sábado, 31 de janeiro de 2026

VOZ HUMANA

 


Peça de tipo neo-romântico com banda sonora de Durutti Column e Dead Can Dance. Uma mulher, de seu nome Júlia, é assaltada por pensamentos suicidas. Um amor falhado abre-lhe a porta da desilusão. Um barqueiro, evocação de Caronte, tenta seduzi-la para o seu mundo. Se o amor não faz parte do seu vocabulário no início, acaba no fim por lhe servir de argumento: «serei eu, o teu novo amor...» Numa espécie de diálogo desprovido de argumentação retórica, Júlia e o Barqueiro oferecem-nos retratos de dois mundos paralelos. Estão ambos num limbo, cada um no seu, talvez se encontrem na morte.

Reinaldo M. Fonseca, Voz Humana, Edições Matrioska, 2022.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

TEMPOS DE INDIGÊNCIA

 
Vamos aos solavancos. No Renascimento, ainda houve quem nos lembrasse: a natureza somos nós. Os do Romantismo perguntaram: que é feito dos Deuses gregos? Agora estamos nesta era deserdada, a das tecnologias que fazem parecer tudo tão fácil até se tornar óbvia a fragilidade de que somos feitos e nunca ultrapassámos. Se aprendêssemos alguma coisa com isto. Mas nada, dentro em breve repetiremos os mesmos erros, voltaremos a comportar-nos como se não houvesse História. Quem era o autor que mais descria da humanidade?

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

JOÃO CANIJO (1957-2026)

 


Realizador de Mal Viver e Viver Mal, ambos de 2023, arriscou uma espécie de western à portuguesa com a série Alentejo Sem Lei (1991). Sapatos Pretos (1998) surpreendeu, é talvez o meu filme preferido de João Canijo. 

KRISTIN

 
Árvores arrancadas ao chão, troncos partidos, casas destelhadas, cheias, zonas balneares atapetadas de areia, montras quebradas, postes de alta tensão dobrados, publicidade espalhada pelo chão, lixo, muito lixo, campos de cultivo destruídos, um cenário de quilómetros e quilómetros de destruição. Sem água, sem luz, sem telecomunicações, as pessoas lembram-se de que são pessoas. «Sejam férteis e cresçam; encham a terra e dominem-na; dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» Assim fizemos, esquecendo de que mais do que dominar a terra seria importante preservá-la, prestar-lhe culto, protegê-la, porque, feitas as contas, concluímos que somos parte integrante da terra. Não estamos separados, estamos dentro. Deus que se foda.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A HORA AZUL

 


Não sei por onde ir, estou presa. Presa nesta neblina alabastrina, nesta escuridão de branco. Podias ter-me deixado um sinal, algo a que me agarrar. Uma pista para seguir, um cheiro para te encontrar, um grito, uma palavra, um sussurro... Nada.

Cristina Ferreira Parente, in A Hora Azul, com ilustração de Ana Vasco, Menção Honrosa Prémio Literário José Luís Peixoto, 2019.

UM SONHO

 
Um sonho: tento colocar um bebé numa dessas cadeiras auto que me parecem bastante confortáveis. Só que a cadeira está repleta de fios, um emaranhado de fios eléctricos, cabos que eu tenho de descobrir onde encaixam e não consigo. O bebé tomba, cai, curva-se como um boneco de trapos. A certa altura ameaço-o com um murro, olha-me enraivecido. E eu embrulho-me nos fios, nos cabos, naquele emaranhado indecifrável de fibras e filamentos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

77

 
Fui ver o debate. André Ventura proferiu 77 vezes o nome do seu adversário nas respostas às perguntas que lhe eram feitas. António José Seguro proferiu 20 vezes, sendo que 9 foram a pedir para que Ventura não o interrompesse. Seguro tentou falar do país, Ventura passou o tempo a falar de Seguro chamando-lhe rainha de Inglaterra, miss Portugal, arrogante, entre outros epítetos fundamentais para o nosso futuro. Ventura engoliu em seco quando Seguro expôs o seu exemplo pessoal em matéria de subvenções, nas propostas que no passado fez para combate à corrupção. E à pergunta sobre quantos desempregados há no país, Ventura respondeu: "Eu respondo a seguir." Ainda estamos à espera. Em matéria de imigração, face ao exemplo espanhol de legalizar 500 mil imigrantes, André Ventura confundiu deixar entrar mais imigrantes com regularizar a situação dos imigrantes que já estão no país. Em matéria de política internacional, disse, sem se rir nem ter nenhuma crise esofágica, que devemos ser amigos de democracias como Israel e EUA. São, não haja dúvidas, óptimos exemplos de democracia na actualidade. Ventura diz esta coisa extraordinária: "Portugal não se deve vergar perante os nossos antigos palops". Os nossos antigos palops, diz ele, acrescentando que não temos de pedir desculpa pelo nosso passado e que prefere enganar-se a deixar tudo na mesma, entre outros chavões costumeiros. Ventura acha que o socialismo mata, mas quando um jornalista lhe diz que o que está a defender podia ser dito por um socialista não só não discorda, como anui. E lá vai dizendo que está de acordo com Seguro em algumas matérias de lei de bases da saúde, legislação laboral, entre outras. Portanto, Ventura está por vezes de acordo com Seguro ao mesmo tempo que o acusa de não ter ideias nenhumas e querer que tudo fique na mesma. Já Ventura tem ideias muito boas, como entregar a nomeação do Procurador-Geral da República, sei lá, tipo a uma corporação de procuradores, ó isso. Gostei do debate, ouvir André Ventura dizer 77 vezes António José Seguro deixou-me confortável quanto ao meu sentido de voto.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

CHICO-ESPERTO

 
O chico-esperto tem sempre histórias para contar e é, invariavelmente, o herói das histórias que conta. Vinga-se, assim, dos pés chatos, da marreca, da saliva em excesso numa boca incapaz de se calar. Faz-se esquecido nas contas que não salda, toma os outros por parvos, ironiza. Ele não te diz que está mal ou que está bem, diz aos outros e espera que esbarres para, vendo-te caído, dar-te a mão. Depois cobra. O chico-esperto não é parvo nenhum, por isso inspira cautela e distância. Creio que finará afogado na própria saliva.

domingo, 25 de janeiro de 2026

SEIS HISTÓRIAS PARALELAS

 


Em Seis Histórias Paralelas (Companhia das Ilhas, Setembro de 2023), Nuno Dempster (1944-2026) ocupou-se das sobras de uma ruralidade que já não merece olhares contemplativos. Seja através da enjeitada de Vasconha, nome de aldeia no sopé da Serra do Caramulo, seja através das visões em Nave dos Sobreiros, nome de aldeia desconhecida, as seis histórias introduzidas por epígrafes de Plutarco (duas), Catulo, Homero, Ovídio e Sófocles, não opõem os vícios da vida urbana às virtudes da ruralidade, antes preferem abordar esta a partir de um prisma crítico que vai muito melhor com a mudança dos tempos. Agradou-me particularmente O Caminho, uma história de vindima com os explorados da imigração em pano de fundo. A vida no campo está longe de ser um paraíso e tanto os vícios como as virtudes são humanos, não escolhem geografias.

TODOS CONTRA MIM, DIZ O BULLY

 


Ventura acha que está no caminho certo porque estão todos contra ele. Na verdade, não estão todos contra ele. Mais de 1 milhão de palermas votaram nele. Ele próprio, nas eleições anteriores em que foi candidato, todas e mais algumas, tem vindo a gabar-se de arrasar com este e com aquele porque os portugueses estão do seu lado. Ora, há nesta lógica propagandística uma contradição que não é de admirar. Ventura diz e desdiz a cada hora que passa. O que me parece interessante, desde já, sublinhar é a importância de estarmos todos contra as pragas de ratos, independentemente do caminho que elas sigam. O discurso dos estão todos contra mim é ainda interessante por vir de um bully que passa a vida a estar contra tudo e todos, nomeadamente o PSD e PS, que ele faz equivaler em cartazes sobre corrupção, ou os ciganos, assim generalizados como se no interior da comunidade não houvesse tanta gente diferente. Ventura está constantemente a pôr-se no centro do mundo, as televisões ajudam. Também por isto é tão importante ir votar contra ele, para que finalmente ele perceba que os que estão com ele não são assim tantos como ele apregoa. O que está em causa nas próximas eleições não é a direita versus a esquerda, é indecência versus a decência, não é o socialismo versus as democracias liberais, é o respeito pela Constituição da República versus o desrespeito por uma Constituição que se pretende mudar para favorecer elites contra os direitos de todos, o que está em causa não é 52 anos de corrupção versus três Salazares para acabar com a mama, é a possibilidade de o país continuar a progredir versus um cheque em branco aos pardais das mamadas.

sábado, 24 de janeiro de 2026

50 x 39

 



"25": Lokomotiv

Há algo comum a todos estes CDs, a guitarra de Mário Delgado. E só num deles não escutamos o contrabaixo de Carlos Barreto, substituído pela tuba de Sérgio Carolino no excelente TGB III (2018). Fui ouver os Lokomotiv a A-da-Gorda na passada sexta-feira, num suposto armazém dos vinhos onde ficámos a seco. Não havia vinho. Belíssimo concerto, celebrando 25 anos de trio (Carlos Barreto, Mário Delgado e José Salgueiro), agora em formato quarteto (Ricardo Toscano no saco alto). São ambientes sonoros dissemelhantes, aqueles que encontramos nestas cinco gravações. Na versão Suite da Terra nota-se a influência das chamadas músicas do mundo, que é como quem diz música enraizada nas tradições mais ancestrais. Os títulos dão conta das diferentes geografias: Terra do N’gumbé, Let’s Goa, Mediterrâneando. Em Filactera, quarteto liderado por Mário Delgado, o mote são as “histórias aos quadradinhos”. Além de Carlos Barreto no contrabaixo e de Alexandre Frazão na bateria, tocam o polaco Andrzej Olejniczak no saxofone tenor e soprano, e Claus Nymark no trombone. O que me agrada nestes músicos, de que a guitarra de Delgado é aqui uma constante, tem que ver com a multiculturalidade oferecida através de uma música que, tendo a sua identidade própria e singular, resulta sempre de encontros com o diverso e da assimilação do que melhor podemos colher nas mais diversas manifestações musicais. Não há nenhuma ditadura estética capaz de usurpar a Terra de Ninguém (de Carlos Barreto) a sua extraordinária beleza ecuménica, devedora tanto das tais músicas do mundo, como do rock... e isso é jazz. Acho que devemos muito a estes músicos. Eu faço a minha parte, vou aos concertos, compro os CDs, escrevo estas coisitas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

TUMBA LAKA MUNA KIRA TÁKA PIRÍ

 
Lokomotiv, A-da-Gorda. Na Grécia Antiga já havia quem se queixasse da juventude, já havia quem olhasse para o passado com nostalgia, já havia quem projectasse o apocalipse no futuro. Mas o apocalipse tem vindo a ser protelado. Aqui estamos, 4000 anos passados sobre as placas de barro do Épico de Gilgameš, a queixarmo-nos descontinuadamente da juventude, a olhar com nostalgia para o passado e a adivinhar o fim do mundo num horizonte próximo.

JE SUIS VOLKSVARGAS

 
Leitão Amaro, naquele jeito de falar como quem olha para o chão a ver se não tropeça nos próprios pés, veio justificar a queixa de Montenegro contra um post satírico alegando questões de defesa nacional: «É defender Portugal e a posição de Portugal, quem faz isto não ataca só o primeiro-ministro, ataca a posição internacional de Portugal». O leitãozinho disse isto sem se rir, pelo que acreditamos estar a falar a sério. Não sei se viram o post em causa, uma brincadeira em que Trump agradeceria a Montenegro por este lhe propor as ilhas dos Açores entre outros disparates congéneres. O que ali está em causa, claramente, é uma satirização da reverência portuguesa à política norte-americana. Ora, tanto o anjo Montenegro, como o anjo Amaro, levaram-se a sério a ponto de nem sequer lhes passar pela cabeça estar Donald Trump a cagar-se para eles e para Portugal, enquanto divulga nas suas redes sociais vídeos produzidos por inteligência artificial (não tem outra) e propaga todo o tipo de mentiras e dislates. Chegámos a este ponto em que os verdadeiros sátiros são aqueles que outrora inspiravam a pena dos poetas, ou seja, os homens de e no poder. Ao pé de Montenegro e Leitão Amaro, o Volksvargas parece um respeitável cientista político. Ao pé do Volksvargas, o Amaro parece um leitão e o Montenegro dá ares de Palhaço Batatinha.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

DESCONCERTO DO MUNDO

 
Sá de Miranda já falava do desconcerto do mundo, Camões aprofundou o desconcerto do mundo, Vieira sentiu na pele o desconcerto do mundo, Nicolau Tolentino denunciou em versos autocomplacentes o desconcerto do mundo, o desconcerto do mundo persegue-nos. Do renascimento ao barroco, da arcádia lusitana ao romantismo, do modernismo ao surrealismo, passando pelo neo-realismo e demais ismos, sempre o desconcerto do mundo, sempre esta sensação de injustiça, de premiação do mal e desprezo do bem. Ainda hoje, o desconcerto do mundo. Uma guilhotina suspensa por fios débeis sobre as nossas consciências.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

RELÓGIO ATRASADO

 
O cansaço manteve-me em casa a arrumar livros e ideias. Fomos sempre, enquanto nação, produto de influência estrangeira. Não há um verdadeiro e autêntico, genuíno pensamento português. O relógio atrasado pela Inquisição, como denunciou o Cavaleiro de Oliveira, e, posteriormente, pelo Estado Novo. Só com os estrangeirados conseguimos, a espaços, olhar-nos de fora e, a pouco e pouco, aproveitar esse olhar para um exercício de autocrítica que nunca nos libertou por completo das coleiras que nos levam a reboque. Alguma emancipação a partir da segunda metade do século XX, talvez, mas tudo como um fogo-fátuo. Agora, com a inteligência natural rendida à inteligência artificial, talvez consigamos finalmente ver-nos ao espelho e repensarmo-nos pelo mal e pelo bem que fizemos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

MOMENTOS

 

Nunca pensei que isto fosse durar tanto. 8 anos passados, são breves e escassos os momentos colados à memória, a despeito das inúmeras horas despendidas a preparar conversas e a materializá-las. Há gente que nos fica na memória pelo que pede à mesa, por um gesto, por uma palavra, outros há que nos oferecem momentos inesperados com os quais alimentamos a vontade de continuar. Ultimamente têm-me ocorrido, em particular, os lapsos, as falhas, as ocasiões confrangedoras, momentos que envergonham e preferiríamos recalcar tivéssemos esse poder. Chego a sonhar com esses momentos, atormentam-me. Arrependo-me de os ter vivido de me arrepender de os ter vivido. Afinal, são meros instantes que de nada valerão dentro em breve.  

O GORDO

 
A operação em curso sobre o grupo neonazi 1143 pode levar a consequências inesperadas, dado o interesse já detectado sobre a data escolhida pelos trogloditas para se reunirem a fazer coisas lá do interesse deles. Se os wokistas de serviço começam a meter os olhos na História de Portugal, ainda vão descobrir que temos um rei vítima de body shaming: D. Afonso II, cognome O Gordo. O que será então de nós?

BUKOWSKI E O CINEMA

 


- De todos os filmes que já viu até hoje, qual considera ser o melhor?
-
No Céu Tudo é Perfeito.
-
No Céu Tudo é Perfeito?
- Sim.
- E em segundo lugar?
-
Quem Tem Medo de Virginia Woolf?
 
Charles Bukowski, in "Hollywood", trad. de Alice Rocha, Alfaguara, Setembro de 2012, p. 334.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

LEMA DE VIDA

 
Tenta encontrar virtudes nos vícios sem fazer dos vícios virtudes. É uma forma de actualizar o que Yourcenar meteu na boca de Adriano e há muito, muito tempo, tomámos como lema de vida: «O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.» Aconteça o que acontecer, por mais porrada que leve, não abdicarei deste princípio. Eu sou isto.

DIZ-ME COM QUEM ANDAS...

 
André Ventura foi condenado por segregação racial, André Ventura não respeita a Constituição da República Portuguesa, André Ventura é um político incendiário que dissemina ódio nas redes sociais, André Ventura é líder de um partido político fundado sobre ilegalidades várias, no seio do qual, em meros 7 anos, têm emergido inúmeros casos de corrupção, desde gente que rouba malas em aeroportos a pedófilos, André Ventura é um cata-vento que desmente à tarde o que diz de manhã, André Ventura é o político português com mais mentiras e aldrabices proferidas na comunicação social, André Ventura não sabe estar na vida pública sem ser a ofender terceiros, André Ventura tem as piores companhias internacionais, líderes da extrema-direita fascista, populistas oportunistas, gangues neonazis, André Ventura venera o ditador Salazar... Podíamos continuar, mas não vale a pena. Quando, perante este desfile de factos, o Cotrim, o Almirante, o Marques Mendes e Montenegro não tomam posições claras, fica evidente quem está e quem não está na política por amor à democracia. Vão ficar todos com as mãos sujas da porcaria chegana e a culpa não é senão dos próprios.

domingo, 18 de janeiro de 2026

DESASTRE À VISTA

 
Olhando para os resultados nacionais, concluímos que a abstenção cresceu face às últimas legislativas. Mais de 5 milhões de eleitores não foram votar. Isto, do meu ponto de vista, continua a ser preocupante. Da mesma forma, embora mais compreensível, também nos devem preocupar 65381 votos nulos e 61226 em branco. Muito menos, curiosamente, do que nas últimas legislativas, que só em nulos somou 172 379 votos. O boletim de voto destas presidenciais vai ficar para a história como mais uma vergonha nacional. Não se percebe, por mais voltas que se dê, a inclusão de três candidaturas recusadas. Dito isto:
Estrondosa vitória de António José Seguro contra todas as expectativas iniciais. O país abrilista, democrático, concentrou-se o mais possível na sua pessoa contra hipóteses que seriam catastróficas. Sofreram, com isto, outras candidaturas de esquerda que, a bem dizer, foram apenas propaganda partidária.
O estrondo da vitória de Seguro equivale ao estrondo das derrotas do Almirante e Marques Mendes, dados desde cedo como favoritos. O candidato da SIC esteve longe de repetir a façanha de Marcelo, após anos a fio de publicidade televisiva. São os grandes derrotados da noite e teriam tudo a ganhar com o anúncio do apoio a Seguro na segunda volta. Não lhes pode ser indiferente a decência versus a indecência.
Ventrulha teve sozinho menos 111 237 votos do que o Chega nas últimas legislativas. Bem pode cantar de galo, os números não metem: ficou longe de passar à segunda volta em primeiro, contra inúmeras sondagens que apontavam nesse sentido, e perdeu votos face às últimas legislativas, o que no seu caso é especialmente relevante: é líder do partido, tem uma candidatura fortemente partidarizada.
Por fim, o caso Cotrim. Depois de tudo o que se passou, 902 564 pessoas votaram nesta criatura que mostrou não saber onde tem a cabeça. Quase um milhão de portugueses não se importava de o ter como Presidente da República. Isto é desastroso.

TRANSFORMAR EM QUÊ?

 
A necessidade de transformação do mundo, tal como Brecht a coloca no domínio do Teatro Épico, não me seduz particularmente, desde logo por não vislumbrar nela algo de verdadeiramente inovador. Também aqui, parece-me, foi o dramaturgo mais consequência do seu tempo do que impulsão de ruptura. Modificar e transformar, pois bem. Mas em quê? Tenho sérias dúvidas quanto ao poder transformador da arte, mas mais do que modificar ou transformar importa decidir quem e o quê. Não vale a pena pressupor capacidades transformadoras na criação artista, se for para transformar em algo pior. E aqui talvez devamos supor um tipo de avaliação que faça coincidir o estético com o ético. Os artistas, os criadores, estão imersos num tempo que é o seu. A história dos movimentos, o modo como se foram negando uns aos outros, ou, pelo menos, impondo, não é muito diferente da dinâmica epistemológica dos paradigmas. Mais importante, creio, é a arte estar permanentemente em crise, recusar a cristalização de todo e qualquer paradigma, conflituando com o seu tempo sem se fechar ou isolar num qualquer reduto antissocial. O que mais se observa é uma criação fechada sobre si mesma, individualizada, elitista como desde as raízes mais profundas, do mecenato à subsidiação, o que mais se observa é uma criação transformada em modo de ganhar a vida, em vez de a transformar, à vida, à daquele que cria e dos que frequentam o seu círculo, geralmente mais e mais e mais criadores, e à daqueles que se aventurem no desconhecido, já tão poucos, já tão pouco disponíveis para serem transformados, já tão formatados pela família, pela escola, já tão uniformizados pelas dinâmicas capitalistas, pelos discursos sedutores da publicidade, pelas modas, pelas tendências.

sábado, 17 de janeiro de 2026

IMAGINEMOS

 


Suponhamos a pergunta: «Como se pode imaginar o que não existe?» A resposta parece ser: «Se o fazemos, imaginamos combinações não existentes de elementos existentes». 

(...)

Imaginem um homem cujas memórias nos dias pares da sua vida incluíssem todos os conhecimentos de todos os dias pares, omitindo completamente o que tinha acontecido nos dias ímpares. Por outro lado, ele lembra-se num dia ímpar do que aconteceu em dias ímpares anteriores, mas a sua memória omite, nesse caso, os dias pares, sem qualquer sensação de descontinuidade.

(...)

Imaginem uma linguagem em que, em vez de «não encontrei ninguém no quarto», se dissesse «encontrei o Sr. Ninguém no quarto». 

Ludwig Wittgenstein, in O Livro Azul, trad. Jorge Mendes, Edições 70, 1992.

DIA DE REFLEXÃO

 
O que significa sentido? Qual é o sentido de significar? Qual é o significado de significar? Haverá um significante de sentido? E de significado? Qual é o sentido do significante? Qual é o sentido do significado? O sentido sente? O significante sente? Sentir significa significar? É possível sentir o significante do significado de sentido? Enfim, estou a tentar dar bom uso ao meu dia de reflexão.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

HOMO ERECTUS SOB RUÍNAS

 

Escrevo a dezoito sobre o dezassete para publicar a dezasseis. É uma das vantagens da tecnologia, podemos andar para trás no tempo, apagar memórias, pôr em prática a imaginação segundo Ludwig Wittgenstein. Apercebo-me, por exemplo, de falhas na memória que não creio selectivas. Apago rapidamente nomes, fios narrativos, ambientes. Uma exposição inaugurada no passado dia 10: Contranatura, de Bartolomeu de Gusmão e Sebastião Casanova. Gosto do ramo podre da natureza morta, em contraste com o painel de nudes numa das paredes. Representar nudes, a fetichização do corpo próprio segundo si mesmo. Não é preciso ir aos livros para saber que estamos impossibilitados de nos observar, isto é, de chegarmos com os olhos a certas partes do corpo. Recorrendo a espelhos, câmaras, smarthpones, estas nudes mostram como o ser humano busca aceder-se a si mesmo, ao que lhe é vedado pelos sentidos, as partes a que os olhos não chegam. Ninguém vê as suas costas senão recorrendo a um intermidário. Pintar estas poses, estes nus contemporâneos, é diferente de sugerir a pose que se pretende pintar, há uma subjectivação do olhar, da perspectiva, típica do individualismo em que a pós-modernidade nos enclausurou. Um dia aprenderemos a escapar ao Eu, a libertarmo-nos do Eu, a soltarmo-nos do Eu, a desagrilhoarmo-nos do Eu. O Eu, a prisão. Uma peça, exercício final de alunos de teatro: Estreito, de Joana Craveiro. Polifonia improvável de vozes poéticas a partir de uma questão: o que pode a poesia em tempos de ruína. Velha questão. Bem, algumas das vozes seleccionadas pouco têm a dizer-nos sobre o tema. A música dos Godspeed You! Black Emperor, ao contrário, tem tudo a dizer-nos sobre ruína. Pergunto-me sobre o grau de aprofundamento em torno daquelas palavras, as de Herberto, Bolaño, Audre Lorde, Adília, Rupi Kaur, Mahmoud Darwish... Alguns quadros interessantes: a rapariga sentada, a ler, em cima da máquina de escrever, a terra vazada sobre o corpo erecto, a água a escorrer sobre os rostos, os objectos espalhados pela cena, os carros de mão repletos de sapatos, num labirinto de referências confusamente entrelaçadas. Mas gostei de ver as miúdas e os miúdos, o modo como os corpos serviam as palavras permitindo que os versos ressoassem na sala. O Insulto ao Público, porém, não resultou, ficou aquém do que o público merecia verdadeiramente. O próprio texto de Handke, hoje em dia, teria de sofrer algumas adaptações. O público merece cada vez mais uma verdadeira chapada nas trombas.  

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

PARTIR PARIR

 
Andar nas ruas já foi mais vantajoso, quando desconhecíamos por completo as caras que se cruzavam connosco. Agora somos interrompidos, massacrados com todo o tipo de apartes, brindados com cumprimentos cujo efeito é descontinuarem a marcha do pensamento em estado de observação. E depois há aqueles que falam muito, falam tanto, não se calam, os cotovelos rasgam-se e de lá saem línguas compridas tagarelantes, encimadas por favolas afiadas, prontas para morder enquanto em nós cresce uma vontade de partir. De partir dentes e de partir para longe. Verbo curioso, este verbo partir. Menos um pouco, seria parir.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

UM POEMA DE CHARLES BUKOWSKI

 


cara do candidato num outdoor
 
ei-lo:
poucas ressacas
poucas brigas com mulheres
poucos pneus furados
nem um pensamento suicida
 
não mais que três dores de dentes
nunca falhou uma refeição
nunca foi preso
nunca se apaixonou
 
7 pares de sapatos
 
um filho na faculdade
 
carro com um ano de uso
 
apólices de seguro
 
um relvado verdejante
 
baldes do lixo bem tapados
 
será eleito.

Charles Bukowski, in Play the Piano Drunk / Like a Percussion Instrument / Until the Fingers Begin to Bleed a Bit, 1979. Black Sparrow Press. Versão de HMBF.

UM COPO, UM TEXTO

Não creio que o gosto seja ideológico, sobretudo num período histórico esvaziado de ideologia como o nosso. O gosto forma-se e transforma-se com o tempo, quer a nível individual, micro, quer a nível social, macro, como verificamos quando olhamos para as tendências que percorreram e continuam a percorrer a história da humanidade. Kant, por exemplo, admitia uma dimensão subjectiva no gosto, mas não rejeitava a pretensão de universalidade desta subjectividade. Para o gosto contribuem a educação, a formação, o ambiente social, a herança cultural e, estou hoje convencido disso, a disponibilidade de cada um para se aventurar no desconhecido, a curiosidade que alimenta o desejo de encontro, de cruzamentos potenciadores dessa transformação a que o gosto está sujeito. Ao longo da vida, não gostamos sempre das mesmas coisas e da mesma maneira. Porquê? Talvez isto tenha que ver com os níveis de conhecimento que acompanham o desenvolvimento pessoal, estudado, em diversas vertentes, por Piaget, Erikson, Freud, Vygotsky (são os que mais se estudam em Psicologia do Desenvolvimento). As teorias do desenvolvimento cognitivo, social, sexual, etc., são relevantes nesta matéria, pois ajudam a entender como também na formação ou deformação do gosto está implicada a relação da pessoa com o mundo. A única ideologia que aqui importa é anterior à formação do gosto, é aquele que ou se preocupa ou descura com/as condições que tornam possível o desenvolvimento do gosto. Portanto, continuamos cativos dos meios que tornam possível ou impedem a emancipação. Epicuro já falava disto quando defendia a educação das mulheres e dos escravos. As belas-artes, que são apenas um dos domínios em que o gosto se forma ou deforma, não esgotam o desenvolvimento do gosto. Na cultura de massas, o gosto é como aprender a andar de pé. Forma-se por imitação, uma imitação que ajuda à integração. Há fenómenos de idolatria, por exemplo no domínio da música popular, fenómenos de veneração, de tipo quase religioso, que colocam o artista num patamar divino, sagrado, aquele a quem se presta tributo indo aos concertos, comprando os discos, “per-seguindo” nas redes sociais, etc... Mas esses fenómenos, que não são propriamente novos, embora atinjam hoje escalas impressionantes – veja-se o fenómeno Taylor Swift – acompanham a formação do gosto, tanto por adesão como por reacção, que não me parece ter na sua base qualquer tipo de ideologia, como terá, certamente, uma forte influência das técnicas publicitárias de sedução que vieram impor-se à propaganda. A premissa de que «o gosto é ideológico» não me parece, portanto, um bom ponto de partida, conquanto a ideologia possa ser determinante na materialização de condições a partir das quais o gosto venha ou não a desenvolver-se. (Made in Casa Antero, a partir de prosa do FMR)


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

30 MULHERES

Se não aconteceu comigo
é porque não aconteceu

Se não aconteceu comigo
como pode ter acontecido?

Ó, merda, aconteceu-me
E agora? Digo? Não digo?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

IRÓNICO DESTINO

 
O Centro de Saúde mudou-se para o edifício do extinto Externato Ramalho Ortigão, onde vendi docência, se não estou em erro, entre 2000 e 2008, estava já o antigo Externato ocupado pela Associação para a Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica. Onde dantes havia professores e alunos, há agora doentes, pacientes, corpos entrevados e amaldiçoados pela doença e pela alienação. Irónico destino.

domingo, 11 de janeiro de 2026

DEADLINE

 
Saltar da cama com queixas sobre o tempo, não o dos termómetros, antes o dos cronómetros. Aquela sensação de não nos sobrar tempo para nada do que julgamos essencial, como, por exemplo, arrumar papéis, queimar papéis, amarrotar papéis, os papéis que nos vimos obrigados a desempenhar quotidianamente para plateias adormecidas. Então digo: preciso de tempo para maturar ideias, para pensar, para reflectir. E o espelho devolve-me exactamente o que acabei de dizer como a um eco. Falamos para o vazio, citamos os gregos que elogiavam o ócio contra a preguiça atávica, o ócio que lhes permitia chegar a conclusões tão definitivas como a de que estar vivo é o contrário de estar morto. Queixo-me, salto d’O Livro Azul para O Livro Castanho, marco no Excel os dias já passados, olha para o que aí vem, meto as mãos à cabeça, tanto que fazer, meu Deus, como vou conseguir oferecer ao corpo as caminhadas do pensamento? Não fossem precisos pão e vinho sobre a mesa, ficaríamos a sós com o mundo nisso de senti-lo pensando-o, pensá-lo sentindo-o. Mas há os telefonemas, os emails, os projectos, os deveres, as obrigações, os planos, as planificações, há as datas, as deadlines, as calendarizações, toda essa tralha que nos traz atrelados.

sábado, 10 de janeiro de 2026

TEATRO IMPOSSÍVEL

 


Quem fala no Teatro Impossível de Álvaro García de Zúñiga (1958-2014)? O texto do espectáculo apresentado em 1998 no ACARTE – Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte da Fundação Calouste Gulbenkian é, segundo nota introdutória, um composto com origem em sete peças curtas escritas entre 1987 e 1998. São elas Logue, Scène Vide, Scène de chasse déraisonablement obscure, Scène de chasse, Pour des obscures raison, Encore e Machin du Logue. Nascido em Montevideu, no Uruguai, o autor expressa-se em francês, língua adoptada. O facto biográfico tem interesse, na medida em que a linguagem, na sua estreita relação com o pensamento, é um eixo central da obra, mas também porque, a dado momento, na primeira de sete cenas numeradas sequencialmente, o sujeito dramático, chamemos-lhe assim para evitar a designação clássica de personagem, alude a uma condição de «desmembrado, despatriado, despovoado, desapossado». O início do texto remete para uma tentativa de construção autobiográfica: «Epá, nasci excessivamente novo! O que quer dizer que no momento do meu nascimento não tinha sequer um dia de vida.» Este trabalho de reconstituição biográfica parece ser o ponto de partida da voz que fala. Mas quem é ou o que é essa voz? Para haver Teatro, como sabemos, precisamos de alguém que fale e de alguém que escute, além de um espaço onde a relação entre um e outro possa materializar-se. A impossibilidade do teatro parece estar associada, neste caso, a um Eu que se questiona de e para si mesmo, sem ter em vista um outro que o escute, a despeito da curtíssima fala final que se dirige a um auditório pressuposto no uso do pronome pessoal “vocês”. Na linha de Beckett, apontado «à la fin de la partie», o texto é desenvolvido como um jogo pautado por repetições, aliterações, conjugações fonéticas, associações imagéticas, oxímoros, paradoxos, neologismos, aglutinações, invenções de palavras, mas com a sua lógica interna indissociável de um pensamento em acção. A acção do pensamento é a busca de sentido, restando saber se a ele é possível chegar sem recorrer aos sentidos. Na verdade, o Teatro Impossível é puro pensamento em acção através da linguagem, das potencialidades da língua enquanto espaço lúdico no qual o pensamento se exercita: «A personagem que fui, veio-me parar à pele das mãos da minha língua, através do livro “Erva Roída”, a seguir ao que me ofereci (certamente acreditando que viria a ter uma consciência profissional, sinal estigmatizando a minha evidente juventude), um pequeno livro com o título em português “Muito Obrigado”.» Assim é na tradução de Dóris Graça Dias, mas não exactamente na língua de partida. Nesta, há brincadeiras, conexões fonéticas, lexicais, gráficas, que se perdem na língua de chegada. Exemplo: em francês, o resultado de «Je me le répétais, même sans le, même sans me, sans re et sans s» não é o mesmo que obteremos com «Repetia-o a mim mesmo, mesmo sem o, mesmo sem mim, e sem s.» O sentido de humor de Zúñiga sofre alterações com o processo de transformação da língua, o que levanta um problema de descaracterização do texto que a espaços se verifica. Ainda assim, há na própria construção textual uma mise-en-scène do pensamento através da palavra que resulta altamente estimulante, nomeadamente quando se inventariam questões cuja «Resposta: Está fora de questão responder.» Aspecto curioso é este de o pensamento, através da linguagem, tender para o silêncio, de o ser tender para o nada, de o sentido nos deslocar para um vazio que sugere um movimento com resultados surpreendentes: «Comecei a continuar, iria continuar a extrair tudo, a extrair-me todo, a pôr tudo isto a andar à volta do quadrado.» Este movimento de andar à volta do quadrado é, pois, o do Eu que busca entender-se, compreender-se, construir-se, determinar-se no interior de um pensamento de que está cativo. O Eu é recluso do pensamento. Como libertá-lo? Julgaríamos que o Teatro pudesse ajudar-nos nessa fuga construindo personagens que, de algum modo, fossem uma espécie de ponto de fuga do Eu, mas também nesses casos o tirânico, ditatorial e despótico Eu se projecta. Haverá modo de o destruir, de o exceder, de o transcender? No Teatro Impossível «Os sons são a essência do sentido mesmo que ele seja insensato. A essência mente essencialmente.» Curiosa referência ao sentido auditivo num autor que começou, precisamente, pela música e se reflecte eminentemente rítmico naquilo que escreve. Morrer, também nesse sentido em que escrever é matar-se, dessuicidar-me ressuscitando, também nesse sentido em que vibramos no momento de criação, talvez possam ser um ponto de saída. Para quê? Para onde? Para  um fora que é dentro, para uma entrada de onde se sai entrando. E disto não saímos. Merda.

O PALHINHAS &CA, N.º 91

 


Nas centrais de O Palhinas &ca. (n.º 91, Dezembro de 2025 – Março de 2026) com Uma carta para as minhas filhas. Neste número que ensina a Viver, colaboram Rui Fonseca, Pedro Silva, Pedro Nuno Pinto, Pedro Biscaia, Paula Delecave, Nuno Meireles, José de Matos-Cruz, Henrique Manuel Bento Fialho, Filipa Sotto-Mayor, Cláudia Mestre, BAP, Augusto Baptista, António Augusto Menano, António Amargo, André Ruivo, Ana Biscaia, Álvaro Biscaia, Alice Mano Carbonnier, AFMFF. Coordenação de Ana Biscaia.
 
Podem adquirir O Palhinhas na Flagrantetítulo (Rua da República, 114, 1.º, sala 5, 3080 – 036, Figueira da Foz) ou através de email: flagrantetitulo@gmail.com.

REGRESSAR A CASA PARANDO PELO CAMINHO

 
Um incêndio deflagra na praia. A CMTV mostra. Um bombeiro leva uma bengalada no nariz. A CMTV anuncia. Um cão morde um gato. A CMTV investiga. A luz falha no Bairro da Luz. A CMTV está presente. Uma freira dança kizomba. A CMTV exibe. Chove no Inverno. A CMTV alerta. Um carro não abre pisca na rotunda. A CMTV em directo. Um painel publicitário está ao abandono. A CMTV consulta especialistas. Uma coelha come os coelhos. A CMTV debate. Uma família desfaz a árvore de Natal. A CMTV faz um directo.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

SERVIÇO ARTIFICIAL

Escrevi uma microcena e pedi ao ChatGPT que a rescrevesse ao estilo do "Livro do Desassossego". Peguei no resultado e pedi que o rescrevesse ao estilo de Henrique Manuel Bento Fialho. Perguntei quais os critérios seguidos para aquele resultado. Por fim, questionei sobre as fontes de tais critérios. O grau de eficácia surpreendeu-me. Na estação de serviço Colibri, uma simpática funcionária, a quem devo a sugestão de uma óptima aletria, queixava-se das máquinas de atendimento automático. Perguntava, com desdém: "É isto que nos vai roubar o trabalho?" A inteligência artificial parece mais eficaz a escrever do que a servir, o que nos pode e talvez deva levar a repensar o acto de escrita.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

COLAPSOS

 
Acho que estou simplesmente a colapsar.
 
Acho que também estou a colapsar, tão simples quanto isso.
 
Eu também.
 
Falk Richter, in Trust, L'Arche, versão de HMBF, 2010.

ACTOR IN TWO ROLES

 


Diferentes linguagens cruzam-se e intersectam-se na fotografia de Jeff Wall, nomeadamente a linguagem pictórica com a cinematográfica. Em Actor in Two Roles o encontro é com as artes performativas. O díptico coloca lado a lado dois fotogramas de espectáculos, aparentemente distintos, aparentemente na mesma sala. Do lado esquerdo uma cena despida, minimalista, com oito raparigas. Quatro pré-adolescentes, todas vestidas de igual, como que marcham. Ao fundo, quatro raparigas mais velhas, também vestidas de igual, observam aquelas. É como se olhassem para si mesmas uns anos mais tarde. No fotograma do lado direito a cena minimalista transforma-se num interior. Talvez uma sala, talvez um apartamento, talvez um quarto de hotel ou pensão. De pé, uma mulher adulta. Sentado, um homem. Qual a relação entre os dois frames que formam o díptico, ou seja, a fotografia? Podemos pensá-las em conjunto ou separadamente, tentando estabelecer associações. A única constante é a presença do corpo feminino que, da esquerda para a direita vai assumindo diferentes estados de desenvolvimento: pré-adolescência, entrada na vida adulta, vida adulta. É uma hipótese. Neste caso, o díptico seria sobre a passagem do tempo, as raparigas do meio como que se encontram num estádio intermédio, crepuscular, o estádio da observação entre o que foram e naquilo em que se vão transformar. O corpo do homem, ali sentado, é como que uma espécie de acessório, o outro que, segundo Sartre, representaria o inferno. É uma hipótese de leitura, uma mera hipótese. Outro possível seria de pormenor, se nos focássemos, por exemplo, no ponto de fugo, no pormenor dos crânios cortados que surgem no lugar onde imaginamos o publico, na plateia, ou, eventualmente, o pessoal durante um ensaio: encenador, assistentes, técnicos, etc. O teatro é o motivo, por assim dizer, do díptico, mas está longe de encerrar o tema, será um mero ponto de partida para algo que o nosso olhar se encarregará de construir. Como em tudo, interessa-me qui a natureza anfíbia do objecto, a sua hibridez e como essa hibridez contribui para que o processo se mantenha vido, não se feche sobre si mesmo. A dificuldade que possamos sentir em entender esta imagem advém da dificuldade de conjugação sugerida pelos seus diferentes elementos. Em aparência, o lado esquerdo nada tem que ver com o lado direito. Mas múltiplas associações são passíveis de se estabelecer, assim estejamos dispostos para pensar os frames ou fragmentos separadamente e conjuntamente.  

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

NOTA DE RODAPÉ

Escreves a partir do que és ou a partir do que leste? Lês a partir do que vês ou do que és? És o que vês, vês o que leste? Texto semeia texto semeia texto semeia texto. E alguém colhe, o leitor é um jardineiro. Melhor: o leitor é o madeireiro. Também pode ser o caracol de estimação do autor, com a sua casa às costas, com o texto debaixo do braço. Agora a sério, acordei com o som de um pingo no autoclismo, muito mais intenso do que o som da água a correr no rio aqui ao lado, e como ela corre, e como vai cheio o rio com seu caudal de inverno. As cores das folhas no chão dizem-me mais do que as cores das folhas brancas sobre a mesa. Depois há a neblina que se mistura com o fumo da madeira a arder nas salamandras, o calor que se mistura com a respiração dos cães, a luz que ilumina os degraus traiçoeiros, o escuro que clareia, a luminosidade escurecida, a porra do oxímero e da anáfora, ambos saturados pela prática. Sempre que regresso ao Livro do Desassossego sinto que nunca de lá saí, posso ter-me escapulido da prisão numa fuga espectacular e quase fatídica, mas a prisão continuou dentro de mim como sempre continua dentro daquele que nela se fez ser. Agora apetecia dizer: abri as portadas e espreitei-me a passear lá fora, estava mais velho, definitivamente mais velho, mas mantinha-me inalteravelmente inseguro como uma corrente esquecida num portão enferrujado. E cambaleava de sonhos abandonados na rua como lixo depositado por outrém em que eu próprio tropeçava. Adenda: reparei hoje que morreu Afonso Romano de Sant'Anna em Março passado, vai fazer um ano. Outro em nota de rodapé.VR.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

CARACOL DE ESTIMAÇÃO

Regressar a um texto e repensá-lo a partir das vozes de terceiros. Expor o processo, constantando que tudo pode ser diferente. Sete simpáticas e disponíveis criaturas em torno de Quem está aí? dividem-se espontaneamente e sem qualquer indicação nesse sentido pelas oito cenas, oferecendo-lhes novas cambiantes e dimensões. Uma imagem que se me cola à cabeça: a de um caracol como animal de estimação. Recolho-me a pensar em Richter e na autoficção, no eu que se desdobra enquanto se põe em causa. O problema de uma escrita demasiado autobiográfica é, cada vez mais, não haver biografia que chegue. A quem interessará as milhares de horas despendidas a resolver problemas quotidianos? A quem interessarão as nossas dores? Este o quarto de três actos frustrados, isto é, a sombra do trio reunido. Onde terei lido que as sombras têm cheiro? (Vila Real, Fundação da Casa de Mateus)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

TÍTERES

 
Fui ver os Bonecos de Santo Aleixo no dia em que soube da morte do Nuno. Que outra forma encontrar para disfarçar a repugnância face às notas de rodapé mal alinhadas? Saí de lá a pensar que há mais vida naqueles bonecos do que em muitas almas, tese que não carece de prova ao ligarmos a televisão num qualquer canal noticioso. O teatro. O teatro é a arte onde as vítimas ganham voz, isto é, onde a voz das vítimas e dos carrascos é colocada ao mesmo nível. Em mais nenhum lado as vítimas encontram corpo e espaço para se fazerem ouvir como no teatro, nessas assembleias em que, colectivamente, assistimos não aos julgamentos, mas à exposição dos elementos que compõem uma relação possível entre vozes. A voz do ministro dos negócios estrangeiros português fez-se ouvir: benigno, disse ele. E ao dizê-lo, transformou num acto saudável o esbulho, o rapto, a violência mais pérfida dos tiranos. Em suma, o uso ilegítimo da força para agressões que violam a soberania dos estados passa a ser benigno. Como uma espécie de cancro benigno. Só que este mata. Infelizmente, não se matará a si próprio nem quem cauciona tal benignidade. Apetecia-me ver novamente os bonecos.

domingo, 4 de janeiro de 2026

NUNO DEMPSTER (1944 - 2026)

 


Esta náusea, este
viver sozinho contra o que me cerca
e contra uma poesia só imaginada.
Nuno Dempster
 
   Nascido a 26 de Abril de 1944, em São Miguel, nos Açores, Nuno Dempster é o nome literário de Manuel Gusmão Rodrigues. Através de uma publicação da editora Companhia das Ilhas, soube apenas hoje de madrugada do seu falecimento no passado 2 de Janeiro.
   Neto de Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), um dos poetas de Orpheu, de quem organizou o volume Um Poeta Rodeado de Mar (Companhia das Ilhas, Agosto de 2021), Nuno Dempster era engenheiro técnico agrário de formação. Trabalhou inicialmente numa cooperativa agrícola de cariz revolucionário, tendo sido saneado, em 1977, pelos que tomaram de assalto a direcção da coperativa sob reacção do 25 de Novembro. Prestou assistência técnica no fabrico de rações e na produção animal, dois ramos em que se especializou.
   Conhecemo-nos pessoalmente em 2008, depois de o Nuno me procurar no meu então local de trabalho. O primeiro contacto foi nos weblogs e, posteriormente, via e-mail: «Passo pelas Caldas em trabalho e dou aí um salto para lhe oferecer o meu único livro (havia outro, mas rejeitei-o), um calhamaço de quase trezentas páginas que, com espanto meu, me publicaram.» O calhamaço era Dispersão - Poesia Reunida (Edições Sempre-em-Pé, Novembro de 2008), que tive a honra de apresentar, a 30 de Maio de 2009, na Livraria Arquivo, em Leiria.
   Para efeitos oficiais, Nuno Dempster estreava-se então em livro, aos 65 anos, com uma obra em que reunia dez anos de criação poética distribuídos por sete divisões: Caminhos sobrepostos, Confluências, Osmose, Génese, Em cinza quente, Palimpsesto, Inventário. Um novíssimo poeta tardio, portanto, contra a lógica das urgências que pauta a nossa era. Confidenciava-me, a 15 de Novembro de 2021: «tudo a seu tempo vem quando é certo de vir.» E se os livros vieram, por assim dizer, tardiamente, o mesmo não sucedeu com a poesia, que desde cedo ocupou um jovem inicialmente entusiasmado com o surrealismo que escrevia poemas, dava-os a ler a um ou dois amigos e depois deitava-os fora.
   Aos 27, a escrita ter-se-á interrompido com o falhanço de um romance sobre a Guiné, tema a que regressaria tanto na secção Inventário, do volume intitulado Dispersão, como no longo e extraordinário poema K3 (&etc, Janeiro de 2011), do melhor que se escreveu em verso sobre a chamada Guerra Colonial. Vingou-se a interrupção posteriormente, com a retoma da escrita nos anos 90 e a construção de uma obra consistente dividia pela poesia, pelo conto e pelo romance.
   Antes de K3, publicou Nuno Dempster na &etc de Vítor Silva Tavares outro longo poema: Londres (Janeiro de 2010). E à mesma editora regressaria com Uma Paisagem na Web (Maio de 2013). Têm os três livros em comum o facto de serem poemas longos e exibirem nas capas pinturas de Maria João Lopes Fernandes. Sobre a sua poesia, prefiro citá-lo em discurso directo: «procuro escrever poesia de sentido claro, adoptando a ideia de Sena de que a poesia é para ser entendida, e evitando a poesia do eu ensimesmado, mesmo quando escrevo na primeira pessoa, aliás de acordo com o marxista que fui e sou desde que me fiz homem, com o cuidado de me afastar, na escrita, da classe operária do Neo-realismo, para a qual, neste desgraçado tempo, entrou e vai entrando boa parte da classe média servidora
   Há na sua obra, no entanto, um gosto pelos clássicos e um cuidado na forma de que os próprios títulos dão conta: Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo (Edições Sempre-em-Pé, Setembro de 2011), Elegias de cronos (Artefacto, Junho de 2012) ou, mais recentemente, Limbo, Inferno e Paraíso – Três Estados Apócrifos (Companhia das Ilhas, Março de 2022), livro que, só por si, muito nos obrigaria a reflectir sobre o diálogo com os clássicos, no caso o Dante da Divina Comédia, e o seu entendimento enquanto obras de um tempo concreto de que são testemunho da injustiça e do mal universal e intemporalmente perpetrados. Cem poemas, trinta e quatro no Limbo e trinta e três no Inferno e no Paraíso, o mesmo número de poemas que há de cantos por estado na Comédia
   Em prosa, publicou Nuno Dempster os livros O Papel de Prata, O Reflexo e Outros Contos pelo Meio (Companhia das Ilhas, Outubro de 2012), Seis Histórias Paralelas (Companhia das Ilhas, Setembro de 2023) e o romance Há rios que não desaguam a jusante (Companhia das Ilhas, Outubro de 2018), narrativa cuja acção se inicia em 1961 colocando no centro das atenções um tal coronel Pierre Latour, neto bastardo de Leopoldo II da Bélgica, herdeiro de uma fortuna que vai acrescentando à conta de trafulhices várias. Um romance exemplar sobre a maldade dos homens, ao qual ninguém ligou nenhuma neste país de génios plantados entre sete colinas.

OSSADAS

A seguir ao que se passou em Auschwitz
é coisa bárbara escrever um poema.
Theodor W. Adorno

As ossadas dos séculos
há muito se perderam.
A soma dos pequenos campos
dá um campo mais vasto
que as hordas de germânicos
nos compêndios da História.
Então já se matava em série
e nunca se parou.
Hoje a soma ultrapassa em muito
os mortos de Auschwitz,
o termo genocídio tornou-se banal
e também o ruído dos bulldozers
que enterram cadáveres.
Adorno equivocou-se por excesso.
A poesia convive com as trevas
e com o sol, escrita por revolta
ou ao espelho,
ou suspirando,
ou ideando um mundo
onde nunca se viram
os corcéis de João Evangelista.

Nuno Dempster, in Variações da Perda, Companhia das Ilhas, Junho de 2020, p. 73. Mais sobre Nuno Dempster: Na Luz Inclinada, Limbo, Inferno e Paraíso, um poema, Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Há rios que não desaguam a jusante, Anti-Elegia Para o Meu Final, Dispersão, outro poema.

sábado, 3 de janeiro de 2026

MAIS UMA NAÇÃO LIVRE

Depois de um documentário sobre Harvey Keitel, seguiu-se um filme com Adrien Brody. Foi ele a única razão para ficar acordado a ver um desfile de gente a ser assassinada como pinos a cair numa partida de bowling. Pela manhã, notícia do ataque à Venezuela. Maduro em lugar incerto. Ficção e realidade, qual delas mais improvável? Não foi preciso esperar, o discurso já estava montado e iria ocupar toda a comunicação social portuguesa. Sem excepção. Nas televisões ganhava forma a narrativa da luz de esperança para o povo oprimido que há tanto esperava pela libertação. Alguém citava Maquiavel, esse grande diplomata, lembrando que os fins justificam os meios. Infelizmente, não se explicava a ninguém nem sequer se discutia a natureza de "O Príncipe", muito menos o que verdadeiramente pretendia Maquiavel com as suas teses políticas numa Itália ocupada e dividida. No bairro, os ciganos entretinham-se com pirotecnia, bombas de Carnaval, explosivos aparentemente inofensivos. Enfim, antes isso que verem televisão.

EUA RAPTAM PRESIDENTE DA VENEZUELA

 
Depois de Gaza tudo será possível. O Direito Internacional não conta, a ONU não conta, o discurso político enredou-se numa teia de argumentos hipócritas de que dificilmente se libertará. Dois pesos, duas medidas, foi o filme a que assistimos com a invasão da Ucrânia pela Federação Russa e as intervenções de Israel na Palestina (Cisjordânia incluída), na Síria, no Líbano, num Irão ainda recentemente humilhado pelos EUA. Outra ingerência contra o inoperante Direito Internacional. Suportada pelo poder da força, a economia alimenta o poder da força. Não é diferente do que a humanidade conheceu na Idade Média, a despeito das armas serem outras. Isto não vai levar a nada de bom. Antes pelo contrário. Uma coisa é certa: numa UE morta estamos protegidos, nós, portugueses, pela nulidade que somos, desde que os amigos israelitas e americanos continuem a poder servir-se das nossas traseiras. Valho-nos termos cu. Tivéssemos tomates, estávamos feitos. Assim como assim poderemos continuar a dizer que a culpa é dos comunistas e dos ciganos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

DESCONCERTO

 
Primeira leitura do ano: Measure for Measure, de William Shakespeare (1564-1616), Dente por Dente na tradução de Luiz Francisco Rebello. Mistress Overdone, gerente de bordel, podia ser a patroa de Chen-Té e de Yvette Pottier, duas prostitutas no teatro de Brecht. Aproveito para engendrar associações com Mandrágora, de Maquiavel (1469-1527), ou mesmo George Dandin ou le Mari confondu, de Molière (1622-1673). As palavras astúcia, ardil, argúcia são comuns. E faço inventários:
 
- Hamlet (1599?), Dinamarca, o filho a quem o pai aparece sob a forma de fantasma, vingança, loucura, Ofélia, amante do príncipe, suicida-se.
- A Tragédia de Otelo, Mouro de Veneza, Veneza, Chipre, inveja e manipulação, Iago, o mau da fita, racismo, Desdémona vilipendiada, acusada de trair Otelo, morta pelo marido enganado.
- Measure for Measure (1603?), Viena, a hipocrisia dos moralistas, corrupção da justiça, o desconcerto do mundo. Isabel, freira a quem é sugerido vender o corpo para salvar o irmão da decapitação.
- A tragédia do Rei Lear (1605?), Bretanha pré-romana, o poder dividido pelas filhas, cegueira e loucura
- A Tragédia de Macbeth (1606?), Escócia, a ambição que leva à loucura e à paranóia, a manipuladora Lady Macbeth, a sonâmbula, sentimento de culpa, loucura. Cordélia, deserdada por dizer a verdade. Conspiração. O pai arrependido, a execução da verdade e da bondade.
 
E fiquemos por aqui, entre as balizas do mundo desconcertado e da loucura humana muito há a jogar. As regras mudam, mas o jogo mantém-se inalterado ao longo dos séculos.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

RECEBER A MORTE COM UM DIRECTO

 
Momentos antes da tragédia, alguns jovens filmaram de smartphone erguido as chamas a alastrar e o incêndio a tomar forma. Davam pulos de alegria, depois o fumo e o fogo consumiu-os. O primeiro círculo do Inferno, caro Dante, está na Terra. Por exemplo, no interior de um bar suíço.

MISSÃO IMPOSSÍVEL

Almoço no Borges. Sobre a mesa, uma travessa de tempo. Os tentáculos da falta de tempo para cumprir promessas, levar a cabo projectos, concretizar planos que deixámos de fazer para não ter de lidar com frustrações. Chegado a casa, divido-me entre o quarto, deitado na cama a ver reels, e a sala, deitado no sofá a ver mais um episódio da saga Missão Impossível. Fosse este tempo aplicado nos projectos, nas promessas, nos planos, levaríamos por certo à mesa as espinhas da preguiça, a falta que nos faz não fazermos nada, o tempo que dispensamos à indolência, a uma certa lazeira que nos protege da fatídica saturação com que ainda colhemos o mundo dentro de nós.