domingo, 27 de fevereiro de 2011

LAGOA DE ÓBIDOS

Estou demasiado colado às imagens de Herta Müller para que as palavras me façam justiça. Finto as imagens com outras imagens, concretas, irreproduzíveis mesmo em opção panorâmica. Por dentro, as imagens boiam sobre o sangue como os patos bravos sobre as águas escuras da lagoa. Há pescadores nas margens que dão banho aos iscos. Trazem os cães, enrolam cigarros, bebem umas cervejas com o tempo a pôr-se em lugar expectável. As filhas aprendem a saltar à corda, eu faço a digestão ao polvo deitado em batata-doce com salada de beringela.

Arrumei as canas que não tenho no armário das intenções adiadas, mesmo ao lado de uma cabeça que me dói e de um coração ferido pelo orgulho. Uma antiga namorada, coisa de 20 anos, (re)descobre-me e sugere conversa. Na última vez que me lembro de a ter visto olhou para o lado. Foi há tanto que já nem me lembrava. Agora tenho ali o caminho à minha espera, vai dar à foz. Mesmo voltando para trás, com o livro da Herta Müller debaixo do braço, é para a frente que olho. Um dia, podes ter a certeza, hei-de aprender a ser feliz.

REALPOLITIK

Camarada Van Zeller, o amigo Khadafi anda metido em maus lençóis. Vai daí, assiste-se em Portugal a uma acentuada precipitação de fotografias do líbio ao lado de puros sangue lusitanos. Sem que nos seja perceptível quem monta quem nos apertos de mão da chamada realpolitik, ficámos curiosos. A quem não terá Khadafi apertado a mão nestes anos todos de poder? A Mandela? A Chávez? A Lula? A Obama? A Sarkozy? A Putin? A Berlusconi? A Castro? A Blair? É ir às imagens do google e tentar a má sorte. Facilmente se verificará que um camelo nunca está só.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A CIDADE LONGÍNQUA

Também com tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, A Cidade Longínqua é a segunda aposta da Ovni num poeta catalão. A primeira foi em Casa da Misericórdia, de Joan Margarit. Màrius Torres (1910-1942) nasceu em Lleida. O pai era médico de profissão, embora tenha ocupado diversos cargos políticos. A mãe, professora, faleceu em Março de 1928, quando o poeta era ainda um jovem. Màrius seguiu as pegadas do pai e acabou por se formar em medicina. Realizado o doutoramento em Madrid, regressou a Lleida e contraiu tuberculose. Internado no sanatório de Puig d’Olena, resolveu então ocupar parte do tempo que lhe restava a escrever poemas. Deixou-nos uma obra breve, intensa, que apenas veria a luz do dia 5 anos passados sobre a sua morte. No prólogo, os tradutores desta antologia delimitam os «eixos que percorrem o conjunto da sua obra: a morte, a guerra, o amor, a música e a espiritualidade». Tendo os poemas nascido num ambiente fatídico, não é de admirar que aparentem frequentemente uma consciência lúgubre da vida: «Tenho preguiça de ainda viver amanhã… / Mais do que a dor sofrida, magoa-me / a dor que se prepara, a dor que me espera…» (p. 27). A morte acaba por ser o tema essencial, aqui e acolá adiado por delicadas evocações de Händell, Mozart, Corelli, Schumann e Couperin. A música surge então como uma arte à qual se ligam as palavras. Metáfora da própria existência, ela acompanha os derradeiros gestos como banda sonora de um peito carregado de angústias e incerteza, mas também como motivo de reflexão e auto-exame: «Sou tantas vezes como uma corda bamba e vencida / que vibra mal! / Com um ritmo pesado, embaraçoso e lento, / átona, corrompida, / corda desafinada, a minha alma mente. / Quantas vezes a quis muda / para não ouvir a música falsa do seu tom!» (p. 31). Vários poetas são citados: Milton, Baudelaire, Blake, Musset, Pascoaes, Joan Sales. E é nestes diálogos que, muitas vezes, os poemas de Màrius Torres realizam uma autópsia das debilidades humanas. Veja-se, a título de exemplo, este soneto que tem por mote um verso de Alfred de Musset:


Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Não tens vergonha da tua fraqueza?
A glória, o amor, a pândega, o ouro,
não saberão tentar a tua preguiça?

Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Odeia, fere, embriaga-te, beija,
bate mais forte, grande cobarde, ou morre
para sempre de desgosto e tristeza.

Ou talvez já estejas morto, tu, que nem sabes o que vale
o canto de um alaúde, o estouro de um punhal,
uma clara noite, uma rosa terna?

E o meu pobre coração, o meu coração disse-me:
─ Para quê dar mais cinzas ao esquecimento?
E, velho, sorriu-me, sem perceber nada
.

Portanto, o que eventualmente pudesse existir de lírico, romântico ou mesmo simbólico nestes poemas é adulterado por uma reflexividade implacável acerca das determinações a que a existência de um ser humano se vê reduzida nos limites da vida. Mesmo quando se aventuram pelos caminhos do amor, como acontece nas magníficas Canções a Mahalta, dedicados a Mercé Figueres, a companhia mais presente na vida de Màrius Torres durante a estadia no sanatório de Puig d’Olena, os versos revelam uma espiritualidade ambígua, nublada, como uma espécie de pressentimento do olvido a que está condenada toda e qualquer existência. Entre outros, sobressai mais este soneto, forma a que o poeta recorreu frequentemente com inegável mestria:

PRESENÇA

Como se as tuas mãos sobre os meus olhos ainda
pudessem, como antes, deter-se com amor,
gosto de fechar os olhos quando penso em ti. Sonora,
a tua lembrança move-se na penumbra clara…

Volto a ouvir os teus passos lá longe, na luz.
Meço, em tom e ritmo, a distância.
Agora, deténs-te perto. Aspiro, rosa rançosa,
uma rajada ardente do teu antigo perfume!

As lembranças, os sentidos, toda a minha vida,
calam-se perante a angústia vigilante do ouvido
que te persegue no silêncio onde te recolhes.

Se agora esticasse os braços na escuridão, ainda
poderia amparar-te, sonho de cada dia.
Mas já não estarás aqui quando eu voltar a abrir os olhos
.

O que nos remete para uma invocação da mãe perdida termina em reflexão sobre a natureza do estar. Esta presença ausente, aplicável a várias circunstâncias e materialmente indefinível, é a matéria da própria memória, assim como, ao fim e ao cabo, o alimento do esquecimento a que todos estão irremediavelmente destinados. A espiritualidade que emana desta poesia tem a tristeza e o encanto do condenado, sugere uma ambivalência que ora pende para uma esperança repleta de dúvidas, ora se inclina para a saudade do nunca vivido: «Gosto tanto da minha saudade, / que, se ao país que choro, / um anjo me quisesse guiar repentinamente, / diria ao anjo: espera, espera um momento, / agora não posso ir, não vês que estou a morrer?» (p. 147) Eventuais ecos de Pascoaes com a saudade pronunciada em catalão: enyorament (um enamoramento melancólico?).
O Huidobro disse: é preciso mudar o céu de lugar.
A Beatriz retorquiu: este chão está estragado.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

UMA METÁFORA



Por outro lado, há uma metáfora curiosa no filme. O início da trama dá-se com uma descoberta macabra, um coração humano a entupir uma sanita. No final, Okwe e Senay despedem-se dizendo um ao outro, em silêncio e à distância, que se amam. É como se tivessem recuperado os corações que lhes haviam transplantado. De um modo metafórico, claro está, mas muito realista.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

ESTRANHOS DE PASSAGEM


Dirty Pretty Things tem um problema que é fatal em muitos filmes, a superficialidade com que uma grande dispersão de temas complexos se cruzam sem que daí possa retirar-se algo de verdadeiramente perturbador. Imigração ilegal, tráfico de órgãos humanos, conflitos inter-raciais, exploração de trabalho clandestino são assuntos demasiado pesados para um objecto tão frágil como o filme de Stephen Frears. Longe da comovente sobriedade de The Van, este filme apenas ganha algum interesse quando a relação entre os protagonistas, uma imigrante turca interpretada pela francesa Audrey Tautou e um imigrante nigeriano, se revela inviável não por culpa das contingências sócio-culturais das personagens mas pelo passado que persegue uma delas. Se o filme aponta constantemente para um futuro onírico dificilmente concretizável, a realidade mostra-se muito mais dura quando o presente se vê barrado pela inexorabilidade do passado. No final resta a imagem de uma Londres degradante e inóspita.

TESÃO DE MIJO AO CUBO

1. Os entusiastas das revoluções no mundo árabe fartam-se de fazer comparações com Portugal. Nos blogues. Nas ruas não os vejo.



2. Isto há-de chegar cá, dizem-me. Penso logo em Teixeira de Pascoaes e no nosso eterno sebastianismo. Sucede que D. Sebastião não há e Passos Coelho é mais do mesmo.


3. Acabei de ouvir um cidadão anónimo afirmar que começa a acontecer por cá o que vai acontecendo pelo mundo árabe. E deu como exemplo os confrontos de ontem entre uma claque de futebol e a polícia. Portanto, podem os historiadores registar os factos: a revolução começou no Alvalade XXI e os revolucionários são um bando de energúmenos vestidos de verde e armados com cadeiras que desconfiam que o Bahrein seja um avançado turco, o Iémen a moeda marroquina e a Líbia um bairro em Chelas.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

PAIXÃO E MORTE

Senhor, hoje é o aniversário da tua morte.
Há mil novecentos e vinte e seis anos estavas tu numa cruz
Sobre uma colina repleta de gente.
Entre o céu e a terra os teus olhos eram toda a luz.
Gota a gota sangraste sobre a história.
Desde então um rubro regato atravessa os séculos regando a nossa memória.

As horas passaram diante da ombreira extra-humana.
O tempo ficou cravado com os teus pés e as tuas mãos.

Aqueles martelos ainda ressoam,
Como se alguém batesse às portas da vida.

Senhor, perdoa-me se te falo numa língua profana,
Mas de outro modo não poderia falar-te pois sou essencialmente pagão.

Se por acaso fores Deus, venho a pedir-te uma coisa
Em versos rimados com cansaços de prosa.

Há no mundo uma mulher, quiçá a mais triste, sem dúvida a mais bela,
Protege-a, Senhor, sem vacilar; é ela.

E se realmente fores Deus e puderes mais que o meu amor,
Ajuda-me a guardá-la de todos os perigos, Senhor.

Senhor, estou a ver-te com os braços abertos.
Quiseras abraçar todos os homens e todo o universo.

Senhor, quando dobraste a tua cabeça sobre a eternidade
As pessoas não sabiam se era dos teus olhos que brotava a obscuridade.

As estrelas desapareceram uma a uma em silêncio
E a lua não tinha como esconder-se atrás dos outeiros

Rasgaram-se as cortinas do céu
Quando a voar tua alma passou

E eu sei o que então se viu; não foi uma estrela,
Senhor; foi a cara mais bela,
A mesma que agora mesmo verias
Se rasgasses a carne do meu peito.

Como tu, Senhor, tenho os braços abertos esperando por ela.
Assim lho prometi e me cansam tantos séculos de espera.

Caem-me os braços sobre a terra como crucifixos partidos.
Não poderias, Senhor, adiantar a hora?

Senhor, na noite do teu céu passou um meteorito
Levando um seu voto e o seu olhar até ao fundo do infinito.
Até ao fim dos séculos continuará rodando nosso anseio ali escrito.

Senhor, agora estou doente de verdade
Uma insuportável angústia mastiga-me o peito.
E esse meteorito assinala-me o caminho.
As nossas vidas amarrou num só destino.
Entrelaçou-nos a alma melhor que uma qualquer aliança.

Senhor, ela é débil e ténue como um ramo de soluços.
Olhá-la é uma vertigem de estrelas no fundo de um poço.

Os rouxinóis do delírio cantavam nos seus beijos,
Enchia-se de febre o tubo dos ossos.

Alguém plantou na sua alma vis ervas de dúvida e já não crê em mim.
Prova-me que és Deus e no máximo em três dias leva-me daqui.

Quero evadir-me de mim mesmo.
O meu espírito está cego e rodopia entre planetas cheios de cataclismos.

Também a minha vida sangra sobre a neve,
Como um lobo ferido que faz a noite tremer cada vez que se move.

Estou crucificado sobre todos os morros.
Uma coroa de espinhos crava-me o coração.

As lanças dos seus olhos ferem-me as costelas
E um ribeiro de sangue sobre o silêncio dir-te-á que passei.

Faz agora uns quantos meses, Senhor, abandonei a minha velha Paris,
Um estranho destino trazia-me a sofrer no meu país.

Faz frio, faz frio. O vento empurra o frio sobre os nossos caminhos
E os astros enrolam a noite girando como moinhos.

Senhor, pensa nos pobres imigrantes que vieram até à América de ouro
E encontraram um sepulcro em vez de caixas de tesouros.

Eles impregnam as ondas com o ritmo dos seus cantares.
A tempestade das suas almas é mais horrível que a de todos os mares.

Vê como choram pelos seres que não mais verão;
Gritam-lhes na noite todas as coisas que para trás deixaram.

Senhor, pensa nas pobrezitas que sofrem ao humilhar a carne,
As novas Madalenas que hoje choram a dor da tua madre.

Agachadas ao fundo da angústia da sua absurda Babel,
Bebem lentamente grandes copos de fel.

Senhor, pensa nas espirais dos naufrágios anónimos,
Nos sonhos truncados que se quebram em pedaços de asteróide.

Pensa nos cegos com as pálpebras cheias de música, choram pelos olhos do seu violino.
Eles esfregam os seus arcos sobre a vida numa amargura sem fim.

Senhor, vi-te sangrando nos vitrais de Chartres
Como mil borboletas que fazem os sonhos partir.

Senhor, em Veneza vi o teu roso bizantino
Num dia em que o ar se rompia de beijos e vinho.

As gôndolas passavam cantando como ninhos
Entre ramos de ondas, levando o nosso sorriso até ao Lido.

E tu ficavas sozinho em São Marcos, aspirando as selvas de orações
Que crescem a teus pés em todas as estações.

Senhor, vi-te num ícone, obra de um monge sérvio que ao pintar os teus espinhos
Sentia a alma repleta de andorinhas.

Que significas tu na história do mundo?
Há ano e meio discuti este tema num café de Moscovo.

Um sábio russo não te dava grande importância.
Eu dizia ter acreditado em ti durante a infância.

Uma bailarina célebre pela sua beleza
Dizia que tu és somente um conto de tristeza.

Todos te negaram e não consta que um galo tenha cantado.
Talvez Pedro, escutando-nos, tenha chorado.

E ao fundo de uma velha Bíblia o teu sermão da montanha
Continuava ressoando de uma maneira estranha.

Senhor, também eu tenho uma vida dolorosa, minhas recaídas e minha paixão;
Saltando meridianos como um tigre ferido, sangra e uiva o meu coração.

Reina o amor em todas as suas esplêndidas catástrofes internas,
Mil rubis trovejam no fundo do cérebro
E as plantas do desejo bordam o ar destas noites eternas.

Poeta, poeta escravo de aventuras e de algum sortilégio,
Como tu suporto a vida, o maior sacrilégio.

Senhor, a única coisa que vale na vida é a paixão.
Vivemos para um ou outro momento de exaltação.

Abre-se a meus pés um precipício de suspiros; detenho-me e vacilo.
Logo como um sonâmbulo atravesso o mundo em equilíbrio.

Senhor, que te importa o que digam os homens. Ao fundo da história
És um crepúsculo pregado a um madeiro de dor e de glória.

E o regato de sangue que brotou das tuas costelas
Ainda, Senhor, não foi estancado.


Vicente Huidobro, poema publicado originalmente na primeira página de La Nación (Santiago de Chile, 2 de Abril de 1926). Versão caseira do HMBF.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

BIBLIOTECA PÚBLICA DE LA CIENEGA


Descobri a Biblioteca Pública de La Cienega. Arranjei um cartão. A biblioteca ficava perto da velha igreja da West Adams. Era uma biblioteca muito pequena e só tinha uma bibliotecária. Ela tinha estilo. Tinha perto de 38 anos mas com um cabelo do mais puro branco puxado para trás e preso num totó. O nariz era esguio, tinha olhos verdes profundos e usava óculos sem aros. Parecia que conhecia tudo.
Andei pela biblioteca à procura de livros. Tirei-os das estantes, um a um. Mas eram equívocos. Eram muito aborrecidos. Havia páginas e páginas que não diziam rigorosamente nada. Ou se diziam alguma coisa demoravam muito tempo a dizê-lo e quando o diziam já estava cansado para que importassem alguma coisa. Experimentei um e outro livro. Certamente que, de todos aqueles livros, tinha de existir
um.
Todos os dias eu ia até à biblioteca na Adams com a La Brea e lá estava a minha bibliotecária, inflexível e infalível e silenciosa. Continuava a tirar livros das estantes. O primeiro livro de jeito que encontrei foi de alguém chamado Upton Sinclair. As frases eram simples e falava com raiva. Ele escrevia com raiva. Escreveu sobre os matadouros de Chicago. Dizia as coisas de forma clara e sem artimanhas. Depois encontrei outro autor. Chamava-se Sinclair Lewis. E o livro chamava-se
Main Street. Ele desmontava a hipocrisia inerente às pessoas. Mas faltava-lhe paixão.
Voltei lá para buscar mais. Lia cada livro numa só noite.
Um dia andava por lá à procura, e a espreitar a minha bibliotecária, quando encontrei um livro com o título
Bow Down To Wood and Stone. Bem, aquilo é que era bom, porque era isso que andávamos todos a fazer. Finalmente, algo de jeito! Abri o livro. Era de Josephine Lawrence. Uma mulher. Não havia problema. Aprende-se com toda a gente. Abri o livro. Mas era como muitos outros: pastoso, obscuro, cansativo. Voltei a colocá-lo na estante. E enquanto a minha mão por lá andava agarrei num livro que estava perto. Era de um outro Lawrence. Abri o livro e comecei a ler. Era sobre um homem que tocava piano. Ao início parecia pretensioso. Mas continuei a ler. O homem que tocava piano tinha problemas. A sua mente dizia coisas. Coisas obscuras e curiosas. Cada linha do livro era firme, como um homem a gritar, mas não gritava «Joe, onde estás?» Era mais Joe, onde está tudo? Este Lawrence era certeiro. Nunca tinha ouvido falar dele. Porquê? Por que razão não era publicitado?
Li um livro por dia. Li todos os livros de D.H. Lawrence que havia na biblioteca. A minha bibliotecária começou a olhar para mim de uma maneira estranha enquanto eu registava os livros.
«Como estás hoje?» perguntava.
Soava sempre bem. Parecia que já tinha ido para a cama com ela. Li todos os livros de D.H. A eles seguiram-se outros. Seguiram-se H.D., a poetisa. E Huxley, o mais novo dos Huxleys, amigo de Lawrence. Vieram todos ter comigo. Um livro deu lugar a outro. Dos Passos também apareceu. Não era muito bom, mas era suficientemente bom. A sua trilogia sobre os Estados Unidos demorou mais do que um dia para ler. Dreiser não me encheu as medidas. O Sherwood Anderson, sim. E depois apareceu Hemingway. Que maravilha! Esse sim sabia como escrever uma frase. Era uma alegria. As palavras não aborreciam, punham-me a cabeça a latejar. Se o lêssemos e nos deixássemos levar pela magia, conseguiríamos viver sem dor, com esperança, acontecesse o que acontecesse.


Charles Bukowski, in Ham on Rye – Pão com Fiambre, trad. manuel a. domingos, Ulisseia, Setembro de 2010, pp. 187-189.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

HAM ON RYE

O ano que passou foi especialmente agradável para os bukowskianos. Em Abril a Antígona publicou Correios, o primeiro romance de Charles Bukowski (1920-1994), originalmente editado em 1971, com tradução de Rui Lopes e prefácio de Gerald Locklin. Em Setembro, a renovada Ulisseia lançou, com tradução de manuel a. domigos, aquele que é considerado por muitos o melhor romance do velho Buk: Ham on Rye (1982), título de tradução impraticável que a versão portuguesa acolheu num mais literal, mas porventura menos feliz, Pão com Fiambre. (Abra-se, desde já, o parêntesis: não deixa de ser irónico que uma escrita tão literal comece logo por criar problemas no título de um livro.) Se tivermos em conta que, até à data, apenas havíamos merecido em língua portuguesa um dos romances do autor, mais concretamente Mulheres (1978), vertido para português por Fernando Luís sob selo da Dom Quixote, é de saudar esta inflação de romances bukowskianos nas prateleiras das livrarias portuguesas. Apesar do eco cibernético que estas edições mereceram, a imprensa oficial, que está para os livros como o jornal A Bola para os jogos do Benfica, não fez grande caso. Salvo raríssimas excepções, uma nota de rodapé aqui, outra acolá, foi tudo o que pudemos ler de apontamento crítico sobre a primeira edição portuguesa de Ham on Rye.

Matemos, desde já, o assunto da tradução: podia estar melhor se tivesse sido acompanhada de uma revisão digna desse nome. Deixando de lado as cada vez mais frequentes e irritantes gralhas das traduções portuguesas, há opções que deixam muito a desejar. Por exemplo, a proliferação de pronomes pessoais em frases ou parágrafos que os não justificam. Sabemos que em língua inglesa eles estão lá, mas no português podem ficar implícitos tornando a escrita mais natural e libertando a leitura de solavancos desnecessários: «Ela usava uma elaborada peruca branca. Ela dava-nos reguadas frequentemente quando pensava que estávamos a ser desobedientes. Acho que ela nunca ia à casa de banho» (p. 31). Noutras ocasiões a tradução de expressões coloquiais coloca problemas de repetição igualmente evitáveis: «Era mais ou menos um ano mais velho do que eu e não era da minha escola» (p. 54). E há situações que configuram desatenções gramaticais ou de concordância que dificultam a percepção das frases: «Conseguia-o ver deitado no passeio…» (p. 250), «O vosso salário é de quarta e quatro cêntimos e meio à hora» (p. 259), «Bem, um ou dois tinham funcionado – para mim – mas pareciam que tinham sido guiados em vez de fazerem o caminho sozinhos» (p. 289).

A literalidade da escrita de Bukowski merece uma atenção redobrada. A sua prosa, tal como os seus poemas, minam-nos consecutivamente o terreno. Há uma tendência para o lermos com a pressa que o próprio ritmo da narrativa nos imprime, mas essa tendência corre o risco de resvalar para uma superficialidade que nada tem que ver com o carácter essencial do que está escrito. É muito frequente, por exemplo, vermos os livros de Charles Bukowski reduzidos a meros retratos de uma vida decadente perdida num turbilhão de aventuras com mulheres, pancadaria, álcool, jogos de azar e trafulhices várias. Em Ham on Rye, o romance que recupera os tempos de juventude do alter-ego Henry Chinaski, todo esse ambiente está afundado debaixo da opressão social característica da Grande Depressão. Deus, pátria e família, à moda americana, com esta última sentada em torno de uma mesa onde a palavra frustração adquire o peso das expectativas defraudadas e das ambições esmorecidas: «Então, é isso que eles querem: mentiras. Mentiras bonitas. É disso que precisam. As pessoas eram ridículas» (p. 101). Encontramos ao longo do romance as raízes de uma solidão enraivecida que afluiu no sentido da indiferença e da desistência social, por se tornar insuportável uma convivência com a mentira e se ansiar pela genuinidade das coisas.

Não é de estranhar que Charles Bukowski tenha ocupado tantas páginas com as ilusões da família ─ «Vínhamos todos de famílias vítimas da Depressão, estávamos mal alimentados, mas mesmo assim tínhamos crescido e ficado fortes. Penso que a maioria era pouco acarinhada pela família, mas também não pedíamos carinho ou mimo a ninguém. Éramos uma anedota mas as pessoas pensavam duas vezes antes de se rirem de nós» (p. 112) ─ e a inutilidade da instituição escolar. O que aqui se revela é uma emergência para a ruptura com essas instituições, ao mesmo tempo que se afirma um repúdio para com as vidas entediantes da maioria e a mais completa incompetência para a adaptação social. Quando olha para si próprio, aquilo que o jovem Chinaski vê oscila entre uma necessidade de afirmação e a mais brutal das constatações. Nesta prosa, «as tripas cheias de merda», a acne, a hilaridade com que as situações mais abjectas nos são relatadas, não busca a mínima complacência humorística do leitor, são provas factuais da debilidade essencial dos homens. Daí que a grande surpresa seja um «gajo tão grande a chorar», porque nesse gesto de deixar as lágrimas romperem os músculos está a essência da humanidade. É nestes aspectos a seu modo ontológicos que a prosa de Charles Bukowski adquire a dimensão dos grandes, os mesmos que ele ia procurar na Biblioteca e aos quais se agarrou como um náufrago agarrando-se a uma tábua de madeira. O sexo, o álcool, a literatura são os bálsamos hedonistas que afastam do desistente a ideia do suicídio, transformando-o, pois claro, num resistente.
Escrito para o Rascunho.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

ANOTHER YEAR



Se me fizessem a mais estúpida das perguntas, ou seja, sobre o que trata o último filme de Mike Leigh, eu diria que é sobre a arte de saber envelhecer, um pouco como o vinho que aparece recorrentemente ao longo da fita. Mike Leigh é, na actualidade, o único cineasta que não me obriga a hesitar perante três salas com três filmes promissores. Foi chegar, ver e sair satisfeito. Another Year retoma-o no seu melhor, depois de um comovente Vera Drake, de um irritante Topsy-Turvy, de um suportável Career Girls, de um genial Secrets & Lies e de uma coisa do outro mundo chamada Naked. O que há de tramado num filme como Another Year é deixar-nos a pensar sobre a nossa própria vida enquanto não nos abandonam os planos das personagens colocadas a olhar para o vazio. O vazio para onde olham as personagens, na sua angustiante solidão, no seu terrível abandono, é o mesmo com que nos deparamos sempre que contemplamos um calendário e nos interrogamos sobre o que fazemos no mundo. Uma narrativa aparentemente simples, dividida em capítulos que obedecem à sequência das estações (nada de novo), mostra-nos a felicidade de um casal na sua quotidiana e admirável banalidade. Há algo de especial neste casal: a paciência, a compaixão, a disponibilidade para a família e para os amigos. A questão da disponibilidade é tão importante quão evidente se torna o desespero da mais neurótica das personagens, uma amiga de Tom e Gerri, o casal no centro da trama, mulher maltratada por relações amorosas falidas. Para esta criatura, ter com quem falar não é tão importante como encontrar quem deseje confessar-se-lhe. O seu anseio não é por um ouvido, é por uma boca que dê sentido aos seus ouvidos. Ela quer ser a confidente de alguém e é nessa falta que a sua solidão se afirma. No fundo, o drama encenado ao longo do filme é precisamente o drama daqueles cuja maior necessidade é sentirem-se, digamos assim, úteis, importantes para alguém, desejados. Claro está que em nenhuma circunstância as estruturas depressivas dos intervenientes ameaçam o equilíbrio da história. São raros os filmes que não contando história alguma nos contam a vida toda, este é um deles. E fá-lo com um sentido irrepreensível do ponto de vista da encenação, colocando no tempo certo cada uma das intervenções, fazendo das imagens os frutos, os legumes colhidos no horto metafórico que vai acompanhando o passar das estações. O cuidado colocado na horta amanhada ao longo de várias cenas assemelha-se ao cuidado que a família central da narrativa, o pilar sustentador do desaire, coloca nos seus relacionamentos. Um cuidado que se espera ser o essencial da vida mas que, por esta e por aquela razões, termina quase sempre, na imensa maioria das vidas deste mundo, negligenciado em função de afazeres supostamente mais urgentes.

CADA QUAL SABE DE SI

Camarada Van Zeller, há muito que o não vejo. Eu próprio tenho andado arredado, mas, confesso-lhe, não menos atento. O trabalho atira-nos para dentro de um caixa, a gente contorce-se no exíguo espaço, estende os músculos a ver se rasga o cartão e, aqui e acolá, consegue espreitar o mundo por uma brecha.
Vou assistindo à revolução no Egipto sem esperança. É de feitio. A um crápula outro crápula se seguirá, a história no-lo ensina. Mas por vezes fazemos orelhas moucas, fingimos que não sabemos, assobiamos para o lado e cedemos o truque. Gosto disso.
Deu-se conta da velhota inglesa que afugentou os meliantes com uma mala de tiracolo? Aquilo sim, é uma verdadeira revolução. Uma revolução de segundo e meio, à luz do dia, em plena esquina. Vieram-me à memória as aventuras do Duarte e da sua companhia, vieram-me aos olhos lágrimas de comoção. Gostava de ser novo com aquela velhice.
Também não compreendo a consternação perante a morte solitária da idosa de Rinchoa. Por mim, santa morte. Ninguém deu por nada. Nove anos passaram e foi como se não existisse. Maravilha. Às vezes gostava de viver como a velha morreu. E espero que a morte me leve deste insuportável mundo onde até para morrer se anseiam dois ou três holofotes de coroas de flores e filas de trânsito.
Que mais lhe posso eu dizer? Grande debate em torno de uma vulgar canção. Já não me lembrava de tal coisa desde Talvez Foder, o que até me parece bem mas não auspicia nada de sadio. Deolinda, como tantos outros projectos que resolveram levar ao altar José Afonso e Hermínia Silva na Igreja da Madredeus ao som da chanson française, não me aquecem e, por vezes, até me arrefecem. A minha música é outra.
Olhe, deixo-lhe um cheirinho: aqui e acolá, que isto de andar a estudar para ser escravo nunca há-de ser tão, digamos assim, comovente como ter sido génio para andar a vadiar. É só ver.
Saúde,

sábado, 5 de fevereiro de 2011

NÃO PENSES LÁ COISAS

Pai: Gostas de mim?
Beatriz, 4 anos: Gosto.
Pai: Dás-me um beijo.
Beatriz: Dou. A miúdos lá da minha escola com barba não dou.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

EMPAREDADA

Natural de Aveiro, onde nasceu em 1979, Joana Serrado publicou o primeiro livro em 2006. Tratado de Botânica (Quasi Edições) merecera uma menção honrosa no Prémio de Poesia Daniel Faria. Livro complexo, denotava um lirismo com vontade de escavar as palavras até à raiz no intuito de satisfazer uma inegável curiosidade pelo poder das imagens. Emparedada / Uit de muur, publicado em 2009, retomou a cultura de uma poesia despreocupadamente só no contexto daquilo que é mais visível entre nós. O barroquismo formal deste livro contrasta com a hegemónica sobriedade da poesia portuguesa dos últimos 15 anos. Publicado em Groningen, cidade neerlandesa para onde a autora foi viver em 2005 na busca de um doutoramento sobre Joana de Jesus, este livro tem, desde logo, a curiosidade de ser bilingue, o que se revela assaz coerente se tivermos em conta os problemas que levanta. Um desses problemas é, claramente, o problema da comunicação. E com ele o das palavras, matéria ambígua com a qual o tradutor (ou o poeta), figura omnipresente neste livro, tem de trabalhar. «Um tradutor deve ser duplo», diz-se no poema inaugural: Uma língua a arder. A condição surge sob a forma imperativa, a duplicidade do tradutor será o garante da (boa) tradução. O desafio é o de pensarmos para lá dos limites da linguagem, como se fosse possível pensar para lá da linguagem. Talvez se encontre aqui escondida uma noção de poesia que importa sublinhar, a poesia como um pensar para lá da linguagem. Trata-se de uma noção distante das escolas que vêm vigorando entre nós, uma distância que não podemos julgar senão voluntária: «Em Portugal é assim. Deus está longe das cabras: não traduz poemas, não pode doar o que exerce. Imagina, ganha nome. Quem esperaria dele que trabalhasse o céu ou devastasse as alimárias?» Os poemas de Emparedada sugerem-nos, então, a afirmação de um não-lugar, fazem da língua a raiz do problema, vão à fonte para daí nos chegarem estilhaçados, vão à raiz achar justificação para o desenraizamento. Sobre eles pesa o cimento de duas línguas: «Como os meus passos se afastam dos teus passos, correndo para longe, longe, / esperando que o mundo seja realmente redondo, e não plano, / e possa, um dia, chegar às tuas costas, tapar os teus olhos e dizer-te / mijn thuisland is niet meer mijn taal». Ou seja: a minha pátria já não é a minha língua. O remate do livro, oferecido em latim, prova o trabalho arqueológico que subjaz à intenção anunciada: «fazer uma casa / de raízes estranhas», «reclamar a minha nova Língua». Não deixa de ser, ao mesmo tempo, um trabalho ambicioso e ousado.