Fui jantar com os meus pais. Estava a chegar a casa quando o telemóvel tocou. Minha mãe, com a voz no limite do equilíbrio, explicou dos ovos lá da terra. Trouxe duas dúzias para ti e para as meninas. Meu pai, num sofrimento insinuado pelo tom, referiu o seguro do carro. Já paguei, trouxe-te o selo verde. E assim, subornado pelos ovos e pelo selo, acedi ao convite. A caminho do restaurante, a maldade do mundo, a poluição que até deu cabo dos pepinos, este veneno de existir, o negócio parado, tão parado que parece morto, moribundo, é o que é. Fui ouvindo e concordando, mais por não ter com o que discordar do que por ter com o que concordar. Pedimos sardinhas e amêijoas, mas fizemos questão de sublinhar ainda não ter chegado o tempo das sardinhas. Somos entendidos. Estavam boas, eram portuguesas, a poluição não as atingiu com os venenos da existência. Nunca gostei de sardinhas. Porém, como sou bom de boca – não rejeito aquilo de que não gosto, limito-me a provar para sustentar o desgosto –, comi duas. A meio da janta, a mãe levantou-se para ir ao banheiro. Adivinhando o que aí vinha, respirei fundo e preparei-me para o cardápio de lamentações: a tua mãe está a atravessar uma fase muito difícil, telefona para aí umas dez vezes por dia para a loja, hoje até me telefonou a perguntar se queria ovos escalfados para o almoço, como se não soubesse que gosto de ovos escalfados, depois esquece-se de tudo em todo o lado, antes de virmos para cá, o que ela me moeu a cabeça por causa das chaves de casa, que não sabia onde as tinha posto, abriu as gavetas todas, as malas, correu tudo, e eu a dizer-lhe vê aqui, vê acolá, tinha as chaves entre as mamas. E nisto, chegou a mãe. Quase ao mesmo tempo que as amêijoas. Pedi mais uma cerveja e mudei de assunto. A tia como está? A mana anda entusiasmada com o curso, e feliz com os cãezinhos novos. Os cãezinhos, uma ternura que só traz trabalhos, apoquentações e tristeza. Quando morrem é uma infelicidade. Acabaram de nascer, ainda estão longe das guilhotinas do destino, e já lá vai o tempo em que eram atirados ao leito do rio na clausura de medonhos sacos de plástico. Isto mal nasciam, para que não custasse tanto o ganido da maldade indo leito abaixo. Depois levantou-se o pai. Voltei a respirar fundo. Desta feita, fez a mãe o seu cardápio: o teu pai está a atravessar uma fase muito difícil, passa a vida a queixar-se do negócio, o que ele já amealhou, um homem reformado, eu ainda lhe digo ó homem deixa lá, a nossa hora já passou, os filhos estão criados, o meu medo é só que vocês ainda venham a passar o que a gente passou, ai credo, se eu alguma vez pensava que isto ia pôr-se assim, mas o teu pai, agora com esta dor nas costas, ai, parece uma criança, é tal e qual como um caspinho, não me deixou dormir nada, uma dor nas costas, e depois que ia morrer e que lhe doía nas ancas, se teria alguma coisa nos pulmões, até me virei para ele a perguntar-lhe se tinha os pulmões no cu, ficou todo indignado, que ele é que estava a sofrer, ai se ele soubesse o que é o sofrimento. Regressado o homem à mesa, mudámos de assunto. Puxei da broa de milho, molhei no caldo amanteigado das amêijoas, e empurrei tudo para baixo com mais um golo de cerveja. Café e tarte de limão para a sobremesa. À despedida, os dois ao mesmo tempo: é dos 67, filho, é dos 67. Deixem lá, procurei confortá-los, com 37 não me sinto muito melhor.
Terça-feira, 31 de Maio de 2011
HERBERTO HELDER
Segunda-feira, 30 de Maio de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #17
Em 1995, um filme: Dead Man Walking, de Tim Robbins, com Susan Sarandon e Sean Penn. Revejo-o amiúde. A banda sonora juntava Nusrat Fateh Ali Khan, um dos consagrados da música de origem árabe, a Eddie Vedder, o carismático líder dos Pearl Jam, banda pedregosa com lugar de destaque nos anais do grunge, coisa que deve ter nascido para os lados de Seattle e tentava rejuvenescer a música de guitarras quando a pastilha vigorava. A voz de Nusrat Fateh Ali Khan, ali descoberta, deixou-me a modos que inebriado. Fui à procura e, mais tarde, descobri estes Rizwan-Muazzam Qawwali no catálogo impecável da Real World Records. Primeiro: Rizwan (Ali Khan) e Muazzam (Ali Khan) têm laços familiares a Nusrat Fateh, devidamente explicados em árvore cronológica reproduzida no libreto que acompanha o CD. Segundo: cantam Qawwali, um género de música sufi com raízes fortes em território paquistanês. É um género antigo, daqueles que se costuma dizer serem tradicionais, e foi amplamente difundido pelo tio Nusrat. As quatro interpretações de Sacrifice to Love, ao som de palmas, tablas e harmonium indiano, relevam o essencial desta forma de devoção: o canto, a voz, é o que mais nos aproxima do sagrado. O poeta Omar Khayyam, que aconselhava amor e ânforas de vinho, havia de apreciar esta embriaguez na garganta do destino. Se, por mais que o pretendam dissimular, tudo nos liga à cultura árabe, seja neste revelador êxtase vocal que definitivamente nos encontramos com o pó levantado pelo peso das pernas no decorrer da última caminhada. Um homem morto caminha, que o faça cantando como as miragens no deserto.
Domingo, 29 de Maio de 2011
HENRIQUE FIALHO, O CRÍTICO, O MÁRTIR
Henrique, não quero ser teu amigo, pois os amigos querem-se honestos, intelectualmente e não só.
Tudo isto seria escusado, não fosse a virgem ofendida não suportar mentiras e acusações de desonestidade. Sobre críticas, não me alongo. O que escrevo sobre livros, e nunca por mim foi, é ou será interpretado como crítica literária (actividade que nem me merece especial simpatia), está disponível na secção Leituras. Lá encontrará o leitor interessado alguns comentários, ora favoráveis, ora desfavoráveis às minhas impressões. O resto é-me indiferente. Sobre a premonição das chatices, sugiro ao Paulo Tavares que se informe junto de pessoas que lhe são certamente tão queridas a ele quanto a mim. Foi junto dessas pessoas que manifestei o meu oráculo, as mesmas poderão confirmá-lo. Sobre o porquê de só agora ter escrito sobre o livro do Luís Felício, não vejo como justificá-lo (carecesse isso de justificação) senão afirmando que pela mesmíssima razão que só a 2 de Fevereiro de 2011 escrevi sobre um livro publicado em 2009. Muitos outros exemplos há, mas pergunto: tenho eu alguma obrigação de escrever sobre o que quer que seja em calendários estipulados pelo Paulo Tavares?
No entanto, não posso deixar passar um parágrafo deste texto sem o que ele me merece. O parágrafo é este:
Repito que não me insurjo contra a opinião do Henrique, mas contra o impulso de alguém boicotar as publicações e os autores da Artefacto. Se não o faz conscientemente, isso é outra coisa. Mas que o tem feito, tem. E, ainda assim, no meio disto, foi-me enviando alguns e-mails quase fraternais, como se lhe parecesse possível e natural que nós fossemos amigos.
Não me refiro ao «impulso de boicotar as publicações e os autores da Artefacto», o que me parece de um estado paranóico sem discussão. Refira-se apenas que muito recentemente manifestei extremo agrado relativamente a um livro do Paulo Tavares, tendo o mesmo sucedido relativamente a um livro do Hugo Milhanas Machado, assim como ao da Soledade, que tive o prazer de apresentar. De resto, que raio é isso de boicotar uma editora? E o que escrevi sobre os livros da Artefacto é assim tão negativo a ponto de justificar uma acusação destas? Mas pode alguém dizer que eu pretendo boicoitar uma editora e os seus livros escrevendo sobre eles? Eu? Num blog? Isto faz sentido? Inconscientemente? Deverei procurar um psicanalista, já que de cardiologista não estou precisado, que me ponha a claro estes impulsos negativos, esta fonte do mal, este desejo de morte? O Dr. Freud que responsa. Vamos, por fim, aos e-mails «quase fraternais» que eu enviei ao Paulo Tavares.
O meu primeiro contacto com o Paulo foi a 25/05/2010 porque ele tomou a iniciativa de me escrever:
Caro Henrique Fialho,
Gostaria de te enviar um exemplar do meu segundo livro de poesia (que se segue a Pêndulo, publicado pela Quasi, em 2007). Podes confirmar-me a morada para onde o posso fazer?
Envio-te, também, um convite para o lançamento do livro, com apresentação do António Carlos Cortez e com leitura de poemas pelo actor Luís Lucas.
Se puderes, aparece. Gostava de te conhecer (algo que poderia ter acontecido na apresentação do livro do Joan Margarit na Casa Fernando Pessoa, não fosse a minha falta de habilidade para abordar as pessoas).
Um abraço,
Paulo Tavares
Eu respondi:
Olá Paulo.
Embora me vá ser muito difícil, tentarei estar presente na apresentação do «Minimal Existencial». Como é óbvio, desejo-te as maiores felicidades. O meu endereço postal é:
Rua José Tanganho
N.º 22, 3.º Esq.º
2500 Caldas da Rainha
Agradeço muito a tua atenção, algo que me deixa tão sensibilizado quão surpreendido.
Saúde,
Henrique
A 13/07/2010 o Paulo voltou a escrever-me:
Caro Henrique,
Envio-te, em anexo, o convite para o lançamento do segundo livro da Artefacto, Em cidade Estranha, de Daniel Francoy.
Enviei-te o livro na semana passada. Espero que te tenha chegado em condições...
Um abraço,
Paulo
Dois dias depois, a minha resposta:
Olá. Li ontem o teu livro. Gostei muito das "Linhas de fuga". Nas outras partes há poemas que me parecem bons e outros que me parecem menos bons, mas como conto escrever sobre o livro para o Rascunho não quero adiantar nada. Para já, ficam os meus parabéns. Saúde, Henrique
A 18, o Paulo, na primeira reacção àquilo a que agora chama uma crítica de merda:
Olá, Henrique.
Obrigado pela atenção que dedicaste ao livro.
Na verdade, julgo que é um livro (ao contrário do meu primeiro, que é mais frágil mas eventualmente mais directo) com o qual se tem uma relação complicada num primeiro momento. É mais denso em algumas partes, talvez, resultado de cerca de três anos e tal de trabalho nele...
O nosso próximo livro deve sair em Setembro e gostava de poder contar contigo numa dessas futuras apresentações.
Um abraço,
Paulo
Seguiu-se, a 22/10/2010 mais uma fraternal troca de e-mails. O Paulo:
Caro Henrique,
Antes de mais, obrigado por teres aceitado o convite para fazeres a apresentação do livro da Soledade. Já era para te ter contactado há mais tempo, mas ando completamente cheio de trabalho.
Sei que a Soledade te enviou o PDF do livro e, por isso, pergunto-te se te podemos entregar um exemplar na sexta-feira ou se preferes que o enviemos por correio. Caso prefiras esta segunda opção, não há qualquer problema, envio-o amanhã de manhã por correio azul.
A que horas conseguirás cá estar na sexta? Tinha pensado encontrarmo-nos por volta das 19h na Guilherme Cossoul e irmos jantar antes do lançamento, mas entretanto a Soeldade disse que para ti era capaz de ser complicado..
Envio, em anexo, o convite.
Um abraço,
Paulo
Eu, em resposta:
Viva.
Não é preciso enviar nada pelos Correios. Já tenho o PDF. O livro fica para depois.
Na sexta, saio às 19h. Dempster apanha-me e seguimos os dois para Lisboa.
Também não é preciso agradecer. :-)))
Abraço
e saúde,
Henrique
Entretanto, escrevi sobre a revista Agio e seguiu-se o que já se sabe. O Paulo voltou a escrever-me um e-mail, já aqui referido, e eu respondi-lhe em e-mail que ele reproduziu no blog dele. Por essa altura, a 16 de Março, tomei eu a iniciativa de o contactar, pela primeira e única vez que o fiz, nestes termos:
Olá Paulo,
Queres vir cá Sábado?. Arranjo-te um sítio onde ficares com quem quiseres trazer. Tenho uma apartamento em São Martinho do Porto e podem ficar lá. Vou almoçar com o Dempster e com a Soledade. O que chega para quatro (A Ana mais as minhas miúdas também vão) chega para seis. Faziamos-lhes uma surpresa. Acho que podia ser muito saudável. Falávamos da Agio e de outros assuntos. Ficaria muito feliz se aceitasses. O meu apartamento em São MArtinho é excelente, tem vista para a baia. :-) Só te chateio durante o almoço, depois ficas livre para curtir a paisagem como bem entenderes. Pensa nisso.
Saúde,
Henrique
E o Paulo respondeu:
Henrique,
Agradeço o convite, mas vou ter de recusar. A Sara faz anos no Sábado e já temos coisas combinadas. Além disso, a proximidade destes acontecimentos leva-me a acreditar que o melhor mesmo é, como se costuma dizer, dar tempo ao tempo.
Paulo
E pronto, de «e-mails quase fraternais, como se lhe parecesse possível e natural que nós fossemos [sic] amigos» é tudo. Eu limitei-me a escrever-lhe uma única vez, convidando-o para um encontro onde poderíamos esclarecer o que eu pensava sobre a revista e ele tomou por atentado terrorista de lesa-Agio. Perante isto, sempre gostava de saber quem é que não está a ser honesto. Intelectualmente e não só.
BIUTIFUL
Toda a gente conhece o mistério das baleias mortas: dão à costa, em grande número, sem razão aparente. Há quem garanta tratar-se de uma inexplicável forma de suicídio colectivo. Talvez pretendam morrer em terra, fazer da terra o seu cemitério, como os elefantes regressados, no termo da vida, ao ponto onde todas as manadas se encontram. Da última vez que estive em Barcelona vi por lá alguns desses elefantes. Vendiam produtos contrafeitos em sacos-rede estrategicamente preparados para a fuga. Com os olhos agitados na paisagem ameaçadora, puxavam rapidamente os sacos às costas e desatavam a correr na direcção contrária à da polícia. Quando for para morrer, se houver tempo, regressarão ao cemitério onde nasceram. E o cemitério tanto pode ser o Senegal como a China, terreno fértil em mortos. Por vezes não há tempo para o regresso, arrasta-se o mistério da morte pela vida até que a hora chegue. Se fosses informado de que te restam dois a três meses, o que farias nesses dias de sobra? Provavelmente procurarias evitar os açaimes da existência, tratarias de arrumar a vida para que o corpo pudesse seguir em paz. Não há imagem mais cómica, dizia Lowry, do que a de alguém a fazer a barba a um morto. Não deve haver imagem mais trágica do que a de um morto a tentar arrumar a sua própria vida.
Sábado, 28 de Maio de 2011
E AGORA, H?
Há não muito tempo, veio à conversa este livro. Cada qual disse de sua justiça, não tendo o processo transitado em julgado. À minha justiça, acrescentei: sendo isto que penso, o melhor é ficar calado; se falar, vou ter chatices. Assim fiz durante algum tempo, até que ontem resolvi publicar o texto. Porquê? Este rapaz ficciona sobre o assunto, cai no ridículo da insinuação torpe e ensarilha-se em cabalas e conspirações que não lembrariam ao diabo. Portanto, o H, que sou eu, homem de bom coração, agradecido, mordido de inveja por causa de um prémio que alguém ganhou, e eu ralado, resolveu atirar-se ao agraciado com o que tinha à mão. Quem me conheça, há-de rir que nem um tonto. Quem não me conheça, ficará pelo menos a saber que tenho um bom coração. Valha-me, porém, o espanto cada vez mais raro. Não sendo ingénuo, já esperava reacções. Acabam sempre por nos cair em cima quando abrimos a boca para dizer: não gostei. Paciência, enquanto por cá andar não esperem outra coisa do meu bom coração ressabiado. Quando gosto digo que sim, quando não gosto digo que não. Manda a cultura democrática que em Portugal isto tenha qualquer coisa de excepcional, a ponto de, já hoje, me terem avisado que por este andar ainda fico sem amigos no Facebook. Restam-me as bibliotecas. O espanto vem da forma: há ali qualquer coisa de Sócrates a inclinar-se para Portas, uma coisa de quem evita a objectividade em prol da insinuação torpe, de quem não consegue ficar indiferente sem conseguir ser claro, uma escapadela ao compromisso, uma espécie de não quero chatices mas toma lá que é para aprenderes. Em suma: aquilo a que nas crianças se chama birra e nos adultos é apenas parvoeira. Uma bojarda, é o que é. Pobre de mim, tão novo e já tão esburacado. Em suma: parabéns ao Felício por ter ganho mais um prémio, algo que não sabia por, vá lá, me ser completamente indiferente. Que alguém goste da sua poesia só me deixa feliz. O mundo é vário, filhos. E por mim é essa a sua beleza.
P.S.: e já agora, por antecipação, querem apostar que a toupeira vai aparecer? Aposto uma grade de minis.
Sexta-feira, 27 de Maio de 2011
OBRA DE ARTE
O romance pode ser lido apenas como uma história que nos permite saltar páginas, se quisermos. Pode ser considerado uma espécie de sinfonia ou, sob outro ponto de vista, uma espécie de ópera − ou mesmo ópera de aventuras. É jazz, um poema, uma canção, uma tragédia, uma comédia, uma farsa, e por aí fora. É superficial, profundo, empolgante e chato à vontade de cada qual. É uma profecia, uma advertência política, um criptograma, um filme absurdo e uma frase escrita numa parede. Pode mesmo ser considerado uma espécie de máquina que também trabalha, acredite, como vim a verificar. No caso de achar que faço dele tudo menos um romance, melhor será dizer-lhe que não só pretende, ao fim e ao cabo, ser um romance, como um romance − seja embora eu próprio a dizê-lo − profundamente sério. Mas também exijo que seja obra de arte um tanto diferente daquela que o senhor suspeitaria que fosse, e também mais lograda, ainda que em função das suas próprias leis.
Quem é que ainda espera isto de um romance?
O SOM A CASA
CASUALIDADE, CAUSALIDADE
Talvez tenha visto mal mas não me apercebi de que, como vem sendo feito na Net, algum jornal se tenha ainda interrogado sobre a sucessão de três notícias em pouco mais de dois meses que, isoladas, talvez só tivessem lugar nas páginas de Economia mas que, juntas, e com um director ou um chefe de redacção curiosos de acasos, até poderiam ter sido manchete.
A primeira, de 16 de Março, a da renúncia - dois anos antes do termo do seu mandato - de Almerindo Marques à presidência da Estradas de Portugal (para que fora nomeado em 2007 pelo então ministro Mário Lino), declarando ao DE que "no essencial, est[ava] feito o [s]eu trabalho de gestão".
A segunda, de 11 de Maio, a de uma auditoria do Tribunal de Contas à Estradas de Portugal, revelando que, com a renegociação de contratos, a dívida do Estado às concessionárias das SCUT passara de 178 milhões para 10 mil milhões de euros em rendas fixas, dos quais mais de metade (5 400 milhões) coubera ao consórcio Ascendi, liderada pela Mota-Engil e pelo Grupo Espírito Santo. Mais: que dessa renegociação resultara que o Estado receberá, este ano, 250 milhões de portagens das SCUT e pagará... 650 milhões em rendas.
E a terceira, de há poucos dias, a de que Almerindo Marques irá liderar a "Opway", construtora do Grupo Espírito Santo.
O mais certo, porém, é que tais notícias não tenham nada a ver umas com as outras, que a sua sucessão seja casual e não causal.
Manuel António Pina, aqui.
A primeira, de 16 de Março, a da renúncia - dois anos antes do termo do seu mandato - de Almerindo Marques à presidência da Estradas de Portugal (para que fora nomeado em 2007 pelo então ministro Mário Lino), declarando ao DE que "no essencial, est[ava] feito o [s]eu trabalho de gestão".
A segunda, de 11 de Maio, a de uma auditoria do Tribunal de Contas à Estradas de Portugal, revelando que, com a renegociação de contratos, a dívida do Estado às concessionárias das SCUT passara de 178 milhões para 10 mil milhões de euros em rendas fixas, dos quais mais de metade (5 400 milhões) coubera ao consórcio Ascendi, liderada pela Mota-Engil e pelo Grupo Espírito Santo. Mais: que dessa renegociação resultara que o Estado receberá, este ano, 250 milhões de portagens das SCUT e pagará... 650 milhões em rendas.
E a terceira, de há poucos dias, a de que Almerindo Marques irá liderar a "Opway", construtora do Grupo Espírito Santo.
O mais certo, porém, é que tais notícias não tenham nada a ver umas com as outras, que a sua sucessão seja casual e não causal.
Manuel António Pina, aqui.
Quinta-feira, 26 de Maio de 2011
LA COCA
Quarta-feira, 25 de Maio de 2011
HORA H
Leio no Bibliotecário de Babel que a Hora H resultou muito bem na Feira do Livro de Lisboa, com descontos que chegavam aos 70%. Sugiro que para o ano se arrisque um pouco mais, com descontos na ordem dos 80% ou mesmo, porque não, 90%. Pode ser que, por este andar, lá para 2015 andemos a pagar aos clientes para levarem os livros. Tenho a certeza que funcionaria muito bem.
O HOMEM DO PIANO
Para o Fernando Dinis
Há tempos, por acasos cuja exposição seria fastidiosa para o leitor, conheci um pianista. Digamos que chegou à minha vida como o enigmático homem do piano ao porto de Sheerness, na ilha de Sheppey, não sei se estais recordados. Nada sabia acerca do seu historial nem da sua personalidade, apenas que era pianista. Uma irresistível curiosidade levou-me a questionar alguns conhecidos sobre tão misteriosa figura. O que vos conto é, sem tirar nem pôr, o que me foi contado. O homem do piano alimentou durante longos anos a ambição de qualquer artista, ser aplaudido por uma imensa e agradada plateia. Não alimentou essa ambição como quem alimenta um sonho, de braços cruzados à espera que o milagre aconteça. Pelo contrário, trabalhou afincadamente nesse sentido. Estudou, praticou, dedicou-se com todas as suas energias e amor ao piano. Quem teve oportunidade de o escutar, diz que era bastante sensível na interpretação das baladas de Chopin. Durante muitos anos o homem do piano bateu a várias portas. Editores, directores, maestros negaram-lhe sempre a possibilidade de uma gravação, de um concerto, de uma audição que fosse. Mas o homem do piano era persistente, de uma persistência que podia parecer teimosia a quem não sentisse o que ele sentia dentro de si, uma natural vocação e inclinação para a mesma tecla: um dia hei-de ter uma plateia imensa rendida a meus pés. E bem que merecia, mais não fosse pela obstinação, mas quis o destino que sempre lhe pendesse a sorte para as pretas no teclado da vida. Ainda assim, o homem do piano não desmoralizou. Não valia a pena desmoralizar, até porque estava convencido de que tudo o que podia fazer era continuar a tocar. Sábio é aquele que aprende o seu lugar independentemente das circunstâncias, e o lugar do homem do piano era o lugar do pianista. Carregou com o instrumento às costas durante largos anos. Tentou festas particulares, bares, casas de má fama, hotéis, centros comerciais, de tudo tentou o homem do piano para que aquela oportunidade chegasse. A oportunidade tardava em chegar. Porque não lhe restava outra solução, o homem do piano começou a tocar nas ruas. Primeiro em largas avenidas. Mas ou porque a acústica não era a melhor ou porque as pessoas se mostravam pouco generosas, mudou-se para ruas mais estreitas. O mais que conseguia era, de quando em vez, o tilintar de uma moeda atirada contra a cauda do instrumento. Ainda assim, o homem do piano não esmoreceu. Percorreu o país com o piano às costas, atravessou fronteiras, rios, oceanos, continentes. Até que um dia, porque o estômago não podia mais continuar a alimentar-se de harmonia e contrapontos, o homem do piano teve que penhorar o piano. Com o que lhe deram pelo instrumento gasto e usado, comprou alguma fruta para enganar a fome, uma pauta de Rachmaninov e um pianinho de brincar, feito em madeira, para treinar os dedos e não perder a agilidade que tantos anos de prática intensa haviam apurado. Quis a sorte madrasta que, passados poucos dias, talvez uma semana, surgisse aquela oportunidade. O homem do piano foi convidado para actuar num teatro cuja lotação se previa esgotada. Alinhou de imediato na sua cabeça um conjunto de peças imprescindíveis, pese agora o problema de não ter onde treiná-las. Percorreu então todas as lojas de instrumentos fazendo-se passar por cliente interessado naquele vertical, naqueloutro Schubert, no Kurzweil, no Steinway de cauda, etc., etc., etc.. Porque nenhum especialista compra um piano sem antes o experimentar, pôde assim o homem do piano ir praticando para o seu momento de glória. Alguns minutos, rapidamente convertidos em horas, distribuídos por dezenas de lojas de música onde se dirigia com a falsa intenção de adquirir um instrumento musical que não podia comportar. O homem do piano estava falido, não comia há dias, vivia da água dos bebedouros públicos e de uma ou outra peça de fruta respigada em árvores que se lhe atravessavam pelo caminho. Na realidade, ele já nem se alimentava, mal sentia a fome e as necessidades do estômago tamanha era a ansiedade pelo momento há tanto aguardado, o momento da consagração, o seu primeiríssimo concerto, e logo numa sala apinhada de gente, gente que se emocionaria ao escutar a destreza das suas interpretações, gente que se inebriaria com a sua sensibilidade, gente capaz de o compreender, aplaudir, louvar, celebrar. E o momento chegou. O homem do piano entrou na sala, curvou-se perante os aplausos, acomodou-se no banco, ajeitou a pauta, inclinou-se ligeiramente sobre o teclado. As brancas confundiram-se-lhe com as pretas, o teclado transformou-se em água, um rio baço que os olhos não resolviam. O homem do piano sentia-se fraco, débil, exausto. E foi a fraqueza que o traiu. Ainda antes de pronunciar a primeira nota, desmaiou e caiu para o lado. Trouxeram-lhe um copo de água e uma peça de fruta, a ver se o reanimavam.
PARA ONDE DURMO MELHOR
Estranhamente, ando a adormecer com anómala facilidade e a dormir muito bem. Começo a ficar preocupado com esta nova versão de mim próprio, preocupação que é bem capaz de me vir a tirar o sono.
NÃO POSSO
Bem vistas e ponderadas as coisas, eu próprio vivo acima das minhas possibilidades. Afinal, vivo em Portugal.
OS 20 MAGNÍFICOS
Com 689 000 desempregados e 204 000 "inactivos" (pessoas que desistiram já de procurar emprego), isto é, 15,5% de gente sem trabalho que os critérios estatísticos transformaram em 12,4%, o país já há muito teria soçobrado não fosse o patriótico esforço daqueles que, para compensar a calaceirice nacional, se desdobram por sucessivos postos de trabalho, correndo incansavelmente de um para outro, indiferentes à tensão arterial, ao colesterol, aos triglicerídeos e à harmonia familiar.
O Relatório Anual sobre o Governo das Sociedades Cotadas em Portugal - 2009, da CMVM, agora tornado público, refere "cerca de 20" desses magníficos, todos membros de conselhos de administração de empresas cotadas, muitas delas públicas, que "acumulavam funções em 30 ou mais empresas distintas, ocupando, em conjunto, mais de 1000 lugares de administração".
Revela a CMVM que, por cada um destes lugares, os laboriosos turbo-administradores recebem, em média, 297 mil euros/ ano, ou, no caso dos administradores-executivos, 513 mil, havendo um recordista que, em 2009, meteu ao bolso 2,5 milhões de euros.
Surpreendente é que, no meio de tanta entrega ao interesse nacional, estes heróis do trabalho ainda encontrem nas prolixas agendas tempo para ir às TV exigir salários mais baixos e acusar desempregados, pensionistas e beneficiários dos "até" (como nos saldos) 189,52 euros de RSI de viverem "acima das suas possibilidades".
Manuel António Pina, aqui.
O Relatório Anual sobre o Governo das Sociedades Cotadas em Portugal - 2009, da CMVM, agora tornado público, refere "cerca de 20" desses magníficos, todos membros de conselhos de administração de empresas cotadas, muitas delas públicas, que "acumulavam funções em 30 ou mais empresas distintas, ocupando, em conjunto, mais de 1000 lugares de administração".
Revela a CMVM que, por cada um destes lugares, os laboriosos turbo-administradores recebem, em média, 297 mil euros/ ano, ou, no caso dos administradores-executivos, 513 mil, havendo um recordista que, em 2009, meteu ao bolso 2,5 milhões de euros.
Surpreendente é que, no meio de tanta entrega ao interesse nacional, estes heróis do trabalho ainda encontrem nas prolixas agendas tempo para ir às TV exigir salários mais baixos e acusar desempregados, pensionistas e beneficiários dos "até" (como nos saldos) 189,52 euros de RSI de viverem "acima das suas possibilidades".
Manuel António Pina, aqui.
Terça-feira, 24 de Maio de 2011
E SE FOSSE ASSIM?
Assaltado por uma espécie de utopia surrealista, dei por mim a fazer contas imponderáveis. Li algures que, em 2010, a Sonae lucrou 192 milhões de euros. Não sei quanta gente emprega a Sonae, mas façamos as contas a 50000 indivíduos. Aqueles lucros divididos por 50000 perfazem a módica quantia de 3840€. Estes 3840€ davam jeitinho, não? Mas suponhamos que os podíamos distribuir pelos 12 meses anuais. Eram mais 320€ de salário por mês. Isto, para quem ganha o ordenado mínimo nacional, faz toda a diferença. 480 + 320 = 800. Nada mau. Mas a economia não é assim, o mundo não é assim e eu não sei fazer contas. Porque as empresas precisam de crescer, e para crescerem é preciso investir, e para investir é preciso lucro. Não se pode desperdiçar o lucro com quem trabalha. Isso é que era bom.
AS PESSOAS NO CAFÉ

Uma das últimas vezes em que estive num café foi num domingo de Verão, recordo-me bem, porque quase toda a gente estava sem casaco e gravata, e pensei: Será que afinal não é domingo?, e o facto de ter pensado exactamente isso faz com que me recorde. Sentei-me numa mesa no meio da sala, rodeado de muitas pessoas a comer bolos e sanduíches, mas quase todas as mesas estavam ocupadas por uma só pessoa. Dava uma grande impressão de solidão, e como há muito tempo não falava com ninguém, não me teria importado de trocar umas palavras com quem quer que fosse. Meditei algum tempo sobre como poderia fazê-lo, mas quanto mais estudava as caras em meu redor, mais difícil me parecia, com todos aqueles olhos que pareciam não ver; o mundo tornara-se, de facto, realmente deprimente. Mas a ideia de que seria agradável que alguém me dirigisse umas quantas palavras já tinha ficado na minha cabeça, de modo que continuei a pensar, pois é a única coisa que ajuda. Ao cabo de algum tempo soube o que ia fazer. Deixei cair a minha carteira fingindo que havia sido por acidente. Ficou estendida ao lado da minha cadeira, completamente visível para todos aqueles que estavam sentados à minha volta, e vi que muitos a olhavam de soslaio. Pensei que talvez uma ou duas pessoas se levantariam para apanhá-la e devolver-ma, pois afinal sou velho, ou ao menos que me chamariam a atenção, por exemplo: "Deixou cair a sua carteira." Quantas desilusões pouparíamos a nós próprios se deixássemos de ter esperança. Por fim, depois de vários minutos a olhar de soslaio e a esperar, fiz como se de repente me tivesse dado conta de que a havia perdido. Não me atrevi a esperar mais, pois comecei a recear que um desses mirones se atirasse repentinamente à carteira e desaparecesse porta fora com ela. Ninguém podia estar absolutamente seguro de que não continha uma boa quantia de dinheiro, pois acontece às vezes os velhos não serem pobres, alguns são até mesmo ricos, assim é o mundo, aqueles que agarram o que podem na juventude ou durante os seus melhores anos recebem a sua recompensa na velhice.
Assim são as pessoas no café nos dias que correm, isso ao menos aprendi. Enquanto se vive nunca se deixa de aprender, embora não saiba para que serve isso agora, pouco antes de morrer
.
Kjell Askildsen, do Últimas Notas de Thomas F. Para o Público em Geral, in Um Repentino Pensamento Libertador, trad. Mário Semião, Edições Ahab, Julho de 2010.
Segunda-feira, 23 de Maio de 2011
ETC, ETC...
Há muitos portugueses que gostam de ouvir Paulo Portas criticar o Rendimento Social de Inserção. Babam-se de contentamento quando o intocável brada contra a injustiça que é uns terem que trabalhar para outros poderem viver em casa à custa do Estado. Para Paulo Portas, os desempregados são um cancro e os apoios sociais são o vício que provoca o cancro. Este discurso é muito apelativo, esta retórica rende, e não restam dúvidas de que o Dr. Portas é doutorado em capitalizar a demagogia. Aqueles que discordam do Dr. Portas deviam aplicar-se em explicar às pessoas, de um modo claro e evidente, a demagogia do Dr. Portas. Não o fazendo, permitem que essa mesma demagogia ganhe adeptos e alastre como uma praga inquisitória. Não sei se é verdade, se é mentira, mas notícias recentes referem que o RSI, com todos os seus vícios e eventuais virtudes, custou ao Estado 520 milhões de euros no ano passado. Ora, a mesmíssima alma que está tão preocupada e indignada com este valor não hesitou em pagar 832,9 milhões de euros (sem juros, porque com juros esse valor supera os mil milhões de euros) por dois submarinos comprados quando era Ministro da Defesa. Para o Dr. Portas os submarinos podem ser prioritários relativamente aos apoios às famílias carenciadas. Só isso explica o investimento final de 1,35 mil milhões de euros no Tridente e no Arpão. Mesmo tendo em conta os defeitos de um sistema permeável a falhas e à típica chico-espertice lusitana, que nunca será tão onerosa como a demagogia do Dr. Portas, prefiro o investimento no apoio às famílias carenciadas.
A NOSSA NECESSIDADE DE CONSOLO...
O conforto impele-nos à acomodação. Irónico que, posteriormente, esse conforto se converta em algo bastante desconfortável: o tédio, a monotonia, a rotina, a ausência de espanto e de paixão.
Domingo, 22 de Maio de 2011
NASCI ESBURACADO
Sopra um vento terrível.
Há apenas um pequeno buraco no meu peito,
Mas sopra um vento terrível.
Não foste feito para mim, lugarejo de Quito.
Preciso de ódio, e inveja, é a minha saúde.
Preciso de uma grande cidade.
Um grande consumo de inveja.
É só um pequeno buraco no peito,
Mas sopra um vento terrível,
E há (sempre) ódio no buraco, e impotência, e espanto,
Impotência sim e o vento carregado dela,
Forte como os turbilhões.
Quebraria uma agulha de aço,
E não passa de um vento, de um vazio,
Por causa deste vazio, malditos sejam toda a terra, toda a civilização, todos os seres à superfície de todos os planetas!
Disse um crítico encartado que dentro de mim não havia ódio.
Este vazio, eis a minha resposta.
Ah, como se sente mal na minha pele quem quer que seja!
Preciso chorar sobre o alimento do luxo, do domínio e do amor, o alimento da glória, todos fora de mim,
Preciso olhar através da vidraça,
Vazia como eu, da vidraça que não capta nada.
Disse chorar: não, é uma perfuração a frio, que perfura, perfura incansavelmente,
Como numa viga de faia duzentas gerações de vermes que legaram umas às outras esta herança: «Perfura… Perfura.»
À esquerda, mas não digo que seja o coração.
Digo buraco, não digo mais nada, é raiva e nada posso contra ela.
Tenho sete ou oito sentidos. Um deles: o da falta.
Toco e tacteio como se tacteia madeira.
Mas seria antes uma grande floresta, daquelas que já não existem na Europa há muito tempo.
E é isto a minha vida, a minha vida inspirada pelo vazio.
Se ele desaparece, este vazio, procuro-me, aflijo-me e é ainda pior.
Erigi-me numa coluna ausente.
Que diria Cristo se lhe acontecesse o mesmo?
Há doenças que, quando curadas, deixam o homem sem mais nada.
Morre logo, era já demasiado tarde.
Pode acaso uma mulher contentar-se só com ódio?
Então amem-me, amem-me muito e digam que me amam,
Escrevam-me, escreva-me qualquer uma dentre vocês todas.
Mas quem é ele, este ínfimo ser?
Nem duas coxas nem um grande coração conseguem encher o meu vazio.
Nem os olhos cheios de Inglaterra e, como se diz, de sonho.
Nem uma voz cantante que falasse de plenitude e paixão.
Os arrepios encontram em mim um frio sempre alerta.
O meu vazio é um grande devorador, grande triturador, grande aniquilador.
O meu vazio é algodão e silêncio.
Silêncio que tudo imobiliza.
Um silêncio de estrelas.
Embora seja profundo, este buraco é informe.
Não o encontram as palavras,
Chapinham à volta.
Sempre admirei as pessoas que por acreditarem ser revolucionárias acreditavam ser fraternas.
Falavam com emoção umas das outras: escorriam como sopa.
Não é ódio, isso, meus caros, é gelatina.
O ódio é sempre duro,
Bate, bate nos outros,
Mas também dilacera continuamente o interior de uma pessoa.
Isto é o reverso do ódio.
E não há nada a fazer. Nada.
Henri Michaux, in Doze Nós Numa Corda – Poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Dezembro de 1997, pp. 78-81.
UMA NOVA OPORTUNIDADE
Camarada Van Zeller, no próximo dia 5 irei votar. Isto não está para ficar em casa a fazer contas. Irei votar com o Rui Pedro Soares, o Soares Carneiro e o Armando Vara na memória. Levarei no bolso esquerdo o processo Face Oculta para não me esquecer de nada. Num outro bolso, conto levar o caso Freeport. E como me restam vários bolsos, levarei também as três centenas de despachos assinados numa madrugada pelo ex-ministro Telmo Correia, o Casino de Lisboa e os submarinos do doutor Protas. Nos meus bolsos, que são largos, cabem ainda Abel Pinheiro, o processo dos sobreiros, os 20 génios que ocupam 50 cargos na administração de 1000 empresas diferentes. Cabe o caso Portucale e a ex-ministra Celeste Cardona, cabem o caso Moderna e a super fotocopiadora do Paulo das feiras. Vou votar com o Duarte Lima, o Ferreira do Amaral, o Jorge Coelho, o Diogo Vaz Guedes, o Santana Lopes, o Dias Loureiro e o José de Oliveira e Costa na cabeça. Levo o BPN numa mão para não me esquecer de, com a outra, fazer o que me resta: botar a cruz em quem possa morder as canelas a estes ladrões de colarinho branco. É fácil: basta pensar nesta gente toda e no que têm andado a roubar passando incólumes, sobre tudo e sobre todos, como se nada tivessem feito, como se nada tivesse acontecido, como se nada fosse grave. Isto precisa de uma purga, rápida e geral. Camarada Van Zeller, dia 5 irei votar contra esta gentalha toda, formada, eventualmente, em universidades sérias, modernas e independentes que nada têm que ver com essa obra criminosa das Novas Oportunidades. Pum!
BUTÃO
É um jogo inofensivo, um passatempo, gostava que me dissesses qual a primeira coisa que te vem à cabeça quando pensas em Portugal. Fado. E Espanha? Sevilhanas, tapas. E em que pensas tu quando pensas em França? Numa estrutura de ferro erguida numa cidade, não gosto de Paris, sou preconceituoso relativamente aos franceses, gosto dos existencialistas, dos malditos, eram os franceses menos franceses. Itália? Máfia, é inevitável. E Alemanha? Não posso deixar de pensar no nazismo, para mal dos meus pecados. Sempre tiveram a pretensão de dominar a Europa e finalmente vêem os seus esforços recompensados. O que te inspira o Reino Unido. Gente conservadora, boa música, fala-se na pontualidade britânica, penso em nuvens carregadas de água. E na Suiça? Queijos. Bélgica? Pedófilos. Grécia? Filósofos, aldrabões, ruínas. Mas o que eu gostava mesmo era de pensar em qualquer coisa quando me falam na Letónia, na Bielo-Rússia, na Lituânia, na Estónia. A Ucrânia lembra-me emigrantes, a Rússia revoluções, a Finlândia não me lembra nada, a Noruega bacalhau, a Roménia ciganos. E a Islândia? Gelo. Já pensaste no Djibuti? Isso existe? Eritreia, Burundi, Gambia, Guiné Equatorial, Suazilândia, Lesoto, Gabão, Togo, Burkina Faso… Chega, chega, só me ocorre fome, guerra, ditadores, colonização, escravos, miséria. Filha da puta de imaginário, podia pensar em maravilhosos pores-do-sol, paisagens ricas, penso muito no deserto quando me falam do Sara Ocidental, embora nunca me falem do Sara Ocidental, e em humidade quando ouço falar do Laos, o que acontece raramente e quase sempre pelas piores razões. Nepal? Os caminhos de Katmandu. Índia? Cores, especiarias. Austrália? Cangurus. As imagens, os elementos que associamos aos países, sobretudo àqueles que nunca pisámos, são estereótipos muito fortes. Nunca fui ao México e sempre que me falam no México só me ocorre violência e crueldade. Por outro lado, o Brasil inspira-me samba, boa música, mulheres bonitas… Deve haver por lá cada marafona. Há disso em todo o lado. Até aposto que se te falarem na Tailândia pensas logo em prostituição. Devíamos começar por aqui, por limpar a cabeça destas imagens, por não pensar em nada, por nos deixarmos embalar apenas pelo desconhecido. Por exemplo? Se me perguntares o que me ocorre quando penso no Chile só me ocorre uma enorme vontade de conhecer o Chile. Devia ser sempre assim. Não quero pensar em tango quando me falam da Argentina, nem no Che quando me falam em Cuba, quero pensar apenas no desejo imenso de andar por aí às voltas, andar pelo mundo a ver, a observar, a sentir aquilo que não conheço, a deixar-me embalar pelo desconhecido. Já reparaste no que podemos pensar quando pensamos nos Estados Unidos? Podemos pensar em tudo e mais alguma coisa e, no entanto, os Estados Unidos não se resumem a nada daquilo que podem ser no nosso preconceituoso imaginário. Onde é que gostavas de ir? À Nova Zelândia, à Papua-Nova Guiné, ao Belize… Ao Belize, fazer o quê? Sei lá, o mesmo que faria na Indonésia, no Camboja ou noutro sítio qualquer. Para onde quer que vá, levo-me sempre atrás. É uma forma muito limitada de ir a algum lado. É um problema que devia aprender a resolver. Deixar-me em casa quando parto. E o que levas contigo quando partes? O que compõe a tua mochila? Mares inavegáveis, oceanos inexplorados, ruínas e pântanos, desertos onde nem os escorpiões se atrevem a montar tenda, vento, sobretudo vento, tenho uma mochila cheia de vento. Preferia altas palmeiras, coqueiros, praias lisas, quilómetros de dunas e águas translúcidas, mas há muito vento e lama na minha mochila. Será do fado? Talvez seja do fado e da saudade e deste clima inóspito, o mundo é demasiado pequeno para um homem só. Qual a primeira coisa que te vem à cabeça quando pensas em Portugal? Penso em mim, num estigma, numa condenação, os portugueses são um povo estigmatizado, séculos de tráfico de escravos, um povo tão colonizador como colonizado, um povo sem consciência de si próprio. Já pensaste, como é possível que um país tão pequeno tenha gerado tanta história? É a História que nos gera, e a história não é boa nem má, é o que foi, é, de alguma forma, o que é e, de um modo talvez imponderável, é também o que será. Já pensaste no Butão?
Sábado, 21 de Maio de 2011
ARRANJA-ME UM EMPREGO
Diz-se aqui: «de acordo com um relatório da CMVM, existem em Portugal 20 pessoas colocadas nas administrações de mil empresas diferentes. Cada uma dessas pessoas ocupa, em média, 50 cargos. A mais bem paga aufere 2,5 milhões de euros por ano». Portanto, a culpa do estado da nação é dos ciganos, dos desempregados, das pessoas que preferem estar em casa a receber do Estado a ganhar o "ordenado mínimo" num hipermercado qualquer.
PERFIL
Leio isto no Facebook: «Confirmasse o k sempre disse. Isto das novas oportunidades é uma palhaçada». No perfil, o visionário revela que estudou Engenharia Zootécnica na Universidade de Évora. Dêem-lhe uma nova oportunidade a língua portuguesa.
Quinta-feira, 19 de Maio de 2011
MENTES BRILHANTES
O debate político enfastia-me. Ou tende a resvalar para a pura retórica, o que, não sendo necessariamente desmotivador, é garantidamente supérfluo, ou facilmente se torna capcioso por se deixar embalar pela cantilena partidária e pelos estereótipos individuais. Nada tomo por garantido neste país a não ser o que se me apresenta, há muito, como claro e evidente: continuamos a viver numa oligarquia que promove o mais descarado dos nepotismos. Tomo isto por garantido em sentido indutivo. Quando a experiência me provar o contrário, recuo e refaço as minhas conclusões. A par disto, está clara e cartesianamente evidente a penhora do saber, do mérito e a generalização da mediocridade. Os portugueses não cultivam o espírito crítico no que ele verdadeiramente implica: um esforço contínuo, permanente e trabalhoso de combate aos estereótipos e de auto-análise. Cada tipo de ensino deve ser pensado e avaliado no seu contexto específico (a quem se dirige, para que serve, porque se implementou, etc.), sendo que em nenhum desses “tipos” (chamemos-lhe assim) deve ser descurada a função fundamental: aprendizagem (formação cívica incluída). Em todos eles encontraremos defeitos e duvido que o rácio de mérito/proveito divirja muito de uns para outros se for avaliado em termos equitativos. Não duvido que as Novas Oportunidades tenham distribuído muitas habilitações cuja inutilidade e até falsidade a prática se encarregará de demonstrar, assim como não me restam dúvidas que muitos colégios privados oferecem excelentes médias a alunos que mal sabem escrever. Fui professor de Filosofia e Sociologia no ensino secundário em duas escolas públicas, leccionei Filosofia e Psicologia num colégio privado, administrei vários módulos em centros de formação profissional. Passaram-me pelas mãos centenas de alunos e dessa experiência guardo duas ou três conclusões pessoais: não é difícil acabar o ensino secundário mal sabendo ler e praticamente não sabendo escrever, seja em que tipo de ensino for e pelas mais variadíssimas razões; o gosto pelo saber implica esforço, dedicação, e os seus frutos não são verificáveis no imediato, sendo que estes frutos implicam uma relação essencial entre aluno e professor (basta uma das partes não ser esforçada para essa relação ficar inquinada); se numa turma de, vá lá, 20 a 30 alunos, seja onde for, como for e porque for, encontrarmos 1, 2 ou 3 que realmente se empenham e aproveitam a luxuosa oportunidade de andar na escola, então já não é mau (o mesmo raciocínio vale para os professores, obviamente em menor escala). Este é um problema verdadeiramente político que os partidos do “centrão” há muito tendem a disfarçar, formando e promovendo uma carneirada mole, acrítica e estupidamente tecnocrática, que só serve para perpetuar no poder os assassinos da escola, legalistas abstrusos e seus lacaios com lugar cativo no Ministério da Educação.
Quarta-feira, 18 de Maio de 2011
SOBRE O POST ANTERIOR, NÃO DIGO MAIS NADA. LIMITO-ME A CITAR:
Vou, no próximo dia vinte e quatro, receber o meu diploma de certificação do 12º Ano.
E vou de consciência tranquila porque não fico a dever nada a ninguém por ele. Muito menos um voto.
Por razões que não são para aqui chamadas, aos dezasseis anos interrompi a formação escolar regular. Podia tê-la retomado alguns anos mais tarde, mas o meu projecto de vida e prioridades eram outras.
Há um ano inscrevi-me num Centro de Novas Oportunidades. Integrei uma turma onde era a pessoa mais velha. Em dois meses completei o trabalho a apresentar. O que me consumiu todos os fins-de-semana e muitas horas diárias depois do trabalho.
O que é que aprendi neste processo? Que todo o meu percurso de vida podia e devia ser avaliado. Que todas as leituras, reflexões, diálogos, abertura ao "outro", experiências pessoais e profissionais me deram (e dão) competências. Foram avaliadas por vários profissionais e, sem complexos de qualquer espécie, vou receber a respectiva certificação.
Parabéns Maria.
E vou de consciência tranquila porque não fico a dever nada a ninguém por ele. Muito menos um voto.
Por razões que não são para aqui chamadas, aos dezasseis anos interrompi a formação escolar regular. Podia tê-la retomado alguns anos mais tarde, mas o meu projecto de vida e prioridades eram outras.
Há um ano inscrevi-me num Centro de Novas Oportunidades. Integrei uma turma onde era a pessoa mais velha. Em dois meses completei o trabalho a apresentar. O que me consumiu todos os fins-de-semana e muitas horas diárias depois do trabalho.
O que é que aprendi neste processo? Que todo o meu percurso de vida podia e devia ser avaliado. Que todas as leituras, reflexões, diálogos, abertura ao "outro", experiências pessoais e profissionais me deram (e dão) competências. Foram avaliadas por vários profissionais e, sem complexos de qualquer espécie, vou receber a respectiva certificação.
Parabéns Maria.
Terça-feira, 17 de Maio de 2011
HABILITAÇÕES: INÁBIL
Nunca hei-de entender uma questão essencial no ensino português, e essa questão nem tem que ver propriamente com o ensino. Está mais relacionada com a forma como as pessoas encaram a escola. Fui professor durante 10 anos. Vendi habilitações no ensino secundário e em cursos de formação profissional (níveis III e IV). Repugna-me um discurso tão snobe quanto ignorante relativamente ao ensino técnico-profissional e ao programa Novas Oportunidades. Normalmente ouço dizer que se trata de escapes, formas fáceis de adquirir diplomas, habilitações literárias, meio caminho andado para a incompetência. Ora, pergunto-me sobre o que seja o ensino regular. Devo dizer, e digo-o com a maior honestidade que me é possível, que o melhor aluno que apanhei em 10 anos de docência (era uma aluna) foi, precisamente, num curso técnico-profissional. Ninguém é bom ou mau em função das marcas que veste, mas sim em consequência do esforço e do empenho que demonstra. O problema é precisamente este, começa aqui: em Portugal tudo se avalia pelo estatuto, nada pelo mérito. E o mérito é indiferente aos cursos, ao tipo de ensino, às escolas, está exclusivamente relacionado com a dedicação individual. Quem não entende isto, bem pode continuar convencido de que o investimento em formas alternativas de ensino é desperdício. Estará redondamente equivocado. A prová-lo estão os milhares de incompetentes, inúteis, imbecis, grunhos e basbaques que todos os anos saem das universidades com canudos debaixo do braço.
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #16
Posso ser conservador e não ter cabeça para Nova Iorque, mas sei apreciar um bom vinho. O Conventual branco de 2010 cai perfeitamente com umas pernas de frango guisadas, acompanhadas de esparguete. Sobretudo se estiver bem fresco. Deixa-nos os dedos numa levitação que se torna difícil acertarmos na tecla certa enquanto escrevemos. No entanto, há sempre a possibilidade de voltarmos atrás, apagarmos, corrigirmos o erro, refazermos o texto. Uma possibilidade que a vida nem sempre permite. Escute-se com atenção None of the Above, o memorável registo de Peter Hammill, como prova da incompatibilidade que separa o homem das suas ambições. Hammill foi parte integrante dos históricos Van der Graaf Generator. Nasceu em Inglaterra no ano de 1948, cursou filosofia e artes, foi educado por jesuítas (ninguém pode gabar-se de um passado perfeito), cedo enveredou pela melhor das carreiras: a solo. O álbum de 2000 é memorável por várias razões. A primeira está directamente relacionada com as qualidades de um bom vinho, o apuro dos ingredientes, a casta onde amadureceram os componentes, a química dos elementos. 8 canções escritas nas estrias da tijoleira (não me perguntem, não sei o que pretendo afirmar com isto mas faz-me sentido). Somebody Bad Enough merecia um ensaio, é de audição obrigatória, pelo menos, 5 vezes ao dia durante 5 semanas seguidos. E estou a ser condescendente. Há nas composições deste disco um hálito que merece ser provado sem preconceitos nem qualquer tipo de predisposição. O segredo é deixarmo-nos embalar pela reverberação, pelos graves, pelos sopranos, pelos harmónicos. Cada tecla acompanha uma nota que as cordas vocais emitem já não apenas como uma pedra sobre o caminho, mas como o eco dessa pedra caindo no fundo de um abismo para onde foi atirada. O segredo, a existir, reside no reflexo, nos círculos formados na água após a queda do seixo. Há momentos que sugerem uma certa complexidade, uma estranheza. Como no tema In a Bottle, onde várias vozes se sobrepõem e desafiam a estrutura linear da maioria das canções: «Sangreal, the eau-d-vie». Essencialmente composto na base de sintetizadores, este disco é de um organicismo incomparável. Aquilo a que alguns chamam atmosfera fica reservado às palavras, aqui sintetizadas em dois versos: «life’s just got started when / you find you can’t begin again». E o resto é conversa para amantes de passerelle e novas tendências, em Nova Iorque, Paris ou no Burkina Faso.
Segunda-feira, 16 de Maio de 2011
TENDÊNCIAS SUICIDAS
MAR INTERIOR
DESCRENÇA
Não creio em mim, não creio em ti,
Não creio no Bem, não creio no Mal,
Não creio na Vida, não creio na Morte,
Não creio em nada.
Encontro para tudo controvérsia.
Afundo-me na minha descrença.
E eu que nada invejo
Invejo os homens que sobem até Deus só pela Fé.
E desde o Sol ao próprio chão pregunto se tudo não é apenas ilusão.
E pregunto
..................Se não é ainda uma ilusão que em nada eu creia!
Mantive a grafia original. Lá fora troveja.
VOLTA AO MUNDO EM POESIA: SUÉCIA

Não estamos preparados para que o tempo passe tão lentamente, ao contrário do que por aí se houve dizer. Há um ano, fui à Suécia e nunca mais voltei. Fiquei por lá a subir e descer colinas, ora na direcção do céu, ora caindo à margem do rio que atravessa o mundo inteiro. O mundo inteiro é atravessado por um rio, os gregos chamavam-lhe Letes. Já por ali tinha andado, a esmo, pela mão de Gunnar Ekelöf. Mas porque gosto de ir onde os mapas não chegam, deixo-me agora embalar pela corrente dos fiordes. A Suécia é um país do qual se fala, quase sempre, pelas piores razões. Não me interessa a hipotética competência política dos nórdicos, prefiro as fragilidades dos seus poetas. Selma Lagerlöf, Nobel da Literatura em 1909, Verner von Heidenstam, Nobel da Literatura em 1916, Erik Axel Karlfeldt, Nobel da Literatura em 1931, Pär Lagerkvist, Nobel da Literatura em 1951, Eyvind Johnson e Harry Martinson, de quem já aqui falámos, ambos Nobel da Literatura em 1974, são talvez demasiados sinais de uma vitalidade literária que está longe de ser consensual. De resto, o prémio é atribuído pelos suecos. Não admira que, de quando em quando, o pretendam entre si. Há muito se fala de Tomas Tranströmer como um forte candidato a senhor que se segue. A ver vamos. Nasceu em Estocolmo, no dia 15 de Abril de 1931, filho de um jornalista com uma professora. Os pais divorciaram-se ainda o poeta era uma criança. Desde muito cedo, mostrou interesse por matérias várias do conhecimento: arqueologia, ciências da natureza, música, pintura. Acabou por se formar em Psicologia, em 1956. Dois anos antes tinha-se estreado enquanto poeta com um livrinho intitulado 17 dikter (17 Poemas). Em 1957, conheceu Monica. Casaram-se no ano seguinte e nunca mais se separaram. Ele tinha 27 anos, ela 19. Têm duas filhas. Autor de uma poesia cristalina e sóbria, impregnada de lugares e das suas respectivas paisagens, Tomas Tranströmer conseguiu afirmar-se como um dos poetas suecos mais relevantes da actualidade. Os críticos acusaram-lhe, em tempos, a ausência de temas políticos, provavelmente ignorando que, em poesia, a melhor política é a do olhar. A política foi trabalhar como psicólogo junto de jovens delinquentes e toxicodependentes e viajar imenso, regressando com frequência à ilha de Runmarö para longos passeios por entre os bosques onde colhia da terra e das árvores apontamentos para os versos. Em 1990, um acidente vascular cerebral deixou-o bastante debilitado e remeteu-o ao silêncio. Mal conseguindo ler e escrever, Monica, sua mulher, foi quem o auxiliou nessas tarefas vitais. Publicou um livro seis anos depois do acidente. Hoje, a família vive em Södermalm e continua a passar os Verões em Runmarö:
LISBOA
No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.
«Mas aqui», disse o condutor e riu à socapa como se cortado ao meio,
«aqui estão políticos». Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.
Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
«será verdade ou só um sonho meu?»
Tomas Tranströmer, in in 21 Poetas Suecos, trad. Vasco Graça Moura, Vega, s/d, p. 141.
Sábado, 14 de Maio de 2011
VIDA DE FAMÍLIA
I
Durante as longas e chuvosas noites de inverno quando o vento uiva lá fora, minha mulher e eu jogamos às cartas. Jogamos em completo silêncio com os nossos corpos por aposta.
Mais ou menos meia hora depois, considero que já perdi o suficiente e levanto-me dizendo calmamente: «Não joguemos mais. Já não tenho mais nada a apostar. Já perdi todo o exterior do meu corpo». O interior quero guardá-lo.
Mas a minha mulher nunca consente isso. Ameaçadoramente obriga-me a continuar o jogo. E só paramos de jogar quando eu perco o meu corpo todo. Só as minhas doenças - dores de cabeça, constipações e todas as minhas febres - ficam do meu lado da mesa. Essas noites são de facto bastante tristes.
II
Durante quatro anos andei ocupado a quase construir uma cadeira de baloiço. Era para me vingar da minha mulher que já tinha construído uma cama sem costas. Agora era a minha vez de construir a cadeira de baloiço.
Uma cadeira de baloiço sem assento.Uma cadeira de baloiço para sonhadores.
Não sei como é que foi, mas só consegui fazer o assento. E o que é que se pode fazer com isso? Não devia estar ali de todo.
Mas entretanto a minha mulher conseguiu construir uma draga, que encheu a casa toda e me obrigou a ir para a rua.
Neste momento estou a fazer uma locomotiva a vapor. Quando terminar vou-me embora. Mas por enquanto só consegui fazer grande quantidade de vapor, que custa imenso a manter.
III
A minha vista subitamente começou a enfraquecer.
A minha mulher deu-me um binóculo sem lentes. «Ora vamos lá jogar às escondidas», disse ela. E desapareceu para sempre.
E eu, sem poder fazer nada. Sou obrigado a andar por aí com esse velho telescópio. Dantes eu era capaz de descobrir um tigre a vários metros de distância. Mas agora não. Ando por aí a êsmo na semi-obscuridade.
Ingemar Leckius, in 21 Poetas Suecos, trad. Ana Hatherly, Vega, s/d, pp. 75-76.
IMORTALIDADE
− A carteira. − disse-o assim, secamente, numa reticência sem reticências, como quem ordena, apontando-me a fusca à cabeça.
− Dá cá essa merda. – respondi-lhe, olhando para a pistola que ele me apontava firmemente.
Incrédulo perante a minha reacção, advertiu-me de que ou eu lhe dava a carteira ou ele estourava-me os miolos. Tentei explicar-lhe que tudo seria melhor para ambos se ele me desse a pistola. Não só me comprometia a suicidar-me ali mesmo, podendo ele ficar com tudo o que eu trazia nos bolsos, como, ao suicidar-me, livrá-lo-ia do peso de ter que me matar e oferecer-lhe-ia uma boa história para ele contar aos amigos, aos filhos, eventualmente aos netos.
Ele não compreendeu, provavelmente não acreditou no que eu lhe propunha, mas eu sublinhei a seriedade da minha proposta. Estou deveras insatisfeito com a vida, tu és, neste momento, um anjo que me caiu do céu. Empresta-me essa pistola por um instante, deixa-me pôr um fim a esta vida e ficaremos ambos satisfeitos.
Como podia eu ficar satisfeito matando-me? Ele queria saber tudo, era um gatuno curioso com vocação papal. Se me matar, fico satisfeito porque deixo de viver.
– Mas como pode alguém morto sentir qualquer tipo de satisfação? – indagou, dando-me literalmente cabo dos miolos.
Passei-me da cabeça e afastei a fusca com um soco, dei-lhe uma joelhada nos tomates e atirei-o ao chão. Depois dei-lhe um primeiro pontapé e disse-lhe que aquele era por ele não ter confiado em mim, e logo de seguida pontapeei-o novamente esclarecendo que aqueloutro era por ele não acreditar na imortalidade.
DIAS DE SOL
Sou um rapaz desprendido em questões financeiras. Não gosto de dinheiro. Por isso, faço questão de gastar todo aquele que ganho. Quanto mais rapidamente me vir solto do fardo, melhor. Irritam-me as pessoas que são capazes de despender energias por causa de um simples euro. Compreendo-as, julgo até que o país precisa delas, mais do que precisará da minha displicência, mas não suporto a picuinhice com que tratam o dinheiro. Refiro-me a pessoas capazes de reclamar pela mais ínfima quantia. Ontem, o rapaz que me atendeu no restaurante, ficou todo agradecido porque eu lhe devolvi 5€ que ele me estava a dar a mais de troco. Tê-lo visto de rede enfiada na cabeça, com um sorriso desdentado a agradecer-me a honestidade foi muito mais compensador do que ter metido 5€ ao bolso. Muitas vezes, as pessoas que são picuinhas com o dinheiro não se importam de meter ao bolso um troco errado, caso lhes seja vantajoso. Revelam-se exigentes na desvantagem, mas despercebidas no prejuízo. É compreensível que assim seja, faz sentido, são espertas. Eu é que sou parvo, acho que há prejuízos que não justificam o esforço de uma discussão.
CERTAMENTE QUE NÃO
O grupo editoral Leya é e tenderá a ser cada vez mais uma máquina cega de fazer dinheiro. Nele fundem-se catorze editoras devoradas sem parcimónia de critérios, estilos ou tendências; apesar de manterem os nomes originais. Certamente que esta opinião será irrelevante para quem lê e compra livros.
Fernando Dinis (ler tudo aqui)
Sexta-feira, 13 de Maio de 2011
UMA PROPOSTA MODESTA
O RAPAZ DO PLANO INCLINADO
Vejo-os todos os dias enquanto refaço os percursos da vida amaldiçoada. Não sei quem são, desconheço-lhes os nomes, as idades, as profissões, não sei sequer se têm profissões. O rapaz do plano inclinado não deve ter nenhuma profissão. Como pode ter uma profissão quem passa o dia de polegar pendurado na presilha das calças? Na verdade, não sei se o rapaz do plano inclinado passa o dia desse modo. Simplesmente sempre o vejo nessa pose, com as costas encostadas à parede e uma perna dobrada. Parece manco, restam-lhe apenas 50% de hipóteses de vir a dar um tiro no pé. Eis uma vantagem a não desprezar nas pessoas de uma só perna. Lá está ele novamente, a fumar o seu cigarro. Parece descontraído, parece que nada o afecta. No entanto, quem consiga penetrar o seu sistema nervoso central perceberá que há naquela postura uma tensão dissimulada. Aquele rapaz tem a pele caiada por uma solidão intraduzível. Não é como as mulheres que vêm em passo apreçado carregadas com sacos de compras, sacos de plástico eventualmente cheios com latas de atum, feijão branco, arroz, manteiga e um doce para o menino. São mães, e as mães lembram-se sempre dos seus meninos. Levam-lhes doces porque os doces são os melhores condutores da energia do amor. Caminham apressadamente, com os olhos colados às pontas dos pés para não tropeçarem na sombra. Quem lhes penetre o sistema nervoso periférico perceberá que não têm pressa alguma na marcha, são escravas das tarefas. Vão a pensar no que farão para o jantar, no tempo que passa, na falta de tempo, no quão bom seria poderem libertar-se do espartilho dos maridos. Também avisto os maridos. Há hora do fecho, quando atravesso a rua na direcção do abismo, vejo os maridos a tomarem a bica ao balcão. Outros conduzem com uma mão no volante e cinco dedos no ar que desperta a pouca liberdade que a vida quotidiana consagra. Falam de tudo com uma única intenção: esquecerem quem os emprega, as dívidas, os juros, os filhos, as próprias mulheres. Lá se lembram delas quando a efeméride o exige ou quando são surpreendidos pela desconfiança, uma traição inesperada, uma discussão sem sentido, vinda ninguém sabe determinar de onde. Um lembrete na lista das despesas. As discussões surgem como as pedras no caminho, vêm à biqueira dos sapatos para serem chutadas. E às vezes dói, fica-se com uma unha encravada, sangue pisado. Há sempre uma farmácia aberta para as discussões, uma desculpa, um subterfúgio, o couto, o coito. O divórcio está fora de questão, uma trabalheira, dispendioso, os filhos não aguentariam. Um tipo mal sabe preencher um cheque, quanto mais repartir bens. Notem só o embaraço. Preferível regredir ao estado do rapaz inclinado, ficar encostado à parede, com uma perna dobrada e o cu assente sobre o calcanhar. O polegar suspenso na presilha das calças, uma mão segurando um cigarro e a outra assobiando melodias disformes. Parecem descontraídos, mas há neles uma tensão irreproduzível. É como se estivessem dentro de um poço, olhassem para cima, chamassem por alguém e apenas uma nuvem passando lentamente sobre a boca do poço respondesse com a sua assoberbada indiferença, com a sua sombra. Vejo-os todos os dias e não entendo como é possível sobreviver debaixo de nuvens tão insuportavelmente provocatórias, andando de cá para lá num vaivém repetitivo, sem destino, com as próprias pernas agarradas pelos suspensórios da obrigação. Mantêm-se vivos porque a isso se vêem obrigados pelos dias ludibriáveis. Os filhos não são desculpa, as mulheres carregadas de sacos com compras também não, muito menos o rapaz do plano inclinado. Não há desculpa. Antes tivessem um anjo que os amparasse, uma réstia de esperança ou fé ou lá o que isso é, essa coisa de pensar, de acreditar, de viver sem sequer colocar a hipótese de andarmos por aqui para, pura e simplesmente, trazermos o polegar suspenso na presilha das calças.
Segunda-feira, 9 de Maio de 2011
O LEITOR
Ontem os olhos pararam n’O Leitor. O filme de Stephen Daldry, que também realizou As Horas e Billy Elliot, tem todos os ingredientes de um bom filme. De resto, nestes três filmes encontramos boas histórias, actores que garantem interpretações convincentes, argumentos cativantes, uma fotografia escrupulosa, ritmo adequado. No entanto, O Leitor sofre de uma inverosimilhança fatal. É tudo demasiado bonito para ser verdadeiro e é tudo demasiado verdadeiro para ser bonito. Nada de novo na história de um jovem que desperta para a vida através da relação com uma mulher mais velha. Que Hanna Schmitz lhe peça leituras em voz alta apenas confere uma dimensão poética ao encontro, mas o pormenor não pode deixar de ser interpretado como um subterfúgio narrativo algo inconsistente. É provável que Bernhard Schlink, professor de Filosofia do Direito e autor do livro que está na origem do filme, não tenha pretendido tanto sublinhar a relação entre Michael Berg e Hanna Schmitz como parece ter concentrado os seus esforços numa dimensão moral que acaba por escapar à película. O que temos ali, então, é um case study, um de milhares de exemplos possíveis sobre as fragilidades da Justiça. Mas quem um dia se recordar de O Leitor, não vai lembrar um estudante de Direito perseguido por conflitos morais ao descobrir que a sua primeira foda foi com uma ex-guarda do campo de concentração de Auschwitz que gostava que os meninos lhe lessem livros em voz alta. Vai lembrar um rapaz e uma mulher que se amaram para lá das contingências da vida, presentes um no outro por sinais de fumo e memórias privadas e inconfessáveis. O julgamento de Hanna Schmitz era escusado, fica a pesar sobre o amor como uma tragédia já vista. A sua condenação começa no seu analfabetismo. E a maior das penas é esse isolamento que a separa de Michael Berg, um jovem que pode pedalar sobre a palavra como o poeta montado na sua bicicleta.
A MINHOCA
Quem venera a minhoca lavradora
que fende os torrões debaixo das ervas
em sua ocupação de transformar a terra?
A terra de quem se cobre enquanto trabalha
muda e cega de tanta terra.
Lá bem no fundo, onde os campos se vestem
para a colheita, ela é a mais humilde
lavradora. Quem venera o seu lavrar
de campesina cinzenta e paciente
nas profundezas da terra?
Harry Martinson, in 21 Poetas Suecos, trad. Casimiro de Brito, Vega, s/d, p. 94.
Harry Martinson tem todo um currículo que merece ser do conhecimento público. Perdeu o pai aos seis anos de idade e a mãe logo a seguir. Após a morte do marido, a senhora entregou os filhos a uma instituição pública e partiu para a América. Harry cresceu a aprender os mandamentos da sobrevivência: fugas, trabalhos vários, biscates, vagabundagem. Aos 16 anos fez-se homem do mar, e pelos oceanos andou até 1927, ano em que a tuberculose obrigou a que encalhasse novamente na Suécia. Dois anos depois casou com uma escritora 14 anos mais velha, publicou o primeiro livro de poemas e deu início a uma carreira literária que culminaria com o Nobel da Literatura em 1974. Os últimos anos fizeram dele um saco de boxe da juventude impaciente, a qual lhe exigia um comprometimento político que não era, nem deixava de ser, a sua principal preocupação. A depressão levou-o novamente às salas dos hospitais. O Nobel não foi remédio, pois adensou as críticas e Martinson tentou suicidar-se com uma tesoura. Eis um cheirinho de vidas literárias que já não há. Agora é tudo escritório, academia, festival e cama lavada.
Domingo, 8 de Maio de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #15
Tenho duas colecções de jazz feitas do princípio ao fim. Foram as únicas colecções que alguma vez terminei. Julgo mesmo ter sido a única coisa na vida que fiz do princípio ao fim. Em nenhuma delas aparece Ornette Coleman, saxofonista de excepção e figura controversa num mundo onde anormal é ser-se politicamente correcto. Nascido a 19 de Março de 1930, em Fort Worth, começou a tocar sob a influência de Red Connor e do inevitável Charlie Parker. Tinha 14 anos. Mudou-se do Texas, onde nasceu, para Los Angeles no início dos anos 50. A mania de improvisar numa banda que ganhava a vida a tocar melodias convencionais levou-o ao despedimento e a tentar a sorte noutras paragens. Alternou vários empregos com o estudo da música, lendo livros sobre harmonia e cruzando-se com músicos que acabariam por ser fundamentais na sua própria afirmação musical. O mais importante de todos terá sido o baixista Don Payne. Foi em casa deste que Red Mitchell ouviu Ornette Coleman e o levou até Lester Koenig, o produtor da Contemporary que acabou por juntar o quinteto deste Something Else!!! (1958). O trompetista Don Cherry, Walter Norris (piano) e Billy Higgins (bateria) são o trio que falta. Este quinteto marca a estreia de Ornette Coleman nas gravações em nome próprio. Quem aprecie jazz facilmente encarará o som registado neste disco, mas à época esta música gerou furor e discussão. As portas para o free começam a ser abertas com solos a distanciarem-se das linhas melódicas de base e improvisações despreocupadas face à melodia. As linhas de entrosamento estão lá, embora agora o desafio seja a marcação do tom e uma espécie de deriva delineada pelas paredes do labirinto. As influências são perfeitamente perceptíveis, quer quando os riffs evocam blues, quer quando os compassos remetem para ritmos latinos, mas o mais impressionante ao longo dos nove temas é mesmo a afirmação de um compositor e da sua singularidade: «I believe music is really a free thing, and any way you can enjoy it, you should». Tudo dito.
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