sábado, 29 de dezembro de 2012

TRUE GRIT (1969)


Em 1969, John Wayne tinha 62 anos e contava com centenas de participações em filmes de sucesso e de interesse desigual. A sua reputação como actor estava estabelecida, confundindo-se em grande parte com a figura de herói do Oeste consolidada por inúmeros papéis em westerns de relevo. Realizadores como John Ford ou Howard Hawks foram alguns dos melhores com quem trabalhou. Não tão reconhecido como estes, Henry Hathaway (1898-1985) também deu cartas no género. True Grit, adaptação do romance de Charles Portis, foi o derradeiro dos seus westerns e um dos últimos filmes que realizou. A escolha não podia ter sido melhor, valendo a John Wayne um Oscar pelo desempenho como melhor actor principal.
Exibido por cá com o título A Velha Raposa, True Grit mistura numa só história vários elementos típicos do western: a caça ao homem, o contraste entre o território selvagem onde decorre a maior parte da acção e as cenas iniciais em Fort Smith, as relações de confiança/desconfiança entre as várias personagens, a problematização de uma justiça demasiado personalizada. Podemos mesmo dividir o filme em duas partes. Uma primeira concentrada na cidade, com as suas instituições e formalidades. A outra, no território selvagem para onde a jovem Mattie Ross, o Marshall Rooster Cogburn e o ranger do Texas La Boeuf se deslocam no encalço de um assassino em fuga.
Esta deslocação permite-nos acompanhar duas realidades distintas, a da cidade com as suas formalidades e a de um mundo onde a coragem se sobrepõe às formalidades na consecução da justiça. Contraste tanto mais importante quanto se revela claro o retrato de Fort Smith traçado nas cenas iniciais, com um triplo enforcamento público e o juiz a assistir à execução na varanda do tribunal. Na pensão onde Mattie e La Boeuf estão instalados, este tem de tirar as esporas, quando se senta à mesa, para não riscar as cadeiras. Mas a Mattie Ross (Kim Darby) não convêm tais formalidades. Para vingar a morte do pai e capturar o seu assassino, Mattie contrata o mais duro e rijo dos oficiais de justiça.
É o velho e sórdido Marshall Rooster Cogburn (John Wayne), alcoólico, zarolho e nada formal, quem ela contrata. A ambos junta-se La Boeuf (o cantor Glen Campbell), que também anda no encalço do mesmo fugitivo por razões diversas mas com o mesmo propósito. Tom Chaney, o assassino em fuga, abrigou-se no bando de Ned Pepper (Robert Duvall) em território índio. É por lá que se desenrolará grande parte da acção, quiçá a mais relevante. O contraste entre Fort Smith, com os seus tribunais, advogados, com as suas prisões e enforcamentos públicos, com as suas negociatas e o seu convencionalismo social emergente, e o comportamento destas personagens em território selvagem é deveras elucidativo de um distanciamento (ou de uma aproximação) dos valores essenciais que constroem os grandes seres humanos.
Daí que o elemento essencial neste filme acabe por se revelar apenas no final, quando vimos desabrochar na personalidade pedregosa de Rooster Cogburn um comovente paternalismo para com Mattie Ross. Dentro do velho Cogburn ainda florescem sentimentos e emoções. Torna-se fácil de entender o quão emblemático é este papel na carreira de um actor como John Wayne, desmascarado aos 62 anos pela interpretação de um velho Marshal de reputação duvidosa. O lado sentimental e afectuoso da personagem confere-lhe uma dimensão humana que já não é apenas a do herói implacável e algo sobre-humano, é a de um indivíduo com as suas fragilidades ocultadas pelo manto da coragem e da determinação.

CONTRIBUTO PARA UMA HISTÓRIA DO MODERNISMO

Pré-Modernismo:

Je est un autre.
Jean Arthur Rimbaud

Modernismo:

Eu-Próprio o Outro.
Mário de Sá-Carneiro

Pós-Modernismo:

Nós não somos duas pessoas.
Pedro Passos Coelho

COMBOIO DAS CINCO

 
Luís Afonso (1965) é um conhecido cartunista português cujo talento pode ser facilmente comprovado, por exemplo, nas páginas do Público. Recentemente, a editora Abysmo publicou-lhe O Comboio das Cinco (Outubro de 2012). Não é um livro de cartoons, embora o género esteja presente à laia de separadores que acompanham uma novela dividida em seis capítulos. Cada capítulo corresponde a uma cena no argumento de um filme que o escritor pós-moderno Lopes tenta escrever. Partindo do princípio amplamente reiterado de que os livros são sempre melhores do que os filmes, Lopes entrega o seu livro, ainda por escrever, ao realizador do filme que o adaptará. A ideia pode parecer algo rebuscada, mas revela uma indubitável argúcia nos métodos do escritor pós-moderno: fazer um filme baseado num livro que será influenciado pelo filme. Sentimo-nos tentados a parafrasear o realizador a quem Lopes entrega o seu livro inacabado, afirmando que há aqui muita coisa por analisar. A primeira coisa que nos vem à tona, sem pretensões hermenêuticas escusadas, é a de que este "pretexto diegético" introduz-nos no muito português universo da chico-espertice. De resto, o ambiente conjugal que caracteriza a primeira cena pode muito bem ser lido como uma parábola introdutória da relação que os portugueses mantêm com a pátria. Fugir, nem que seja para Espanha, é solução que não está fora de questão, fugir de um país onde os neologistas se revoltam contra acordos ortográficos num arrobo nacionalista que nunca penalizou o mau uso da língua; fugir deste clima onde todos são maus, horríveis, péssimos, excepto nós próprios e quem nos ouve dizer que todos são maus, horríveis, péssimos; fugir de uma sociedade que se despreza e maltrata diariamente, mas não suporta ver-se acusada do que diz de si própria por quem a olha do outro lado da fronteira. Mas isto sou eu em pleno delírio, armado em escritor pós-moderno, sem indicadores de qualidade literária nas margens do post (ou deverei dizer entrada?). O livro de Luís Afonso não é sobre nada disto, é uma mera paródia a um país com gente parada numa estação onde jamais chegará o comboio por quem todos esperam. Chame-se Dom Sebastião ao comboio e temos aqui uma versão pós-moderna do messianismo português, com alguns desvios nada inocentes como o facto de toda a gente fazer de conta muito a sério que o comboio chegará e que a estação funciona. País do faz de conta, talvez, estação do faz de conta,  quem sabe, mas de um faz de conta que se leva suficientemente a sério para que todos os actores possam negar a si próprios a condição de actores. Como o putativo suicida que se deita na linha do comboio sabendo que ali não passará comboio algum. O que importa, afinal, é a intenção. O logro não advém da mentira, como nos prova o recente caso do presumível burlão Artur Baptista da Silva. O logro advém da verdade não ter a sustentá-la os pergaminhos que a tornam credível. Ou seja, o pregão nunca é tão valoroso quanto o pregador. Por isso tão facilmente resvalamos, neste país de faz de conta, numa espécie de esquizofrenia atrofiante que nos inviabiliza toda e qualquer compreensão da realidade. Porque a realidade já se confunde de tal modo com a aparência que a aparência ameaça tornar-se na única realidade. Paradigma da esquizofrenia é a cena IV d'O Comboio das Cinco, onde o presidente de um clube entra em conflito com o presidente da Junta de Freguesia local por causa da cedência de terrenos. Tudo muito banal não se desse o caso de ambos, presidente do clube e presidente da Junta, serem uma e a mesma pessoa. A dimensão hilariante deste conflito pode muito bem servir de exemplo, neste país ziguezagueante onde toda a gente conhece toda a gente sem que ninguém se conheça a si próprio. E esse talvez seja o verdadeiro problema de quem espera pelo comboio das cinco: saber que ele não vem e, no entanto, continuar à espera. Como se nada fosse.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

BONDADE, CARIDADE, SOLIDARIEDADE


Amigo Pedro, hoje dirijo-me a ti. O camarada Van Zeller foi passar o ano nas Maldivas, está demasiado longe para que a minha voz lhe chegue. Acabei agora mesmo de ler a tua mensagem de Natal no Facebook e só posso dizer-te que me sinto profundamente desiludido. Afinal, Pedro, és tão piegas quanto a maioria dos portugueses. A época natalícia desmascarou-te, despiu-te da armadura de ferro, amoleceu-te. Falas-nos como se fosses um convidado da Oprah ou um entrevistado do Alta Definição, esvaindo-se em lágrimas de menino pendurado numa qualquer parede de um qualquer solar português. Dizes, ó Pedro, que este Natal não foi o Natal que merecíamos. Reconhece-lo depois de teres acabado com essa gordura social do décimo terceiro salário. Convenceste-nos de que precisávamos de fazer dieta, e agora vens vender-nos a banha da cobra em que terás banhado as azevias da Laura. Lamentas que muitas famílias não tenham gozado na Consoada “os pratos que se habituaram”, como se os pratos tivessem hábitos. E que muitos não conseguiram ter a família toda à mesma mesa, como se isso fosse um problema para quem já nem mesa tem. Quanto mais família! Deves pensar que andamos todos a cultivar afectos, estimulados quiçá pela literatura da E. L. James. Mas tu não vês, ó Pedro, que os velhos foram abandonados, as criancinhas deglutidas e os gérmenes secados que nem figos? Não andas a escutar com atenção o Presidente da República. Se escutasses, também tu questionar-te-ias sobre o que mais é preciso fazer para que nasçam crianças em Portugal. E também tu ficarias fascinado com a mungidura das vacas e os méritos do bolo-rei em bocas amordaçadas. Os portugueses que não puderam dar aos filhos um simples presente deviam dar os filhos a este Pedro. Ele que os crie com pratos de Sacavém. Ó Pedro, tu não és assim. Tu és outra coisa qualquer, tu és um Trinitá da política portuguesa. Resta-me a esperança de que esta tua metamorfose não seja, em boa verdade, tão piegas quanto aparenta. Talvez sejas um menino da lágrima a verter crocodilos pelos olhos. Afirmas, numa sintaxe elíptica de fazer inveja aos maiores poetas da língua portuguesa, que “já aqui estivemos antes”. Interrogo-me sobre onde será o aqui em que estivemos, tu e eu, Pedro, os dois, antes. A comida que então esticava para todos lembrou-me a sardinha para três de que tantas vezes me falou meu pai, mas nesse tempo não havia presentes maiores nem menores, as pessoas não lavavam os dentes e poupavam no banho. Não havia presentes, nem solas nos sapatos. Ponto final parágrafo. Este ano que para muitos foi um ano cheio de sacrifícios, Pedro, não foi “apenas” mais um ano. Foi o ano em que vimos a excelência administrativa de um Oliveira e Costa a ser premiada com mesas exíguas na Consoada das famílias portuguesas. Pergunta ao José Oliveira e Costa de que tamanho era a mesa dele, e que prendas deu à filha Iolanda, e pergunta ao Caprichoso que pratos lhe levaram à mesa, e ao Monteverde se dividiu as sardinhas, e ao Duarte Lima se comeu bacalhau ou se partilhou com o filho uma lata de atum, pergunta ao Arlindo Carvalho e ao Almerindo Duarte e ao Dias Loureiro, e ao Aprígio e ao Joaquim Coimbra e ao Fernando Fantasia e ao Catum, que conhecerás bem melhor do que qualquer um de nós, pergunta-lhes, Pedro, os sacrifícios que têm feito. Pergunto-te eu, Pedro, se é neles que pensas quando pensas nos que estão a sofrer. Se não é, devia ser. Devias pensar mais neles e noutros como eles, como esses a quem vais dando abrigo nas tuas lágrimas de Pedro. Pergunta ao Relvas se dividiu o bacalhau com os angolanos. Ou então aprende com o César das Neves e deixa de ser piegas, varre essas mensagens de facebook para debaixo do tapete como fizeste com todas as promessas que te trouxeram ao poder. Emigra, ó Pedro, faz desta crise uma oportunidade, desperta o que de melhor há em ti, mata-te, emigra, enclausura-te num mosteiro, faz qualquer coisa de útil para todos nós. Leva a Laura a passear à Sibéria e não regresses. Porque não é com orgulho que fazemos sacrifícios, estimado Pedro, muito menos supondo que esses sacrifícios trarão aos nossos filhos um futuro melhor. Mas qual futuro, ó Pedro? Tu, que ainda vês futuro onde já só se avista desesperança, explica-nos como alegrar os dias num país onde a morte ultrapassa a vida. Tu não percebes, Pedro, que estás a falar para 900 mil desempregados e outros tantos perto de o serem? Ou julgarás que só a Jonet e o César das Neves fazem um país inteiro? Pedro, ao pé de ti o embuste Artur da Silva é uma anedota para entreter meninos, uma piada de mau gosto, um número de stand-up comedy. Tu sim, Pedro, tu és o grande embuste que nos saiu na rifa, tu mais as tuas garantias e a alegria misericordiosa das Jonet e dos César das Neves, o vaselina Ulrich e o Relvas da consciência tranquila. Tenho a certeza de que caberão todos a uma mesma mesa, a mesa dos caras-de-pau. À bondade, caridade e solidariedade da tua estirpe, eu continuo a preferir sentar-me à mesa da liberdade, da igualdade e da fraternidade… Pedro.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O BARRETE DO PAI NATAL


Camarada Van Zeller, este Natal ficará marcado pela decomposição do mito. Perdoe-me a sofisticação do discurso, mas estou em crer que também eu, com algum treino, podia ser especialista em alguma coisa. Podia ser entrevistado em jornais de referência, podia ser convidado para programas de informação de referência, podia ser citado por jornalistas de referência, podia transformar-me numa referência para opinantes vários, disseminados pelos mais diversos canais onde a opinião circula como bosta no esgoto. Ficámos então a saber que o Pai Natal existe, chama-se Artur Baptista da Silva. No país dos Silva, este Artur podia ser um alto destacado das Nações Unidas para um putativo centro de estudos, podia ser consultor do Banco Mundial, podia ser professor numa universidade norte-americana. É óbvio que no país dos Silva tudo é sempre o que não parece e o que parece nunca é, pelo que este Artur, afinal, foi antes parte do Conselho de Fiscalização do Sporting nos gloriosos tempos de Jorge Gonçalves, o bigodes, esteve preso por burla, abuso de confiança, emissão de cheques sem cobertura, é um tonto com perfeito domínio dos dossiers. Quem lhe deu cobertura, e não foi pouca, foram os media portugueses, sempre exigentíssimos na averiguação das fontes e criteriosos no aprofundamento e na investigação das notícias. Mas num tempo em que a notícia se confunde com a opinião, sem rede protectora a proteger os trapezistas da doxa que não seja o mero acto de aparecer - porque, como sabemos, neste mundo de auto-estradas informativas quem não aparece não existe -, ser um Silva com lábia é tudo quanto basta para apanhar o Expresso da Meia-Noite. "Vai-se a ver", as auto-estradas são carreiros de cabras, o expresso uma carroça puxada por dois burros, o mundo uma ilusão. Camarada Van Zeller, o Noel existe e chama-se Artur. Esta história é linda porque torna clara e inequívoca, cartesianamente evidente, a debilidade da opinião publicada. Muitas vezes nos interrogamos sobre o que saberão aqueles que aparecem canal sim, canal não, programa sim, programa não, a proferir banalidades em retórica bem ou mal articulada. Interrogamo-nos sobre se terão tido tempo para estudar os assuntos sobre os quais proferem as mais convincentes asserções, já que é tanto o tempo que passam a saltar de canal em canal repetindo teses e argumentos. Se gastam tanto tempo a opinar, que tempo lhes restará para estudar? Ora aí está mais um Silva a dar conta da superficialidade de tudo isto, do chamado universo mediático e das suas constelações. Ora aí está a mais perfeita ilustração de um reino onde o vago, o fútil, o laxismo, a vaidade, a ausência de espírito crítico, em suma a incompetência e, pior, a promoção dessa mesma incompetência ao serviço da MENTIRA, dita regras e precipita um burlão na parangona dos homens que merecem ser escutados. O barrete do Pai Natal só o enfia quem quer. Não fosse trágico, isto seria cómico. Porque isto é, afinal, da mesma ordem daquilo que mete Relvas no poder e os livros do Camilo Lourenço no top de vendas das livrarias nacionais. Isto é mais um sintoma de uma sociedade alicerçada no facilitismo sem o mínimo sentido da exigência que a verdade reclama. Isto é Portugal, o país dos Silva, dos messias, do nevoeiro, das aparições. Isto é todo um povo sumariado.

domingo, 23 de dezembro de 2012

O CANIL DOS CÃES ZAROLHOS

para o António Cabrita

 

 

desgraçadamente ladram mas não mordem

buscam nas urnas os donos
e estes passando a mão pelo pêlo
roubam-lhes a ração da boca
logo à boca das urnas

sempre fiéis e de beiços arreganhados
basta um açoite no traseiro
para ficarem mais obedientes e servis

os cães afiam os dentes
temendo as garras e os bicos dos abutres
numa ilusão - rasante às ciladas
da vida - gretada de palavras febris

uns ousam ladrar mais acirrados
correndo o risco de serem encarcerados
enquanto outros saltam a cerca
antes da manhã derramelar as hienas

e há os que se atiram contra o arame
farpado
             esfarrapando-se em massa
num mimetismo desesperante

subalimentados ladram docinho
roçando as pernas dos donos
para ganhar um osso
na praia dos trompetes em chamas
à beira-mar da noite espezinhada
pelo terror das hienas
enquanto anónimos suicidam-se
no sussurro da infâmia
defronte aos que mastigam bolores
para sobreviverem

a caridade vai derramando asfixiante
misturando-se a um crude solidário
                                                        legal
e é legal ladrarem um poucochinho
manifestando a ira de açaime sindical

cães velhos corroídos de crostas infecciosas
e respiração barbitúrica
rosnam aos espelhos do requiem
sabendo serem um enfarte de trabalhos
aos tratadores do canil

os veterinários vão ministrando remédios
contra-indicados corroborando
na deterioração lenta das carnes
embebidas em minutos sem sangue
cozinhando a ração para ser distribuída
aos da lista de espera que teimosamente restam
entre restos de lixo e lixos da fé

colocam açaimes controlando a informação
e uma coleira de mecânicas palavras escolhidas
repetidas até à exaustão

a imprensa tornou-se parasita e
os jornalistas uns piolhos de salão
alimentando-se de noticias tosquiadas
                                                              ocultam
a incómoda realidade para as hienas

os comentadores do regime viraram coveiros

e dentro das valas vão-se babando
as carraças que gravitam ao seu redor
vendendo-se para se sentarem à mesa
dum ficcionado banquete do real

com pedigree romano/nazi
tem o canil uma nova dona que vem
descaracterizando os sinais únicos
do âmago duma pátria
 
aos peixes saquearam as espinhas
aos frutos os caroços
e um temporal não se levantou

caminhantes dos atalhos moribundos
lançam ao passar pelos dias de esgoto
sementes bolorentas sabendo de antemão
ser o seu gesto inútil
                                  ser e nada brotar

rosnam trovões sob a morte das searas

lembranças do purgatório ateiam fogo
às papoilas
                   ao redor jovens cachorros
arregaçam os caninos aos escaravelhos
que esperneiam nos subúrbios do planeta
                                                                    em agonia
entrançando de nuances uma existência aziaga

nocturnos eram os rostos
diurnos os sonhos improváveis

improvável era encontrar os teus dizeres
guardados numa gaveta de nuvens
prenhas de anjinhos com açaimes  
percorrendo lentamente o vazio
onde ao centro um fedelho agrafa
penas de toutinegra nas asas do vento
a raspar a saudade
                                apunhalando os rostos
no enterro do pensar porque
                                               pensar é um veneno
e os retratos ardem nos lugares alertando
ser o amor um tumor de pó e cinza

perseguem estrada fora os da paz
                                                        uma antiguidade

mão de fogo outra de água espelhando o vulcão
cuspindo cadáveres enforcados
depositando a lava para os olhos
dos tempos que hão-de vir
                                            cegando de pavor

pela estrada paralela caminham os da guerra
seguindo por agora no contrário dos outros
reacendendo um sangue no peito

ao fundo a encruzilhada

assim chegámos assim chegaremos
à roda a um fim de mínimos de tudo
onde o todo é um nada

aos cães bastaria
alimentarem-se bem na infância

daí para a frente o cagado seria o alimento
continuado num circulo rotineiro
até a morte aparecer para se alimentar da luz
e cuspir a carcaça

o mundo
               mal cheiroso
confluindo merdas de vendáveis ilusões

como não é meu designo governar
fazer curriculum perpetuar a espécie
nem mesmo proferir oratórias
com estandartes bordados de lambidelas
a um qualquer regime
uso por hora as letras
                                    para dinamitar
o covil das hienas eleitas
com um cante ao desafio

é escusado irem ver a barca bela 
pois já não se faz ao mar 
a treta nunca foi nela
e os escravos é que iam a remar

santa Merkel é o piloto 
o FMI o general 
que nojento trapo levam
o fado de Portugal

as palavras sempre pertenceram à morte

um dia um cachorro das últimas ninhadas
ladrará bem alto pela libertação do canil
ferrando os dentes nas contorções das hienas
até o veneno fritar-lhes o cérebro no parapeito
da janela defronte à estrada muralhada
de cadáveres em vinagre e nadas

nesse tempo de nova rotina doméstica
eu já não andarei por estas bandas

nesse tempo os homens voltarão
por algum tempo de novo a ler
nos remoinhos do saber mais além
enquanto lá longe vou minguando
em busca dos meus olhos laminados
por gente vil que conseguiu tornar-me
na dor que lhes convém

cego seguirei para voltar ao sofrimento da terra
onde todos os trajectos de
                                           todos
os lugares vão sempre dar à morte

por hora
por hora volto
                       ao aconchego dos braços

o pouco que me resta


 

Jorge Aguiar Oliveira
Inédito. Cacilhas, Dezembro de 2012

PRESENTE DE NATAL PARA MIGUEL RELVAS


sábado, 22 de dezembro de 2012

QUERES SABER O QUE EU PENSO?


R. Angelina Vidal, Lisboa. 2012.


Que ela queria apenas viajar. Penso que não tinha a menor ideia de encontrar fosse onde fosse aquele que dizia andar à procura. Nunca teve essa ilusão. Mas nunca o tinha dito a ninguém. Na minha opinião, era a primeira vez na sua vida que se encontrava tão longe de casa que não podia lá chegar antes do sol posto. E chegara até este ponto sem dificuldades, com toda a gente a ter muitos cuidados com ela. Creio que foi só por isso que ela decidiu ir sempre andando um pouco para mais longe, ver o maior número de terras possível, porque, cá no meu entender, ela bem sabia que uma vez fixada em qualquer lugar, ali ficaria, com certeza, até ao final da sua vida. Isto é o que eu penso.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: William Faulkner.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

THE MAN WHO SHOT LIBERTY VALANCE (1962)


Porque, como dizia o outro, isto anda tudo ligado, quem tiver visto Once Upon a Time in the West (1968) terá reparado que o actor negro da sequência inicial é Woody Strode, que ficou para a história do cinema como o actor negro de John Ford (1894-1973). Nessa sequência inicial do filme de Leone, passada numa estação de comboios, Strode é um dos três pistoleiros que o homem da harmónica mata. Obra repleta de envios e de citações, Once Upon a Time in the West revela, logo de início, a intenção, posteriormente confirmada, de Leone abandonar o western. O assassinato de Strode não é, pois, inocente, tem algo de emblemático no contexto geral da filmografia do realizador italiano.
Um dos westerns de Ford em que podemos ver Strode é este The Man Who Shot Liberty Valance, no papel de Pompey - encarregado do rancheiro Tom Doniphon. Ainda que se trate de um papel secundário, foi, como outros atribuídos por Ford, de uma extrema importância para a afirmação dos actores negros num universo criativo liderado por brancos. De resto, este filme de Ford tem algumas linhas de diálogo onde se releva aquele “moralismo fordiano” que, de certo modo, acabou por estigmatizar a sua obra. No entanto, The Man Who Shot Liberty Valance é tudo menos um filme moralista. Coloca o público numa arena moral cujas respostas ainda hoje se mantêm sob a forma de interrogações. E as suas personagens, filmadas sempre com a sombra a persegui-las, são mais contraditórias/artísticas do que exemplares/científicas.
O filme começa com um comboio a chegar à cidade de Shinbone. Dentro do comboio vêm dois ilustres habitantes da terra, há muito emigrados: o senador Ranson Stoddard (James Stewart) e sua mulher Hallie (Vera Miles). O que os traz de regresso? O funeral de Tom Doniphon (John Wayne). A narrativa desenrolar-se-á, então, em flashback, com Ranson Stoddard a recordar os tempos em que chegou à cidade quando ainda era um jovem advogado e como se encontrou com Tom Doniphon depois de ter sido assaltado pelo fora da lei Liberty Valance (um enérgico e ruim como as cobras Lee Marvin). Este regresso é pautado por uma nostalgia que demarca o passado do presente, aponta para as mudanças na paisagem geral e no comportamento dos cidadãos.
Agora, os homens já não andam de coldre à cintura, a cidade passou a ter igrejas e escolas, os seus habitantes adoptaram os modos civilizados de um mundo onde tudo é política e oratória. Esta contraposição permitir-nos-á entender o cerne de um problema geograficamente definido pelas linhas que separam o leste do oeste, a cidade do campo, os livros de direito das armas. Distantes um do outro, mas não tanto quanto isso, o jovem advogado Ranson Stoddard e o rancheiro Tom Doniphon têm soluções diferentes para um mesmo problema: Liberty Valance. Eles são personificações do dilema que há muito assola os americanos, confiar na lei ou nas armas a protecção de que carecem quando se sentem ameaçados. A evolução, o progresso, parece ter dado mais força aos livros de direito. Mas não será isto um grande equívoco?
Aceitamos a dúvida quando somos confrontados, em pleno século XXI, com mais um massacre numa escola norte-americana e novamente se discute nesse país o acesso fácil às armas de fogo. O toque conservador que denunciamos nos filmes de John Ford readquire, por força da história, uma pertinência atroz. O velho Oeste ainda está vivo naquela região, apesar das escolas e das igrejas, assim como estão vivos o medo e a violência no sangue da humanidade. Não sei se se trata de um problema ontológico, mas compreendo que se procure solucioná-lo por intermédio da política.
Daí que o filme de Ford, na oposição que alimenta entre armas e direito, sem que se incline para qualquer uma das soluções - pois, como veremos, toda a narrativa política do filme assenta num equívoco temperado por sentimentos bem mais íntimos como o amor a uma mulher (a menina Hallie do restaurante dirigido por um casal de emigrantes suecos!) -, resulte como uma equação intrincada e filosófica, nada silogística e muito pouco moralista. Mas The Man Who Shot Liberty Valance é também, além de tudo isto, um elogio à imprensa livre enquanto poder inalienável num mundo que se queira civilizado, justo e verdadeiro. Este elogio é especialmente paradoxal, pois o filme termina, precisamente, com a imprensa a queimar a verdade sobre a história do homem que matou Liberty Valance. Porquê? Porque no Oeste: quando a lenda se torna um facto, imprime-se a lenda.

POEMA DE NATAL

Para todos os leitores do Insónia


Naquele tempo as luzes duravam toda a
noite. Mas faltava-lhes a eléctrica eficácia de
quem chama, vinde todos comprar um souvenir,
reis magros, corretores da bolsa, funcionários
e teleguiadas tias por estrela que conduz aos
mares do sul, cristãos e bronzeados, a minha vida
dava um filme. Nem sabe o que me aconteceu, o
vestido da Senhora não traz instruções de lavagem
e a vaquinha de polietileno engorda sozinha, eu próprio
já não sinto os olhos de tanto ver as luzes acender e
apagar. Mas uma coisa é certa: Jesus se fosse vivo
havia de ter um partido, ler os tops da Fnac e saber
de cor o nome de todos os ministros. Havia de
sair de casa pela porta da frente, cumprimentar
os jornalistas e conceder duas medidas correctivas dos
excessos do capitalismo; depois, no último degrau
levantaria a palma de sua mão direita e os passantes,
subitamente inundados de um fulgor renascido,
estugariam o passo e entrariam no metro, sorrindo,
acreditando um pouco mais no reino
que tarda a ter um fim.


Rui Costa

In Insónia, 18/12/2007 (aqui)


domingo, 16 de dezembro de 2012

ASFIXIA DEMOCRÁTICA


Talvez um dia as vítimas de asfixia democrática nos tempos de Sócrates venham a pronunciar-se sobre os saneamentos políticos no tempo de Passos Coelho. E que dizer de mais um caso, claríssimo, de perseguição política (chamar-lhe intimidação é um eufemismo) em plena democracia? Democracia? Só quando varrermos definitivamente do poder esta gentalha toda, a começar por esse furúnculo que dá pelo nome de Miguel Relvas. Agridem jornalistas no exercício da profissão, detêm e ameaçam jovens estudantes dentro dos seus estabelecimentos de ensino, carregam indiscriminadamente sobre manifestantes.  E levam pouco mais de 1,5 ano de governação. É obra.

sábado, 15 de dezembro de 2012

PARA PREPARAR PASTÉIS GOSKY

Ponta Delgada, Açores. 2012.

Arranje um porco de três ou quatro anos de idade, e prenda-lhe uma pata traseira a um poste. Coloque 5 libras de passas, 3 de açúcar, 2 celamins de ervilhas, 18 castanhas assadas, uma vela e sei alqueires de nabos ao seu alcance; se ele comer isto, forneça-lhe mais, cosntantemente.
Depois arranje um pouco de natas, algumas fatias de queijo Cheshire, quatro cadernos de papel almaço e um pacote de alfinetes pretos. Molde tudo numa pasta e estenda-a a secar sobre um lençol lavado de linho castanho impermeável.
Quando a pasta estiver completamente seca, mas não antes, comece a bater violentamente no porco com o cabo de uma vassoura grande. Se ele guinchar, volte a bater-lhe.
Vá ver a pasta e bata no porco alternadamente durante alguns dias, e verifique se no fim desse período tudo começa a transformar-se em pastéis Gosky.
Se até então não se transformar, nunca se transformará; nesse caso pode soltar o porco, e deverá considerar todo o processo terminado.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Edward Lear.

ONCE UPON A TIME IN THE WEST (1968)



Há um elemento político em Johnny Guitar (1954) que serviu de moldura a muitos outros westerns. Trata-se da expansão do caminho-de-ferro e das vítimas que o progresso económico arrastou, fenómenos que nunca mudam. Uma das mais nobres dimensões do western é, precisamente, descer aos infernos e trazer à superfície o que se esconde debaixo de terra, desmascarar a realidade, desnudar a sociedade e confrontar-nos, enquanto seres humanos, com os seus podres. Ora, nos subterrâneos desta bandeira do progresso temos o nascimento do crime em grande escala, relacionado com a prospecção de terrenos onde passavam as máquinas a vapor. O mercado imobiliário atingiu nesses tempos valores incalculáveis num país onde a justiça não acompanhava, definitivamente, a velocidade das locomotivas. Surgiram os grandes barões da economia, que ora negociavam a bem com os chamados pioneiros instalados onde menos convinha, ora se rodeavam de capangas para se apoderarem de terrenos onde edificariam grandes cidades.
Se bem se recordam, a chegada de Johnny Guitar ao saloon de Vienna é acompanhada por enormes explosões onde se abre caminho para a passagem da via-férrea. De resto, Vienna instalou o saloon naquele local já na perspectiva de que aí viesse a ganhar um bom dinheiro quando chegasse a locomotiva àquelas paragens. Argumento similar acompanha Once Upon a Time in the West (1968), de Sergio Leone (1929-1989). Não obstante, os elementos políticos no western são quase sempre secundarizados pela força do carácter das suas personagens. Os valores humanos vêm à tona em estado bruto, como ouro negro ou dourado que importa transformar. Um dos aspectos mais fascinantes neste género cinematográfico é a capacidade de narrar personalidades complexas e suas respectivas idiossincrasias em poucas horas, dar a ver o carácter dos homens e a construção da identidade dos indivíduos em escassos frames. Leone foi um mestre na área, não tanto na fase do chamado western-spaghetti (lá iremos) como no seu filme-síntese de 1968.
Once Upon a Time in the West é um filme com contornos que o distanciam da chamada trilogia dos dólares, repleto de evocações e homenagens. Leone coloca em acção duas estrelas do cinema norte-americano, subvertendo a imagem que as suas carreiras haviam projectado e aniquilando vários clichés em torno das boas e das más figuras construídas pelo grande ecrã. Só mesmo o impagável Henry Fonda (mercenário de nome Frank, ao serviço de um barão dos caminhos de ferro) consegue ser totalmente desprezível, o que denota, desde logo, a perversidade de Leone na desmistificação dos seus actores. A Fonda opõe-se Charles Bronson, aqui no papel de um misterioso pistoleiro sem nome que toca harmónica quando devia falar e fala quando devia tocar harmónica. O homem da harmónica é das mais inesquecíveis personagens produzidas pelo western e elevou a um nível superior, diria transcendental, um actor geralmente diminuído aos caminhos estreitos da pura acção.
Embora muitas leituras sejam possíveis, incluindo a tal leitura política que contorna o quadro geral, esta oposição Bronson/Fonda é, para mim, o grande segredo do filme de Sergio Leone. O homem da harmónica como que dá corpo a um dos mais importantes elementos, senão o elemento fundador, da cinematografia do realizador italiano: a música de Ennio Morricone. Este elemento é de tal modo importante que precede a própria filmagem, tendo Morricone composto os temas ainda antes do filme existir. A personagem de Bronson, sem nome, confunde-se na identidade com a música que o acompanha. Tudo é música neste filme, a câmara persegue a melodia, os ritmos, as paragens, o suspense, o silêncio determinado por magníficos planos fechados, tudo isso é música em estado de permanente fusão com a imagem.
Mais do que os diálogos, parcos mas eficazes, importa sublinhar uma montagem que nos obriga a olhar para a tela como um todo. A expressividade de cada um dos elementos da pintura é indissociável desta linguagem onde a música assume o papel fundador. Os planos fechados, os movimentos lentos, as sequências arrastadas, intensificam as tensões e dão-nos a ver pormenores em cada uma das personagens que passariam despercebidos de outra forma. A figura feminina do argumento, uma prostituta de Nova Orleães (Claudia Cardinale) arrastada para aquele fim do mundo com a esperança de uma vida nova, ou a ambivalência moral do picaresco fora da lei Cheyenne (Jason Robards), o perfil implacável de Frank e a aura enigmática do homem da harmónica são "caractrerizações" que, no final, apontam todas na direcção do mistério desvendado por um flashback com início no olhar de Bronson em close-up.
No fundo, o que temos aqui é uma história de vingança, a história de uma vítima que procura vingar o mal de que foi alvo num passado distante, a história de um homem que carrega dentro de si o desejo de se libertar de uma condenação imerecida. Digamos que é no terreno delineado por este desejo de vingança que toda a acção decorre, com um cinismo moral tão convincente que nos vemos cúmplices de um género de pessoas cujo maior bem é não serem tão maus quanto os piores dos seres humanos. As balas disparadas pelo homem da harmónica têm a atenuante de um passado que só nos é dado a compreender no termo da narrativa, tornando relativa toda e qualquer asserção moral sobre cada uma das personagens. Isto acontece com uma gestão dos tempos onde cada gesto vale não por si só, mas, sobretudo, pelas causas que o determinam. É cinema, não é outra coisa senão cinema.

A SOCIEDADE ESTÁ PODRE


A sociedade está podre
já fede
e não lhe cheira,
o mal só se vê nos outros
só cheira nos outros:
quando o mal é nosso
pegaram-nos
é um mal estranho.
Disseram que o homem é um animal social
aí o têm
arranjaram-na bonita.
E se calhar estão todos como eu.
Quem nos teria posto em sociedade?
Quem fez de «todos» uma realidade
ou estava a pensar na lua
ou doente de paranóia.
Que linda ideia: «Todos!»
E mais ainda: «o bem de todos!»
Serei parvo ou imbecil
só entendo cada um.
Vejo até por mor de todos
dar cabo de cada um.
Não quero mal a ninguém
mas já tenho raiva a todos.
Isto de levar cada um a ter raiva a todos
é igualzinho a desejar o bem comum
lindas maneiras de eliminar a cada um.
Porque a sociedade é de alguns
alguns daqui e alguns d'acolá
«alguns» não pode deixar de ser contra alguns
é a guerra de grupos de cá e de lá
bem diferente das batalhas de cada um.
E quando nós pertencemos a um grupo
ou contra ele ou não somos de nenhum
o mesmo dá
andam connosco às voltas
e nós a zero
no cabide
esquecemo-nos de nos levar connosco
fizeram-no-lo esquecer
falaram-nos no bem de todos.
Todos! essa conta que ninguém sabe somar
e que nos faz suar
a nós, as suas parcelas
todos juntos para simplificar
mais simples que todos é impossível
quem foi o da ideia?
Lindas maneiras de eliminar a cada um.
Em qualquer sítio onde um seja apanhado
aí mesmo o fazem soldado
e dão-lhe o sítio pra defender
um pedaço de terra com significação
pois que chamam civilização
andarem os homens agrupados
e como há vários lados em toda a combinação
fazem-nos parte de todos os de um lado
e não entendemos todos
que nos matam um por um por todos os lados
em nome da sociedade.
Que nos mate a morte já o sabíamos
mas que ponham o ferro a explodir
para não escapar nem um
que outro sentido poderá agora ter a morte
do que o de um acidente provocado?
Isto tira valor à morte
como à vida lhe tiraram todo o sentido
foi a tal ideia de «todos»
que pôs isto neste estado.
Pode limpar as mãos à parede
o homem que teve a ideia de sociedade
e também aquele que disse
que éramos um animal social.


José de Almada Negreiros (manuscrito s/d, publicado pela primeira vez nas Obras Completas, INCM, 1985)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

JOHNNY GUITAR (1954)

Tal como existem filmes que se aproximam do western sem realmente o serem, também há westerns que o são sem que a sua identidade se esgote nessa categoria. Johnny Guitar é hoje considerado por inúmeros críticos de cinema senão um dos melhores filmes de todos os tempos, pelo menos a obra-prima de Nicholas Ray (1911-1979) – realizador a quem devemos tantas e tão primas obras tais como Rebel Without a Cause (1955) ou Bitter Victory (1956). Apesar do título remeter para uma figura masculina, no centro da acção está uma mulher chamada Vienna (Joan Crawford) e a sua arqui-inimiga Emma (Mercedes McCambridge). Vienna e Emma opõem-se como Eros e Thanatos, são duas forças contrárias que modelam a raiz maniqueísta do filme, mantendo sobre permanente tensão um duelo que dura do princípio ao fim. Há uma sequência que as define com inquestionável clareza:
Emma chega ao saloon de Vienna acompanhada de um grupo de homens com intenções justicialistas. Quer matar, destruir. Procuram Dancin’ Kid e o seu gangue, depois destes terem assaltado um banco no centro da cidade. Neste momento já sabemos da relação próxima entre Kid e Vienna, e foi-nos sugerida a paixão reprimida de Emma pelo mesmo Kid. O ciúme interpõe-se entre ambas, sendo resolvido pela primeira com uma cumplicidade distante (o verdadeiro amor de Vienna é Johnny Guitar) e pela segunda com um ódio de morte, quer a Kid, quer a Vienna. Repare-se na luminosidade de Vienna, no seu vestido branco, na calma com que vai tocando o piano (magnífica banda sonora de Victor Young) enquanto os homens vasculham o seu sofisticado saloon no encalço do bando de Dancin’ Kid. E olhe-se depois para Emma, no contraste que a sua postura alvoroçada engendra, no fato negro e no ódio que o seu olhar transparece. Branco e negro, paz e guerra, amor e ódio, opostos trágicos e universais aqui magnificamente representados. A cena resvala para uma situação de denúncia onde a inocência de Vienna fica comprometida. Só o espectador sabe dessa inocência, mas nada pode fazer. Ao espectador cabe apenas assistir impotentemente ao linchamento que se prepara. Estamos nos EUA da era McCarthy, e tudo isto evoca, claramente, as listas negras de Hollywood, a perseguição aos comunistas de que Sterling Hayden, o actor que aqui faz de Johnny Guitar, foi vítima. Talvez por isso este filme leve o título que leva e comece como começa, com Johnny regressando para os braços de Vienna cinco anos depois de se terem separado. Atentemo-nos a outra cena, provavelmente das mais magníficas cenas de amor alguma vez desenhadas por um cineasta:
A música de fundo é a mesma, mas o ambiente é outro. Porém, há uma tristeza nesta melodia que confere ao filme um romantismo constante. Também no western as personagens de Nicholas Ray são de uma humanidade avassaladora. Por humanidade entendam-se aqui os vícios e as virtudes que nos tornam, a todos, questionáveis, erráticos, ambivalentes, frágeis. Os deuses e os semideuses da tragédia grega são o protótipo destes homens e destas mulheres, como a imperturbável Vienna desmascarando-se num rio de lágrimas quando deixa sair de si a confissão mais dolorosa: cinco anos a esperar por Johnny. Nos cinco anos que os afastaram, tantos foram os homens que ela esqueceu como foram as mulheres que ele recorda. Johnny desfaz-se aos pés de Vienna e pede-lhe mentiras, ela oferece-lhas indolentemente. Mas logo se exaspera e reabre as feridas, soltando angustiadas emoções sob a forma de lágrimas. A música acompanha-os neste reencontro, tornando pungente o fim de cena como pungentes são todas as feridas caladas no interior de um peito em carne viva. Johnny regressa em dia de tempestade. Mais do que proteger, vem, quiçá, recuperar o tempo perdido. Como se isso fosse possível fora dos sonhos que o melhor cinema torna possíveis.

PAGA O QUE DEVES

Dois animadores de uma rádio australiana fizeram-se passar pela rainha de Inglaterra e o príncipe Carlos, ligando para o Hospital onde estava internada Kate Middleton. A enfermeira que os atendeu não percebeu que estava a ser alvo de uma piada e rapidamente se transformou em saco de boxe para a chacota das pessoas divertidas. Resultado: enforcou-se. O mundo está cheio de pessoas divertidas e bem-humoradas, engraçadinhos que pregam partidas e se divertem muito rindo da ingenuidade dos outros. Antes começassem por se rir de si próprios. Este caso recordou-me uma discussão que tive em tempos, em torno de partidinhas do género levadas a cabo pelo humorista Nilton no programa 5 Para a Meia-noite (não sendo caso único, é o mais recorrente). Como sou um bota-de-elástico com o sentido de humor de uma múmia, nunca consegui esboçar um sorriso que fosse com tais partidinhas. E certo dia mostrei-me revoltado com o humor sórdido praticado sobre gente indefesa, como a rapariga que está no seu posto de trabalho e se vê obrigada a manter uma postura séria perante o cliente mais estapafúrdico. Porque há sempre a hipótese de se tratar de um cliente mistério, daqueles que avaliam a nossa competência e determinam a continuidade ou cessação dos contractos de trabalho. Nunca vi mal algum em ser-se alvo de uma partida, mas deslocar da esfera privada para a esfera mediática situações de logro, onde só os elos mais fracos são vítimas de gozação, equivale, no meu mundo conservador e moralista, a um linchamento público da auto-estima. E isso pode ser perigoso, levando a gestos radicais como o de Jacintha Saldanha. Ela não pagou o que devia, pagou, provavelmente, por ser frágil num mundo de gente bruta e insensível, incapaz de ponderar a diferença que diferencia uns de outros. Mas isto sou eu a pensar, na minha redoma moralista e conservadora, com o sentido de humor de uma múmia. O mundo é dos artolas, gente engraçada e divertida a quem nada pode atingir porque estão protegidos pela carapaça da indiferença.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

RAVI SHANKAR (1920-2012)

Oṁ śānti śānti śāntiḥ

A ARTE DE AGRAFAR POEMAS

Caso ainda não se tenham apercebido, estamos no último mês de 2012. O mundo está prestes a acabar. Ia dizer que para o ano estaremos em 2013, mas as inferências nem sempre são confirmadas pelos factos. Há que deixar à nossa frente a hipótese de estarmos todos enganados, e de para o ano nem ser 2013, mas o mundo ter, de facto, acabado, ou ser 2013 e o ano ter acabado ou não ter acabado e 2012 nunca ter existido ou ou ou ou. Certo é que estas coisas são pensadas, sentidas, vividas, nem que no mundo imaginário onde se pensam coisas como haver quem detenha esse dom (ou deveria chamar-lhe função?) de pensar. Nesse mundo cabem os poetas, classe operária excluída dos mundos ideais platónicos. Os poetas operam na inconsequência, são impagáveis, saem caros, por isso tinham de ser excluídos da cidade ideal. Numa república como a nossa, neste fim do mundo à beira mar plantado, seria, no mínimo, de esperar que os poetas já estivessem há muito extinguidos. Restar-nos-iam ossos, curiosidades arqueológicas, fósseis dispostos geometricamente nos museus da literatura. Há muitos deles vivos que aparentam a respiração de um fóssil, porque neles vivos é apenas um eufemismo para estarem mais que mortos e enterrados. Curiosos os caminhos da poesia nesta terra de poetas à beira mar naufragados. Em pleno século XXI, com tanta tecnologia à mão, weblogs ao desbarato, facebook, twitter e mais porcarias congéneres, seria de esperar, no mínimo, que aí os poetas se fizessem mostrar, angariando milhares de seguidores tão interessados nos seus versos como nas javardices exibidas num reality show qualquer. Ao contrário, insistem em manter-se platonicamente excluídos, dobram os poemas em páginas A4 agrafadas ou mandam imprimir na gráfica do bairro panfletos, cadernos, folhetos onde coleccionam males, confissões, aventuras, emoções, em suma, delírios. A pergunta mantém-se: para quê gastar papel e tinta com a porra dos poemas? Para quê insistir nas tiragens de 100 amigos, convertidos nessa coisa exemplar de leitores? A verdade é que neste fim do mundo há malucos para tudo, mesmo para a poesia a copo. Tomem-se de exemplo Fernando Machado Silva (poemas da despedida, vol. II seguido de 7 poemas, Março de 2012), Hugo Milhanas Machado (Plato Chico, edição bilingue, tradução castelhana de Rebeca Hernández, Maio de 2012) e manuel a. domingos (Penumbra, Setembro de 2012). Consegue este triunvirato fazer o pior possível, ou seja, persistir no inóspito asilo da actualidade que dá pelo nome de edição de autor (fenómeno muito da crise que há centenas de anos, no mínimo, sobrevive por terras lusas). Portugal é, sem dúvida alguma, um país de poetas. Constatação ‘inda mais surpreendente quando confirmamos não ser um país de leitores de poesia. Se o fosse, não teria, como na política, os poetas que merece. Teria, pelo contrário, a poesia imerecida de um Fernando Machado Silva (n. 1979), de um Hugo Milhanas Machado (n. 1984), de um manuel a. domingos (n. 1977). Porque o que esta rapaziada faz  - perdoe-se-me a presunção, que já estou nos 38 - é alimentar a esperança ao fazê-lo assim, deste modo. Sabemos bem que desejam ser admirados, mas também percebemos a diferença entre o desejo e a ambição. Desejarão ser lidos, mais que não seja pelos 100 amigos convertidos em exemplares leitores. O mais importante é que desejam fazer, concretizar, arrumar a voz, actuar no palco devoluto da poesia. E nesse palco eu estendo o jornal e nele me deito, nesse palco busco abrigo e pasto a filha da puta da esperança. No meu diário íntimo escrevi o que agora partilho em registo pós-moderno: consolam-me mais estas páginas agrafadas, dobradas, do que centenas de livros que só não atiro para a fogueira por respeito ao dinheirinho que tanto custa conquistar. A edição de autor de Fernando Machado Silva confirma as nossas suspeitas: temos parêntesis com fartura, uma língua em busca de ofício, quer dizer, uma língua em busca de leitores que aí suspendam os preconceitos da linguagem e se deixem embalar pelo lirismo da forma. Se alguém disser que há muito aqui a apurar (no sentido de libertar), tem razão. Mas onde nada há a apurar é que não vemos remédio. Estes poemas, estigmatizados pelo pretérito da memória, espantam quando soltam fogachos de paixão, como essa “grafia da pupila” que ficámos a invejar por nela revermos o programa de quem mais que pela boca fala pelos olhos. Já Plato Chico põe-nos a dançar. Tenho uma teoria nova, muito recente. Os melhores poetas são DJs frustrados. Hugo Milhanas Machado é ciclista, não sei se pedala nas pistas de dança. Pelo menos, tem a estranha capacidade de fazer dançar a leitura. Atira-nos com o mar às trombas em dias deprimentes, mete-nos a pensar em palmeiras e miúdas inesquecíveis quando somos já tão-somente uma memória perdida nos labirintos do passado. Um crítico tenderia a falar de elipses, mas o crítico não dança. Limita-se a bater o pé, muito contidamente, como que temendo gastar os músculos à medida das solas. Por isso terá sempre dificuldades em perceber as frases escangalhadas, o passo lento de quem mais que passar pelas coisas contempla-as e se deixa absorver por elas para nelas se sentir alguém. O mérito destes tão parcos poemas é fazerem-nos delirar, cobram-nos a postura com uma espécie de irresistível tentação. Não é preciso citá-los, na medida em que se não cita a terra onde se plantam árvores de fruto. Simplesmente apontamos as coordenadas do texto e tudo vimos convergir para um lugar onde dá vontade de, digamos, dançar. Bem diferente é a Penumbra de manuel a. domingos, poeta simplista a fazer-se de parvo onde há uma melancolia doméstica resolvida da única maneira possível. E essa maneira possível única reside em obviar o óbvio, simplesmente simplificar a mais complexa das dimensões humanas. Digo: doméstico; mas sei que ao dizê-lo digo também o contrário. Isto é, a dúvida que assombra tudo é esse tédio do absurdo a que certos existencialistas chamaram náusea. Creio que manuel a. domingos é um poeta do absurdo (talvez involuntariamente, talvez não). Mesmo quando escreve poemas tão pueris como esse último, com almofadas debaixo do cu, ou aqueloutro com cabelos brancos na idade de Cristo, ele revela a estupidificação das vidas comuns, as nossas, as dos poetas, esses seres fantásticos e únicos, excluídos pelo filósofo da cidade ideal, incluídos por si próprios na República da parvalheira. Aqui abraçam a mulher no silêncio da casa, remexem o café nos lugares-comuns de Outubro, olham para tudo sem novidade e para o resto sem surpresa… Neles, o que mais espanta é a ausência de espanto. Mesmo quando são surpreendidos pela inocência do riso e nos fazem dançar (entre parêntesis). Grato.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

MOMENTO PRESENTE


Uma das grandes tragédias do momento presente é que a maior riqueza social, o indivíduo, assaltado por todos os lados com uma violência cultural que nenhum alto espírito é capaz de discernir sozinho (porque, se é letrado, intrujam-no cientificamente, e vice-versa) o indivíduo tenha de diminuir-se, associar-se, adquirir, por permuta com companheiros dignos de confiança, aquela consciência que, solitariamente, não pode atingir. Tenha, portanto, de abdicar, em nome da liberdade do espírito, algumas parcelas dessa mesma liberdade.

Jorge de Sena

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

PASSOS, NÃO SABES ONDE CORTAR?


PELA ESCOLA PÚBLICA, SEMPRE.

domingo, 9 de dezembro de 2012

BRUTOSGATE



Camarada Van Zeller, quem julgava ter no Gaspar um messias à altura do Salazar que foi chamado às finanças em 1926 bem pode tirar o cavalinho da chuva. Não lhe resta senão uma figura inspiradora para anúncios ao Jumbo e ao Licor Beirão. O ministro diz-se e desdiz-se, aponta-nos equívocos e alucinações, com o semblante irremediável de um lunático à solta. Aqueles papos nas olheiras não enganam, são demasiadas horas a olhar para o monitor do Mac. Já essa figura sinistra que dá pelo nome de Miguel Relvas não tem direito a anúncio, mas há-de ter direito a um canal de televisão inteiro. Há tempos, Helena Roseta tentou definir o personagem revelando o seu lado de moço de recados dos interesses privados no Oceano dos dinheiros públicos. Foi assim com a empresa do doutor Passos Coelho, a lançar mão às verbas comunitárias, há-de ser assim com os amigos angolanos, colombianos, brasileiros. O estilo não engana, e é muito popular em Portugal. Chamem-lhe cunha, clientelismo, nepotismo, o que preferirem. É a sem vergonha de um povo inteiro que se deixa governar por vigaristas, copia-lhes os actos à medida das suas possibilidades, e deixa-se enredar na alegria das dúvidas existenciais que os teóricos lançam para a mesa: seremos a Grécia?  Tudo muito protegido pela legalidade das actuações. Não somos a Grécia, somos bem pior. Somos a cauda de uma europa com gastroenterite, a borrar Relvas e Coelhos e Gaspares e Borges numa incontinência de porcaria sem remédio à vista. O povo que sai à rua acomoda-se, faz a árvore de Natal, prepara a consoada, preocupa-se com o Banco Alimentar e os lenços de seda chinesa da Jonet, olha-se ao espelho para se certificar de que não está a metamorfosear-se em grego e condescende com os Relvas e mais sua companhia de metralhas que vão sugando o que ainda há para sugar nesta cauda europeia exangue e desidratada. Não chegou apanhar o mentiroso que conseguiu o grau académico mais meteórico da riquíssima história do mundo universitário português, um mundo fascinante ainda por explorar que já nos ofereceu uma Lusófona ao serviço de currículos improváveis, uma Independente especializada na formação de burlões e uma Moderna dan browniana com contas na Suíça, viaturas de luxo e ligações subterrâneas às Grandes Lojas maçónicas das boas elites portugueses. Portugal não é a Grécia, é pior. É o fundo do vulcão para onde Empédocles saltou, uma lava sulfurosa de gente corrupta, mesquinha, desavergonhada e com a consciência ética e moral de uma varejeira, divertindo-se com jogos de bastidores, manipulando a opinião pública, distraindo a sempre serena populaça enquanto se passeia nos corredores do poder distribuindo cargos e títulos. O mais recente dos jogos está à altura dos tempos, pois estas máfias são exigentes. Não lhes basta já os jogos de tabuleiro, anseiam, como qualquer criança, pela luminosidade dos ecrãs. É vê-los de joystick na mão a dar cabo da RTP, a televisão pública que andam a cozinhar para privados com temperos de requinte cujas consequências se resumirão, mais uma vez, a um altissonante arroto de satisfação no estômago do poder (angolano). Varreram um director de informação com uma pinta que há-de deixar Moura Guedes e Crespo, as vítimas do terrível e maléfico Sócrates, roídos de inveja. António Borges, o obscuro mensageiro do Governo, já veio a público trazer o recado. Alberto da Ponte, amigo de seu amigo Passos Coelho, reuniu-se com os angolanos que estão a tentar meter no saco DN, JN, TSF e mais uns trocos, numa orgia dramática que traz a palco empresas várias no domínio dos media portugueses e a misteriosa Newshold, de proprietários desconhecidos e «participada a 95% pela offshore Pineview  Overseas, registada no Panamá». Portanto, gente invisível que traz ao negócio a eterna clareza e transparência que os nossos políticos adoram e se esforçam imenso por promover. John le Carré não engendraria melhor argumento.