Domingo, 30 de Outubro de 2011

THE TREE OF LIFE




As obras de Terrence Malick atiram-me para o vazio. É assim desde Badlands (1973), um filme que tenho gravado numa cassete VHS e que me ajudou a perceber, pela primeira vez, a cobardia subjacente a todas as minhas acções. The Tree of Life (2001) transporta-me para um território místico onde não me sinto nada confortável. A justaposição das relações pai-filho e deus-homem inspira-me mais dúvidas do que convicções. Malick é inteligente, parece querer resolver, ou pelo menos evitar, a separação entre Deus e a Natureza, colocando ambos num só corpo reflectido na mais contemplativa das aventuras visuais que me foram dadas a ver nos últimos anos. Se pelo meio aparece o universo nas suas contínuas metamorfoses, com explosões de magma, dinossauros em queda e estrelas em expansão, apontando-nos o sentido de uma vida mutável e errática, isso quer dizer que Deus não encaixa nas vetustas caracterizações de perfeição e imutabilidade. Essa força que nos transcende e tudo cria, como também tudo destrói, gera no interior dos indivíduos um conflito porventura insanável. O fim do mundo é apenas o princípio do mundo. A questão já não está , pois, em reduzir a existência a uma mera passagem pela Terra determinada pela experiência da morte, mas antes em tentar compreender o mistério da existência a partir da única certeza que a lógica do pensamento nos permite: a vida continua, como sempre continuou, para lá de todas as catástrofes. Vale a pena o sofrimento? É certo que nascemos, vivemos e morremos, mas assim como nós nascemos, vivemos e morremos outros, antes de nós, nasceram, viveram e morreram e outros, depois de nós, nascerão, viverão e morrerão. O vazio está em que a percepção desta realidade interpela-nos sem direito a resposta. Tudo o que possamos pensar, julgar, não passará de uma desinteressante vacuidade perante a força das evidências: somos ínfimos, mais vale cumprirmos essa infimidade na luz pacificadora da única grande lei que está ao nosso alcance, ou seja, a lei do amor. Há ainda a esperança e a fé, mais forte nuns corações do que noutros, sempre sujeitas à gravidade dos conflitos que barram as emoções. Através dos tempos, por entre paisagens ora inóspitas, ora consoladoras, é nestas areias que os homens vão construindo os seus castelos. O pai e o filho que aparecem à sombra desta Árvore são o resumo de um conflito inerente à própria condição humana, esse conflito que a determinada altura da vida nos obriga a optar entre os castelos de areia com que explicamos a vida e definimos a existência ou a enigmática e inexplicável força das emoções que guiam a vontade e o desejo. Não deve ser por acaso que Malick escolheu para pai um músico frustrado convertido em ambicioso homem de negócios. Talvez Deus não seja diferente, viu a sua carreira de músico interrompida pelas necessidades práticas da criação. Eis a explicação para o desconcerto do mundo, somos governados por um pai severo, sem piedade nem misericórdia, que olha para os filhos temendo que eles se transformem naquilo que ele não pôde ser.

VENDER LIVROS

Dados recentemente divulgados revelam que os portugueses estão a comprar menos livros. Já agora, também estão a ler menos jornais. O número de leitores dos jornais portugueses, mesmo dos mais vendidos, chega a ser ridículo. Mas no que respeita aos livros o cenário é deveras interessante. Num país onde são publicados, em média, 55 livros por dia (repito, 55 livros por dia), deixando as livrarias atoladas com toda a espécie de lixo, facturaram-se, até Junho, 70 milhões de euros. Nos anos anteriores a facturação foi a seguinte: 170 milhões em 2010; 168 milhões em 2009; e em 2008 foram facturados 156,3 milhões de euros. Outro dado interessante: «em 2008, só um título vendeu mais de 100 mil exemplares e em 2009 e 2010 isso não aconteceu a nenhuma obra publicada em Portugal».

Tendo em conta o nível de cagança das pessoas metidas no meio, a paisagem é de uma pobreza confrangedora. No entanto, o que mais impressiona, sobretudo a quem tenha de lidar com a realidade dos números, é aqueles 55 livros por dia. Estes 55 podem ter várias explicações, sendo a mais honesta a de que se publica qualquer merda hoje em dia. Não há critérios de exigência, há uma necessidade tremenda de facturação (não necessariamente de liquidez) e corre-se sempre atrás do prejuízo. Aquilo a que em tempos chamávamos apostas editoriais devem agora chamar-se apostas comerciais. O mercado está saturado e a busca frenética de sucessos imediatos determina as regras.

O que vende, sobretudo em grande escala, é geralmente muito mau (julgo não ser necessário dar exemplos, basta olharmos para os “topes” ao longo do ano). Logo, é natural que a maioria do que se publica não fuja a esse padrão de mediocridade. Já ninguém está interessado na educação das massas, sendo hoje a única preocupação apelar às massas do consumidor. Esta mecânica movida pela exigência do lucro, com factores como a ganância a sustentar as políticas adoptadas, é muito semelhante à catástrofe provocada pelo capitalismo nos regimes politicamente democráticos. Ou seja, quando a única coisa que importa é o lucro nada mais se pode esperar senão uma rápida saturação dos recursos. Já diz o povo e com alguma razão: quem tudo quer tudo perde.

Daí que importe questionar a relevância deste dado: os portugueses estão a comprar menos livros. Por um lado, isso pode ser bom sinal. Vamos imaginar que os portugueses estão mais criteriosos e já não desperdiçam os seus recursos em qualquer porcaria. Tenho dúvidas, mas é uma hipótese. Vamos também colocar a hipótese de que apenas estão a comprar menos livros em relação ao volume avassalador de edições e reedições existentes no mercado. Ou seja, como se publica muito mais, parece que compram menos mas, na realidade, compram o mesmo. É uma hipótese algo estranha, mas legítima. Basta termos em conta que se vendem livros em qualquer lugar e que o estudo não chegou a todos esses lugares. Podem os hábitos de consumo estar alterados e o negócio, por exemplo, dos alfarrabistas e das feiras de velharias andar em contraciclo.

Por fim, mas não em último, os portugueses estão a comprar menos livros porque os trocam uns com os outros, alguém lhos oferece, tipo o José Mário Silva ou as próprias editoras (é só estar atento às campanhas: na compra da novidade x, oferta do mono y). Uma outra hipótese, algo estapafúrdica mas sempre curiosa de se discutir, é a de que os portugueses estão a comprar menos livros porque, et voilà, lêem menos jornais. Ainda ontem ouvia num programa do canal Q algumas notas aligeiradas sobre crítica e o papel da crítica e o valor da crítica e os estafados trocadilhos da crítica críptica… Na mesa, um crítico que não gosta de estrelinhas mas que as dá porque tem de ser, duvidava da influência dos críticos sobre as vendas. Um ex-livreiro, também na mesa, afirmou: vá lá que influenciem em mais dois ou três exemplares vendidos. Sucede que em situações de 1 sardinha para 3, essas duas ou três vendas acrescentadas, multiplicadas por centenas de postos de venda, fazem a diferença. A televisão vende livros, a rádio vende livros, a imprensa escrita vende livros. Não necessariamente os críticos, também eles transformados em pequenas rodas dentadas na engrenagem do consumo, mas a visibilidade oferecida, como publicidade mais ou menos económica, aos autores e às suas obras. O professor Marcelo ainda vende livros. Se assim não fosse, as editoras não lhe enchiam a secretária com as suas novidades, contribuindo, dessa forma, para o triste panorama das estatísticas. É que cada livro oferecido ao professor Marcelo é menos um livro que o professor Marcelo compra.

CAMPAINHAS PARA O AMOR




Crescerão campainhas sob as grandes árvores
E tu e eu estaremos lá em Maio;
Por algum motivo ambos teremos de adiar
A noite em Dunshaughlin –para agradar
Uma qualquer imaginária relação,
E então ambos iremos caminhar naquela plantação.

Estaremos interessados na erva,
Num velho balde de nora, na hera que tece
Uma incongruente verdura entre folhas mortas,
Deixaremos em espanto as carroças que passarem –
Olhando por vezes de soslaio as campainhas na plantação
Evitando assustá-las com bravia exclamação.

Seremos prudentes, não deixaremos perceberem
Que estamos a observá-las ou farão uma pose
De mera fachada como rapazes
Apanhados na naturalidade da virtude.
Não vamos impor às campainhas na plantação
Muita da nossa desejosa adulação.

Teremos outros amores – ou isso irão pensar;
Os narcisos ou os fetos ou as sarças,
Ou mesmo os desmaiados arames enferrujados,
Ou as violetas no bronzeado talude de azedas-bravas.
Além de todos, só as campainhas na plantação
Terão significado para a nossa negra contemplação.

Aprenderemos o amor a pouco e pouco, olhar a olhar.
Ah, o barro debaixo destas raízes é tão castanho!
Roubaremos o Paraíso enquanto Deus estiver na cidade –
Apanhei um anjo a sorrir fortuitamente
À espreita através dos troncos das árvores na plantação
Enquanto tu e eu caminhávamos lentamente para a estação
.


Patrick Kavanagh

Versão de HMBF

Sábado, 29 de Outubro de 2011

AS PESSOAS DE CULTURA

É raríssimo encontrarmos pessoas sensuais no mundo da cultura, são quase sempre fisicamente banais ou desinteressantes. Quando a excepção acontece, rapidamente somos surpreendidos por um qualquer defeito que deita a sensualidade pelo ralo abaixo. Sabemos de escritoras aparentemente lindíssimas com defeitos na língua, bexigosas, estrábicas. Esses defeitos são terríveis porque contribuem para a confirmação da regra: é raríssimo encontrarmos pessoas sensuais no mundo da cultura. Uma pessoa pode parecer muito sensual, mas se começa a falar e carrega nos erres ou é gaga perde a graça. Quando finalmente supomos ter encontrado uma pessoa do mundo da cultura verdadeiramente sensual e, sem qualquer pequeno grande defeito físico a minar-nos os olhos, depressa somos atraiçoados por descompensações psíquicas. Uma pessoa descompensada até pode ser sensual, mas dá-nos cabo do desejo. As pessoas de cultura ou são feias ou têm pequenos defeitos arrasadores ou são descompensadas; logo, é natural que não sejam muito populares e vivam em reservas elitistas, mais ou menos confinadas às suas próprias pancadas.

Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

OFFSHORE

As editoras marginais são as offshore do mercado livreiro. Entre elas, as de poesia são as mais românticas das empresas.

APAGAR

Não compreendo as pessoas que me dizem nunca se arrependerem de nada. Tenho dias em que só não me arrependo de me arrepender de tudo. Nesses dias, se pudesse, rasurava toda a minha vida, deitava tudo para o lixo, queimava letra a letra, apagava memória a memória. Provavelmente depois arrependia-me, mas que se lixasse.

Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

EQUIPAS DE SONHO




É insanável, dou-me pessimamente com o colectivo. Compreendo quem me possa julgar presunçoso, mas garanto que a tendência para o isolamento nada tem que ver com vaidade ou egocentrismo. Na verdade, tenho uma péssima auto-imagem. Mas o que quero agora sublinhar é esta incapacidade para me integrar em grupos, corporações, associações, partidos, clubes. Em tempos fiz parte da Juventude Socialista. Arrependi-me passados dias e deitei o cartão para o lixo. Nunca me fiz sócio do Sporting receando cansar-me do verde-esperança. Normalmente é o que sucede quando adiro a alguma coisa, a saturação toma rapidamente conta de mim. Fiz parte de uma associação, mas fazia parte integrante de uma forma desintegrada. De resto, toda a associação em causa primava pela desintegração orgânica. Das associações de estudantes fugi sempre como o diabo da cruz, e ainda que tenha feito parte de uma lista concorrente só aderi por saber, à partida, que chegaríamos derrotados no final da corrida. Fui um desportista negligente. Faltava aos treinos e fazia-me impressão as reuniões de balneário. Também não gostava de andar nu entre os rapazes. A única equipa onde alguma vez me senti integrado é a equipa dos perdidos. Encontro-me na minha perdição e sinto-me como peixe na água sem leis, regras, coordenadas, normas, calendários. Como pode uma pessoa assim ser feliz tendo que cumprir horários? Não pode. Um horário, um simples horário, é a morte anunciada do artista. Por isso, olho para algumas fotografias do passado em extrema ambivalência. Se por um lado a nostalgia me cativa ao pensar na anarquia com que encarava os treinos e as regras do jogo, podendo gabar-me de ter levado vermelhos sem sequer ter pisado o pelado, por outro lado entristece-me profundamente, chegando mesmo a inspirar-me algum desprezo esta natureza de gorila enjaulado, de besta amordaçada, de bicho doméstico que arrumou as chuteiras para evitar joelhos esfolados.

Domingo, 23 de Outubro de 2011

ESCARRADEIRA


As pensões vitalícias dos políticos portugueses não são gorduras do Estado, são direitos adquiridos intocáveis e inalienáveis. Ninguém se espante, os porcos pedem-se fartos e gordos.

PÉGASO




A minha alma foi um velho cavalo
Oferecido para venda em vinte feiras.
Ofereci-o à Igreja – os compradores
Eram homenzinhos tementes da sua aura invulgar.
Um disse: “Deixe-o estar naturalmente
Ao vento e à chuva e à fome
Do pecado que nós ficaremos com ele −
Com as palas aplicadas – a troco de nada”.

Então o homem do Estado viu
O que eu tinha trazido para venda.
Um ministro, pretendendo saber se
Um outro corpo de cavalo ajustar-se-ia à cauda
Que ele reservara por sentimento –
A relíquia da sua própria alma –
Disse: “Vou apascentá-lo no lugar do trabalho”.
Emprestei-o por uma semana ou duas
E ele regressou com problemas nos ossos,
Faminto, esgotado, em desespero.
Alimentei-o na erva à beira da estrada
Tentando pô-lo em forma para mais uma feira.

Baixei o preço. Mantive-o ao pé dos atacados
Pela pulmoeira, esparavonado ficou
E comerciantes desonestos disseram que ele
Talvez aguentasse uma temporada na terra –
Mas não para trabalhos bem pagos nas cidades.
Faria a vez de um trolha, possivelmente.
Supliquei: “Ó, fazei agora uma oferta,
Uma alma é a tragédia de um homem pobre.
Ele puxará a carroça do estrume”, disse,
“Mostra-vos atalhos para a Missa,
Ensina o saber do tempo, à noite recolhe
Dívidas perdidas da erva dos homens pobres”.
.........................................................E eles nada.

............................Onde os
Trolhas porfiam desci eu
Com o meu cavalo, a minha alma.
Gritei: “Quem me oferece meia coroa?”
Daquele regateio ruidoso
Ninguém respondeu. “Alma”, orei,
“Eu tenho-te apregoado através do mundo
Da Igreja e do Estado e dos negócios mais mesquinhos.
Mas esta noite, cabresto retirado,
Não mais continuarei a apregoar-te.
No lado sul das valas
Há o pastoreio do sol.
Não mais discutirei com o mundo…”

No momento em que eu dizia estas palavras cresceram-lhe
Asas no dorso. Agora posso montá-lo
Por todas as terras que a minha imaginação conheça
.


Patrick Kavanagh
Versão de HMBF

A PERGUNTA

− Que mal é que eu te fiz para além de existir?

Só encontro duas razões que podem levar a uma pergunta destas, ambas relacionadas com o nosso indisfarçável mal-estar. Quem connosco convive pode interrogar-se sobre a causa desse mal-estar, supondo-se a origem de todos os males. Por outro lado, o nosso mal-estar inflige sobre quem nos rodeia uma dúvida legítima: serei eu o problema? O mal-estar é contagioso, por isso convém disfarça-lo, engoli-lo em seco, evitar partilhá-lo. Convém aprender a sofrer sozinho, em clausura absoluta. Caso contrário, corremos o risco de ouvir alguém colocar-nos aquela questão e ficarmos sem resposta. Porque ao centralizar a razão do mal, o sujeito que nos interroga coloca sobre si, hiperbolicamente, o mundo inteiro. A dúvida denota, ao mesmo tempo, insegurança, presunção e idiotia. Afinal, porque haveria a existência de alguém ser mais a causa do nosso mal-estar do que a nossa própria existência? Não estamos sozinhos no mundo nem existimos para lá das circunstâncias. Aprender a lidar com esta condenação aproxima-nos dos macacos. Pode tornar-nos mais felizes, na exacta proporção em que nos torne mais ignorantes e indiferentes.

Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

RUÍNA

O mundo está de pantanas e eu com ele. Aproveitei as férias para trabalhar, sempre me distraio. Com a Grécia incendiada e a Líbia festejando a execução do seu ditador, não me restam alternativas. Entre tudo e mais alguma coisa que faz notícia, nós por cá vamo-nos indignando com tremoços e imperiais sobre a mesa. Dizem-me que há uma tipa muito burra num programa da TVI que não vejo. Fica-me travada na ponta da língua a reacção, burro és tu que perdes tempo com essas porcarias, com essa máquina de produzir lixo chamada TVI. Já não consigo reagir, doem-me as costas. O mundo está assim: numa rua chinesa uma criança foi atropelada por uma carrinha que seguiu caminho. Os poetas chamam a isto atropelamento e fuga, mas as fugas só se justificam quando há motivo para fugir. Ali, pelos vistos, não havia motivo. Já não há motivos para fugir. Constato-o porque após o atropelamento passaram pela criança estendida no chão mais de 15 pessoas que nada fizeram, absolutamente nada. Passaram pela criança estendida no chão como quem passa por um fruto podre. Isto aconteceu no dia 18 e está filmado. A criança morreu hoje. Tenho sentimentos contraditórios perante a notícia. Por um lado, sinto que a pobre criança se livrou de um mundo de pantanas. Por outro, sinto que a privaram das pantanas do mundo. Dos que ficam, uns mais indignados que outros, brotam movimentos contra a apatia. Mas isto já não é apatia, isto é puro e intratável declínio. Que venha uma catástrofe natural global e nos resolva de nós próprios é o que mais anseio. Assim como assim, retransformados em dinossáurios talvez pudéssemos começar de novo.

Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011

PRIMEIRA VAGA DE UMA MARÉ CHEIA

encomendas para voltadmar@gmail.com

PALAVRA DO DIA

Iatrogenia.

ORÁCULO

Camarada Van Zeller, mesmo não o tendo ouvido, devo dizer que gostei muito de escutá-lo. Vem vossa excelência alvitrar que os privados sigam as boas práticas do público e suspendam também eles os subsídios de Natal e de férias. Se calhar disse mal, vossa excelência não alvitrou. Na verdade, limitou-se a oraculizar. Cito: “As empresas, ao preferirem não despedir, podem cortar nos subsídios ou noutras regalias para evitar despedimentos. Não se sabe como é que isto pode ser feito legalmente, mas em 1983 fez-se".

Camarada, sem pretender beliscar a sua sempre sábia perspicácia, proponho alternativas. Como compreenderá, estas alternativas limitam-se apenas a seguir a sua boa axiomática. Por exemplo, as empresas, ao preferirem não despedir, podem optar por uma redistribuição equitativa da riqueza gerada. Não se sabe quando é que isto foi feito, mas estou certo de que a lei o permite.

Realmente, devemos ter em conta que um empregado que aufira o “salário médio nacional”, que é sempre o mínimo ou pouco mais, deve regalar-se todo com os belos dos subsídios de férias e de Natal. Pode, pelo menos, respirar dois meses por ano. Nos 10 restantes resfolega para que administradores, directores e quejandos aufiram não uma, não duas, não três, mas, por vezes, 10 vezes mais do que ele, 14 vezes ao ano.

Não esqueçamos que vivemos num país onde os «20 por cento mais ricos ganham 6,1 vezes mais do que os 20 por cento mais pobres». É bom não perder de vista o sentido da equidade na economia portuguesa. Daí que em vez de andarmos enrolados em algodão de rama, a ver se saramos cicatrizes com água oxigenada e um pouco de pó de talco, talvez não fosse má ideia optarmos por outro tipo de soluções.

Porque é que em vez de cortarmos nos subsídios de Natal e de Férias, não evitamos despedimentos generalizando a toda a gente (incluindo patrões, gestores, directores, administradores) o “salário médio nacional”, ou seja, o mínimo? Era uma medida de canhão! Imaginemos, camarada Van Zeller, vossa excelência e a sua senhora a viverem com 500€ por mês a bem do sacrifício nacional.

São tempos de austeridade aqueles que vivemos, exigem sacrifícios, medidas radicais, extraordinárias. Pois bem, eu ando a sacrificar-me desde que comecei a trabalhar. Para mim sempre foram tempos difíceis. Há anos que a minha vida sofre as consequências das medidas extraordinárias. Se pela economia tudo vale, eu sugiro que valha mesmo tudo. Portanto: 500€ para si e para todos os patrões, para todos os administradores, para todos os gestores, para todos os directores, para todos os ministros, para todos os secretários e sub-secretários e sub-sub-secretários de Estado, para os generais e para os capitães, toda a gente a auferir 500€ por mês até a Moodys e o FMI ficarem satisfeitos e os mercados deixarem de andar perturbadíssimos. Excepto o Américo Amorim, esse é cá dos nossos.

Vale?

Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #30





Falemos de beleza. Quando Concert Program foi publicado, em 1995, a Penguin Cafe Orchestra contabilizava mais de 20 anos de actividade. Formada pelo compositor britânico Simon Jeffes (n. 1949 - m. 1997), o primeiro álbum saiu com o selo da EG Records em 1976: Music From the Penguin Cafe. Concert Program serviu para rever a matéria dada em dose dupla. O registo reproduz um concerto de estúdio gravado no dia 23 de Julho de 1994. As manifestações públicas típicas de gravações ao vivo foram substituídas por pausas silenciosas entre os diversos temas. Com uma música produzida à base de instrumentos acústicos, a Penguin Cafe Orchestra inscreve-se num território algo dúbio (“moderna música de câmara semi-acústica, segundo o autor”). Entre o minimalismo erudito e a folk de índole clássica, facilmente nos inebria com melodias nostálgicas tocadas em tempos moderados quanto baste. Quando o ritmo acelera, nunca se desvia de uma rota prazenteira e descontraída. São 20 temas integralmente instrumentais, ora dirigidos pelo piano, ora guiados pela guitarra clássica, com arranjos certeiros, aqui e acolá comoventes, levados a cabo por competentíssimas secções de sopros e cordas. Quase sempre os pormenores são o que melhor consubstancia o tom dos diversos temas. Por exemplo, no tema Southern Jukebox Music o baixo define uma cadência mais melancólica. Já nos temas Air à Danser e Beanfields, o ukelele oferece uma alegria contagiante. Sem que consiga explicar porquê, esta música envia-me para viagens através de vales ou sobre mares pacíficos, com paisagens naturais ao mesmo tempo reconfortantes e misteriosas. É provável que as composições de Jeffes tenham ficado muito a dever à sua passagem pelo Japão. Há nesta simplicidade uma beleza que não surge necessariamente sustentada pela harmonia. Raramente a harmonia, por si só, nos garante a beleza. Julgo ser antes o inexplicável, a desordem instalada por um mistério indefinível, o terreno de onde brota com mais força aquilo a que geralmente chamamos de beleza. Na poesia japonesa sucede algo semelhante. Por isso nos questionamos: como é possível algo tão simples nos comover como não conseguem comover-nos as obras mais complexas?

Domingo, 16 de Outubro de 2011

CARLOS



Estreado em Cannes na edição de 2010, Carlos recria parte da vida de Ilich Ramírez Sánchez, o famigerado terrorista venezuelano que a imprensa baptizou de Chacal. Filho de um fervoroso marxista, Ilich veio estudar para a Europa após a separação dos pais. Em 1968 ingressou na universidade Patrice Lumumba, em Moscovo, mas acabou por ser expulso. De resto, se há marca de personalidade que o filme sublinha é a extrema indisciplina do visado. A obra de Olivier Assayas escapa aos aspectos convencionais do filme biográfico precisamente por se centrar nos traços psicológicos da sua personagem central, na mesma medida em que procura contrabalançar essa dimensão com as manigâncias sustentadas pelo terrorismo internacional. Daí que o Carlos do filme só interesse a partir de 1973, ano em que se junta à Frente Popular para a Libertação da Palestina. Os contornos que definem a personagem mostram-nos uma figura misteriosa, enigmática, complexa, perdida algures entre um egocentrismo extremo e a mais patológica das convicções políticas. Mulherengo, exibicionista, activista militante. As discussões ideológicas mantidas ao longo do filme apontam precisamente no sentido da construção de um homem que, na base de pretensas convicções, se transforma num perigoso mitómano e num ambicioso mercenário. O romantismo que se espera neste tipo de indivíduos é aqui ultrapassado por uma fria análise dos factos. Na raiz de tudo, o dinheiro, o interesse, a fama, impelem à acção e determinam as consequências. Paralelamente, o mundo político sofre das mesmíssimas patologias. Em nome de bandeiras mais ou menos utópicas, estaqueadas no lamacento e sinistro terreno dos interesses económicos internacionais, cometem-se actos cruéis, alimentam-se intrigas e justificam-se traições. É de admitir, porém, que dentro do próprio Ilich Ramírez Sánchez tivessem existido dúvidas sobre os méritos das “tarefas” perpetradas por Carlos, entre as quais o sequestro dos membros da OPEP em Viena foi apenas um exemplo. São essas dúvidas que oferecem interesse ao filme: terá sido Carlos uma mera peça no intrincado jogo da conspiração universal ou, por outro lado, foi ele mesmo um jogador com causa própria? Terá sido um mero mercenário a troco de interesses pessoais ou um guerreiro com fortes motivos ideológicos? Não nos cabe responder a tais dúvidas, como é óbvio. Cabe-nos apenas desconfiar.

FUNCIONÁRIOS DA ASNEIRA

Ontem, enquanto acompanhava a manifestação através dos canais informativos, deliciava-me com a indisfarçável ansiedade dos jornalistas. Uma delas, suponho que filha da Fátima Felgueiras, chegou inclusive a anunciar a degeneração do protesto pacífico num acto de violência. A histeria era de tal ordem que a dissonância entre as imagens e o discurso lembrava um episódio dos Gato Fedorento. Enquanto a polícia, que me pareceu desta feita de uma competência inquestionável, ora recuava no perímetro de segurança instalado, ora avançava para o recuperar, os jornalistas transformavam breves escaramuças, resumidas a uma ou duas detenções, num caos apenas detectável pelas potentes objectivas que traziam instaladas nos globos oculares. Um deles, na TVI, viu num espaço de segundos duas centenas de pessoas onde antes havia referido duas dezenas. Era óbvia a ansiedade daqueles funcionários da asneira, queriam sangue, montras partidas, carros a arder. Afinal, tudo o que tiveram foi um ovo arremessado contra o Parlamento. Pena que não tenha acertado nas fuças de um deles.

Sábado, 15 de Outubro de 2011

ESQUECI-ME COMO SE CHAMA





Se há domínio da edição livreira portuguesa onde podemos falar de mercado com substância, esse domínio é o do livro infantil. Felizmente estamos bem servidos, com propostas bastante diversificadas. Dentro das alternativas, cabe-nos sublinhar o excelente trabalho desenvolvido por projectos editoriais como a Orfeu Negro (vide colecção Orfeu Mini), a Planeta Tangerina ou a Bruaá Editora. Neste último caso, esse trabalho é de tal modo excepcional que será um “crime de lesa bom gosto” passar ao lado de objectos artísticos tais como Lágrimas de Crocodilo, Eu Espero…, O Arenque Fumado ou o mais recente Esqueci-me como se Chama, volume que recupera algumas histórias infantis do russo Daniil Harms, mudadas para português pela dupla de tradutores Nina Guerra e Filipe Guerra, com ilustrações bonitas, inteligentes e adequadas de Gonçalo Viana.

Trata-se de uma opção arriscada, mas distintiva. O universo literário de Daniil Harms, mesmo no território infanto-juvenil, não é de fácil penetração. Aparentemente caótico na sua espiral de acidentes, envia o leitor para uma arena onde se propõe um conflito com a lógica que determina a nossa forma de olhar, ver e organizar o mundo. O desafio consiste não apenas em superar essa lógica, mas em admitir no seio da mesma a existência de hipóteses invisíveis, cúmulos absurdos, novelos de associações infinitas que a linguagem permite ao pensamento. A tendência para ler estas histórias como quem lê meras anedotas, trocadilhos engraçados ou chalaças, desvirtua a raiz dos problemas sugeridos pelas mesmas. E esses problemas têm uma função didáctica imprescindível, a de tornar possível à imaginação uma liberdade que a transporte para lá dos constrangimentos impostos pelas leis científicas com que vamos compondo a realidade.

Não é de espantar, por isso, que o autor tenha merecido a censura do regime soviético, onde a regra era olhar para o mundo através de um padrão estritamente definido. Harms acabou por morrer de fome, ostracizado pelo regime de então, sem qualquer reconhecimento que extravasasse as fronteiras de um ínfimo círculo de amigos. Que mereça agora a sorte que não teve em vida:





ÓLEO DE PEIXE



Uma vez perguntaram a um rapaz:
− Ouve lá, Vova, como é que tu aguentas engolir óleo de peixe? Olha que o sabor não é nada agradável.
− É que a minha mãe, quando tomo uma colher de óleo de peixe, dá-me uma moedinha − disse o Vova.
− E o que é que tu fazes com essa moedinha? − perguntaram ao Vova.
− Meto-a no mealheiro − disse o Vova.
− E depois o que acontece? − perguntaram ao Vova.
− Depois, quando no meu mealheiro se acumulam dois rublos − disse o Vova −, a minha mãe tira-os e compra-me outro frasco de óleo de peixe
.

PARABÉNS

Nunca achei piada à prática de parabenizar os autores de weblogs pela continuada manutenção de tão ingrata actividade. Ingrata, no sentido de nos trazer sempre mais dores de cabeça do que paz de alma. Por outro lado, convenci-me há muito de que as almas humanas só merecem paz quando o corpo permitir, ou seja, no término da expiação. Até lá, cabe-nos carregar a cruz da civilidade. Sinto-me, no entanto, obrigado a agradecer a companhia, a partilha, a iniciativa. Explico-me dando um exemplo. O que de melhor a blogaria me trouxe foi a possibilidade menos remota do encontro. Por exemplo, quando no início do ano resolvi pôr cá fora mais um livro, em condições criticadas por uns, aplaudidas por outros, jamais me passaria pela cabeça o que veio a suceder. Entre encomendas várias para os locais mais inesperados, surgiu-me uma que solicitava o envio não apenas de um dos meus livros, mas de todos os que estivessem disponíveis, para endereço postal sito na Alemanha. Os livros seguiram, chegaram e o requerente deu conta disso. Mais tarde, há não muito, fui abordado no meu local de trabalho por um indivíduo que me desafiava para um duelo. Fiquei assustado, tendo em conta a compleição física do instigador. Passou-me logo pela cabeça uma velha lição: o que tem de acontecer tem muita força, e isto tinha que me acontecer. Em fracções de segundos preparei-me para levar um enxerto de porrada, convertido rapidamente em aperto de mão e espanto pela visita. E como se não bastasse o gesto, fazia-se o visitante acompanhar de duas ofertas: Poesia Completa e Prosa, de Vinicius de Moraes (Editora Nova Aguilar, 1987) e Poesia Completa, Teatro e Prosa, de Ferreira Gullar (idem, 2008). Felizmente, coisas destas vão-me acontecendo, sabe-se lá porquê, com alguma frequência. Seria, pois, uma enorme estupidez não dizê-lo publicamente: estou grato, meu caro, pela companhia que me/nos tem feito. Você é um homem conhecedor e viajado, culto e experiente, que vale a pena ouvir. Nunca dei por perdido o tempo que investi na leitura dos seus textos. Com eles procuro aprender sempre alguma coisa, embora nunca tenha sido aluno competente. Continue. Obrigado.

Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

FLOGGING A DEAD HORSE

Camarada Van Zeller, finalmente este país voga no rumo certo. Pedro Passos Coelho é o homem do leme por quem todos ansiavam. Pelo menos aqueles que votaram nele. Os portugueses merecem um homem destes, tal como merecem um Jardim, um Isaltino, um Valentim, uma Felgueiras, um Ascensor Simões… Só não percebo porque é que depois das medidas anunciadas ontem não se legaliza a eutanásia. Afinal, não é isso o que estão a propor, tratar o doente assistindo-lhe a morte? Também não percebo porque é que ainda precisamos de um Ministério da Economia. Podíamos começar por cortar aí, extinguindo o Ministério da Economia. Não vai servir para nada nos próximos anos e o autor de Portugal na Hora da Verdade bem podia recolher-se no gabinete a escrever mais bestsellers com soluções para o país. Sugiro-lhe que desenvolva alguns temas. Por exemplo, de onde vem o dinheiro do FMI? O dinheiro planta-se, rega-se e colhe-se ou é fruto do trabalho? Quem produz para que o FMI tenha dinheiro? Quem sua as estopinhas para que o Fundo exista? Diagnosticada a doença, e tomando sempre por dado adquirido que os tratamentos jamais serão consensuais, cabe também questionar qual a origem da doença? Não me parece que algum vírus possa ser combatido sem que se torne clara a sua origem. Sendo assim, não há responsáveis nem culpados cujos rostos devam ficar associados ao estado a que chegámos? Quem são? Onde estão? O que fazem? Em 37 anos de democracia política não me lembro de ter visto o meu país governado senão por gente que atira para detrás das costas, varre para debaixo do tapete ou põe nos outros a responsabilidade e a culpa dos vírus gerados pela complacência generalizada. Complacência para com a corrupção (BPN), complacência para com a soberba (Madeira), complacência para com a ostentação (UEFA Euro 2004), complacência para com a gestão negligente, incompetente, interesseira e pretensiosa dos dinheiros públicos. E quantas vezes, demasiadas vezes, esta complacência não se converteu em cumplicidade? Exemplos não hão-de faltar ao economista, jornalista e romancista português Álvaro dos Santos Pereira. A culpa é dos extraordinários privilégios dos funcionários públicos? O sucateiro é funcionário público? E o Américo Amorim?

ONTEM.HOJE.

Domingo, 9 de Outubro de 2011

CANSAÇO

Caminho dia e noite
Como um parque desolado
Caminho dia e noite entre esfinges desmoronadas de meus olhos
Perscruto o céu e sua erva cantante
Olho o campo ferido por gritos desmesurados
E o sol no meio do vento

Afago meu chapéu cheio duma luz incandescente
Passo a mão sobre o dorso do vento
Os ventos que passam como as semanas
Os ventos e as luzes com gestos de fruta e sede de sangue
As luzes que passam como os meses
Quando a noite se apoia sobre as casas
E o perfume dos cravos gira sobre seu eixo
Sento-me como o canto dos pássaros
É o cansaço longínquo e a neblina
Caio como o vento sobre a luz

Caio sobre minha alma
Eis o pássaro dos milagres
Eis as tatuagens de meu castelo
Eis as minhas plumas sobre o mar que se afasta
Caio de minha alma
E desfaço-me em pedaços de alma sobre o inverno

Caio do vento sobre a luz
Caio da pomba sobre o vento



Vicente Huidobro, in Natureza Viva, trad. Luís Pignateli, Hiena Editora, Janeiro de 1986, p. 33.

DO GENIAL QUEIJO DE SEIA

Eu acho que a provocação do Henrique Fialho deve ser lida num sentido justo: aquilo que acontece na Física, ou na Matemática, não é o acontece na Literatura. Aí premeiam-se investigadores de ponta, gente que experimenta e arrisca “cegamente”, como é próprio da ciência. Na poesia, na maior parte das vezes, escolhem-se as vozes que oferecem segurança, gente muito boa mas que conduz com airbag e que as academias têm seguido, bem ou mal.
Talvez a provocação do Henrique Fialho denote ainda uma concepção um pouco romântica e heróica da literatura… mas deixemo-nos de pruridos, e aqui dou-lhe a mão à palmatória, a gente lê a última entrevista que o Roberto Bolano (também poeta, embora ninguém fale disso) deu à
Playboy mexicana, a semanas de bater as botas, e interroga-se, e por que não? Brota ali uma energia (cf. em baixo), uma lucidez, uma inteligência, humor e imaginação, uma fúria de viver que, assim, em confluência, indesmentivelmente se encontra em raros. E quem pode, pode - o resto é conversa
. (António Cabrita)

Aquilo a que o António Cabrita chama de provocação foi um desafio colocado no Facebook. Desafiei os camaradas facebookianos a dizerem o nome de um poeta genial que tivesse recebido o Prémio Nobel. E acrescentei: «não peço bons poetas, poetas interessantes ou medianos, falo de génios, foda-se, génios». A Evelina Pereira deu a resposta que eu daria se o desafio me tivesse sido colocado: «Que merda de desafio é esse!?...Desde quando o Nobel tem a ver com génio!?...»

Olho para o Nobel da Literatura com o mesmo entusiasmo com que olho para os Óscares, é mais um “fé-divér” humano, demasiado humano, que nos preenche as horas, leva à conversa, inspira desafios. Esforçando-me por ser objectivo, julgo-os muletas do grande negócio da cultura. Não duvido que muitos escritores anseiem por prémios que ofereçam uma popularidade confundível, a espaços, com imortalidade, assim como não nego a existência daqueles que tudo fizeram para ganhar prémios só pelo prazer de os poderem recusar. Talvez Sartre tenha sido um deles. No entanto, sou pragmático: o dinheirinho conta muito, conta quase tudo, seja para o premiado, seja para quem, às costas do premiado, acena a bandeira das vendas.

Que me lembre, nunca comecei a ler um escritor por causa de um Prémio e é-me indiferente que os tenha ganho ou mesmo merecido. A genialidade dos escritores também se reflecte nestes pormenores, ou seja, o seu interesse reside exclusivamente nas palavras com que nos cativam. Mas se não alimento concepções românticas da literatura, muito menos me deixo embalar pela valsa do relativismo. Já chamava Feyerabend atenção para o facto dos humanitários se saírem sempre melhor do que os gangsters. «Ao imporem as suas próprias ideias do que é ser-se humano e em que consiste uma boa vida, contribuíram com frequência para uma destruição ainda maior do que a trazida pelos seus antecessores coloniais» (Adeus à Razão).

Neste sentido, o determinismo é tão perigoso quanto o relativismo. Porém, será assim tão difícil reconhecer o génio de um escritor? Fernando Pessoa é um exemplo paradigmático. Os suecos não podem ser acusados de terem ignorado acerca de Portugal o que os próprios portugueses ignoram. Foi o passar do tempo que fez o génio de Pessoa impor-se sobre os vastos campos de erva daninha que à sua volta medraram e serviram de pasto a muita carneirada. A genialidade obriga, pois, à universalidade e à intemporalidade (epítetos raramente logrados sem sofrimento, sacrifício, censura ou exclusão). Se olharmos para o Nobel, encontraremos pouco disso. Dá-se, inclusive, o caso curioso de a literatura sueca ser, segundo o histórico do prémio, das mais relevantes do universo. Tomas Tranströmer (2011), Harry Martinson e Eyvind Johnson (1974), Pär Lagerkvist (1951), Erik Axel Karlfeldt (1931), Verner von Heidenstam (1916) e Selma Lagerlöf (1909) tiveram para a Academia argumentos que faltaram, por exemplo, a James Joyce ou Jorge Luis Borges.

Não nego a existência de autores de grandes obras no panteão do Nobel, alguns que leio com agrado: Camus, Beckett, entre outros. Mas salvo raríssimas excepções o que para ali se vê é de um convencionalismo entediante. No que respeita a poesia o cenário é ainda mais confrangedor. Estão Czesław Miłosz e Wisława Szymborska, mas, que me recorde, não está Zbigniew Herbert. Paciência. Não é mania, nem teimosia, nem mero espírito contraditório, é sina: o coração pende-me invariavelmente para os que não estão, para os ausentes, para os excluídos. Kafka, Artaud, Parra, Michaux, Pizarnik, Pasolini, Brecht, Proust, entre tantos outros que, não estando, nos levam apenas a questionar a relevância dos que estão. Tipo Patrick Kavanagh...

Sábado, 8 de Outubro de 2011

EM BUSCA DE UM IDEAL






Novembro está a chegar e eu ainda espero por ti
Ó lesta ninfa que me escapaste quando
Te avistei entre alguns homens tolos
E com a força do meu desejo te ataquei.
Precipitadamente o fiz, gerei uma morte apaixonada,
Muito fácil, demasiado fácil, chorei então,
Não merecias uma gota pela minha caneta derramada.
Ó flor da luz comum, a emoção
Das coisas vulgares elevada à angélica condição
Saltou das tuas sedutoras pernas, segui-te
De Abril a Maio e de Junho até Setembro,
E tu mantiveste o comando até o alimento da paixão
Ficar bolorento dentro do meu alforge. Agora galanteio
As pegadas por ti deixadas através de Novembro
.



Patrick Kavanagh



Versão de HMBF

UM HOMEM ADMIRÁVEL

Camarada Van Zeller, há duas pessoas que admiro imenso em Portugal. Uma é o Zé Pedro dos Xutos & Pontapés, a outra é Luís Campos e Cunha. Este menestrel da economia nacional, que esteve num Governo de Sócrates durante 4 meses, mas abandonou o cargo porque lhe queriam mexer na carteira, veio defender recentemente que «em vez de se baixar a TSU, se devia aumentar o horário de trabalho ou reduzir o número de dias de férias e feriados de forma temporária». Isto faz de Campos e Cunha um dos ministros mais fugazes da história da política portuguesa com mais propostas para a política portuguesa. Não sei quantas horas por dia trabalha o ex-ministro, mas por mim falo: trabalho tantas que quando chego a casa não me resta tsu nem para jogar ténis na Wee. Hoje, por exemplo, estou de folga. Que tenha trabalhado entre as 10:00 e as 15:00 sem receber mais um cêntimo pelos serviços prestados é igual ao litro, o que importa é aumentar o horário de trabalho e contribuir para a saúde da Economia nacional. Aumentando o horário de trabalho as pessoas podem passar menos tempo em casa, desperdiçar menos horas com os filhos, pensar menos na vida. Evitam-se deste modo vários transtornos que estão na origem dos mais diversos problemas económicos. Primeiro, ao pensarem menos na vida as pessoas cometem menos erros. Prevê-se uma diminuição drástica na taxa de suicídios, até porque não haverá tempo para os preparativos. Os maridos não terão tanta disponibilidade para açoitar as mulheres, as mulheres não terão tanta disponibilidade para fazerem o jantar aos maridos, os filhos poderão andar na boa-vai-ela sem terem que ouvir as reclamações dos pais. Sublinhe-se também a pertinência da redução do número de dias de férias. Para que querem férias as pessoas que não têm dinheiro para gozar férias? A mim sempre me pareceu um pouco decadente dar férias a quem resta apenas uma de três soluções: ficar em casa a ver a programação de férias das televisões nacionais, colar o cu ao banco do café a folhear revistas com férias de sonho, encher a banheira e cortar os pulsos. Portanto, mais uma vez, Campos e Cunha prova que era o homem certo para o lugar errado. Infelizmente, só por lá ficou durante 4 meses. O suficiente, por certo, para tirar umas boas férias.

Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011

Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011

PAZ




E por vezes tenho pena que quando a erva
Cresce sobre as pedras em vales tranquilos
E o panasco se inclina ao longo dos sulcos da carroça
Eu não seja a voz dos camaradas do campo
Que estão agora de pé nalgum promontório a falar
Sobre nabos e batatas ou milho novo
Ou rampas de relva debulhadas para a vitória.
Aqui a Paz ainda vende pelas ruas
Os seus pentes coloridos e cachecóis e contas de corno.

No alto de um promontório junto a uma sebe chorosa
Uma lebre senta-se a observar um regaço de folhas lavradas,
Há uma velha charrua num cume coberto de ervas daninhas
E alguém carrega aos ombros para casa a sela do arado.
Fora desta terra da infância quem são os loucos que sobem
Para lutar com os tiranos Amor e Vida e Tempo?



Patrick Kavanagh

Versão de HMBF

Terça-feira, 4 de Outubro de 2011

SHANCODUFF






As minhas negras colinas nunca viram o nascer do sol,
Olham eternamente para norte na direcção de Armagh.
A mulher de Ló não teria salinado se tivesse sido
Indiferente como as minhas negras colinas, felizes
Quando a aurora coroa a capela de Glassdrummond.

As minhas colinas guardam os luminosos xelins de Março
Enquanto o sol inspecciona todos os bolsos.
São os meus Alpes e eu escalei o Monte Cervino
Com um molho de feno para três bezerros agónicos
No cambo abaixo do Big Forth de Rocksavage.

Os ventos glaciais afagam as juncosas barbas de Shancoduff
Enquanto os boieiros, abrigados no Bosque de Featherna,
Olham para cima e dizem: “Quem detém as colinas famintas
Que a galinha-d’água e a narceja terão abandonado?
Um poeta? Por deus, ele deve ser pobre.”
Pode o meu coração não ser abalado por estas palavras?




Patrick Kavanagh

Versão de HMBF

Sobre o título do poema, remeto o leitor interessado para esta nota: Shancoduff is an anglicised spelling of the Irish Shanco Dubh (possibly coming from "sean" - pronounced shan - meaning old in Irish and "dubh" - pronounced dove, like the bird - meaning black). The name refers to Kavanagh's north-facing farm in County Monaghan that he inherited. The title is very relevant as it conveys the poet's personal use of placenames and his remarkable sense of ownership, which serve to make the poem more accessible to the reader.

NÃO HÁ DUAS SEM TRÊS



Abraço ao Changuito.

NOVIDADES

Os vendedores aparecem frequentemente, trazem as novidades em pastas, alguns carregam exemplares precoces, com sinopses bem estudadas. Gosto de fazer prospecções, embora me sinta completamente inútil perante a catrefa de novidades apresentadas mensalmente. Gosto de fazer prospecções porque, muito de vez em quando, sou surpreendido pela boa nova. Hoje comovi-me ao ver as novidades da Gradiva. E não foi por causa do próximo José Rodrigues dos Santos.

FUNERAL

...As notícias tristes chegam-nos sem selo postal, por sms, de boca em boca, num aperto de mão fortuito. Não pedem dia, hora, mês, vêm ao jeito de um acidente sobre o qual nenhuma teoria é legítima.

...Ontem fiquei a saber da morte do Noel, homem real transformado em semente num texto breve vindo a lume nas Estórias Domésticas. Diria que nos conhecemos por acaso não fossem estes acasos demasiado coerentes. Apetece-me antes dizer que nos cruzámos porque assim estava destinado. Não me lembro onde, se na tasca do Alexandre, se numa outra tasca qualquer, por certo entre copos batidos contra tampos de mármore entretanto raros, desaparecidos.

...O Noel sabia-me as origens, trabalhara com o meu pai numa época cada vez mais parecida com a de hoje. Contaram-me que o vício do copo o foi afastando de responsabilidades outras, silogismo que nunca pude comprovar senão por me ter faltado a premissa que ajeita a conclusão. Do copo sei eu que gostava, do resto não sei nem nunca quis saber.

...Quando nos juntávamos, falávamos da revolução que estava por vir, dos cachaços enrijecidos à força de mocas conservadoras, da queda do Muro, de Fernando Pessoa. Nunca conheci homem com tão pouca instrução que soubesse tanto acerca de Fernando Pessoa. Foi a ele que ouvi, pela primeira vez, a mais nobre e simples definição do poeta: aquilo era toda a humanidade possível na cabeça de um só homem.

...Salvo erro, foi em 1997 que publiquei um pequeno livro intitulado Neoménia seguido de Outros Exorcismos. Alguns amigos ainda me perguntam, de vez em quando, porque raio publiquei um livro chamado Noémia. Não é Noémia, é mesmo Neoménia. O substantivo vem no dicionário. A única pessoa a quem alguma vez pedi uma opinião foi ao Noel, e foi dele que ouvi a mais sábia das opiniões, a única que guardei para o resto da vida: um homem cria para dar, não faz sentido criar para roubar. Desde então, tenho-me esforçado por dar alguma coisa em tudo o que crio. Nunca mais escrevi como então. É em memória do Noel que ergo hoje a primeira taça de Periquita. Que me perdoe não ter ido ao funeral.

...Soube agora também do falecimento do Zé Cartaxo. Há dias comunicaram-me que tinha caído da bicicleta e estava hospitalizado. Inspirou-me, igualmente, prosa breve (aqui). Com o Zé Cartaxo nunca falei sobre Fernando Pessoa, mas sempre fiz questão de acenar-lhe quando por ele passava. Era uma dessas figuras tão patuscas quão carismáticas de Santa Susana, a aldeia dos meus sogros, a terra onde as minhas filhas alimentaram os primeiros anos de vida.

...Conta-se que tinha um filho de uma filha, que eram mais as pulgas do que o ar lá por casa, que se alimentava de vinho e pouco mais. Sei que colhia os cogumelos diversas vezes confeccionados pela minha sogra. E adorava vê-lo passear a mulher pela mão. Ali ia ele, trôpego, de mão dada à mulher, cega, pela beira da estrada, a levar ao rosto da companhia o ar puro das manhãs. Aquela imagem do homem bêbedo que passeia pela mão a mulher cega há-de ficar-me na memória para sempre.

...Caiu da bicicleta, tinha sarna, não podia ser operado, passou as últimas horas em completo delírio por causa da falta do vinho. Em sua memória ergo a segunda taça de Periquita. E desculpo-me por não ir ao funeral.

Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011

EXCESSO

O trabalho do escritor é rasurar, o trabalho do livreiro é devolver. Eis o paradoxo: uma vida de excessos contra o excesso.

ALINHAVAR PALAVRAS





É um equívoco do qual não me livro, embora nada tenha feito para merecer sobre os ombros a cruz que carrego. Comecei a escrever sobre livros nos Cadernos do Alinhavar, salvo erro por sugestão do Ricardo Aurélio à Sílvia Alves e ao Paulo Kellerman. Eram textos brevíssimos e despretensiosos, reproduziam em meia dúzia de palavras uma impressão que podia ser partilhada à mesa de um café. Transportei o conceito para o meu primeiro weblog em 2003. Desde então, comecei a receber comentários, e-mails, sugestões, convites. Autores pediam-me o endereço postal para me enviarem os seus livros. Confesso que 99% dos livros que me foram chegando por esta via eram-me absolutamente dispensáveis. No entanto, por simpatia e cordialidade nunca disse que não. Foi um erro do qual me arrependo. Deveria ter dito sempre que não, assim evitaria aquele sentimento recorrente de estar com uma opinião em falta acerca do livro de fulano ou de sicrano. Esta actividade gerou um equívoco lamentável, alguns leitores chamavam de críticas literárias aos textos que eu escrevia sobre as minhas leituras. Os meus textos nunca são sobre os livros que leio, são antes sobre as leituras que faço. Meras impressões, puramente subjectivas e infundamentadas, saídas sem reflexão, nem preocupação. Passei a ser crítico, tendência que realmente sempre patenteei, mas, pior e insuportavelmente, crítico literário. Ora, eu desprezo tudo o que é crítica literária. Sempre desprezei. Tenho uma opinião deveras negativa das academias, dos cânones, da presunção de uma relação profunda com os livros e dessa coisa a que alguns chamam de leitura atenta. Gosto de ser desatento nas minhas leituras e adoro quando as mesmas me desatentam. Não tenho a pretensão de saber ler e interpretar um texto melhor do que os outros, logo não me arrogo no direito, muito menos no dever pago, de negociar essa minha suposta superioridade intelectual. Devo ter ido a uma ou duas conferências literárias em toda a minha vida, nunca pus os pés em debates e mesas redondas a não ser para evocar os espíritos dos mortos e se fui a meia dúzia de apresentações de livros foi porque metade era eu a apresentá-los e a outra metade era eu o autor (escapam-me, obviamente, as excepções). De crítico literário tenho tanto como a minha avó tinha de santa. E os textos que escrevo sobre as minhas leituras estão longe de configurar sequer o papel de uma mera recensão. Por causa destes equívocos já muito tive que aturar, sobretudo de rapazes novos empenhados nas suas carreiras literárias com uma seriedade em tudo o que fazem e escrevem que espero não reproduzam na cama. Para bem deles e de quem com eles verter águas sobre os lençóis. Não vou deixar de escrever sobre as minhas leituras com o mesmo espírito de sempre: dizer à janela desta casa, a quem passa e a quem venha, o que senti ao folhear esta e aquela constelação de palavras. Quem quiser pode continuar a chamar crítica literária a isso, mas pelo menos fique ciente de que desprezo o conceito e evito o termo.

AO HOMEM ATRÁS DO ARADO






Deixa agora as gamarras no descanso,
Hoje a semente voa distante −
Assemelha-se às estrelas contra a negra
Eternidade da terra de Abril.

Esta semente é forte como a semente
Do conhecimento no Livro Hebraico,
Portanto conduz os teus cavalos como
Um fardo no credo de Deus Pai.

Esquece os homens na colina de Brady.
Esquece o que o filho de Brady possa dizer.
Pois o destino não se cumprirá
Se não deixares o arado folgar.

Esquece igualmente a opinião do verme
Sobre cascos e pontiagudas cavilhas de arado,
Pois tu estás a conduzir os teus cavalos através
Da neblina onde o Génesis começa
.



Patrick Kavanagh


Versão de HMBF

Domingo, 2 de Outubro de 2011

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: ARGENTINA




À distância, e confiando nas aparências, é tanto aquilo que aproxima como aquilo que separa Portugal da Argentina. O fado e o tango, os poetas, a fatalidade de uma inexorável melancolia. Jorge Luis Borges não é apenas um dos mais relevantes escritores mundiais, avaliação sempre subjectiva e difícil de determinar. Foi autor de uma obra imprescindível em vários domínios, do conto ao poema, passando pela crítica breve, condensada, certeira. Um mestre para a vida. Mas a força das circunstâncias obriga-nos, por ora, a dançar o tango com Alejandra Pizarnik. Os poemas que vim desrespeitando nos últimos tempos foram respigados na edição de Poesía Completa (Lumen, 3.ª edição, Fevereiro de 2009). Ana Becciu adverte, no final, que não se trata de uma reunião definitiva, mas tão-somente de uma compilação. Seja como for, os poucos livros publicados em vida garantem-lhe um merecido interesse. Filha de emigrantes russos de origem judaica, Pizarnik nasceu nos subúrbios de Buenos Aires a 29 de Abril de 1936. Publicou o primeiro livro de poemas, La Tierra Más Ajena (1955), um ano depois de ter iniciado estudos de Filosofia na Universidade da capital argentina. Como muitas vezes acontece, esse primeiro livro foi relegado pela autora para um segundo plano. No entanto, a epígrafe de Rimbaud na abertura prenunciou com rara autenticidade um destino que parecia já traçado. Nos primeiros poemas a louca apedrejada na rua ainda era uma metáfora implícita à sombra da realidade, mas a solidão espreitava dentro da noite escura e as montanhas impávidas não eram a mais agradável das paisagens. Os biógrafos falam de uma infância complexa, marcada por forte sensação de exílio, problemas de acne e tendência para engordar. O consumo precoce de anfetaminas em doses generosas desbravou o caminho para distúrbios de personalidade tornados explícitos em alguns dos seus textos de carácter autobiográfico - é disso exemplo Sala de Psicopatología, escrito durante uma estadia no Hospital Pirovano. Alejandra permaneceu três anos na Universidade. Estudou letras, filosofia e jornalismo sem concluir qualquer curso. Paralelamente, manteve aulas de pintura com Juan Batlle Planas. De notar que durante esses tempos publicou ainda La Última Inocencia (1956), dedicado a León Ostrov, o seu primeiro psicanalista (há quem diga que foi a paixão da sua vida). A palavra cansaço cai sobre os seus poemas com um peso tremendo. 1958 é o ano de Las Aventuras Perdidas, livro dedicado ao poeta Rubén Vela, que também já lhe havia merecido atenções no poema Siempre, do livro anterior. Cansaço, noite, medo, morte, sombra são palavras que ecoam amiudadamente nestes versos, cada vez mais marcados por uma desesperança e por um sentimento de ausência que reivindicam uma fuga urgente. Pizarnik viveu em Paris entre 1960 e 1964, tendo aí continuado a escrever poemas, diários e longas cartas a familiares e amigos. Conheceu Octavio Paz, Julio Cortázar, entre outros escritores, artistas, intelectuais. O exílio físico não a desviou de um corrosivo sentimento de exílio interior, porventura relacionado com uma pontaria certeira para paixões fracassadas. Octavio Paz escreveu-lhe o prólogo de Árbol de Diana (1972), talvez aquele dos seus libros com uma estrutura mais rigorosa e um ambiente menos negro. A vida em Paris não foi fácil. Sem atingir o estado de penúria conhecido noutros escritores que passaram pela experiencia, a autora de Árbol de Diana manteve uma vida recatada, sacrificando-se em várias ocupações para poder continuar a escrever e a publicar. Colaborou com inúmeras revistas, entre as quais a conhecidissima SUR. Regressou a Buenos Aires em 1965, ano da publicação de Los Trabajos y Las Noches, com o qual obteve o Primer Premio Municipal. Paradoxalmente, são os livros que mais se distanciam de uma poética desesperançada e inquieta que é aquela que facilmente se associa à autora. Talvez refúgios, quiçá abrigos que a protegiam de uma nuvem de desastres, estes poemas são demasiado frágeis ao pé da delirante confessionalidade do livro seguinte: Extracción de La Piedra de Locura. A alienação toma-lhe conta das palavras, o verso faz-se prosa, o cântico ecoa no silêncio, a luz torna-se insuportável, porque falsa, «a noite tem a cor das pálpebras do morto». Tomada pela depressão, a poeta assemelha-se a uma presa em fuga desesperada. O suicídio emerge como tema e transforma-se em solução. Vive na escuridão, a ouvir Janis Joplin com o volume no máximo, tentando equilibrar-se no desequilíbrio de uma dança disforme. Escreve embalada pelo caos das emoções. No dia 25 de Setembro de 1972 ingeriu 50 comprimidos de Seconal. Queria dormir, não mais acordou.

Sábado, 1 de Outubro de 2011

MARIAS PARDAS





Marias Pardas (& etc, Março de 2011) oscila entre o denominado poema em prosa e aquilo a que agora se chama micronarrativa. São textos breves, agrupados em sequências, com uma componente diegética onde a poesia se instala já não apenas como metáfora mas, sobretudo, enquanto espaço de libertação da língua. A primeira sequência, intitulada Maria Parda, revela uma terceira pessoa em ruptura com todo o género de convenções. As imagens são sugestivas de um espaço degradante («sujidade das ruas», «a podridão dos sonhos», «ruas pardas»…) onde a sobrevivência se mantém pendurada por molas. Álcool disparado contra a solidão, blasfémias e impropérios proferidos como quem deixa escapar um pouco da cólera contida. Um universo de clochards que interroga a poesia sem grande efeito: «Ainda ouviu dizer que uma porrada de palavras a que chamavam poema era uma droga imparável, moto-contínuo de urina contra a parede, como qualquer roda rolando montanha abaixo, uma enxurrada de sinais gráficos a alienar-lhe os cornos e a mancha azul das olheiras. / Mas nada disso lhe interessava nem sequer sabia cagar efeitos» (p. 20).

Também Jesus e Goethe preferiam a companhia das putas. O papel do poeta, nestes casos, é excessivamente metódico. Ele observa e anota, não se furtando aos diagnósticos e, por vezes, avançando com teorias sobre os problemas. Já libertos do círculo lírico de um Eu ensimesmado, os olhos voltam-se para fora e deixam-se tomar pela paisagem. Agreste, sem dúvida, mas apelativa pelo lado libertário das personagens. Há uma certa intelectualidade que aprecia deveras o género, fazendo bandeira no poema da erosão sentimental e de uma linguagem desassombrada, ordinária, que a vida geralmente impede. A segunda sequência tem nome próprio: Marlene. Aqui é já o Eu quem fala, dirigindo-se a terceira pessoa como quem confessa uma desintegração ou, se quisermos, uma inadequação ao mundo: «Marlene, doem-me os pulsos, e já pouco mais me existe além do verde dos teus olhos, nesta cidade que nos mastiga diariamente» (p. 31). O mal-estar quotidiano toma conta da situação, a luz ao fundo do túnel é a luz parda de uns olhos longínquos, provavelmente também eles carentes de sentido.

Marlene é fonte de desejo, mas é também, e provavelmente mais que tudo, tubo de escape. É figura ao mesmo tempo mitológica e vivificante. É lugar de fuga e de restituição de uma ansiada paz interior, é o abrigo dos corações desavindos e das almas saturadas. Mas nem tudo se pode contar a Marlene. Esta impossibilidade de comunicação absoluta institui os limites da própria poesia, atira para a sarjeta a parangona da “poesia-verdade-absoluta”, da “poesia-revelação”, cedendo ao fingimento, ainda que travestido de castiça linhagem, imposto pelas circunstâncias: «Hei-de amar-te sempre, enquanto não tiver a luminosidade dos teus olhos a abafar-me aquela erecção que levarei até ao teu regaço, para que o acolhimento sem mácula desfaça o teu comércio dos enganos, a exploração dos operários das fábricas insolventes de caralhos de silicone, com um gestor de genitais ridículos, / e humidades fora do tempo e do lugar, / ah, Marlene, se te pudesse contar tudo! / Sinto a língua tão presa para te dizer que nasci numa aldeia da Beira-Baixa e tomei banho num rio inocente, só porque isso te poderia ofender, amo-te, toca-me aqui que eu gosto imenso, era só» (p. 41).

O volume termina com uma sequência intitulada Sem Nada. Nestes textos finais, reveladores, estamos no centro de onde, afinal, nunca chegámos a sair, esse Eu absoluto, castrador, inverosímil que toda a arte, incluindo a poesia, devia tentar aniquilar de uma vez por todas, mesmo que isso implique a morte própria. Missão impossível, por certo, mas que não deve impedir esforços. O vazio instala-se, assim como uma nostalgia estafada e impaciente. Tudo se perdeu, tudo nos roubaram, o mundo de hoje é tão insuportavelmente desapiedado. O tempo dita as regras, o vento tudo leva, mas de algo não nos livramos mesmo quando nos passam pelas mãos textos destes, o de sentirmos que tudo mudou para que tudo, afinal, ficasse na mesma. Não me lembro de que tenha sido diferente. Já Sócrates, e outros antes dele, se queixavam do mesmo. A pilhagem continuará, e nós a escrevermos desabafos. O livro é dedicado à actriz Maria do Céu Guerra.

RECORDAÇÕES DA PEQUENA CASA DO CANTO



...Era azul como a sua mão à hora da morte. Era a sua mão crispada, era o último orgasmo. Era a sua picha parada como um pássaro por cair, parada para a receber, a morte, a amante (ou não)
...Já não sei falar. Com quem?
...Nunca encontrei uma alma gémea. Ninguém foi um sonho. Deixaram-me com os sonhos abertos, com a minha ferida central aberta, com a minha ruína. Lamento; tenho esse direito. Assim mesmo, desprezo quem não se interessa por mim. O meu único desejo foi
...Não o direi. Até eu, sobretudo eu, me atraiçoo. Calei a minha alma como um bebé. Já não sei falar. Já não posso falar. Desperdicei o que não me deram, tudo o que tinha. E novamente a morte. Ameaça-me, é o meu único horizonte. Ninguém se parece com o meu sonho. Senti amor e maltrataram-no, sim, a mim que nunca quis. O amor mais profundo desaparecerá para sempre. Que poderemos nós amar a não ser uma sombra? Morreram já os sonhos sagrados da infância e também a natureza, a que me amava



Alejandra Pizarnik,, Abril, 1972



Versão de HMBF