sábado, 30 de julho de 2016

LUGAR DE MASSACRE



Ouvi falar de José Martins Garcia (n. 1941 – m. 2002) por culpa da colaboração entre o autor e o editor Fernando Ribeiro de Mello (n. 1941 – m. 1992), colaboração da qual resultaram não apenas alguns livros publicados nas edições Afrodite (referi-me a um deles aqui), mas também um trabalho de conselho editorial cuja relevância pode ser apreciada no imprescindível Editor Contra. Concentremo-nos no autor. É um mistério por decifrar o esquecimento abatido sobra a sua obra, vasta e heteróclita, distribuída por vários géneros e de uma riqueza linguística inquestionável. Num país com evidentes limitações literárias, só podemos considerar tamanha desatenção um inenarrável desperdício. Mesmo compreendendo o carácter de urgência com que se editam e reeditam balelas a troco de microssucessos comerciais, varrerem-se das estantes autores com características até supostamente apetecíveis para os padrões correntes só pode ter uma explicação: estupidez. Saúde-se, por isso, a iniciativa da Companhia das Ilhas, pequena e isolada experiência editorial entre tubarões esfaimados, por trazer de novo à mão de semear uma obra que não pode, não deve, não tem que cair no esquecimento. E, já agora, pela ambição colocada no projecto de editar até 2020 tudo o que de mais relevante José Martins Garcia escreveu em matéria de ficção, teatro e poesia. Seria no mínimo exigível que a boa consciência do jornalismo cultural oferecesse a este projecto a visibilidade que ele merece, fazendo desta atitude um exemplo de obstinação em defesa de uma literatura portuguesa que não se resume ao que a indústria dos livros promove atirando-se aos olhos de leitores para quem o mundo vem resumido nas páginas dos suplementos. 750 exemplares são quanto foi possível para esta 1.ª reedição de Lugar de Massacre (Maio de 2016), originalmente publicado em 1975. Que bom seria que esgotassem rapidamente, sinal de alerta para quem julga os leitores adormecidos e deles tem a ideia de sonâmbulos facilmente manipuláveis com truques de hipnotismo. Quem me leia, vá por mim que não se arrependerá. Lugar de Massacre é um dos melhores romances em língua portuguesa, vindos a lume no séc. XX, que tive oportunidade de ler. 160 breves páginas de uma intensidade e de um fulgor impressionantes, com a Guerra Colonial Portuguesa em pano de fundo mas sobre muito mais do que essa experiência traumática. Diz-se em nota biográfica: «Chamado a cumprir serviço militar, em 1965, foi mobilizado para a Guiné, aí permanecendo de 1966 a 1968, experiência que se projecta em Lugar de Massacre (1975), um dos primeiros romances portugueses a abordar a guerra em África, incluído por Rui de Azevedo Teixeira no grupo dos oito romances obrigatórios, canónicos, da literatura da Guerra Colonial». Pode parecer retórica publicitária, mas mesmo que seja são justíssimas as palavras. Desenganem-se, porém, aqueles que esperarem da narrativa um testemunho pessoal, biográfico ou confessional, desenganem-se também os que pretenderem leituras políticas engajadas e vinculadas a esta ou àquela tendência. O tom é de sátira e balanceia, nas suas duas partes, entre a pura comédia e o trágico à moda clássica, deixando-nos emocionalmente ambivalentes se formos, como eu fui, desprevenidos para a leitura. Rapidamente saltamos do riso para a raiva, do caricato para o indignado, do ridículo para a revolta, perpassando por todas as personagens e nas situações em que se envolvem (algumas dignas de constarem numa antologia do melhor humor português) um ar de loucura e de alienação que nos transportará de facto para a demência como se estivéssemos a fazer a viagem de Conrad que serviu de inspiração para o Apocalypse Now. Vietname à portuguesa, a Guiné deste livro é um lugar de massacre, sobretudo, da consciência e da lucidez, massacre de vidas físicas, de existências, mas de sonhos e de ideais, de crenças e até de lugares-comuns. Um lugar que nos deixará aos berros com a mais central das suas personagens, um intelectual das letras entregue ao álcool e à deriva pelos matagais do delírio: «— Se o humano é a vossa merda, recuso esse humano. Acabou-se!» Mas até chegarmos aqui teremos de aguentar os tormentos mesquinhos de um snob, a avidez dos mosquitos, reaccionários intriguistas, veteranos obesos, bacanais de homossexualidade em aquartelamentos que mais se parecem com saunas, europeus selvagens em missão civilizadora, condes, viscondes, barões e outros que tais de uma monarquia oportunista, discursos pastosos que caem tão dignamente nos tempos que correm: «Um dos piores defeitos da nossa colonização é o anacronismo. Transpõem-se para os colonizados valores caídos em desuso. Nesse aspecto, a cultura é como a maquinaria: só se vende aos subdesenvolvidos a tralha que deixou de dar lucro. Quando derem a estes gajos uma fábrica de armamento, é porque já foi inventada, para os deuses, uma forma superior de destruição, o armamento fluido, o raio da morte. Quando os civilizados deixam de ligar à moral de entrepernas, a moral de entrepernas é exportada para outras latitudes. Isto é o mundo que a Europa criou. A Europa e o seu falso pudor…» (p. 44) Nada disto é de ontem, cada palavra mantém um interesse histórico que a faz valer enquanto retrato cultural. Ontem colonos, hoje colonizados, pouco importa. O que interessa é a mecânica do processo, a hipocrisia enquanto óleo de uma máquina velha, a rebentar de podre, deixando no desespero os operários enquanto no alto dos gabinetes marionetistas se entretêm com jogadas de argumentação e póqueres milibilionários. Entrementes, o desabafo doloroso:

— Por que não desertaste? — interveio Miguel.
— Também gostava de saber… Falta de contactos, talvez. Não, não desertei porque não tenho qualquer ideologia. Os cépticos radicais não podem optar. E deixam-se utilizar pelo poder. E gastam tempo a compreender isso… Só depois do jogo jogado é que medem a extensão da asneira.


Imperdível.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

DA INUTILIDADE DAS DISCUSSÕES #3

Respeitar as opiniões alheias é um dever fácil de cumprir, compreendê-las é que por vezes requer esforço, delicadeza, paciência, boa vontade. O problema dá-se quando nelas é evidente a ganância, a mesquinhice, o pequenino interesse, a falsidade, a cobardia.
Daí que pouco a pouco nos vamos (me vou) dando conta da inutilidade de discutir, quando a discussão espelha convicções e estados de alma que é melhor e mais saudável ignorar.


J. Rentes de Carvalho, aqui.

MAÇÃS SILVESTRES & CORES DE OUTONO



Decorrida a primeira metade de 2016, podemos afirmar, com o meu amigo Luís Germano Fonseca, que anda metade do mundo a jogar Pokémon Go e a outra metade a chacinar-se. Às notícias de atentados terroristas vindas dos quatro cantos do mundo, devemos juntar as vítimas de uma loucura que mata indiscriminadamente. Na América de Walt Whitman, a corrida ao poder disputa-se entre um racista e uma democrata, a primeira mulher candidata à Casa Branca, sobre a qual recaem imensas dúvidas de idoneidade. A escolha deverá ser entre o menos mau, tendência que se confirma por todo o lado onde se faça política. Mas a opção pelo menos mau tem vindo a afirmar-se não apenas no território político, estendendo-se à vida prática dos cidadãos e disseminando-se por uma consciência cujos escudos se vão fragilizando à medida que o poder de reflexão se esgota no entretenimento, os valores perdem estatuto referencial, a capacidade de decisão se vê diminuída pela ausência de referências e de convicções que garantam a força da posição. O menos mau é a lei, o recurso, a arma do pobre de espírito, o tal de quem será o reino dos céus enquanto na terra for possível ir penando. 

A febre em torno de um jogo como o Pokémon Go revela só a dimensão hilariante deste status quo, colocando a claro a infantilização do tecido social e uma espécie de alienação colectiva capaz de fazer de um não assunto a matéria mais importante das nossas vidas. Não é, porém, ingénua, nem sequer inofensiva, a histeria gerada pelo assunto, ela advém de um esgotamento que tem na sua origem práticas sociais doentias, como sejam, por exemplo, a de hoje se julgar que um menino de dez anos sem um smartphone nas mãos é vítima de exclusão social. As tecnologias são, pois, um factor de integração que pesa na cabeça da generalidade das famílias, as quais se recusam a que os seus filhos sejam menos pós-humanos do que os filhos dos outros, ou seja, menos nerds. Nerd, neste contexto, significa viciado em apps (vulgo aplicações). É assim em meio mundo, a tal metade que consegue entreter-se a caçar Pokémons e perturbar-se instantaneamente com a execução de uma mulher em plena praça pública porque não circulava com a cara tapada. Refira-se, já agora, que enquanto era executada, uma horda de bestas a que temos por hábito chamar de humanos registava para memória futura a execução com os devidos smartphones erguidos ao alto.

Tudo se filma, tudo se regista, os neurónios que temos na cabeça podem sobreviver relaxados, temos para substituição a memória inesgotável dos gadgets. Emoções e sensações são vivenciadas à velocidade da luz, instantaneamente, que é como quem diz: ganham a potência do efémero, do prático, do somente útil, daquilo que passa rápido para que doa menos e não fira, lá está, a consciência, esse terreno raso onde a indignação já não medra senão como erva daninha e a inteligência pode ser canalizada para objectivos tão determinantes quanto os das empresas onde estamos empregados. O caminho que escolhemos trouxe-nos aqui, a uma paisagem deveras diferente daquela que Henry David Thoreau registou em Maçãs Silvestres & Cores de Outono (Antígona, Junho de 2016). É um exercício especulativo interessante, este de imaginar o que sentiria um homem como Thoreau num tempo como o nosso. As palavras que nos deixou ecoam de uma época histórica em que tudo isto estava a germinar. Tudo isto é a industrialização do mundo e consequente desapego da Natureza, o extermínio declarado do homem telúrico e a emergência paulatina do homem virtual. 

Luís Leitão relembra no prefácio que os dois ensaios coligidos neste belo volume se inserem num género literário a que chamamos Nature writing, cultivados nos Estados Unidos da América do Norte por autores para quem a filosofia era inseparável de uma contemplação da Natureza enquanto palco de toda a existência humana. Em Maçãs Silvestres ensaia-se um elogio desse fruto que nasce naturalmente nos campos sem carecer de cuidados humanos, o mais belo dos frutos pela sua resistência e, lá está, pela sua natureza selvagem. Seria um mero ensaio sobre maçãs não se colocasse aqui o fruto num lugar de rivalidade com a independência e a iniciativa do homem. A partir da observação da maçã silvestre, Thoreau delineia uma crítica do homem sedentário, exactamente o mesmo que, hoje em dia, amolecido pela dependência do tecnológico necessita de um jogo palerma para ser estimulado a sair de casa, andar nas ruas, caminhar, ainda que o faça com os olhos postos no ecrã de um telemóvel e sem a mínima atenção ou interesse pelo que o rodeia. Ainda que caminhe sem, na realidade, caminhar. 

Acrescente-se: «Todo o arbusto de macieira silvestre, de certo modo como todas as crianças selvagens, estimula as nossas expectativas. Talvez seja um príncipe disfarçado. Que lição para o homem! Assim os seres humanos, remetidos ao mais alto nível, são o fruto celestial que sugerem e aspiram a produzir, servindo de alimento ao destino; e apenas o génio mais persistente e mais forte se defende e se impõe, lança finalmente no ar um tenro rebento, e deixa cair o seu fruto perfeito sobre a terra ingrata. De igual modo, os poetas, os filósofos e os estadistas brotam nas pastagens do país e sobrevivem às hostes de homens sem originalidade» (pp. 52-53). Num texto datado do século XIX, a citação mereceria por si só um tratado. O que resta hoje entre nós de crianças selvagens? O que nos resta de Terra onde possam crianças e homens redescobrir a sua originalidade? O que resta de ar livre nas vidas padronizadas dos servidores, dos cidadãos, como se diz, de plenos direitos, dos eleitores amestrados, dos desenrascados sobreviventes enfraquecidos pela domesticidade, o que resta de selvagem no nosso paladar que nos permita apreciar um fruto selvagem? Fechados em casa a ver televisão, a navegar na rede, a distribuir sorrisos e likes e bonecada pelo mundo cibernético, temos o Pokémon para nos salvar. Ele diz Go e nós vamos, mesmo que amestrados como um cão, pela trela, submissos, com as mãos e os olhos presos ao salvador das nossas débeis consciências: o telemóvel, o tablet, o computador, o smartphone. Há lá espécies mais selvagens do que tais instrumentos? 

É um risco, porém, que corremos, reduzindo a existência a tão protectora, asséptica e higienizada selva, é um risco que aceitamos ao penetrar na floresta insípida e inodora de bytes e megabytes… Perdemos as cores às coisas, perdemos os aromas, perdemos a textura, escapam-nos as Cores de Outono. A citação escolhida para contracapa é reveladora: «A beleza e a verdadeira riqueza são sempre assim, baratas e desprezadas. O paraíso poderia ser definido como o lugar que os homens evitam» (p. 98). Estranha definição de paraíso, já não o lugar de onde os homens foram expulsos, já não o lugar que os homens almejam, mas o lugar que os homens evitam. Por que será que os homens evitam o paraíso? Podemos supor inúmeras respostas para esta questão, aceitando como verdadeira a premissa que a dúvida sugere. Evitá-lo-ão porque ele, o paraíso, é um lugar de verdade. E os homens odeiam a verdade. Dêem-lhes uma mentira consoladora que eles jamais aceitarão uma verdade inquietante. A verdade desassossega, a mentira aquieta. Os homens fogem do paraíso porque o paraíso exige cuidados, dá um certo trabalho, é incómodo, e os homens não têm tempo senão para si próprios, para o inferno que trazem dentro de si próprios. O inferno são os outros, dizia, mais ou menos, Sartre, entendendo-se nesse dizer o que Heidegger, por sua vez, acrescentava, que os outros não são todos os demais além de mim, mas também aqueles entre os quais eu próprio me incluo. Nem que seja no Facebook.

O paraíso, então. À nossa espera no céu ou aqui na Terra? Quiçá num alegre acampamento de peles vermelhas antes de lá terem chegado os cobradores de dízimos. Não se trata do paraíso perdido, trata-se de um paraíso na terra, lugar que os olhos apenas enxergarão descolando-se das distracções diárias para se concentrarem na paisagem que lhes escapa. O caminhante sabe de que paraíso fala Thoreau, o caminhante conhece a diversidade de beleza que matiza vales e colinas, falésias e montanhas, serras e florestas… O que sobra das constatações é produto da dedução, cada qual faça as suas, de preferência com a consciência à solta, algo difícil de esperar, até improvável, mas não percamos a esperança: «Mostrem-me duas aldeias, uma envolta em árvores e cintilante com todas as glórias de Outubro, e a outra tão-só um vulgar baldio desprovido de árvores, com excepção de uma ou duas para os suicidas, e estou certo de que nesta última encontraremos os beatos mais esfaimados e fanáticos e os bebedores mais desesperados. Estarão à vista todas as selhas, todas as vasilhas de leite e todas as lápides funerárias. Os habitantes desaparecerão bruscamente por detrás dos seus celeiros e das suas casas, como os árabes do deserto por entre as suas rochas, e olharei para ver se trazem lanças. Estarão dispostos a aceitar a doutrina mais estéril e desesperada — como o mundo estar a aproximar-se velozmente do seu fim, ou já lá ter chegado, ou eles próprios estarem com o lado errado voltado para fora. Talvez façam estalar as suas articulações secas umas contra as outras e chamem a isso uma comunicação espiritual» (pp. 135-136). E pronto, está visto.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

SEM DEUSES

Vives em paz, sem deuses. Em paz? Há muito que te conformaste com o absoluto da razão, dentro, por baixo, ao lado do enigma da existência. És suficientemente sério contigo para condescender com os grandes castelos no ar com que os desgraçados de todas as épocas pretenderam confundir o nada em que esbracejam.

Ricardo António Alves, aqui.

domingo, 24 de julho de 2016

AUTO-RETRATOS

   O mais recente livro de Paulo José Miranda (n. 1965) começa por atrair atenções pelo aspecto invulgar. Despido de adereços, não tem capa nem contracapa, não tem sequer folhas de guarda e de rosto, em nenhum lugar aparece referência ao editor (Abysmo) ou aos usuais créditos, data de edição, gráfica, ISBN... Temos apenas o essencial, alguns cadernos cozidos por onde se distribuem 61 poemas, o nome do autor na base das folhas, a paginação e um título: Auto-Retratos
   Falámos de aspecto como quem se refere à superfície, havendo neste caso uma rescisão da mesma. O livro mergulha directamente, como também referimos, no essencial. E o essencial são os poemas, sequência de 61 fragmentos organizados sob uma designação comum que é bem definidora do que aqui se apresenta. Os auto-retratos desenhados por Paulo José Miranda resultam de um esforço reflexivo em torno do exercício da palavra, neles a imagem projecta-se a partir do significado que atribuímos aos vocábulos enquanto representações do mundo. Daí que os rasgos metafóricos que perturbam a retórica acerca do essencial surjam como via de acesso ao sentido das palavras. 
   Verifica-se este mesmo processo logo no primeiro poema, onde o «coração que se ajoelhe junto à existência de outro» enunciado no segundo verso é um pré-anúncio da relação entre autor e leitor evocada na última estrofe: «haverá ainda / haverá pouco / quem encontre nos escombros de um livro / o seu rosto nas mãos de outro». Pressupõe-se nesta relação uma espécie de partilha, o livro enquanto reflexo que aproxima o Eu do autor do Eu do leitor, ambos um Outro que o poema retrata. Só neste sentido o poema é um auto-retrato, no sentido em que é igualmente um hetero-retrato, pois não propõe tanto uma sublimação do Eu como tenta reflectir o que aproxima os vários eus, indo ao encontro do essencial, ou seja, da natureza humana aqui entendida a partir de premissas de carácter existencial:

auto-retrato 17

um dia dás por ti e estás vivo

ris aqui e ali e por vezes choras
pensas que acreditas em alguma coisa
e depois também decides que já é hora de isso acabar
jogas apenas a mão aos frutos da época

ao fim da tarde no meio das árvores altas e húmidas
carregadas de mais vida do que podes enunciar
suspeitas de que não entendes nada

ajoelhas-te junto ao infinito do universo
e depois muito tarde
embora talvez cedo de mais para ti
morres

   Sublinhe-se que a segunda pessoa a quem o poema supostamente se dirige é uma segunda pessoa indefinida, a universalidade do retrato aceita pois o auto e o hetero enquanto testemunhas de uma natureza humana que é, para todos os efeitos, o que aqui se pretende retratar. O que há em todos de um só, o que há num só de todos, é a pertença a um absoluto que agrega as individualidades, as quais na sua divergência material e espiritual convergem para uma mesma essencialidade primária. 
   Por estas razões, Paulo José Miranda é talvez entre os poetas portugueses contemporâneos aquele que mais ligações estabelece com uma noção clássica de poesia, a poesia entendida em termos filosóficos, tentativa de compreensão do mundo reforçada pela sua inerente capacidade de gerar mundos. Os poemas acolhem as circunstâncias que mapeiam a existência, aceitam fogachos quotidianos, convocam recursos típicos da argumentação filosófica, como sejam o aforismo silogístico ou mesmo o axioma, projectam uma tensão permanente entre a vida e a morte, deus e o humano, erguem-se sobre esses mesmos pilares à laia de reflexões onde a velhice, a solidão e o medo têm lugar, não excluindo o que de lírico ainda pode ser expressado a partir de uma concepção moderna de poético:

auto-retrato 26

por favor

dêem-me
migalhas de possíveis

montanhas pulverizadas com um olhar
com a mudança de um olhar

mãos de onde nascem rios subterrâneos e uma alegria pueril de lava
domesticando o terrível indomesticável

flores rochas em brasa iluminando o universo
animais microscópicos dando formas à consciência territorial do mundo

o amor a ser e a destruir tudo à passagem
imitando a força besta de um exército
e ainda assim salvar alguém

quaisquer restos de possibilidades que não queiram
ou sequer acreditem
mas que tenham duas ou mesmo uma só perna para andar

enviem-nos para cá
pois é com isso e só com isso que construo a minha vida


   Olhando para os dois últimos livros de poemas de Paulo José Miranda, Exercícios de Humano (2014) e este Auto-Retratos (2016), parece haver entre eles uma sequência lógica. Se no primeiro observávamos o confronto violento entre as ideias de Deus e da Natureza, neste aprofunda-se a ideia de Natureza no contexto da existência humana. O ponto de partida poderia ser, a título de exemplo, uma pergunta: o que há ainda de natural no ser humano? Tal indagação não se processa sem mácula, aponta um percurso doloroso, “de deus a verme”, ou, por outras palavras, da concepção à morte, entrevendo no caminho sobressaltos e exaltações, lutas das quais se colherão pequenas conquistas, inevitáveis derrotas. Uma indagação sem preocupações moralizantes, antes fiel à verdade que emerge da observação. 
   E essa verdade, por mais que procuremos disfarçá-la, é sempre cruel, é a verdade de um rosto olhando para si próprio e penetrando-se para lá da superfície, o rosto a rasgar-se enquanto no espelho ou nas águas vê reflectida a matéria última que o compõe. Ainda que não se ensaiem conclusões, outra jamais poderíamos aceitar senão esta: «e onde se lê paraíso / deverá ler-se em perífrase / aquele bem estar de onde somos expulsos todos e a cada dia».

domingo, 17 de julho de 2016

UM COPO DE CÓLERA

Brasil, década de 1970. O país vivia debaixo de uma ditadura militar, fortalecida com a promulgação do chamado AI-5 em 1968. Arrecadando na gaveta a Constituição de 1967, o documento suspendia garantias constitucionais instaurando a repressão e a censura, perseguindo todos quantos se opusessem ao regime, incluindo artistas, jornalistas, intelectuais. Raduan Nassar (n. 1935), filho de emigrantes libaneses, terá escrito por essa altura (1970?) Um Copo de Cólera. A novela, que para todos os efeitos consideraremos aqui um conto que não chega a romance por motivos de extensão, viria a conhecer uma primeira edição em 1978. O autor tinha estudado Direito e Letras, Filosofia, Sociologia… Concluiu Filosofia em 1963, viajando até à Alemanha, onde ficou a saber do golpe militar de 1964, passando pelo Líbano para conhecer a aldeia onde os pais haviam nascido, regressando posteriormente a São Paulo. Tudo o que biograficamente se sabe acerca de Nassar contribui para uma ideia algo mítica deste escritor diferente de todos os outros, criador de coelhos com parca obra publicada, desinteressado da escrita, afastado do meio, recolhido no mundo rural como uma espécie de exilado. Uma espécie. 
Um romance, uma novela e uma colectânea de contos é tudo quanto dele se conhece publicado. Esta mais recente edição de Um Copo de Cólera (Companhia das Letras, Junho de 2016) aparece já com o anúncio, em selo e cinta, da atribuição do Prémio Camões 2016, provavelmente o mais relevante atribuído a um autor de língua portuguesa. Três livros… garantiram a Nassar o reconhecimento dos pares. Ia dizer três simples livros, mas travei a tempo. Um Copo de Cólera nada tem de simples. Parece escrito de um jorro, mas a gente chega ao fim e quer ler novamente porque algo deve ter escapado. E escapou, escapa sempre. A sensação é a de que sempre alguma coisa ficou por apanhar, uma alusão, uma metáfora, um envio. No entanto, nada tem de metafórico ou alegórico um livro assim. No fundo, tudo o que ali se passa em termos psicológicos é pessoano, como a páginas tantas se entrevê num apontamento singelo: «eu só fingia, a exemplo, a dor que realmente me doía» (p. 56). Mas fica ridículo trazer Pessoa à liça, porque nesta prosa nada do que se diz é ambíguo em si mesmo, os paradoxos não advêm de um exercício da linguagem como se erguem na sombra do pensamento. 
Nos cinco brevíssimos capítulos iniciais, o ambiente de sensualidade erótica armadilha-nos a leitura. Fomos caçados, capturados vivos, o que se segue será a experiência do urso preso na armadilha, a querer soltar-se de um jogo retórico, quase de tipo platónico, acrescido de uma violência psicológica expressada sem pontos finais, entre um homem a quem saltou a tampa, por assim dizer, e uma mulher sem tento na língua. Tudo por causa de um carreiro de formigas. As especulações são legítimas, mas deveras desinteressantes face à experiência da leitura. Entre o homem e a mulher que se digladiam há uma pressão, um copo cheio na iminência de extravasar, percebemos que qualquer coisa pode ali soltar a raiva do exilado contra a amante jornalista num tempo em que, julgamos agora, a pressão externa exercida lograva também assim os seus objectivos, metendo uns contra os outros todos quantos estavam do mesmo lado oposto ao dos agentes de pressão. É uma velha sina. 
Na prosa de Raduan Nassar ficam implícitas tais alusões. O homem exilado no seu "castelo" rural, afastado da metrópole onde as revoluções se exercem, não parece fugido de nada. A ser refugiado de alguma coisa ele será refugiado de si mesmo. O desprezo que declara relativamente aos intelectuais que “tagarelam democraticamente com gente do povo” como se fossem, como se soubessem, como se tivessem por decreto ou artes mágicas o saber das motivações desse mesmo povo, é um desprezo projectado na amante que em confronto directo leva a cólera a borbulhar já sem o domínio da inteligência, tudo recalcamentos vindo à toda, as estribeiras perdidas e o desprezo à deriva numa discussão onde o mínimo serve para ferir o outro mesmo que, caída a raiva sobre aos joelhos da sobriedade, não fosse essa a intenção. 
O texto resulta, deste modo, como exorcismo, desabafo, quiçá, sem peias, a declaração de princípio daquele que sobre si mesmo afirma: «já disse que a margem foi um dia meu tormento, a margem agora é a minha graça» (p. 82). Mas tem um preço a pagar, há sempre um preço a pagar pela margem. Duelo não só de um homem com sua amante, mas de um homem consigo mesmo, imerso num mar de decisões sem certezas, convicções repletas de dúvidas, opções cuja ordem final é a consciência de uma impotência total face ao estado desastroso do mundo. A rebentar pelas costuras por causa de um bando de formigas e da sua odiosa organização metódica, a sensualidade é aqui apenas e tão-só um aperitivo para a violência.

sábado, 16 de julho de 2016

VENCER O MEDO


Diz-se que o Estado Islâmico reivindicou a autoria do massacre em Nice, devendo então a tragédia ser considerada um atentado terrorista. Por outro lado, surgem notícias segundo as quais Mohamed Lahouaiej Bouhlel, o homem do volante assassino, sofria de problemas psicológicos, estando há anos a ser acompanhado por psicólogos. A depressão nervosa tê-lo-á levado ao divórcio. Ao que parece, antes do atentado enviou à família uma inusitada quantia de 100 mil euros. «Parece ter sido radicalizado muito rapidamente», diz o ministro do interior Bernard Cazeneuve. Lembrei-me de Andreas Lubitz , o alemão que só queria voar e que por causa de uma cabeça doente levou consigo 150 criaturas. Que importa saber se foi ou não um atentado terrorista? Enfim, tem algum interesse. Mais que não seja para percebermos que no mundo em que vivemos o terror alimenta-se de muitas fraquezas. Talvez quando aceitarmos isso, buscando e exigindo sociedades mais equilibradas, seja menos difícil combatê-lo. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

LIBERDADE


A Liberdade Guiando o Povo (1830)
Eugène Delacroix

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A TAÇA DAS TRAÇAS



No dia do jogo acordei a fazer-me uma pergunta: por que razão gosto de futebol? Por que me enervo? Por que fico ansioso? Não encontrei explicação, há inclinações que não se explicam. Estou sempre a dizer que vou deixar de ligar à bola, mas depois a bola cativa-me as atenções, torna-me recluso de emoções inexplicáveis, porventura comparáveis às que sentem as pessoas de fé. Já chorei pelo meu clube, o Sporting, o emblema que trago no coração ensinou-me a sofrer. No passado Domingo voltei a chorar, mas desta feita agarrado a uma bandeira nacional e entre familiares. Queria ver o jogo na companhia do meu pai, o que só foi possível durante os terríveis 45 minutos da primeira parte. Ao intervalo, logo ao intervalo, disse que o Fernando Santos teria de mostrar coragem. Precisava de substituir o jovem Renato por alguém que servisse de referência na frente. Com um único ponta de lança no banco, o mais mal-amado de sempre, era quase um suicídio o que se pedia ao treinador. Foi o que ele fez, esperando quase pelo fim do tempo regulamentar. Resultou, a dez minutos do final do prolongamento. Éder festejou com uma luva branca na mão, uma chapada nas adversidades, nos incrédulos, na chacota que o atingiu vinda de todos os lados. À excepção dele próprio e de mais meia dúzia, ninguém dos tais onze milhões acreditava nele. Foi quanto bastou. Não lhe chamem agora herói improvável, improvável foi tudo quanto aconteceu e continua a acontecer. O futebol tem disto, leva tipos como eu, convencidos de que a previsibilidade manda no mundo, a delirarem com o imprevisível. Deve ser por isso que gosto de futebol, porque o jogo contraria-me, mostra-me que nem tudo está nas mãos do desalento.

A excitação colectiva não me inquieta, sou incapaz de desprezá-la. Quantas vezes somos felizes na nossa vida? Este é um momento raro, faz sentido que a alegria dos festejos esteja ao nível da raridade do acontecimento. As pessoas que passam indiferentes a tudo isto, mantendo um ar sério, desprezando ou menorizando o feito, dizendo que não sentem nada, são pessoas muito sóbrias. Porventura invejáveis, porventura distantes. Tal seriedade atemoriza-me. Tenho medo das pessoas sérias e sóbrias. Se em tempos escrevi num poema que “as pessoas saudáveis são todas desinteressantes” foi também por razões como estas. Talvez as suas paixões sejam canalizadas para outros feitos, talvez prefiram expressar o êxtase com que por certo vivenciam alguns momentos adiando euforias. Não estranhem, porém, a euforia dos outros, de uma maioria para quem talvez um jogo de bola não se resuma apenas a um jogo de bola. Repare-se na composição desta selecção nacional de futebol profissional, com rapazes provenientes de praticamente toda a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Daí que este triunfo seja também uma ponte a ligar-nos, uma ponte entre Portugal e Cabo Verde (onde nasceu Nani), Guiné-Bissau (onde nasceram Éder e Danilo), Angola (onde nasceu William Carvalho), Brasil (onde nasceu Pepe). E havia as ilhas, Angra do Heroísmo, de Eliseu, e a Madeira, de Ronaldo. E havia os emigrantes, os filhos de emigrantes a jogarem pela selecção, três nascidos em França (Anthony Lopes, Raphaël Guerreiro, Adrien), um na Alemanha (de seu nome Cédric). Portanto, a excitação colectiva é a de uma comunidade por uma vez unida e bem representada num objectivo comum. Que tivesse sido o futebol, que importa? Aproveite-se essa aproximação para que outros laços se fortaleçam numa Europa acossada pelo racismo, pela xenofobia, por muros desumanos e de desrespeito pela diferença. Eu gosto de ver Timor a sorrir, nem que seja por nós. Ou pelo que de nós há neles e pelo que deles há em nós. 

Mas esta é também a lição da resiliência. Dois exemplos e uma imagem. Há na selecção portuguesa um central chamado José Fonte. Quem conheça a história não poderá senão ficar feliz pelo homem. Em 2004, quando Portugal foi o país organizador do Euro, Fonte «andava a fazer estágios com outros jogadores desempregados do Sindicato de Jogadores». Andou pelos clubes secundários de Inglaterra a partir pedra, até que chegou a sua hora. Merece mais do que ninguém erguer a Taça das traças. O segundo caso é por demais conhecido. Éder é em si mesmo um poema épico. Se viram as imagens da avó guineense cheia de orgulho do seu Éderzito, saberão do que estou a falar. Veio para Portugal com 3 anos, foi acolhido pelo Lar Girassol, nunca frequentou as academias dos grandes clubes, andou por equipas anãs, chegou à briosa, foi fazendo pela vida ouvindo cobras e lagartos da falta de jeito que o levava a tropeçar em si próprio. Bendita mental coach que lhe enfiou a luva branca nas canelas. Eu comi com ela nas trombas, de tantas vezes que o critiquei. E apesar de ter previsto o desfecho e de durante o jogo ter rezado para que o tipo entrasse (não tínhamos outro para a posição), bem que mereço a chapada. Éder não é agora o melhor avançado do mundo, mas Éder é para todos uma lição. Por fim, a imagem, a tal imagem do central luso-brasileiro, de seu nome Pepe, a vomitar no final do jogo. Estava a ver aquela imagem e a lembrar-me de quantos portugueses não disseram sobre Pepe que ele não sentia a selecção porque não era português. Ele há ironias do caneco, esse mesmo caneco, o que trouxemos para casa e é nosso, o das traças, o que teve no esforço titânico de Pepe um símbolo perfeito para a história desta conquista.



Mas qual conquista, questionarão os críticos? O mundo está cheio de críticos, devemos dar-lhes graças. Eles são a praga que nos obriga a descobrir e desenvolver novos praguicidas. As duas forças opor-se-ão eternamente, a dos que fazem e querem fazer contra a dos que tudo o que fazem é comentar quem faz e quer fazer. Tudo o que fazem é deveras importante e inspirador, estamos-lhes gratos. Por certo, foram as críticas que em tempos idos levaram Scolari a ceder à pressão: mete os do Porto. Da mesma forma, terão sido os críticos que abriram a consciência de Fernando Santos e o fizeram encontrar maneira de jogar com o meio campo do Sporting mais Renato. Só a partir daí é que a selecção encontrou algum rumo. Há uma palavra para isto, é a palavra entrosamento. Correu bem, temos os críticos para tecerem loas. Corresse mal, teríamos os críticos para deitar a baixo. Também está certo. Mas entre todos os críticos, há sempre um que mais se destaca. Ronaldo disse sobre a Islândia o mesmo que meio mundo disse a nosso respeito, demasiado defensivos, cínicos, nojentos, o diabo a sete. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Quem olhe com atenção para o golo derradeiro fica com uma ideia do que nós fomos, uns chatos, uns empata fodas, fomos como as traças, fomos, de facto, uns campeões. Moutinho ganha a bola entre dois galos capões com o dobro do seu tamanho, parecia que estava a jogar ao meio, não desistiu, meteu o pé, ganhou a bola; mete para William Carvalho e este fez o que melhor sabe, ao segundo toque meteu curto para Quaresma, o cigano, e deixou os galos a cantarem sozinhos; Quaresma, pressionado, volta a meter de primeira para Moutinho, parecia a dança do vira; Moutinho descobre Éder ali ao lado e passa-lhe a bola; ombro a ombro com um defesa francês, Éder consegue ganhar posição e fazer o remate, depois de ter olhado para a direita e de ter descoberto o melhor vazio das nossas vidas. A selecção foi muito isto durante todo o torneio, isto que não é bonito nem feio, isto que é como a água mole em pedra dura. Tanto bate até que fura.


Agora não me chateiem, o furo está feito e eu quero beber desta água. Ah, que tristeza este povo que é só futebol e Fátima e fado. Deixa ser. E vocês, ó fadistas hipócritas das redes sociais, da burguesia instalada, dos remoinhos de vento, das bocas, sempre a dizerem mal de tudo e sem um punho para levantar quando é preciso dar o peito às balas. Manifestações há muitas, ó palerma. Tantas quantos os chapéus. Esta é de alegria, não esperem que para revoltas tenham a mesma adesão, pois o povo nunca foi nem nunca será de se dar às revoltas como é de se dar ao riso. Compreendam que em parcos 80 anos de vida (médias optimistas), rir é bem mais proveitoso do que qualquer outra coisa. Sejam, pois, dignos discípulos de Epicuro. Ou então revoltem-se contra o São João. Acabem já com o Santo António em Lisboa. Sugiram um referendo para que de hoje em diante só seja permitido sair à rua se for para greves e manifestações por coisas tão prementes como os direitos dos trabalhadores, um lugar na Goldman Sucks (sic), um vestido comprido para a Ágata, a colecção Miró, o NOS Alive etc & tal. Afinal, para que fomos todos à rua nos últimos quatro anos senão para dizermos que queríamos ser felizes? E agora, agora que temos essa possibilidade, nem que seja de bolsos vazios, vamos negar-nos a tamanha alegria? Não me fodam. É só um dia, é só uma semana, temos tempo para voltar a cair na real, a real pasmaceira imposta pelos gatunos que nos governam. Deixem pois que o circo e o pão invada as ruas nem que seja por estes breves instantes de alegria, que eu gosto tanto de ver alegria nos rostos das pessoas, de vê-las iludidas enquanto a morte não chega para fazer das suas. E reparo com gozo na proliferação de notícias sobre conquistas desportivas, um arrastão de títulos, alguns deles com mais de cinco anos, a invadirem murais como se de repente fôssemos os melhores da pesca desportiva ao tiro ao arco, passando pela columbofilia e arredores. É bom pensarmos que somos os melhores, nem que seja nisto de não darmos conta em tempo real do quão bons temos sido ao longo dos anos em inúmeras coisas. 

segunda-feira, 11 de julho de 2016

OS ASTROS EXPLICAM


VITÓRIA DA RESILIÊNCIA


Num dia de várias vitórias desportivas nos europeus de atletismo, a cereja no topo do bolo foi a conquista do Euro 2016 com um especial sabor revanchista. Rui Patrício agigantou-se entre os postes, defendeu tudo o que tinha para defender. Pepe foi eleito o melhor em campo, mas já devia ter sido antes. A imagem deste luso-brasileiro a vomitar no final do jogo ficará para sempre na minha memória, foi de uma entrega absoluta, difícil de acreditar. Sem Ronaldo, que saiu lesionado na sequência de entradas intimidatórias dos jogadores franceses, a equipa soube organizar-se, exceder-se, concentrar-se. William Carvalho fez um jogo mágico, Adrien parecia ter cinco pulmões, João Mário é a elegância em campo. Acabaram por estar todos bem, especialmente a defender. O jogo decorria e era previsível o que veio a acontecer, para mim era que o previ e disse entre os meus: «O Fernando Santos vai ter que mostrar coragem, retirar o Renato e meter o Éder». Era evidente que a equipa precisava de uma referência na frente, a sacar faltas aos franceses, a lutar ombro a ombro, mesmo que essa referência fosse um jogador mal amado como Éder. Entrou e cumpriu, começou a sacar amarelos à equipa contrária, transcendeu-se e fez o que ninguém esperava, um chuto, passe a expressão, de luva branca. Golo. Era o sonho a cumprir-se. Este rapaz, nascido na Guiné Bissau, foi o nosso lobo solitário, disse a todos que devíamos ter acreditado nele porque ele acreditava em nós. Eu que sou ateu, comovi-me com a mensagem final de Fernando Santos. Diria Amália que foi deus. Se calhar foi, se calhar não foi. Que se foda. O caneco é nosso. 

A imagem ao alto é do Público.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

ESGOTO


O relatório Chilcot confirma que as informações que indiciavam a existência de armas de destruição maciça no Iraque eram falsas, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, o relatório Chilcot acusa o Governo britânico de ter optado pela solução militar antes de esgotar todas as outras vias de resolução do conflito, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, o relatório Chilcot diz que Saddam Hussein não apresentava qualquer ameaça à paz naquela altura e confirma que todos os avisos que foram dados sobre a instabilidade que se poderia seguir a uma invasão sem qualquer plano de saída foram ignorados, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, segundo o relatório Chilcot, Blair tinha já dado o seu aval à invasão oito meses antes de esta acontecer, prometendo a Bush que estaria com ele, independentemente do que se viesse a passar, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, alguns familiares de militares mortos no conflito esperam que o relatório sirva de base para processar o antigo primeiro-ministro britânico, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, o relatório Chilcot existe, seria impossível ignorá-lo, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, a selecção está na final, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, o relatório Chilcot não interessa, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, o relatório Chilcot não tem gostos no Facebook, os militares mortos no Iraque não têm gostos no Facebook, o Iraque não tem gostos nos Facebook, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, nada disto tem interesse, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, os mortos estão mortos, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, é o karma, é um mantra, países destruídos, famílias destruídas, que interesse pode isso ter se Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, vivam as pessoas que não se incomodam com o facto de Durão Barroso ir ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, que não se incomodam com o relatório Chilcot, que nem sequer se apercebem das consequências da invasão do Iraque em 2003, afinal Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, e que nos importam tais factos, que interesse têm, estamos de férias, vamos ao shopping, a selecção joga no Domingo, a vida é boa e Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, depois de ter sido mestre de cerimónias nas Lajes, e tudo isto é uma colagem, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, tudo isto é arte, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, um poema feio, muito feio, o mais feio dos poemas, parvoíces de que ninguém gosta, ninguém fala, ninguém está para se chatear, não foi comigo, não foi contigo, já passou, não fere, não fez ferida, nem pústula, os nossos filhos estão vivos e de saúde, temos a barriga cheia e podemos fazer um piquenique, podemos, podemos, podemos fazer um churrasco e embebedarmo-nos com a selecção, a bandeira portuguesa, ah a bandeira portuguesa, o Iraque nem tem bandeira, aposto, os refugiados não têm bandeira, a Goldman Sachs tem, e tem o Durão Barroso, o que nos preocupa é os ciganos a receberem o rendimento mínimo, isso sim, isso é que é preocupante, e que idade tem o Renato Sanches, os ciganos são preocupantes, a Goldman Sachs não, o Durão Barroso também não, os militares e os civis mortos no Iraque também não, Durão Barroso vai ser presidente não-executivo e também consultor da Goldman Sachs, vai, ele vai, ele vai, ele vai e será feliz, os filhos estão bem empregados, andaram nas melhores universidades, por certo, ainda vão parar todos à Goldman Sachs, e nós com isso, e nós com isso porra, o que é que isso interessa, a quem interessa, que se foda, se perdermos que se foda, isso mesmo, assim mesmo, força Durão vais para a Goldman Sachs, a consciência não te pesa, a nós também não, já não a temos, há muito que a perdemos, foi pelo esgoto, está com as cinzas do outro, pelo esgoto.


Nota: neste post citam-se vários artigos da imprensa portuguesa nas últimas horas. A imagem ao alto resulta de um mapeamento das explosões ocorridas em Bagdad desde 2003. Cada pontinho vermelho assinala o local da explosão.

terça-feira, 5 de julho de 2016

ABBAS KIAROSTAMI (1940-2016)


Sobre O Sabor da Cereja, aqui.

Memória para Abbas Kiarostami

numa rua sem margens
um homem circula tranquilo
tendo a morte por sombra
a protegê-lo da vida

de um moinho de silêncio
colherá o pó das palavras
para que nós o recordemos
como uma imagem fechada

sem rosto nem voz

domingo, 3 de julho de 2016

MICHAEL CIMINO (1939-2016)


Bastar-lhe-ia ter assinado The Deer Hunter/O Caçador (1978), com Robert de Niro, Christopher Walken e Meryl Streep, para ficar na história do cinema entre os melhores. Não sendo a sua filmografia vasta, impressiona a qualidade do leque de actores com quem trabalhou: Woody Harrelson, Mickey Rourke, Anthony Hopkins, John Turturro, Christopher Lambert, Kris Kristofferson, Isabelle Huppert, Jeff Bridges, Clint Eastwood… Cito Vasco Câmara: «Antes de O Caçador realizou A Última Golpada/Thunderbolt and Lightfoot (1974), com Clint Eastwood, com quem assinou o argumento, e onde já estava essa forma de filmar a paisagem americana como reservatório de mitos que faz a sua cobrança em tragédia a quem lá entra, a quem a atravessa».

sábado, 2 de julho de 2016

UM POEMA DE WISŁAWA SZYMBORSKA


Sobre a morte, sem exagero


Nada sabe de brincadeiras,
de estrelas, de pontes,
de tecelagem, de minas, do cultivo da terra,
de construção naval ou do cozer de um bolo.

Mete-se nos nossos planos de amanhã
com a última palavra
totalmente a despropósito.

Nem sabe aquilo
que é inerente ao seu ofício:
abrir uma cova,
atamancar um caixão,
fazer limpeza depois de ocorrer.

Atarefada com o matar,
fá-lo sem jeito,
sem sistema nem destreza.
Como se ensaiasse em cada um de nós.

Apesar de todos os triunfos,
quantas derrotas,
golpes falhados,
tentativas renovadas!

Por vezes faltam-lhe as forças
para derrubar a mosca no ar.
Outras vezes perde a corrida
com a larva a rastejar.

Todos estes bolbos, vagens,
antenas, barbatanas, traqueias,
a plumagem nupcial ou o pêlo invernal
testemunham o atraso
no seu trabalho moroso.

Não chega a má vontade
nem a nossa ajuda em guerras ou revoluções,
até agora, tudo é pouco.

Batem corações dentro de ovos.
Crescem esqueletos de bebés.
Sementes dão laboriosamente as suas primeiras folhinhas
e por vezes, grandes árvores no horizonte.

Quem afirma que ela é omnipotente,
é a própria prova viva
de que omnipotente não é.

Não há vida
que por um instante
não seja imortal.

A morte
chega sempre com aquele instante de atraso.

É em vão que dá safanões
à maçaneta de uma porta invisível.
Aquilo que se alcança nesse instante,
já não pode ela retirar. 


Wisława Szymborska (n. 2 de Julho de 1923, Kórnik, Polónia - m. 1 de Fevereiro de 2012, Cracóvia, Polónia), in Alguns gostam de poesia - Antologia, selecção, introdução e tradução do polaco de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves, Cavalo de Ferro, Março de 2004, pp. 189-193.

YVES BONNEFOY (1923-2016)


Recentemente, a propósito de Rimbaud: aqui.