Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

CASAR COM UMA METÁFORA

Estou apaixonado por Herta Müller. Depois de Maria Gabriela Llansol (e não lençol, como há dias me disseram lá no balcão), é das poucas que me levavam ao altar com uma metáfora.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #2


Não tenho a certeza, mas julgo ter sido o Paulo Kellerman quem me falou deles pela primeira vez. São noruegueses e surgiram em 1992, no mesmo ano em que eu migrei para Lisboa à procura de me enforcar durante uma aula de Axiologia e Ética. Felizmente escapei ileso, tive o bom senso de faltar às aulas. Geir Jenssen, o homem por detrás da cortina, tocou com os Bel Canto e manteve projectos que raramente emergiram da obscuridade. A influência de Brian Eno é a mais evidente, mas como Biosphere Jenssen conseguiu uma identidade rara em projectos de música electrónica. Diria que os Biosphere estão para a música electrónica como Steve Reich para o minimalismo. Isto é uma coisa parva de ser dita, mas não me ocorre comparação alternativa. Shenzhou, o álbum de 2002, parte da música de Debussy para construir algo verdadeiramente hipnótico. As paisagens são ao mesmo tempo, e numa mesma escala, terríficas e serenas. É uma estranheza passível de ser sentida se acompanharmos um licor de castanhas com tostas imbuídas em azeite virgem. Aqui e acolá, ligeiríssimas variações sobre lençóis de música estática e repetitiva lembram-nos experiências tão enriquecedoras como um seixo deslizando sobre as águas de uma lagoa, uma pena de pombo levantada pela brisa, o vídeo da dança do saco de plástico em American Beauty. Às vezes, ao ouvir Shenzhou, lembro-me da poesia chinesa e da sua agradável monotonia. Mas depois o verde dos campos e o branco da neve transformam-se em barro e do barro surdem escorpiões sonâmbulos que espetam os ferrões em si próprios só para aquietarem os corações desassossegados. Deixo um pitéu de entrada:


FEBRE

Estou absolutamente convencido de que as mulheres não compreendem os homens. Por exemplo, a minha mãe. Eu dizia-lhe que tinha febre e ela enfiava-me um termómetro no cu. Nunca percebeu que a minha febre não se media em graus célsius. A minha febre era de outros níveis. Já a minha irmã mais velha apalpava-me a testa. Não bastava eu dizer-lhe que a minha testa era de ferro, ela insistia em apalpá-la. Tão quente que dava para assar um bife, um bife na testa. A minha outra irmã orava por mim, ao mesmo tempo que evocava os espíritos das avós mortas. E a testa rachava-se-me de uma fonte à outra, jorrando águas que enchiam garrafões que matavam a sede aos insectos. As mulheres. Tive uma que confundiu febre com amor. Eu só queria uma porra de uma aspirina. Outra meteu-se-lhe na cabeça que havia de me fazer feliz. Quase morri desidratado de tanta felicidade. Agora sinto-me bem, tenho os termómetros enfiados no cu certo. Ainda que, por vezes, sinta que tenha o cu fora do lugar.

É NO PORTO, VOU LÁ PARA A SEMANA, QUERES IR BEBER UM CoPo?


Domingo, 27 de Fevereiro de 2011

AS EDITORAS

poucas instituições tratarão tão mal os seus interlocutores como o faz a generalidade das editoras portuguesas. para além do serviço que prestam ou não prestam aos seus clientes finais (os leitores), a sua relação com os produtores (os autores) é muitas vezes de desrespeito, e frequentemente de pura prepotência.
algumas editoras e editores afirmam uma relação privilegiada com “os seus autores”, menosprezando todos quantos não se enquadrem no restrito grupo de eleitos. outras desrespeitam uns e outros. empenham-se pouco ou nada na promoção do que publicam, não prestam informações quanto a vendas, raramente há lugar ao pagamento de direitos.
a maior parte trata os autores não publicados com um quase elementar desprezo. é como um favor que aceitam, quando aceitam, os originais. é com manifesta desconfiança que avaliam as propostas. contactar telefonicamente um qualquer responsável editorial é quase impossível. o envio pelo correio é, na maior parte dos casos, a antecipação da recusa. não são incomuns as situações de autores que, recusados por uma editora, são por ela aceites se os mesmos textos lhes chegam por outras vias. nenhuma editora acusa a simples recepção dos originais.
será difícil gerir a quantidade de propostas que algumas casas recebem, mas o profissionalismo passa também por saber gerir essa massa de textos e de expectativas. como norma, é manifesto o desinvestimento nas relações com os novos autores. saber dizer que não é condição da existência de critérios editoriais consequentes. não responder, ou recusar de forma sumária muitos meses ou anos após a recepção dos originais, já é uma forma de crueldade.
haverá excepções, mas não mudam a regra
.

Lido aqui.

LAGOA DE ÓBIDOS

Estou demasiado colado às imagens de Herta Müller para que as palavras me façam justiça. Finto as imagens com outras imagens, concretas, irreproduzíveis mesmo em opção panorâmica. Por dentro, as imagens boiam sobre o sangue como os patos bravos sobre as águas escuras da lagoa. Há pescadores nas margens que dão banho aos iscos. Trazem os cães, enrolam cigarros, bebem umas cervejas com o tempo a pôr-se em lugar expectável. As filhas aprendem a saltar à corda, eu faço a digestão ao polvo deitado em batata-doce com salada de beringela.

Arrumei as canas que não tenho no armário das intenções adiadas, mesmo ao lado de uma cabeça que me dói e de um coração ferido pelo orgulho. Uma antiga namorada, coisa de 20 anos, (re)descobre-me e sugere conversa. Na última vez que me lembro de a ter visto olhou para o lado. Foi há tanto que já nem me lembrava. Agora tenho ali o caminho à minha espera, vai dar à foz. Mesmo voltando para trás, com o livro da Herta Müller debaixo do braço, é para a frente que olho. Um dia, podes ter a certeza, hei-de aprender a ser feliz.

REALPOLITIK

Camarada Van Zeller, o amigo Khadafi anda metido em maus lençóis. Vai daí, assiste-se em Portugal a uma acentuada precipitação de fotografias do líbio ao lado de puros sangue lusitanos. Sem que nos seja perceptível quem monta quem nos apertos de mão da chamada realpolitik, ficámos curiosos. A quem não terá Khadafi apertado a mão nestes anos todos de poder? A Mandela? A Chávez? A Lula? A Obama? A Sarkozy? A Putin? A Berlusconi? A Castro? A Blair? É ir às imagens do google e tentar a má sorte. Facilmente se verificará que um camelo nunca está só.

PÁTRIA

Não gosto da palavra «pátria», na Roménia foi apropriada por dois tipos de donos da pátria. Uns eram os senhores da polca, suábios, e especialistas da virtude nas aldeias, os outros eram os funcionários e os lacaios da ditadura. Aldeia-pátria enquanto culto da germanidade e Estado-pátria enquanto obediência acrítica e pavor cego da repressão. Ambos os conceitos de pátria eram provincianos, xenófobos e arrogantes. Pressentiam traição em todo o lado. Ambos precisavam de inimigos, julgavam com ódio, de forma generalizada e imutável. Ambos se sentiam demasiado superiores para voltar atrás numa sentença errada. Ambos se serviam da corja. As pessoas da aldeia cuspiam-me na cara depois do meu primeiro livro, quando me viam nas ruas da cidade - já não me atrevia a ir à aldeia. E na aldeia, o barbeiro comunicou ao meu avô, um homem de quase 90 anos na altura, que era cliente semanal dele havia décadas, que a partir daquele dia não lhe fazia mais a barba. E os camponeses da cooperativa de produção agrícola já não queriam ir no mesmo tractor ou na carroça com a minha mãe, castigavam-na nos infinitos milheirais, deixavam-na sozinha por ela ter aquela filha maldita. Por motivos diferentes, foi empurrada para a mesma solidão que eu em criança. E veio visitar-me à cidade, tentava não fazer acusações, no meio do choro, mas fazia-as ao dizer: «Deixa a aldeia em paz, não podes escrever sobre outras coisas? Eu é que tenho de lá viver, não és tu.» E os senhores do Estado arrastaram-me para um interrogatório, na cidade, e deram ordem à polícia da aldeia para trancar a minha mãe durante um dia inteiro na esquadra. Não me deixei influenciar pela minha família no que diz respeito ao que escrevia ou dizia publicamente. Não lhes dizia o que fazia e eles não faziam perguntas. Queria deixá-los de fora dos riscos que corria, cujo sentido eles não percebiam de qualquer modo. Mas foram enredados, pelas corjas da aldeia e do Estado, numa responsabilidade que não tinham. E eu sentia-me culpada e não podia mudar nada, não podia retirar nada, não podia retirar uma única palavra nem perante eles nem perante o Estado. Seria aquele lugar a pátria só porque eu conhecia a língua daquelas duas facções patrióticas? Era justamente por conhecê-la que as coisas tinham chegado a um ponto em que nunca mais quereríamos ou poderíamos falar a mesma língua. Os nossos conteúdos eram, mesmo na frase mais pequena, irreconciliáveis.

Herta Müller, da conferência Cada língua tem olhos diferentes (2001), in O Rei Faz Vénia e Mata, trad. Helena Topa, Texto Editores, Janeiro de 2011, pp. 28-29.

Sábado, 26 de Fevereiro de 2011

A CIDADE LONGÍNQUA

Também com tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, A Cidade Longínqua é a segunda aposta da Ovni num poeta catalão. A primeira foi em Casa da Misericórdia, de Joan Margarit. Màrius Torres (1910-1942) nasceu em Lleida. O pai era médico de profissão, embora tenha ocupado diversos cargos políticos. A mãe, professora, faleceu em Março de 1928, quando o poeta era ainda um jovem. Màrius seguiu as pegadas do pai e acabou por se formar em medicina. Realizado o doutoramento em Madrid, regressou a Lleida e contraiu tuberculose. Internado no sanatório de Puig d’Olena, resolveu então ocupar parte do tempo que lhe restava a escrever poemas. Deixou-nos uma obra breve, intensa, que apenas veria a luz do dia 5 anos passados sobre a sua morte. No prólogo, os tradutores desta antologia delimitam os «eixos que percorrem o conjunto da sua obra: a morte, a guerra, o amor, a música e a espiritualidade». Tendo os poemas nascido num ambiente fatídico, não é de admirar que aparentem frequentemente uma consciência lúgubre da vida: «Tenho preguiça de ainda viver amanhã… / Mais do que a dor sofrida, magoa-me / a dor que se prepara, a dor que me espera…» (p. 27). A morte acaba por ser o tema essencial, aqui e acolá adiado por delicadas evocações de Händell, Mozart, Corelli, Schumann e Couperin. A música surge então como uma arte à qual se ligam as palavras. Metáfora da própria existência, ela acompanha os derradeiros gestos como banda sonora de um peito carregado de angústias e incerteza, mas também como motivo de reflexão e auto-exame: «Sou tantas vezes como uma corda bamba e vencida / que vibra mal! / Com um ritmo pesado, embaraçoso e lento, / átona, corrompida, / corda desafinada, a minha alma mente. / Quantas vezes a quis muda / para não ouvir a música falsa do seu tom!» (p. 31). Vários poetas são citados: Milton, Baudelaire, Blake, Musset, Pascoaes, Joan Sales. E é nestes diálogos que, muitas vezes, os poemas de Màrius Torres realizam uma autópsia das debilidades humanas. Veja-se, a título de exemplo, este soneto que tem por mote um verso de Alfred de Musset:


Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Não tens vergonha da tua fraqueza?
A glória, o amor, a pândega, o ouro,
não saberão tentar a tua preguiça?

Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Odeia, fere, embriaga-te, beija,
bate mais forte, grande cobarde, ou morre
para sempre de desgosto e tristeza.

Ou talvez já estejas morto, tu, que nem sabes o que vale
o canto de um alaúde, o estouro de um punhal,
uma clara noite, uma rosa terna?

E o meu pobre coração, o meu coração disse-me:
─ Para quê dar mais cinzas ao esquecimento?
E, velho, sorriu-me, sem perceber nada
.

Portanto, o que eventualmente pudesse existir de lírico, romântico ou mesmo simbólico nestes poemas é adulterado por uma reflexividade implacável acerca das determinações a que a existência de um ser humano se vê reduzida nos limites da vida. Mesmo quando se aventuram pelos caminhos do amor, como acontece nas magníficas Canções a Mahalta, dedicados a Mercé Figueres, a companhia mais presente na vida de Màrius Torres durante a estadia no sanatório de Puig d’Olena, os versos revelam uma espiritualidade ambígua, nublada, como uma espécie de pressentimento do olvido a que está condenada toda e qualquer existência. Entre outros, sobressai mais este soneto, forma a que o poeta recorreu frequentemente com inegável mestria:

PRESENÇA

Como se as tuas mãos sobre os meus olhos ainda
pudessem, como antes, deter-se com amor,
gosto de fechar os olhos quando penso em ti. Sonora,
a tua lembrança move-se na penumbra clara…

Volto a ouvir os teus passos lá longe, na luz.
Meço, em tom e ritmo, a distância.
Agora, deténs-te perto. Aspiro, rosa rançosa,
uma rajada ardente do teu antigo perfume!

As lembranças, os sentidos, toda a minha vida,
calam-se perante a angústia vigilante do ouvido
que te persegue no silêncio onde te recolhes.

Se agora esticasse os braços na escuridão, ainda
poderia amparar-te, sonho de cada dia.
Mas já não estarás aqui quando eu voltar a abrir os olhos
.

O que nos remete para uma invocação da mãe perdida termina em reflexão sobre a natureza do estar. Esta presença ausente, aplicável a várias circunstâncias e materialmente indefinível, é a matéria da própria memória, assim como, ao fim e ao cabo, o alimento do esquecimento a que todos estão irremediavelmente destinados. A espiritualidade que emana desta poesia tem a tristeza e o encanto do condenado, sugere uma ambivalência que ora pende para uma esperança repleta de dúvidas, ora se inclina para a saudade do nunca vivido: «Gosto tanto da minha saudade, / que, se ao país que choro, / um anjo me quisesse guiar repentinamente, / diria ao anjo: espera, espera um momento, / agora não posso ir, não vês que estou a morrer?» (p. 147) Eventuais ecos de Pascoaes com a saudade pronunciada em catalão: enyorament (um enamoramento melancólico?).

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #1



Mais um pretexto para matar tempo, recordar bons momentos, partilhar os sons de uma vida. A ideia, admito que tonta, surgiu de uma conversa com o Manuel: os 100 álbuns mais assustadores que me deram cabo da vida (presumo que em sentido figurado). Começo pelo Art Ensemble of Chicago e um conjunto de gravações antológicas. O disco chegou-me às mãos através de uma colecção feita por fascículos, das poucas que iniciei e consegui terminar. Valeu a pena o esforço. Os folhetos da Jazz Time informam-me do essencial: registos efectuados entre 1970 e 1984, por terras de Paris, Bolonha, Tóquio e Ann Arbor (no Michigan). É difícil contextualizar a música do (ou da) Art Ensemble of Chicago. Na verdade, trata-se de uma instituição com repercussões que vão muito além da mera arte de produzir música. Quando os vi no Fórum Cultural do Seixal, a 30 de Outubro de 1998, pude presenciar a força desta confluência de sonoridades organizadamente caóticas. Geralmente conotados com um jazz de colorido free, são responsáveis por um dos temas de fusão mais cool que alguma vez tive oportunidade de ouvir: Theme The Yoyo, um tema que serviu de banda sonora ao filme Les Stances à Sophie (Moshé Mizrahi, 1971) e era tocado ao vivo pelos Cool Hipnoise com bastante estilo. Mas a generalidade da música do Art Ensemble escapa a qualquer rotulagem convencionalista. Em palco, a aparência cénica do conjunto remete para uma manifestação tribal. Os músicos vão trocando de instrumentos, dão o lugar uns aos outros, circulam de rosto pintado transportando-nos para um mundo alternativo ilustrado por uma big band de feiticeiros africanos. E, na realidade, é de pura feitiçaria que se trata quando ouvimos Malachi Favors no baixo, na cítara, no banjo, Don Moye rodeado de campainhas, marimbas, tambores, Roscoe Mitchell arrancando notas nos instrumentos de sopro, etc. Para abrir o apetite, sugiro que ouçam e vejam isto com atenção:



É apenas uma parte de algo que tem continuidade lá de onde este fragmento veio. Vale a pena continuar a ver.

O PEIDO-MESTRE

Daqui a um mês eleições. Apresta-se a elite sportinguista para cerrar fileiras em torno de Godinho Lopes (o homem dos barcos da Expo-98, e que a justiça estatal não conseguiu prender) e de Luís Duque (o homem indiciado por qualquer coisa e que a justiça estatal não conseguirá prender). Para compor o ramalhete chamaram o apoio de Angelo Correia, essa imensamente narrável personagem do submundo político português (dizem até que Passos Coelho é sua criatura, o que anuncia tempos desgraçados para Portugal). Godinho e Duque foram ambos cruciais no grupo de interesses, ligados à banca e à construção civil, que em quinze anos construíu um Sporting sem património imobiliário e devedor de 400 milhões de euros (Bettencourt dixit). O povo, sportinguista ou não, que todos os dias vê na televisão e no supermercado o que provoca a avidez usurária e cleptocrática destes meliantes de nome sonante e empregos reluzentes, esquece-se da tralha que enfrenta porque é da bola que se trata. Alguns até esfregam as mãos, acreditam que tendo uns mariolas no poder será possível vencer o gabiru Pinto da Costa e o mafioso Rui Costa (o homem dos túneis). Enganam-se, Roquette vinha com essa fama, tinha enganado o Estado e a sociedade, vendera um banco aos espanhóis (uma ilegalidade, então) torneando a lei. Chegou ao Sporting com essa aura, de aldrabão iluminado. Quinze anos depois o roquetismo provocou um Sporting falido. Arrombado. E com toda a certeza que alguém roquetou, muito ganhou. O godinhismo, avatar da cleptocracia lusa do bloco central, será apenas o peido-mestre do clube. Ainda haverá algo para dissipar? Para transportar?
JPT, aqui.
O Huidobro disse: é preciso mudar o céu de lugar.
A Beatriz retorquiu: este chão está estragado.

Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

A PÁGINA 14

O telefone tocou. A livreira atendeu e, muito competentemente, apresentou-se e fez as cordiais saudações. A cliente pergunta se há na livraria um exemplar do livro Violetas na Janela. A livreira averigua os stocks, repara na existência de um exemplar e vai confirmar se o livro está na estante. Sim, temos um exemplar disponível. - diz. E do outro lado da linha a cliente pergunta: pode ler-me a página 14?

Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: ZIMBÁBUE


Não foi há muito, mas parece que foi. O número 47 da revista LER trazia um artigo longo, daqueles que já não se publicam, sobre literatura africana. O autor, Pires Laranjeira, fornecia muitas e boas referências para que os interessados pudessem começar a desbravar um caminho nem sempre acessível. José Pinto de Sá dava-lhe continuidade com uma prosa sobre Dambudzo Marechera, poeta, romancista, contista supersónico nascido na Rodésia, agora Zimbabué, a 4 de Junho de 1952. O artigo começava bem, com uma afirmação reveladora do carácter do visado: «Se és escritor de uma específica nação ou raça, então vai-te foder!» Charles Dambudzo Marechera nasceu e cresceu num bairro de lata na zona de Harare. Aí veio a falecer a 18 de Agosto de 1987. A mãe tratava dos filhos de uma família branca e o pai morreu novo, perdido entre as grades de ferro e a prisão do alcoolismo. Porque era esperto, Dambudzo aguentou-se na escola da missão local, lia para esquecer a vida no gueto, «para esquecer a fome». Ficou gago quando o obrigaram a olhar o cadáver desfigurado do pai, vítima de atropelamento por um veículo militar. Diz-se que a gaguez só lhe passava quando lia os seus poemas em público. Masvotwa, a mãe, passou muito mal após a morte do marido. A condição paupérrima, o despejo imposto pelas autoridades, obrigaram-na a errar até um refúgio no subúrbio de Tangwena. Sobreviveu a lavar roupa e a prostituir-se, tal como uma das filhas. Admitido na escola de St. Augustine, Dambudzo conseguiu acumular excelentes resultados com vários problemas disciplinares causados pela veia contestatária e por uma constante inclinação para a controvérsia. Bukowsky, Kerouac, Ginsberg, Joyce, D. H. Lawrence, Kurt Vonnegut foram influências assumidas aquando das primeiras aventuras pela escrita. Admitido na Universidade da Rodésia, em Salisbury, o poeta teve de sentir alguns momentos de vida clandestina até à prossecução dos estudos em Oxford. Para trás ficavam dois pequenos volumes de poesia e uma gonorreia contraída na má vida. Mas a experiência inglesa não correria melhor, tantos foram os desaguisados provocados pela incomodidade política e pelo calor do álcool. «Frequentava mais os pubs que as salas de aula, bebia e fumava erva mais ou menos continuamente enquanto a lucidez e o dinheiro o permitiam, experimentava LSD, vivia de noite e punha o campus em alvoroço tocando discos de Wagner no volume máximo a altas horas da madrugada» ─ conta-nos José Pinto de Sá. Tudo culminou ao tentar pegar fogo à Universidade. Deu então início a uma fase de pura vagabundagem e começou aquele que viria a ser um dos seus mais aclamados livros, o volume de contos The House of Hunger. O livro valeu-lhe um Guardian fiction prize em 1979. Com a independência da Rodésia, regressou à pátria em 1982, após 8 anos de exílio. Premiado em Inglaterra, boémio incorrigível, crítico de Mugabe, afastado da família, dessincronizado da pátria, Marechera tentou regressar a Londres sem sucesso. Tornou-se um mito entre os seus, um maldito que dormia e escrevia nos bancos de jardim. Morreu com 35 anos, vítima de SIDA:


DOUTORADO EM SOFRIMENTO

Tempo! em que Monstro
Talhas a chicote o meu corpo e os sonhos?
A que diabólica risada
Arrastas o meu riso outrora deslumbrado pela vida?
Olho a infância nos olhos ─
E logo viro a cara horrorizado.
Volto as páginas todas aos meus dias
Acho-as frágeis, amarelas, negras;
E onde a paixão escreveu apaixonadamente
Nada! só um corpo esmagado de barata.

UMA METÁFORA



Por outro lado, há uma metáfora curiosa no filme. O início da trama dá-se com uma descoberta macabra, um coração humano a entupir uma sanita. No final, Okwe e Senay despedem-se dizendo um ao outro, em silêncio e à distância, que se amam. É como se tivessem recuperado os corações que lhes haviam transplantado. De um modo metafórico, claro está, mas muito realista.

Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

ESTRANHOS DE PASSAGEM


Dirty Pretty Things tem um problema que é fatal em muitos filmes, a superficialidade com que uma grande dispersão de temas complexos se cruzam sem que daí possa retirar-se algo de verdadeiramente perturbador. Imigração ilegal, tráfico de órgãos humanos, conflitos inter-raciais, exploração de trabalho clandestino são assuntos demasiado pesados para um objecto tão frágil como o filme de Stephen Frears. Longe da comovente sobriedade de The Van, este filme apenas ganha algum interesse quando a relação entre os protagonistas, uma imigrante turca interpretada pela francesa Audrey Tautou e um imigrante nigeriano, se revela inviável não por culpa das contingências sócio-culturais das personagens mas pelo passado que persegue uma delas. Se o filme aponta constantemente para um futuro onírico dificilmente concretizável, a realidade mostra-se muito mais dura quando o presente se vê barrado pela inexorabilidade do passado. No final resta a imagem de uma Londres degradante e inóspita.

UM POEMA DE MÀRIUS TORRES


Que a minha alma seja a corda de um alaúde
................para sempre igual e tensa
e que o destino só me possa arrancar, decepcionado,
uma nota, invariável, imensa.
Uma nota muito grave e muito constante.
Que nunca seja vencida a cravelha que estica e defende
................a viva pulcritude
da vibração de uma corda bem tensa.

Sou tantas vezes como uma corda bamba e vencida
.................que vibra mal!
Com um ritmo pesado, embaraçoso e lento,
.................átona, corrompida,
corda desafinada, a minha alma mente.
.................Quantas vezes a quis muda
para não ouvir a música falsa do seu tom!

.................Senhor, Tu não gostarias
de apertar as cravelhas dos meus extremos debilitados
para que as minhas melodias nunca afrouxem?
Eu quero ser constante nos prantos e nos gritos,
e cantar sempre da mesma forma, a ignorar as loucuras,
..................os anseios, os desassossegos,
o corvo que sobrevoa a estepe dos meus dias...
Eu quero ser como tu, oh, corda que dirias
..................que são sempre os mesmos dedos que te pulsam.

Janeiro de 1937.

Màrius Torres, in A Cidade Longínqua, trad. Rita Custódio e Àlex Tarradellas, OVNI, Dezembro de 2010, p. 31.

TESÃO DE MIJO AO CUBO

1. Os entusiastas das revoluções no mundo árabe fartam-se de fazer comparações com Portugal. Nos blogues. Nas ruas não os vejo.



2. Isto há-de chegar cá, dizem-me. Penso logo em Teixeira de Pascoaes e no nosso eterno sebastianismo. Sucede que D. Sebastião não há e Passos Coelho é mais do mesmo.


3. Acabei de ouvir um cidadão anónimo afirmar que começa a acontecer por cá o que vai acontecendo pelo mundo árabe. E deu como exemplo os confrontos de ontem entre uma claque de futebol e a polícia. Portanto, podem os historiadores registar os factos: a revolução começou no Alvalade XXI e os revolucionários são um bando de energúmenos vestidos de verde e armados com cadeiras que desconfiam que o Bahrein seja um avançado turco, o Iémen a moeda marroquina e a Líbia um bairro em Chelas.

FORTE APACHE

Forte Apache é um dos meus filmes preferidos de John Ford. Henry Fonda interpreta o papel de um Tenente Coronel obcecado com a estrutura militar e os seus formalismos. Mas a sua arrogância não chegará para bater no campo de batalha o mítico bando do chefe Cochise, onde pontificava também o curandeiro Geronimo. Ford desmonta os falsos heroísmos de um exército comandado por gente formal no meio de um deserto onde se destacam os comportamentos incivilizados de uma sociedade emergente. Por outro lado, os índios, olhados com desdém e acusados de incivilidade, mostram-nos que a distância entre a barbárie e a civilização é muito curta. Na cena final, onde alguns jornalistas anotam a suposta heroicidade de um militar arrogante e, para todos os efeitos, irresponsável na sua infeliz ânsia de protagonismo, diz-nos muito acerca da relação dos homens com as hierarquias que ditam o contexto em que cada qual pode ambicionar a ficar na memória dos demais. Um retrato pendurado numa parede é tudo o que resta a quem pretenda ser lembrado no futuro, resguardado dos verdadeiros factos pelo passepartout e pela moldura da História.

Domingo, 20 de Fevereiro de 2011

PAIXÃO E MORTE

Senhor, hoje é o aniversário da tua morte.
Há mil novecentos e vinte e seis anos estavas tu numa cruz
Sobre uma colina repleta de gente.
Entre o céu e a terra os teus olhos eram toda a luz.
Gota a gota sangraste sobre a história.
Desde então um rubro regato atravessa os séculos regando a nossa memória.

As horas passaram diante da ombreira extra-humana.
O tempo ficou cravado com os teus pés e as tuas mãos.

Aqueles martelos ainda ressoam,
Como se alguém batesse às portas da vida.

Senhor, perdoa-me se te falo numa língua profana,
Mas de outro modo não poderia falar-te pois sou essencialmente pagão.

Se por acaso fores Deus, venho a pedir-te uma coisa
Em versos rimados com cansaços de prosa.

Há no mundo uma mulher, quiçá a mais triste, sem dúvida a mais bela,
Protege-a, Senhor, sem vacilar; é ela.

E se realmente fores Deus e puderes mais que o meu amor,
Ajuda-me a guardá-la de todos os perigos, Senhor.

Senhor, estou a ver-te com os braços abertos.
Quiseras abraçar todos os homens e todo o universo.

Senhor, quando dobraste a tua cabeça sobre a eternidade
As pessoas não sabiam se era dos teus olhos que brotava a obscuridade.

As estrelas desapareceram uma a uma em silêncio
E a lua não tinha como esconder-se atrás dos outeiros

Rasgaram-se as cortinas do céu
Quando a voar tua alma passou

E eu sei o que então se viu; não foi uma estrela,
Senhor; foi a cara mais bela,
A mesma que agora mesmo verias
Se rasgasses a carne do meu peito.

Como tu, Senhor, tenho os braços abertos esperando por ela.
Assim lho prometi e me cansam tantos séculos de espera.

Caem-me os braços sobre a terra como crucifixos partidos.
Não poderias, Senhor, adiantar a hora?

Senhor, na noite do teu céu passou um meteorito
Levando um seu voto e o seu olhar até ao fundo do infinito.
Até ao fim dos séculos continuará rodando nosso anseio ali escrito.

Senhor, agora estou doente de verdade
Uma insuportável angústia mastiga-me o peito.
E esse meteorito assinala-me o caminho.
As nossas vidas amarrou num só destino.
Entrelaçou-nos a alma melhor que uma qualquer aliança.

Senhor, ela é débil e ténue como um ramo de soluços.
Olhá-la é uma vertigem de estrelas no fundo de um poço.

Os rouxinóis do delírio cantavam nos seus beijos,
Enchia-se de febre o tubo dos ossos.

Alguém plantou na sua alma vis ervas de dúvida e já não crê em mim.
Prova-me que és Deus e no máximo em três dias leva-me daqui.

Quero evadir-me de mim mesmo.
O meu espírito está cego e rodopia entre planetas cheios de cataclismos.

Também a minha vida sangra sobre a neve,
Como um lobo ferido que faz a noite tremer cada vez que se move.

Estou crucificado sobre todos os morros.
Uma coroa de espinhos crava-me o coração.

As lanças dos seus olhos ferem-me as costelas
E um ribeiro de sangue sobre o silêncio dir-te-á que passei.

Faz agora uns quantos meses, Senhor, abandonei a minha velha Paris,
Um estranho destino trazia-me a sofrer no meu país.

Faz frio, faz frio. O vento empurra o frio sobre os nossos caminhos
E os astros enrolam a noite girando como moinhos.

Senhor, pensa nos pobres imigrantes que vieram até à América de ouro
E encontraram um sepulcro em vez de caixas de tesouros.

Eles impregnam as ondas com o ritmo dos seus cantares.
A tempestade das suas almas é mais horrível que a de todos os mares.

Vê como choram pelos seres que não mais verão;
Gritam-lhes na noite todas as coisas que para trás deixaram.

Senhor, pensa nas pobrezitas que sofrem ao humilhar a carne,
As novas Madalenas que hoje choram a dor da tua madre.

Agachadas ao fundo da angústia da sua absurda Babel,
Bebem lentamente grandes copos de fel.

Senhor, pensa nas espirais dos naufrágios anónimos,
Nos sonhos truncados que se quebram em pedaços de asteróide.

Pensa nos cegos com as pálpebras cheias de música, choram pelos olhos do seu violino.
Eles esfregam os seus arcos sobre a vida numa amargura sem fim.

Senhor, vi-te sangrando nos vitrais de Chartres
Como mil borboletas que fazem os sonhos partir.

Senhor, em Veneza vi o teu roso bizantino
Num dia em que o ar se rompia de beijos e vinho.

As gôndolas passavam cantando como ninhos
Entre ramos de ondas, levando o nosso sorriso até ao Lido.

E tu ficavas sozinho em São Marcos, aspirando as selvas de orações
Que crescem a teus pés em todas as estações.

Senhor, vi-te num ícone, obra de um monge sérvio que ao pintar os teus espinhos
Sentia a alma repleta de andorinhas.

Que significas tu na história do mundo?
Há ano e meio discuti este tema num café de Moscovo.

Um sábio russo não te dava grande importância.
Eu dizia ter acreditado em ti durante a infância.

Uma bailarina célebre pela sua beleza
Dizia que tu és somente um conto de tristeza.

Todos te negaram e não consta que um galo tenha cantado.
Talvez Pedro, escutando-nos, tenha chorado.

E ao fundo de uma velha Bíblia o teu sermão da montanha
Continuava ressoando de uma maneira estranha.

Senhor, também eu tenho uma vida dolorosa, minhas recaídas e minha paixão;
Saltando meridianos como um tigre ferido, sangra e uiva o meu coração.

Reina o amor em todas as suas esplêndidas catástrofes internas,
Mil rubis trovejam no fundo do cérebro
E as plantas do desejo bordam o ar destas noites eternas.

Poeta, poeta escravo de aventuras e de algum sortilégio,
Como tu suporto a vida, o maior sacrilégio.

Senhor, a única coisa que vale na vida é a paixão.
Vivemos para um ou outro momento de exaltação.

Abre-se a meus pés um precipício de suspiros; detenho-me e vacilo.
Logo como um sonâmbulo atravesso o mundo em equilíbrio.

Senhor, que te importa o que digam os homens. Ao fundo da história
És um crepúsculo pregado a um madeiro de dor e de glória.

E o regato de sangue que brotou das tuas costelas
Ainda, Senhor, não foi estancado.


Vicente Huidobro, poema publicado originalmente na primeira página de La Nación (Santiago de Chile, 2 de Abril de 1926). Versão caseira do HMBF.

Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

HÁ UM MOMENTO DO SALTO AO QUAL DEVEMOS CHAMAR LEVITAÇÃO


Longe de ser uma questão pacífica, a problemática da inutilidade coloca-nos no centro de uma guerra universal: a guerra do homem com as razões da sua existência. Não foi por mero capricho que lhe dediquei alguma atenção n’O Meu Cinzeiro Azul. Referi-me, então, à poesia como «a quinta estação dos poetas, a estação onde o útil e o inútil se fundem num só lugar de resistência». Mas afirmei também, num tom claramente mais cínico, que «escrever poesia é tão inútil como mascar pastilha elástica, embora em ambas as acções as causas justifiquem por si mesmas as consequências». Se agora procuro esclarecer as intuições que um pensamento aberto, desorganizado e despreocupado produz, não é tanto para me justificar, ou estabelecer uma linha de pensamento objectivo, como é pelo gozo de prosseguir a viagem atribulada do próprio pensamento. E é nessa viagem atribulada que encalho numa conclusão de Charles Bukowski sobre o prazer da descoberta dos seus escritores favoritos: «era bom lê-los a todos. Faziam perceber que os pensamentos e as palavras podem ser fascinantes, apesar de inúteis» (Ham on Rye).

A ligeireza com que vimos recorrentemente decretada a inutilidade das palavras e do pensamento, assim como da poesia ou da generalidade das artes, não deve assustar os espíritos piedosos. Há nesta postura vários elementos que devem ser ponderados. De uma velha necessidade de apagar a auréola do génio que pesava sobre a cabeça dos criadores à mera pose com que se erguem modas e vanguardas, passando por um niilismo esclarecido e contraditório nos seus mais íntimos termos, podemos observar um pouco de tudo. A questão de fundo é sempre a mesma: como justificar o tempo de vida despendido na produção de uma obra? Tudo se torna mais simples se começarmos por perceber que não viemos ao mundo para justificar o tempo despendido a viver a vida, mas sim para vivê-la (mesmo que este vivê-la possa vir a significar abstinência, abnegação, suicídio). O desapego que muitas pessoas dizem sentir relativamente à vida, considerando-a, na mais radical das considerações, completamente inútil, não nos pode iludir quanto ao facto dessa afirmação só poder ser feita enquanto as pessoas estão, de facto, vivas. O mesmo vale quando esse desapego é aplicado, num contexto mais ou menos estético, mais ou menos provocatório, para sublinhar o tal lugar de resistência evocado na primeira das auto-citações que encimam este texto.

A gente apercebe-se do quão inútil é o sublinhado da inutilidade da poesia ao sentirmos o efeito que as palavras, arrumadas num poema, exercem sobre os nervos de uma alma humana. Sobre esse efeito poderemos apenas admitir a inutilidade que admitimos ao vento ou à chuva ou a uma trovoada, conquanto possamos entender que não está nas nossas mãos determinar o efeito produzido pelo vento, pela chuva ou por uma trovoada… nas nossas pobres almas. Num magnífico livro onde o problema da inutilidade aparece amiúde na sua mais eloquente forma, ou seja, a forma da essencialidade, J. M. G. Le Clézio lembra: «Os olhos das mulheres índias olham, semelhantes a pequenos golfos negros, luzindo calmamente a meio do rosto de bronze. Nunca eles se dilaceram para abrir as portas da alma. A alma é agora inútil, e os olhos já dela não precisam para se exprimirem!» (Índio Branco) Ao fim e ao cabo a questão que se nos coloca é precisamente a das expectativas, porque a utilidade ou inutilidade de uma coisa averigua-se sempre a partir da função que esperamos possa vir a ser a dessa mesma coisa.

Deste modo, cabe a interrogação: o que esperar da poesia e qual a sua função? O que esperar das artes e qual a sua função? Quando aqui chego, prefiro ser pragmático, só espero que faça de mim um homem melhor ao ajudar-me a respirar num mundo substancialmente poluído, sobretudo, por gente despreocupada e indiferentemente ofegante. Que mais posso eu esperar/exigir?


Nota: a fotografia ao alto é de Gérard Castello-Lopes e foi copiada do catálogo da exposição Oui/Non.

Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: EGIPTO


Junta-se o amor à revolução, memórias de um tempo ido, vários factores conexos e o poema regressa aos dedos. Vim de Sul para Norte, de Aswan ao Cairo com paragens em Kom Ombo, Edfu, Luxor… visitei templos, espreitei múmias e pirâmides, bebi karkadeh com os núbios, fumei cachimbo num café perdido no vasto bazar de Khan El-Khalili, descalcei-me para tentar descobrir algumas mesquitas e emocionei-me com as chamadas para a oração, suei as estopinhas para atravessar o deserto dos mortos, admirei a arte de trabalhar o alabastro, apanhei um valente cagaço quando me aventurei no encalço de Hassan-i-Sabbah e deparei com um taxista suspeitosamente desnorteado. Um programa tipicamente turístico, com o Nilo a servir de auto-estrada, uma breve deslocação pelo ar trémulo do deserto, as miragens ao amanhecer a caminho de Abu Simbel. Também montei um camelo, mergulhei na corrente traiçoeira do rio, comprei pevides para acompanhar a leitura dos mortos. Têm uma relação especial com a morte, os egípcios. Para eles a viagem começa aí. Ainda nos tempos da faculdade apaixonei-me pelo hermetismo daquelas paragens, li e estudei o Corpus Hermeticum tentei introduzir-me nos princípios do Caibalion. É um mundo facilmente fascinante pelos mistérios que encerra, mas também por nos levar a acreditar numa realidade que transcende o misticismo dos santos. É a realidade dos anacoretas, escorpiões enterrados na areia morta que de lá emergem com o mortal veneno da sabedoria no ferrão da língua. Assim se manipulam os povos e constroem impérios. Trazem a morte de oferenda, procuram conservar o corpo para que a alma não se perca e possa um dia regressar ao porto que a viu partir. Porque naqueles papiros a morte mais não é do que uma viagem que parte de um ancoradouro putrescível para que a vida possa enfim consumar-se. E onde fica o amor no meio disto tudo? Fica na carne que o viveu, exposto às intempéries do desejo, malograda ou gloriosamente sentido nos jardins da discórdia. É um dos pólos que ajeita o equilíbrio das coisas vivas, ainda que por vezes o sintamos desequilibradamente pedregoso, oneroso e sisífico. Agora que o poema foi reeditado, leve-nos ele de novo para terras do Egipto. Lá encontraremos, cantado em hieróglifos intraduzíveis, um pouco do que por todas as épocas foi sentido:


Cobarde, por que murmuras todo o dia no teu coração a palavra amor?
Porque falas dela incessantemente,
A toda a hora, a qualquer hora
Excepto quando está presente em carne e osso?
Deixa-te disso, homem,
Vai ter com ela, e tenta portar-te como se falasses a sério.



In Poemas de Amor do Antigo Egipto, traduzidos por Hélder Moura Pereira a partir das versões de Ezra Pound, por sua vez baseadas nos textos de Boris de Rachewiltz. Assírio & Alvim, Janeiro de 1998, p. 61. Diz-se que os poemas datam de entre 1567 e 1085, a.C. A imagem ao alto é de Gérard Castello-Lopes, copiada do catálogo da exposição Oui/Non.

Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

DEMOCRACIAS OCIDENTAIS

43 mulheres foram mortas em Portugal em 2010, vítimas de violência doméstica. Talvez aquele em Portugal seja eufemístico, talvez se devesse antes dizer no Portugal arábico.

UMA VIDA NORMAL

Toda a vida sonhei com uma vida normal. Diria mesmo que foi o único sonho que alguma vez ousei alimentar. Eu acordava de manhã e levava-te o pequeno-almoço à cama, ou acordavas tu e trazias-me o café sem açúcar e as tostas com manteiga que nunca tenho tempo de torrar. Normalmente saio de casa em jejum, a isso me obrigam os atrasos incorrigíveis. É assim com quem não se disciplina. Horas para me deitar não tenho, horas para acordar são-me impostas. Sempre sonhei com o oposto, uma vida normal. Poder fumar descansadamente o primeiro cigarro do dia. E folhear o jornal e passar-te os dedos pelo cabelo, olhar o teu rosto sorridente e não pensar sequer no que vestir porque o teu sorriso é o sol de que necessito para me manter quente no Inverno e confiante no Verão. Eu sempre sonhei com uma vida normal, uma casa pequena com quintal, um cão, um trabalho simples. Fins-de-semana sentados no alpendre a ler romances russos, uma cerveja ou duas para salgar o desejo e trabalhos de bricolage para enganar a incompetência. Desajeito-me com a vida, não distingo o estuque do salitre, um martelo de uma bigorna, um alambique de uma fornalha. Toda a vida sonhei com piqueniques ao domingo, a toalha axadrezada estendida sobre as ervas, um sumo de laranja natural, fruta fresca da época, uma sesta ao som do vento que amaina os pinheiros. Eu sempre quis nadar de costas, não sei onde fui buscar esta tendência para o prego. Ainda me safo a imitar os cães, pouco mais que isso. Quando era criança pensava que iria crescer como as plantas que crescem dentro das vidas normais, regadas por semanas de trabalho prazenteiro e fins-de-semana temperados por comédias românticas, caminhadas na serra, passeios junto ao mar. Eu queria coleccionar qualquer coisa que me ocupasse o espírito e distraísse dos desastres, calendários, porta-chaves, esferográficas, moedas, selos, borrachas, amostras de perfume ou sabonetes, pacotes de açúcar, chávenas de café. Queria uma colecção normal para dias normais numa vida normal. Tudo isso me escapou por entre os dedos como um polvo escapulindo-se do arpão. Vê no que deram os sonhos: acordamos ao som dos peidos um do outro, queixamo-nos do caril, das natas, do jantar da noite passada. Lavamos os dentes enquanto olhamos mais um cabelo branco, uma ruga, um ponto negro nascido da velhice anunciada. Fugimos de casa com o estômago vazio e as retinas coladas aos ponteiros do relógio, sempre mais ligeiros, astutos, ágeis do que a nossa incontrolável flacidez. O tempo antecipasse-nos, chegamos sempre atrasados ao tempo porque insistimos em adiar tanto a partida como a chegada. Para nós, o que importa é iludir a inevitabilidade dos horários, dos calendários, das planificações, dos mapas e das grelhas, não daquelas onde libertamos a carne da gordura, mas das outras, as terríveis grelhas onde assamos os nossos próprios ossos, onde vamos deixando a pele como quem desgasta uma borracha ou queima uma vela. E depois passam-se os dias, regressamos a casa estafados, sentamo-nos à mesa a fingir que ainda existimos, oferecemos ao estômago a alegria de uma alheira que nos justificará os peidos da manhã seguinte. Calamos as mágoas com dois ou três ou quatro copos de vinho e mais um cigarro em silêncio, ligamos a televisão num canal que nos distraia de nós próprios e adormecemos com os olhos postos no vazio. Logo nós, que sempre sonhámos com uma vida normal. Eu, pelo menos, sonhava. Julgo que tu também.

Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011

RAPOSAS A SUL

Toma lá e vai buscar. Aqui.

BIBLIOTECA PÚBLICA DE LA CIENEGA


Descobri a Biblioteca Pública de La Cienega. Arranjei um cartão. A biblioteca ficava perto da velha igreja da West Adams. Era uma biblioteca muito pequena e só tinha uma bibliotecária. Ela tinha estilo. Tinha perto de 38 anos mas com um cabelo do mais puro branco puxado para trás e preso num totó. O nariz era esguio, tinha olhos verdes profundos e usava óculos sem aros. Parecia que conhecia tudo.
Andei pela biblioteca à procura de livros. Tirei-os das estantes, um a um. Mas eram equívocos. Eram muito aborrecidos. Havia páginas e páginas que não diziam rigorosamente nada. Ou se diziam alguma coisa demoravam muito tempo a dizê-lo e quando o diziam já estava cansado para que importassem alguma coisa. Experimentei um e outro livro. Certamente que, de todos aqueles livros, tinha de existir
um.
Todos os dias eu ia até à biblioteca na Adams com a La Brea e lá estava a minha bibliotecária, inflexível e infalível e silenciosa. Continuava a tirar livros das estantes. O primeiro livro de jeito que encontrei foi de alguém chamado Upton Sinclair. As frases eram simples e falava com raiva. Ele escrevia com raiva. Escreveu sobre os matadouros de Chicago. Dizia as coisas de forma clara e sem artimanhas. Depois encontrei outro autor. Chamava-se Sinclair Lewis. E o livro chamava-se
Main Street. Ele desmontava a hipocrisia inerente às pessoas. Mas faltava-lhe paixão.
Voltei lá para buscar mais. Lia cada livro numa só noite.
Um dia andava por lá à procura, e a espreitar a minha bibliotecária, quando encontrei um livro com o título
Bow Down To Wood and Stone. Bem, aquilo é que era bom, porque era isso que andávamos todos a fazer. Finalmente, algo de jeito! Abri o livro. Era de Josephine Lawrence. Uma mulher. Não havia problema. Aprende-se com toda a gente. Abri o livro. Mas era como muitos outros: pastoso, obscuro, cansativo. Voltei a colocá-lo na estante. E enquanto a minha mão por lá andava agarrei num livro que estava perto. Era de um outro Lawrence. Abri o livro e comecei a ler. Era sobre um homem que tocava piano. Ao início parecia pretensioso. Mas continuei a ler. O homem que tocava piano tinha problemas. A sua mente dizia coisas. Coisas obscuras e curiosas. Cada linha do livro era firme, como um homem a gritar, mas não gritava «Joe, onde estás?» Era mais Joe, onde está tudo? Este Lawrence era certeiro. Nunca tinha ouvido falar dele. Porquê? Por que razão não era publicitado?
Li um livro por dia. Li todos os livros de D.H. Lawrence que havia na biblioteca. A minha bibliotecária começou a olhar para mim de uma maneira estranha enquanto eu registava os livros.
«Como estás hoje?» perguntava.
Soava sempre bem. Parecia que já tinha ido para a cama com ela. Li todos os livros de D.H. A eles seguiram-se outros. Seguiram-se H.D., a poetisa. E Huxley, o mais novo dos Huxleys, amigo de Lawrence. Vieram todos ter comigo. Um livro deu lugar a outro. Dos Passos também apareceu. Não era muito bom, mas era suficientemente bom. A sua trilogia sobre os Estados Unidos demorou mais do que um dia para ler. Dreiser não me encheu as medidas. O Sherwood Anderson, sim. E depois apareceu Hemingway. Que maravilha! Esse sim sabia como escrever uma frase. Era uma alegria. As palavras não aborreciam, punham-me a cabeça a latejar. Se o lêssemos e nos deixássemos levar pela magia, conseguiríamos viver sem dor, com esperança, acontecesse o que acontecesse.


Charles Bukowski, in Ham on Rye – Pão com Fiambre, trad. manuel a. domingos, Ulisseia, Setembro de 2010, pp. 187-189.

Domingo, 13 de Fevereiro de 2011

HAM ON RYE

O ano que passou foi especialmente agradável para os bukowskianos. Em Abril a Antígona publicou Correios, o primeiro romance de Charles Bukowski (1920-1994), originalmente editado em 1971, com tradução de Rui Lopes e prefácio de Gerald Locklin. Em Setembro, a renovada Ulisseia lançou, com tradução de manuel a. domigos, aquele que é considerado por muitos o melhor romance do velho Buk: Ham on Rye (1982), título de tradução impraticável que a versão portuguesa acolheu num mais literal, mas porventura menos feliz, Pão com Fiambre. (Abra-se, desde já, o parêntesis: não deixa de ser irónico que uma escrita tão literal comece logo por criar problemas no título de um livro.) Se tivermos em conta que, até à data, apenas havíamos merecido em língua portuguesa um dos romances do autor, mais concretamente Mulheres (1978), vertido para português por Fernando Luís sob selo da Dom Quixote, é de saudar esta inflação de romances bukowskianos nas prateleiras das livrarias portuguesas. Apesar do eco cibernético que estas edições mereceram, a imprensa oficial, que está para os livros como o jornal A Bola para os jogos do Benfica, não fez grande caso. Salvo raríssimas excepções, uma nota de rodapé aqui, outra acolá, foi tudo o que pudemos ler de apontamento crítico sobre a primeira edição portuguesa de Ham on Rye.

Matemos, desde já, o assunto da tradução: podia estar melhor se tivesse sido acompanhada de uma revisão digna desse nome. Deixando de lado as cada vez mais frequentes e irritantes gralhas das traduções portuguesas, há opções que deixam muito a desejar. Por exemplo, a proliferação de pronomes pessoais em frases ou parágrafos que os não justificam. Sabemos que em língua inglesa eles estão lá, mas no português podem ficar implícitos tornando a escrita mais natural e libertando a leitura de solavancos desnecessários: «Ela usava uma elaborada peruca branca. Ela dava-nos reguadas frequentemente quando pensava que estávamos a ser desobedientes. Acho que ela nunca ia à casa de banho» (p. 31). Noutras ocasiões a tradução de expressões coloquiais coloca problemas de repetição igualmente evitáveis: «Era mais ou menos um ano mais velho do que eu e não era da minha escola» (p. 54). E há situações que configuram desatenções gramaticais ou de concordância que dificultam a percepção das frases: «Conseguia-o ver deitado no passeio…» (p. 250), «O vosso salário é de quarta e quatro cêntimos e meio à hora» (p. 259), «Bem, um ou dois tinham funcionado – para mim – mas pareciam que tinham sido guiados em vez de fazerem o caminho sozinhos» (p. 289).

A literalidade da escrita de Bukowski merece uma atenção redobrada. A sua prosa, tal como os seus poemas, minam-nos consecutivamente o terreno. Há uma tendência para o lermos com a pressa que o próprio ritmo da narrativa nos imprime, mas essa tendência corre o risco de resvalar para uma superficialidade que nada tem que ver com o carácter essencial do que está escrito. É muito frequente, por exemplo, vermos os livros de Charles Bukowski reduzidos a meros retratos de uma vida decadente perdida num turbilhão de aventuras com mulheres, pancadaria, álcool, jogos de azar e trafulhices várias. Em Ham on Rye, o romance que recupera os tempos de juventude do alter-ego Henry Chinaski, todo esse ambiente está afundado debaixo da opressão social característica da Grande Depressão. Deus, pátria e família, à moda americana, com esta última sentada em torno de uma mesa onde a palavra frustração adquire o peso das expectativas defraudadas e das ambições esmorecidas: «Então, é isso que eles querem: mentiras. Mentiras bonitas. É disso que precisam. As pessoas eram ridículas» (p. 101). Encontramos ao longo do romance as raízes de uma solidão enraivecida que afluiu no sentido da indiferença e da desistência social, por se tornar insuportável uma convivência com a mentira e se ansiar pela genuinidade das coisas.

Não é de estranhar que Charles Bukowski tenha ocupado tantas páginas com as ilusões da família ─ «Vínhamos todos de famílias vítimas da Depressão, estávamos mal alimentados, mas mesmo assim tínhamos crescido e ficado fortes. Penso que a maioria era pouco acarinhada pela família, mas também não pedíamos carinho ou mimo a ninguém. Éramos uma anedota mas as pessoas pensavam duas vezes antes de se rirem de nós» (p. 112) ─ e a inutilidade da instituição escolar. O que aqui se revela é uma emergência para a ruptura com essas instituições, ao mesmo tempo que se afirma um repúdio para com as vidas entediantes da maioria e a mais completa incompetência para a adaptação social. Quando olha para si próprio, aquilo que o jovem Chinaski vê oscila entre uma necessidade de afirmação e a mais brutal das constatações. Nesta prosa, «as tripas cheias de merda», a acne, a hilaridade com que as situações mais abjectas nos são relatadas, não busca a mínima complacência humorística do leitor, são provas factuais da debilidade essencial dos homens. Daí que a grande surpresa seja um «gajo tão grande a chorar», porque nesse gesto de deixar as lágrimas romperem os músculos está a essência da humanidade. É nestes aspectos a seu modo ontológicos que a prosa de Charles Bukowski adquire a dimensão dos grandes, os mesmos que ele ia procurar na Biblioteca e aos quais se agarrou como um náufrago agarrando-se a uma tábua de madeira. O sexo, o álcool, a literatura são os bálsamos hedonistas que afastam do desistente a ideia do suicídio, transformando-o, pois claro, num resistente.
Escrito para o Rascunho.

MORTES SOLITÁRIAS

Leio nos jornais dezenas de comentários, crónicas inteiras, citações de uma indisfarçável hipocrisia. Sempre me lembro de ouvir acusada a insensibilidade ocidental para com os idosos, por vezes até sublinhada em contraste com um suposto respeito que os orientais dedicam aos seus velhos. Quem nunca ouviu dizer: lá os velhos são sinónimo de sabedoria, cá são sinónimo de inutilidade? Portanto, não me venham com manifestações de consternação. Todos os dias morrem neste país, em casa ou nos lares, centenas de velhos na mais completa solidão. Se durante 9 anos ninguém deu por nada, foi só porque o corpo em decomposição não cheirava suficientemente mal para chamar a atenção dos vizinhos. Tivesse a mulher saltado para o abismo, mais 9 anos podiam passar que ninguém daria pela sua falta.

DIÁLOGO II

«És cínico?»
«Talvez.»
«És feliz sendo cínico?»
«Sou.»
«Então não és cínico porque os cínicos não são felizes!»



Charles Bukowski, in Ham on Rye - Pão com Fiambre, trad. manuel a. domingos, Ulisseia, Setembro de 2010, p. 288.

DIÁLOGO I

«Chegou trinta minutos atrasado.»
«Sim.»
«Chegaria atrasado a um casamento ou funeral?»
«Não.»
«Faça o favor de dizer porquê?»
«Bem, se fosse o meu funeral eu chegava a horas. Se fosse o meu casamento, seria o meu funeral.»

Charles Bukowski, in Ham on Rye - Pão com Fiambre, trad. manuel a. domingos, Ulisseia, Setembro de 2010, p. 281.

PARAFRASEANDO BUKOWSKI

Chegámos a um ponto em que já não podemos escolher o menor de dois males. Agora cabe-nos «escolher entre num mal maior e outro ainda pior».

LIVROS COM CHEIRO A TABACO

O Manuel ontem passou cá por casa. Levámos as carnes à grelha e o tinto aos lábios, comemos pudim e, entre cigarros e café, fomos recordando velhas canções que nos deram cabo da vida. Falámos muito, sobre tudo e mais alguma coisa. Lemos poemas e ficámos, por vezes, a olhar para o vazio. Mais um dia que passou. No final, concluímos: a Alice Vieira inventou os livros com cheiro a chocolate, morango, baunilha, banana, canela e caramelo, mas foi preciso um gajo chamado Changuito para inventar os livros com cheiro a tabaco. São os que se compram na Poesia Incompleta.

Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

ANOTHER YEAR



Se me fizessem a mais estúpida das perguntas, ou seja, sobre o que trata o último filme de Mike Leigh, eu diria que é sobre a arte de saber envelhecer, um pouco como o vinho que aparece recorrentemente ao longo da fita. Mike Leigh é, na actualidade, o único cineasta que não me obriga a hesitar perante três salas com três filmes promissores. Foi chegar, ver e sair satisfeito. Another Year retoma-o no seu melhor, depois de um comovente Vera Drake, de um irritante Topsy-Turvy, de um suportável Career Girls, de um genial Secrets & Lies e de uma coisa do outro mundo chamada Naked. O que há de tramado num filme como Another Year é deixar-nos a pensar sobre a nossa própria vida enquanto não nos abandonam os planos das personagens colocadas a olhar para o vazio. O vazio para onde olham as personagens, na sua angustiante solidão, no seu terrível abandono, é o mesmo com que nos deparamos sempre que contemplamos um calendário e nos interrogamos sobre o que fazemos no mundo. Uma narrativa aparentemente simples, dividida em capítulos que obedecem à sequência das estações (nada de novo), mostra-nos a felicidade de um casal na sua quotidiana e admirável banalidade. Há algo de especial neste casal: a paciência, a compaixão, a disponibilidade para a família e para os amigos. A questão da disponibilidade é tão importante quão evidente se torna o desespero da mais neurótica das personagens, uma amiga de Tom e Gerri, o casal no centro da trama, mulher maltratada por relações amorosas falidas. Para esta criatura, ter com quem falar não é tão importante como encontrar quem deseje confessar-se-lhe. O seu anseio não é por um ouvido, é por uma boca que dê sentido aos seus ouvidos. Ela quer ser a confidente de alguém e é nessa falta que a sua solidão se afirma. No fundo, o drama encenado ao longo do filme é precisamente o drama daqueles cuja maior necessidade é sentirem-se, digamos assim, úteis, importantes para alguém, desejados. Claro está que em nenhuma circunstância as estruturas depressivas dos intervenientes ameaçam o equilíbrio da história. São raros os filmes que não contando história alguma nos contam a vida toda, este é um deles. E fá-lo com um sentido irrepreensível do ponto de vista da encenação, colocando no tempo certo cada uma das intervenções, fazendo das imagens os frutos, os legumes colhidos no horto metafórico que vai acompanhando o passar das estações. O cuidado colocado na horta amanhada ao longo de várias cenas assemelha-se ao cuidado que a família central da narrativa, o pilar sustentador do desaire, coloca nos seus relacionamentos. Um cuidado que se espera ser o essencial da vida mas que, por esta e por aquela razões, termina quase sempre, na imensa maioria das vidas deste mundo, negligenciado em função de afazeres supostamente mais urgentes.

O MAL É HUMANO

É preciso explicar isto? Tivemos tudo, foram-nos dadas todas as oportunidades, pudemos estudar, pudemos andar a chicotear as ancas nas discotecas da capital, foi-nos dado de bandeja o poder dizer não, tudo nos foi colocado nas mãos, a chave para a incógnita, o desejo, a fuga, tudo. E nada. Tornámo-nos meros clones dos nossos pais, cedemos aos mesmos pecadilhos, cometemos as mesmas infracções, adoptamos o mesmo discurso, queixamo-nos com as mãos nos bolsos. Havemos de aguentar durante 50 anos esta democracia podre como eles aguentaram durante 50 anos uma podre ditadura. Geração à rasca, o caralho. Rascas todas elas são, a minha é, como outras antes dela e as vindouras já o anunciam, the same old shit. Uma parada de analfabetos condecorados. Geração de acomodados, gente que se queixa da oligarquia mas cede à primeira cunha, horda de espíritos obtusos curvados ao mais antiquado dos nepotismos. É vê-los nos jornais passeando a sua pena reverente, é olhá-los nas televisões trocando mensagens com o poder, é ouvi-los nas rádios bajulando os pastores da carneirada. A mesma filha da putice que alguns gregos antigos já denunciavam enquanto a maioria se via grega para sobreviver sem ter a quem pagar favores. Que dizer de um país que te olha de lado quando és sério? Que esperar de um país que desconfia da tua seriedade sob a triste justificação de que, tens de compreender mas é estanho, ninguém é assim? O mal é humano e não há nada a fazer: o mundo é composto de uma larga maioria de gente desprezível, uma ínfima parte de gente suportável e meia dúzia de santos a quem a História jamais lembrará.

GERAÇÃO RASCA/GERAÇÃO À RASCA

Para o caralho que os foda a todos.

CADA QUAL SABE DE SI

Camarada Van Zeller, há muito que o não vejo. Eu próprio tenho andado arredado, mas, confesso-lhe, não menos atento. O trabalho atira-nos para dentro de um caixa, a gente contorce-se no exíguo espaço, estende os músculos a ver se rasga o cartão e, aqui e acolá, consegue espreitar o mundo por uma brecha.
Vou assistindo à revolução no Egipto sem esperança. É de feitio. A um crápula outro crápula se seguirá, a história no-lo ensina. Mas por vezes fazemos orelhas moucas, fingimos que não sabemos, assobiamos para o lado e cedemos o truque. Gosto disso.
Deu-se conta da velhota inglesa que afugentou os meliantes com uma mala de tiracolo? Aquilo sim, é uma verdadeira revolução. Uma revolução de segundo e meio, à luz do dia, em plena esquina. Vieram-me à memória as aventuras do Duarte e da sua companhia, vieram-me aos olhos lágrimas de comoção. Gostava de ser novo com aquela velhice.
Também não compreendo a consternação perante a morte solitária da idosa de Rinchoa. Por mim, santa morte. Ninguém deu por nada. Nove anos passaram e foi como se não existisse. Maravilha. Às vezes gostava de viver como a velha morreu. E espero que a morte me leve deste insuportável mundo onde até para morrer se anseiam dois ou três holofotes de coroas de flores e filas de trânsito.
Que mais lhe posso eu dizer? Grande debate em torno de uma vulgar canção. Já não me lembrava de tal coisa desde Talvez Foder, o que até me parece bem mas não auspicia nada de sadio. Deolinda, como tantos outros projectos que resolveram levar ao altar José Afonso e Hermínia Silva na Igreja da Madredeus ao som da chanson française, não me aquecem e, por vezes, até me arrefecem. A minha música é outra.
Olhe, deixo-lhe um cheirinho: aqui e acolá, que isto de andar a estudar para ser escravo nunca há-de ser tão, digamos assim, comovente como ter sido génio para andar a vadiar. É só ver.
Saúde,

Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: CUBA

Cuba. Primeiro a gente pensa no tráfico de escravos, depois numa ditadura exilada nas ilhas portuguesas, nos hotéis do Estoril, e por fim na revolução. Fidel e Che estampados no peito de uma mesma camisola. A bandeira é outra. É impossível olhá-la sem, pelo menos, esboçarmos o espanto que a resistência nos merece. Os charutos, a cana, o rum, a música, a poesia. Muito bem: mais entendidos em rum do que em filosofia política, comove-nos a descida das matas até ao centro de Havana. Mas repugna-nos uma outra forma de corrupção, aquela que Arenas prosou nos seus livros e levou ao exílio todos os que não se reviam nas barbas dos revolucionários. Como terá sido com Ángel Escobar Varela não sabemos. As biografias informam-nos de que nasceu em Sitiocampo, na zona oriental de Cuba, lá para os lados da famigerada província de Guantánamo. Nasceu numa família pobre, numerosa (já li onze e catorze irmãos), como muitas outras naqueles idos de 1957. A infância regou-lhe as raízes dos traumas, provavelmente espoletados quando o pai lhe roubou a mãe com uma navalha de barbear. A biografia parca em pormenores faz deste acontecimento trágico o centro para onde tendem todas as atenções. Ángel tinha sete anos, idade mágica para um anjo que nunca mais recuperaria da orfandade. Dos internatos à Escuela Nacional de Arte de La Habana, para aí se formar e dar o salto para as artes dramáticas, foi um abrir e fechar de olhos. Em 1977 ganhou um prémio com o poemário Viejas palabras de uso e em 1985 voltou a ver a sua obra premiada com o Roberto Branly, atribuído a Epílogo famoso. Cada vez mais "embrenhado" nas artes dramatúrgicas, acabou por colapsar em 1986. A esquizofrenia dava então os primeiros sinais. Trocou correspondência com Alain Sicard, confessando que a alienação era a ponte que atravessava para estar em contacto com a falecida mãe. Viveu em Santiago do Chile, regressou a Havana, para aí se entregar a uma agonia diária, desistente, até ao fatal salto de uma varanda que o vitimou a 14 de Fevereiro de 1997. Deixou viúva Anita Jiménez. Recentemente, foi-nos possível ler-lhe alguns poemas mudados para português por Jorge Melícias na excelente antologia Poesia Cubana Contemporânea. Eis um deles:

HOSPITAIS

Eu vi Rimbaud amarrado a uma cama
e o Papá Protagonista amarrando-o com força,
e o seu pijama, soltando-o ─ gritavam e soltaram-se
os ossitos virgens com doutores soprando
o fagote partido,
quebraram-se os copos, as persianas, os símbolos
e logo, a cada um, segundo os seus sintomas,
entregaram o seu comprimido, os seus olhos, a sua quaresma.
Era no ano bissexto destes dias de Março e vi
como se empoleirava o chibo numa pedra.
O choncholí explorando o seu cercado, e ele sentado
olhando por cima ─
responsabilidade e culpa dos telefones,
dos velhos modos dos juízes
e dos seus filhos. Eu vi Rimbaud cuspindo
numa cesta de olhos bem temperados,
e sãos como agulhas. Vi-o «Não me
arrependo». Estou tranquilo, sou
o escriba, o boi
que não teve nada. Estou tranquilo
.


Ángel Escobar Varela, in Poesia Cubana Contemporânea, trad. Jorge Melícias, Antígona, Março de 2009, p. 105.

Domingo, 6 de Fevereiro de 2011

ABISMO




Há muito que os dias não me sossegam. Paz não tenho, falta-me coragem. Talvez tenha sido talhado para a guerra, talvez seja esse o meu destino: os nervos à flor da pele e a pele abrindo-se às pústulas. Olho então o mar em calmaria, o sol sobre ele resplandecendo, e penso que mal terei eu feito para merecer esta luz. Dai-me trevas e fogo, uma dor que valha a pena, mas livra-me, ó destino, de morrer a olhar para o abismo imaginando o que possa ele esconder.

Sábado, 5 de Fevereiro de 2011

NÃO PENSES LÁ COISAS

Pai: Gostas de mim?
Beatriz, 4 anos: Gosto.
Pai: Dás-me um beijo.
Beatriz: Dou. A miúdos lá da minha escola com barba não dou.

K3 (fragmento)


(...)

Não fazemos história,
a História não regista
a sina dos anti-heróis,

o mundo sublevado em armas,
o mundo velho que noutro se transforma,

mas a essência do mundo
não é tornar-se novo,
é afinar o modo de fazer
que o novo permaneça antigo,

anti-heróis
que não chegam a ser anti-heróis,

são uma chapa com número
no fio ao peito, à prova de fogo,
o corpo, calcinado,
a medalha de Fátima, fundida,

mas não o número,
útil aos funerais anónimos
dos que «morreram pela pátria»,
como então se queria que disséssemos.

(...)
Nuno Dempster, K3, &etc, Janeiro de 2011, pp. 45-46.

K3

Não sei se foi no próprio Wittgenstein, se no filme que Derek Jarman lhe dedicou, que um dia vi a experiência da guerra declarada como a única verdadeiramente elucidativa do sentido da vida. É provável que assim seja. Tratando-se de uma experiência que nos coloca no centro de uma situação-limite, a guerra apresenta-nos ao que enforma a existência do homem: do medo à esperança, passando pelo sentimento da insignificância que em tudo medra. A consciência de que o que existe pode, de um momento para o outro, desaparecer sem deixar rastro é, pois, a consciência da vida tal como ela é. Assim sendo, não admira que algumas das melhores obras literárias, cinematográficas, pictóricas que a história consagrou tenham a guerra como cenário ou objecto de reflexão. A poesia não escapa. Agora que se comemoram, salvo seja, 50 anos sobre o começo da guerra colonial portuguesa, voltamos a ter em verso ecos dessa experiência traumática. Para além dos poemas que Fernando Assis Pacheco consagrou ao tema, e que para mim continuam a ser os melhores, não há nada que se compare, no plano nacional, a K3 (&etc., Janeiro de 2011), o mais recente livro de Nuno Dempster.

Poema longo, na linha formal do anterior Londres, também ele vindo a lume com o selo da &etc., K3 vai aos confins da memória colher a matéria de que é feito. Ecos, evocações, dúbias ocorrências, lembranças, recordações, moldam uma epopeia que se nega a si própria por nada no que nela é relatado ser digno de orgulho heróico. De algum modo a viagem que parte da Estação Marítima de Alcântara nos questiona sobre a própria natureza da poesia e suas fragilidades quando confrontada com os relances da vida. Afinal, a poesia ainda é possível. Nuno Dempster sabe que «os versos serão sempre / mais do que os mortos / e têm vida curta» (p. 7), mas nem por isso lhes nega o sangue que tendo por destino um esquecimento incerto pode servir para, reavivando o passado, melhor entendermos o presente. A História Trágico-Marítima que este poema esconjura é a de toda uma geração de náufragos que, ora ficando por terra, ora perecendo afogados numa incurável amargura, se viram privados de uma juventude confortavelmente instalada como aquela que as últimas décadas souberam alimentar.

Nalguns momentos os versos parecem pretender exorcismar os traumas que se foram mantendo colados ao corpo, noutros vem à tona um desassossego político e histórico que tende a questionar motivos sem encontrar desculpas ou justificações: «Estou certo de que muitos / deveriam julgar possível / manter a antiga rota dos escravos, / e os limites traçados por Afonso V. // Daí que houvesse gente a quem a morte, / saída das rajadas de G3, / era a forma de ser destino útil, / sem que o olhar hesitasse / e, menos, se quedasse pensativo, // fiel ao rei, à pátria, ao povo, palavras que não dizem anda, / surgem de altifalantes anacrónicos, cujo som se confunde em uma ideia nula» (p. 21). Nada disto morreu, vai reforçando o poema enquanto nos introduz aos subterrâneos do K3, um bunker situado na Guiné, hoje devorado pela selva e ruinosa representação da miséria semeada pela guerra.

Tratando-se de um poema evocativo com uma experiência traumática em pano de fundo, o que mais acaba por impressionar é a heterodoxia do discurso: «Deve dizer-se aos místicos / e àqueles que acreditam / em destinos supremos / que o chão da humanidade / é um palimpsesto de esperma e sangue, / com pegadas em volta / da cama das mulheres em tempo de guerra, // como em redor da esteira / de Djariato, / numa palhota de há mil anos, / uma era tão diversa, // os soldados nos anos do poema, / a desejar-lhe o belo tronco nu, / os seios empinados, / o ventre liso, / a tanga que caísse» (pp. 34-35). No entanto, Dempster contém-se nas imagens, não se perde por realizações sensacionalistas e gratuitamente provocatórias, deixa os cheiros virem à tona, ilustra a solidão, reaviva os sons do pesadelo sem nos impor, o que é o mais difícil, a pornografia dos corpos trucidados, das violações, da insanidade típica destes teatros abjectos de matança. O que se busca, muitos anos depois da experiência vivida, é sossego e paz para um cansaço transportado ao longo dos anos, é aliviar o peso da lembrança. Daí que a conclusão, se assim lhe podemos chamar, não pudesse ser outra: «Voltar ou não voltar, // morrer ou não morrer, tanto fazia» (p. 63).
Escrito para o Rascunho,

Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

A LUA BRINCA, A LUA É SÉRIA


Este post é para a Maria João

Registe-se em acta que ao dia tantos de tal reuniram-se à Rua Chaby os poetas Jorge Aguiar Oliveira e Henrique Manuel Bento Fialho, a artista plástica Maria João Lopes Fernandes, a Senhora Dona Ana Alexandre, a gata Lua e o espírito de Paul Klee, em redor de uma mesa rectangular, ligeiramente inclinada nas pontas viradas para Sul, povoada por caril, couscous, vinho tinto e bons queijos. Ao largo, a gata, inebriada por cebolinhos trazidos de pújà, fez questão de ignorar os comensais, que discorreram sobre assuntos vários e de superior interesse tais como "a distensão criativa que logra enaltecer no mesmo palanque do versejo a inclinação decadentista daqueles para quem já está morto tudo aquilo que respira e o culto da graçola de pendor picaresco que tão bem convive com os velórios a céu aberto perpetrados pelos deprimidos da vida". Desde sempre em Portugal os bufões conviveram amenamente com a escola dos vencidos. Não consigo imaginar um Fialho ou um Albino sem um Junqueiro ou um Eça, e algo me diz que Camilo reúne um pouco de todos naquele linguarejo pendular que ninguém consegue muito bem definir. Bem, mas para que isto se perceba melhor, vou-me ao concreto: afirmei junto dos presentes que não me revejo nem numa poesia que revela uma atitude radicalmente pessimista perante as coisas da vida nem entrego os meus textos à circunstância lúdica, àquilo que alguns tenderão a chamar de brincadeira de mau gosto. Para brincar continuo a preferir a pilinha, e para pessimismos bastam-me os olhos. Preciso, pois, de uma escrita que escape a ambos tanto quanto ambos renegue, não no sentido de censurar (deixo tarefa tão dispendiosa aos tiranetes do literário), mas no sentido de ultrapassar as limitações que cada uma das posturas me coloca. Na verdade, e vou estando farto de o dizer, acredito num texto que me acompanhe na respiração, acredito numa linguagem que me ajude a respirar melhor e cultivo uma escrita tão despersonalizada quanto o carácter de quem possa às vezes sentir-se eufórico, noutras circunstâncias por terra, noutras ainda aéreo e quiçá à deriva como uma rolha de cortiça. Nunca tendi para as escolas e recuso-me a esforços de estilo. O meu estilo não chega sequer a ser diário, tem a volubilidade das horas. Cai para onde melhor lhe aprouver. No entanto, não faço disto um caso. De resto, às vezes também gosto de me rir. Mesmo a chorar. E, se bem me conheço, tenho dias em que as coisas me saem tão mal que nem a partir pedra eu me safaria. A minha onda, se me permitem o plebeísmo, caros leitores aristocráticos, é a do vai-se andando. Acho que o marasmo não se combate com mais marasmo, acho que devemos combater o marasmo, acho que devemos combater esta ideia de dever... Veja-se como tão facilmente somos capturados pelas nossas proposições. Não me exijam pessimismo até dar um tiro na cabeça, nem esperem de mim optimismo até me desaparecerem as olheiras. Isto pode resultar numa prática pobre, mas eu não escrevo para ser artista, muito menos escritor, quanto mais poeta, eu limito-me a escrever para ser gente. Digamos que se trata de um órgão do qual nasci privado e a todo o momento procuro conquistar. Não tenho, e já dei provas disso, nada de nada contra o lúdico. Antes pelo contrário. O meu amigo Nuno Moura saberá de quão desafortunados risos se fazem bailaricos de palavras. Ele brinca como ninguém do meu tempo, por isso já lhe chamaram tão nobres nomes. Dadaísta foi um deles. E o Jorge Aguiar que não me leve a mal esta capacidade de num mesmo saco eu conseguir carregar poemas de Ruy Belo e aves rapinas de Adília Lopes. Nunca gostei de fronteiras, compreendo que em certas circunstâncias um peido possa causar mais estragos que a seriedade de um tratado filosófico, mas o que importa, já dizia o poeta, não é a literatura, nem a crítica de arte nem a câmara escura, é pôr ao alto a gola do peludo à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo. Mas também perceber que neste riso não há nada de inocente, muito menos uma brincadeira de crianças.

O JOÃO MENDONÇA

O João Mendonça, que eu não sei quem é mas suponho seja alguém, deu-se ao trabalho de investir algum do seu tempo, provavelmente porque tem dele de sobra, a fazer-me chegar uma citação, em letras garrafais e a vermelho, não fosse dar-se o caso de eu ver mal, com uma gralha e tudo, de uma entrevista dada por Pedro Tamen à LER. Agradeço-lhe a simpatia, mas eu não aprecio a poesia do Pedro Tamen. Obrigado.

ISTO ANDA TUDO DOIDO

100, 200, 300 novidades só num mês. Ninguém tem mão nisto. Num país onde se lê pouco e mal, não admira que as falências se vão sucedendo umas a seguir às outras. Assim como as fusões, outra forma de falências.

SEREIAS

O homem queria um livro com sereias, um livro barato para as crianças desfolharem no consultório. O homem queria sereias com barbatanas, não queria sereias com sapatos. Arrajem-lhe, por favor, um livro com sereias. De preferência descalças.

LISBOA

Para que fique claro, eu não odeio Lisboa. Simplesmente desprezo o que nela pode ser simbólico do poder oligárquico e do nepotismo que nos governa.

TRÊS PAÍSES

A revolução democrática no Norte de África avança a um ritmo inesperado. A julgar pela imprensa e blogues nacionais, já são três países em convulsão: a Tunísia, o Egipto e o Egito.
JAA, aqui.

Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011

EMPAREDADA

Natural de Aveiro, onde nasceu em 1979, Joana Serrado publicou o primeiro livro em 2006. Tratado de Botânica (Quasi Edições) merecera uma menção honrosa no Prémio de Poesia Daniel Faria. Livro complexo, denotava um lirismo com vontade de escavar as palavras até à raiz no intuito de satisfazer uma inegável curiosidade pelo poder das imagens. Emparedada / Uit de muur, publicado em 2009, retomou a cultura de uma poesia despreocupadamente só no contexto daquilo que é mais visível entre nós. O barroquismo formal deste livro contrasta com a hegemónica sobriedade da poesia portuguesa dos últimos 15 anos. Publicado em Groningen, cidade neerlandesa para onde a autora foi viver em 2005 na busca de um doutoramento sobre Joana de Jesus, este livro tem, desde logo, a curiosidade de ser bilingue, o que se revela assaz coerente se tivermos em conta os problemas que levanta. Um desses problemas é, claramente, o problema da comunicação. E com ele o das palavras, matéria ambígua com a qual o tradutor (ou o poeta), figura omnipresente neste livro, tem de trabalhar. «Um tradutor deve ser duplo», diz-se no poema inaugural: Uma língua a arder. A condição surge sob a forma imperativa, a duplicidade do tradutor será o garante da (boa) tradução. O desafio é o de pensarmos para lá dos limites da linguagem, como se fosse possível pensar para lá da linguagem. Talvez se encontre aqui escondida uma noção de poesia que importa sublinhar, a poesia como um pensar para lá da linguagem. Trata-se de uma noção distante das escolas que vêm vigorando entre nós, uma distância que não podemos julgar senão voluntária: «Em Portugal é assim. Deus está longe das cabras: não traduz poemas, não pode doar o que exerce. Imagina, ganha nome. Quem esperaria dele que trabalhasse o céu ou devastasse as alimárias?» Os poemas de Emparedada sugerem-nos, então, a afirmação de um não-lugar, fazem da língua a raiz do problema, vão à fonte para daí nos chegarem estilhaçados, vão à raiz achar justificação para o desenraizamento. Sobre eles pesa o cimento de duas línguas: «Como os meus passos se afastam dos teus passos, correndo para longe, longe, / esperando que o mundo seja realmente redondo, e não plano, / e possa, um dia, chegar às tuas costas, tapar os teus olhos e dizer-te / mijn thuisland is niet meer mijn taal». Ou seja: a minha pátria já não é a minha língua. O remate do livro, oferecido em latim, prova o trabalho arqueológico que subjaz à intenção anunciada: «fazer uma casa / de raízes estranhas», «reclamar a minha nova Língua». Não deixa de ser, ao mesmo tempo, um trabalho ambicioso e ousado.

Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2011

OS VERBOS


Conjugam-se os verbos na direcção do indefinido. O homem com frio sabe que a vitória será do cemitério, não precisava de ler Huidobro para o descobrir. Mais tarde ou mais cedo, todas as ambições, toda a esperança, todos os seus feitos, cada um dos seus movimentos respiratórios será puro esquecimento. Trá-lo-ão, quem sabe, pelas carteiras da memória durante uns anos, mas depois a pedra crescerá sobre o sopro como uma árvore desnudada. O homem com frio traz nos pulmões essa imagem, olha para os túmulos, para as campas, para as pedras tumulares como quem olha uma certa forma de esquecimento a irromper da terra na direcção do indefinido. O nada. Bem lhe podem garantir o contrário que ele não sai daquela sombra.

Mas pelo caminho conjugam-se os verbos. As mulheres pashtun cantam o amor como se estivessem a cantar a morte, cantam a necessidade do corpo sob a cama onde adormecem seus maridos, e olham à distância os amados proibidos sabendo que a distância está na proximidade do canto. Não é um lamento índio. Geronimo dizia: «Não posso acreditar que somos inúteis, de outra forma Usen não nos teria criado.» Talvez as mulheres pashtun concordassem, mas por certo acrescentariam à fé heróica de Geronimo a dor e o sacrifício a que se vêem involuntariamente votadas. Inúteis ou úteis, somos criados ou construídos, somos o que pelo caminho vai deixando rastro. E na perseguição do rastro andam os poetas, garimpeiros da beleza, e os pintores, os escultores, os bailarinos, os músicos, os cineastas, andam todos aqueles para quem estar não chega. É preciso respirar.

Curioso então que os verbos se conjuguem na direcção do indefinido. Para as mulheres pashtun, elas próprias «auxiliares úteis» dos homens que as tratam como camelos, cabras ou cavalos, o canto surge de uma necessidade desesperada do coração, fazem do seu canto uma entrega da respiração (sa), entregam-se ao canto por nele encontrarem porto de abrigo para a dor, por nele encontrarem uma segunda vida para os pulmões. É inevitável pensarmos em Henri Michaux, quando este dizia: «Qual a finalidade da poesia» ─ A de nos tornar habitável o inabitável, respirável o irrespirável. Mais do que uma Poesia fazendo-se contra a Poesia é nesta nobre finalidade que o homem com frio constrói o seu abrigo, aí se protege das intempéries entrando sozinho nelas para delas sair mais resistente.

A linguagem da respiração que se nos oferece pelo caminho é, claro está, a de «um não-valor social», mas é também a de tudo o que vale para e ao indivíduo na sua ontológica condição. Poderão confundi-lo com terapêutica da sensibilidade, eu prefiro julgar que se trata apenas de uma maturidade que se revela nas mais simples opções: deixar de agravar o insignificante e procurar cultivar, tanto quanto possível, a desimportância das coisas. Daí que todo o criador deva adoptar, como Bashô, o nome da mais inútil das ofertas que lhe fizeram. Em certos casos verifica-se uma agradável coincidência de factos, ele já não precisa de adoptar nada porque foi de baptismo que lhe deram o mais inútil dos nomes. Bastará dizê-lo, proferi-lo, com o respeito e a sagacidade daqueles que erram pelo mundo contemplando, buscando, encontrando a inutilidade do nome nas mais belas e inexprimíveis realidades. Uma palmeira, por exemplo.