabalho. É importante sublinhar que, neste caso, o conteúdo não se esgota na forma, sendo esta, antes pelo contrário, a estrutura que reforça a afirmação daquele. Há pormenores que não são despiciendos. Um deles é a utilização de parêntesis rectos como que introduzindo suspensões na dinâmica avassaladora dos versos. O poema começa precisamente com um desses momentos. Ao fazê-lo, Tavares chama-nos a atenção para o facto de este poema ser anterior à sua própria escrita, ou seja, antes do primeiro verso há uma relação com a realidade que, sendo inegável, encontra na escrita um momento, ainda que ténue, de cisão; o poema pode, então, ser entendido como um desses momentos em que, ao mesmo tempo, recuperamos o fôlego dos dias e condensamos a nossa relação com a realidade. A imagem recorrente do banco de jardim é a metáfora mais directa desta relação: «um refúgio / o banco uma tábua de salvação» (p. 11). Um outro pormenor formal é a quase ausência de pontuação, imprimindo aos versos um ritmo estonteante que mina a inclinação narrativa das descrições que percorrem o poema, sobretudo quando a paisagem urbana é captada na sua infernal hostilidade: «viver no quinto andar de um prédio dos subúrbios / velho e sujo e contíguo ao terminal ferroviário / trazia alguns inconvenientes queria dormir / vencer o cansaço a cama rangia só depois das quatro / da manhã havia algum silêncio de tempos a tempos / passava um comboio de mercadorias tardio / e os vizinhos de baixo discutiam com frequência» (p. 13). São descrições que nos remetem, a título de exemplo, para um Álvaro de Campos, cuja característica mais evidente seria a de um cansaço existencial sem solução aparente. Neste caso, as descrições são interceptadas amiúde por itálicos de índole diversa. No seu conjunto, podemos falar de um longo monólogo afectado pelos elementos que determinam a vida dos homens na urbe: a velocidade, a importância vital de suspender, mesmo que por instantes, essa terrível velocidade, o carácter extremamente agressivo e degradante do real, a poesia enquanto respiração, materializada na figura do banco do jardim («era no banco do jardim que recuperava / o fôlego desses dias»), o desajustamento do poeta à realidade, uma certa desesperança confessada na última estrofe da Parte I do poema: «continuo a correr / com o risco iminente de um ataque cardíaco / ou pior esquecer-me desistir da arte / da beleza perder a noção de equilíbrio / transformar-me em definitivo num sobrevivente / olhando para trás e julgando de uma obtusa / ingenuidade essa importância outrora alojada / em dois ou três minutos no banco do jardim / da cidade inclinada sobre o rio» (p. 27). Embora pudesse ser uma cidade qualquer, sabemos que a cidade de que fala Paulo Tavares é aquela com a qual o poeta mantém uma relação vivencial quotidiana. O cansaço aqui acusado e o desespero pressentido compõem um retrato sobre a primeira década do século 21. Mas essa década não exclui o espanto e a surpresa: «Estávamos na primeira década do século 21 / o mundo era redondo e achatado nos pólos / o Sol permanecia como astro central do sistema solar / e segundo recentes descobertas científicas os anéis / de Saturno emitiam melodias quando atingidos / por meteoritos» (p. 31). Ora, é nesta dúbia natureza − por um lado temos um monólogo, por outro lado uma paisagem − que Linhas de Hartmann se impõe como um dos melhores poemas portugueses do início deste século. Na Parte 2 do poema o tom não sofre inflexões nem exagera o tal desespero, antes parece vislumbrar numa postura mais irónica, inclusive auto-irónica, o desenredo possível para esse sentimento de deslocação aposto à realidade. Deste modo, um emprego trivial e a deferência no cumprimento das tarefas, o uniforme, a simpatia forçada e os momentos embaraçosos, a postura, o percurso entre a faculdade e o trabalho, «a lógica do tempo enquanto ruína circular» (p. 41), na sua absurda e inconsciente determinação, encontram o mais elementar dos desígnios: «o ruído da máquina de café faz-me companhia / anoitece tão depressa agora que nos afundamos em dezembro / o pátio do edifício está deserto os corredores também é sexta-feira / de uma semana perdida no calendário estamos na primeira / década do século 21 o mundo é redondo e achatado nos pólos / e de Saturno chegaram notícias surpreendentes» (p. 52). Haja esperança.

Sábado, 26 de Março de 2011

Quinta-feira, 24 de Março de 2011

A SUL DE NENHUM NORTE


Um revista on-line que tem weblog e se pode imprimir. Colaboram no primeiro número: Ana C., Ângela M., Beatriz Hierro Lopes, Bruno Béu, Cecilia Eraso, Celeste Wladyka, G. K. Chesterton, Gonçalo Martins, Henrique Manuel Bento Fialho, Idra Novey, Joana Serrado, João Rios, João Villalobos, Jorge Fallorca, Kenneth Traynor, Marco Moura, Maria Sousa, Michel Laub, Nuno Abrantes, Pedro Jordão, Pedro Outono, Pedro Santo Tirso, Renato Carreira, Rui Almeida, Sofia Ferreira, Sonata Paliulyté, Tatiana Pequeno, Tiago Gomes. O meu texto começa assim:

O NOVO E A NOVIDADE

Já tudo foi escrito. A gente lê um livro e não consegue distinguir os escritores dos agiotas, saloios empertigados, artistas de variedades que se limitam a copiar, a imitar, a pantominar aquilo que já foi escrito por outro. Uma frase arrancada daqui, um estilo sorvido dacolá. Está conquistado o público, essa massa acéfala para quem a novidade é o melhor dos estímulos. Crápulas. E menos crápulas não são os leitores que pactuam com este estado geral de hipocrisia. Pretenderão sentir-se menos sós? Reverem-se nas palavras amestradas dos artistas de circo? Comprem espelhos. Troquem livros por espelhos. Olhem para mim.
Pisemos os livros, pisemos os livros bem pisados. Pisemo-los como se fossem baratas, bichos repelentes que apenas servem para serem pisados. Não hesitemos. A serra dos mortos continua a crescer, qualquer dia atinge as nuvens e depois choverão ossos. E nós no paleio. É preciso ser diplomático, aceitar as regras do jogo. Afinal foi para isso que inventámos a liberdade maquilhada, essa coisa que dá pelo nome de democracia. Enchamo-la de mortos, que ainda são poucos. Ironizemos.
Os vivos têm quem os atormente, os mortos têm o esquecimento (Albino Forjaz de Sampaio). Sejamos, pelo menos, cínicos. Apaguemo-nos nos livros. Sejamos cínicos, sejamos cães. Só quando pelas torneiras escorrer o sangue que tinge as águas dos rios, sentiremos o contentamento do nosso ódio. Só quando no deserto os oásis forem plantações de carne putrefacta. O nosso adversário é a indiferença. E nós para aqui a falar...
Para quê tanta algaraviada? Porque o silêncio ainda é a maior dificuldade da solidão. Mas reparem como estamos todos tão próximos uns dos outros nesta era pós-humana, reparem como falamos todos uns com os outros sobre tudo e mais alguma coisa. Só não valem abraços. Isso é gesto do amor e o amor é o maior inimigo de quem teme. Insinuemos. Dissimulemo-nos. Abramos um livro e inspiremo-nos. Busquemos a eloquência dos génios, inventemos uma palavra, armadilhemo-nos com neologismos ininteligíveis, metáforas vazias de sentido, analepses, elipses, anáforas, metalinguagens. Sejamos estilo. ESTILO. Ficaremos bem na fotografia, ao lado dos mortos fardados e dos outros, pobres coitados, tão livres no convite que aceitaram para o céu. A insinuar somos todos heróis. A consumir imagens, imagens de balas atravessadas no silêncio dos artigos, das colunas, das gordas e das magras, das crónicas, desses contemporâneos modos de definir o mundo. Esta corrida seremos nós a vencê-la. Não, não e não. Os outros que sigam pelas auto-estradas do ódio, nós iremos pelos atalhos do amor. Do
amoródio.
Talvez não saibas, leitor hipócrita, que a liberdade falhou. Alguém que nos desvie dessa falha. Nem que seja nos e pelos livros, esses objectos de uma vaidade incomensurável que é a pretensão de sermos livres. Livres por meros instantes. Saudemos os corpos esventrados, os olhos revirados, os crânios estilhaçados, os troncos sem braços, os braços sem dedos, os dedos sem unhas, saudemos as cabeças sem tronco e membros, saudemos a fome, saudemos a miséria, saudemos o ódio, mil vezes viva ao ÓDIO! Estamos vivos entre os mortos, estamos mortos entre os vivos. Façamos do ódio uma técnica para a libertação. A coerção será a solução. Não é preciso imaginar um mundo de soldadinhos minúsculos, o júbilo que enriquecerá as agendas dos poderosos, críticos com coluna reservada no suplemento literário. Ele está aí, bate-nos à porta todos os dias. Mas nós, os vaidosos, escondemo-nos dele nas páginas de um livro, de um simples livro que não é um livro, é um lego. Quando chegar o dia pelo qual todos esperamos, um morto valerá apenas uma unha cortada. Em tempos julgámos ser as mãos de Deus. Agora que Deus ficou maneta, quem seremos nós?









E depois continua, continua, continua num chinfrim inenarrável.

ASSINALAR NA AGENDA

Amanhã, o Nuno Moura estará no Botequim a dizer poemas. É lá para as 22h. Depois, no Sábado, o Paulo Tavares e a Maria João lançam Linhas de Hartmann, o mais recente livro do Paulo, na Sociedade Guilherme Cossoul. É às 18. Às 22h voltamos a ter leitura de poesia no Botequim, desta feita com o Rui Almeida. Queres ver que vou até à capital…

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #12


Em 1984 William Burroughs publicou um ensaio intitulado Electronic Revolution (A Revolução Electrónica, Vega, 1994), onde partilhava a sua filosofia da linguagem partindo de uma teoria de base: «a palavra escrita foi literalmente um vírus que tornou possível a palavra falada». Laurie Anderson pegou nesta doutrina patológica da linguagem e encenou-a num espectáculo que ficou registado no disco Home of The Brave. Convém esclarecer que se trata de uma banda sonora para um filme montado em torno da tournée do disco Mister Heartbreak (1984). No entanto, resultou num objecto singular e até algo desviado dos álbuns anteriores de Laurie Anderson. Na sua singularidade, Home of The Brave acabou por ser vítima de uma incompreensão que hoje, à distância de 25 anos, pode e deve ser sanada. O que escutamos neste conjunto de canções é uma manipulação de sons respeitadora de algumas técnicas predilectas do autor do romance The Naked Lunch. Não por acaso, a voz de Burroughs aparece logo deformada num dos temas iniciais (Late Show). Language Is a Virus não engana. Anderson recorre ao cut-up, num trabalho de colagem que mistura línguas e registos vocais sob o domínio dos sintetizadores, para nos oferecer paisagens dinâmicas e justapostas. Não importa tanto reflectir a realidade como simulá-la nas suas dimensões mais variadas. Daí que a música nos soe tão estranha quão sedutora. Foi exactamente o que senti quando assisti a um espectáculo de Laurie Anderson numa inacreditável primeira parte de Bob Dylan, já lá vão uns anitos valentes. Sedução e estranheza, isto é, espanto, algo sempre novo e não subjugado à monotonia dos dias. Vejam e escutem esta raridade.

Quarta-feira, 23 de Março de 2011

O PAÍS DAS MARAVILHAS

Uma convicção profunda me diz que o fim deste governo mais não é do que o recomeço deste governo.

UM BOM EMPREGO




Quando alguém se olha nas águas de um rio e não reconhece o seu próprio rosto, tende a culpar o tempo. Mas o tempo não tem culpa. Mais tarde ou mais cedo todos nós ficamos irreconhecíveis aos nossos próprios olhos. Uns dizem que é da sociedade, essa corruptora de homens, outros crêem ser da idade. Há também quem julgue tratar-se de ilusão de óptica ou de alucinação, mas a verdade é que nenhuma deformação do rosto se afirma tão peremptoriamente como esta. Não busquemos culpados para a queda. O desamparo é evidente, nada o pode evitar. E a culpa só tem uma fonte: a desgraça em que nascemos e o estigma da morte que vai corrompendo a pele, como uma tatuagem estendendo-se pelo corpo, à medida que tomamos consciência da nossa inutilidade. Manuel Laranjeira, malogrado poeta e pensador inquieto, dizia que «um minuto de vida bem empregada vale mais do que a eternidade da vida inutilmente vivida». É uma frase de belo efeito que nada resolve. Leva-nos a questionar a pertinência do raciocínio que nela reside adormecido. O que é empregar bem a vida? O que é uma vida inutilmente vivida? O que é a eternidade? Esteticamente irrepreensível, de uma perspectiva meramente técnica aquela frase nada diz que não possa ser considerado elementar e inútil. Talvez pretenda alertar-nos para o valor subjectivo de algo que podemos classificar de um bom emprego da vida. Empregar bem a vida. Fazendo o quê? Socorrendo a miséria alheia? Disfarçando a nossa própria desgraça? Fazendo simplesmente pelo prazer de fazer? Assunto sério e barbudo, com ecos longínquos, muito longínquos, naquelas primitivas tentativas de pensar o sentido da vida e a arte de viver. Temos por certo duas balizas: nascemos e morremos. Podemos ser indiferentes ao público, aos administradores do terreno em que jogamos as nossas vidas, podemos inclusive pensar que nada mais há do que esse campo onde, entre duas balizas, afirmamos a nossa existência. Uns batalhando, outros desistindo, outros fazendo da desistência uma batalha. Alguns tendem a olhar para tudo isto com indiferença, tanta quanto a ingenuidade que logo lhes descobrimos. Colocam-se na posição do roupeiro, fazem o seu trabalho e deixam-se arrastar pela contingência das emoções. Sou sensível a essas posturas. Por outro lado, penso que independentemente das funções estamos todos dentro do campo. No limite, é como se deixasse de haver jogador e empresário, roupeiro e técnico, presidente e director geral… A doença esbate as fronteiras que nos separam. Na cama, enfermos, somos todos igualmente frágeis. E a cagar somos todos igualmente ridículos. Portanto a questão é mais pragmática. Conscientes das balizas, procuramos a satisfação do tento. Um golo, o sucesso, a admiração e o aplauso, o reconhecimento. Em nome de quê? De uma necessidade que nos está nos genes. A necessidade de afirmação. Ela pode ser mais ou menos evidente, uns disfarçá-la-ão melhor do que outros, e poucos determiná-la-ão de modo exactamente igual, mas essa necessidade, intrínseca à natureza dos homens, move-nos para o abismo como a cegueira aos cegos de Brueghel. Será que empregar bem a vida é empregá-la no sentido da satisfação dessa necessidade? Todas as civilizações entenderam a gravidade desta questão. Por isso, apressaram-se a propor alternativas: a abstinência, a abnegação, a sabedoria socrática, não a consciência de uma infindável ignorância, mas o autoconhecimento e o autodomínio enquanto algemas da perniciosa paixão. Eu sempre tive para mim que o sábio não é aquele que domina as paixões, mas antes aquele que não teme apaixonar-se por se reconhecer derrotado à partida. Os homens apaixonados são perigosos, os devotos do corpo, os hedonistas, que mais não são do que cínicos sem espírito, são malignos, os epicuristas, plantas amenas de um jardim de delícias, são gente de quem devemos desconfiar e os estóicos, ainda que admiráveis, são pouco recomendáveis. O mesmo vale para os franciscanos, para os místicos, para os anacoretas e, sobretudo, para os poetas, herdeiros de uma estranha e inconformada lucidez que, com os tempos, se transformou na serpente que se devora a si mesma. Um minuto de vida bem empregada pode ser, pois então, esse minuto que dispensamos a tragar o vinho, a ejacular ou, simplesmente, a premir o gatilho que nos antecipa a morte. Dois dedos de conversa, talvez. O silêncio da escrita parece-nos sempre melhor. Evitamos as más companhias que nos fazem desperdiçar preciosos minutos. Preciosos são todos os minutos inúteis.



Ao alto: o rosto da mulher amada numa tela de Lucio Fontana. Dizem que foi vítima do Freddy Krueger.

A FRASE DO DIA

Ricardo Costa: É preciso perceber que o que hoje foi chumbado vai ser aplicado.

Terça-feira, 22 de Março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #11




Provavelmente, os Kiss My Jazz ter-me-iam passado despercebidos não se desse o caso de muitos dos seus elementos estarem intimamente ligados aos belgas dEUS. Doc’s Place Friday Evening (1996) é um registo ecléctico que tem no jazz e na improvisação a sua matriz. Tudo gravado em rudimentares gravadores de 4 e 8 pistas, mas com um sentido artístico e um refinamento musical ímpares. Instrumentos de sopro, guitarras, percussão, baixo, registos vocais entre o sussurro e a conversa de café, brinquedos de plástico… compõem o ramalhete. Não é difícil vislumbrar referências nos cerca de 20 temas disponibilizados, quer quando as guitarras enveredam por registos funky, quer quando assumem um groove quase Kitsch, mas logo essas referências são superadas por intromissões sónicas, ruídos, experiências sonoras que nos desviam dos percursos mais comuns da imaginação. A sujidade que tinge a maioria dos temas também não facilita a tarefa auditiva, exigindo antes uma postura liberta de preconceitos e de estereótipos. Bodybag, por exemplo, é descrito como um tributo a Chet Baker que resvalou para uma «film noir mortuary song». Infelizmente não se encontram muitas destas pérolas por aí à solta. Consegui desencantar este momento que talvez ajude a ficar com uma ideia de como o caos funciona.

OS TRANSPORTADORES

Misturam-se nesta história muitas personagens. Imaginem alguém que trabalha num Centro Comercial e que, à hora do café, pára para observar não as pessoas que entram e saem das lojas, mas os próprios lojistas, os seguranças, a malta da administração, os funcionários das limpezas. De vez em quando faço isso, mas para já fico-me pelo início do dia. Às 9:00 pico o ponto para receber transportadores. O rapaz dos Correios tem uma máquina com que regista os códigos de barras dos volumes. Hoje explicou-me que a máquina decorou o meu nome, estava todo feliz a contar-me as vantagens da memória num instrumento daqueles. Fui verificar e reparei que passei a chamar-me Henrique Fiasco. Há máquinas com um sentido crítico deveras apurado, ninguém lhes pode negar a pertinência e a justeza dos juízos. Um outro chega-me invariavelmente atrasado, parece o coelho do País das Maravilhas. Queixa-se da vida, de que tem filhos a mais, da correria, da falta de tempo, das artroses, do preço do gasóleo, e enquanto se queixa espalha pela loja um odor a trabalho que só não repele a freguesia porque àquela hora ainda não há. Depois temos o homem-espanta-espíritos. O homem-espanta-espíritos carrega molhos intermináveis de chaves pendurados nas presilhas das calças. Ainda está no cais e já lhe escuto o chocalhar do ferro. Tem dias que resmunga do peso das caixas, mas quando assim é chamo-lhe a atenção para o peso que traz à cintura. Talvez aliviada a cintura as caixas não causassem tanto dano à coluna. O problema é que ele não liga às chamadas de atenção e põe-se de imediato a explicar o porquê de cada uma das chaves. Um destes dias escrevo um conto sobre o porquê de cada uma das chaves. Há sempre uns tipos com quem simpatizamos mais e outros que só de os vermos ficamos arrependidos do trabalho que temos. Destes procuro distrair-me, embora por vezes me aconteçam acasos de pesar na consciência. Há tempos piquei-me com o cara-de-queijo-suíço, um bexigoso de boina rubra enfiada numa testa oval onde não seria difícil praticar patinagem artística. Roguei-lhe tantas pragas que, no final, a minha consciência devia parecer uma bigorna. Mais ainda quando o desgraçado me apareceu pela frente no dia seguinte, todo manco e a esvair-se em suor, numa pilha de nervos, lamentando-se de um acidente que supostamente sofrera. Tinha capotado e perdido metade da mercadoria. Felizmente, nesse dia só me trazia uma caixa de livros. Um outro fenómeno curioso e dificilmente narrável é o das pequenas transportadoras, empresas familiares que sobrevivem numa misteriosa obscuridade. Há delas tão familiares que às vezes entra-nos a família toda pela porta adentro, mãe, pai, filhos e até carrinho de bebé. O carrinho de bebé aparece quando há algo para recolher. A criança salta para o colo da mãe e as caixas vão de bibe. Dá-se ainda o caricato de, por vezes, a família fazer uma entrega e ficar de visita ao Centro Comercial. Deve ser a isto que algumas pessoas chamam juntar o útil ao agradável. Eu só não percebo onde está o agradável.

DAR E RECEBER

Ontem resolvemos oferecer poemas aos clientes. Camões, Bocage, Cesário, Florbela, Pessoa, Sá-Carneiro. Uma cliente quis levar um de cada, excepto Florbela. Está um dia tão bonito, disse, que ler Florbela seria um crime. Um outro limitou-se a perguntar se tinha de pagar alguma coisa. A iniciativa chamava-se Posso oferecer-lhe um poema?, mas nem com o cartaz bem visível o temor dos custos foi afastado. Andamos todos com o pescoço pendurado à corda da dívida, do preço, da crise, dos juros, que até nos esquecemos de que uma oferta não mais exige do que uma certa (pre)disposição para aceitar/receber.

PÓEISIA

A crer-se em tantos amantes da «poesia» devia ser um estoiro de vendas, mas não, a ingrata vende cada vez menos, em Portugal anda-se pelos 400/500 exemplares por livro, a serem consumidos a conta-gotas, em Moçambique também, em toda a Europa o género está cada vez mais acantonado em nichos, em todos os EUA Ezra Pound vende ao ano 600 exemplares (lamentava-o Octavio Paz, no seu último livro), o que é ridículo – que longe estamos do tempo em que Neruda vendia um milhão de exemplares com os Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada. Tanto amor à «poesia» e veja-se a Grécia, a terra de Homero e Píndaro (e já agora de Seferis e Elytis) onde os cabeleireiros são considerados uma profissão de risco, com direito a reforma completa aos 50 anos, e um poeta morre de fome.

Ler todo o post aqui.

CENSOS 2011

Farto desta merda toda.

Segunda-feira, 21 de Março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #10


É a segunda vez que John Cale entra nesta lista. E logo em duo. Da primeira, com Brian Eno. Agora com Bob Neuwirth, um ilustre desconhecido que publicou meia dúzia de discos e que contribuiu, pasme-se, para a escrita de Mercedes Benz, a emblemática canção de Janis Joplin. A sua contribuição neste disco nota-se em vários elementos de origem folk que contrastam, de alguma maneira, com a natureza urbana das composições de John Cale. Last Day on Earth é aquilo a que a crítica especializada chama muitas vezes de álbum conceptual, ou seja, um objecto que obedece a uma organização narrativa que se aproxima de um argumento cinematográfico ou de uma peça dramática. Neste caso, temos logo no tema inicial, justamente intitulado de Overture, um enquadramento a três tempos da história que se segue: um turista entra num café, é introduzido aos clientes habituais com quem partilha histórias numa viagem interior/exterior de múltiplas descobertas e reflexões. Musicalmente, estamos num território que alterna entre a chamada spoken word, a pop de cariz atmosférico e um rock contido. No tema Pastoral Angst os sons de uma fauna doméstica diversa são acompanhados por um banjo que intercala um discurso irónico sobre a natureza do mundo artístico. Vale a pena a citação: California is the last stop on the great hitchhike / West and now it’s getting a little full / Too many thumbs, well, when you get / Too many people in one place // You get intolerance and contempt and rigidity / And tension and sarcasm, distrust, anxiety, envy, hate, cynicism / Discontent, self-pity, malice, suspicion, jealousy and snobbishness / And this leads right into poetry, painting, sculpture / Dance, music and literature, photography // These are known as the arts and art will break your heart. Ora, californias há muitas. São como os chapéus. O que importa é não enfiar a carapuça, seguir para a próxima estação e parar apenas no regresso (tendo o cuidado e a simpatia de ceder o lugar às velhinhas, às grávidas e aos jovens ansiosos). Aqui pode ser escutado um dos temas mais convencionais do percurso. Digamos tratar-se tão-somente de um breve momento de suspensão para apreciação da paisagem.

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: HUNGRIA




Se não me falha a memória, foi o amigo Almeida quem me ofereceu Um Jardim de Plantas Medicinais, livrinho de Endre Kukorelly publicado em tempos pela Quetzal na colecção Poetas em Mateus. Ao contrário de outras ofertas, esta vinha marcada pelo particular sentido de humor do ofertante: uma etiqueta na contracapa com a respectiva catalogação do livro − Saúde/Medicinas Alternativas. Data de 2004, a etiqueta, e o livro custava €6,50. Nunca um erro de catalogação terá feito tanta justiça a um livro. Considerandos à parte, cabe-nos dizer que Endre Kukorelly nasceu no dia 26 de Abril de 1951 em Budapeste, capital húngara, onde foi criado e recriado. Trabalhou como livreiro e licenciou-se pela Faculdade de Letras da Universidade de Eötvös Lorand. Colaborou com variadíssimas revistas literárias, trabalho do qual se destaca a co-edição da Magyar Narancs, uma relevante publicação semanal de características satíricas com artigos nas áreas da política, sociologia e cultura. Na Wikipédia diz-se que o nome é uma referência à tentativa falhada de plantar laranjas na Hungria durante a época comunista. Esta vertente irrisória é uma das características mais evidentes nos poemas de Kukorelly, que começou a publicar quando tinha trinta e três anos:

PRIMEIRO DE MAIO

Quando se preparava o Primeiro
de Maio, as raparigas
tinham de vestir cuecas novas e
tinham de pintar a farda
com tinta azul ou violeta,
agarra-se-me às cuecas,
manchou-me todas as cuecas,
era uma queixa, mas não fui eu
quem as manchou, só a tinta é que
manchou todas as cuecas,
mostraram, viu-se, estavam azuis
as cuecas, e também um pouco
as nádegas, violáceas,
agarradas pelo azul
.

Professor de Escrita Criativa na Academia de Belas-Artes em Budapeste, Endre Kukorelly tem também amealhado alguns prémios no seu país natal e internacionais (Eslovénia, Berlim, Holanda). Está traduzido em castelhano, alemão e português. Fica um poema:

EXERCÍCIOS REAIS

Eu não gostava de ser rei.
Os reis praticamente
não têm vida própria. Têm sempre
que ter juízo, têm sempre que
prestar atenção. E não se pode estar sempre
com atenção. Sempre a cumprimentar.
Máquina de cumprimentos. Máquina
de apertar mãos. Não pode calçar
quaisquer sapatos. Ele bem queria
os azuis. Mas não pode. Porque tem
de calçar os castanhos. Houve alguém
que inventou isto. Tomam conta
do rei. E também ele
toma conta de si. Para não
sujar a camisa. Tem logo que
vestir outra. Da reserva.
Camisas de serviço. Tem à mão
a reserva. Nem uma pedrinha
pode ter na sopa. No entanto,
uma vez encontrou uma
no puré de legumes. O cozinheiro
ficou tramado. Não o tramem. No fundo,
o rei sentiu-se feliz por encontrar
uma pedra no puré de legumes.
Não tinha ideia de encontrar
fosse o que fosse no puré de legumes.
E logo uma pedra! Até que enfim,
alguma coisa lhe aparecia na sopa.
Enfim, alguma coisa. Aconteceram
coisas. É certo que quase cuspiu
um dente. Esteve quase
para partir um dente. E
afinal não partiu. Ficou
a abanar, mas ficou lá.
Chamaram o cozinheiro.
Mostraram-lhe a pedra.
Dias a fio o pobre cozinheiro
andou mesmo desesperado.
Ainda bem que nada de mal
aconteceu. Rapidamente tudo
foi esquecido. Esqueceram.
Este caso também.
E não se falou mais nisso
.


Endre Kukorelly, in Um Jardim de Plantas Medicinais, tradução colectiva (Mateus, Abril de 1995), Quetzal, Janeiro de 1997, pp. 22-23.

Domingo, 20 de Março de 2011

A MORTE QUE ALGUÉM ESPERA




A morte que alguém espera
A morte que alguém evita
A morte que vai pelo caminho
A morte que vem taciturna
A morte que acende os castiçais
A morte que se senta na montanha
A morte que abre a janela
A morte que apaga as luzes
A morte que aperta a garganta
A morte que fecha os rins
A morte que parte a cabeça
A morte que morde as entranhas
A morte que não sabe se deve cantar
A morte que alguém entreabre
A morte que alguém faz sorrir
A morte que alguém faz chorar

A morte que não pode viver sem nós

A morte que vem a galope no cavalo
A morte que chove em grandes estampidos


Vicente Huidobro, do livro Últimos poemas (1948), in Poesía y Poética (1911-1948), antología comentada por René de Costa, Alianza Editorial, Madrid, 1996, p. 308..
Versão de HMBF

INDIGNAI-VOS


Quem nos fala é um homem de 93 anos, com um currículo existencial suficientemente experiente para que a sua voz, como a de um bom professor, nos mereça toda a atenção. Nascido em Berlim, no seio de uma família de origem judaica com ligações às altas esferas culturais, Stéphane Hessel (n. 1917) naturalizou-se francês em 1937. As razões da deslocação são por demais evidentes. O início da Segunda Guerra Mundial levou-o a juntar-se ao general de Gaulle em Londres, integrando o Bureau de contre-espionnage, de renseignement et d’action. Em Março de 1944 desembarcou clandestinamente em França, foi capturado pela Gestapo, foi torturado e enviado para o campo de Buchenwald. Conseguiu escapar à forca trocando de identidade com um francês que morrera de tifo nesse mesmo campo. Transferido para o campo de Rottlebrode, de onde conseguiu escapulir-se, foi novamente capturado e colocado no campo de Dora, tendo conseguido evadir-se mais uma vez. Finda a guerra, iniciou uma longa carreira diplomática em França. Neste âmbito, uma das suas missões mais importantes terá sido a de integrar a comissão que redigiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Indignai-vos é um opúsculo escrito em contexto de exame final. A consciência do fim leva Hessel a dirigir-se aos jovens e a apelar à indignação, mas uma indignação pacífica. Entende-se este sublinhado se tivermos em conta o caos que invadiu muitas das cidades europeias nos últimos anos. Os confrontos de Paris em 2005 terão sido um primeiro mas eloquente sinal. Para Hessel, este apelo à indignação deve ter por base a defesa dos valores e dos princípios do Conselho Nacional da Resistência francesa, hoje fortemente ameaçados por um poder dificilmente identificável. Torna-se urgente zelar pelas conquistas sociais da Resistência contra a «actual ditadura internacional dos mercados financeiros que ameaça a paz e a democracia». Stéphane Hessel não o afirma com tanta clareza, mas é evidente que o principal inimigo dessas conquistas sociais esconde-se por detrás dos bancos e dos interesses privados dos seus administradores:

Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos destas medidas sociais. Mas como é possível que actualmente não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada? Apenas porque o poder do capital, tão combatido pela Resistência, nunca foi tão grande, insolente, egoísta, com servidores próprios até nas mais altas esferas do estado. Os bancos, agora privatizados, preocupam-se principalmente com os seus dividendos e com os elevadíssimos salários dos seus administradores, e não com o interesse geral. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão grande; e a corrida ao capital e a competição nunca foram tão incentivadas. (p. 21)

Impossível não concordar com o diagnóstico, nomeadamente se tivermos em conta o agravamento das assimetrias sociais num plano internacional. As razões para a indignação são, portanto, mais que muitas. Mas este opúsculo não se restringe a uma fundamentação política da indignação na actualidade. Com os seus exemplos do passado, ele reflecte uma relação nem sempre pacífica, do ponto de vista filosófico, entre desejo de envolvimento, indignação e resistência. Hessel recorda Sartre e o seu polémico apoio a algumas acções violentas. A oposição entre a via pacífica, mas activa e militante, e a via violenta não é de agora. Teve uma curiosa expressão nos tempos da Revolução Industrial com a emergência do Movimento Ludista. No caso do presente opúsculo, a doutrina pode resumir-se em três premissas: «a pior das atitudes é a indiferença» (p. 26), «o terrorismo não é eficaz» (p. 35), na medida em que se afirma pelo exaspero e, nesse sentido, pela recusa da esperança, «é preciso preferir a esperança, a esperança da não-violência» (p. 36).

Este apelo a uma indignação pacífica, mas não pacifista, contrasta com muitos dos desenvolvimentos recentes. A «ruptura radical» com a ditadura produtivista instalada no Ocidente não se compadece com cantorias inconsequentes e manifestações esvaziadas de conteúdo, por muito participadas que possam ser. Ela deve assumir os seus alvos, nomeadamente os bancos enquanto rosto mais visível do espírito imaterial dos mercados financeiros. Uma insurreição pacífica parece já não ser suficiente, nomeadamente quando a esperança de que fala Stéphane Hessel se encontra seriamente ameaçada pela ausência de horizontes. O Estado, essa identidade a quem confiamos a defesa dos nossos interesses, responde apenas à irritação dos mercados, fazendo orelhas moucas do desespero dos cidadãos. Está mais preocupado com a saúde dos mercados do que com a saúde, propriamente dita, das pessoas. Quando assim é, este “indignai-vos, mas com juizinho”, é simpático, mas manifestamente insuficiente. Uma nota final: o prefácio de Mário Soares, na edição portuguesa, era escusado e chega a ser indigno. Não por culpa do autor, mas da editora, a Objectiva, que aí encontrou um pretexto para rentabilizar um texto cuja função primordial não é contribuir para as finanças dos editores. A tradução é de Paula Centeno.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #9


No dia 16 de Setembro de 2002 fui assistir a uma série de concertos designados de Looking For a Thrili. Não era necessário ter estado presente para perceber o que então se afirmou com uma clareza desarmante: aquilo a que chamamos vanguardas resulta, muitas vezes, da conjugação de interesses meramente acidentais que não obrigam a uma partilha ideológica única e estanque. Para o caso, bastava a existência de uma produtora discográfica, a Thrill Jockey, cujo toldo abrigava uma multiplicidade de músicos de interesse bastante variável. Fundada em 1992 na cidade de Nova Iorque, mas posteriormente deslocada para Chicago, a Thrill Jockey soube afirmar a sua identidade dando a conhecer bandas que concebiam uma música precipitadamente catalogada de post-rock. Como todas as etiquetas, esta serve para situar um conjunto de projectos com raízes no jazz, no rock de cariz progressivo e no advento da música electrónica. São estes os elementos fundamentais de uma música de fusão, quase sempre instrumental, que encontrou em nomes como Tortoise ou Trans Am rostos representativos de um género que nunca chegou bem a sê-lo. Músicos como John McEntire, Sam Prekop, Rob Mazurek, Douglas McCombs, entre outros, desdobraram-se em vários projectos tornando-se reconhecidos num meio sem programa definido mas com uma clara intenção: renovar a música jazz. Ao rock foram buscar a energia, mas dispensaram o minimalismo dos três acordes. Essa energia funde-se com estruturas musicais complexas, riffs rebuscados e uma vertente experimental, oriunda do electrónico Krautrock, com consequências deveras estimulantes. É o caso deste Utonian Automatic, dos Isotope 217º, produzido por McEntire. Os músicos são Jeff Parker, Rob Mazurek, Dan Bitney, Matthew Lux e John Herndon, todos eles com ligações aos Tortoise ou bandas congéneres. Sugiro que se escute esta versão ao vivo de Looking for life on mars e esta de Audio Champion. São temas representativos de um tipo de som sem fronteiras nem cedências à facilidade. Permitam-me, no entanto, o parêntesis: alguns dos projectos mais interessantes deste território, porventura menos conhecidos, não estão directamente relacionados com os ambientes culturais supracitados. É o caso dos escoceses Ganger ou dos Slow Loris. É assim com tudo na vida.

ÉRAMOS OS ELEITOS DO SOL

Éramos os eleitos do sol
E não nos demos conta
Fomos os eleitos da mais alta estrela
E não soubemos responder à sua dádiva
Angústia de impotência
A água amava-nos
A terra amava-nos
As selvas eram nossas
O êxtase era o nosso próprio espaço
O teu olhar era o universo frente a frente
A tua beleza era o som do amanhecer
A primavera amada pelas árvores
Agora somos uma tristeza contagiosa
Uma morte ant4es do tempo
A alma que não sabe em que lugar se encontra
O Inverno nos ossos sem qualquer relâmpago
E tudo isto porque não soubeste o que é a eternidade
Nem compreendeste a alma da minha alma no seu barco de trevas
No seu trono de águia ferida de infinito


Vicente Huidobro
Versão de HMBF

ÀS VEZES, LÁ CALHA...


...ser arrastado pela corrente. Desta feita, a bordo do bateau ivre do capitão Fallorca. Mandam as regras que eu faça as minhas próprias escolhas. Escolho desrespeitar as regras.

Sábado, 19 de Março de 2011

O MEU PAI E EU


1.
Pai, és uma flor que brilha,
canta, fala e dança!
És um super-herói que me salva
até quando não podes arriscar!
És muito engraçado e feliz!
Hoje, neste dia, estou contigo
cheia de alegria para que fiques feliz!



2.
És um coração
que dança, fala e canta.
Sabes fazer muita coisa
e sabes muita coisa...
Hoje estou contigo
para que fiques feliz,
cheio de alegria e tão consolado.



Ilustração
: Beatriz
Poema: Matilde
Quando fazemos o último número dos nossos anos, morremos.
Depois o tempo volta para trás, não é?
Beatriz
, 4 anos

Quinta-feira, 17 de Março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #8


Eis um objecto que tendo uns bons pares de anos, mais propriamente dezassete anos (foda-se, como o tempo passa!), nunca deixa de ser novo. Os Hedningarna surgiram no norte da Europa, mais propriamente na Suécia. Com uma música inspirada no folclore escandinavo, foram assumindo uma vertente mais roqueira ao longo dos anos. Trä, este extraordinário conjunto de canções vindas a lume quando o grunge de Seattle andava a provocar estiramentos nos corações adolescentes, causou um espanto ainda hoje contagioso. Dizem os especialistas que o título do álbum significa bosque. No entanto, não se trata de um bosque feérico habitado por seres ambivalentes, deuses e ninfas, gnomos e fadas. É um bosque terrivelmente humano. O segundo tema (Min Skog/My Grove), um dos mais poderosos do álbum, começa com uma motosserra a amputar o tronco de uma árvore, provavelmente centenária, provavelmente para ser transformada em pasta de papel. O álbum fecha com o som apaziguador de um riacho. Mas entre a motosserra e o riacho escutam-se cânticos medievos, vozes de inclinação gótica, iniciáticas, lamentações evocativas de uma chaga aberta no coração da Terra. Há momentos claramente exorcismantes que sugerem um culto, ou um ritual de entrega e de devoção telúrica que coloca no centro das atenções a mais essencial das verdades: nada neste mundo nos deve merecer tanto respeito como a força e o poder da Natureza. Uma música sugestiva, por vezes festiva, outras vezes melancólica, sempre inquietante. Subitamente vem-me à memória Ralph Waldo Emerson: «Para encontrar a solidão, um homem tem de deixar tanto o seu quarto como a sociedade. Quando escrevo ou leio nunca estou só, apesar de ninguém estar comigo. Mas se alguém quiser estar sozinho, que contemple as estrelas». O meu tema preferido é o nono, chama-se Tuuli. Tem por lá umas vozes índias (trata-se de Wimme Saari, que também colabora com Hector Zazou no excelente Chansons Des Mers Froides). Eu gosto muito de índios. Podem escutá-lo aqui. Já agora, não percam este cheirinho de uma actuação ao vivo.

SUPERFÍCIE

O homem curioso começou a escavar um buraco. Pretendia chegar ao fundo das coisas. Quanto mais escavava, mais se sentia avançar na direcção do fundo das coisas. Escavou, escavou, escavou, escavou. À medida que ia escavando, olhava para o alto e pensava: já desci tanto, devo estar a chegar ao fundo das coisas. E então encheu-se de força e continuou a escavar. Até que, à superfície, quer dizer, no fundo do buraco que ele próprio vinha escavando, ou seja, à superfície do buraco que ele próprio vinha escavando, aconteceu aquilo que quase sempre acontece quando escavamos um buraco bem fundo. Apareceu água, que primeiro transformou em lama o fundo do buraco que o homem escavara e, por fim, molhou os pés do homem, subiu-lhe aos tornozelos enquanto ele, sem glória, desunhava-se para sair daquele buraco. E a água chegou-lhe aos joelhos, ele tremeu, chegou-lhe à cintura, ele enregelou, chegou-lhe ao pescoço, subiu-lhe à boca, calou-o para sempre. O homem que queria chegar ao fundo das coisas morreu afogado.

DO MUNDO

A conjugação de eventos é difícil de assimilar. O sismo, o tsunami e a ameaça nuclear no Japão; a iminência da bancarrota em Portugal; a guerra na Líbia. É demasiado ao mesmo tempo. Não estamos preparados para tamanho multitasking emocional. O aturdimento confunde-se com o horror, com o medo e com a raiva, e cria uma mistura difícil de definir. Uma recusa que é também uma aceitação, talvez até uma predisposição. Uma atracção mórbida.

Ler todo o post aqui.

Quarta-feira, 16 de Março de 2011

O NOVO E A NOVIDADE




Os índios que J. M. G. Le Clézio caracteriza em Índio Branco ignoram a arte ocidental, nada sabem da nossa poesia e da sua história conflituosa: «Aquilo que o Índio na verdade ignora, aquilo que achou inútil, é a arte. (...) O Índio sabe que o mundo não é explicável, que não é convertível.» Eles vivem a poesia quotidianamente, não precisam de metrificá-la, de pensá-la, podem tatuar na própria pele a respiração do mundo, não precisam de lapiseiras nem de árvores mortas para afirmar a beleza do universo. Estranha contradição, esta de estarmos dependentes de uma horrorosa actividade destrutiva para a inscrição de um pensamento, de uma atitude, de uma ideia. A natureza sofre as consequências do nosso desespero. Na geografia industrializada que deforma os homens ocidentais, estas ferramentas − a lapiseira, o papel − revelam-se fundadoras de uma afirmação e de uma respiração ameaçadas pelo tempo. É a consciência interna de uma falta, de um erro, de um defeito, que nos leva a registar a passagem pela Terra. A utilidade da arte prende-se a esse defeito.

Hoje em dia os nossos poetas podem dizer: «A poesia é inútil, como se sabe. Isso agrada-me. Há uma inutilidade útil na poesia, isto é, uma ética, que continua a interpelar-me. O poema não tem «lugar»» (Luís Quintais, Agio). Ideias simpáticas, porém autofágicas. Já anteriormente vimos que a lógica obriga a que uma inutilidade útil não possa ser reduzida à mais fraca das suas condições. Se é inutilidade útil, é útil. Logo, não é inútil. Esta inutilidade útil da poesia, ou utilidade inútil da vida, é o grande paradoxo com o qual todo aquele que cria tem de aprender a viver. Criar, como também já vimos, não deve ser entendido no sentido presunçoso que é o de tentar fazer crer na possível produção de algo absolutamente original. Originais são as estrelas, que estando vivas não deixam de já estar mortas. A fenomenologia ensina que somos seres abertos ao mundo, em diálogo com o passado mas, também, em relação com o futuro. O nosso futuro é esse desfazer-se lento do presente, é cada segundo que conquistamos ao passado, e é nesse futuro que o novo se afirma.

Os índios de que J. M. G. Le Clézio fala nada sabem acerca do novo. Nós é que sabemos. Quando chegámos às Américas chamámos ao território de Novo Mundo, coisa nunca antes vista. O que é, então, o novo? O novo é tudo aquilo que é capaz de gerar espanto, capturar-nos da modorra dos dias, é tudo aquilo que nos surpreende. O novo é o Sol, que sempre ali esteve, e o mar, esse feroz e temível inimigo dos homens, é a trovoada que inspira medo, é, em última análise, a obra humana que nos deixa boquiabertos, sem fôlego ou em estado de levitação. Nesse sentido, o novo distingue-se da novidade. A novidade é um conceito puramente capitalista que perverte o novo. A forma mais eloquente dessa perversão é a balela dos novíssimos, uma aldrabice que outro intento não tem senão gerar interesse por algo que carece de identidade. A identidade conquista-se quando conseguimos escapar à novidade para nos afirmarmos pelo novo. No novo não existe intenção, existe crise. E essa crise é a da ruptura com as horas, com a modorra e a indolência dos dias. Ruptura não significa negação, significa interrupção.

Eu nunca vi uma coisa assim, dizem as pessoas quando questionadas sobre o temor causado pelo incêndio que devastou a serra ou o tornado que levantou as telhas. E, no entanto, coisas daquelas vão-se repetindo ao longo dos séculos em todas as partes do mundo. Ser exigente é buscar coisa nunca antes vista, algo que interrompa a modorra dos dias. Uma linguagem nova? Nada disso. Um manifesto estético diferente dos outros? Nada disso. Tudo isso está feito e refeito, já tudo foi escrito e, no seu tempo, Sófocles terá sido aos olhos de muitos um enfadonho déjà vu. Trata-se de conseguir tocar no mais inacessível lugar do ser humano: o lugar do espanto. E esse lugar, como é óbvio, é relativo. Uma coisa tanto pode causar espanto pela sua tremenda simplicidade como pela sua extrema dificuldade. Mas quando causa, gera uma ruptura, interrompe a nossa convicção de um mundo fastidioso. Uma ruptura do ser consigo próprio, uma espécie de incómodo, até insatisfação, algo inexplicável e que, por isso, se mete num poema. O que não causa espanto é a novidade, essa apenas subverte o novo, a novidade resulta de um discurso mercantilista e snobe, típico das sociedades de consumo e da sua avidez pela moda, pela última grande tendência, pelos heróis de pacotilha e pelos génios de latão. A gente relê Sófocles e sempre sente que há ali algo de novo, a gente passa os olhos por centenas de páginas vindas a lume recentemente e percebe que não há ali senão novidade. Tédio.

Terça-feira, 15 de Março de 2011

É 29 DIAS DEPOIS DO DIA DAS MENTIRAS

30 de abril
celebramos com amigos os vinte anos de delírio.
há revista nova...vários anos depois. serve para comemorar os vinte anos da editora.


30 de abril no sítio da nazaré
juntamo-nos para ler Rui Almeida, Jaime Rocha, Miguel Martins,
Silvia C. Silva, Fernando Guerreiro, Jorge Velhote, Henrique Manuel Bento Fialho, Rui Tinoco, Wellintânia Oliveira, José Carlos Freitas, ou para ver as fotografias de Alexandra Demenkova e Steve Delgado,...e outros.


mais novidades
em breve
em
emdeliriohavinteanos.blogspot.com

Segunda-feira, 14 de Março de 2011

PRIMEIRA ANTOLOGIA DE MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA (VERSÃO ÁRABE)




A Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, organizada por Rui Costa e André Sebastião, foi publicada em Marrocos, pela editora Racines, com o apoio da Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas e do Ministério da Cultura. A tradução é de Said Benabdelouahed. O prefácio continua a ser meu, apesar de algumas alterações produzidas especificamente para esta edição. Os contos são de Alcides, Alexandre Au-Yong Oliveira, Fernando Dinis, Fernando Esteves Pinto, Fernando Gomes, Filipe Guerra, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, João Carlos Silva, Luís Ene, Maria João Lopes Fernandes, Paulo Rodrigues Ferreira, Paulo Kellerman, Pedro Afonso, Pedro Amaral, Rafael Mota Miranda, Rui Almeida, Rui Costa, Rui Manuel Amaral, Rute Mota, Sara Monteiro e Sónia Duarte. Lê-se de trás para a frente, como os livros de manga.

A RESPOSTA AO PAULO TAVARES

No passado dia 8 deixei aqui um texto sobre o primeiro número da revista Agio. Dois dias depois, o Paulo Tavares e a Sara M. Felício, editores dessa mesma revista, deixaram o seguinte comentário ao meu texto: «Henrique, saindo um pouco da nossa postura quanto a comentar este tipo de crítica, gostaríamos de deixar aqui registado que consideramos este texto relativo à Agio superficial, redutor e repleto de anti-corpos que nada têm que ver com aquilo que, supostamente, deveria ser a análise da revista em si.» Concordei com a apreciação de superficialidade por ser um feroz militante da mesma, o que, de resto, me levou a simpatizar com o artigo de Jorge Martins Rosa, publicado nessa mesma revista, onde se cita Susan Sontag e o seu memorável Against Interpretation. É um defeito que vem de longe, culpa da formação filosófica, este de resistir à presunção de essências, númenos, verdades ocultas e reflexões sobre reflexões que não servem senão para exercitar o espírito dos homens. Prefiro uma lamentação dos índios da América do Norte a Que é Uma Coisa?, de Martin Heidegger - 230 páginas para nos dizer que uma coisa é uma coisa. Portanto, se me acusam de superficialidade recebo a acusação como um elogio. Nas profundezas da terra só conto parar quando estiver morto.

Quanto à questão de o texto revelar uma leitura redutora, já não posso estar de acordo. As leituras são o que são. Neste caso, a minha leitura, assumidamente superficial, não foi redutora, apenas e tão só procurou debruçar-se sobre um objecto onde não encontrou mais que pudesse ser dito do que aquilo que foi afirmado. Que mais haveria a dizer? Que gostei muito do poema do Miguel-Manso que já conhecia do livro Santo Súbito mas achei o original oferecido à revista absolutamente frívolo? Que os poemas do Nuno Dempster são excelentes e que eu espero daqui a dias não ser por ele envenenado numa refeição prometida? Que o ensaio do António Carlos Cortez é uma seca e o do Ricardo Marques está francamente mal escrito? Que os poemas da Soledade Santos estão para o espírito como as compotas que ela confecciona estão para o paladar? Que a entrevista ao Luís Lucas é papel desperdiçado? Enfim, tudo isto são opiniões que a gente pode ou não fundamentar. Num post é difícil sem ser fastidioso. E eu não quis ser fastidioso, quis ser prático. Por isso mesmo avanço para a acusação que não percebi, a acusação de o meu texto estar repleto de anti-corpos, a mesma que foi, entretanto, desenvolvida pelo Paulo Tavares no e-mail aqui reproduzido.

Se bem li o e-mail do Paulo, os anti-corpos explicam-se a partir da leitura que eu fiz da introdução dele ao primeiro número da Agio. Ora, deixem-me recordar o que eu disse a esse propósito:

Tratando-se de uma revista de literatura especialmente inclinada para um género literário, a poesia, subentende-se nas palavras de Paulo Tavares, senão a ambição, pelo menos o desejo de alargar o público da criação poética. Nada a contrapor. No entanto, na nota introdutória deste primeiro número, o mesmo Paulo Tavares afirma que «na génese da Agio não há uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo». Talvez fosse muito pedir tais custos, mas nunca é demais esperar de uma revista nova a ousadia de, pelo menos, propor algo de novo. E, nesse sentido, apenas nesse sentido, a Agio mostra-se, para já, algo débil e até previsível.

O que eu quero dizer com isto? Talvez mais ou menos o mesmo que Vicente Huidobro dizia quando afirmava o seguinte: Si no se ha de decir algo nuevo, no hay derecho para hacer perder tiempo al prójimo. O que tem a Agio que outras revistas não têm? Do meu ponto de vista, muito pouco. Repete a estrutura, não inova senão na divulgação de nomes menos divulgados, alguns dos quais das minhas afinidades electivas. Esse esforço é meritório, mas não é suficiente para a afirmação de uma publicação colectiva. O leitor exigente, e eu não me considero outra coisa, deve dizê-lo desassombradamente e pedir mais e melhor. O tom não é crítico, muito menos malicioso, como o Paulo sugere, é, antes pelo contrário, exigente. Toda a gente sabe, e eu sei-o por experiência própria e sinto-o todos os dias profissionalmente, que o mercado livreiro português fede de esterco publicado e até promovido na base exclusiva da boa camaradagem. Também toda a gente sabe que os critérios de exigência a nível nacional, neste como noutros domínios, são muito inferiores ao desejável. Menos gente saberá, porque também menos gente se interessará pelo assunto, que a poesia é um género particularmente ameaçado por essa situação. Portanto, todos os investimentos na sua divulgação, promoção, dilatação deverão merecer a nossa simpatia, mas jamais o nosso conformismo. Isso seria o pior de tudo. Cabe-nos um discurso exigente. E esse discurso, do meu ponto de vista, é o da ruptura, é o da desconstrução, tal como o entendo e não como, aqui e acolá, uns por ignorância, outros por implicação, outros por mera e incorrigível estupidez, ele vem sendo treslido.

Quem tenha lido O Meu Cinzeiro Azul saberá o que penso sobre todos estes assuntos. O intróito das Estórias Domésticas também afirma alguma coisa sobre o tema e as Estranhas Criaturas são (des)construções poéticas em prosa do que aqui estamos a falar. Quem não tenha perdido tempo com esses livros, tem a hipótese de percorrer centenas de posts aqui antologiados (este weblog tem cerca de 3250 entradas) onde, ao contrário do que o Paulo afirma, eu não me limito a valorizar o que ele considerará de dúbio mérito literário, mas ouso na afirmação de um homem com frio, esse homem que procura algo mais do que o conforto imediato da aceitação dos seus pares, os quais adoptam recorrentemente o discurso vazio da inutilidade da poesia, ainda que a escrevam, a publiquem e até se arroguem em criticar a dos outros, tanto quanto vão sublinhando a inutilidade da vida, a deles, sem que se dêem ao simples denodo de espetarem um tiro nos cornos. Para mim é uma questão de coerência, escolhi a via solitária e burguesa e nela hei-de caminhar folgazão até ao fim da vida. Desprezo as academias, evito as congregações e sinto-me como peixe na água na minha própria asma.

Não havendo na Agio uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo, há algo que, está visto, nos liga. E talvez por nos ligar me decepcionou neste primeiro número. Quem tenha lido Revistas Literárias do Século XX em Portugal saberá que uma revista não é só um esforço de divulgação da poesia, perceberá que Orpheu, Presença, entre outras publicações, foram muito mais do que esse simpático esforço. Foram publicações que geraram tensões, contribuíram para uma dinâmica que é a dinâmica da ruptura dos paradigmas, não com o pressuposto de se instalarem enquanto novo paradigma, mas com a vontade de fazerem a produção poética caminhar, pelo risco das ideias, dos manifestos, da afirmação estética, na direcção de um futuro que não se pode resumir a esta modorra entediante do toma lá uns poemas, uns ensaios e umas entrevistas. A afirmação do novo começa, precisamente, na renúnica à novidade, esse triste corolário de um capitalismo que tudo perverte e conspurca com os seus interesses mais ou menos objectivos. Felizmente, não resvala a Agio para os trilhos pantanosos da auto-promoção, como acontece com outras publicações. Ainda assim, o remate parece-me paradigmático:

A Agio surge assim, finalmente, como uma publicação situada nas margens, mas com o propósito de contribuir, à sua medida, que será sempre definida pelos seus leitores, para a dilatação dessas margens.

Nas margens andamos todos, meu caro Paulo Tavares. Uns descalços, outros de chinelos, outros de sapatos Prada.

A RESPOSTA DO PAULO TAVARES

O Paulo Tavares, co-editor da revista Agio, fez o favor de responder por e-mail a este meu post. Porque considero o texto honesto e inteligente, deixo-o aqui em jeito de direito de resposta. Conto replicá-lo lá mais para o final do dia. Penso que pode estar aqui um bom contributo para um debate que, a meu ver, não só está por realizar como me parece estimulante. A poesia merece tudo menos a letargia dos consensos e esta irritante fuga à discussão a que se vem assistindo, cujo efeito mais eloquente é uma completa falta de sintonia com os tempos que estamos a viver.



Bom dia, Henrique.

Os anti-corpos que referimos são os de alguém que, no seu blogue e nos seus textos, tem vindo a deixar vincada a necessidade do “novo”, do “alternativo” e da “ruptura”, mas que, detendo-se regularmente apenas na superfície de tais noções/configurações, não tem ido (porque não consegue ou porque não quer) mais além dessa superficialidade, valorizando muitas vezes livros/publicações que apenas aparentam tal diferença, mas de dúbios méritos literários, e criticando outras que não declaram ou não apresentam abertamente essa pose do “alternativo dentro do alternativo”, ou, por outras palavras, do movimento histórico de anti-literatura e de anti-academismo.

Dou um exemplo relativamente a essa acusação dos anti-corpos:
Na citação que fazes do editorial, “Na génese da Agio não há uma ideia de ruptura a todo o custo”, o “a todo o custo” serviu-te apenas para que reduzisses o editorial a uma coisa patética, “Talvez fosse muito pedir tais custos,…” (é muito ver aqui inclusive uma ponta de malícia?), sem sequer considerares que talvez no final desta frase, articulando-a com o que se diz no resto do editorial, reside efectivamente uma ideia contrária a essa busca contemporânea do novo pelo novo e à necessidade da “estrela única, do salvador de uma geração, da voz que a congrega” . Não sei que outro tipo de ousadia é mais consequente do que esta, que apresenta uma perspectiva contrária (sem ser pomposa) e que remete para aquilo que realmente interessa: os textos que compõem a revista.
É claro, por isso, que não nos revejo num dos teus comentários em que falas também de “falta de espírito crítico”.

Gostava que soubesses, ainda, que os “custos” relativos a tornar possível esta publicação são efectivamente muitos e elevados (e não me centro no factor financeiro).

Quanto à tua posterior resposta de que o teu texto “é um post, não pretende analisar nada nem procura ser crítico”, julgo que, para quem é tão mordaz quando lhe apresentam argumentação deste tipo falacioso, deveria haver da tua parte um pouco mais de reflexão antes de fazeres o mesmo. Para todos os efeitos, apresentas a formulação de um juízo, povoado de expressões como “débil”, “previsível”, “convencional”, “monótona”, etc. Tudo muito bem, é a tua opinião (contra a qual não tenho, por regra, a tentação de me manifestar), mas, neste caso, e por tudo aquilo que disse anteriormente, sentimos que deveria ser resposta alguma justiça (penso que a palavra não é exagerada) nessa entrada do teu blogue.

Paulo

PS: É apenas um pormenor no meio disto, mas peço-te que alteres uma imprecisão inicial no teu texto: A Artefacto não é patrocinada pela SI Guilherme Cossoul, é a vertente editorial da SI Guilherme Cossoul (e conta - talvez daí a confusão - com um pequeno apoio da Fundação C. Gulbenkian)
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Domingo, 13 de Março de 2011

CONTO DO DESASSOSSEGO

Eu não serviria para ti, cheiro mal dos pés e peido-me com frequência, estou quase sempre mal humorado, faço caretas e parvoíces para me descontrair mas depois fico com remorsos, tu metes um toque de beleza em tudo o que fazes e eu sou incorrigivelmente feio, eu não serviria para ti porque coço as virilhas e, ainda que nunca cuspa para o chão, ando sempre ranhoso, tenho uma sinusite crónica que me vem dos pulmões, chega-me ao estômago, circula-me nas veias, eu não serviria para ti porque tu és bela e eu sou um monstro corcunda que aos doze anos deslocou o sacro e nunca mais se recompôs, tudo o que escrevo é uma imitação miserável das minhas próprias misérias, eu sou cobarde e tu movimentas-te com a firmeza inabalável das musas, eu fui possuído por uma conformidade disforme que me transforma o desassossego e a inquietação numa reles caricatura, eu não gosto de me ver ao espelho, sou desleixado e só lavo os dentes uma vez por dia, tu cheiras bem, eu irrito-me com facilidade, cedo com facilidade, sou desmontável como um lego ao qual faltam duas peças fundamentais, a base e o telhado, tu não, tu és inteligente e segura e não tens medo do futuro, o meu futuro vive constantemente ameaçado pelo meu passado, por isso eu não serviria para ti, até porque canto mal e danço ainda pior, tenho uma perna ligeiramente mais curta que a outra, falta-me a paciência, só estou bem quando estou sozinho e nem quando estou sozinho me sinto só, eu não serviria para ti porque tu precisas de alguém que sublinhe a beleza que pões em tudo o que fazes mesmo quando o que fazes não tem beleza alguma, eu não serviria para ti, eu não serviria para ti, geraríamos crianças deprimidas e deprimentes como uma elegia na viragem dos séculos, eu não serviria para ti porque toda a minha fé se restringe semanalmente a uma aposta no euromilhões e tu és um anjo do Senhor, o mais belo dos anjos do Senhor, eu não serviria para ti porque tenho o demónio do azar no corpo, sou hipocondríaco, bebo demasiado, durmo mal e tu és como um sono descansado à sombra dos pinheiros num piquenique de domingo à tarde, eu não serviria para ti, tenho ratos nos pulmões, colecciono ratos nos pulmões, ninhadas de ratos alojaram-se nos meus pulmões, fico mal nas fotografias, fico pessimamente mal nas fotografias e não sei fazer caretas ligeiras, encantadoras, amenas para a objectiva, eu sou uma coisa pesada que pesa sobre o peso das coisas pesadas e não cabe nas margens de uma polaróide….

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #7




Em 1998 o mundo estava prestes a acabar e os Godspeed You Black Emperor! eram a melhor banda sonora possível para o fim do mundo. Infelizmente o mundo não acabou e nós tivemos que continuar a procurar pretextos para andar por cá. Em 2002, no dia 29 de Janeiro, fui vê-los e ouvi-los no Paradise Garage. Entrada n.º 104, 20€. Devo dizer que valeu a pena manter-me vivo até então. Os GYBE! produzem uma música essencialmente instrumental, com umas leituras/samplers de textos muito breves aqui e acolá, discursos apocalípticos e genuinamente pessimistas proferidos por profetas da desgraça. A música capta a atmosfera deprimente de uma sociedade em colapso. Baixem o som à televisão e experimentem ouvi-los enquanto no vosso canal de notícias preferido são transmitidas em directo imagens de atentados, manifestações violentas, contrastando com o nosso nacional porreirismo, cocktails molotov arremessados sobre batalhões imensos de polícias de choque, muros a serem destruídos e populações inteiras dizimadas por acidentes nucleares, desastres ecológicos, bairros arrastados pela lama, a vida nos subúrbios, tsunamis, terramotos, o degelo das calotes e o Pedro Passos Coelho a discursar para um país de parvos. O efeito será devastador. Oriundos de Montreal, os GYBE! foram enfiados na indistinta prateleira do post-rock. As composições são longas, mas não parece. Assentam em texturas minimalistas e hipnóticas que se desenvolvem na direcção de uma explosão que acaba quase sempre por retornar a uma pacificadora melancolia inicial. f#a# ∞ é o título deste álbum, para mim o melhor de uma formação que logra arrancar de uma paisagem essencialmente industrial a nuvem negra e poluidora das almas em queda. Digo isto porque, apesar do diagnóstico geralmente torturante, a mensagem mantém-se esperançosa: the future is still bleak, uncertain and beautiful… Arrisquem ouvi-los aqui ou acolá com continuação ali (o primeiro vídeo é um acompanhamento perfeito). Para mim, por hoje, são a melhor banda do mundo.

E NÃO SEI QUÊ

MANIFESTAÇÃO: CAMIÕES EM GREVE

a gente rende-se à beleza das imagens, mas depois pensa: e agora? é terrível, isto de o maior medo de um libertário ser a previsível decepção nas eleições democráticas. olhem, fui ouvir poesia e gostei. o que é ainda mais raro em mim.

Sábado, 12 de Março de 2011

VICENTE HUIDOBRO

Vicente Huidobro chegou-me pela mão de Cesariny quando, há anos, li a compilação intitulada Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial. Que eu saiba, o poeta chileno não tem qualquer livro traduzido para português. O mesmo acontece com Parra. Em Portugal, a poesia chilena está circunscrita ao sucesso de Neruda. É pena. Quer Parra, quer Huidobro, são poetas muito mais empolgantes. Vicente Huidobro (1893-1948) publicou cerca de trinta livros, levou uma vida repleta de percalços e ousou experimentar vários registos. Podemos mesmo afirmar que a sua produção foi tão variada quanto as contingências da vida que o acompanharam ao longo dos anos. René de Costa, nesta antologia crítica publicada pela Alianza Editorial (Madrid) em 1996, guia-nos num percurso complexo com impressionante clareza e sentido didáctico. O livro está dividido em seis partes que corresponderão a seis momentos de acção criativa. Dos poemas iniciais, de inspiração modernista, a inclinar-se já para o dadaísmo, as composições gráficas e a poesia visual de que Apollinaire é hoje considerado (erradamente?) um percursor, à incursão pela poesia cubista e à fundamentação do criacionismo poético, há de tudo um pouco. Mas um dos principais atractivos desta antologia é fazer acompanhar a criação poética dos testemunhos narrativos e ensaísticos que a sustentaram, quer sob a forma de manifestos, fragmentos e conferências, ensaios ou entrevistas, assim como cartas e textos de timbre bastante diversificado. A atitude inicial do poeta é de ruptura com o passado — Si no se ha de decir algo nuevo, no hay derecho para hacer perder tiempo al prójimo. — e de projecção de algo novo, gesto vanguardista que impressiona pela convicção com que se afirma. Hoje consideraríamos os manifestos criacionistas manifestações pomposas e presunçosas, tão arreigados que vamos indo ao estado putrefacto da retórica vigente. De resto, é uma fatídica tendência portuguesa esta dos nossos poetas serem quase sempre conformistas, acomodados e, no pior dos cenários, reaccionários, preferindo deixar-se arrastar pelas vagas da concórdia a enfrentar destemida e desassombradamente as intempéries da discórdia. Debate não existe porque a proposta é quase sempre a mesma e resume-se a calar tudo o que saia dos eixos. Mas noutros tempos os poetas podiam reivindicar uma criação pura que fizesse do poeta já não só um intérprete da Natureza, um transfigurador, mas sim um criador da própria Natureza, um Poeta-Deus. Curiosamente, levada ao extremo, esta atitude acabou por desembocar, ainda antes da antipoesia de Parra, no aparecimento da figura do antipoeta no maior dos poemas de Huidobro (Altazor, 1931). Ainda antes, houve uma passagem meteórica pelo surrealismo, pelo dadaísmo e pelas teorias de Breton, que Vicente acabou por renegar mais tarde, no famoso Manifiesto Manifiestos (1925), denunciando o facilitismo e a vacuidade da escrita automática enquanto método de criação literária: Se seguimos vuestras teorías caeremos en el arte de los improvisadores. Contra a banalidade, a defesa de uma arte muito mais séria e muito mais formidável. Se é fácil entender este discurso à luz das teorias defendidas pela axiomática criacionista, não tão fácil será se o procurarmos articular com a tendência final para uma poética da dessublimação, politicamente empenhada e preocupada com efeitos sociais contemporâneos. Cuida de no morir antes de tu muerte é a frase que nos pode soar como sentença final de uma poética sempre voltada para o futuro. Aliás, se há algo que liga todo este percurso, dos tempos experimentais à fase de militância política, esse algo é a busca do novo, a perseguição do futuro, a vontade de agir sobre o presente criando qualquer coisa que pudesse agir sobre a própria realidade. Vicente Huidobro recusava, pois, o tempo mais comum na actual poesia portuguesa, ou seja, o tempo passado e a retórica do confessionalismo ou a ditadura da memória: Los hombres vueltos hacia el pasado pueden ser historiadores, pêro no serán poetas. Deixo mais uma versão pessoal de um poema, digamos assim, absolutamente memorável:

A POESIA É UM ATENTADO CELESTE

Eu estou ausente mas no fundo desta ausência
Está a espera de mim mesmo
E esta espera é outra forma de presença
A espera do meu regresso
Eu estou noutros objectos
Ando em viagem dando um pouco da minha vida
A certas árvores e a certas pedras
Que por mim esperaram muitos anos

Cansaram-se de me esperar e sentaram-se

Eu não estou e estou
Estou ausente e estou presente em estado de espera
Eles queriam a minha linguagem para se expressar
E eu queria a deles para expressá-los
Eis aqui o equívoco o atroz equívoco

Angustiante lamentável
Vou penetrando estas plantas
Vou largando as minhas roupas
Vão-me caindo as carnes
E o meu esqueleto vai revestindo-se de cascas

Estou a transformar-me numa árvore Quantas vezes dei por mim convertendo-me noutras coisas
É doloroso e cheio de ternura

Poderia dar um grito mas espantaria a transubstanciação
Há que guardar silêncio Esperar em silêncio



De Últimos Poemas (1948)

IMPOSSÍVEL




Impossível saber quando adormeceu esse recanto da minha alma
E quando voltará a tomar partido nas minhas festas íntimas
Ou se esse troço partiu para sempre
Ou sequer se foi roubado e se se encontra integrado num outro

Impossível saber se dentro do teu ser a árvore primitiva ainda sente o vento milenário
Se tu recordas o canto da mãe quaternária
E os grandes gritos do teu espanto
E a voz soluçante do oceano que acabava de abrir os olhos
E agitava as mãos e chorava no berço

Não precisamos de tantos horizontes para viver
As cabeças de papoila que devorámos sofrem por nós
A minha amendoeira fala por uma parte de mim mesmo
Eu estou perto e estou longe

Tenho épocas centenárias na minha breve idade
Tenho milhares de léguas no meu ser profundo
Cataclismos da terra acidentes planetários
E algumas estrelas de luto
Lembras-te quando eras um som entre as árvores
E quando eras um pequeno raio vertiginoso?

Agora temos a memória demasiado carregada
As flores das nossas orelhas empalidecem
Às vezes vejo reflexos de penas no meu peito
Não me olhes com tantos fantasmas
Quero dormir quero ouvir novamente as vozes perdidas
Como os cometas que passaram para outros sistemas

Onde estávamos? Em que luz em que silêncio?
Aonde estaremos?
Tantas coisas tantas coisas tantas coisas

Eu sopro para apagar os teus olhos
Lembras-te quando eras um suspiro entre dois ramos?



Vicente Huidobro
La Nación, Buenos Aires, 1932
Versão de HMBF

O MEU CORAÇÃO NÃO CHEGA PARA TANTO

Estimado Van Zeller, tenho apreciado as múltiplas intervenções do Jel. Ontem ouvi-o citar Milton,Voltaire e mais uns quantos no não-censurado programa do Mário Crespo. Também o ouvi dizer que, embora tivesse vestido a camisola da manifestação dos parvos, não era parvo nenhum, que até estudava umas coisas e sabia outras tantas. A mensagem era: vamos para a rua, deixemos o ódio e o ressentimento em casa, vamos fazer da luta uma alegria e vamos disseminar o amor pelas esquinas da cidade e vamos mudar isto de baixo para cima, vamos partir para um novo paradigma. Pelos vistos, a mensagem colheu. Um grupo de skinheads juntou-se à marcha envergando bandeiras negras. Cito o Público: Questionados pelos jornalistas sobre que movimento representavam, limitaram-se a dizer: "somos nacionalistas”. Este grupo acabou por entrar na coluna da manifestação sem problemas. Ora, o meu coração e a minha capacidade de amar não chega para tanto. É por isso que confesso um problema insanável com os paradigmas apregoados pelo Jel e por outros que usam e abusam do termo. Sempre que ouço a malta dizer paradigma fico arrepiado, penso em Thomas Kuhn, que também não sou parvo nenhum, e convenço-me de que, afinal, estamos em tensão, os paradigmas não passam de meros momentos de descanso na contínua revolução do mundo. Que o novo paradigma seja um protesto pacífico onde ao lado de nacionalistas marcham comunistas e ao lado de comunistas marcham anarquistas e ao lado de anarquistas marcham libertários e ao lado de libertários marcham liberais e ao lado de liberais marcham democratas é coisa bonita de se ver, chega até a ser comovente, mas não me demove de um cepticismo incurável para com as putativas virtudes da humanidade. A mensagem do Jel é positiva, é alegre, vem nos livros de auto-ajuda, não propõe nada que possa vir a sustentar uma sociedade inteira. A vida na cidade é mais complexa do que as legítimas aspirações de cada um dos cidadãos permite prever. Veja-se o estado em que estamos neste preciso momento: um Governo ameaçado pela susceptível e abstracta figura dos mercados toma medidas que toda a gente diz há muito deviam ter sido tomadas. Toda a gente excepto os afectados, que ainda há pouco haviam transformado Medina Carreira num bestseller e estrela de TV, alguém que defende o triplo da austeridade que o Governo está disposto a implementar. Viram-se para onde? Para a ilegitimidade de uma austeridade monocórdica e unilateral. Afinal, são sempre os mesmos a pagar a crise. E são mesmo. O problema é que são esses mesmos que há 36 anos de democracia distribuem responsabilidades de governação por dois partidos de nefelibatas, arrivistas e nepotistas, com homens como Cavaco na cabeça do poder. Portanto, tudo isto mais não é do que a expressão da vergonha que os portugueses deviam sentir sobre si próprios. Contra isto, não há rua, amor, alegria ou luta que valha. Só mesmo uma vaga de gente enraivecida. De preferência sem racistas pelo meio.