
Quem fala no Teatro Impossível de
Álvaro García de Zúñiga (1958-2014)? O texto do espectáculo apresentado em 1998
no ACARTE – Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte da Fundação Calouste Gulbenkian é,
segundo nota introdutória, um composto com origem em sete peças curtas escritas
entre 1987 e 1998. São elas Logue, Scène Vide, Scène de chasse déraisonablement
obscure, Scène de chasse, Pour des obscures raison, Encore e Machin du Logue.
Nascido em Montevideu, no Uruguai, o autor expressa-se em francês, língua
adoptada. O facto biográfico tem interesse, na medida em que a linguagem, na
sua estreita relação com o pensamento, é um eixo central da obra, mas
também porque, a dado momento, na primeira de sete cenas numeradas sequencialmente,
o sujeito dramático, chamemos-lhe assim para evitar a designação clássica de
personagem, alude a uma condição de «desmembrado, despatriado, despovoado, desapossado».
O início do texto remete para uma tentativa de construção autobiográfica: «Epá,
nasci excessivamente novo! O que quer dizer que no momento do meu nascimento
não tinha sequer um dia de vida.» Este trabalho de reconstituição biográfica parece
ser o ponto de partida da voz que fala. Mas quem é ou o que é essa voz? Para
haver Teatro, como sabemos, precisamos de alguém que fale e de alguém que
escute, além de um espaço onde a relação entre um e outro possa materializar-se.
A impossibilidade do teatro parece estar associada, neste caso, a um Eu que se
questiona de e para si mesmo, sem ter em vista um outro que o escute, a
despeito da curtíssima fala final que se dirige a um auditório pressuposto no
uso do pronome pessoal “vocês”. Na linha de Beckett, apontado «à la fin de la
partie», o texto é desenvolvido como um jogo pautado por repetições, aliterações,
conjugações fonéticas, associações imagéticas, oxímoros, paradoxos, neologismos,
aglutinações, invenções de palavras, mas com a sua lógica interna indissociável
de um pensamento em acção. A acção do pensamento é a busca de sentido, restando
saber se a ele é possível chegar sem recorrer aos sentidos. Na verdade, o
Teatro Impossível é puro pensamento em acção através da linguagem, das
potencialidades da língua enquanto espaço lúdico no qual o pensamento se
exercita: «A personagem que fui, veio-me parar à pele das mãos da minha língua,
através do livro “Erva Roída”, a seguir ao que me ofereci (certamente
acreditando que viria a ter uma consciência profissional, sinal estigmatizando
a minha evidente juventude), um pequeno livro com o título em português “Muito
Obrigado”.» Assim é na tradução de Dóris Graça Dias, mas não exactamente na
língua de partida. Nesta, há brincadeiras, conexões fonéticas, lexicais,
gráficas, que se perdem na língua de chegada. Exemplo: em francês, o resultado de
«Je me le répétais, même sans le, même sans me, sans re et sans s» não é o
mesmo que obteremos com «Repetia-o a mim mesmo, mesmo sem o, mesmo sem mim, e sem
s.» O sentido de humor de Zúñiga sofre alterações com o processo de transformação da
língua, o que levanta um problema de descaracterização do texto que a espaços
se verifica. Ainda assim, há na própria construção textual uma mise-en-scène do
pensamento através da palavra que resulta altamente estimulante, nomeadamente quando
se inventariam questões cuja «Resposta: Está fora de questão responder.» Aspecto
curioso é este de o pensamento, através da linguagem, tender para o silêncio, de
o ser tender para o nada, de o sentido nos deslocar para um vazio que sugere um
movimento com resultados surpreendentes:
«Comecei a continuar, iria continuar a extrair tudo, a extrair-me todo, a pôr
tudo isto a andar à volta do quadrado.» Este movimento de andar à volta do
quadrado é, pois, o do Eu que busca entender-se, compreender-se, construir-se,
determinar-se no interior de um pensamento de que está cativo. O Eu é recluso
do pensamento. Como libertá-lo? Julgaríamos que o Teatro pudesse ajudar-nos
nessa fuga construindo personagens que, de algum modo, fossem uma espécie de
ponto de fuga do Eu, mas também nesses casos o tirânico, ditatorial e despótico
Eu se projecta. Haverá modo de o destruir, de o exceder, de o transcender? No
Teatro Impossível «Os sons são a essência do sentido mesmo que ele seja
insensato. A essência mente essencialmente.» Curiosa referência ao sentido
auditivo num autor que começou, precisamente, pela música e se reflecte
eminentemente rítmico naquilo que escreve. Morrer, também nesse sentido em que
escrever é matar-se, dessuicidar-me ressuscitando, também nesse sentido em que
vibramos no momento de criação, talvez possam ser um ponto de saída. Para quê? Para onde? Para um fora que é dentro, para uma entrada de onde se sai entrando. E disto não saímos. Merda.